quinta-feira, 28 de abril de 2016

E QUANDO UM “MENINO” MATA OUTRO?

Certa vez, no Jardim da Praça do Império em Belém/Lisboa, vi uma cadela tão grande e robusta que duvidei do seu género. Como era peluda e o pelo tapava-lhe a área genital, perguntei à sua dona se o animal era macho ou fêmea, ao que ela me respondeu ser uma “menina”. A partir dali fiquei atento e descobri que muitos cães e cadelas são agora “meninos” e ”meninas”, ainda que grande número deles não seja uma coisa nem outra por ter sido objecto de castração. Quem vier para o adestramento à espera de encontrar uma vida calma e isenta de problemas vai ter uma terrível desilusão, porque irá ser confrontado com um sem número de situações irrisórias e até doentias, produto da imaginação de alguns donos que vêem o que ninguém vê e não enxergam o que têm diante dos olhos, persistindo em viver num mundo aparte onde os seus cãezinhos, para além de serem gente, são heróis, principezinhos e até deuses, só nos procurando quando eles se tornam demónios. Educar cães seria fácil se os donos não nos criassem barreiras ao seu ensino. Não nos restando outra alternativa, teremos que tirar com todo o cuidado os seus “macacos do sótão”, extracção demorada e de difícil sucesso, pois se no passado o especismo foi uma praga, no presente o antropomorfismo é uma panzootia (os donos tratam doentiamente os cães como pessoas e estes tratam-nos abusivamente com cães).
Esta semana, Em San Diego, na Califórnia/USA, um casal que se encontrava deitado na cama a ver televisão com o seu filho de três anos e com um cão de dois (um cruzado de raça de briga), acabou por perder a criança devido ao cão a ter atacado, reacção atribuída ao facto do animal se ter assustado com a tosse da dona. Aqueles descuidados pais, outra coisa não seria de esperar, atribuíram a morte do bebé à demora na chegada do serviço de emergência médica (911) e não à ausência do seu cuidado e clarividência. Se calhar ainda vão reclamar uma indeminização, quando na nossa opinião deveriam ser condenados por “homicídio por negligência”, porque contribuíram decididamente para a morte do seu filho, ao colocarem o cão perto dele e se encontrarem distraídos a ver televisão, quando deveriam ter retirado o cão daquele quarto e estar atentos à criança. Nem todos os cães se sociabilizam facilmente e respeitam as crianças, particularmente as mais novas cujo senso de responsabilidade é diminuto ou inexistente. Ter um criança de tenra idade e um cão em simultâneo é uma tarefa que exige vigilância e regras, especialmente quando o cão é tratado como um igual, é territorial, ciumento pelos donos e portador de fortes impulsos à luta e ao poder.
É sabido que os cães são animais socais, que em grupo estabelecem entre si uma hierarquia, normalmente dominada pelos mais fortes e suportada pelos mais fracos, o que torna os mais dominantes competitivos. Quando inusitadamente se promove um cão à categoria de filho e havendo um autêntico, é natural que o cão intente dominá-lo por resistir à relação de paridade, movido pela natureza dos seus impulsos inatos, ainda que a princípio o faça de forma dissimulada e aproveitando a ausência dos pais. Mesmo que um cão não seja objecto desta desajustada promoção social e havendo uma criança de tenra idade em casa, os seus donos ver-se-ão obrigados a liderá-lo de modo inequívoco, para que o animal saiba quem manda ali e que deve respeitar a criança. Sempre será mais seguro ter primeiro um filho e adquirir depois um cão, situação hoje infelizmente pouco comum por se verificar o contrário. Quando um cachorro chega a casa e nela já existe uma criança, com mais facilidade a aceitará por não ser intrusa e ser mais antiga naquele território. Aconselhamos os nossos leitores que pretendem adquirir um cão agora e ter filhos mais tarde a optarem por uma cadela, já que as fêmeas são mais protectoras, mais dadas à defesa do que à luta.
Quem tem um cão e espera um filho, não tem tempo a perder, deverá de imediato proceder à educação do animal para salvaguarda da criança vindoura, mesmo que o cão não seja de raça ou natureza agressiva, porque os acidentes acontecem e um cão indisciplinado é um foco de disparates. Não estamos cá para proteger os nossos filhos? Sobre este assunto aconselhamos a leitura complementar do artigo “E QUANDO O BEBÉ CHEGAR, O QUE FAZER COM O CÃO”, editado neste blogue em 31/08/2009. Aqueles pais da Califórnia que perderam o seu filho de modo tão estúpido só se podem queixar de si mesmos, do seu descuido, ignorância e irresponsabilidade. Evite passar pelo mesmo e acautele-se.  

quarta-feira, 27 de abril de 2016

ANDA ABRAÇA-ME E BEIJA-ME… ENCOSTA O TEU PEITO AO MEU!

Não vamos aqui falar da canção romântica “Só Nós Dois” da autoria de Joaquim Pimentel que Tony de Matos e Francisco José imortalizaram, dando-lhe o primeiro uma interpretação mais sofrida e o segundo outra mais lânguida, mas duma popular reacção espontânea sobre os cães alheios que dá corpo às duas primeiras estrofes do segundo verso desta canção: “Anda abraça-me e beija-me… encosta o teu peito ao meu”, reacção que nunca nos agradou suportar, apesar das boas intenções dos cinófilos que connosco se cruzam, gente de todas as idades, sem dúvida sensível e simpática mas que, no calor da sua paixão, não imagina o dolo que pode causar aos cães dos outros, porquanto são-lhes desconhecidos e forçam-nos à submissão, atentando duma só vez contra o sentimento territorial canino, contra o seu escalonamento social, contra a exigível fixação exclusiva na pessoa do dono, que é o seu proprietário e primeiro responsável, abusos que poderão colocar em risco a salvaguarda das pessoas e dos próprios animais. Fernando Pessoa dizia, no seu poema “Liberdade” que o melhor do mundo são as crianças, parecer do qual não discordo mas que julgo incompleto, por ser também grande apreciador do género feminino e caso pudesse “fabricar” um deus, certamente teria o rosto e o sentir de uma mulher. Porém, jamais andei e andarei indiscriminadamente a abraçar na rua e de surpresa as senhoras mais apelativas aos meus olhos. E ainda bem que não, porque doutro modo não saberia em que estado regressaria a casa!
Pondo de parte o humor e para além dos prejuízos causados aos cães acima citados, abraçá-los pode provocar-lhes ansiedade e stresse, porque se sentem desconfortáveis, tendem a libertar-se e a pôr-se em fuga, podendo alguns até, por desespero, usar os dentes, conclusões a que chegou o Prof. Dr. Stanley Coren, que as publicou no “Magazine Psychology Today”, um psicólogo, pesquisador neuropsicológico e escritor norte-americano, que se tornou conhecido no mundo da cinotecnia por ser o autor do livro “A Inteligência dos Cães”. Segundo ele, os cães odeiam ser abraçados, mesmo pelos donos, chegando a essa conclusão através do estudo e análise de 250 fotografias aleatórias onde os donos abraçavam os seus cães. 82% deles mostravam sinais inequívocos de ansiedade e stress, visíveis no mimetismo do seu rosto: orelhas abatidas e coladas à cabeça, olhos com a esclerótica parcialmente visível ou fechados, língua de fora e cabeça virada para evitar o contacto ocular.
Diante dos resultados a que chegou, Stanley Coren aconselha os proprietários caninos a trocarem os abraços por afagos, palavras amáveis e outros mimos. Depois de tomarmos conhecimento deste estudo e sabendo o que nos espera na rua, porque não queremos ser desagradáveis, caso pudéssemos, ao invés de sairmos com um cão de carne e osso, sairíamos com um insuflável ou a pilhas! Há que educar o povo e ter paciência, a mesma complacência expressa na frase latina “Pater, ignosce illis, quia nesciunt quid faciunt” (Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem).

CIMARRÓN URUGUAYO OU FILA CISPLATINO?

Antes de nos debruçarmos sobre este cão uruguaio, importa salientar que parte dele já foi território português, nomeadamente a Colónia de Sacramento, onde a Coroa Portuguesa exerceu o seu domínio entre 1680 e 1777, sendo o primeiro assentamento europeu no Uruguai. Portugueses e espanhóis disputaram a sua posse durante 42 anos (de 1735 a 1777), sendo finalmente entregue à Coroa Espanhola pelo Tratado de Santo Ildefonso, assinado na Província espanhola de Segóvia, por D.ª Maria I de Portugal e Carlos III de Espanha, no primeiro dia de Outubro de 1977, tendo como mediadores a França e a Inglaterra com interesses políticos na paz entre os dois países peninsulares. Ali deixámos, para além de alguns vestígios, gente nossa e tudo o que para lá carregou, incluindo cães. Cisplatina é o nome dado ao território que fica aquém do Rio da Prata.
Apesar da assinatura do tratado acima citado, Portugal não desistiu imediatamente dos seus interesses no Uruguai, enviando para lá 10.000 soldados em 1816 e tomando Montevidéu em Janeiro de 1817. Quatro anos depois, depois de muita luta, o Brasil Português anexou a Banda Oriental daquele território. O Brasil já independente haveria de reclamar e invadir aquele território, ocupando as nascentes do Rio Negro no nó de Santa Tecla, todo o extenso território entre o Rio Quaraí e o Rio Ibicuí, no seu curso alto chamado de Rio Santa Maria. Também no noroeste, os brasileiros alcançaram novas as fronteiras apesar da derrota militar, cuja fronteira noroeste passou de Piratiny ou Piratini para Rio Jaguarão. Depois de inúmeras guerras e conflitos, o Uruguai tornou-se independente em 1828 pelo Tratado de Montevidéu, documento assinado pelo Brasil e Argentina, onde reconheciam a independência daquele território, que ainda se viria sujeito a várias lutas e escaramuças. Por decisão política e não outra os gaúchos ficaram separados para sempre em duas bandas, resultando disso, por necessidade de demarcação das fronteiras, o recrutamento de emigrantes europeus para o Sul do Brasil, nomeadamente italianos e alemães, cujas maiores colónias se encontram ainda hoje nos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, gente que por alturas da II Guerra Mundial foi objecto de perseguição arbitrária.
Voltemo-nos para o Cimarrón Uruguayo, um cão aparentemente de origem incerta e por isso rodeado de polémica, não muito numeroso no mundo, de quem se diz ter ascendência nos cães portugueses e espanhóis levados pelos colonizadores para o Uruguai, um molosso de médio porte, determinado, ágil, robusto, vigoroso, corajoso e funcional, com créditos comprovados na caça  no pastoreio e no ofício guardião, que em determinado momento se tornou selvagem (daí o termo “Cimarrón) ao proliferar nas matas uruguaias, pormenor que muito o abona em termos de selecção, uma vez que resultou da natural. Ao tornar-se autónomo e selvagem, este cão veio a causar graves prejuízos aos colonos e ao seu gado, atacando também caravanas de pessoas. No final do Séc. XVII foi considerado como peste pelas autoridades, que pagavam por cada cão morto determinada quantia, desde que fossem apresentadas como prova de morte a mandíbula ou as orelhas do cão abatido, o que teve como consequência o seu abate na ordem das dezenas de milhar. Obrigadas pela perseguição que lhes foi movida, algumas cadelas levaram os seus cachorros para as Montanhas de Olimar, nomeadamente para as Montanhas de Otazo e o Cerros Largos, aperto que evitou a sua extinção. Mais tarde e pouco a pouco, o Cimarrón começou a ser aproveitado como cão de caça, pastoreio e de guarda.
Em 21 de Fevereiro de 2006, a raça viria a ser reconhecida pela FCI. O seu focinho é para o largo, os seus olhos são arredondados, vivos e de cor escura, apresenta orelhas de tamanho mediano, caídas, triangulares e tombadas (normalmente são objecto de um corte idêntico ao praticado no Cão de Fila de São Miguel). A sua pelagem é curta e lisa, tem sub-pêlo e as suas cores vão do baio (cor de areia) até ao tigrado de vários tons. A sua linha dorsal é paralela ao solo e tende a selar-se. Pode apresentar manchas brancas nas patas, no ante peito, peito, região ventral e até no focinho. As fêmeas vão dos 55 aos 58 cm e pesam entre 27 e 36 kg, os machos dos 58 aos 61 cm e pesam de 34 a 54 kg, detalhes que não escondem a eventual presença dos molossos espanhóis na sua construção.
Mas é no temperamento que o Cimarrón mais se destaca das outras raças caninas, porque é tranquilo, seguro, não ladra ao acaso, é duma lealdade extrema para com os seus, um valente e determinado guardião, que se sociabiliza facilmente com as crianças chegando ao ponto das proteger. Extremamente zeloso do território familiar e daquele que lhe é confiado, resiste a qualquer tipo de intrusão, não se intimidando diante do número ou de qualquer tipo de intruso. Animal saudável e robusto, dispensa maiores cuidados de manutenção mas não dispensa o exercício diário regular, requerendo por isso espaço para se exercitar. Este sim, é o verdadeiro cão dos gaúchos, dos uruguaios e dos brasileiros, porque no meio de uns e de outros podemos encontrá-lo.
Ao olharmos para o Cimarrón parece-nos estar na presença de um Fila de São Miguel por força das parecenças. E se estamos, então estaremos diante duma versão melhorada do cão açoriano, também ele com idênticas características físicas e psicológicas, sem dúvida um ancestral do cão uruguaio, um gigante de igual valor que insistem em transformar num rato. A existência e o estudo do Cimarrón podem também contribuir para um melhor conhecimento das origens do Fila de São Miguel. Para nós, que fomos criadores de Cães de Fila de São Miguel, o Cimarrón outra coisa não é que um Fila Cisplatino, um congénere ou descendente do bravo cão que temos nos Açores e que muitos portugueses desconhecem infelizmente. Oxalá os uruguaios não estraguem o que por lá deixámos e não desprezem os benefícios da selecção natural, transformando o Cimarrón em “mais um” de pouco ou nenhum préstimo, num aristocrata com comportamento de guaipeca. 

NÓS POR CÁ: Ó MARCELO DAS MEDALHAS, DÁ LÁ UMA AO MUSTAFÁ!

No alvorecer do passado dia 25 de Abril e “Dia da Liberdade”, na rua D. Luís I (ao Cais do Sodré), em frente ao estabelecimento comercial “Palácio do Kebab”, o seu proprietário viu-se cercado por 20 “boys” saídos duma discoteca em frente, com idades compreendidas entre os 20 e os 25 anos, por se negar a servi-los, quando se encontrava a limpar aquele estabelecimento de restauração. Desgostosa por não ver satisfeito o seu pedido, aquela “maralha”  não foi de modas e decidiu dar uma lição inesquecível ao homem, um cidadão curdo de 35 anos, que apenas munido de uma faca de cozinha, suportou as arremetidas daqueles marginais, sendo agredido à garrafada, com um extintor e a pontapé, para além de ser intimidado com um tiro para o solo. Apesar da forte, continuada e desproporcionada oposição, o valente curdo manteve-se firme e conseguiu suster as sucessivas vagas dos seus agressores gorando os seus intentos. Nos vídeos divulgados pelos meios de comunicação social é possível ver, na ocasião em que desferia um golpe num dos seus agressores, o cuidado de evitar cortar-lhe o pescoço, optando por golpeá-lo na cara para não o matar. Atendendo à data, à valentia do homem e ao que estava em causa, deveria o Presidente da República legalizar a sua permanência aqui e condecorá-lo com a “Ordem da Liberdade”, já que tanto é dado à distribuição de medalhas.
Neste País, outrora de brandos costumes, é possível que os agressores sejam pouco penalizados, venham a ser reincidentes e instiguem outros a idêntica “proeza” mercê dos nossos valores culturais e princípios democráticos, parâmetros que esta gentalha não respeita e dos quais abusa para a prática da criminalidade. E se fosse consigo? Se fosse comigo e tivesse esse poder (quem o tem não vai fazer nada) deportava-os para os países da sua ascendência, como fizeram americanos e canadianos aos luso-descendentes açorianos de idêntico perfil, pois há que separar o trigo do joio e arrancar os parasitas da nossa democracia que comprometem a liberdade de todos. São actos como estes, quando não penalizados de acordo com a sua gravidade, que alimentam o racismo que todos condenamos. Se quisermos viver em paz, temos tirar do nosso meio, quanto antes, quem nos faz guerra. Bem ajas Mustafá, vou passar a ser teu cliente (é o mínimo que posso fazer).  

terça-feira, 26 de abril de 2016

COMPREI O LIVRO E FIQUEI DESAPONTADO!

Ouvimos esta exclamação repetidamente a quem comprou um livro sobre cães de guarda e ficou desapontado, por ser generalista e pouco ou nada adiantar, apesar do seu autor ser um renomado mestre nesta área da cinotecnia, decepção alheia que nos agrada e que mais enaltece aquele adestrador, cuja ética e cuidado aplaudimos. Há quem pense que um autor destes não gosta de revelar o que sabe, que usa somente o livro para se publicitar e arranjar alunos, quando na verdade está pensar nos seus leitores e nas consequências do que pudesse divulgar, porque um cão é uma arma e a violência não pára de aumentar. Caso tornasse público tudo aquilo que sabe, poderia estar a contribuir para o aumento da criminalidade e para o mau nome dos cães, a dar azo ao disparate e a armar os imaturos, instáveis e coléricos, porque um cão de guarda também se presta ao assalto, ao ajuste de contas e a toda a sorte de abusos, quando nas mãos de gente imprópria e provida de más intenções. E a nossa realidade é esta: mais de 90% das pessoas que reclamam por cães de guarda não têm necessidade deles, somente os querem para se tornarem mais seguros ou levarem vantagem sobre os demais, patologias a que um simples livro não se deve prestar. Todos os grandes mestres procedem assim porque pensam nas repercussões daquilo que tornam público.

AS MINHAS ROSEIRAS E A CANICULTURA

Eu adoro roseiras e tenho várias, se não fosse criador de cães, teria sido botânico, porque o amor pelas plantas parece-me transmitido por via genética, pois tinha uma tia que falava com elas e sou capaz de jurar que era ouvida. Cultivar rosas e criar cães são actividades mais próximas do que à partida se julga, porque ambas necessitam de saber, experiência, sensibilidade, dedicação, observação, trabalho e progresso. Ainda que a obtenção de cada uma delas sirva diferentes propósitos, em ambas está presente o impulso humano inato que o liga à criação, ao querer compreender, à descoberta das leis naturais, ao desejo de transformar a natureza e de lhe dar um cunho pessoal, pormenores que podem estar ligados ao facto de sermos finitos, de não querermos ser esquecidos e de procurarmos a imortalidade, porque quando andamos entretidos, não pensamos que amanhã já não estaremos por cá.
Assim como a primeira preocupação para quem quer produzir rosas é a escolha do local apropriado, que deve ser ensoleirado e arejado, também a criação de cães deverá considerar o local onde iremos fazer o canil, tendo em atenção a sua orientação relativa ao movimento da terra, os ventos dominantes no local, a temperatura média anual e o seu teor de humidade, indícios claros para harmonizar a raça que desejamos criar com o ecossistema que temos à disposição, porque os cães, por mais domesticados que sejam e por maior que seja a sua adaptação, sempre se regularão e fortalecerão pelo relógio biológico. Diante destes pormenores cada raça irá exigir ecossistemas próprios para ao seu bem-estar, consoante a sua morfologia, grau de actividade, tipo de pelagem, etc. Como não é prático debruçar-nos sobre as exigências de todas, debruçar-nos-emos sobre as mais comuns, servindo-nos como exemplo do caso do Cão de Pastor Alemão, que suporta temperaturas mais baixas, teores de humidade mais elevados e que não apresenta dificuldades nos climas temperados marítimos como o nosso (mais explicações poderão ser encontradas nos textos deste blogue “O Canil” e “A Casota do Cão”).
Na escolha das roseiras somos obrigados a aquilatar do seu bom estado, pois deverão apresentar-se viçosas, com caules vigorosos, bem revestidas de folhas, isentas de doenças e parasitas. Idêntico cuidado deveremos ter na escolha dos cachorros, que deverão encontrar-se lustrosos, bem nutridos, activos, saudáveis, desparasitados, vacinados, dentro do peso e tamanho para a sua idade, isentos das doenças mais comuns na sua raça, apresentar um carácter equilibrado e bons impulsos herdados para a função que deles esperamos, porque doutro modo irão transmitir à sua descendência as mazelas de que são portadores, gerando assim produtos desprezíveis. Se as roseiras se dão em qualquer tipo de terreno, também os cães crescem e sobrevivem com qualquer dieta, mas se o solo indicado para as roseiras deverá ter um pH neutro e ser rico em húmus para a obtenção de rosas bem formadas e duradouras, também os cachorros exigem pensos diários com 30% de proteína e 20% de gordura para crescerem saudáveis e virem a desempenhar cabalmente e sem dificuldade as incumbências de que serão alvo, já que homens, cães e roseiras vivem do que comem.
As roseiras exigem tratamentos fitossanitários sistemáticos, que vão desde a eliminação de parasitas até ao arranque de ervas daninhas, os cães exigem desparasitações regulares, cuidados sanitários preventivos, limpeza e exercício diários, atenção, carinho, sociabilização, instrução e regra, porquanto são seres vivos.
As semelhanças entre o cultivo de roseiras e a criação de cães não se esgotam aqui, pelo que estamos à disposição dos nossos leitores que se queiram dedicar à canicultura, quer adiantando-lhes conselhos quer dissipando-lhes dúvidas, dando-lhes desde já os nossos parabéns por essa decisão mas alertando-os para o facto da venda de cães ser uma prestação de serviço, pois criar cães não deverá ser uma tômbola mas uma actividade planeada com metas e objectivos predeterminados.   

segunda-feira, 25 de abril de 2016

NÓS POR CÁ: 42º ANIVERSÁRIO DO 25 DE ABRIL

Comemora-se hoje em Portugal o 42º Aniversário da Revolução do 25 de Abril, movimento encabeçado por alguns militares das Forças Armadas no dia 25 de Abril de 1974 contra o regime fascista e a Guerra Colonial, revolução que ao ser pacífica e ter merecido o apoio popular, ficou conhecida pela “Revolução dos Cravos”, que devolveu a liberdade e a democracia ao País depois de 48 anos de ditadura. Passados estes anos, a Nação continua por cumprir-se, temos muita gente no limiar da pobreza, não nos faltam desempregados e muitos jovens são forçados a emigrar. Estamos na Europa carregados de dívidas e no pelotão dos mais atrasados, a pagar pesados juros e a endividar os nossos filhos, que acabarão por pagar a nossa falta de clarividência e engenho. A revolução que agora comemoramos foi um grito de esperança e não passou disso, porque não conseguimos concretizar o que nos propusemos fazer. O que comemoramos hoje é a lamentação do que não soubemos aproveitar. Resta-nos a esperança, que dizem ser a última a morrer, num País que sempre andou e andará à cata de milagres.

- SÉRGIO, NÃO SABE A SORTE QUE TEM!

Recebemos um email de um leitor que transcrevemos seguidamente e na íntegra: “Boa tarde. Li o texto no blog e gostei muito. Sempre tive Rottweilers desde 1992, mas no momento tenho uma Bernese. Foi-me oferecido um filhote mestiço de Pastor fêmea e Rottweiler macho para adopção. Tenho uma certa experiência em sociabilização de cães para convivência em família, mas não tenho experiência com este tipo de mestiçagem. Gostaria de saber se há muitos inconvenientes para adoptar um cão assim, com relação à convivência com crianças, visitantes e mesmo doenças. Gostaria de saber se há algum tipo de orientação para o treinamento de obediência etc. Agradeço todas as informações que puderem me enviar. Att, (…)”.
Passamos de imediato à resposta: Como deve calcular não somos adeptos de híbridos, a menos que tal se torne necessário para perpetuar e dar saúde às actuais raças caninas, como tem vindo a suceder nalguns casos um pouco por toda a parte. Normalmente os cruzados de Pastor Alemão com Rottweiler são excelentes cães, porque tendem a somar o melhor das duas raças, não apresentando dificuldades normativas e de apreensão, já que são dedicados aos donos, meigos, humildes, cuidadosos e de fácil condicionamento, prestando-se sem maiores dificuldades como cães de família, de terapia e de auxílio a deficientes, porque são inteligentes, solícitos, calmos e seguros, mesmo que exteriormente sejam mais Pastores Alemães que Rottweilers. Ainda que o Pastor Alemão seja dominante na aparência, o comportamento molossóide do Rottweiler dominará nestes híbridos, o que é uma vantagem, por serem menos dados a provocações e de mais fácil sociabilização. Sérgio, não hesite: fique com o filhote e verá que a sorte lhe bateu à porta!    

FAZÊ-LOS PEQUENOS É PARTIR EM DESVANTAGEM

Ao olharmos para os propósitos por detrás das distintas raças caninas, quase todos cativos ao tempo e aos valores contemporâneos à sua formação, compreendemos os erros cometidos diante dos cães que temos hoje, que na sua maioria não espelham as expectativas procuradas na sua origem. Já houve quem procurasse fazer cães grandes com a agressividade dos pequenos e alcançasse animais incontroláveis e medrosos, cães de morfologia díspar ao ponto de comprometer o seu bem-estar, reprodução e longevidade, cães com tal carga instintiva que tornaram impraticável o seu uso e parceria, animais irascíveis que vivem para lutar até à morte, e assim por diante.
Grassa agora, nos centros caninos destinados à guarda desportiva, a moda dos Pastores Alemães pequenos e famélicos, tendência que ressuscita os ultrapassados “alsacianos”, há muito desaparecidos por razões morfológicas e funcionais. Por detrás desta opção que se tem vindo a generalizar nos chamados “centros de trabalho”, agradável a criadores, donos e adestradores, esconde-se a vã tentativa de os fazer ou aproximar o mais possível do Pastor Belga Malinois, havendo quem não hesite e lhe pareça bem cruzar as duas raças entre si, ainda que os rebentos da trapaça possam aparecer registados como genuínos pastores alemães, até porque a cor preta-afogueada também se faz presente nalguns Malinois.
Pretende-se com isto alcançar “cães-relâmpago”, quadrúpedes voadores e predadores insaciáveis, animais que partem para as acções defensivas e ofensivas dispensando qualquer ordem ou estímulo externo, próprios para exibições, para caçar jihadistas e para aqueles que não são obrigados a reparar o dolo que os seus cães cometem. Pastores alemães assim são tudo menos isso, enquanto portadores de uma biomecânica estranha, de uma máquina sensorial desajustada e dum equilíbrio cognitivo-funcional periclitante e carente de condições extraordinárias para o seu bom uso, menos valias directamente associadas à alteração forçada da sua morfologia, tantas vezes alcançada pela escolha de lamentáveis progenitores e pela precariedade das dietas, na procura de maior agilidade e celeridade, o que tem trazido para a ribalta e perpetuado machos entre os 26 e os 30 kg, como se a raça não ostentasse dimorfismo sexual e não fosse produzida para maior número de missões e funções para além das rudimentares que hoje lhe pedem.
Fazê-los assim pequenos, que leva também à alteração das suas “vozes” e mimetismo, é partir em desvantagem, desvantagem em relação ao que a raça tem para oferecer e desvantagem perante um modelo de cão que não é o seu e contra o qual será obrigado a concorrer. Se por um lado se ganha velocidade e prontidão, por outro, perde-se a personalidade que garante o controlo, a curiosidade e a observação que levam à escolha certa dos alvos na relação entre a morfologia e o desempenho. É possível que o Cão de Pastor Alemão careça de se actualizar para os desafios actuais, já que foi feito para o trabalho e este não tem presidido à sua selecção como seria de esperar. Não obstante, fazê-lo anão é atentar contra o seu equilíbrio emocional e desprezar a sua excepcional capacidade de aprendizagem normalmente cativas à sua morfologia secular.

domingo, 24 de abril de 2016

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos obedeceu à seguinte preferência:
1º _ O “CONDE” DO CEARÁ, editado em 01/04/2015
2º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
3º _ A RITA DO BOLT, editado em 20/04/2016
4º _ QUANTOS CÃES VÃO PARA REEDUCAÇÃO NO LUGAR DOS DONOS?, editado em 18/04/2016
5º _ PASTORES ALEMÃES DO ARCO-DA-VELHA, editado em 19/04/2016
6º _ HÁ POR AÍ MUITO CÃO RECALCADO, editado em 18/04/2016
7º _ NOVO VOCABULÁRIO CINOTÉCNICO: ODOROLOGIE/ ODOROLOGY, editado em 19/04/2016
8º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
9º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
10º _ MORREU A MAGGIE, A CADELA MAIS VELHA DO MUNDO, editado em 21/04/2016

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Reino Unido, 5º Alemanha, 6º Angola, 7º França, 8º Finlândia, 9º Ucrânia e 10º China.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

PARA OS QUE COMEM FRUTA NÃO HÁ NADA COMO A MAÇÃ BRAVO-DE-ESMOLFE

Sempre ouvi dizer, não sei se com razão ou não, que “de médico e de louco todos temos um pouco”, a verdade é que sempre gostei de maças bravo-de-Esmolfe, pera rocha, cerejas e romãs (já cá  não está que me trazia as primeiras que apareciam e que levou com ela os mimos que me dava, descansa em paz Beatriz Alice que breve nos reencontraremos). Adianta-se para os menos versados em fruta, que a maça bravo-de-Esmolfe é genuinamente portuguesa, da região de Esmolfe, Penalva do Castelo, na Beira Alta, ao que parece com “Denominação de Origem Protegida” (DOP) pela União Europeia. Trata-se de uma maça outrora outonal, macia, perfumada, de sabor único e intenso, com a qual se faz um bolo de maça divinal. Eu não a troco por nada e quando a não tenho, conformo-me com a reineta que não é bem a mesma coisa. Outras não como, sejam espanholas ou doutros lados, mando-as comer a quem as produz, porque sabem a água e água temos nós muita em Portugal.
Segundo os investigadores da Escola Superior de Saúde Egas Moniz (será que ainda cá estão todos ou já emigraram alguns?), a maior instituição privada de ensino superior em Portugal dedicada ao ensino superior na área da saúde, “as maçãs da variedade Bravo Esmolfe, a mais produzida na Beira Interior, têm propriedades fitoquímicas que ajudam o organismo humano a prevenir diversos cancros”, sendo esta é a conclusão mais importante retirada do denominado “Projecto 930”. Para além dos investigadores da Escola Superior de Saúde Egas Moniz, participaram ainda neste estudo a Cooperativa Agrícola de Mangualde, o Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, através da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro, o Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa (FF/UL) e a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, que durante vários meses estudaram as propriedades fitoquímicas e as fibras das maçãs de variedades regionais das Beiras e de cultivares exóticas e os seus benefícios para a saúde, apresentando as suas conclusões no passado dia 31 de Janeiro na Faculdade de Ciências da Saúde da UBI, na sessão de encerramento do Programa Agro.
Agostinho de Carvalho professor no Instituto Egas Moniz adianta que “as análises preliminares da maçã Bravo Esmolfe sugeriram que este fruto apresenta uma grande concentração em compostos bioactivos (polifenóis e fibras) e um elevado poder antioxidantes, podendo por isso ter características de alimento funcional, quer dizer, revelar influência positiva na prevenção de determinadas patologias, nomeadamente alguns tipos de cancros e doenças cardiovasculares”. Catarina Duarte, investigadora do IBET, adiantou que a variedade Bravo Esmolfe, é a que apresenta melhores características na influência positiva”, existindo, todavia, outras variedades “com resultados bastante positivos” e que “em comparação com as variedades exóticas, as maças regionais em estudo (Bravo Esmolfe, Pêro Pipo e Malápio da Serra) apresentam maiores actividades antioxidante e biológica, evidenciando desta forma características de produtos funcionais” (se eu não tivesse maçãs Bravo Esmolfe em casa, saía já à rua a comprá-las!).
Dito isto, é chegada a hora de falar dos cães que comem fruta, que obviamente deverão ser convidados a comer Maçã Bravo Esmolfe, no que deverão ser acompanhados pelos donos considerando os benefícios para a saúde de ambos, procedimento que pode enquadrar-se naquilo que entendemos por medicina preventiva, sabendo-se da maior incidência de vários tipos de cancro sobre homens e cães. Fica o conselho, oxalá alguém nos oiça. De igual modo aconselhamos os nossos leitores estrangeiros cujos cães gostam de fruta, a escolherem aquelas que maiores benefícios oferecem para a saúde dos seus fiéis amigos.  

MORREU A MAGGIE, A CADELA MAIS VELHA DO MUNDO

Morreu ontem na Fazenda de Lacticínios Woolsthorpe, no Estado Australiano de Victoria, a presumível cadela mais velha do mundo: a Maggie, uma Kelpie black and tan, que segundo o seu proprietário, o Sr. Brian McLaren, contava com 30 anos de idade. Como o dito senhor perdeu há muito os papéis que certificavam a idade da sua cadela, o título de cão mais velho do mundo continua a pertencer ao “Bluey”, um Cão de Gado Australiano que morreu em 1939 com a idade de 29 anos de acordo com o Livro de Recordes “Guiness”. McLaren justifica a idade da falecida cadela pela do seu filho, que na altura tinha quatro anos quando lha ofereceu, então uma cachorrinha de 8 semanas. Em dois dias a Maggie foi-se abaixo e repousa agora à sombra de um pinheiro, num túmulo marcado dentro da propriedade onde sempre viveu.
Supõe-se que a raça canina “Australian Kelpie” tenha ascendência ou algum parentesco com o Dingo e o Smooth Collie, o que a ser verdade justificaria a longevidade da Maggie, uma vez que os híbridos são mais longevos. Por sua vez, o Cão de Gado Australiano, que também se crê descendente do Dingo e do Collie de pelo curto, haveria ainda de receber infusão de Kelpie e Dálmata, sendo as duas raças australianas aparentadas e naturalmente com maior esperança de vida. Quem nos dera que os cães europeus tivessem tamanha longevidade, o que seria um milagre, porque árvore ruim nunca deu bom fruto e boa semente em terra ruim nunca medrou!   

750 MILHÕES

Não é do “Euromilhões” que vamos falar mas do que fez saber o “New York Times”, na sua edição do dia 18 deste mês, num artigo da autoria de James Gorman, que segundo estatísticas recentes (não diz quais) existe cerca de um bilhão de cães no Planeta, 1/4 deles tem dono e os restantes 750 milhões são cães de rua (abandonados, vadios e párias), número assustador atendendo ao seu montante mas ao mesmo tempo revelador da extraordinária capacidade de adaptação canina e do desprezo a que são votados os cães. Se as sucessivas campanhas de castração empreendidas por toda a parte não surtirem efeito, a opção mais provável e solidária será a encontrada pelo proprietário do Café “Hott Spott”, na Cidade de Mytilene, Ilha de Lesbos/Grécia, que à noite fecha as portas aos clientes e abre-as aos cães vadios, para que ali possam dormir mais aconchegados, iniciativa que ganhou popularidade e simpatia na Grécia e para além dela.
750 milhões de habitantes não tem a Europa, único Continente onde a população tem vindo a diminuir, apesar de ser o 3º Continente mais populoso. Segundo o censo efectuado em 2013, a Europa tinha na altura 742,5 milhões, actualmente deve ter menos considerando a sua baixa taxa de natalidade. Decididamente, somos contra a castração dos cães em geral por atentar contra a sua qualidade de vida, mas diante deste número suspeitamos não haver outra solução, a menos que espalhemos os chineses pelo Mundo que sendo 1 377 376 996 há uns segundos atrás (nasce um chinês a cada segundo), depressa resolveriam o problema por consumirem carne de cão (nem todos). A proliferação exagerada de cães nesta situação, para além de atentar contra eles mesmos, cria graves problemas para a segurança e saúde públicas, pelo que, se a situação não mudar, adoptar um cão passará a ser um acto imposto ou patriótico. 750 milhões? Quem diria!

SABE O QUE É A NARCOLEPSIA CANINA?

Sabe o que é a narcolepsia? Sim? Então parabéns, porque há muito profissional de cães que não faz ideia nenhuma do que se trata e deveria saber, que ao olhar para o termo, poderá imaginar estar ligado a cães drogados ou à sua participação no combate ao narcotráfico. E como a ignorância é imaginativa, ainda há quem jure que os cães usados na detecção de drogas, para serem bons, têm que tornar-se toxicodependentes (quanto tempo durariam e quem lhes suportaria as ressacas?). A narcolepsia, que se estende também aos humanos, é uma doença neurológica que induz os cães a uma sonolência diurna excessiva, falta de energia ou breves perdas de consciência, cujos episódios são breves e desaparecem por si mesmos (de alguns segundos a 30 minutos), que poderão acontecer quando os cães estão a comer, brincar, trabalhar e mesmo a copular, podendo também acontecer em momentos de grande emoção. Na ocorrência de um episódio de narcolepsia, que para todos os efeitos é uma perturbação do sono e uma dissonia, o cão cai repentinamente em sono profundo como se estivesse na sua fase REM, mexendo os olhos por debaixo das pálpebras fechadas e mantendo-se consciente de si mesmo e do que se passa ao seu redor. Virá a acordar desse estado por estímulos externos, quando despertado por sons mais altos ou carícias. A narcolepsia pode ser acompanhada e geralmente é por cataplexia (afecção que é caracterizada por paralisia muscular súbita sem perca de consciência).
A narcolepsia tem como causas provadas a desordem nervosa e a hereditariedade, ainda que possa estar relacionada com o sistema imunológico dos animais, sendo hereditária nas seguintes raças: Dachshund, Dobermann, Labrador e Poodle. Maiores explicações serão dadas pelo veterinário do seu cão, a quem caberá fazer o diagnóstico e o tratamento para reduzir a frequência destes episódios. Quando um cão entra em narcolepsia importa que o despertemos à voz e com carícias, tendo o cuidado de o proteger ao levantar-se, porque sai estremunhado e trôpego, podendo aleijar-se em terrenos irregulares ou rodeados de utensílios e obstáculos passíveis de lhe causar dano. Quando um cão cai subitamente em narcolepsia, parece fulminado por um ataque cardíaco, muito embora nos episódios da primeira permaneça com o corpo mole e a rigidez corporal esteja associada ao segundo, para além do pormenor dos olhos, que nos episódios de narcolepsia estão fechados (como se estivesse a dormir) e no segundo caso tendem a ficar vidrados (sem movimento). Mais, um cão narcoléptico respira normalmente e não esperneia quando afectado pela doença, enquanto o sujeito a um ataque cardíaco, quando debaixo do seu efeito, tende a entrar em convulsão e a apresentar dificuldades respiratórias. A narcolepsia canina pode manifestar-se desde tenra idade, ainda que nos dois primeiros meses de vida seja pouco perceptível, porque os cachorros passam a vida a dormir.
Dos milhares de cães que nos couberam, nenhum apresentou sintomas ou episódios desta doença, o que não invalida que ainda algum nos caia em mãos. Quando resgatados das ruas, os cães narcolépticos dificilmente largarão os centros de acolhimento, a menos que se encubra o seu problema. A doença não é fatal mas requer cuidados no seu recobro. Por estas e por outras, endogamia não, obrigado, porque a doença está a estender-se a outras raças que ainda se encontram sujeitas a este rudimentar e nefasto processo de selecção. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O MUNDO À NOSSA VOLTA: DILMA ROUSSEFF APEADA

Não sabemos se o “Impeachment” que despachou a “Presidenta” Dilma Rousseff é bom ou mau para os brasileiros, só a eles caberá dizê-lo. Certo é que o desencanto, a contestação e a revolta contra esta mineira de Belo Horizonte saíram à rua e em força. Oxalá quem lhe suceder traga estabilidade e estenda a educação ao povo, já que o resto virá por acrescento. Dizemos isto sem nos querermos imiscuir em casa alheia, somente por trazermos os campos do Sul do Brasil no coração e os gaúchos nos transportarem para um estado de alma que julgávamos para sempre perdido (Tchê Barbaridade!). Ademais, se há uma Nação refulgente à qual não somos indiferentes, o Brasil é certamente a maior delas, atendendo à história e língua comuns. Força Brasil! 

NÓS POR CÁ: ROMARIA A CAVALO MOITA – VIANA DO ALENTEJO

Partiu hoje, às 09H00, da Moita para Viana do Alentejo a tradicional “Romaria a Cavalo”, um dos maiores eventos equestres nacionais, prevendo-se que chegue ao seu destino por volta das 17H00 do próximo dia 23. Esta é uma tradição já antiga que teve um interregno de 70 anos, sendo retomada em 2001. A tradição foi instituída pelos antigos lavradores da Moita, que se deslocavam com os seus animais ao Santuário de Nossa Senhora D’Aires para pedir protecção e boas colheitas. Hoje, mais do que um acto de fé, esta romaria é uma festa marialva que pouco difere da Feira da Golegã, sendo de bom-tom participar nela, que parece replicar as romarias equestres feitas no país vizinho, nomeadamente na Andaluzia. Agora que “a bênção dos animais” está de volta e se exalta Francisco de Assis como seu padroeiro e protector, muitos cães acabam também benzidos por vontade dos donos, não sendo de estranhar que um dia destes alguém se lembre de fazer uma romaria com cães, até porque os há próprios e experimentados para a tracção, capazes de transportar qualquer ícone (pensamos que Igreja não se oporia). Quanto aos nossos cavaleiros ribatejanos e alentejanos, desejamos que façam boa viagem e que assim continuem, mas que não se esqueçam duma coisa: o País fez-se a cavalo e o Povo está farto de andar de gatas!

A RITA DO BOLT

Recebemos ontem um email da Rita Nabais, que já deverá ser arquitecta, dirigido ao editor deste blogue, conhecida entre nós  pela “Rita do Bolt”, que por ser muito extenso não o publicaremos na íntegra. Começa assim: “Espero que não se importe que lhe esteja a enviar um email. Depois de ter ficado sem telemóvel e, consequentemente, sem o meu número habitual, dirigi-me várias vezes a (…) para pormos a conversa em dia. Só depois percebi que também já não andava por lá. Desde já, espero que se encontre bem! Apesar da distância nunca me esqueço de si. Nem o meu cão mo deixava! O ano em que frequentei a Acendura Brava foi sem dúvida um dos melhores anos dos meus humildes 25. Não só porque estava finalmente a saber lidar com o meu Bolt, como também estava a aprender muito sobre uma espécie que toda a vida me fascinou: o cão. E por isso, estou-lhe genuinamente grata. Como sabe, mesmo quando deixei a escola, tentei ao máximo continuar com os hábitos de treino, nomeadamente o andar e o junto. Era raro o dia em que não cumpria os 5km diários com o meu parceiro. E ele feliz da vida! Até conseguimos reunir um grupo de binómios para nos acompanhar todos os dias, depois de jantar. Já lá vão 3 anos e ainda hoje esse hábito continua. No entanto, numa versão adaptada”.
O Bolt é um Whippet, agora com seis anos e são dele as fotografias que ilustram este artigo, um pequeno lebrel, frágil, tímido e muito dedicado à dona, que lamentavelmente não foi acompanhado como deveria ter sido na sua fase de crescimento, sendo por norma atrito a lesões de difícil recuperação (fracturas inclusive). Ultimamente, como fez saber a sua dona, viu-se a braços com uma hérnia discal, que para além da incapacidade provocada, fê-lo passar de 14 para 8.5 kg. Pensou-se o pior e o panorama não era animador, as opiniões dos veterinários consultados eram contraditórias: uns inclinavam-se para a operação e outros descartavam essa hipótese pelo risco. Depois de 4 internamentos num espaço de 15 dias, finalmente começou a recuperar, saindo do último internamento pelo seu próprio pé e sem apoios, sendo ainda capaz de fazer as necessidades sozinho. Os medicamentos que lhe foram aplicados quase lhe deram cabo do estômago e hoje o seu peso ronda o que sempre teve. Actualmente encontra-se a recuperar num centro de reabilitação animal.
No seguimento do email, diz a sua dona: “… já não pode fazer o exercício que fazia mas consegue levar uma vida de qualidade. As caminhadas passaram de 5 km para 2,5 km e as corridas são moderadas consoante o conforto em que se encontra nessa semana. Continua a acompanhar-me para todo o lado e quando o mando ficar quieto ou em andamento se lhe digo ''troca'', fica todo animado e sai a trotar com passadas mais abertas … A perna esquerda ficou um bocado afectada, pois houve nervos que foram estrangulados com a explosão da hérnia. Mas cá estamos! Não podemos parar de trabalhar mas enquanto eu puder, de tudo farei para que ele esteja sempre bem”.
Que elações podemos tirar deste email? Como são várias não as abraçaremos todas, mas destacaremos as que nos parecem mais prementes. A que mais sobressai é o amor da dona pelo cão, porque nunca desistiu dele e tudo faz para melhorar a sua qualidade de vida, no que está de parabéns apesar de ser sua obrigação (há quem não a cumpra e não se sinta constrangido). A segunda, advinda da que acabámos de destacar, aponta para a necessidade de se ouvirem vários pareceres clínicos sobre a terapia a aplicar aos nossos cães nas situações mais graves. Destaca-se também a necessidade, por vezes a sorte, de se encontrar um veterinário apto para acompanhar o fase de crescimento dos cachorros, porque se ela for descuidada, os cães terão menor qualidade de vida e andarão sempre a correr para os consultórios veterinários. E por último, o apego aos procedimentos escolares aprendidos na escola pela Rita, que os mantém para reforçar a unidade binomial e garantir o código que possibilita a mútua comunicação e o estabelecimento das rotinas inerentes à sã coabitação de ambos. À parte disto e pessoalmente, agradeço à dona do Bolt as palavras elogiosas, que sendo para mim um incentivo, dão-me alento para ir adiante nos momentos em que me sinto mais frágil ou abatido, até porque não são só os cães que precisam de carinho. ”Em frente” miúda, adorei ter sido teu mestre. Valeu a pena!

terça-feira, 19 de abril de 2016

HOJE FOI O DIA DA FINLÂNDIA

Hoje foi o dia em que Finlândia nos deu maior número de visitantes: seis (6), novidade que nos encheu de alegria e que queremos ver aumentada, porque pretendemos estender o debate sobre cães até aos confins do Mundo. Não esperamos o Pai-Natal da Finlândia mas gostaríamos de dar-nos a conhecer e trocar pontos de vista com os finlandeses acerca da cinofilia, canicultura e cinotecnia, cientes que esse intercâmbio a todos interessaria. Tervetullut (sejam bem-vindos)!

NOVO VOCABULÁRIO CINOTÉCNICO: ODOROLOGIE/ ODOROLOGY

Parece-nos que o vocábulo inglês “odorology” e o seu correspondente francês “odorologie”, ainda não têm correspondência na língua portuguesa, que provavelmente virá ser “odorologia” (isto dizemos nós), por se tratar da “ciência dos odores”. Odorologie/odorology é uma técnica que utiliza cães especialmente treinados para identificar o odor humano nas investigações policiais, no intuito de determinar se um indivíduo esteve presente na cena do crime, sendo por isso um complemento forense. Não obstante, ainda não existe qualquer norma internacional que regule o treino destes cães, que desde há muito são usados para esse fim, ajudando em muito os investigadores, apesar da sua certificação não ter sido até agora considerada como elemento de prova.
No “Centre de Recherche en Neurosciences de Lyon (CNRS)”, da Universidade Claude Bernard Lyon 1 (França), investigadores especializados em odores e na sua memorização analisaram os dados fornecidos pela Divisão da Polícia Técnica e Científica (DTSP, Ecully) desde 2003 sobre as performances dos cães em tarefas de identificação de odores. Segundo os resultados que obtiveram, os cães destinados a essa tarefa, depois de treinados durante 24 meses, foram capazes de identificar o odor do indivíduo certo em 85% dos casos e nunca o confundiram com outro, conclusões que validam os procedimentos actualmente em uso e que deverão convencer a comunidade internacional acerca da fiabilidade deste método.
Durante o treino básico, os pastores alemães e belgas da polícia (foram estes os testados) aprendem a combinar dois odores do mesmo indivíduo mediante tarefas cada vez mais complexas. Até ao términos do seu adestramento específico, os animais farejam um odor humano de referência e em seguida terão que identificá-lo entre cinco odores humanos diferentes. Perante o seu acerto e ao deitarem junto do frasco certo, os cães são recompensados com uma guloseima ou com uma brincadeira do seu agrado. Os odores humanos usados são recolhidos através dum objecto que uma pessoa tenha tocado ou directamente do seu odor. Apesar dos 24 meses de treino serem necessárias para que os animais atinjam performances estáveis e óptimas, logo a metade do treino (aos 12 meses), os cães já não cometem erros de identificação, não confundindo o odor de uma pessoa com o de outra. Como o treino propicia o aumento da sua sensibilidade olfactiva, o seu acerto ronda os 85%. Os 15% de insucesso verificados não ficaram a dever-se aos cães mas à má qualidade das amostras. Conclui-se também que os Pastores Alemães obtiveram melhores prestações que os Belgas por serem mais disciplinados e atentos (outra coisa não seria de esperar).
Ao concluírem a sua habilitação, os cães tornam-se capazes de participar em processos criminais e receberão formação contínua ao longo da vida. Na prática, cada teste de identificação é confirmado no mínimo por dois cães, cabendo a cada um dois ensaios bem-sucedidos com o mesmo odor, que lhe é dado a inalar no início da tarefa ou num dos frascos que o cão irá farejar. Entre 2003 e 2016, estes cães foram utilizados em 522 casos e ajudaram a resolver 162 deles. Como as amostras de referência nestes casos tinham sido depositadas algumas horas ou dias atrás, os pesquisadores pretendem agora que os cães detectem odores mais antigos, amostras que poderão ser guardadas em locais próprios ao longo dos anos. O presente estudo é um desafio para as escolas caninas, já que com relativa facilidade conseguirão habilitar os seus cães nesta área, fazendo dela um jogo e complemento, trabalho descontraído ao seu alcance e muito do seu agrado.