sexta-feira, 16 de maio de 2014

PRETO-AFOGUEADO E LOBEIRO: DOIS IRMÃOS DE COSTAS VIRADAS!

Bem que poderíamos servir-nos da “História de Caim e Abel” como introdução a este artigo, mas como o José Saramago tinha uma especial predilecção por ela, ao ponto da interpretar mesmo não sendo um exegeta, fiquemos com a imagem de dois irmãos de costas viradas para explicar as diferenças entre estas duas variedades cromáticas presentes no Cão de Pastor Alemão, criadas em paralelo, eventualmente acopuladas e diametralmente opostas, considerando o tipo de eugenia por detrás de cada uma delas e os seus reflexos para a raça, na inevitável avaliação do seu passado, presente e perspectivas de futuro, segundo a marcha do tempo e as diferentes filosofias que politicamente acompanharam o “Cão de Stephanitz” até aos dias de hoje, nem sempre coincidentes ou decorrentes do seu propósito original. Em simultâneo, desnudaremos as soluções agora mais em voga e a sua validade, sabendo-se que o Cão de Pastor Alemão está enfermo e menos apto, o que tem diminuído a sua popularidade e interesse, levando alguns criadores oficiais a vender cachorros a 1/3 do valor de outrora, flagelo de que a actual crise não é a única responsável nem tão pouco a maior das suas causas.
Toda a gente sabe que o CPA nasceu debaixo dos auspícios científicos da escola britânica, que os escritos de Darwin e Galton influenciaram de sobremaneira os criadores que fundaram a raça, fazendo-a nascer e proliferar pela eugenia positiva, signo que imediatamente transformou este cão num auxiliar de e para o trabalho, princípio tantas vezes repetido por quem o idealizou e criou, mas que apesar disso continua lamentavelmente a ser desconsiderado, já que a validade laboral do Pastor Alemão nunca foi tão posta em causa como actualmente, mercê da exagerada endogamia que mais enraizou defeitos do que qualidades, ao ponto de, aqui e ali, se levantar o espectro da hibridação, o que já aconteceu. A troca de eugenias na selecção da raça, como não poderia deixar de ser, começa com a pressão dos nazis, que adeptos do “seu” arianismo, o fizeram estender também ao Pastor Alemão, achaque que culminou com a expulsão dos cães brancos. Depois da II Guerra Mundial, de uma maior sensibilização sobre os direitos dos animais e da perca progressiva de atribuições militares, o Pastor Alemão tornou-se cão-polícia e também nessas funções se destacou. Gradualmente a biodiversidade da raça foi-se perdendo, graças a opção castradora pela variedade preto-afogueada, que culminou com os cães de beleza, modelos díspares dos seus protótipos, de utilidade duvidosa e incapazes de devolver à raça as mais-valias que sempre a caracterizaram.
Entre o actual preto-afogueado e o ancestral lobeiro grandes são as diferenças, porque o primeiro separa, oculta, tira, prende e sobrecarrega, ao contrário do outro que une, revela, dá, alivia e liberta. Ao tornar-se variedade de eleição, mais numerosa e dominante na raça, o preto-afogueado oculta as variedades ancestrais, sonega a qualidade laboral, estagna-se em si própria e sobrecarrega a endogamia, como se a cor fosse o que mais implicasse na qualidade dos cães. Já o lobeiro estabelece a ponte entre o passado e o presente, revela na sua construção a indispensável biodiversidade, une e transporta as diferentes variedades cromáticas, alivia a consanguinidade e liberta os cães dos malefícios da endogamia, devolvendo-lhes as aptidões que desde sempre os destacaram. O actual preto afogueado é um “no place to go”, um “Ende der Zeile”, porque se encontra estagnado e não consegue sair donde está, a menos que dois ou mais exemplares dessa variedade se tornem recessivos noutra e cruzem entre si, o que não nos garantirá, em absoluto, a qualidade das variedades cromáticas ocultas por causa da dominância até aqui operada.
A precariedade do preto-afogueado há muito que é reconhecida e não é por acaso que hoje se assiste ao advento dos lobeiros, uns incólumes e advindos da eugenia positiva que o trabalhou seleccionou e outros salpicados da eugenia negativa que produziu o preto-afogueado actual, baseada na exclusividade da cor e nas delícias estéticas, a despeito do equilíbrio dos cães (físico e psicológico), à revelia da selecção natural, contra a perpetuação da raça e a sua evolução. Tudo isto tem contribuído para a sua falência, facto comprovado pela diminuição das suas ninhadas e pelo aumento dos criadores doutras variedades cromáticas, que como era de esperar, não cessa de aumentar, ainda que aqui tenha acontecido tardiamente, ao que não é alheio o menor número de classes de trabalho. Basear uma raça numa variedade bicolor isoladamente e só nisso, é remetê-la para os instintos, legar-lhe inquietude, insegurança e ansiedade, conservar-lhe a desconfiança predadora e comprometer a cumplicidade, pois assim acontece com o lobo e outros canídeos selvagens, que necessitam de camuflagem para perpetrarem ataques de surpresa. Afortunadamente, talvez com alguns votos contra, alguém conseguiu segurar os negros e os lobeiros dentro do estalão até hoje, caso contrário, o Cão de Pastor Alemão estaria irremediavelmente perdido. Terá sido o histórico da raça que os manteve? É bem possível!
Também os lobeiros não se sustentariam sem a contribuição dos negros, apesar da sua excelente máquina sensorial, porque exigem dietas mais ricas e variadas, tardam em se afirmar, delongam na cumplicidade e por tendência ou são pequenos ou pernaltos, perdendo com isso dissuasão, o que para companhias militares ou policiais seria impróprio ou caricato, já que desfilar com um “esganarelo” ou um “baixinho” seria no mínimo hilariante. A criação isolada de negros, erro em que alguns persistem, à imitação do que acontece no preto-afogueado, passadas duas gerações, legará à sua prole exemplares carentes de crânio e ossatura, o que tem obrigado esses teimosos à aquisição sistemática de novos cães e ao aumento das suas despesas para garantirem nas suas hostes a envergadura que a raça exige. O beneficiamento histórico para o trabalho sempre resultou da junção do lobeiro com o negro e hoje, algumas décadas depois e por necessidade, retornou e em força, sendo mais numeroso do que os beneficiamentos operados entre o preto-afogueado com o lobeiro ou com o negro, apesar de melhor servir à variedade unicolor a contribuição do preto-afogueado, como tantas vezes experimentámos, fomos bem sucedidos e recomendámos, muito embora os exemplares usados dessa variedade fossem descendentes de lobeiros e raramente tivessem alguma ascendência na mais recente linha estética.
Diz-se que “há males que vêm por bem” e isso aconteceu com os lobeiros, que desprezados pelos criadores dos preto-afogueados, viram-se obrigados durante décadas ao beneficiamento com outras variedades cromáticas originais, umas ainda aceites pelo actual estalão e outras somente admitidas nalguns países, maioritariamente recessivas, todas elas seleccionadas a partir do trabalho, a quem ficaram a dever a sobrevivência e a continuidade, exemplares azuis (cinzentos), brancos, cor de fígado, negros e vermelhos, possibilitando assim a perpetuação dessas variedades unicolores e alcançando para si 18 tonalidades de manto diferentes. Esse “virar de costas” acabou por estabelecer a separação entre as ditas linhas de trabalho e de beleza, a diferenciação a grosso modo entre “linha antiga” e “linha moderna”, como é costume ouvir-se por aqui. A contribuição dessas variedades unicolores acabou por dotar os lobeiros de maior autonomia funcional, mais firmeza e melhor parceria, consoante a participação dos brancos, vermelhos e negros, desde que equilibrados de carácter e sem qualquer insuficiência física. Disso conhecedores, ainda que timidamente, alguns criadores de beleza começaram a beneficiar os seus cães com lobeiros, dando origem a exemplares dessa variedade, “cães de trabalho” que apenas se diferenciam dos outros pela cor do manto, preto-afogueados camuflados em lobeiro.
É chegada a hora da reversão no Cão de Pastor Alemão, de reverter a beleza em trabalho e de retornar aos cães do passado recente, de devolver à raça a saúde e a qualidade laboral que sempre a destacaram, eliminando-se as disposições e os conceitos que tragicamente a carregaram até à presente data e que pouco a pouco a transformaram num “passarinho de quatro patas”. As disposições relativas à cor deverão ser revistas atendendo à necessidade da biodiversidade, da saúde articular, do equilíbrio psíquico e da concentração que induzem a um melhor impulso ao conhecimento e facilitam a parceria. Do ponto de vista morfológico importa dar combate ao abatimento de metacarpos, às mãos divergentes, ao descodilhamento, ao peito estreito, ao jarrete de vaca e à exagerada convexidade dorsal motivada pela excessiva angulação traseira, anomalias responsáveis por um conjunto de incapacidades locomotoras que obstam tanto à saúde dos animais quanto ao seu rendimento. A diferença de alturas entre machos e fêmeas deverá ser encurtada, para se acabar de uma vez por todas com o pernaltismo evidente nalguns exemplares, que se deve também à disparidade de pesos entre os sexos (de - 25 para 40kg). Mais do que na morfologia, sem contudo a descorar, a selecção da raça deverá considerar o trabalho como o primeiro dos seus pressupostos, já que para isso nasceu. Com isto não estamos a defender o desprezo pelas linhas actuais, até porque nelas se venceram flagelos como a displasia e outras imperfeições históricas, o que de algum modo as torna beneficiadoras, mas a manifestar-nos contra o seu uso exclusivo ou prioritário, uma vez que é sobejamente conhecida a sua insuficiente prestação laboral.
Há que aproveitar a aldeia global em que vivemos, enquanto é tempo, e reunir os pastores alemães dispersos pelos continentes europeu e americano, unir os pequenos nichos de criação espalhados pelo mundo para se evitar a saturação da raça, reencontrar o seu potencial original e proceder a uma nova selecção. Se persistirmos somente em adquirir cães da Republica Checa e da Áustria, breve estaremos com os mesmos problemas que afectam hoje a variedade cromática dominante. Importa vencer o êxodo da raça motivado pelas decisões políticas do pós II Guerra Mundial e proceder à reunificação do Pastor Alemão, deitar mão aos velhos “alsacianos” e recrutar pastores originários da África do Sul, da Bélgica, do Canadá, da Escandinávia, da França, dos Estados Unidos, das Ilhas Britânicas e da Rússia, para se fazer justiça a Stephanitz, vencer a consanguinidade e alcançar a multivariedade. E os Lobeiros terão nisso um papel determinante!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
3º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 15/06/2010
4º _ ROTTWEILER E SERRA DA ESTRELA: AQUILO QUE OS UNE E SEPARA, editado em 07/01/2010
5º _ EDIÇÃO ESPECIAL DEDICADA AO PASTOR VERMELHO, editado em 09/05/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O Top 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º França, 6º Bélgica, 7º Suíça, 8º Argentina, 9º Holanda e 10º Suécia. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

EDIÇÃO ESPECIAL DEDICADA AO PASTOR ALEMÃO VERMELHO

A edição de hoje é inteiramente dedicada ao Pastor Alemão Vermelho, variedade pouco conhecida entre nós e que ousámos recuperar. O texto que se segue, há muito esperado pelos apaixonados destes pastores e por muitos dos nossos leitores, é uma síntese do que recolhemos, fizemos, aprendemos e perpetuámos. Oportunamente voltaremos a este tema, sem dúvida apaixonante, que nos ocupou durante vinte anos e que nos congregou a outros com o mesmo sonho e vontade. Bem-haja para todos!

NON, JE NE REGRETTE RIEN!

Penso que todas as gerações tiveram e têm cantores de referência, vozes com as quais se identificam. Eu tive a felicidade de ouvir Sinatra, Pavarotti, os Beatles, John Lennon, Paul Simon, Bob Dylan, Keny Rogers, Willie Nelson, Joan Baez, Freddy Mercury e mais uns poucos, apesar de ter nascido a ouvir Caruso, Tristão da Silva, Francisco José, Amália, Joselito e Marisol. Entre os portugueses jamais esquecerei Tony de Matos, Zeca Afonso, Paulo de Carvalho, António Variações, Vitorino e Rui Veloso. Curiosamente, ao olhar para trás, foram poucas as cantoras femininas que guardei. Equivocado com facto, pus-me a pensar na causa de tal lapso, já que por vezes trauteio a “Das Lied eines Jungen Soldaten auf der Wacht” de Hans Leip e Norbert Schultze (Lili Marlene). Depois de algum matutar, descobri a causa: Édith Piaf, essa grande cantora de pequena estatura, já finada, com uma voz única, sempre profícua a derramar emoções e a soltar sentimentos, um vulto cuja sombra tem encoberto a maioria das cantoras para mim. “Non, je ne regrette rien” (Não, eu não lamento nada), um dos seus temas mais famosos e inolvidáveis, serve-me hoje de mote para falar dos Pastores Alemães Dourados, porque não lamento as horas que passei a pesquisar, a ouvir “experts”, a procurar, a adquirir e a criar tal variedade cromática, nem tampouco dos reveses que sofri. Valeu a pena, muito embora nunca me agradasse entregá-los a terceiros, não fora o caso de virem a ser mal empregues, o que sucedeu nalguns casos. Não obstante, ao criá-los desvendei alguns dos “segredos” presentes no Cão de Pastor Alemão.
Ainda antes de nos dedicarmos à procura e criação de Pastores Dourados, que nunca excederam os 8% dos nossos padreadores e passaram anos sem deixar descendência, apostámos na aquisição de lobeiros, que na década de 80 escasseavam em Portugal, porque ao tempo a procura e a moda inclinavam-se quase em exclusivo para os preto-afogueados. Essa aposta mereceu alguma reprovação por parte doutros criadores, que viam nisso um retrocesso ou um desnecessário retorno ao passado, que era exactamente isso que nós queríamos, já que a maioria dos pastores de então era de pouco ou nenhum préstimo laboral. Em simultâneo, também contra a corrente, apostámos na criação de Serras da Estrela de pelo curto. A nossa avidez pelos lobeiros proveio dos cães que adornaram a nossa infância, das prestações dos “Lobos da Alsácia”, do desejo de retornar ao “Honrad Von Grafrath” e da observação dos cães da GNR, na altura com vários e de excelente qualidade. Tal como esperávamos, o nosso esforço não foi inglório, porque os nossos lobeiros acabam por exceder todas as expectativas. Duas décadas depois deram-nos razão e o número de lobeiros aumentou consideravelmente. Hoje são ainda mais e como se costuma dizer: não há por aí nenhum bicho careta que não tenha um! Pela contribuição do Canil da Quinta do Prado, propriedade da Dr.ª Isabel Sampaio, conseguimos produzir um exemplar em tudo idêntico ao “Honrad” (Dourinho da Quinta do Prado) e daí alcançámos os lobeiros de pelo comprido, exemplares que, quando bem pigmentados, são de rara beleza. Também alcançamos os pastores cinzentos unicolores (azuis), graças ao contributo da variedade negra.
A demanda pelos Pastores Alemães Dourados (cor de areia, manto vermelho, solid red e por vezes red sable) aconteceu por termos visto um na adolescência que não esquecemos, por sabermos da sua raridade e termos conhecimento que os havia no Leste europeu, nas Ilhas Britânicas, dentro da Commonwealth e na América do Norte, ainda que em pequeno número. O Dr. Bruce Fogle espevitou-nos o interesse ao falar deles na sua obra e a partir daí nunca mais parámos na sua procura. Desde que começamos a criar Pastores Alemães até adquirimos o primeiro Pastor Vermelho, decorreram vinte anos. Finalmente conseguimos adquirir um proveniente da Ucrânia, exemplar único entre os seus irmãos, todos eles preto-afogueados: o “Tod”, que era cor de areia, media 64cm e pesava 36kg, um exemplar de pelo duro, mediano de cabeça, ossatura e impulso à luta, mas com uma capacidade de aprendizagem razoável. Infelizmente durou pouco tempo entre nós, apesar de ter deixado descendência, porque um Fila de São Miguel lhe arrancou vários dedos de uma das mãos por entre as grades do canil, vindo posteriormente a morrer. Os seus descendentes que alcançaram maior destaque laboral foram: O McLarambee, o Flikke, o Red, a Maia e a Kleine, o primeiro e a última ainda vivos, com 13 anos de idade e ambos propriedade da Dr.ª Maria Duarte. A Maia já faleceu, o Red está a chegar aos 8 anos e o Flikke terá um ano a menos.
Ainda que alguns os possam confundir, gente que a si mesmo se julga douta mas que na verdade nada sabe, são grandes as diferenças entre o Pastor Alemão Vermelho e o Malinois, exactamente as mesmas entre ele as restantes variedades cromáticas presentes nos Pastores, muito embora alguns malinois de malinois pouco tenham e haja quem os beneficie com Pastores Alemães, quando a agressividade está garantida e importa ganhar juízo ou envergadura, o que obviamente nem sempre acontece, agora que os Pastores Alemães estão mais leves e irrequietos. Porventura, e dizemos isto sem isto sem qualquer tipo de fleuma, alcançariam melhores resultados se viessem a valer-se de um rafeiro unicolor, sabendo-se que o Pastor Alemão é dominante na construção, havendo rafeiros que morfologicamente e sem atentar a grandes detalhes se confundem com os exemplares puros (porque raio teriam inventado o exame de confirmação/certificação ao 1 ano de idade?). Da cabeça aos pés, as diferenças entre eles são enormes (entre o Pastor Vermelho e o Malinois), a título de exemplo adiantaremos algumas por serem por demais evidentes: proporções craniofaciais, disposição de olhos, tipo de orelhas, dentição, manto, linha do dorso, comprimento, coeficiente de envergadura, configuração dos membros, inserção e comprimento da cauda, e a lista não esgota aqui! Para não favorecer a confusão entre as raças, os criadores de língua inglesa optaram por criar Pastores Alemães Vermelhos de pelo comprido, tentação a que não cedemos, porque o menor coeficiente de envergadura tende a diminuir a estabilidade emocional, já que os exemplares de pelo comprido têm por norma menos peso, ainda que nalguns seja visível um forte impulso ao conhecimento, o que a ninguém espanta e faz todo o sentido.
Se por um lado são grandes as diferenças que separam os Pastores Alemães dos Pastores Belgas, por outro não se pode ignorar a sua origem comum, considerando a proximidade geográfica entre a Alemanha e a Bélgica, os laços históricos, o intercâmbio comercial e cultural entre as duas nações vizinhas e o trânsito fácil de pessoas, bens e animais. Os ancestrais cães que deram origem aos actuais pastores vermelhos e também aos brancos, foram cães de pastoreio vermelhos, alguns cor de fogo, por vezes de frente aberta e calçados em branco, de pelo crespo (pelo de arame), algo semelhantes aos nossos podengos cerdosos, e que também estiveram na origem de todos os Pastores Belgas, em particular do Laekenois e do Malinois. Se é verdade aquilo que se diz acerca do Laekenois, o menos nervoso e consistente dos Pastores Belgas, o mesmo se aplica ao Pastor Alemão Vermelho, porque é um cão de um só dono, tendencialmente dominante, que intenta pastorear pessoas e animais, qualidades que o tornam mais rústico, precoce e de fácil ensino. O aparecimento de remoinhos no manto de alguns pastores alemães actuais, que geralmente surgem nas coxas ou no dorso, mais comuns nos cães descendentes das antigas linhas de trabalho, são evidências atávicas que os ligam aos cães originais.
Mais do que numa questão de alelos e sabendo-se de antemão que o Cão de Pastor Alemão evoluiu das cores uniformes para as bicolores, a origem do pastor alemão vermelho remonta aos cães de trabalho existentes na Turíngia e no Norte da Alemanha e que vieram a ser usados para moldar o padrão do Pastor Alemão, onde sobressaiam as cores champanhe, amarelo, cor de amêndoa, laranja e castanho, uniformes ou associadas à cor branca, ao mesmo tempo sua propagadora e extremo, já que é sabido serem os lobeiros e os brancos “cães de pintar”, variedades cromáticas que transmitem também à sua descendência as cores dos seus parceiros de cópula. A exclusão dos Pastores Alemães Brancos da raça, muito embora o termo “excomunhão” lhe assente melhor, que aconteceu quase por toda a parte, acabou por vitimar também os pastores vermelhos e os cor de areia, tornando-os cada vez mais raros e só existentes nos países que não acataram a expulsão da variedade alva, como foi o caso do Canadian Kennel Club, que tomou uma direcção contrária à tomada pelo American Kennel Club (AKC) em 1968, ao manter os cães brancos como parte integrante dos Pastores Alemães, o que alguém de imediato alcunhou de “Pastores Canadianos”. O varrimento dos Pastores Alemães Brancos e o consequente desaparecimento das variedades vermelhas uniformes, sem dúvida reflexo vergonhoso da eugenia negativa que o “nationalsozialismus” também tentou impingir aos homens, é uma afronta à eugenia positiva que presidiu à formação da raça e aos ideais do seu fundador (Stephanitz), que entendia ser a utilidade o seu critério de beleza, que a cor não influi na capacidade de trabalho e que se o cão é bom, a sua cor não pode ser ruim!
Como nunca dormimos com um exemplar do “Mein Kampf” à cabeceira da cama, nunca nos levantámos a fazer a saudação nazi e nunca achámos por bem apedrejar algum judeu, também porque não somos carneiros, decidimos retornar às variedades quase extintas no Cão de Pastor Alemão, para melhor compreender as suas origens, enigmas, pressupostos de criação e políticas de selecção, já que dificilmente alguém nos mandaria para um campo de concentração, optando pelos pastores dourados para esse fim, criando em simultâneo preto-afogueados, lobeiros, negros e cinzentos, dando a primazia às variedades cromáticas tornadas recessivas, estudando-as e testando-as para descobrir particularidades, possíveis diferenças, capacidades e incapacidades, menos e mais-valias, trabalho demorado e dispendioso, numa época em que os computadores ainda não tinham chegado aos comuns cidadãos e o acesso à informação era menos abundante, esforço apesar de tudo premiado pelo muito que aprendemos sobre o Pastor Alemão. Nunca foi nossa intenção operar a proliferação dos cães vermelhos, sempre resistimos à sua propagação, porque os abraçámos como um projecto pessoal, como uma “experiência laboratorial”, cedendo apenas meia dúzia deles a amigos ou a condutores creditados e experimentados, que justamente os mereceram.
A tardia expulsão da variedade branca nos Estados Unidos, que aconteceu 35 anos depois da deliberada pela “SV”, para além de permitir a perpetuação dos Pastores Alemães Brancos e de possibilitar o seu registo no vizinho Canadá, acabou por salvar também as variedades vermelhas uniformes, permitindo ao Pastor de Shiloh aproveitá-las e perpetuá-las, sendo nele visíveis e de rara beleza, como vem acontecendo até aos dias de hoje. A designação de “cor de areia” atribuída aos cães champanhe no Canadá, designa normalmente os pastores vermelhos descendentes da variedade branca e o termo “solid red” reporta-se aos pastores de vermelho mais intenso, uniforme e com máscara, quase idênticos àqueles que produzimos. E dizemos “quase” porque patenteiam um percentual mais elevado na variedade negra (Pastor Alemão Negro).
E porque pouco aqui se sabe sobre os pastores vermelhos uniformes, sendo que a maioria das pessoas desconhece a sua existência, decidimos falar deles agora e em particular daqueles que produzimos. As cores areia, champanhe, laranja, amêndoa e vermelha resultam do tom de afogueado presente no progenitor não vermelho, exactamente as mesmas que o estalão adianta. Se o factor vermelho uniforme não for recessivo nos dois progenitores, a ocorrência de exemplares dessa variedade cromática é nula, o mesmo não acontecendo se um dos progenitores for vermelho. Quanto mais clara for a variedade cromática a beneficiar com o vermelho maior será o número de cachorros desta variedade. O beneficiamento com brancos pode gerar ninhadas totalmente vermelhas, ainda que com algumas manchas brancas no peito e nas patas. O beneficiamento com o lobeiro, que se deseja ser red sable para se atingir a cor vermelha, pode dar até 75% de vermelhos. O beneficiamento com o preto-afogueado, dependendo da sua construção, pode alcançar 50% de vermelhos numa ninhada. O beneficiamento com o negro é o que produz menos exemplares vermelhos, geralmente cor de areia. Caso se verifique o contrário, tal se ficará a dever à sua forte ascendência lobeira. Dois exemplares vermelhos podem gerar filhotes da cor dominante (preto-afogueado). Os pastores alemães cor de fígado podem gerar filhotes vermelhos no meio de cachorros da mesma cor e entre preto-afogueados, normalmente dum vermelho vivo, apelativo e raro (cor de fogo).
Para além do que já fizemos saber, perguntar-se-á: porque optámos pela cor vermelha e não por outra? Basicamente por razões operacionais ligadas ao ofício de guarda, nomeadamente àquelas que se prendem com a camuflagem dos cães nos ecossistemas a guardar e que lhes garantem o policiamento seguro e a surpresa na captura, uma vez que a instalação de um cão de guarda num determinado perímetro deverá considerar, para além de outras, 5 condições básicas: a área da propriedade, tipo de solo que apresenta, as temperaturas médias ali ocorridas, os horários da vigilância e a policromia das cores no local. Que variedade cromática no Pastor Alemão melhor servirá para uma casa de férias no Algarve, rodeada de areia ou de dunas, se os horários de vigilância forem diurnos? A negra não será certamente! Assim como o branco pode ser um excelente cão de guerra ou de guarda nos ecossistemas de neve e entre paredes caiadas, o dourado nasceu para policiar à beira-mar, em climas temperados marítimos e com verões quentes. Por razões idênticas muito apreciamos os pastores cor de fígado (chocolate) e os lobeiros para as propriedades rodeadas de floresta, assim como os negros e os preto-afogueados para o serviço nocturno. A multivariedade cromática no CPA, ao contrário doutras raças, possibilita-lhe a instalação segura na maioria dos ecossistemas que conhecemos.
O nosso fascínio pelas variedades vermelhas uniformes ainda presentes no Cão de Pastor Alemão, apesar de raras, foi também alimentado pelos escritos de Darwin e Galton, assim como pelos pareceres de Stephanitz relativos à cor dos cães, já que grande número dos canídeos selvagens é maioritariamente vermelho, o que acaba por comprovar a sua rusticidade, melhor adaptação e hegemonia (cite-se como exemplo os casos do Coiote, do Dingo e do Lobo da Etiópia, entre tantos outros). A proliferação da cor vermelha é também visível quando um pastor alemão da variedade dominante cruza com um cão unicolor de outra raça ou sem ela, gerando também filhotes totalmente vermelhos. Assim não aconteceu com o Malinois, o Pastor Belga mais próximo do Pastor Alemão? Conhecedores disto, alertamos os nossos leitores e amigos para o possível engano causado por híbridos, o que não é assim tão raro de acontecer, adiantando-lhes que o Pastor Alemão Vermelho só difere dos outros na cor e que só não é dominante na raça devido à selecção humana operada, doutro modo já o teria sido há muito tempo, acabando trancado e tramado pela opção bicolor, que irradiou o branco e que tem vindo a desprezar as restantes variedades cromáticas unicolores. Adeptos da selecção natural e antes que nos embrenhássemos pelos confins da história, no intuito de caçarmos um lobo distraído para esse fim, como outros fizeram e se deram tão mal, pareceu-nos melhor procurar os descendentes dos cães vermelhos que estiveram na origem da raça, tradicionalmente pastores e aptos para a tarefa, já que outros os conservaram e ainda registam.
De que diferem os nossos cães vermelhos dos comummente produzidos no Canadá, nos Estados Unidos, nas Ilhas Britânicas e nos países da Commonwealth? Ainda que a ascendência em branco do nosso primeiro cão não possa ser negada ou comprovada, a sua descendência expandiu-se e firmou-se pelo contributo da variedade negra, normalmente com 3 e 4/8 nesse factor cromático, o que lhe garantiu a perpetuação da máscara facial, anteriores menos periclitantes, melhor equilíbrio psíquico, a precocidade laboral e uma capacidade de aprendizagem notável, factores ligados à excelência dos progenitores usados para beneficiarem os vermelhos, todos eles adestrados, testados e comprovadamente portadores de um forte impulso ao conhecimento. Para que esse legado assim continue, aconselhamos os nossos amigos a beneficiarem os seus cães vermelhos com a variedade negra, desprezando de imediato qualquer tipo de consanguinidade e optando por aqueles descendentes de preto-afogueado bem vermelho, oriundos das linhas de trabalho, isentos de displasia, comprovadamente seguros, capazes e úteis, para garantir nos filhotes 37,5% de sangue negro (3/8), desde que portadores de bons aprumos, boa cabeça e ossatura forte, de insofismável propensão atlética e com bons impulsos ao alimento, ao movimento, à defesa, à luta, ao poder e ao conhecimento, pois mais vale ter poucos e bons do que ter muitos e de má qualidade.
Os cachorros vermelhos quando nascem são parecidos com os lobeiros, diferindo deles pela disposição do risco cromático. Nos lobeiros esse risco acontece ao longo do dorso e nos vermelhos ele é transversal e visível junto à espádua. Os primeiros alcançarão a sua pigmentação de cima para baixo e os dourados da espádua para a garupa. Os modernos lobeiros já nascem como os preto-afogueados, com a divisão bicolor, porque na verdade são preto-afogueados camuflados em lobeiro, o que desnuda a sua forte construção na variedade dominante e os distancia dessa variedade original. Só por volta dos 4 meses é que os cachorros vermelhos começarão a uniformizar o seu manto, processo que concluirão um pouco antes da sua maturidade sexual. Por norma a sua cor final é-nos indicada pela tonalidade visível nas orelhas, o que não é absoluto, porque tal qual os lobeiros, os dourados alteram o tom da sua pelagem de acordo com o relógio biológico. A experiência ensinou-nos que a melhor altura do ano para os beneficiar é a que decorre entre os meses de Julho e Agosto, para que a fase do seu maior crescimento seja acompanhada pelas estações do ano mais frias, já que melhor absorvem os benefícios do sol e importa que se desenvolvam mais, conselho que também estendemos aos criadores de Pastor Alemão Negro.
Foi através da linha Rhein-Möselring que beneficiámos os nossos Pastores Alemães Vermelhos, porque tínhamos vários exemplares dela e o produto com outras linhas não garantiu igual qualidade. Graças a isso a maioria dos nossos Pastores Alemães Vermelhos fazia e faz ataques bem acima da linha da cintura, não despreza os alvos imóveis, aguenta os contra-ataques (mesmo com arma de fogo), procede a vários golpes e não desiste das capturas. A densidade da variedade negra garantiu-lhes progressões silenciosas e ataques de surpresa, uma máquina sensorial extraordinária e uma polivalência pouco vista. Na pistagem o cão que mais se destacou foi o “War”, um cachorro filho do McLarambee e da Luna, propriedade do Sr. Aires do Amaral e criado pelo Sr. Carlos Veríssimo (já falecido). Todos os que treinámos mostraram grande autonomia e sem dificuldade responderam à linguagem gestual. Valentes mas disciplinados, de carácter incorruptível, destacaram-se também na obediência e no extraordinário apego aos donos, constituindo binómios que ficarão gravados para sempre na memória de quem os conheceu. Desde muito novos manifestaram e manifestam desejo de nadar, progredindo dentro de água céleres e à vontade. Nenhum deles deixou por fazer o muro de 2.5m e todos eles brilharam na pista táctica.
Resta-nos agradecer a todos aqueles que nos acompanharam na viagem para dentro do Pastor Alemão, que connosco passaram horas infindas para dignificar o nosso trabalho, aprendendo e treinando afincadamente para que os Pastores Alemães Vermelhos continuem entre nós, gente de todas as idades (alguns já partiram) que tomou seu o nosso sonho, tornando-o possível e legando-o às gerações futuras. Obrigado a todos, valeu a pena!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/11
2º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
3º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010
4º _ OS 7 FACTORES RECORRENTES NOS ATAQUES CANINOS MORTAIS, editado em 17/01/2014
5º _ O AZEITE PARA AS CARRAÇAS, editado em 24/06/2010

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país deu o seguinte resultado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Ucrânia, 5º Angola, 6º China, 7º Índia, 8º França, 9º Luxemburgo e 10º Alemanha

quarta-feira, 30 de abril de 2014

OS CÃES DA NICOLE SCHLAEPFER

Recebemos recentemente um email de uma leitora que é criadora de pastores alemães brancos, proprietária de um campeão do mundo e que vamos dividir com os restantes leitores, aproveitando a oportunidade para comentar aquilo que ela nos disse e que não tivemos oportunidade de dizer no artigo “ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE TÉCNICO-FUNCIONAL”, editado em 21/06/2011. Disse a Nicole:
“PASTOR ALEMÃO EM BOAS PALAVRAS”. Olá, primeiro gostaria de dizer que sou uma grande admiradora dos seus pastores negros e que certo dia deparei-me no seu blog com um lindo artigo sobre os pastores alemães brancos (http://acendurabrava.blogspot.com.br/2011/06/o-melhor-e-o-pior-do-pastor-suiço.html). Não pude conter a minha emoção ao ver tal reconhecimento vindo de um criador de pastores negros. Eu e o meu pai criamos pastores alemães brancos há 20 anos e temos lutado (sozinhos) durante esse tempo para manter o padrão original, brigando com a FCI e contra tanta discriminação relativa a um cão por causa da sua cor. Apesar disso temos vencido os “suíços” com o padrão alemão nas competições da FCI. O que é contraditório é que foi o próprio presidente do Kennel que criou o “Suíço”, quem atribuiu o título de campeão mundial ao meu pastor alemão branco, contradizendo todos os padrões suíços. Enfim, muito obrigado. Espero um dia ter um pastor alemão negro (não temos aqui). Seguem algumas fotos dos meus cães.”

Vamos lá falar de discriminação, porque é disso que se trata. Para se compreender a exclusão da variedade branca do Pastor Alemão é preciso compreender o maior dos pressupostos para a criação desta raça: o trabalho, porque foi criada por um militar e bem cedo foi apadrinhada e aproveitada para fins bélicos, vindo a ser preferida por todos os exércitos europeus, mesmo daqueles que usaram outros cães na I Grande Guerra, notoriamente menos válidos diante da prestação do Pastor Alemão que mais tarde viria a ser “o cão de guerra” por eleição. Esse apadrinhamento militar, aliado aos históricos sentimentos germânicos relativos ao progresso, à supremacia da prática, da perfeição e da uniformização, que muito facilitaram a adopção do eugenismo, diante do desastre que se abateu sobre os molossos brancos recrutados pelo exército italiano, ganhou peso e expressão, porque a variedade branca, ao destacar a sua silhueta, tornar-se-ia num alvo fácil de abater.
Para além da razão militar (ainda bem que as guerras utilizam cada vez menos cães), outra razão se levantou, a relativa à transmissão e evolução da cor branca que induz à consequente despigmentação dos cães, uma vez que ela tende a aumentar e perpetuar-se no seu manto. Para explicarmos esta questão vamos valer-nos do que sucede no Boxer, cujo estalão admite a presença 30% da cor branca no manto dos seus exemplares, o que ontem como hoje, tem perpetuado o surgimento de cães totalmente brancos que acabam por não ter registo. Sempre que um comum pastor preto-afogueado apresenta marcas brancas no peito ou nas patas (por vezes também na ponta da cauda), essas marcas são consideradas indesejáveis pelo estalão, porque remontam à proto-selecção, denunciam a ascendência em animais totalmente brancos ou à presença ainda que ténue do factor branco. Esse rótulo de “indesejáveis” impossibilita cada vez mais o nascimento de exemplares brancos oriundos de exemplares padronizados, muito embora dois progenitores brancos possam gerar cães preto-afogueados, já que as diferentes variedades cromáticas se fizeram presentes na génese da raça. Pretendia-se evitar os cães malhados, preocupação que alguns criadores do Pastor de Shiloh desleixaram e que culminou no Shiloh Panda, muito embora ele seja um bastardo (via Malamute do Alasca) diante do Pastor Alemão Branco.
As razões operacional e estética acabaram por discriminar o Pastor Alemão Branco até aos dias de hoje, revestindo-o de “suíço” ou “canadiano”, escondendo-o por detrás do Pastor de Shiloh e doutras variedades cromáticas aceites pelo estalão do Deutsche Schäferhund, como é o caso de alguns exemplares cinzentos uniformes (azuis) e doutros de manto vermelho aceites por alguns Kennel Clubs, apesar de se poder chegar a ambos pela presença da variedade negra quando beneficiada pela parcialmente cinzenta (lobeira), o que lhes perpétua a máscara e lhes aviva o tom. E o despudor não acaba aqui, porque nos cães ditos de trabalho, quando importa alcançar cães maiores, alguém se lembra do branco, porque o factor está associado ao gigantismo e os cães de pata branca virão a ser os maiores das ninhadas. Já é tempo de acabar com a hipocrisia, de reintegrar os pastores brancos que não foram transfigurados pelos pareceres e distorção “suíços”, de devolver a biodiversidade presente nos alvores da raça e de considerar como parte integrante dela os Pastores Alemães Brancos que sempre estiveram no seu ceio, ainda que muitas vezes omissos, como acontece nos nossos dias.
Para que o Pastor Alemão Branco não se extinga e acabe “suíço” de uma vez por todas, por força da endogamia que produz a alteração, é necessário enveredar-se por uma “política de quadro aberto”, caracterizada por beneficiamentos entre a variedade branca com as restantes admitidas pelo estalão da raça, a bem da sua continuidade e perpetuação, o que em termos laborais só traz vantagens, ainda que choque com os pruridos de alguém. Parece ignomínia o que acabámos de dizer, mas se o é, há quem se borrife nisso, porque pela calada da noite, gente conhecedora e creditada, inconfessa e bem intencionada assim procede por esse mundo fora. De que outro modo como poderiam os Pastores Brancos acompanhar a evolução da raça, agarrando-se ao estalão de 20 de Setembro de 1899 ou ao de 28 de Julho de 1901?
Mais sábios, honestos e justos foram os criadores dos Pastores Belgas, menos atormentados pelo eugenismo negativo, que consideraram quatro variedades dentro da mesma categoria (Pastores Belgas): o Groenendael, o Tervuren, o Laekenois e o Malinois, admitindo registar um Tervuren filho de pais groenendael e vice-versa, apesar da sua incidência ser cada vez menor. Em face disto, o que obstará para que os Pastores Alemães Brancos sejam considerados uma variedade da raça? Somente as amarras aos erros do passado, a burrice e a teimosia! Os esforços da Nicole deverão ser endereçados à SV (Verein für Deutsche Schäferhunde), porque se ela aceitar a abolição da discriminação, não será a FCI que a manterá nem tampouco os suíços. Estamos convencidos que mais cedo ou mais tarde a justiça será feita, isto se houver mais gente como a Nicole e o seu pai.
Por aqui toda a gente sabe que somos adeptos dos cães de trabalho e que não nos enganamos com aqueles que sendo de beleza se adornam com mais-valias desportivas, que apenas servem para decorar o pedigree e que estão ao alcance de qualquer cão, independentemente da sua qualidade individual, do seu grupo somático ou propósito racial. Por causa disso criámos e treinámos Pastores Alemães ao longo de décadas, experimentando cães das mais variadas linhas e de todas as construções cromáticas, indivíduos pertencentes à variedade dominante, às recessivas e às desprezadas pelo actual estalão da raça. De acordo com a nossa avaliação, o Pastor Alemão actual peca por falta de equilíbrio emocional, variando entre o bonacheirão e o briguento quer desprezando qualquer provocação ou entendendo tudo como tal. Essa lacuna depois de constatada veio a ser colmatada com o contributo das variedades unicolores, naturalmente mais seguras e por isso mesmo mais concentradas, com maior capacidade de aprendizagem e com superior impulso ao conhecimento. Graças a isso chegámos aos cães de manto vermelho, noutras latitudes considerados como cor de areia, solid red ou dourados, pastores vermelhos unicolores de excelente qualidade, de que oportunamente falaremos amiúde, também eles oriundos dos pastores brancos outrora aceites, ainda que os nossos nada tivessem de branco na construção, como atrás já o dissemos e fizemos saber.
Pelas nossas mãos só passaram uma dúzia de pastores alemães brancos, todos eles descendentes de pais preto-afogueados (capa preta), propriedade de um casal idoso que morava para as bandas de Carnaxide. Posteriormente adquirimos duas cadelas dessa variedade e doutra procedência, no intuito de as testarmos dos pontos vista cognitivo e reprodutor. Treinámos somente dois “pastores suíços” e até nos esquecemos que não eram alemães! Temos aconselhado a compra de Pastores Alemães Brancos e quem os adquiriu muito nos tem agradecido. Há um só Pastor Alemão, apesar de nele haver cinco cores sólidas diferentes e combinações bicolores ainda mais numerosas. Mais do que na cor ou nas angulações, o Deutsche Schäferhund distingue-se dos demais pela sua versatilidade, marcha suspensa, capacidade de aprendizagem, facilidade na constituição binomial, raro sentido de alerta e apego aos donos. Agora que são conhecidas as maleitas produzidas pela endogamia na raça, a melhor das soluções aponta para o retorno à biodiversidade que ela ainda apresenta, o que dispensa de imediato a hibridação e implicará num certo retorno ao passado, ao concurso das outras variedades cromáticas desleixadas ou excluídas da actual selecção livres desse handicap, como é o caso do Pastor Alemão Branco, um beneficiador por excelência e que poderá vir a ter um papel nisso determinante. Ainda é possível voltar atrás e corrigir os erros do passado. Bem-hajas Nicole, não estás só: o teu combate é também nosso!

ELES FIZERAM-NO!

Eles fizeram-no! A Câmara de Lisboa pôs finalmente à disposição dos munícipes proprietários caninos dois parques para o exercício e sociabilização dos seus animais, um em Benfica e outro no Jardim Romântico do Campo Grande, agora melhorado, mais asseado mas menos romântico por estreitaram e encurtaram a sua atracção principal: o lago. A abertura do espaço aconteceu em Novembro do ano passado, quando menos se esperava e quando os mais cépticos julgavam ser impossível. Dele constam uma passerelle própria para todos os cães, um túnel de execução binomial, três verticais de 50cm consecutivas, apertadas e em curva para a direita, uma mesa e meia dúzia de postes que tanto possibilitam o slalom dos cães como os dos binómios. A delimitação do espaço é apropriada e a sua área seria aceitável se não se encontrasse já hoje super-povoada. O piso peca por falta de drenagem mas sobra sombra para o bem-estar de donos e cães.
O que é de louvar, apesar de tardio e ser único, é o bebedouro para os cães, apropriadamente colocado fora do recinto, elaborado em inox e bem concebido, considerando a sua altura, desenho, dimensões e higiene. Faltam outros pelos jardins da Capital, como estranhamente faltam bebedouros para os viandantes e turistas nos muitos jardins que Lisboa tem para oferecer. Quem optar por se deslocar a pé de Lisboa para Cascais ao longo da marginal, desprezando o “passeio marítimo”, apesar dos muitos jardins que terá pela frente, vai sentir essa falta, porque os chafarizes não existem, estão desactivados, avariados ou simplesmente alguém lhes deu sumiço, pelo que se lamenta que a água salgada seja imprópria para beber.
No nosso modesto entender, que outros mais doutos terão outro parecer, nem que sejam doutores por andarem carregados de livros e executores por conta do partido, diante do número de cães existente na Capital, urge multiplicar os espaços a eles destinados, até porque o seu número é bem maior do que o número de ciclistas de fim-de-semana e dos tenistas nas horas vagas ou no final do dia, tanto isolados quanto somados. Seria de todo conveniente, agora que existe essa sensibilidade, que se procedesse à construção de um parque canino igual na primeira metade do Jardim do Campo Grande, aquela que vai da rotunda do Monumento à Guerra Peninsular até à transversal que dá acesso à Avenida do Brasil, a mesma que comporta as desprezadas piscinas municipais, porque muitos dos munícipes que têm cães são idosos e há muito que deixaram de ser “papa-léguas”, ainda que gostassem de continuar a sê-lo, porque assim melhor se distrairiam do assalto às suas pensões.
E porque não levar a cabo iguais espaços em Monsanto, uma vez que cães e espaços verdes combinam plenamente? Será que os senhores autarcas que sobre nós governam ignoram que os cães precisam de pistas de manutenção e que a cinoterapia é importante para a saúde e bem-estar das pessoas? Em Monsanto os incómodos seriam menores, os parques poderiam ser maiores e melhor equipados, não havendo lugar a choque ambiental e a corte de árvores, reduzindo-se em simultâneo o risco de incêndios. Quer os senhores autarcas se lembrem disso ou não, quiçá não têm conhecimento, grande é número de pessoas com cães que ali se desloca diariamente, em rota de colisão com apaixonados, piqueniqueiros, cavalos, pedestres e ciclistas, numa molhada vândala que à cautela põe todos à espreita!
Não queremos usar frases gastas ou pensamentos por demais utilizados, como aquele atribuído a Ghandi que diz conhecer-se a grandeza de uma nação pelo modo como trata os seus animais, porque se tornaram por demais conhecidos e banalizados, mas agrada-nos de sobremaneira que a Câmara de Lisboa se tenha lembrado dos cães dos seus munícipes ao ponto de mandar construir-lhes dois parques, infra-estruras que nunca vimos nos países muçulmanos que visitámos e que por ali causariam certamente alguma estranheza. Sempre nos batemos pela existência desses espaços e vamos continuar a fazê-lo até que todos tenham acesso a um recinto público para os seus cães, porque é injusto, irrisório e abusivo cobrar licenças sem ter nada para dar em troca. De qualquer modo, pese embora a delonga, a Câmara de Lisboa está de parabéns e espera-se que as câmaras de outras cidades do País sigam o seu exemplo.

AVANTE JAVALIS E COELHOS

Não temos por norma comentar notícias vindas nos jornais diários, muito menos as publicadas pelo “Correio da Manhã”, porque são por norma sensacionalistas, ausentes de algum rigor e destinadas a quem se deleita com as telenovelas. Mas como a notícia metia cães e alguém nos chamou à atenção, lá acabámos por lê-la, esforço recompensado para hilaridade que nos ofereceu. Ao que consta, e isto não tem graça nenhuma, um tal de Manuel Baltazar, lá para os lados de São João da Pesqueira, tratado como “monstro” nas crónicas e presumível autor de um duplo homicídio e de mandar mais duas mulheres para o hospital (as assassinadas foram a sua sogra e uma tia e as hospitalizadas a ex-mulher e a filha), continua a monte e a polícia tarda em lhe deitar a mão. A notícia de primeira página dizia: “ CÃES DO MONSTRO NA CAÇA AO DONO”, o que acabou também por espevitar-nos a curiosidade.
Ao que parece e não sabemos de que iluminado partiu a ideia, a polícia serviu-se de três cães de caça do presumível assassino para o encontrar, ignoramos a raça de dois deles mas o captado perfila-se um Podengo, raça muito usada na caça a salto ao coelho. Toda a gente sabe e os caçadores em particular, que os podengos nacionais destinados à actividade cinegética valem mais pelo instinto do que pelo apego aos donos, caçando normalmente em matilha, sendo comum vê-los perdidos e a deambular pelas estradas, porque se afastam demasiado dos caçadores, mesmo com a caça à sua frente. A maneira como são tratados também obsta à cumplicidade desejável, uma vez que passam a maior parte do tempo acorrentados ou encerrados em míseros canis, sendo por norma transportados em reboques ricos em exíguas jaulas, invariavelmente de chapa e superlotadas. Não nos parece que os cães do agora a monte Manuel Baltazar houvessem alcançado melhor tratamento, atendendo à idade do homem, à tradição e ao modo como eventualmente tratou os seus familiares. Diante destes factos era mais do que sabido estar tal caça condenada ao fiasco, como veio a acontecer. Empenhada em capturar o homem, a GNR mandou agora avançar a cavalaria.
A opção da polícia por aqueles cães na caça ao homem, a ser verdade, mais parece uma iniciativa típica do Entrudo ou uma acção levada a cabo por um aldeão tido como “esperto”, que expõe ao ridículo as forças da autoridade e que não esconde o seu desespero. Um leitor do “Correio da Manhã” on-line tornou público o seu comentário à notícia, sem contudo saber que ele viria a ser o mais votado. Depois de questionar a polícia da possibilidade de usar outros cães, de rotular a sua acção de vergonhosa e de considerar que o presumível homicida lhe tem dado “bailinho”, aquele leitor avança com novas soluções, sendo uma delas esperar pelo Verão para lançar fogo à mata, porque o homem ou morrerá queimado ou então terá que sair lá. Como última opção adianta que a polícia se alie aos javalis e aos coelhos, já que o foragido é caçador (ler mais em: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/caes-do-monstro-na-caca-ao-dono). Depois do que ele disse, nada mais temos para dizer, todavia estranhamos a presença dos jornalistas no meio daquelas operações, seriam eles avisados, estariam ali de férias ou cairiam ali de pára-quedas? Independentemente do caso, uma coisa é certa: a polícia saiu mal na fotografia.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim escalonado:
1º _ OS 7 FACTORES RECORRENTES NOS ATAQUES CANINOS MORTAIS, editado em 17/01/2014
2º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
3º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º _ PRAXES UNIVERSITÁRIAS: A RECRUTA DA PORNOCHACHADA?, editado em 07/02/2014
5º _ O DOX, A LINGUAGEM GESTUAL E NÓS, editado em 23/04/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Brasil, 2º Portugal, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º França, 6º Espanha, 7º Argentina, 8º Índia, 9º Angola e 10º Reino Unido.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FLAGRANTES DA VIDA REAL

Duas jovens, a quem a novidade de algumas leis veio mesmo a calhar, circulavam num espaço público descontraídas nos seus afectos e pouco ou nada importunadas com o espanto que causavam, moças de 25 anos, bem diferentes entre si, uma mais arranjada e feminina e a outra mais máscula e pouco cuidada, dir-se-ia pouco limpa, seca de carnes e de modos. Distraídas pelo fogo da paixão, deixaram o seu cão afastar-se trinta metros, um molosso alupinado, grande e pujante, negro e branco, notoriamente hostil e à procura de confrontos. Feliz nos seus intentos, rosnando majestoso, o bicho avançou para cima de dois cães à sua frente que se encontravam atrelados. Afortunadamente foi barrado por um transeunte. Momentos depois, resoluta, a jovem mais masculinizada jogou-o ao chão e deitou-se sobre ele, obrigando-o a permanecer deitado de lado, com o joelho dela por cima dele. Quando confrontada por ter o cão à solta e o tratar daquela maneira, ela respondeu: “o cão não é perigoso, só tem um ano de idade, ajo assim para o acalmar e a partir daqui já não falo mais com o senhor!” Depois de ter amochado o animal por alguns minutos, atrelou-o e dirigiu-se à sua companheira que se encontrava afastada, partindo dali as duas abraçadas, acalentadas por um voluptuoso beijo que trocaram. Não restam dúvidas: tal como acontece com as pessoas, há cães com pouca sorte!

A SENSIBILIZAÇÃO QUE A CRISE FAVORECEU

Costuma ouvir-se que “há males que vêm por bem” e assim está a acontecer com os rafeiros em Portugal, por força da crise económica que se abate sobre a maioria dos portugueses. Hoje as feiras do animal, onde se oferecem cães e gatos, são mais concorridas que as exibições ou provas caninas, já que as últimas têm menos participantes e menor número de interessados. Depois de longas décadas de sensibilização, as associações de recolha de animais viram o seu esforço premiado, não tanto pelas suas campanhas mas pela austeridade que por cá grassa e que tem levado muitos à aquisição de cães sem raça definida, porque são gratuitos, mais rústicos, mais saudáveis e menos exigentes. Bastará a quem duvidar, caso queira sair à rua, aquilatar do seu número nos espaços públicos, onde em média passeiam 12 rafeiros para cada cão de raça, havendo locais onde é difícil encontrar algum com raça definida, apesar dos seus criadores, a dar as últimas e com a corda ao pescoço, os venderem agora a um preço quase simbólico. E quem não quiser sair à rua, já que nas cidades pôr o pé fora de portas implica em gastar dinheiro e ele está caro, poderá certificar-se disso pela consulta dos preços anunciados no “OLX”. 
Há 15 anos atrás, um Retriever do Labrador chocolate custava 1.250€, agora é possível adquirir um somente por 250€ e com jeitinho ainda o levam a casa, o mesmo sucedendo com outras raças. Até aquelas mais procuradas, as que constam no Anuário do Clube Português de Canicultura, viram o seu preço reduzido, sendo agora vendidas a 2/3 do seu valor no passado. Hoje como nunca é possível adquirir um bom cão por uma bagatela! A importação de cães diminuiu drasticamente e os que nos chegam, por serem baratos, são de qualidade duvidosa, de criações menos dispendiosas ou resultado de algum excedente, porque doutro modo jamais dariam lucro. Longe vai o tempo em que se comprava um cão no estrangeiro por 300 ou 400€ e se vendia aqui por duas ou três vezes mais. Diante do empobrecimento geral do País sobrou a prata da casa e os rafeiros viram aumentada a sua procura, ocupando agora espaços e lugares de outros tidos com mais “nobres”. Também a lei sobre os cães perigosos, a carga tributária sobre a classe média e o desemprego inviabilizaram de sobremaneira a aquisição de cães de raça. Não obstante, nunca foi tão fácil resgatar um cão de raça pura num canil de adopção.
Assim como se perdeu o pudor de ir comprar roupa às lojas dos chineses, também elas em crise (muitas já fecharam por ausência de liquidez), também o português comum se contenta com um rafeiro ajeitado, dócil, dedicado e amigo, havendo-os de todas as cores e tamanhos, alguns substancialmente mais bonitos que outros tornados raça a partir da aberração. Os parques e jardins públicos estão mais seguros e sossegados, porque os cães sem raça definida são por norma mais sociáveis, têm menos pruridos, causam menos incómodos, dificilmente se hostilizam e não metem medo a ninguém. Contudo, falta vencer a batalha contra o abandono dos cães, já que o seu número tem aumentado vertiginosamente a cada dia que passa, fenómeno esperado que tem desesperado quem optou por lhes valer, porque quando a comida falta em casa, o cão é o último a comer (se comer) e quando importa aliviar o carrego… o pobre bicho que vá para o diabo que o carregue! Apesar do número de cães adoptados ter aumentado, existe um profundo défice entre a adopção e o abandono, problema de difícil resolução com ou sem crise, muito embora ela tenha agravado a situação. Tragédias à parte, os rafeiros nunca foram tão procurados, adoptados, tornados cúmplices, adestrados e usados como agora, numa proliferação que relembra os tempos idos, agora retornados, da economia de sobrevivência, quando só os mais ricos podiam comprar cães e os pobres se contentavam com os rafeiros.