Um
alentejano e um algarvio entraram na mesma barbearia. Enquanto estiveram a ser
atendidos, não houve qualquer troca de palavras e o silêncio imperou, porque os
barbeiros temiam que qualquer conversa descambasse em séria discussão. Quando
terminaram de fazer a barba aos seus clientes, que aconteceu sensivelmente ao
mesmo tempo, o barbeiro do algarvio ia pôr-lhe um pouco de aftershave, coisa
que o cliente não deixou com o seguinte argumento.” Nada disso, não quero! A
minha mulher vai sentir esse cheiro e pensar que eu estive numa casa de passe!”
Em face disto, o barbeiro do alentejano perguntou-lhe também se desejava ou não
aftershave, ao que ele respondeu: “Ponha bastante, compadre! A minha mulher
nunca lá esteve, por isso não conhece o chêro!” E assim estalou o maior
pé-de-vento naquela barbearia.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
NA VÉSPERA LAMBEU-LHE A CARA E NO DIA SEGUINTE MANDOU-O PARA O HOSPITAL
Depois
de uma noite mal dormida, por conta de um gato que se deitou na minha almofada
a ronronar e que não tive coragem de escorraçar, sou interpelado na rua por um
homem maduro, que ao saber-me treinador de cães e querendo ouvir a minha
opinião, insiste em contar-me um episódio passado com um cão que outrora teve,
próprio para guarda e que apenas queria para animal de companhia.
Segundo
me fez saber, o cão era do mais dócil e meigo que havia, não vendo por isso
necessidade de o treinar ou mandar treinar, apesar de ser teimoso e de só fazer
aquilo que lhe apetecia. Na véspera de um fatídico dia, o cão saltou para o
sofá e fartou-se de lamber-lhe a cara, enroscando-se nele como se fosse o
melhor dos seus bens.
No
dia seguinte, depois de lhe ter dado um comprimido de antibiótico envolto em
fiambre e de lhe ter virado as costas, o cão jogou-se ao dono furiosamente,
rasgando-lhe em vários pontos as costas e o braço esquerdo, ferimentos que
obrigaram o homem a urgente tratamento hospitalar, acabando o cão recambiado
para abate. Não obstante, passados alguns anos, decidiu comprar um cão da mesma
raça para o mesmo fim, tão parecido com o anterior que parecia seu irmão,
manifestando inclusive os mesmos comportamentos abusivos.
Assustado
com o ocorrido no passado e temendo a sua repetição, o desfortunado homem perguntou-me
se o novo cão lhe poderia fazer o mesmo e se era conveniente treiná-lo.
Obrigado a pensar nos mistérios do rosário de Fátima para não ser extemporâneo
e indelicado, depois de breve e retemperante pausa, apercebendo-me de imediato
que o problema não residia nos cães mas na impropriedade do dono, pormenor que
não lhe manifestei, disse-lhe que todos os cães carecem de algum tipo de treino
e que ele torna-se obrigatório para os mais robustos e valentes para se
evitarem acidentes escusados. Subordinar cães nunca foi difícil, difícil é
promover donos, libertá-los da insanidade e revesti-los da liderança que alguns
cães não dispensam! Para que quererá aquela alminha, cujo físico já mal
responde, um cão fortemente territorial e bélico? Só porque aprecia a raça ou será
que pretende livrar-se precocemente das agruras desta vida?
HÁ QUE CONSIDERAR O PESO E ALTURA
Visando
a harmonia binomial, o conforto dos donos, o bem-estar canino, o seu
robustecimento e uso (acção e inacção, prontidão e travamento), há que
considerar a altura e peso dos dois membros que constituem um binómio, para que
nenhum deles entre em esforço ou seja desaproveitado isoladamente pela
impropriedade do outro. Existe de facto uma relação óptima entre o peso do dono
e o do cão, devendo o primeiro pesar mais metade do peso encontrado no animal
(ex: o cão pesa 38kg, o dono deverá pesar no mínimo 38+19 = 57kg), porque
doutro modo o líder binomial não poderá dar um palmo de trela ao seu
companheiro e dificilmente conseguirá suster os seus arranques quando
instintivos ou provocados, restando-lhe apenas como hipótese, para a
salvaguarda de terceiros, não largar a trela e jogar-se ao solo tal qual uma
âncora (estamos a falar de cães de trabalho, acima dos 22kg e de uso
convencional). É evidente que não estamos a tratar de cães previamente
condicionados e de condutores com esmerada técnica, nem tão pouco do uso de
acessórios que, sacrificando os animais, facilitam a sua condução e controlo,
muito menos da energia excepcional que alguns “peso-mosca” demonstram, mas de
gente comum e sem experiência prévia que decide iniciar e dar continuidade ao
treino do seu cão, que dispensa ali andar aos trancos e barrancos (vale a pena
começar o treino dos cachorros aos 4 meses de idade).
Existe
também uma relação óptima entre a altura do dono e a do cão, devendo o primeiro
medir mais 115cm sobre a altura ao garrote do animal (ex: o cão mede 65cm, o
dono deverá medir 65 + 115 = 180cm (1.8m). É sabido que essa diferença de
altura pode remeter-se somente a 100cm, particularmente se os condutores forem
jovens, objecto de selecção, activos e atletas, boa forma que não atingirão sem
esforço. Abaixo dos 100cm de diferença, os condutores ver-se-ão obrigados a dar
mais do que uma passada para manterem a capacidade de marcha dos cães
trotadores, o que inevitavelmente induzirá a maioria ao estoiro, nomeadamente
nas aulas colectivas de progressão alinhada, quer elas sejam lineares ou
circulares, onde o atraso binomial não pode ser consentido por prejudicar o bom
andamento das classes e obrigar à perca da cadência de marcha que se deseja
colectiva. Esclarece-se que o andamento natural canino que mais muscula é a
marcha, mais-valia que o treino não dispensa em abono do bem-estar e
capacitação dos cães, andamento que exige o acompanhamento lado-a-lado dos seus
donos (existem excepções (raras) que contradizem a fábula “A RÃ QUE QUERIA SER BOI”
de Jean de La Fontaine, condutores minúsculos cujas pernas parecem asas).
Se
o défice de peso dificulta os condutores, a sua pouca altura acaba por
prejudicar os cães, pelo que uns e outros, apesar de ninguém o querer dizer,
são considerados impróprios, a menos que sejam excepcionais e donos de uma
vontade que ultrapasse as suas limitações físicas, o que esporadicamente
acontece para espanto dos demais (já assistimos a vários casos). Assim, os
deslumbrados pelos cães gigantes, que pensam trabalhá-los e procuram quem os
faça crescer artificialmente, devem vir para o treino ataviados de “botas das 7
léguas” (sempre haverá gente que intentará dar um passo maior que a perna).
UMA COISA É SER SOCIÁVEL, OUTRA COMUNITÁRIO E OUTRA AINDA TERAPEUTA
Há
imagens que ficam e que nunca se esquecem, que sempre voltam à tona quando algo
as relembra. Ao falar do abuso sobre os cães alheios por terceiros, lembro-me
imediatamente da minha transição para a puberdade e das práticas católicas a
que me sujeitaram. Nascido no seio duma família beata, era obrigado a beijar o
anel do Sr. Prior e o Menino Jesus pelo Natal (na Páscoa também havia algo para
beijar), actos feitos por todos em correnteza e dos quais sempre tentava escapar
(por vezes conseguia). Do que eu não me escapava com facilidade era das velhas
à saída da catequese, que zumbindo como varejeiras, de dentes podres ou com as
placas a bater, sempre se atiravam aos miúdos para os beijar, dizendo-lhes “benza
ó Deus”. Talvez por aversão a tal irmandade, sem nunca ter sido federado,
tornei-me precocemente num bom atleta de velocidade. Chego a ter pena dos cães,
que perante a perplexidade, inoperância e desprotecção dos seus donos, se vêem
rodeados duma turba que os sacode, beija, acaricia, intenta dar-lhes de comer,
pede-lhes a pata, senta-os no seu regaço e chega até a dar-lhes ordens, apesar
dos pobres bichos, entregues àqueles diabos, não terem pedido tal aparato,
serem dominados pelo stress e intentarem esgueirar-se. E dono que com isto não
pactue é de imediato acusado de querer ou ter um cão anti-social. É de
estranhar que um País com tão poucos etólogos tenha um povo tão versado em
etologia! Será por isso que não encontram trabalho?
Como
não podia deixar de ser, o parecer popular está errado e confunde a necessidade
de um cão ser sociável com o seu uso comunitário, que é isso exactamente aquilo
que reclama. Todos os proprietários caninos, diante da actual lei sobre os cães
perigosos, são obrigados à sociabilização dos seus cães, o que não implica que tenham
a obrigação de transformá-los em mascotes para os beijoqueiros e restante
populacho, urbe com alguma dificuldade em controlar as suas emoções, que muitas
vezes não sai à rua com os seus cães mas que se diverte a aborrecer os alheios,
contra a vontade dos donos numa descarada pantominice. Tornar um cão sociável é
prepará-lo para viver em sociedade e condicioná-lo a obedecer às suas regras,
respeitando tudo e todos sem manifestar agressividade contra ninguém, tornar-se
um entre muitos sem incomodar os demais, danificar os seus bens ou perseguir
outros animais. Uma coisa é certa: os donos esforçam-se por educá-los e os outros
por estragá-los, tornando-os inquietos, desobedientes, abusadores, barulhentos
e pedinchões, obstando assim à sua saúde e salvaguarda, atitude generalizada e
abusiva que pode não esconder uma certa inveja.
Todos
sabemos que as sociedades actuais estão enfermas, que as relações entre os
homens são cada vez mais frias e impessoais, ora votadas à indiferença ora
norteadas pelo interesse, que o homem contemporâneo perde gradualmente a
família, sofre de isolamento, carece de identificação e afecto, de alguém que
esteja ao seu lado nos momentos difíceis, que o faça sonhar e ir para diante,
independentemente dos erros ou culpas que houvesse cometido. Sim, vivemos num
mundo deprimido e quase não damos por isso ao fechar a porta da nossa casa.
Na esplanada dum amigo que frequento, pelo menos 30% dos seus clientes
(deverão ser mais porque nem todos se confessam) sofre de variadas doenças
psíquicas que vão atenuando pelo recurso sistemático a ansiolíticos e antidepressivos
associados a soníferos. Quase todos assaltam desesperadamente os cães alheios
por necessidade terapêutica, na esperança que os cães possam valer-lhes,
particularmente quando já desistiram dos seus conjugues e se afastaram ou foram
afastados pelos filhos, também quando privados ou arredados da restante
família. Os cães poderão valer-lhes, servir-lhes de terapeutas? Sem dúvida, mas
não aqueles com que se cruzam, que são particulares e não se encontram preparados para
esse fim, acabando eles também vítimas de vários traumas e depressões.
Poderemos pedir bom senso a quem não o tem? Não. É melhor afastar os cães!
domingo, 13 de novembro de 2016
ACESSÓRIOS NECESSÁRIOS PARA O TREINO
Avisam-se
os alunos do 2º Curso de Adestramento de 2016 para a necessidade de comprarem
uma estaca para fixação na terra e uma trela extensível, tipo profissional, de
fita, com um mínimo de 6m de comprimento. O modelo da estaca indicada é o constante na figura acima. Esta estaca é necessária para o trabalho nos diferentes ecossistemas, quando importa prender os cães nos lugares onde tal
não é possível. A trela extensível, visível na foto abaixo, é um acessório
indispensável à prática das disciplinas de obediência e pistagem.
Estes
acessórios fazem parte do kit de adestramento comum e os seus benefícios são há
muito reconhecidos, por subsidiarem e acelerarem o processo de aprendizagem
canino. Por vezes não é fácil encontrá-los nas já raras lojas para animais.
Contudo, é possível encomendá-los e adquiri-los hoje através da Net. Convém também adquirir um canivete de podar idêntico ao da imagem seguinte, que nas deslocações ao exterior tem-se revelado de uma utilidade extrema.
E quando a acessórios não há mais nada a acrescentar, os esclarecimentos foram prestados e o aviso está dado.
E quando a acessórios não há mais nada a acrescentar, os esclarecimentos foram prestados e o aviso está dado.
RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS
O
RANKING semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º
_ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º
_ PARA QUE FIQUE BEM CLARO!, editado em 24/04/2015
3º
_ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º
_ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
5º
_ AS CADELAS E A LUTA PELA PRIMAZIA, editado em 07/11/2016
6º
_ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
7º
_ USA A CABEÇA MIÚDA!, editado em 10/11/2016
8º
_ MAKE AMERICA GREAT AGAIN OR LET MY TRY AGAIN?, editado em 09/11/2016
9º
_ QUE DIRECÇÃO TOMAR PARA O ENCONTRAR?, editado em 03/01/2013
10º
_ O MEU CÃO TOIRO por Sancha Costa Lobo, editado em 10/10/2013
TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS
O
TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte preferência:
1º
Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Reino Unido, 5º França, 6º Alemanha,
7º Roménia, 8º Quénia, 9º Holanda e 10º Bélgica.
-7.692%, O FADO DAS DUAS TABELAS DE CRESCIMENTO NOS CACHORROS CPA DE PÊLO COMPRIDO
Ninguém
pode afirmar com segurança, atendendo a proto-selecção efectuada no Cão de
Pastor Alemão, que o pêlo comprido se encontra ligado a uma só variedade
cromática, quer ela seja uniforme ou bicolor, porque desde sempre subsistiram exemplares
assim em todas as variedades cromáticas, ainda que em menor número entre os
negros e os lobeiros. A resistência aos CPA negros de pêlo comprido encontrou a
sua justificação na menor curva de crescimento desta variedade recessiva e da
possível confusão com o Pastor Belga Groenendael, que no final do Séc.XIX se encontrava
mais perto do CPA que actualmente. O menor número de lobeiros com o pêlo
comprido ficou a dever-se ao particular desta variedade, que normalmente altera
a sua pelagem de acordo com o relógio biológico, apresentando-se mais fulva nas
estações quentes e mais cinzenta nas frias. Não obstante, raro é o criador de
Pastores Alemães que não aceita o desafio de criar lobeiros de pêlo comprido,
que apesar de menos vistos, são de fácil obtenção e de assinalável beleza.
A
introdução de exemplares de pêlo comprido em linhas de Pastor Alemão de pêlo
duro, estratégia que oferece mais velocidade e melhor capacidade atlética aos
cachorros, para além de lhes melhorar a apresentação e a densidade da cauda, sempre
altera a relação entre a sua altura e peso, designadamente nos cachorros que
nascem de pêlo comprido, que ao chegarem à idade adulta pesarão menos 7.692% que os seus iguais de pêlo
duro. Esta alteração começa a notar-se logo aos 3 meses de idade, quando o seu
peso já se encontra desfasado com a altura. Nestas circunstâncias é normal que
um cachorro se encontre na tabela maior de crescimento em altura e na média em
termos de peso. Devido ao uso generalizado e por vezes arbitrário de Pastores
Alemães de pêlo comprido para a obtenção de exemplares de exposição, a
esmagadora maioria destes apresenta igual défice de peso em relação aos
exemplares destinados ao trabalho.
Tirar-se-ão
imediatamente exemplares de pêlo comprido do beneficiamento entre um progenitor
assim e outro recessivo nesse tipo de pelagem, mesmo que seja de pêlo duro.
Assim, em todas as variedades cromáticas do Cão de Pastor Alemão é possível
encontrar indivíduos de pelo comprido. O valor -7.692 resulta da comprovada
diferença de peso entre dois cães com 65cm de altura, pesando o de pêlo duro 40kg
e o de pêlo comprido 35kg (100x5:65= -7.692%). Ainda que seja possível tirar
exemplares de pêlo comprido em qualquer variedade cromática do CPA, existem
algumas que exigem cuidados especiais se quisermos respeitar a curva de
crescimento da raça e a relação saudável entre a sua altura e envergadura.
Alcançar exemplares preto-afogueados de pelo comprido não exige maiores
cuidados, desde que o exemplar de pelo duro não seja demasiado leve, o que a
acontecer iria perpetuar uma linha de pernaltos.
Já
no que concerne à produção de exemplares de pêlo comprido negros ou fígado
uniformes alguns cuidados há que respeitar, considerando o particular destas duas
variedades precoces, com uma curva de crescimento mais curta e por norma com
uma ossatura mais leve. O exemplar de pêlo comprido a utilizar, para além de ser
recessivo naquelas cores, deverá ter uma cabeça sólida, boa ossatura, ser
comprido e ter um perímetro torácico mínimo de 86cm, porque doutro modo os
cachorros serão muito similares aos encontrados nas ninhadas de Groenendael,
mercê da raiz atávica comum. Há também que escolher a altura certa para se
fazerem as ninhadas, cujo nascimento deverá ocorrer no final do Verão, para que
os cachorros apanhem pela frente as duas estações do ano frias e cresçam mais,
porque se apanharem as mais quentes, bem depressa alcançarão as suas diferentes
maturidades e estabilizarão o seu crescimento, o que não é nada conveniente.
Nesta matéria, o que é verdade para negros e fígado é também para os CPA red
fawn.
A
produção CPA’s brancos de pêlo comprido é a nosso ver desnecessária e
atentatória do bom-nome desta variedade cromática, porque ela é naturalmente
propensa ao gigantismo e grande número dos exemplares brancos de pêlo comprido
apresentam défices de peso, ossatura e envergadura anormais, ainda que costumem
ser atletas de nomeada, evidenciando uma apresentação tangente à encontrada nos
“grasshoppers” (gafanhotos), demasiado leve e pernalta. Para além da escolha
acertada do progenitor para a produção de cachorros brancos, contrariamente ao
que se exige nas restantes cores sólidas, os cachorros brancos deverão apanhar
pela frente as duas estações do ano mais quentes, não dispensando em simultâneo
o enriquecimento das dietas, já que o seu manto repele os raios solares e os
seus benefícios. Também os cruzamentos feitos às escondidas entre a variedade
branca e os exemplares de linha estética da raça é deplorável, porque põe em
risco as mais-valias que o branco carrega para melhorar o Pastor Alemão, uma
vez que não foi objecto das selecções desastrosas que condenam hoje a raça.
Eis-nos
chegados aos lobeiros de pêlo comprido, variedade muito procurada, de rara
beleza e marca de prestígio para quem a cria. A variedade lobeira comum carrega
problemas advindos da proto-selecção (pouca ossatura e porte), não é das mais
comilonas e exige dietas ricas, pelo que nenhum progenitor poderá ser
recomendado se tiver fraco impulso ao alimento, for pernalta e leve de
ossatura, o que não é raro acontecer entre os criadores que criam a variedade
isoladamente (sem o contributo das outras). Um lobeiro robusto deve essa
qualidade à contribuição do preto-afogueado, que naturalmente apresenta melhor
cabeça, envergadura e ossatura, sendo desejável que tenha pelo menos 4/8 da sua
construção nesta variedade cromática. Exceptuando o branco, o lobeiro é a
variedade que apresenta uma curva de crescimento maior, o que não impede que
muitos exemplares sejam pequenos e famélicos, impropriedades que ficam a
dever-se à precariedade das dietas e a uma procura obsessiva por maior
velocidade.
Como
são raros os lobeiros de pêlo comprido, importa primeiro construir um lobeiro
sólido para depois o beneficiar com um exemplar de pêlo longo, exemplar que deverá
pesar no mínimo 36kg, não ser demasiado comprido ou pernalta, possuir uma
crânio volumoso e ossatura forte, não ser demasiadamente estreito de peito,
apresentar bons aprumos, ter um bom perímetro torácico, não ser demasiado
estreito de rim e apresentar uma garupa forte e modelada, porque o cruzamento
arbitral entre lobeiros e indivíduos de pêlo comprido, quando gera lobeiros com
este tipo de pelagem, não traz ao mundo uma prole de encher o olho. No que diz
respeito ao perfil psicológico do cão de pêlo comprido a beneficiar o lobeiro,
importa que tenha bons impulsos herdados ao alimento e ao conhecimento, porque
doutro modo poderá gerar cachorros famélicos e arredios. O facto de um cão ser
de pêlo comprido não o torna melhor que outro de pêlo duro, sucedendo por norma
o contrário.
Lobeiros
de pêlo comprido são animais que exigem dietas ricas, que geralmente não
dispensam a comida fresca e uma dose diária de 750g de carne na fase de
crescimento, que obrigam a um acompanhamento próximo desde tenra idade e que
carecem de espaço para correr e brincar. Diga-se em abono da verdade: ter um
lobeiro de pêlo comprido, que normalmente é alto, com menos de 36kg aos 12
meses de idade é no mínimo deplorável.
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
LEONARD COHEN: ALELUIA PARA TI TAMBÉM!
Morreu
hoje, com 82 anos de idade, o cantor, compositor, escritor e poeta canadiano
Leonard Cohen, o homem das notas graves, cuja carreira musical durou cinco
décadas. Das muitas composições que deu ao mundo, destaca-se o álbum e a canção
“Hallelujah”(Aleluia), tema que o tornou mundialmente conhecido. O seu estilo
inconfundível viria a influenciar outros intérpretes bem para além das
fronteiras do Canadá. Descendente directo da original Tribo de Levi e de judeus
ashkenazis, este cantor intimista e romântico tornou-se universal pelo carisma que
emprestou aos temas que cantou. Como “Aleluia” (הַלְלוּיָהּ)
em hebraico significa “louvai ao Senhor” e Cohen cantou a vida e a paixão,
sentimo-nos gratos a Deus pelo uso deste cantor, que sendo simples foi grande e
aplaudido por multidões. “תנוח על משכבך בשלום”,
Leonard!
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
USA A CABEÇA MIÚDA!
Hoje
recebemos um email da Rita Nabais, uma nossa ex-aluna e arquitecta recém-formada,
proprietária de um Whippet chamado Bolt com qual frequentou as nossas classes
de ensino em Lisboa. O pequeno lebrel exige hoje cuidados especiais com a sua
saúde devido a uma hérnia discal, que de alguma forma lhe condiciona o tipo e a
carga do seu exercício diário. A Rita pretende ter outro cão e pediu-nos
opinião, adiantando-nos que agora trabalha 8 horas diárias (felizarda, há quem
não tenha trabalho!). É nossa opinião que não deve adquirir um segundo cão,
independentemente do seu tamanho e grau de actividade, considerando o aumento
dos encargos e a pouca disponibilidade, o bem-estar do cão afectado e o virtual
acompanhamento do vindouro. Adquirir um segundo cão obriga à divisão da atenção
pelos dois animais no mesmo período, o que pode não ser suficiente para nenhum
deles, porque o primeiro reclama por amparo e o novo por cumplicidade. A somar
a isto, assistir-se-á ao aumento das despesas, o que não é nada desejável para
quem agora começa a trabalhar e que normalmente aufere um baixo salário.
No
que aos cães diz respeito, porque o novo não será para sempre pequeno e o Bolt
encontra-se diminuído, é mais do que certo que venha a dominá-lo, traição que o
pequeno galgo certamente dispensará e não merecerá. Sabemos que os lebréis são
naturalmente taciturnos e um pouco arredados, animais presentes que parecem
ausentes. A presença de um segundo cão no seu território mais agravará o seu
desapego e ostracismo, podendo induzi-lo ao stress e à infelicidade. Quando
temos um cão fragilizado, a última coisa que devemos fazer é aborrecê-lo com
outro! É evidente que podemos arranjar uma cadela para o acompanhar, o que de
imediato resolverá os problemas hierárquicos mas que obrigará à esterilização
da fêmea. Há casos em que um cão segundo ajuda na recuperação doutro já
existente, mas não nestas circunstâncias. Conhecendo o Bolt como o conhecemos,
entendemos que ele deve ser cada vez mais acarinhado, dispensado de amizades
forçadas e ser objecto da atenção exclusiva da dona. E depois Rita, dois cães sozinhos
num apartamento não fazem companhia um ao outro, sofrem ambos de ansiedade pela
chegada do dono. E se mal tens tempo para um, porventura terás mais tempo para
dois? Ama o cão que tens, suaviza-lhe o caminho e honra a sua lealdade, cresce
com ele e muito aprenderás. Já pensaste em ser mãe? Que grande mãe darias! Felicidades.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
MERGULHAR NO PASSADO: O REGRESSO DO DEUS-CÃO
Ao abraçarmos a deidade
atribuída aos cães actuais, que explicaremos e justificaremos em seguida,
lembramo-nos automaticamente do esforço feito por alguns letões, quiçá pela
necessidade de reforço da sua identidade, em redescobrir e restaurar os seus ritos
pagãos anteriores ao cristianismo (Séc.XIII), entendido por eles como religião
opressora. Já no Séc. XVIII e decididamente no XIX, século que ficou ali também
conhecido como o do regresso ao neopaganismo, com base em alguns documentos e
apoiados no folclore, alguns poetas e escritores decidiram ressuscitar os mitos
populares, gente de um nacionalismo incontestável e de alguma forma ligada ao
“Movimento Nova Letónia”, dos quais destacamos Andrejs Pumpurs, Juris Alunāns e
Mikelis Krogzemis, mitologistas que por ausência de cânone, decidiram eles
mesmos inventar as suas próprias divindades.
Por toda a parte e o no
Mundo Ocidental com maior incidência, o cão está em vias de alcançar um
estatuto quase divino, lugar que já ocupou na mitologia dos grandes impérios e civilizações
da Antiguidade que nos fascinam e influenciam, apesar do seu papel actual não
se confundir com o que lhe foi atribuído por egípcios, hindus, gregos, romanos,
germanos, celtas e escandinavos. Com o declínio das igrejas históricas e o
aumento do ateísmo, também com a perca de parâmetros e o incremento da
subjectividade, parece haver um recrudescimento do paganismo e cresce o culto à
volta do cão, um deus de quatro patas, doméstico e descartável, que muitos
juram antropomórfico, fácil de adoptar e bem ao gosto popular, sem unanimidade
de culto mas que é glorificado globalmente pelas suas múltiplas intervenções em
prole da Humanidade, cada vez mais descontente com os seus governos e
governantes.
Assim, cresce a dogmática ao
redor do deus-cão, dizem que é essencialmente bom, que a sua maldade provém dos
homens, que ninguém é tão leal como ele, que nunca abandona os seus, que se
contenta com pouco, que está sempre pronto a ajudar e que tem muito parar dar.
Há ainda quem diga que quanto mais conhece as pessoas, mais gosta dele, quem o
use como conselheiro matrimonial e celebre o seu casamento, quem o prefira aos
filhos, quem o vista ricamente e quem faça inúmeros sacrifícios por ele, quem
trabalhe gratuitamente no seu resgate, quem pague fortunas para adquirir um e
quem faça dele uma indústria. É rara a grande metrópole que não lhe dedica um
monumento, há quem diga que tem lugar no Céu, os seus mausoléus expandem-se por
toda a parte, é objecto da admiração e da veneração populares, tem leis que o
protegem, fazem-no guardião das famílias e guerreiro, elogiam os seus feitos,
imortalizam os seus actos no cinema e na televisão, está presente nos
noticiários, suporta uma imprensa própria, é cada vez mais terapeuta e o seu
número não cessa de aumentar. Será o Séc.XXI o século do cão, o do retorno a
uma divindade pagã que havíamos esquecido ou agradamo-nos dele simplesmente
porque o inventámos, é moldável e aumenta a nossa auto-estima? Ao amá-lo assim
não estaremos a prestar culto a nós mesmos?
MAKE AMERICA GREAT AGAIN OR LET MY TRY AGAIN?
À imitação do ditador
Adolf Hitler, que também foi eleito, Donald Trump ganhou as eleições
presidenciais norte-americanas, tornando-se no 45º Presidente daquela grande e poderosa
nação. Substancialmente menos eloquente que o seu falecido mentor austríaco,
numa campanha rasgadamente emocional e indecorosa, com discursos próximos aos
que edificaram o “nationalsozialismus” há 80 anos atrás, Trump seduziu o
eleitorado branco, mormente o mais ignorante e pertencente ao subproletariado, com
as suas impiedosas considerações xenófobas, racistas e sexistas, rebentando
pelo voto os dois partidos do “establishment” norte-americano. A sua eleição
ficou a dever-se mais ao desacerto do “Partido Democrático” que ao apoio
recebido pelo “Republicano”, ao descartar o Senador Bernie Sanders, um judeu de
Brooklyn e apoiar como candidata democrata a desgastada Srª Clinton.
Partidário duma política
do tipo “America über alles” ou “America gegen alles”, Trump recebeu de
imediato as felicitações dos líderes radicais da extrema-direita europeia, que
aguardavam com rara ansiedade a sua eleição e que foi para eles motivo de
redobrada alegria. Foi também prontamente felicitado por Vladimir Putin, líder
da Federação Russa com aspirações a ditador. Deseja-se que a eleição de Trump
não resulte em trampa e o mundo entre desnecessariamente em guerra mais uma
vez. O Planeta tem sido governado até à presente data por ocidentais, o que não
garante que amanhã não venhamos a ser governados por orientais, pois há que
contar com a China, sempre à espreita de ocasião. Do governo dos ocidentais já
sabemos o que esperar, da governação chinesa nem queremos imaginar. Se Trump reencarna
o espírito do homem nascido em Braunau am Inn, sem grande dificuldade
levantarão os chineses outro Gengis Khan. Dispensamos uns e outros – o Mundo
necessita de paz!
DONALD AT HIS BEST
O
TEXTO QUE SE SEGUE É UMA PIADA. Recém-empossado no
cargo, Donald Trump toma conhecimento de um violento terramoto que deixa o
Iraque, o Irão e a Síria totalmente destruídos, situação que deixa o mundo em
choque e que leva algumas nações a prestar auxílio àqueles desafortunados
países muçulmanos. A ONU manda soldados para ajudar a manter a paz, a Arábia
Saudita envia petróleo, os países latino-americanos enviam roupas, a Alemanha
alimentos, o Canadá envia equipas médicas e medicamentos, o Reino Unido
engenheiros, os países asiáticos enviam trabalhadores para ajudar na
reconstrução, a Austrália e a Nova Zelândia doam gado e sementes. Donald,
depois de breve pensar sobre o auxílio a prestar, decide repovoar aqueles países, enviando para lá os 6
milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos.
PIADA DA SEMANA: UMA TESTEMUNHA ÀS DIREITAS
Durante
um julgamento numa pequena cidade, o advogado de acusação chamou a sua primeira
testemunha, uma senhora de idade avançada a quem perguntou se o conhecia,
merecendo dela a seguinte resposta: “Claro que te conheço. Conheço-te desde
pequenino e, francamente, desiludiste-me. Mentes descaradamente, enganas a tua
mulher, manipulas as pessoas e falas mal delas pelas costas. Julgas que és uma
grande coisa mas eu nem para limpar fossas te contratava. Claro que te conheço,
e bem!” Embasbacado pela surpresa, o advogado apontou para o seu colega da
defesa e perguntou à velhinha se também o conhecia, ouvindo da boca dela a
seguinte sentença: “Claro que sim. Também o conheço desde a infância. É frouxo,
tem problemas com a bebida, não consegue ter uma relação normal com ninguém e
como advogado é um dos piores que já vi. Também sei que engana a mulher com
três mulheres diferentes, uma das quais, curiosamente, é a tua mulher. Sim,
conheço-o. Claro que sim”.
Com
os advogados em estado de choque, o juiz chamou-os à sua presença para lhes dar
uma palavrinha em particular e disse-lhes em voz baixa: “Se algum dos dois
perguntar à velha se me conhece, juro que vão os dois presos!”
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
AS CADELAS E A LUTA PELA PRIMAZIA
Por estranho que pareça,
não estamos a falar de animais castrados, é muito mais fácil sociabilizar cães
entre si do que cadelas, porque as fêmeas são por norma mais impiedosas umas
com as outras. Por causa disso, temendo que o seu guardião venha a ser
ludibriado por uma fêmea com o cio, há quem opte e bem por um casal de cães
para guardar os seus bens, já que a cadela residente bem depressa escorraçará a
intrusa, incentivando o macho a seguir-lhe os propósitos. Na constituição de
uma matilha funcional de ambos os sexos, a haver problemas de sociabilização,
eles certamente eclodirão entre as fêmeas. Quando duas fêmeas entram em cio em
datas diferentes, a que tardar em alcançá-lo, mesmo que até ali tenha sido
subordinada pela outra, sentindo-a mais vulnerável, procurará inverter a
situação e alcançar a primazia.
Se numa casa já houver uma
cadela residente e o seu dono optar por adoptar ou hospedar outra já adulta, a
primeira tudo fará para “meter na ordem” a recém-chegada, que ao sentir-se
também aconchegada e sendo rija, breve ripostará. Em casos como estes exige-se que
o dono faça saber quem ali manda, não permitindo a nenhuma delas o despoletar
de picardias. Se os machos lutam pela conquista de novos territórios, as fêmeas
lutam desalmadamente pela defesa do território que lhes foi atribuído, resistindo
à sua divisão com outras. Naturalmente submissas a quem lhes provém o sustento,
lutam também pela atenção e carinho dos donos, pormenor geralmente entendido
como uma manifestação de ciúme.
Uma cadela mais nova quando
confrontada com uma mais velha e frágil, sendo ambas territoriais, não hesitará
em tomar o seu lugar, pelo que importa proteger a mais idosa, que vendo-se
assim acossada, cada vez mais se afastará dos seus donos temendo as represálias
da sua rival. Com mais facilidade se sociabilizarão cães com cadelas, duas
cadelas castradas entre si e outras de raça diferente. Sim, as cadelas lutam
pela predilecção dos donos e pelo domínio sobre as outras.
NÃO LHES GASTEM OS NOMES!
Se os
cães falassem mandariam calar muitos donos, os mesmos que sem necessidade
apelam ao seu nome por tudo e por nada. Mas como não falam, é comum fazerem-lhes
“orelhas moucas” e gorar os seus intentos. Nenhum cão necessita de ser constantemente
chamado pelo nome para executar determinada figura ou evolução, pois para isso
assimilou o código, o que dispensa de imediato esse chamamento. O recurso
sistemático ao nome do cão, quando não se torna um vício, demonstra uma
liderança imprópria e/ou um condicionamento ineficaz, já que os comandos são
suficientes por si mesmos para as acções requeridas e dispensam o abuso neste
vocativo. Se entremearmos o nome do cão com as ordens, é mais do que certo que
elas acontecerão com maior delonga pela quebra de atenção provocada, pretexto
que os cães manhosos aproveitam para o seu incumprimento. A manha é de origem
ambiental e são os donos que a provocam nos cães, ensinando-os a ser assim pelo
desapego aos procedimentos. Quem gasta os
nomes cães acaba por desaproveitá-los e destruir a condição exclusiva da
obediência: o seu cumprimento pronto e imediato. Não lhes gastem os nomes, dominem
e persistam nos comandos.
FÊMEAS CPA: TREINO E POSTURA
Quando se treina uma
cadela Pastora Alemã e importa mantê-la com as orelhas erectas e em porte
majestoso, é de todo conveniente que se dê primazia às acções que lhe solicitam
a atenção, já que o seu impulso à defesa tende a ocupar o fraco impulso à luta
de que é portadora, porque doutro modo depressa abaterá as orelhas, mímica
própria de quem é submisso e acusa o stress, postura pouco intimidatória que
denuncia o particular do seu género. Esta postura indesejável resulta
geralmente das quebras de estímulo para a obtenção dos comandos básicos de
obediência, quando, por exemplo, se esconde o brinquedo do animal e lhe é
exigido o cumprimento duma figura, acusando a cadela o reforço da correcção
pela ocultação do brinquedo e pela postura corporal do seu treinador, peso que
somado leva à humilhação. Também as festas exageradas, massificadas em abraços
constantes, induzem à mesma postura, conforme já se comprovou cientificamente.
Por outro lado, as cadelas demasiado protegidas e a coabitar com os seus donos,
adquirem a mesma mímica pela inexistência de um serviço protector que as
obrigue a um estado de alerta.
Para resolver o problema
importa tirar partido dos comandos de obediência à distância, designadamente da
ordem de “quieto” com o animal de pé e com os donos entregues aos seus
afazeres, o que dotará a cadela de maior autonomia pelo reforço de carácter e a
fará estar atenta a tudo ao seu redor, mercê da observação a que se vê obrigada. Ao
invés de constantemente a andarmos a afagar, devemos esperar que seja ela a
solicitar os nossos mimos e não lhe endereçar diminutivos labiais que são
próprios para os cães mais frágeis, tal qual debicar de periquitos. Esta postura contraída pode também resultar
da variação na entoação dos comandos de obediência, que deverão ser dados numa
dicção calma e segundo a sua divisão silábica, porque só assim poderemos evitar
a contrariedade que gera o stress. Para além da atribuição de novas missões e
também por causa delas, convém que as cadelas sejam convidadas para a captura e
para o exercício da pistagem, exercícios que deverão ter lugar preferencialmente
à noite pelo reforço de sons e odores que esta oferece, obrigando-as por isso a
ser mais cuidadosas e menos relaxadas, até porque só anda de orelhas abatidas quem
não encontra razão para as arrebitar.
THEY LIVE AND DIE BY THE CODE
O Código é um conjunto de
comandos verbais, mímicos e sonoros a instalar nos cães, que ratifica, altera,
potencia e preserva comportamentos, visando a sua convivência e uso. Produto de
condicionamento prévio, primeiro assente nos afectos e na coabitação, ele possibilita
a comunicação interespécies para a unidade binomial homem-cão e tem como
consequência/prémio a mútua cumplicidade, também facilitada pelo carácter gregário
canino que não dispensa a liderança. A riqueza de um código, manifesta na maior
apreensão de ordens, sempre dependerá da herança genética e do quadro
experimental de cada cão, do seu impulso herdado ao conhecimento e da qualidade
dos seus mestres, mestria que deverá aproveitar os seus ciclos de maior
plasticidade física e cognitiva.
Não existe um código
universal para todos os cães, tanto em apresentação como em conteúdo, porque
tratamos com indivíduos e cada serviço pode exigir comandos específicos para a
prontidão nas díspares acções. A natureza e o número dos comandos a instalar
encontram-se cativos ao perfil psicológico de cada cão, porque só ele garantirá
a sólida investidura. O código instalado pode compreender, consoante os casos,
comandos de salvaguarda, terapêuticos e de auxílio; direccionais, de acção e
inacção; sensoriais, lúdicos e normativos; de ocultação e exploração; invasivos
e evasivos; de transporte, demolição, defensivos e ofensivos, todos com maior
ou menor duração que possibilitam o controlo dos cães à distância e com os
donos ausentes (autonomia condicionada). A resposta ao código melhora consideravelmente
com o treino e o tempo, factores que contribuem para o automatismo dos comandos
já instalados e que possibilitam o alcance de novos.
Todo e qualquer ensino
canino assenta sobre um código, por mais rudimentar que seja, porque doutro
modo jamais seríamos entendidos pelos cães e poderíamos usá-los. Mesmo não
sendo alvo de qualquer ensino, os cães aprendem por si mesmos códigos de
conduta, forçados pela dependência que lhes garante a sobrevivência, através da
observação do mundo que os rodeia e também forçados pelos instintos. O sucesso
e o insucesso que experimentam no seu dia-a-dia transformam-se-lhes em lições
de vida. Os diferentes grupos somáticos caninos, as raças que os constituem, o
género e o particular dos indivíduos, apresentam diferentes capacidades ou
graus de aprendizagem. Porém, essa capacidade poderá ser melhorada pelo
aproveitamento dos seus ciclos infantis, através duma experiência variada e
rica e pelo exemplo doutros cães mais capacitados e versáteis, que uma vez
observados, desafiarão os menos aptos e levá-los-ão a um rendimento superior,
porque todos os cães são competitivos. No adestramento, o que melhor se presta
a este propósito são as aulas colectivas constituídas por classes heterogéneas,
onde uns e outros se fazem presentes, ninguém fica para trás e todos saem a
ganhar.
Como não existe código sem
condicionamento e o primeiro carece de ser instalado sem atrasos, confusão ou atropelos,
cada figura ou acção a sugerir deverá obedecer sempre à mesma ordem,
independentemente da linguagem a utilizar, se verbal, corporal, sonora ou
composta pelas três, porque os cães não têm um dicionário de significados e não
devemos adquirir uma postura contrária à ordem que lhes solicitamos verbalmente.
O uso de diferentes comandos verbais para a mesma ordem, erro bastante comum
que causa atrasos e compromete a aquisição de novos comandos, ao preencher o
seu lugar, deverá ser de imediato eliminado pelo mal que causa, o que não
dispensa a chamada de atenção aos condutores em erro.
Sem a memória associativa
canina seria praticamente impossível estabelecer um código de linguagem com os cães
e encaminhá-los para um fim útil. Existe um triplo caminho para a atingir: pela
memória mecânica, pela afectiva ou pelo concurso das duas (qualquer das opções
apresenta vantagens e desvantagens). Se optarmos pela codificação somente
através da memória mecânica, pela simulação da lei do mais forte e a partir do
sentimento gregário canino, o código instaurado transformar-se-á em modo de
vida e os cães viverão em função da liderança, o que irá dificultar a sua
sobrevivência após o desaparecimento do seu líder, porque não aceitarão de bom
grado obedecer a terceiros e muito menos às suas ordens, porquanto se tornaram
impolutos e incorruptíveis, o que irá dificultar de sobremaneira a sua
reeducação (descodificação), que poderá não acontecer e condená-los à míngua e
à morte, facto há muito comprovado nalguns cães de guerra e de guarda.
Se optarmos exclusivamente
pela memória afectiva como fundamento do código, até o mais letal dos comandos
instalados será de fácil eliminação, bastando para isso trocar-lhes os alvos e recompensá-los
pelo acerto, estratégia que poderá exigir alguma delonga. Apesar da codificação
pela memória afectiva ser mais célere, o cumprimento das ordens tende a ser
mais demorado e dependente de circunstâncias particulares, porque é
maioritariamente alcançada pela euforia e não pela concentração. Se a
codificação obtida pela memória mecânica coloca os cães na estrita dependência
dos donos, a alcançada pela memória afectiva é accionada pelas circunstâncias
já conhecidas que são do agrado dos animais, o que tanto possibilita o seu uso por
terceiros como o seu roubo. Os cães destinados ao mundo do espectáculo (cinema
e televisão), quando ensinados assim e perante situações do seu conhecimento,
bem depressa assumirão os seus papéis por não lhe provocarem qualquer
estranheza, isto se os guionistas e guiões considerarem a sua experiência
prévia.
A junção da memória
mecânica à associativa para a construção dum código, onde o emitente é em
simultâneo um igual e um líder, induz os cães à procura do primeiro e ao
desprezo pelo segundo, aceitando o amigo e resistindo ao líder, usando de
várias manhas para retardarem o cumprimento das ordens, quer ensurdecendo-se
quer fazendo-se desentendidos. Os cães mais rijos desviarão o olhar perante as
ordens, fingirão estar doentes, lamberão o focinho ou estalarão os dentes, com
se não as tivessem ouvido (a manha não tem uma origem genética). É sabido que a
maioria dos donos não prima pela liderança, teme a confrontação e não se
encontra preparada para regrar cães dominantes, geralmente entendidos como
rufias por via de excepcionais impulsos à luta e ao poder. Perante esta
situação, alguns deles optam pelo misto das memórias para o estabelecimento do
código, na esperança de contrariarem a carga genética dos seus cães. Apesar de
ganharem a sua amizade, dificilmente conseguirão evitar os seus ataques
instintivos, que acontecerão com menor frequência mas que serão cada vez mais
violentos e inesperados.
Um cão muito-dominante
exige um dono inflexível e um condicionamento mecânico incontestável porque
carece de travamento, um submisso precisa do amparo que o torna audacioso e
apto para as tarefas ao seu alcance, não dispensando por isso a memória afectiva
que lhe transmite a segurança pela prévia experiência feliz. Se uns necessitam
de regra, os outros necessitam de alento. Alentar um rufia é dar azo ao disparate
e subjugar um submisso é convertê-lo numa estátua de sal, inibi-lo
definitivamente. Existem raças e indivíduos que não dispensam o concurso da
memória mecânica na instalação dos códigos e outros que só os alcançarão pelo
contributo exclusivo da memória afectiva (cada cão é um caso).
A blindagem ou protecção
dum código germina na relação óptima entre tratamento e treino, eleva-se na
estrita dependência do dono e firma-se no rigor do treino, que opera o desprezo
pela contra-ordem e que liberta os cães do suborno. E quando assim é, eles
vivem e morrem pelo código. Ao iniciarmos o treino de um cão há que saber para
que o queremos, se para nos valer ou para valer aos outros, se para uso
exclusivo ou para uso comunitário. Conhecedores das múltiplas mais-valias
caninas e apostados no bom-nome dos cães, sem dificuldade continuamos a
preferir a segunda hipótese, sabendo que nem todos os cães se prestam para isso e que ter um cão só para nós, não implica em termos um cão contra os outros.
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