Ao
contrário do que julga, escrever sobre cães é muito difícil, porque cada cão é
um caso e é impossível contemplar todos. Também por esta razão, a maioria dos
livros cinotécnicos, tanto os de bolso como os mais substanciais, parece vaga e
isenta de novidade, repetitiva e enfandonha. Sem que os leitores se apercebam,
vários problemas éticos são colocados aos autores, visando os destinatários e o
uso que darão aos seus cães. E porque ninguém quer aconselhar para o
descalabro, eles vêem-se obrigados a transmitir conteúdos consensuais, que em
simultâneo, garantam a liderança humana e o bem-estar animal. Por causa destes
pressupostos, muito se aconselha a não deixar empinar os cães, para que tal não
dê azo à desobediência e à rebeldia, manifestações só possíveis diante de uma
liderança precária e de um forte impulso canino ao poder. Como é sabido, cães
com forte impulso ao poder há poucos, mas lideranças impróprias é o que por aí
há mais! No entanto, o convite para empinar é fundamental para a recuperação
dos cães mais medrosos, porque lhes aumenta a confiança, fá-los sentir mais
próximos e melhor protegidos, condições essenciais para a sua recuperação e
para o entendimento mútuo. Ainda que todos os livros mereçam ser lidos com
atenção, os relativos aos cães não dispensam esse cuidado, porque obrigam à
leitura das entrelinhas, ao estudo da relação causa-efeito e indiciam, por
antítese ou omissão, procedimentos pedagógicos válidos para todos os cães. Os
autores cinotécnicos sabem, melhor do que ninguém, que no adestramento não há
tábua rasa, porque trabalham com indivíduos e não deixam de ser surpreendidos.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
A POSTURA DUM E DOUTRO
É grande
o número de cães que vemos a passear pelas cidades e é curioso reparar na
postura de donos e cães quando saiem á rua, porque raramente desfilam em
harmonia e alinhados, sendo comum vê-los com o “passo trocado”: os cães em
porte majestoso e os donos com um ar assustado, uns confiantes e os outros embaraçados.
Esta situação tanto pode resultar da falta de preparo dos donos como da ânsia
dos animais em sair de casa, ou de ambos os casos, mas não esconde tanto a
ausência da liderança como a inexistência de algum tipo de adestramento. Mas se
as coisas ficassem por aí, não viria ao mundo grande mal, o pior é que vamos
encontrar binómios com estas características dentro das classes escolares.
A postura
de um condutor é um precioso subsídio de ensino, porque a mímica reforça a
mensagem e é facilmente compreendida pelos cães, animais que vivem em constante
observação, pródigos em rituais e mestres na interpretação das expressões
corporais, tanto das suas como das alheias. Assim, porque a cumplicidade e o
êxito das acções também passam por aí, importa que os condutores mantenham uma
postura erecta, natural e confiante, que denote determinação e não suscite
qualquer dúvida, porque a melhor forma de comandar acontece pelo exemplo. No
adestramento, diferentes comandos exigem diferentes posturas, mas nenhum
automatismo dispensa a componente mímica que o tornou possível. A linguagem
corporal de um condutor deve reforçar ou enfatizar a linguagem verbal expressa
pelos comandos, porque doutra maneira atentará, mercê da confusão, contra o
cumprimento pronto e imediato das ordens solicitadas aos cães, porque quando o
corpo nos trai, dificilmente a voz nos salva.
DE MÃO EM MÃO SEM ATROPELOS
Ao tratarmos deste assunto, o relativo á reeducação
dos cães perigosos, vem-nos à memória o já falecido Badaró, um comediante
brasileiro (paulista), naturalizado português, que sempre usava a expressão “Ó
Abreu dá cá o meu”, quando vestia a personagem do “Chinezinho Limpopó”, porque
a reducação canina virou negócio e o que importa é facturar, mesmo que os cães
não beneficiem de qualquer alteração. A marosca anda a ser disfarçada com uma
filiação desportiva ou camuflada num pseudo-estatuto de “utilidade pública”, a
troco de algumas centenas de euros! Costuma dizer-se que um negócio é bom quando
satisfaz as duas partes e parece ser este o caso, já que uns recebem a massa e
os outros livram-se temporariamente de problemas. Quem perderá? Provavelmente
as próximas vítimas e, mais cedo ou mais tarde, os pobres dos cães!
Imagine-se um cão territorial, adulto, propriedade
de um casal, a viver num apartamento, que nas mãos do dono é um anjinho e que
vira o diabo quando a dona se acerca dele, tratando de igual modo,
violentamente, cães e pessoas na via pública. Em casa, dorme com o dono no
mesmo quarto (por vezes na cama deste), e na rua, depois da fixação, aproveita
qualquer distracção para cair sobre os incautos. A dona fica chocada com a
situação e não compreende porque o “seu” cão age assim: “onde é que já se viu
isto?” Mas afinal de quem será o cão, porque agirá assim? Não temos qualquer
dúvida: o cão pertence ao dono e trata a sua companheira como intruso, precisa de regra, exige sociabilização, requer
controle, carece de ser ensinado e necessita duma liderança firme, porque é
fortemente territorial, nasceu com forte impulso ao poder e tem sido por demais
mimado. Caso isso não aconteça, assistir-se-á ao agravamento dos seus ataques,
ao aumento da sua frequência e à possibilidade de maiores desgraças.
O particular da sua instalação doméstica, somado às
suas características individuais, tem agravado o comportamento do cão, que
treinando em casa contra a dona, sai à rua àvido de outras presas e certo do
seu sucesso, o que denuncia a ausência de uma repreensão eficaz e uma liderança
pouco séria, porque toda a regra que não é assimilada dentro de casa,
difilmente o será na rua! Os ataques do cão não sucedem ao aviso ou a ameça e
não resultam da provocação, acontecem directamente da fixação para o ataque, o
que indicia claramente qual o perfil psicológico do animal. E como se isto não
bastasse, ele prefere atacar pessoas e cães pelas costas ou os incautos que lhe
pertendem fazer festas. Nunca foi objecto de algum contra-ataque ou experiência
negativa, apesar de se apavorar diante de certos ruídos, o que denuncia, para
além de outros factores, a ausência de uma experiência variada e rica, tempo
demais dentro de casa e excursões nos mesmos locais.
Virou
moda, talvez pela inexperiência e ausência de modelos, também pela proximidade
do ofício ou especialidade de cada um, operar a reeducação e a troca de alvos
pelo concurso de um brinquedo, subsídio usado para captar a atenção, reforçar a
obediência e atingir a autonomia condicionada. Esta estratégia tem-se revelado
pouco válida em cães deste tipo e será completamente fútil se, em todos os
momentos, fôr operada entre muros, por terceiros e sem os simulacros que
induzem à reeducação, porque o animal não abdicará gratuitamente do seu lugar
social e das prerrogativas que ele lhe confere, vindo a comportar-se em casa
como um diabrete à solta, como sempre se comportou! Se porventura encontrar um
reeducador medroso, o que infelizmente não é raro,” junta-se a fome à vontade
de comer”. È evidente que o brinquedo não irá evitar o ameaço à dona nem a
carga sobre terceiros, a menos que todos eles carreguem um brinquedo e se
disponham a jogar! O pior é se ele começa a defender o brinquedo, o que é fácil
de acontecer.
Mais do que isolar o cão, importa educador o dono,
isto se ele estiver para aí virado, porque, por deslumbramento, ignorância ou
negligência, custa-nos a acreditar que o tenha feito deliberadamente,
contribuiu para a formação do carácter do animal, investindo-o naquilo que
agora o atormenta, apesar de não ser o
único responsável, já que a sua companheira, por falta de imposição, acabou por
aceitar o papel de vítima. Há nisto tudo um amor excessivo, deslocado ou
tresloucado, uma adopção apaixonada e por isso mesmo desregrada, um derrame de sentimentos que o cão aproveita
para a eclosão do fenómeno, pelo que importa combater as suas causas ao invés
das suas manifestações, já que estas cessarão pela ausência de condições, o que
nos remeterá para a importância do papel da dona, pois deverá ser ela a
reeducar o cão, ainda que assistida, para transitar de vítima a líder, mediante
os automatismos que a obediência oferece, tarefa que será facilitada pela
ausência do dono, porque doutro modo, o cão correrá para ele e deliberadamente
resistirá à nova liderança.
Enquanto o treino não surtir efeito, porque importa
proteger a dona e não provocar o cão, convém proceder a um conjunto de
alterações domésticas relativas à instalação do animal, que não deverá dormir
no quarto ou na cama dos donos, muito menos em parceria com o dono, pessoa que
elegeu como líder e a quem somente reconhece autoridade. E depois, quanto mais
pequeno é um espaço, mais pronta é a sua defesa e os cães junto dos donos, sem
dificuldade, servem-se deles como pretexto. A distribuição da comida e a
condução nos passeios diários deverão passar para o caderno de encargos da
dona, porque o patrão da comida é o dono do cão e o seu líder quem o segura
pela trela. Deixar comida à descrição nesta fase é o pior dos disparates,
porque mais serve à autonomia do animal do que à sua submissão. A dona não
deverá soltá-lo nos passeios diários, porque importa proteger terceiros e não
deixar escapar a autoridade, e muito menos brincar com ele em pé de igualdade,
para não dar azo à rebeldia e expôr a sua vulnerabilidade. Quando assim se
procede, com o decorrer do tempo, o rosnar transforma-se em gemido e a ameaça
em súplica. Os passeios deverão ser variados e a primazia deverá recair sobre
aqueles onde o cão se sente mais instável e menos confiante, o que o fará
procurar apoio, constituir equipa e aceitar a nova líder, vantagens que a
permanência nos mesmos trajectos não oferece, por força do forte sentimento
territorial presente no cão, que o ensurdecerá para as ordens e levá-lo-á, automaticamente, á procura de intrusos. Nesta
fase ainda, o cão deverá permanecer de estrangulador posto e nunca deverá ser
arrancado do dono, para que menos resista ao trabalho, não adivinhe intenções e
acabe por atacar a dona.
A reeducação propriamente dita, que tem como
objectivo a coabitação harmoniosa do cão na sociedade, terá como metas a
sociabilização inter pares, com os humanos e com os outros animais, tanto os domésticos
como os silvestres, não dispensará as manobras de sociabilização animal e terá
como agentes de ensino, para além da dona e do adestrador, os restantes
condutores e cães escolares, já que acabará conduzido por todos e induzido ao
convívio com os seus pares, até se inserir na matilha escolar. Numa primeira
fase, o treino será dentro da escola, entre muros ou em locais que não
comprometam a segurança de terceiros.
Depois, deverá estender-se a outros ecossistemas e à sua variedade, para que a
liderança em tudo seja soberana. A disciplina maioritária a ministrar será a da
obediência, debaixo do pressuposto que o treino é por definição rigor e que ela se caracteriza pelo cumprimento
pronto e imediato das ordens. O cão deverá primeiro trabalhar isolado, e só
depois dos benefícios da obediência, deverá ser integrado nas classes. No
início trabalhar-se-á debaixo do princípio pedagógico da sobrecarga e depois
debaixo do equilíbrio com os restantes que constituem o todo dos princípios
fundamentais do treino canino, enquanto decorrentes da pedagogia geral de
ensino (princípios: da individualização, da progressão, da variação, da
adaptação, da reversabilidade, da continuidade, da relação óptima entre
preparção especial e geral e da actividade apreensível). Nomalmente dispensamos
2 meses para o trabalho isolado e 3 para o trabalho integrado, e dizemos isto
porque alguns cães, logo final do primeiro mês, já que encontram prontos para a
integração nas classes comuns. De qualquer modo, nunca declaramos ninguém apto antes
das 100 lições e das 150 horas de trabalho, o que não dispensa os binómios
recuperados da recapitulação previamente agendada (de 3 em 3 meses durante o
primeiro ano, num total de 24 lições extras e gratuitas, com uma duração de 90
minutos cada).
Essa
idéia de mandar o cão receber umas “lições” numa escola, já fortemente
enraizada entre nós, é um pró-forma que melhor serve aos donos do que aos cães,
que atenta contra a intergridade de terceiros e que vai contra o espírito da
lei, porque raramente produz alteração no comportamento dos animais e pouco
capacita os donos no exercício da liderança. Também é irrelevante só por si,
que o cão faça tudo bem nas mãos do treinador, porque aquilo que se exige é que
se comporte de igual modo nas mãos do dono. Como continuam a sobreviver por cá
concepções infundadas sobre a reeducação, importa dizer que ela não passa em
exlusivo pela correcção dos cães, é mais abrangente e pode considerar a
capacitação dos donos, em particular quando os actos dos animais são reflexo do
seu despreparo ou negligência, quando a sua causa é de indubitável natureza
ambiental. O que fem feito engordar as fileiras da reeducação é a ignorância
dos donos, já que o aumento de informação não tem gerado uma maior procura.
Certamente voltaremos a estes assunto, tão certo como a esta hora, estar alguém
a ser atacado por um cão. Oxalá que não!
O CÃO QUE EU NÃO FUI
Em criança pensava que a maioria das pessoas era
normal, quando cheguei à adolescência fiquei com algumas dúvidas, em adulto vi
que não era bem assim e na prática do adestramento percebi que o termo é apenas
um cliché, um chavão que engloba uma imensidade de comportamentos, todos eles
mais ou menos marginais, encapuçados dentro de códigos de conduta, de
equilíbrio periclitante e sujeitos ao transtorno. É evidente que não descobri a
polvora!
Quer queiramos ou não, quando ensinamos um cão,
somos obrigados a desnudar o dono que se esconde atrás dele, porque ambos irão
ser objecto de ensino e o sucesso dependerá dessa dupla capacitação. Também o
devemos fazer para nossa segurança e salvaguarda dos animais, atendendo aos
abusos de que eventualmente possam ser alvo. Este desnudo acontece naturalmente
pelo dualismo das vontades e não precisa de ser forçado, surge com as
dificuldades, abre o leque nas contrariedades, manifesta-se nas soluções e
expõe-se no modo de recompensar, o que transforma o universo do adestramento
num mundo de sentimentos à solta.
Quando abraçamos esta temática, vem-nos à memória a
história do Xau-Pi e da sua dona, um sharpei tratado como filho e eleito divindade,
propriedade de uma senhora que vivia só. O bicho não gostava de ser contrariado
e nisso sempre foi respeitado até ingressar na escola. Certo dia, a dona foi pôr-lhe
o estrangulador, bem longe dos outros para não incomodar o seu menino e evitar
a sua exposição ao ridículo. Subitamente ouve-se um rosnar prolongado e
gutural, seguido de breve silêncio, quebrado pela seguinte exclamação: “ Xau-Pi
está descansado, está aqui muito sangue, mas não é teu, é do braço da mamã!” Se
ainda nos sobrar tempo, porque vontade não nos falta, gostaríamos de editar um
livro sobre relatos deste tipo, o que por certo se tornaria numa leitura bastante
agradável e hilariante.
O cão mais difícil de ensinar é aquele em que o
dono se revê nele, criando-lhe comportamentos que nunca ousou manifestar e que
procura deliberadamente, o que irá transformar o animal num rufia de difícil
manobra. Os condutores com estas características, que por sorte são poucos, têm
por hábito malbaratar a obediência e pactuar com a desobediência, dificilmente
contrariam os seus cães e alegram-se com os seus desacertos e desacatos, ainda
que o façam à boca calada e debaixo de um semblante angelical. Porque querem um
cão dominante, decidido e imparável, só usarão o “não” depois de muita
insistência, dizendo-o em tom coloquial e em voz baixa, seguido invariavelmente
de algum tipo de recompensa, porque não querem disciplinar e procuram a
irreverência.
A instigação à violência, punida por lei mas
difícil de provar, contribuiu e continua a contribuir para o abate dos cães,
ainda que os animais sejam os menos responsáveis e trabalhem a rogo dos donos,
gente que neles esconde a sua anormalidade e que se realiza no disparate. Há
que ter estes justiceiros debaixo de olho, o amor aos cães a tanto obriga!
NHURROS E MAHDISTAS
Os portugueses são profundamente religiosos,
supersticiosos, encrençados e messiânicos, mesmo aqueles que o negam, havendo
alguns que ainda acreditam no pai natal, apesar do peso dos seus anos. E quem
julgar ser isso obra dos mais simples, engana-se redondamente, porque outros
mais ilustres enveredaram pelo sebastianismo e partiram na esperança do 5º
Império. A fezada do português, profundamente subjectiva, porque o seu objecto varia
de indivíduo para indivíduo, mistura alhos com bogalhos e profaniza o sacro até
à apropriação. Este jeitinho, também enxertado por nós em Terras de Vera Cruz,
universalizou-nos, senta-se à mesa connosco e faz-nos sonhar acordados. E nem o
Papa nos aguenta, porque por vezes somos mais papistas do que ele e por outras…
queremos que ele se exploda!
Como cada
um de nós se vê um sumo sacerdote, entendemos os outros como ovelhas
tresmalhadas, o que reforça o culto pessoal que nos desune e nos impede de ir
mais adiante, porque todos julgamos haver nascido para obra maior. Depois da
ascenção da burguesia e da sacralização dos políticos, compreensivelmente,
damos mais crédito à pregação da esperança do que á exortação á mudança, e eles
sabem disso! Na semana passada, recebemos um email de um amigo nosso com alguma
piada e a dar que pensar, que conta um pretenso diálogo entre dois diplomatas,
um jovem e o outro mais velho, ambos a comentar o estado actual do País. O
primeiro não compreendia como um povo que saiu para as quatro partidas do Mundo
e erigiu um Império, pode agora encontrar-se nesta situação, relembrando assim
a nossa ascendência, ao que o outro respondeu: “Não se iluda, nós não somos
descendentes dos que partiram, mas sim daqueles que cá ficaram!”, o que desnuda
ser o português, melhor fora de portas do que dentro da sua própria casa.
Assim
como no Brasil existe o fascínio pela Europa, quiçá farto da influência gringa,
quase invisível para os brasileiros, mas deveras sentida pelos europeus, também
em nós sobressai o apego pelas coisas que vêm de fora, quer elas sejam boas ou
más. E nos bardos da canicultura e da cinotecnia acontece o mesmo, onde o mahdi
Cesar Millan, tido como encantador de cães, vê aumentar, substancialmente, o
número dos seus seguidores. A estes mahdistas, plebe que se julga iluminada,
junta-se um grosso de nhurros avesso à novidade e incapaz de produzir qualquer
alteração, agarrado a pergaminhos rôtos que lembram moeda fora de circulação e
por isso mesmo sem valor. Entre a cópia e o que sempre fizemos, oscilando entre
a moda e o desusado, assim temos andado.
O adestramento não dispensa a inovação e o
conhecimento erudito, precisa do contributo da ciência para melhorar a sua
arte, de melhores currículos e formadores, de etólogos e cinotécnicos especializados
para ir avante, de uma formação que contemple a psicologia e a etologia, não
despreze a antrozoologia, que abrace a zoognóstica, considere a biomecânica e
que aprenda com os avanços da genética. Se assim não acontecer, continuaremos
como até aqui, a fazer da selecção e do ensino dos cães um jogo de sorte e
azar. No dia em que conseguirmos perceber que o insucesso escolar é culpa dos
donos, então evoluiremos, verdade que alguns já sabem, mas que poucos têm
coragem para dizer. Até lá, os nhurros continuarão a sobrecarregar os cães e os
iluminados a facturar, pelo menos até outro mahdi chegar!
PARECE MENTIRA, MAS É VERDADE!
Um reputado empresário, proprietário de uma casa no
Algarve, com praia privativa, onde raramente vai e que ainda a conserva por
causa dos netos, muito embora ao cuidado de um empregado durante a maior parte
do ano, contou-nos recentemente o ocorrido por ali, um episódio real que até
parece anedota, por ser insólito e por demais caricato. Vamos aos factos:
Por volta
das três horas da tarde, um intruso entrou dentro da propriedade e foi
surpreendido pelo velho cão da casa, um Pastor Alemão de 12 anos de idade, que
desagradado com a intromissão, correu no seu encalce, acabando o homem
derrubado, imoblizado e ligeiramente ferido. O responsável pela casa, o
empregado encarregue dela, assustado, ligou de imediato para a polícia, que até
nem demorou. Quando os agentes chegaram, para começo de conversa, um deles
perguntou-lhe pelo boletim de vacinas do cão e pareceu pouco importar-se com o
presumível ladrão. Depois de entregar o que lhe havia sido solicitado, estupefacto,
o empregado perguntou-lhe porquê, ao que ele respondeu ser bom que estivessem
em dia (as vacinas), pois caso contrário, o cão iria de charola e até poderia
vir a ser abatido. Uma vez comprovada a legalidade do cão, dirigiram-se os três
ao hospital.
Chegados lá e depois do intruso tratado,
questionou-se quem pagaria a despesa relativa ao seu tratamento. O polícia
disse prontamente que não pagava e que quem deveria pagar era o ladrão, ao que
ele respondeu ser impossível, por ter acabado de entrar ao serviço, não ter
sido bem sucedido e ainda não ter feito qualquer dinheiro. Como do hospital não
podiam sair sem pagar, vencido pelo rídiculo e farto de tanta espera e miséria,
o empregado desistiu de apresentar queixa e resolveu o impasse, pagando ele
mesmo a despesa. Mais tarde viria a ser reembolsado pelo patrão.
PS: O ladrão também não apresentou queixa,
prescindindo assim dos seus direitos legais.
EU JÁ DISSE AO PAULO: TENS QUE COMPRAR UMA PASSADEIRA ROLANTE!
Uma
senhora que tem ao seu encargo uma creche, que lhe toma o tempo quase por
inteiro, adquiriu há seis meses um cachorro Pastor Alemão, sem ter
disponibilidade para ele e pagando a outrém pelos seus passeios. O cachorro
apresenta-se pernalta, divergente de aprumos, tem diarreias constantes e pesa
20kg. Sem melhoria de condições, decidiu mandar vir uma cachorra do mesmo
criador, talvez para fazer companhia ao outro, quem sabe? Pensando no custo do
passeio de ambos, já mandou o marido comprar uma passadeira rolante, o que
transformará a sua marquise num ginásio canino. Descrita a situação, evitamos
qualquer comentário, muito embora não nos custe acreditar que, daqui a poucos
meses, os cahorros estarão a ver televisão e serão telespectadores assíduos das
telenovelas e concursos mais concorridos, o que os tornará mais esclarecidos, melhor
educados, interactivos e sobejamente felizes. Se por mero acaso, o saxão
Stephanitz cá voltasse, por certo desejaria não ter cá vindo, nem antes nem
depois!
DELFINA, NÃO TENHA DÚVIDAS!
Uma das nossas leitoras, identificada por Delfina e
apreciadora dos nossos textos, escreveu-nos a perguntar se eles seriam
autênticos. Delfina, não tenha dúvidas, eles são genuínos e autênticos, são artigos
de opinião que dispensam o plágio e não se penduram em tutelas, que obrigam à
verdade e procuram alteração, redigidos, não para agradar a quem os escreve,
mas a pensar em quem os lê. Agradecemos-lhe desde já o seu interesse e
aguardamos por outras dúvidas. Obrigado pelo contacto.
LOGO A FLOR QUE EU TANTO QUERIA!
Alguns cães, muitas vezes
para melhor se integrarem e chamar à atenção dos donos, mercê da ausência de
espólio próprio e da brevidade dos passeios ao exterior, têm por hábito
desenterrar as plantas que as donas acabaram de dispor, bem como arrancar a
roupa do estendal, rebocar o caixote do lixo, puxar toalhas de cima da mesa,
roer pés e portas de armários e por aí diante, especialmente quando são
cachorros ou quando passam muito tempo sozinhos, já que esses episódios acontecem
com os donos ausentes ou quando viram as costas. Os cães gravam as experiências
que a vida lhes dá e vivem delas, quer sejam negativas ou positivas, muito
embora as primeiras como mais facilidade se perpetuem. Por causa disso, não há volta
a dar, os melhores métodos de ensino são os que se alicercerçam no reforço
positivo. Não obstante, as experiências negativas são essenciais para a
salvaguarda dos animais e do património ao seu redor, porque contrariam
eficazmente instintos indesejáveis. Temos por hábito, somente nos cães adultos,
depois do ensino da recusa de engodos, valermo-nos da mesma ratoeira, a de
modelo americano, para evitar que os animais danifiquem aquilo que nos é
querido, colocando-a armidilhada e engodada junto daquilo que pretendemos
preservar. A estratégia tem-se revelado eficaz e a simples presença da ratoeira
tem evitado muitos estragos, porque o susto que provoca dificilmente será
esquecido.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
MANIFESTAÇÕES DE UM CÃO MUITO PERIGOSO: O COBARDE
Desenganem-se os mais confiafos: o cão
cobarde é um animal muito perigoso, em bruto ou aproveitado, e não deverá ser
interpretado como inofensivo. A cobardia presente nalguns cães actuais deve-se
a um resquício atávico que ainda não eliminámos ou não quisemos eliminar,
directamente ligado ao lobo e a outros canídeos usados na construção das
distintas raças, naturalmente instintivos e desconfiados. Também por isto, pelo
entender que nos deu a experiência e pela observação das selecções operadas por
outros, dizemos: um cão é tanto melhor, quanto menos lobo tiver! Ainda antes do
Ocidente ter conhecimento objectivo do Lobo Checo, coisa facilitada pela
Perestroika, já nós (Acendura Brava), alguns criadores holandeses e grande
número de norte-americanos, se havia dedicado à criação e estudo dos híbridos
provenientes do Lobo. Uns e outros viram o seu trabalho desperdiçado e os
americanos acabaram sujeitos a um conjunto de disposições legais, mercê do dolo
perpetrado pelos seus híbridos. O Lobo
Italiano, cruzamento entre o Lobo da Sardenha e o CPA, que acontece mais tarde,
dentro do mesmo propósito, teve como objectivo a produção de animais
excepcionais para acções de resgate, policiais e militares. Duvida-se que os
italianos tenham conseguido padronizar um comportamento e um desempenho
aceitáveis. À parte disto e como mostra do nosso empenho, na companhia do Sr.
Filipe Pereira, assistimos algumas vezes à primeira ninhada de lobos nascida no
Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (a do Sândalo e da Morena), seguindo as
orientações do Sr. Robert Lyle, seu fundador, depois de visitarmos amiúde a
alcateia residente na Tapada Real de Mafra. Será quem ainda subsiste, apesar do
flagelo da leishmaniose e de tanta consanguinidade?
Há por aí muita cobardia entendida como
valentia que a muitos encanta ou engana, em especial os incautos, os menos esclarecidos
ou os mais engenhosos, porque os primeiros nada esperam, os segundos andam deslumbrados
e os últimos sempre espreitam vantagem. O cão cobarde é pródigo em ataques de
surtida, carrega sobre os mais fracos e submete-se aos mais fortes, prefere
observar do que ser visto, desconfia naturalmente de estranhos por se sentir
ameaçado, usa a manha para não trabalhar, faz chantagem emocional, mostra-se
injustiçado, reage negativamente a alguns fenómenos naturais, tende ao
isolamento, treme diante da repreensão, abomina o trabalho de equipa e pode
morder por pânico. Diante dum panorama destes, o que dizer da necessidade da
sociabilização, enquanto pilar da reeducação e da reabilitação? Será que todas
elas se destinam somente aos cães valentes? Claro que não! A sociabilização é também
o melhor dos meios para a reabilitação destes cães.
Podemos transformar um valente num
cobarde, acorbardá-lo parcial ou totalmente? Sim! Certo tipo de condicionamento
criminoso a isso induz, através de retrocessos pedagógicos que procuram respostas
instintivas parciais ou absolutas. No entanto, duvidamos das intenções desses
“pedagogos” e pomos em causa, como é óbvio, o seu amor pelos cães, que não deve
ser nenhum! Se à ausência da sociabilização (inter pares, com outros animais e
com os humanos), que já é mal que chegue, somarmos o isolamento forçado, a
restrição absoluta de contacto, um encarceramento austero, prolongado e mal
iluminado, a prática sistemática de maus tratos, a proibição de algumas
expressões verbais, a alteração das rotinas, o recurso à fome e à sede, a substituição
das dietas e a proibição de sair à luz do dia, qualquer cão se acobardará e
virará bicho! Há ainda para além disto, engenhosos que adicionam,
esporadicamente, pequenas quantidades de salitre, carvão e enxofre à razão de
75, 15 e 10%, sujeitando os cães a convulsões dolorosas no intuito de lhes
reavivarem os instintos, chegando alguns a padecer. A castração continua a ser
o meio mais “limpo” e usado para quebrar o ímpeto aos valentes e tem agravado a
insegurança e a dependência dos cobardes, limitando-lhes de sobremaneira a
autonomia, e tudo isto em abono da comodidade dos donos!
Não é difícil condenar o que acima se
descreveu, mas há muita gente que continua deliberadamente a encerrar os seus
cães em espaços exíguos e mal iluminados, por razões estéticas ou
pseudo-funcionais, enjaulados dentro de
boxes por horas a fio e cães condenados à morte por causa disso, ou por outra:
por serem considerados perigosos! Mesmo sem a terapia de choque adiantada no
parágrafo anterior (que rasa a tortura), qualquer cão pode manifestar acções
cobardes, quer elas sejam herdadas, aproveitadas, induzidas ou disfarçadas. Temos
por norma usar o treino para dar combate à cobardia, muito embora possa ser usado para a aproveitar ou escamotear.
O seu aproveitamento, por exemplo, facilita a ocultação e o ataque de surpresa
de alguns cães, que geralmente atacam pelas costas e quando menos se espera. A
habilidade de dissimular a cobardia, própria dos adestradores mais engenhosos,
passa pela familiarização que evita o pânico e que garante a experiência feliz
pela recompensa. Ao longo da vida temos ouvido enaltecer aqueles cães que, não
mordendo à entrada, só atacam os visitantes á saída. A maioria destes animais,
por muitos entendidos como extraordinários, não foi objecto de algum treino
específico ou capacitação para isso, antes arranca movida por um ou mais
instintos. Se por acaso for mal sucedida, bem depressa abandonará a façanha e
permanecerá escondida por mais tempo. É evidente que qualquer valente, depois
árduo trabalho e uma vez o alcançado o condicionamento, poderá comportar-se de
igual modo e se necessário contra-atacar. É importante relembrar, nesta
caminhada que tem dezenas de milhares de anos, que ontem como hoje, a escolha
dos cães tem assentado sobre os indivíduos mais dóceis e manobráveis, o que
muito tem facilitado o treino e as suas prioridades: o controlo dos instintos,
a potenciação dos impulsos herdados e o robustecimento do carácter canino. Não
obstante, porque é mais fácil e exige menos empenho, nesta era “do aqui” e
“agora”, há quem procure cães mais instintivos e use métodos que apenas visam o
seu aproveitamento, cambiando a verdade objectiva pela subjectiva que a muitos
engana e satisfaz, já que a maioria das pessoas tem medo de cães, ainda que o
não diga e que acabe por adquirir um.
Poderá um dono cobarde induzir,
voluntária ou involuntariamente, um cão à cobardia? Sim, sem dúvida, por
inacção, desprendimento, refreamento, punição ou castigo. No entanto, os donos
mais medrosos tendem a fazer cães valentes e os donos mais tesos a subjugá-los em
demasia, uns pela impropriedade da liderança e os outros pelo abuso da
autoridade. Só a regra poderá evitar os ataques instintivos, mormente os
cobardes e de difícil controlo, o que nos obriga a dizer que o treino de guarda
é mais do que necessário para certo tipo de cães, porque põe em pé de igualdade
a prontidão e a cessação dos ataques, induz à escolha certa dos alvos,
estabelece protocolos e submete as acções caninas à ordem expressa, factores
que aumentam exponencialmente o domínio sobre o lobo doméstico, tornando-o
eficaz e quase absoluto. O antropomorfismo presente nalguns donos, que os leva
a considerar os cães seus iguais, quando lamechas, tem um efeito contrário,
porque pode suscitar protecção desnecessária e motivar os cães para ataques
instintivos, inesperados e de surtida. A verdadeira relação de paridade é aquela
que reconhece as diferenças, distribui as tarefas e procura a complementaridade.
O combate à cobardia canina está por
detrás de todos os métodos presentes no adestramento, quer se ensine obediência
ou outra das suas disciplinas clássicas. O aproveitamento da cobardia pressupõe
acções fratricidas, tiradas a partir dos instintos caninos, desconsidera os
seus efeitos e despreza o bem-estar animal. Os cães que se tornaram cobardes,
reflectem a ausência duma liderança objectiva e o abandono de que foram vítimas,
muito embora a cobardia de alguns resulte da falta de escrúpulos dos seus
proprietários, mais apostados no dolo do que na coabitação pacífica, sendo
também eles cobardes, gatos escondidos com o rabo de fora! Não nos custa acreditar que grande número dos
cães abatidos ou era cobarde ou foi vítima de algum tipo de cobardia. Voltaremos
a este assunto.
A PRIMEIRA COISA A FAZER
A primeira coisa a fazer na progressão
ordenada para um obstáculo, é não consentir que o cão baixe a cabeça, porque de
outra forma será surpreendido pela linha de transposição, marcará mal o salto,
será obrigado a um esforço maior e poderá comprometer a sua integridade física
e anímica. A correcção desta tendência não dispensa o uso da trela até ao
alcance do condicionamento desejado.
QUAL DOS TRÊS SOLTAVA?
Alarmado com os assaltos ao redor de
sua casa, determinado proprietário canino, dono de três pastores alemães (um
cão e duas cadelas), todos treinados para guarda, vê-se obrigado a escolher um
para policiar a sua casa, deixando os outros dois encerrados dentro dos canis.
Como uma das cadelas está com o cio, qual dos três acha que ele deveria soltar?
PIPES AND DRUMS

Lá para a Velha Albion e também noutros lugares da Commonwealth, o desempenho dos cães militares é irreprensível, tanto no serviço quanto nas paradas e festivais onde se fazem presentes. Por lá, os oficiais podem conferir os alinhamentos sem correr o risco de serem mordidos, movimentar-se à vontade sem o incómodo dos cães a ladrar. A ordem unida é para todos e o cumprimento imediato das ordens não surpreende os animais. Nem mesmo o som dos tambores e das gaitas os afectam ou fazem arredar pé, permanecendo imóveis ao lado dos seus tratadores, pacientemente a aguardar ordens. Diante dum cenário destes, a Marcha de Elgar, a de Pompa e Circunstância, faz todo o sentido. Será que os militares ao serviço de Sua Majestade treinam afincadamente, familiarizam os cães com os instrumentos e escolhem os melhores para as apresentações? Será isso que faz a diferença entre os seus cães e os dos outros? Esses normandos, celtas e saxões são levados da breca!
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
NÃO SEI O QUE LHE HEI-DE FAZER. MANDAR MATÁ-LO, NÃO SOU CAPAZ!
“As
pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De
comer galinhas”.
Com este verso de Sophia de Mello Breyner Andersen, que
denuncia aquela sensibilidade hipócrita do “longe da vista, longe do coração”, que
procura o encobrimento de actos deliberados, passamos à história real de um
pequeno cão doméstico em apuros, a decorrer à mesmo hora em que vos escrevemos.
Numa família constituída por um
septuagenário levemente entrevado, a sua esposa acamada e um neto desta a rasar
a maioridade, furtivo, obstinado, revoltado, nada prestável e dado ao
disparate, vive um pequeno cão mestiço, bonito, simpático, tido como perigoso, com
menos de meia dúzia de anos. O animal, que não ultrapassa os 10kg, segundo o
que nos foi contado, ganhou o hábito de morder no pessoal lá de casa. Alarmado
com o sucedido, o dono, que até nem achava graça nenhuma a cães, procurou um
treinador e optou por teiná-lo. O treino correu às mil maravilhas e o cão nunca evidenciou
qualquer comportamento ou atitude hostil, saindo dali sociabilizado, a andar em
liberdade a obedecer prontamente ao seu dono, e tudo isto num só mês!
Por razões não confessas,
provavelmente ligadas a algumas indisponibilidades do seu proprietário, fáceis
de adivinhar, o pequeno cão foi privado
do treino, apesar de muito se ter instado para que nele continuasse, se
necessário gratuitamente. Dois meses após o seu abandono, o dono bate de novo à
porta do treinador, sem cão, acabrunhado, à procura de conselho e ajuda. Ao que
parece, depois de confinado ao terraço e à varanda, aproveitando uma
distracção, o cão fugiu para cima da cama da dona e dali não queria sair. A
incomodada senhora forçou a sua saída e recebeu algumas dentadas na mão que pôs
por fora dos lençóis. O dono do cão, que entretanto desenvolveu vínculos
afectivos com o animal no treino, não lhe querendo agravar a culpa, acusa o
rapazola de não o ter passeado convenientemente, porque antes do sucedido, como
sempre fez, não teve mais de cinco minutos com ele na rua. Apesar da relação
passeio-ataque não justificar de modo algum o desfecho, ficámos sem saber
porque razão o dono não saíu com o animal, delegando noutro essa tarefa, uma
vez que se encontrava em casa.
Decidido a ver-se livre do cão, o dono
foi pedir ajuda a várias associações que se dedicam à recolha de animais, ao
momento superlotadas e sem vagas. Não encontrando ali solução, procurou o
treinador e o seu conselho, sujentando à aprovação deste a hipótese que lhe
parecia mais viável – a do abandono do animal, já que irá viver para a
província e perto duma quinta muito grande. Como o cão nem tem microchip,
bastaria jogá-lo do portão para dentro e pronto. O treinador ficou estupefacto,
de imediato sem palavras, recuperou o fôlego e disse-lhe que mais valia mandar
abatê-lo, ao que o homem respondeu não ter coragem para tanto. O objectivo do
cinotécnico foi o de chamar o dono à razão, ainda que abruptamente, para que
ele tomasse conhecimento da gravidade do acto a que se propunha, o que parece
ter resultado, pois o cão continua vivo e ainda não foi abandonado. Talvez seja
uma questão de tempo, porque o desespero pode “obrigar” este proprietário
canino, mais uma vez, ao propósito de abandonar o pobre animal. A história está
contada, o cão ignora o seu drama e o veredicto que sobre ele cairá. Se algum
dos nossos leitores o quiser adoptar, contacte-nos o mais rápido possível. O
tempo urge. Obrigado.
PS. E já agora, não digam ao dono que
sabem qual seu propósito original, porque é uma pessoa muito sensível!
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
QUINTO IMPÉRIO OU O QUINTO DOS INFERNOS?
Quando virá o “Portugal que há-de cumprir-se”? A resposta é aguardada por todos os portugueses! Será um império terreno ou celestial, um deslocamento para oriente ou para o ocidente, uma metrópole que se expandirá ou que será absorvida? Será que esse Império já veio e já se esfumou? Onde raio teriam ido Camões e Pessoa buscar tal idéia? Seriam videntes ou simplesmente patriotas infamados, porta-vozes de uma esperança popular sustentada pelo desalento e oriunda de tempos imemoráveis? Seria de todo conveniente que esse império chegasse para fazer frente ao quinto dos infernos em que vivemos! O que sabemos é que Portugal nunca se cumpriu, que ao longo da sua história sempre viveu de “buchas”, da pimenta da India, do comércio de escravos, do ouro do Brasil e agora da torneira a fechar-se da CEE. Esta Nação flutuante lembra a Arca de Noé, será que algum dia as águas da miséria secarão ou seremos uma eterna Fénix?
Há quem diga, do seu alto saber, que esse império será de natureza cultural, já que os portugueses tendem a fundamentar a cultura popular por onde passam, muito embora, nós como os outros, tenhamos passado o século XX dominados pelo pensamento de três judeus ashkenazi: Einstein, Freud e Marx. Pode ser, e agora dizemos nós, não tão doutos quanto outros e na singeleza do nosso ofício, que devido à política do actual governo, nesta ocidental praia lusitana, de matar os velhos e de fazer emigrar os novos, o ADN português passe doravante de recessivo a dominante, conhecida que é a nossa propensão histórica para a misciginação, o que faria perpétuar Portugal por todo o Mundo. As nossas limitações impedem-nos de vislumbrar outros meios para o alcance de tal império, pois custa-nos a acreditar que os extraterrestres venham a considerar o fado património do universo intergaláctico.
De um modo ou de outro, e mais uma vez, sendo poucos e partindo endividados, com uma mão atrás e outra à frente, caberá aos mais novos catapultar esta velha Nação para o futuro, fazer dela um Atlântida ou um 5º Império - cumprir Portugal. Oxalá não repitam os erros do passado, queira Deus que isso lhes sirva de lição e que alcancem outros mares, onde não conseguimos chegar.
A FOME QUE OS FAZ CORRER, OBEDECER, FAREJAR E MORDER
Como se já não bastasse o acontecido na Guerra da Crimeia (1853-1856) e o sucedido na Batalha de Stalingrado (1942-1943), ainda há gente que continua a abraçar métodos e procurar resultados a partir da fome dos cães, o que lembra de sobremaneira os leões do Circo Romano, que só depois de esfomeados, eram soltos nas arenas. É evidente que estes animais “correm que se desunham”, sedentos de alimento e movidos pelo instinto de sobrevivência. Valerá a pena tamanho sacrifício? Os donos dirão que sim e os cães não se poderão pronunciar, muito embora uns queiram medalhas e os outros somente comer. Prova a prova, a saga repete-se, a plateia entusiasma-se, estoiram os aplausos e só no final da feira… os cães irão comer! Estas guerras de mirandum, porque de simulacros se tratam, pressupõem o bem-estar animal? Será esta a melhor forma de aplicar o reforço positivo? Há gente que nunca aprende e que dificilmente se livra da pedra no sapato. Igual método usou um aluno nosso para ensinar os seus periquitos a comer à mão - e foi bem sucedido!
Há nisto tudo uma tremenda confusão: depois de havermos transformado o lobo em cão, queremo-lo de volta? Afinal em que é que ficamos? E diante da actual lei sobre os cães perigosos, será isso razoável? Esta técnica, se for digna desse nome, porque arte não será concerteza, há muito que a vimos lá para a Rua das Portas de Stº Antão, em Lisboa, no nº 96, quando toda a casta de animais divertia a criançada. Será possível usar sem abusar? Nós acreditamos que sim. O cão merece ser respeitado!
ICH HATT’ EINEM KAMERADEN
Apesar de nunca se ter feito um levantamento acerca do número de mortos, todos os dias morrem cães de guarda em todo o Mundo, vítimas de ladrões violentos que os têm de enfrentar. A chacina é mais comum nos países miseráveis ou naqueles onde o distanciamento entre ricos e pobres, por ser tão grande, chega a ser escandaloso (infelizmente ainda não se descobriu uma solução eficaz contra a pobreza). Treinar um cão para guarda, ainda que poucos pensem nisso, é colocá-lo no “lugar do morto”, especialmente se trabalhar isolado e distante do socorro dos donos. Este companheiro que dará, se preciso, a vida por nós, como até hoje tem feito, é normalmente esquecido e raramente é objecto de um memorial ou de um vulgar monumento, o que a ninguém espanta, já que também são poucos os erigidos aos cães polícias e militares, apesar da grandeza do seu serviço e do mérito das suas acções. Uma vez abatidos, serão sepultados no silêncio familiar e ninguém cantará para eles “Ich Hatt’ Einem Kameraden” ou outra melodia que evoque o seu valor e sacrifício, o que nos remete para as palavras de um velho e experimentado perrero: “a gratidão neste mundo habita nos quartos traseiros de uma mula”. Queremos aqui prestar homenagem aos cães que morreram no cumprimento do serviço e exortar os treinadores para que melhor treinem os actuais, dando-lhes a vantagem da surpresa, maior eficácia e melhores subsídios para a sua sobrevivência.
A NECESSIDADE DE ARRANJAR UM CULPADO
Apesar de Adão ter culpado Deus por lhe ter dado Eva, por esta o ter induzido à desobediência, Cristo pagou o preço das nossas transgressões e morreu por todos nós. Não obstante, continuamos à procura de culpados, exactamente na mesma cegueira que leva um cão a correr atrás da própria cauda. Sem dificuldade, descaradamente, reclamamos para nós todo ou bem que nos sucede e atribuímos aos outros todo o mal que nos aflige. Esta reacção instintiva, que alguém há-de explicar porquê, coloca-nos em pé de igualdade com os ditos irracionais e nada abona em nosso favor. Como finitos, todos estamos votados ao insucesso e a idéia não nos agrada. Mas não aprenderá o homem com os seus erros? Donde lhe virá o acerto?
No adestramento, quando o insucesso escolar é por demais evidente, contrariamente ao que se prega, não havendo mais ninguém a quem culpar, são os cães que arcam com as culpas e que servem de bode expiatório, como se as suas atitudes não fossem reflexas e não surgissem como resposta às acções dos líderes. Quer queiramos ou não, por detrás da excelência de um cão, está um condutor não menos excelente que melhor soube aproveitar o animal. Infelizmente o inverso também é verdade e irá bater á porta de alguns, o que torna actual a milenar história da burra de Balaâo, já que não é raro, perante os desacertos dos donos, assistirmos ao conserto dos animais.
Ninguém chega ao adestramento vindo do nada e todos carregamos as marcas do que somos e donde viemos, predicados que poderão ou não constituir-se em mais-valias e que implicarão de sobremaneira na nossa capacidade de resolução. Todos chegamos á cinotecnia já feitos e a maioria de nós irá sofrer profunda alteração, crescer ou decrescer para alcançar a comunicação interespécies. Como o cão é um animal de hábitos e vive dependente das rotinas que vai assimilando, estipuladas ou toleradas por quem o alimenta, não é de estranhar que denuncie alguns características presentes nos seus donos (o cão do improvisador raramente atravessa a estrada pela passagem de peões; o do desregrado pede comida à mesa; o do inactivo torna-se pachorrento; o do desmiolado flui pelo disparate; o do pouco esforçado transforma-se em manhoso; o do muito tolerante tende ao abuso e por aí adiante).
O homem, enquanto por cá andar, dificilmente se queixará de si próprio e reconhecerá a culpa dos seus passos, o engano das suas estratégias, o desacerto das suas opções e a sua falta de empenho, porque lhe é mais próprio queixar-se dos outros, dizer-se vítima da má sorte, furtado de dons e atribuir ao fado a causa dos seus enganos. E quando pega num cão e as dificuldades surgem, essa mnemónica tende a ladaínha e o animal irá aumentar, ainda que sem saber como, o rosário das suas penas. Treinar cães é adestrar homens, é capacitar os donos para a liderança até ao alcance palpável da resposta que garante o trajecto comum sem sobressaltos. Ensinar cães sempre foi fácil, os donos nem tanto!
CORREIO DOS LEITORES: RESPOSTA AO SR. PEDRO GUEDES
Recentemente, o Sr. Pedro Guedes foi obsequiado com um cachorro CPA de presente e gostava que o infante viesse a ser treinado o melhor possível, de preferência por ele. Como não temos nenhuma escola na área da sua residência e não conhecemos ali nenhuma que possamos recomendar, adiantaremos aqui alguns subsídios para o pré-treino do cachorro que servirão de base para o treino vindouro, uma vez que no próximo dia 23 fará 4 meses.
Antes de mais, importa comprar um comedouro e bebedouro reguláveis, para que o cachorro se desacostume a comer na linha do solo e não venha a morrer envenenado, regulando-se o bordo superior dos pratos a menos 5cm da sua altura. Essa diferença (5cm) deverá ser actualizada de acordo com o crescimento do animal. Esta simples medida preventiva irá evitar maiores delongas no ensino da recusa de engodos, evitará o abatimento exagerado dos metacarpos, não contribribuirá para a divergência de mãos e dará combate à indolência, impossibilitando assim o cachorro de comer deitado. Convém que o Pedro procure um veterinário conhecedor da raça, do seu desenvolvimento e das suas afecções ou doenças mais comuns. Será ele que irá estabelecer os calendários das desparasitações e das vacinas e que deverá acompanhar o cão por toda a vida. A ração a dar ao cachorro deverá ter 30% de proteína e 20% de gordura, ter um percentual de digestibilidade elevado e ser distribuída quatro vezes ao dia (nós somos adeptos de a ter à descrição durante os ciclos infantis). E porque importa vigiar o crescimento do cachorro, ele deverá ser pesado semanalmente e o seu valor comparado com os valores indicados na tabela de crescimento da raça que breve enviaremos. De qualquer modo, aos 4 meses de idade, o cachorro deverá pesar entre 18 e 21.750kg, havendo exemplares mais robustos que poderão ultrapassar estes valores. Valores abaixo dos mencionados darão cães pernaltos e com ausência de envergadura. O Pedro deverá também comprar um “trem de limpeza”, constituído por uma cardeira, três pentes de diferente espaçamento, uma luva e um pano de camurça. Deverá evitar dar banhos ao cachorro e escová-lo diriamente, usando pó talco para evitar os maus odores. Os pormenores relativos ao que aqui adiantamos serão explicados por telefone, bem como todas as dúvidas que possam surgir ou possíveis omissões.
Do ponto de vista técnico, considerando os cães para a utilidade, temos por hábito seguir o “Quadro de Crescimento Funcinal”, uma tabela que comtempla as quatro disciplinas básicas do adestramento (obediência, ginástica, guarda e pistagem), de acordo com os ciclos infantis dos cachorros e segundo o método da precocidade preconizado por Trumler, o que melhor prepará os infantes para o treino escolar, através de tarefas indutoras do agrado dos animais (enviaremos este quadro por email ao Sr. Pedro Guedes). Assim, neste momento (3 meses e meio), o chachorro já deverá dar pelo nome, ser conduzido á trela suavemente pelo lado esquerdo do condutor, conhecer o comando de “junto” e responder ao comando de “aqui”. Correr atrás de uma bola ou outro brinquedo, saltar obstáculos de 20cm e subir pequenas rampas de baixa inclinação. Deverá também agarrar num trapo ou churro, habituar-se a diferentes ecossistemas e marcHar diariamente 1km, ainda que dividido em duas ocasiões (uma tarde e outra de manhã). Já deverá procurar o dono, os seus esconderijos e conhecer o comando de “busca”. Estas simples tarefas irão reforçar a liderança, estabelecer a cumplicidade, robustecer fisica e psicologicamente o cachorro, despertar-lhe o instinto de presa e garantir- lhe a hegemonia do faro como sentido director. Apesar de termos um programa de “Ensino à Distância”, porque é mais fácil, aconselhamos o Pedro a procurar uma escola canina nos arredores da sua casa. Não havendo essa possibilidade e mantendo-se o seu empenho, não hesitaremos em enviar-lhe o programa acima citado.
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