segunda-feira, 25 de maio de 2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Nibal: símbolo d´Acendura, leão (verdadeiro) da Lourinhã


Quem vai da Lourinhã para Peniche, como se fosse para a Areia Branca, na localidade de Casal da Murta, encontra do seu lado esquerdo um Restaurante, engalanado de bandeiras e adornado com um moinho. O estabelecimento é propriedade do Sr. Jorge Lopo, chama-se “ O Moleiro”, a sua especialidade é a caldeirada de peixe e ali trabalha a sua família. Por detrás do restaurante, junto ao parque de estacionamento, levanta-se um canil. Sem dificuldade, devido ao seu porte, avista-se um Pastor Alemão cinzento, grande e robusto, silencioso e atento. O bicho chama-se NIBAL e espanta pela sua envergadura, adora o seu dono e é a atracção da casa. Noutras circunstâncias, não manifestaríamos o seu nome, atendendo ao ofício guardião. Mas como ele só tem olhos e ouvidos para o dono, nenhum estranho o travará. Ali nasceu e cresceu, treinou numa pequena pista improvisada, hoje desactivada, atrás do local onde se encontra instalado. O Sr. Jorge, à parte de ser um óptimo cozinheiro, é um homem afável, um orgulhoso “Filho da Escola” que serviu na Marinha Portuguesa. Avô babado, é também coleccionar de vinhos e de bebidas licorosas, um incansável lutador contra a crise e um adorador inquestionável do seu cão. Sempre lamenta não ter condições para mexer o animal, as pernas não lhe permitem e isso torna-o amargo. São muitas as histórias que conta acerca dos seus Pastores Alemães, algumas são tão extraordinárias, que poucos aceitam a sua veracidade. E isto apesar do relato ser sentido e empolgante. Graças à genética, o Nibal nasceu totalmente cinzento, porque este factor cromático era comum nos seus pais. Ele descende directamente do Rossi e teve como avô paterno o Zucker, e como bisavô o Kirios Schwartz da Quinta do ABC, afixo anterior ao da Acendura Brava. A fixação do cinzento total só foi possível pela fusão de duas linhas, uma advinda directamente da Alemanha e outra presente numa cadela chamada Tranquila, propriedade do Sr. Gonçalo Soromenho Simões e com o LOP nº 96348. A linha alemã donde é originário resultou das linhas Von Silvano e Vom Info. Escusado será dizer que estamos a falar de cães de trabalho. Hoje o Nibal está obeso e reflecte a ausência da excursão diária, encontra-se plantígrado e cheio de calosidades nas articulações. E nem que fosse de propósito, quando chegámos para a entrevista, padecia de uma otite. Problemas à parte, foi gratificante observar a obediência que manifesta, o carinho que tem pelo dono e o sentido de guarda que conserva. Nada disto seria possível se não fosse feliz e correctamente adoptado. Agradecemos à família Lopo e ao Restaurante “O Moleiro” a atenção e disponibilidade dispensadas.

Uma "Amora" de se ver e chorar por mais


Como poderão ver pelas fotos anexas, temos uma nova lobeira entre nós. Chama-se Amora do Monte do Pastor, é filha do Kaiser e da Xita e é linda de morrer. O seu desenvolvimento tem sido extraordinário, encontra-se acima das tabelas, tanto da altura como do peso. Ágil, valente e graciosa, segue a dona que nem sombra, atenta para todos os pormenores e dá sinal de tudo. Veio preencher o lugar da saudosa Orca d’Acendura Brava, recentemente falecida e presente na memória de quem a conheceu. Não existem dois cães iguais, mas dono que é sensível, sabe ver as diferenças e daí extrair vantagens.
O que mais espanta na Amora é a pelagem, a contribuição do fulvo sobre o cinzento, o que a tornará única e deslumbrante. Morfologicamente muito equilibrada, mostra abnegação e espírito de equipa. Mecanicamente é irrepreensível e é dona de um “pulmão” extraordinário. A sua convexidade é excelente e os seus aprumos causam inveja. É importante não esquecer, que estamos a falar de uma cachorra com 3 meses de idade. Daqui endereçamos os maiores sucessos para a Família Paiva da Silva, congratulando-nos com a sua opção e escolha, porque um cão é um projecto familiar e todos os seus membros têm um papel importante.

Fim-de-Semana de 16 e 17 de Maio

Os trabalhos neste fim-de-semana foram escolares, mais concorridos no Sábado do que no Domingo. Não há registo fotográfico das actividades, porque os fotógrafos se encontravam ausentes, a Princesa a organizar um banquete e o Filipe do Jürgen a encher a barriga na Ilha da Madeira. A Rita Rua foi para o “olho da rua”, para uma Pousada no Alentejo, não comparecendo aos trabalhos.
O Plano de Aula assentou sobre a obediência e os obstáculos do Perímetro Exterior. No Domingo fomos visitados pelo Sr. Rafael Lopes, que se fez acompanhar pela sua filha Elisabete. Este Senhor é também o proprietário da cadela CPA Pietra.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Pipa, Bruno/Pepe, João Franco/Zappa, Joana/Flikke, Jorge/Audaz, Manel/Mini, Octávio/Greg, Pescadinha/Teddy, Rui Santos/Red, Susana/Pascoalito, Xico/Pongo e Zé Gabriel/Master.
Terminadas as aulas, os alunos foram convidados para uma matança de porco, em casa do Carlos Veríssimo e em honra da sua filha. A solenidade deve-se ao completar de Curso da Marina. Já temos mais uma enfermeira. Do programa constaram as iguarias tradicionais, os vinhos afamados e um espectáculo de música portuguesa ao vivo, aqui e ali saltitada, com cantilenas castelhanas e latino-americanas.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

::: Escalonamento da matilha escolar na Acendura Brava :::

A classe escolar é uma matilha espontânea, constituída por cães de várias raças e alguns sem raça definida, a não ser que seja uma escola que se dedique, exclusivamente, ao adestramento de uma raça em particular ou a um grupo somático específico. Tomando como exemplo o primeiro caso, onde a heterogenia dos animais é por demais evidente, que cães colocar na frente e como escalonar os restantes? Que critérios seguiremos, para os distribuir no círculo de 36 mts? Certamente a nossa opção não será arbitrária!Aqui, na Acendura Brava, sempre colocamos os Cães de Pastor Alemão na vanguarda do círculo, o que para alguns pode ser motivo de escândalo e para outros objecto de troça, contudo, a nossa opção encontra-se cativa a cinco razões e nenhuma delas, assenta sobre qualquer preferência injustificada. Mais alto que a afeição de quem dirige, se ergue a necessidade pedagógica para o rendimento colectivo. Passemos de imediato às explicações.

A nossa primeira razão tem a ver com o andamento tipo destes cães : a marcha, andamento musculador por excelência que oferece resistência e opera a melhoria dos ritmos vitais. Como os pastores alemães são trotadores natos, deslocando-se preferencial e ordinariamente em marcha, cabe-lhes a eles a líderança da classe escolar. É evidente que existem outras raças trotadoras, no entanto, entregar-lhes a liderança, seria mais complicado e menos seguro (huskies por exemplo). Não colocamos um molosso porque o seu andamento é mais baixo e necessita de condicionamento prévio para a instalação da marcha; não convidamos um bracóide por causa do “passo de andadura”; isentamos o vulpino por causa da irregularidade de andamento; dispensamos os lebróides e os bassetóides, por lhes ser contranatural, esse tipo de andamento. Em síntese, a nossa primeira razão, é operacional e assenta sobre um requisito físico.

A segunda razão é histórica, já que o pastor alemão é o primeiro cão de guerra convencional dos tempos modernos, sucedendo aos molossos e alanos da antiguidade que o antecederam. Durante a 1ª e 2ª Guerras Mundiais, muitas raças caninas foram incorporadas nos diferentes exércitos e a sua prestação objecto de avaliação. Seria bom consultar alguns livros sobre esta temática, compreender porque razões foi o Pastor Alemão considerado o mais apto, apesar das críticas iniciais dos franceses e do desastre que foi, entre outros, a opção pelo Maremuzzo. O Dálmata foi o primeiro cão militar dos tempos modernos, foi usado no conflito dos Balcãs, contudo era apenas requisitado como correio, entre a frente de batalha e o quartel general. Os russos, usaram toda a casta de cães, na 2ª Guerra Mundial, tornando-os carregadores de explosivos e suicidas, ( condicionaram os animais a comer debaixo dos tanques, com o fim de operar a destruição das divisões Panzer), facto que contribuiu para o desaparecimento do cão guerra. Os americanos também requisitaram cães de várias raças nesses conflitos, com fins ou objectivos diferentes. Os Rottweilers também foram usados pelo 3º Reich, especialmente os recrutados em Munique, sendo usados, maioritariamente, como guardas de instalações, paióis e prisões (carcereiros). Com a alteração do modo de fazer a guerra e o abandono do cão para esse fim, o Pastor Alemão “transformou-se” em cão polícia, designação que o acompanha até aos nossos dias. A excelência operacional dos CPA, tem levado alguns criadores à criação de raças congéneres, tal é o caso dos pastores holandeses e mais recentemente, o lobo italiano (cruzamento entre o lobo da Sardenha e o CPA). Estas novas raças, excessivamente lupinas e quiçá por causa disso, têm evidenciado alguns fenómenos a que a desconfiança e o medo não são alheios. Os Pastores Belgas Malinois têm grande percentagem de sangue CPA. A terceira razão provem da tradição, devido à sua estrutura morfológica e serviço, o CPA sempre é do 1º grupo de julgamento e não raramente, é o cão introdutório das comuns enciclopédias caninas. Quando assim não acontece, isso deve-se à proto-história canina e aos ancestrais molossos mesopotâmicos. A razão tradicional, para além de ser respeitada no país de origem, é também observada além das suas fronteiras. Por vezes, por factores ligados ao nacionalismo, o CPA é arrancado do seu lugar e ocupa-o um cão de raça autóctone.

O sentimento territorial do CPA é a nossa quarta razão, até há por aí quem diga ser ele estupidamente obediente, coisa que se compreende pelo excelente apego ao dono, factor que contribui favoravelmente para a edificação futura dos binómios. Como seguimos o método de Trumler e aceitamos os cachorros na idade da cópia (4 meses), importa que vá na frente o exemplo a seguir, objectivo difícil de alcançar por outros cães de grupos somáticos diferentes, por razões físicas ou relacionadas com a sua índole.

A necessidade do robustecimento funcional é a quinta razão da nossa opção, especialmente entre as raças menos propensas ao exercício físico e cuja velocidade funcional é inadequada, ( + de 10 segundos aos 100 mts.). Como o melhor exemplo para um cão é outro cão, isto se buscamos respostas tangíveis às naturais e porque os cães são competitivos entre si, os molossos que treinamos, acabam por evidenciar qualidades atípicas ou mais-valias, que há partida, seriam impensáveis ou inacessíveis a cães dessa natureza. Por esta razão, os nossos Rottweilers; Serras; Terras Nova e tantos outros, acabam por evidenciar qualidades muito para além das descritas no seu estalão. É comum vê-los a subir escadas de 5,40 mts. ou a atingir velocidades de 5mts/s. Aqui, a incompatibilidade somática que gera a rivalidade entre as raças não é alheia aos benefícios do trabalho alcançado. É importante não esquecer que o líder e o mestre devem ir na frente e isso é tarefa que o Pastor, desempenha cabalmente.
As razões que assistem à nossa opção são claras, se outros querem inverter a história, a tradição ou denegrir a imagem do CPA, assim como as suas qualidades, saibam que vão em rumo próprio e que no passado outros o fizeram em vão, especialmente os criadores de outras raças, autores de tantas lendas e mitos, cujos cães se quedaram por aí. Desde criança que oiço, ser o Dobermann o cão do Hitler, que eu saiba, o nefasto Adolfo, era proprietário de uma cadela CPA de nome “Blondie”, ao que parece, envenenada propositalmente, na tragédia acontecida no bunker de Berlim. É natural que no futuro, a liderança da classe escolar, seja entregue a outra raça canina, especialmente se os objectivos, forem diversos dos actuais. Como na nossa escola trabalhamos as nove variedades cromáticas do CPA, (preto-afogueado dominante e recessivo; lobeiro dominante e recessivo; branco europeu e americano; cinzento, negro e de manto vermelho), para já não falar nos exemplares de pêlo comprido, como procedemos ao seu escalonamento? Porque nos encontramos sujeitos a um clima temperado marítimo e os verões são quentes; também porque os primeiros reprodutores recomendados da raça foram pretos, formamos da variedade mais escura para a mais clara, respectivamente: preto; preto-afogueado recessivo; preto-afogueado dominante; lobeiro recessivo; lobeiro dominante, cinzento, manto vermelho e branco. Primeiro formam os machos e depois as fêmeas; primeiro os adultos e depois os cachorros. Porque não damos a liderança a uma cadela? Porque é difícil encontrar uma matilha liderada por uma matriarca! Porque formam primeiro os cães adultos? Para que sirvam de exemplo aos cachorros! Este escalonamento sexual e etário é usado também para as restantes raças, que ordinariamente sucedem aos CPA. Quando é que um CPA não é o líder da matilha escolar, (fila-guia)? Nas exposições, exibições e outros certames do mesmo cariz, quando não existirem binómios CPA “A” e exista um binómio “A” , com um cão de outra raça. Porque se exige no exterior, que o fila-guia seja um binómio da classe “A”? Porque ele é o porta-bandeira escolar e o garante do alinhamento requerido. Na escola, quando é que um CPA pode ceder a sua liderança? Quando for necessário ou manifesta a sua incapacidade. Existem mestiços de CPA muito idênticos aos puros, como os escalonamos? Se a proximidade morfológica for por demais evidente, formam junto com os CPA de acordo com os princípios sexual e etário; se morfologicamente não se encaixam, serão remetidos para o final da classe. O escalonamento na Acendura Brava encontra-se assim distribuído: CPA ; Pastores Belgas; Vulpinos; Dobermanns; Rottweilers; Boxers; Bracóides; Molossos; lebróides e Indefinidos. Os bassetóides e os Toys formam classes distintas e não constituem grupo de trabalho com os restantes. O escalonamento das diferentes raças, dentro do mesmo grupo somático, acontece segundo a antiguidade de registo na FCI.

Sábado, 09 de Maio - Recuando na História para fazer o futuro


O trabalho foi desenvolvido junto à Ponte Romana de Cheleiros sobre o Rio Lisandro. Ali recapitulámos o "quieto" à distância e com a ocultação do dono. Os binómios participantes sentiram algumas dificuldades, em particular a Bonna, fonte de destabilização. No entanto, com alguma paciência e persistência, os objectivos propostos foram alcançados. Criaram-se percursos de evasão a partir de um túnel com 20 metros de comprido, com 30 graus de inclinação e em direcção ao Rio. A conduta tinha 60 cm de diâmetro, e nalgumas partes constituía-se em semicírculo. A empatia entre os cães facilitou o trabalho e breve aprenderam a inversão sobre o obstáculo. O objectivo foi o de preparar os cães para a prestação de auxílio, tornando-a mais célere e incondicional.
Com o mesmo objectivo e para aumento do equilíbrio canino, condicionámos os animais a subir e a descer pelos parapeitos da Ponte.
Fizemos ainda a transferência dos muros tácticos para os acidentes naturais, transpondo diferentes planos. Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Joana/Flikke, Sofia/Bonna e Virgílio/Pascoalito.
Da parte da tarde, já com a Princesa e o Pipo, bem como com a Pescadinha e o Teddy, o tempo impediu o trabalho junto ao marco geodésico do Cabeço de Montachique. Perante as dificuldades, optámos por encerrar os trabalhos com uma sessão fotográfica.

Domingo, 10 de Maio - Alargar horizontes no meio do nevoeiro

Apesar de estarmos às portas do Verão, as brumas do Oeste ainda não se foram embora: trabalhámos debaixo de nevoeiro e com 85% de humidade. O local escolhido foi o Campo de Futebol de Montachique, hoje desactivado e constituído heliporto. Trabalhámos obediência à distância, tirando partido do comprimento total do campo. O Master, a Zara e o Jürgen melhoraram as suas prestações. A Luca apresentou algumas dificuldades pela ausência de recapitulação. O Nobel apresentou-se muito nervoso e excitado, oscilando entre a besta e o bestial, está a precisar de trabalhar, a vida não é só passerelle. A Princesa Sandra I do Reino dos Mitsubishis, educada num colégio jesuíta renomado, não compareceu, sendo substituída pela Sofia Firmino nas artes da fotografia. O Sr. Carlos Alberto Peçegueiro Veríssimo, vulgo Carlos do Forcado, voltou ao nosso convívio com o Tot. À parte disto, desenvolveram-se diferentes figuras de obediência a partir dos diferentes automatismos direccionais e andamentos, visando a constituição do corpo escolar e a melhor sociabilização entre os cães. Os animais adultos foram convidados para a prática da Endurance e os cachorros disso foram dispensados.
Parabéns ao Paulo de Montachique pela sua prestação binomal, nota-se que tem paixão e trabalha, os frutos foram visíveis. O encerramento dos trabalhos culminou no Restaurante "Beijo ao Boi", na localidade do Barro. Da ementa constaram a sopa da pedra, o sável e a picanha, os ovos com farinheira não faltaram e as entradas foram variadas e de excelente qualidade. A qualidade do serviço é superior e a confecção divinal. Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Carlos/Tot, Filipe/Jürgen, João/Luca, Jorge/Audaz, Paulo/Diva, Rita/Zara, Sofia/Nobel, Virgílio/Pascoalito e Zé Gabriel/Master.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

::: A história dos 3 Amigos ou o destino do Kasan :::

A maior tarefa de um adestrador é a transmissão cognitiva. Para que ela aconteça é necessário que o conceito passe à prática. A história que se segue procura avaliar a capacidade interpretativa dos líderes binomais, para que se encontrem os veículos próprios para a transmissão da mensagem. Conhecer os alunos é primordial, tão importante como conhecer os cães.


A HISTÓRIA DOS 3 AMIGOS OU
O DESTINO DO KASAN:

Esta é uma história sem um final feliz, nenhum dos seus intervenientes o teve, nada ficaram a dever à sorte.


Estamos no princípio da década de 40 do século passado, altura em que as espanholas adornavam os clubes nocturnos de Lisboa e Porto, foragidas da Guerra Civil e apostadas na sobrevivência. Nunca se ouviu tanta cantilena castelhana, as castanholas pareciam vir para ficar e a promiscuidade tornava-se bênção. O país tacanho invadia-se de lascívia, o “portunhol” sobrevoava o fumo dos cigarros e grassava a caça às senhoritas. Os muitos “olés” que se ouviam, eram explosões de pasmo e de desejo incontido, gritos de liberdade sobre quem fugia à guerra. Amores distantes, agora à mão, apaixonavam os mais ardentes, e por meia dúzia de tostões, transpunha-se a fronteira, quebravam-se as barreiras, levantava-se o ginete lusitano.

Para os jovens estudantes universitários abastados, vindos da província, esta agitação era um el dorado, uma hipótese de descobrir novos mundos, de demonstrar a supremacia portuguesa e a sua valentia, ainda que num quarto cheio de percevejos e com uma companheira que não parava de fumar. Ao redor das nuestras hermanas, muitas amizades perduraram, graças à cerimónia iniciática que funcionou como recruta. Assim foi o caso de três amigos, um estudante de arquitectura, um de medicina e outro de direito, que entrincheirados no mesmo desejo, se transformaram em irmãos. Quando as espanholas partiram, a sua amizade continuou, tornaram-se íntimos uns dos outros por força dos interesses comuns. Casaram e descasaram, viveram mil aventuras, e quando chegaram à meia-idade, tornaram-se vizinhos num lugarejo perto de Bucelas, proprietários de casas rústicas que embelezaram a seu gosto, sem destruir a traça original. Um deles chegou a constituir matrimónio por seis vezes, tratando as ex-companheiras com a maior deferência e com os devidos reparos legais.

Quando chegaram à idade da reforma, por unanimidade, tal qual confraria, cada um deles decidiu ter um cão. Foram a um criador e adquiriram três cachorros da mesma ninhada, três Lobos da Alsácia. Os bichos tornaram-se seus iguais, e em tudo eram idênticos. Não seria exagero dizer que se constituíram em seus confidentes, apesar do desaprovo das suas companheiras e da reprovação popular, mais acostumada aos burros e às vacas do que a reis de quatro patas. Como alunos de faculdade para a terceira idade, também como fisioterapia, levaram os seus cães à Escola e apostaram no seu adestramento. E sabem que mais? Não, não defraudaram, conseguiram educar os seus companheiros e levar a sua tarefa até ao fim, revivendo no treino o que a vida insistia em roubar-lhes. Os condutores mais novos adoravam-nos, ouviam as suas histórias e aprendiam com a sua experiência - eram os seus heróis.

Da 2ª Guerra, por contacto com os súbditos de Sua Majestade, a Rainha de Inglaterra, herdaram o hábito do five o’clock tea, bebendo caprichosamente chá de hortelã-pimenta com leite. O cerimonial acontecia debaixo de um pinheiro manso, circundado por uma pedra de mó que lhes servia de mesa, numa claridade distante das cinzentas abadias inglesas. Para além do chá, habituaram-se ao cachimbo e ao lenço de seda por debaixo do casaco. Eram na verdade uns autênticos dandies.

No ritual do chá punham em dia as suas conversas, comentavam as tendências sociais e falavam dos seus anseios e preocupações. Certo dia veio à baila o destino a dar aos cães, caso os animais lhes sobrevivessem. Apesar de acesa discussão, não chegaram a nenhum consenso acerca do bem-estar futuro dos seus companheiros. Cada um pensava de modo diverso e cada opinião era de imediato contestada. O arquitecto foi o mais censurado, ouviu coisas que não esperava ouvir, porque defendia o abate do seu cão, logo após o seu falecimento. Chamaram-lhe egoísta e cruel, para além de outras coisas que só se dizem em privado aos amigos. Entendia ele, que ninguém estava à altura para o substituir na tarefa, que o animal iria sofrer horrores, e que morreria de desgosto. Que mais valia abatê-lo do que sujeitá-lo a tal sofrimento. O assunto nunca mais foi retomado, porque havia causado algum azedume entre eles.

Na década de 90 eram assíduos frequentadores dos Pub’s em S. Pedro de Sintra, porque ofereciam música portuguesa ao vivo, o ambiente era reservado e a clientela seleccionada. Ali ainda arranjaram alguns namoricos inconsequentes, particularmente enquanto esperavam que as baladas do Zeca Afonso, cedessem lugar às cantigas tradicionais. Eram generosos para quem os servia e as suas maneiras encantavam os demais. De cachimbo aceso e olhos penetrantes, tudo observavam, ainda que de modo descontraído e respeitoso.

Certa noite, como já vinha cedo hábito, rumaram a S. Pedro de Sintra. Comeram, beberam e cantaram até ao fechar das portas. Saíram inspirados e alegres, teimando em regressar às suas casas. Tinham vindo num só carro, no mesmo em que haveriam de regressar. Sentiam-se moços e libertos do peso dos anos. No regresso, porque a lua brilhava, decidiram abandonar a estrada principal, optando por uma secundária, mais fresca e de paisagem luxuriante.

Numa ponte estreita, o velho Rover despistou-se, os seus passageiros caíram ao rio, inanimados para sempre, num lugar onde “Judas perdeu as calças” e que dificilmente consta nos mapas: Ribeira dos Tostões.

Após os funerais, conforme vontade do seu dono, o cão do arquitecto foi abatido. Chamava-se Kasan e repousa debaixo da pedra de mó que servira de mesa para o five o’clock tea.

A viúva do médico entregou o cão do defunto a um dos seus pacientes, que morava no Sobral de Monte Agraço, para ser guardião de quinta. Quinze dias passados, o animal conseguiu moer o destorcedouro da corrente e rumou para casa. Morreu atropelado a 500 metros da porta donde havia crescido.

A viúva do advogado, que não nutria qualquer sentimento pelo cão do marido, teve dificuldades em se livrar dele, porque o bicho odiava estranhos e resistia a novas amizades. Acabou por o dar a um matilheiro que o destinou à batida do Javali. Enjaulado com mais cinco, o animal era atacado pelos demais, especialmente à hora da refeição. Pouco a pouco, a sua resistência foi quebrando, ficou famélico e transformou-se num inibido. Quando foi solto na batida, esgueirou-se aos outros e foi descansar junto a uma das “portas”, porque ouviu pessoas e procurava o dono. À passagem do Javali, debaixo da saraivada, tombaram os dois.

Esta é uma história real. Apenas se alteraram as profissões dos donos e os nomes de alguns lugares, por respeito aos seus intervenientes, homens e cães.

Sábado, 02 de Maio - Tratar do Presente e acautelar o Futuro

Dedicámos este Sábado aos trabalhos escolares. Do Plano de Aula constaram dois momentos distintos: a parte teórica e a prática.

À sombra do nosso bangaló, comentou-se o texto "A história dos 3 amigos e o destino do Kasan". Porque importa clarificar os conteúdos de ensino para que a absorção cognitiva se torne mais fácil. Valemo-nos do texto para esse fim, realçando a necessidade de elementos neutros e a importância da família no processo de adopção canina.

A participação foi excelente e os resultados desejáveis. A temática recaiu sobre o futuro dos cães, considerando o objectivo central do adestramento e a possibilidade dos animais sobreviverem aos seus donos. Acautelar o futuro dos nossos cães é tarefa primordial. Os alunos devem acostumar-se a trazer um relógio e uma caneta, porque tal alivia a logística e evita maiores delongas.

Na parte prática tirou-se partido da integração das classes. A ênfase maior foi para à condução dinâmica e para a transição automática dos diversos andamentos naturais. Os obstáculos elevadores serviram como subsídios de ensino e os automatismos direccionais foram amplamente solicitados. Treinou-se também o transporte sobre obstáculos e o corte de corda, porque as condições climatéricas eram excelentes. O objectivo foi o de preparar os cães para o quotidiano, para além dos limites da pista, nas situações reais que enfrentam e onde a sua ajuda é necessária. Falou-se da função terapêutica canina, da disponibilidade física dos condutores e do particular dos diferentes grupos somáticos.


A Pipa está em franca recuperação e o Pepe a caminho do "passeio da fama".


Trabalhou-se de manhã e de tarde, porque importava a integração das filhas do Sr. Cunha. O nosso agradecimento àqueles que se prontificaram, realçando o colectivo escolar e o seu carácter fraternal. Os condutores Jorge e Susana disponibilizaram os seus cães para o efeito, iniciando estas jovens na prática do Adestramento.

Findas as aulas, o Carlos e o Bruno dedicaram-se à higienização da pista táctica.

Participaram os seguintes binómios: Alexandra/Pipa, Ana Pinto/Loki, Bruno/Pepe, Joana/Flikke, João Franco/Zappa, Jorge/Audaz, Manel/Mini, Octávio/Greg, Pescadinha/Teddy, Princesa/Pipo, Sofia/Bonna, Susana/Pascoalito, Xico/Pongo e Zé Gabriel/Master.