terça-feira, 24 de abril de 2018

NÓS POR CÁ: O QUE CELEBRAREI AMANHÃ

Amanhã celebra-se o 44º aniversário da Revolução do 25 de Abril de 1974, não comprarei nenhum cravo vermelho para pôr na lapela e não participarei em nenhum acto cívico evocativo da “Revolução da Liberdade”, também não verei nenhum canal televisivo português e arredar-me-ei das festas e comícios que por aí houver. Como já não sou jovem e nenhuma revolução altera a natureza das pessoas, vou deixar-me de euforias e celebrar a minha mocidade.
Ao olhar para o que foi esta Revolução e para o disparate dos seus primeiros anos, compreendo agora que poderia ter sido substituída por um período de transição, como aconteceu em Espanha, o que seria melhor para o País e não o empobreceria. Mas os portugueses andam há séculos nisto, no “deita baixo e começa de novo”, começando sempre do zero para não alcançar coisa alguma. E se para termos democracia poderíamos dispensar uma revolução, o que dizer do Regicídio de 1908, seria preciso matar o Rei para alcançarmos a República? Um referendo não bastaria? Não estará o Presidente da República da nossa democracia a ocupar o lugar do rei? Pelas incumbências não há dúvidas e pelos afectos tampouco. O actual não é recebido como tal quando visita e consola o Povo?
Um bom “Dia da Liberdade” para todos, mesmo para aqueles que, abusando dela, continuam a roubar-nos impune e desalmadamente, como sempre fizeram. 

TRÊSCONTIGO

Eu não sou alentejano, apesar dos meus dois nomes próprios soarem a isso, mas admiro e respeito as gentes do Alentejo pelo seu muito saber, humildade e tradições, herança cultural que engrandece o pequeno País multifacetado que somos, onde o Oriente se cruzou com o Ocidente e deu-nos esta identidade singular. O gosto de ouvir os mais velhos desenvolvi–o quando moço, depois do jantar, a escutar as narrativas de tempos idos da boca da segunda mulher do meu avô, que apesar de não ser do meu sangue, foi a melhor avó que alguém podia ter. O hábito ficou-me e numa das últimas descidas que fiz ao Alentejo, assomei-me de três idosos que falavam dum primo que fora dos fuzileiros, de quem diziam ser “boa praça”, maroto e amigo de cães.
Como a conversa metia cães e não queria perder pitada, cumprimentei-os, perguntei se incomodava e ali fiquei a ouvi-los com muita atenção. O dito primo, que havia trabalhado com cães na Guerra Colonial, mesmo depois de ter terminado o Serviço Militar Obrigatório, continuou a tê-los e a criá-los, não consentindo a ninguém conhecer os seus nomes, porque entendia que se distraíam e que acabavam por fazer amizade com quem não deviam.
Independentemente do seu número, sexo ou idade, todos tinham o mesmo nome e quando lhe perguntavam como se chamava algum, a resposta era sempre a mesma: “Trêscontigo”, resposta que muitos entendiam como uma ofensa pessoal e que os obrigava a afastar-se daqueles cães para não se exasperarem com o dono. E como não há duas sem três, dizem, dali em diante e por brincadeira, os cães daquele Monte passaram todos a chamar-se assim, ainda mais porque a polícia política não gostava de cantorias, vinha fora de horas e não era nada meiga. 

PRINCES AND BEGGARS

Eu bem sei que os cães resistem mais à vadiagem do que certos homens, mas também sei que muitos sem-abrigo são-no por ausência de outras opções. Eu não tenho como resolver os problemas do mundo, mas sei que poderíamos suavizar a miséria e o sofrimento de muitos se fossemos mais solidários uns com os outros. O que eu não sei, ou talvez saiba, é porque valem os homens aos animais mais depressa do que aos seus iguais. Na próxima Quinta-feira, dia 26 de Abril, a BowWow Haus vai realizar um leilão de canis/barracas de luxo no St Pancras Renaissance London Hotel, unidade hoteleira de 5 estrelas em Kings Cross, na Capital inglesa (um sitiozinho modesto para se ir passar o fim-de-semana com a família a Londres)
A pensar nos donos mais endinheirados e devotos dos seus cães, um grupo de designers e arquitectos de nomeada, decidiu construir canis e barracas de luxo com traçados inovadores, materiais maioritariamente dispendiosos e debaixo dos mais variados motivos. Segundo fizeram saber os construtores e organizadores deste evento, parte das verbas alcançadas destinar-se-á à Blue Cross, uma instituição de caridade fundada em 1897, que trabalha em estreita colaboração com várias outras organizações para promover o bem-estar animal e a posse responsável de animais de estimação.
Para se ter uma ideia do nome e do valor dos arquitectos e designers internacionais envolvidos neste projecto, adiantaremos alguns: Condy Lofthouse Architects, Eileen Goldenberg, Green Tea Architects, Jane Perkins, Spark Architects, Studio Octopi, Studio Shaw e Zaha Hadid Design. Quanto às “obras” é possível ver de tudo, mesmo o inesperado, desde um castelo canino incrustado de jóias a um ovo de ouro forrado a veludo, passando por uma barraca em forma de santuário e pelo primeiro canil anfíbio do mundo! Estas obras estarão patentes ao público nas Estações do metro londrino de St Pancras e Stratford.
Dizem as más-línguas para lá do Canal Inglês, que 1 em cada 200 britânicos é desabrigado, o que nos leva a perguntar, agora à Sr.ª May, para quando a construção de um bairro económico destinado aos mais desfavorecidos, que dispensam cadeiras de prata e talheres de ouro? Em Portugal não vale a pena perguntar, não há quem nos queira responder! Entretanto, nasceu ontem, no Dia Mundial do Livro e no dia consagrado a S. Jorge padroeiro de Inglaterra, o 3º filho do Princípe William e de Kate Middleton, um rapaz que será o 5º na sucessão ao trono britânico.
A loucura à volta dos cães está prestes chegar a um ponto em que já não saberão o que fazer com eles, insanidade em tudo idêntica à narrada no conto “O VELHO, O RAPAZ E O BURRO”, de quem deverá ser a sua segunda parte.
Os cães não precisam de ouro nem jóias e muito menos de barracas, castelos ou canis, precisam de alguém que não os menospreze e que esteja disposto a aceitar a sua cumplicidade e mais-valias, que não se importe de dividir a sua vida com eles. Um príncipe encerrado num canil é um prisioneiro e um cão preso a uma barraca é um condenado. Homens e cães nasceram para ser livres e caminharem lado-a-lado.

domingo, 22 de abril de 2018

VAI MORRER A FAZER O MESMO!

Aurora, uma miúda de 3 anos de idade, decidiu, sabe-se lá porquê, abandonar a propriedade rural da família em Cherry Gulley, perto de Warwick, em Queensland/Austrália e embrenhar-se pelo deserto selvagem de Southern Downs debaixo de frio e chuva.
Foi dada como desaparecida às 15 horas da passada Sexta-feira e reencontrada, viva e bem, às 8 horas da manhã do dia seguinte, Sábado (hora australiana), permanecendo desaparecida durante 17 horas. 
Nas frenéticas, árduas e nocturnas buscas, para além dos seus familiares, participaram 100 voluntários do State Emergency Service (SES), temendo muitos deles o pior, enquanto subiam colina atrás de colina numa montanha, dificultados pela vegetação de lantana e por encostas íngremes.
Kelly Benston, parceira de Leisa Bennett, que é a avó de menina desaparecida, foi a primeira pessoa a avistar o Max, um cão de gado australiano, próprio para o Outback1 descrito como um heeler2 azul, com 17 anos de idade, parcialmente cego e surdo, que nunca abandonou a menina nas suas andanças, mantendo-a segura e aquecendo-a inclusive durante a noite, já que esta ao ser resgatada apresentava um forte odor a cão. 
Foi o mesmo Max que encaminhou as buscas para a menina ao sentir a presença dos seus resgatadores, que apesar de cansada, apresentava apenas pequenos cortes e escoriações, sendo encontrada a 2 km de casa. Pelo esmerado cuidado e pela protecção oferecida, que alguém entendeu como bravura e lealdade, o Max recebeu o título de cão-polícia honorário, porque sem a sua ajuda a menina de 3 anos poderia ser encontrada em pior estado ou não ter sobrevivido.
Ao repararmos na foto do Max que encerra o 4º parágrafo, o que vemos para além de uns aprumos dianteiros irrepreensíveis? Tratará na sua coleira algum mosquetão fancy? Não. O que vemos é um rude fecho pecuário, igual ao usado no gado, que se quer seguro e duradouro, o que imediatamente denuncia o cão como um Landrace3 e um Kelpie4. Cães destes foram seleccionados para o trabalho e viverão para ele até poderem. O Max, caso se visse obrigado outra vez a zelar pela menina, voltaria a fazê-lo uma e outra vez – morreria a fazer o mesmo! 

1 OUTBACK é a designação pela qual é conhecido o interior desértico australiano. A região cobre boa parte do interior do país, muito embora não haja nenhuma demarcação ou fronteiras oficiais que indiquem onde começa ou termina. 2 HEELER  é um cão usado para recolher e juntar gado bovino ou ovelhas. 3 LANDRACE é um cão somente seleccionado pelas suas aptidões e adaptação num ecossistema específico, onde normalmente nasceu e se desenvolveu. 4 KELPIE é uma raça canina oriunda da Austrália, utilizada como cão de pastoreio. Acredita-se que seja aparentada com o Dingo e o Smooth Collie. O temperamento destes cães é descrito como atento, disponível e inteligente. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ O CANIBALISMO CANINO, editado em 12/04/2018
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ MELHOR SORTE PARA OS MABECOS!, editado em 20/04/2018
5º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
6º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
7º _ O AZEITE PRÀS CARRAÇAS, editado em 24/06/2010
8º _ O QUANTO A HIBRIDAÇÃO ENSINA E ESCLARECE, editado em 15/04/2018
9º _ AMAZON: 6.000 AT WORK, editado em 19/04/2018
10º _ O GUARDA DAS GALINHAS, editado em 05/04/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte ordem:
1º Brasil, 2º Portugal, 3º Ucrânia, 4º Estados Unidos, 5º Reino Unido, 6º Espanha, 7º Angola, Moçambique, 9º Rússia e 10º França.

WILLOW

O último Corgi da Rainha Elizabeth II, Willow, foi abatido no Castelo de Windsor neste ultimo Domingo (15ABR2018), para lhe aliviar o sofrimento provocado por um cancro. Escusado será dizer que Sua Majestade se encontra devastada com a perca do animal, que tinha quase 15 anos de idade. Willow foi a 14ª geração descendente de Susan, uma Corgi que lhe foi oferecida pelos seus pais por ocasião do seu 18º aniversário. O desaparecimento deste cão pode significar o fim de uma era, se o Willow for para a Rainha o último elo que a ligava aos seus pais e à sua infância. O cão agora desaparecido foi o último corgi sobrevivente a ter aparecido ao lado da rainha e do actor Daniel Craig no esboço de James Bond por ocasião da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres.
Nas últimas 7 décadas, a rainha possuiu mais de 30 Corgis e há alguns anos atrás deixou de criá-los devido à sua avançada idade. Tudo leva a crer que será a primeira vez em 75 anos que não haverá um Corgi entre os monarcas britânicos. Apesar do desgosto e da importância que o Willow tinha para a sua dona, Elizabeth II ainda tem 2 Dorgis, o Vulcan e Candy, que são resultado do cruzamento Corgi/Dachshund, animais que de alguma forma poderão atenuar o seu desgosto. O Palácio de Buckingham não teceu qualquer comentário sobre a morte de Willow, dizendo apenas que se tratava de um “private matter”.

LET DOMHNALL GO!

DONHNALL é um Irish Wolfhound com 6 anos de idade, que é a mascote dos Guardas Irlandeses, sitiados no Quartel do Regimento em Hounslow, a oeste de Londres. Tudo indica que se encontra doente, atribulado com algum problema relativo à displasia coxo-femoral, afecção muito comum nestes cães e nos cães de raça grande em geral.
Os soldados da unidade atrás mencionada, sentindo a sua mascote doente, têm andado ultimamente com os ânimos exaltados, porque entendem que o cão deveria ser reformado e objecto de maiores cuidados, que não deveria prestar serviço naquelas condições, como se fosse obrigado a trabalhar até à morte.
A este respeito foi pintada nas paredes do Quartel uma frase que diz tudo: "Justice 4 Domhnall". Esta reivindicação espelha a revolta dos squaddies1, que amam a sua mascote como ninguém e que não querem vê-la morrer precocemente no cumprimento do dever, adiantando que o Exército da Rainha, atendendo ao estado de saúde do cão, está a causar-lhe maus-tratos.
O Domhnall, cujo nome significa "Líder Mundial" em gaélico, serve com os Guardas Irlandeses desde 2013 e tem participado em vários desfiles cerimoniais. Este cão militar é conhecido pela sua predilecção pela Guinness2 e já foi premiado com um trevo por Kate Middleton durante uma parada do Dia de São Patrício em Aldershot Barracks, no ano de 2014.
Estamos em crer, conhecendo o amor dos ingleses pelos cães, que o Domhnall não demorará muito a abandonar os desfiles oficiais e a ser aposentado, ainda mais quando a Rainha Elizabeth II, que gosta de cães, é o Comandante-Supremo das Forças Armadas Britânicas.
1 Nome pelo qual são chamados os soldados britânicos. 2 A Guinness é uma cerveja irlandesa cuja história teve início em 1759, quando Arthur Guinness alugou uma fábrica em Dublin, na Irlanda, e começou a produzir a sua cerveja. Em 1862 adoptou a Harpa irlandesa como símbolo.

UM COELHO SAÍDO DA CARTOLA

O Dr. Luis Pedro Coelho e colegas do Laboratório Europeu de Biologia Molecular, em colaboração com a Nestlé Research, avaliaram o microbioma1 intestinal de duas raças de cães e descobriram que o conteúdo genético do microbioma dos cães mostrou muitas semelhanças com o microbioma intestinal humano, sendo mais semelhante do que o microbioma encontrado em porcos ou ratos. O mesmo Dr. Coelho, autor correspondente do estudo, comentou a propósito: “Encontrámos muitas semelhanças entre o conteúdo genético dos microbiomas intestinais humanos e caninos. Os resultados dessa comparação sugerem que somos mais parecidos com o melhor amigo do homem do que inicialmente pensávamos." Os pesquisadores descobriram que as mudanças na quantidade de proteínas e carboidratos na dieta tiveram um efeito similar na microbiota2 de cães e humanos, independente da raça ou sexo do cão.
Verificou-se que os microbiomas de cães com sobrepeso ou obesos respondem melhor a uma dieta rica em proteínas em comparação com os microbiomas de cães magros; isso é consistente com a ideia de que microbiomas saudáveis são mais resilientes. A importância desta descoberta levou o autor atrás citado deste estudo a concluir: “Estas descobertas sugerem que os cães poderiam ser um modelo melhor para estudos de nutrição do que porcos ou ratos e poderíamos usar dados de cães para estudar o impacto da dieta na microbiota intestinal dos seres humanos, e os humanos poderiam ser bom modelo para estudar a nutrição de cães. "Muitas pessoas que têm animais de estimação consideram-nos como parte da família e, como os humanos, os cães têm um problema crescente de obesidade. Portanto, é importante estudar as implicações das diferentes dietas.”
Os cães do presente estudo foram todos alimentados com a mesma dieta-base de ração comercial disponível durante quatro semanas, depois foram randomizados em dois grupos: um grupo consumiu uma dieta rica em proteínas e pouco carboidrato e o outro grupo consumiu uma dieta rica em carboidratos3 e baixa proteína também num período de quatro semanas. Um total de 129 amostras de fezes caninas foram colectadas às quatro e oito semanas. Depois, os pesquisadores extraíram o ADN dessas amostras para criar o catálogo do gene do microbioma intestinal de cães, que continha 1.247.405 genes. O catálogo do gene do intestino canino foi comparado com os catálogos de genes existentes no microbioma intestinal de humanos, Os autores advertem que, embora humanos e cães hospedem micróbios muito semelhantes, eles não são exactamente os mesmos micróbios, mas cepas muito próximas da mesma espécie.
Dito isto e a propósito, sempre recordo alguém que dizia e com muita razão: “O que não serve para mim, não serve para o meu cão!” Não é novidade para ninguém que o salmão criado em viveiro é uma grande porcaria, por ser cancerígeno e não apresentar as vantagens para a saúde do que é criado em liberdade. Que salmão irá para às rações caninas? Como o criado em liberdade é mais raro e muito mais caro, dificilmente irá lá parar. Diante destes factos, julgo que por ignorância, ainda há gente que dá rações aos seus cães com base em salmão e que o come a um preço bastante acessível e convidativo. Tem dono que é cego!
1 Microbioma = Comunidade estável de microrganismos de um ecossistema. 2 Microbiota = Comunidade de microrganismos que partilham o interior de um organismo vivo. 3 Carboidrato = Composto formado pela combinação de moléculas de água com as de outro composto. = CARBO-HIDRATO, HIDRATO DE CARBONO.

MELHOR SORTE PARA OS MABECOS!

Quem adora a canicultura e ousa produzir cães de trabalho, não deve desinteressar-se pelos seus congéneres selvagens, animais que de tempos a tempos e de acordo com as necessidades acabam por beneficiar raças de cães domésticos já existentes ou contribuir para a formação de novas, como aconteceu com os Cães de Sulimov e com o Volkosoby, respectivamente descendentes do Chacal e do Lobo. Raças de cães-lobo não faltam por aí, umas procuradas e outras acidentais, as primeiras resultantes da avidez humana e as últimas da invasão pelos cães do território dos lobos, como acontece um pouco por toda a parte e em particular na Etiópia, cujos lobos assentam sobre uma estrutura matriarcal e onde o número de híbridos já é maior que o seu, o que está a condenar à extinção o Lobo-Etíope (Canis Simensis), também conhecido por Lobo Abissínio.
Até à presente data não são conhecidos nenhuns híbridos operados pelos Cães Selvagens Africano (Lycaon pictus) e Asiático (Cuon alpinus), conhecidos respectivamente por Mabeco e Dhole, contrariamente ao sucedido nos Estados Unidos, onde duas espécies caninas selvagens, lobos cinzentos (Canis Lupus) e coiotes (Canis latrans), se miscigenaram dando origem a um híbrido identificado como Coywolf, animal que de há alguns anos a esta parte tem também gerado híbridos com cães domésticos (Canis Lupus Familiaris).
Como dissemos atrás, não são conhecidos nenhum híbridos resultantes do cruzamento entre Mabecos e cães domésticos, também não sabemos se tal seria viável e quais seriam as possíveis alterações psicológicas e sociais nestes canídeos em relação aos cães domésticos. Sem pôr em causa a necessidade de protecção de que o Mabeco tem sido alvo, hoje a espécie só tem 6 600 indivíduos em toda a África, estes cães selvagens, caso fossem compatíveis com os nossos cães para efeitos de reprodução, poderiam dotá-los de uma maior sociabilização inter pares, o que implicaria num melhor trabalho em grupo (matilhas), numa autonomia funcional superior, no reforço ou num maior impulso ao conhecimento, maior êxito nas capturas e uma resistência deveras superior, já que os Mabecos conseguem deslocar-se a 41 quilómetros horários atrás das suas presas em períodos até uma hora, facto a que o seu pouco peso (25 kg) não deve ser alheio. Apesar das vantagens atrás citadas, é melhor deixar os Mabecos em paz.
Se os Mabecos teriam muito a acrescentar aos nossos cães de trabalho, o que dizer do Dhole, um formidável cão selvagem pouco conhecido no Ocidente, com grande esperança de vida, 50 cm de altura, peso entre 12 e 20 kg, um caçador inveterado e de excelente olfacto, que come frutas silvestres, insectos, répteis, mamíferos e que em matilha caça praticamente tudo, desde roedores até cervos, mostrando especial predilecção por javalis, lebres, cabras selvagens, carneiros e até macacos, e que usa de diferentes técnicas de caça para capturar a multivariedade das suas presas? Como curiosidade adianta-se que este cão pode dar saltos no ar ou ficar de pé sobre as patas traseiras na tentativa de avistar as suas presas, que um animal adulto pode comer mais de 4kg de carne numa hora e que dois ou três Dholes podem matar um cervo de 50 Kg e que em menos de 2 minutos começam a comê-lo. O Cão Selvagem Asiático (Dhole), contrariamente ao seu congénere africano, não se encontra em vias de extinção, habitando uma vasta área que vai desde as montanhas Altai na Manchúria (Nordeste da Ásia) até às florestas da Índia, Burma e o Arquipélago Malaio. Este cão selvagem, e nisto é único, não mata pelo ataque ao pescoço, come as suas presas vivas, devorando-lhes os intestinos, a cabeça, o fígado e os olhos.
Voltando aos Mabecos e ao esforço em preservá-los entre nós, segundo uma notícia divulgada pelo jornal sul-africano online timeslive.co.za, uma matilha de Mabecos, constituída por 8 machos e 6 fêmeas, saiu de Phongola, em KwaZulu-Natal /África do Sul, rumo Parque Nacional da Gorongosa, a noroeste da Beira, em Moçambique, onde lhe foi oferecido um novo espaço de vida e reprodução dentro dos 400 000 hectares daquele parque, parque que anteriormente já havia tido matilhas de Mabecos residentes e que desapareceram durante a Guerra Civil Moçambicana, ocorrida entre 1977 e 1992. A Gorongosa é hoje gerida conjuntamente pelo Governo Moçambicano e pela Fundação Carr dos Estados Unidos (graças a Deus!).
Os Mabecos agora reintroduzidos na Gorongosa foram capturados na Reserva de Caça uMkhuze em KwaZulu-Natal (KZN) e na Reserva de Caça Maremani no Limpopo. Chegaram àquele parque moçambicano transportados por um avião ligeiro, sedados e amordaçados, equipados com colares de GPS e coleiras VHF para se operar o rastreamento dos seus movimentos e ser também possível vaciná-los contra a cinomose canina e a raiva. Antes de serem libertados na reserva principal, considerando a sua adaptação, passarão de 6 a 8 semanas em áreas mais restritas e com maior vigilância. Para se ter uma ideia mais aproximada do problema relativo à sobrevivência dos Mabecos, basta dizer que, apesar de terem sobrevivido durante 400 anos em várias partes da África, em apenas 50 anos foram extintos em 25 países.
A presente transferência de Mabecos teve o apoio de vários pilotos, que trabalharam gratuitamente, e da Endangered Wildlife Trust, uma organização ambiental sul-africana para a conservação de espécies e ecossistemas ameaçados no sul da África, que pôs no terreno o Dr. David Marneweck para ajudar na transferência destes Cães Selvagens Africanos.
Desejamos aos Mabecos recém-chegados a Moçambique melhor sorte do que a têm tido alguns empresários portugueses ali, que em má hora daqui saíram, acabando cadáveres nos sítios mais impensados ou desaparecendo sem deixar rasto (nem os abutres fariam um serviço tão limpinho!). Mesmo que o Mabeco e o Dhole nunca venham a reproduzir-se com os cães domésticos, as virtudes e mais-valias destes cães selvagens, porque são necessárias, poderão servir de exemplo, constituir-se em novos desafios e indicar novos objectivos para os criadores de cães de utilidade, não fosse o Homem o maior agente transformador da natureza.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

AMAZON: 6.000 AT WORK

A Amazon.com não foi só uma das primeiras companhias com alguma relevância a vender produtos na Internet, continua na vanguarda e não pára de inovar, encontrando novas estratégias, dando aos seus clientes o que procuram, promovendo-se e publicitando-se sem enfraquecer os lucros. Quando reparei no nome do seu Chairman, Presidente e CEO, apesar de achar difícil, pensei tratar-se de um latino, porque “Bezos” é-o com as letras todas. Curiosamente, Jeff Bezos não tem mais nada de latino a não ser o nome, e tem-no porque foi adoptado pelo segundo marido da sua mãe, um imigrante cubano chamado Miguel “Mike” Bezos.
Acontece que na sede da empresa deste senhor, uma transnacional gigante no comércio electrónico mundial, em Seattle, no Estado de Washington, os cães dos seus funcionários podem ir para o trabalho com os donos. Segundo o último censo, já é possível contar 6 000 cães no horário do expediente, inovação que nesta matéria a coloca na vanguarda e como um exemplo seguro.
Tudo parece ter começado logo no início da fundação da empresa, quando um casal de funcionários da Amazon levou o seu Corgi Galês, Rufus, para o trabalho, pelo menos é isso que a Amazon adiantou para a agência noticiosa ABC NEWS.
Como já se esperava, também os balcões de recepção daquela sede estão abastecidos com biscoitos e outros mimos para cães, para além de muitos pontos de água para os refrescarem, tudo no melhor estilo “DOG FRIENDLY” (sempre ouvi dizer que quem não sabe ser caixeiro fecha a loja).
É evidente que em tão boa companhia, os funcionários estão felizes e mais motivados. Segundo fez saber um porta-voz da Amazon, os nomes caninos mais populares na sede da empresa são Lucy, Bella e Charlie. Entretanto, alguém instituiu o dia nacional “TAKE YOUR DOG TO WORK DAY”, que este ano acontecerá no dia 22 de Junho.
Do jeito que as coisas vão e caso estivéssemos em 1957, os russos, ao invés de enviarem a cadela Laika para o espaço, teriam enviado algum amotinado checheno ou sírio. Ironia à parte, não duvido que a maioria dos cães venha a acompanhar os seus donos ao trabalho, até porque cada vez mais se trabalha em casa.

OS NOSSOS TURCOS

Da Turquia, a quem os ingleses chamam de “peru”, dos finados Impérios Romano e Bizantino, país longínquo e misterioso, sobre o qual sempre recai alguma suspeita e que reclama estar no centro do Mundo, onde a Europa se esfuma e a Ásia começa, terra natal do grande molosso Kangal (Sivas Kangal köpeği) e outrora destino dos judeus sefarditas em fuga, poucos leitores temos, o que não causa estranheza a ninguém, já que mais de 90% dos turcos são muçulmanos praticantes e como tal, os cães são para eles animais impuros. Hoje, porque não são leitores muito assíduos, tivemos 3 visitantes turcos e decidimos mencionar o seu interesse por nós, adiantando-lhes desde já o nosso mais sincero bem-vindo, sem sabermos se serão de origem arménia, curda, sefardita, yazídi ou outra.
A antiga cidade de Constantinopla (cidade de Constantino), hoje Istambul, que foi capital do Império Romano, do Império Bizantino e do Império Latino, antes de ser conquistada pelos turcos, ainda conserva alguns dos seus faustos monumentos, salientando-se entre eles a Basílica de Santa Sofia, dedica à Segunda Pessoa da Trindade, que depois de ser conquistada pelo Império Otomano, em 1453, por ordem do Sultão Mehmed II, passou a mesquita, sendo adulterada com estruturas islâmicas como o “mihrab”, o “mimbar” e os quatro minaretes.
Há muito para ver na Turquia, porque o país é grande em extensão e história, pleno de contrastes e rico em paisagens, inclusive algumas inigualáveis, como é o caso da Capadócia, onde parecemos ter chegado a outro planeta. Ir até à Turquia é levar um banho de oriente, acompanhar a evolução missionária do cristianismo nos seus primórdios e conhecer lugares bíblicos citados no Antigo e Novo Testamento. A quem não se interessa por história e religião, não faltarão motivos de interesse neste país, que sabe receber e tem muito para oferecer, que tem tanto de antigo como de moderno, apesar de ter alguma dificuldade em se manter pacífico.

quarta-feira, 18 de abril de 2018