sábado, 12 de agosto de 2017

"OUT-OF-CONTROL "

Os cães actuais não são mais perigosos que os do passado recente, os anteriores à entrada em vigor das leis relativas aos cães perigosos no mundo ocidental, porque doutro modo os canicultores de hoje não teriam a quem vender os seus cachorros. Todavia o número de ataques caninos a pessoas não pára de aumentar e tal não se deve unicamente à subida do número de animais adoptados, que são por norma castrados e que raramente fazem mal a alguém. Assim, por toda a parte se lê ou ouve o termo “out-of-control” quanto algum ataque canino acontece, designação que a nosso ver corresponde totalmente à verdade e que é válida tanto para cães civis como para policiais ou militares, porque em matéria de disparate concorrem uns contra os outros. Quem é que ainda não viu um cão polícia morder “acidentalmente” outro polícia ao lado do seu tratador vestido com igual farda? Quem é que ainda não teve conhecimento de algum ataque perpetrado por um cão polícia sobre um cidadão inocente? Os disparates sucedem-se e são mais frequentes entre os cães urbanos.
Que razões estarão a contribuir para a eclosão sistemática do fenómeno? Como são múltiplas e variadas, sendo algumas tão antigas quanto o mundo, adiantaremos apenas três que nos parecem ser as principais no contexto actual: o aumento vertiginoso da presença canina nos lares citadinos, o despreparo pedagógico de muitos donos e a ineficácia ou insuficiência dos métodos de ensino em voga.
Dum momento para o outro, facto a que não são alheias a quebra dos índices de natalidade e as fortíssimas campanhas pela adopção canina, o número de cães nos lares ocidentais cresceu vertiginosamente nas últimas décadas, fenómeno que começou a despontar nos anos 70 do século passado. É possível que esse aumento se deva também ao facto da Europa experimentar já 72 anos de paz, ter alcançado maior justiça social e uma maior equidade na distribuição da riqueza, factores que somados tornaram possível o sustento dos cães por maior número de cidadãos. Também o aumento médio da esperança de vida, associado a reformas mais justas e ao acesso à saúde, tem levado muitos casais de idosos a uma maior procura destes animais que não raramente são também procurados por pensionistas que vivem sós. Com homens e mulheres forçados a trabalhar mas não libertos das suas carências afectivas, as famílias têm proporcionalmente menos crianças e mais cães, porque os últimos são menos dispendiosos, exigem menos e dificilmente criam entraves às carreiras de cada um. Por outro lado, considerando as dificuldades de integração social de uns tantos, fenómeno que lamentavelmente não é de hoje, os cães têm vindo a substituir os seus familiares e amigos, o que tem contribuído decisivamente para uma maior procura do lobo familiar, funcionando a sua posse como uma autêntica panaceia, dependência que tem gerado e continuará a gerar grandes negócios, cuja maior fatia cabe e caberá à indústria alimentar para animais.
As necessidades afectivas e sociais da maioria dos proprietários caninos sempre fragilizaram e continuam a fragilizar o processo pedagógico dos seus companheiros de quatro patas, porque quando não os endeusam, breve lhes dão um tratamento antropomórfico, despropósitos que os levarão à usurpação do poder e a um conjunto de estratégias para não serem desalojados dele, tornando-se inúmeras vezes “out-of-control” por causa disso, uma vez que esse comportamento advém-lhes quase em exclusivo dum cuidado desregrado ou impróprio. Não podemos dissociar tudo isto da “Declaração Universal dos Direitos do Animal”, pois o espectro do mal causado aos cães no passado tem levado a uma exagerada tolerância com os seus erros, contrição que os vem isentando das mais basilares regras de convivência e princípio por si mesmo suficiente para despoletar a desobediência que induz ao desastre. Não foi o aumento dos animais resgatados que veio contribuir para o grosso dos cães descontrolados, já que estes são por norma agradecidos e castrados a nível planetário. Todavia, o seu exemplo não é válido para todos os cães, como erroneamente se pensa agora, nomeadamente para os cães inteiros de luta, para os de idêntica condição e com excessiva territorialidade e também para uns quantos de selecção assassina e fratricida. Por mais que o oiçamos na TV ou o leiamos na Internet, os cães não são todos iguais e aqueles que são extraordinariamente agressivos devem-no mais à genética que aos maus-tratos infligidos.
Por detrás de tudo isto e de modo cada vez mais descarado, procura dar-se o “golpe de misericórdia” nas distintas raças caninas, que mesmo moribundas não deixam de ser procuradas, particularmente as mais lesivas e de sofrível interesse, geralmente pouco dadas ao suborno, indiferentes às migalhas oferecidas e propensas a encontrar a sua própria recompensa. Diante deste desarranjo, os métodos hoje tornados universais na cinotecnia não conseguem dar resposta à totalidade dos cães do presente graças à sua ineficácia, contribuindo assim e involuntariamente para o aumento do número de cães descontrolados. O facilitismo dos actuais métodos de ensino, de cariz mais doméstico que académico, do tipo “Do yourself  ” ou “Yes, you can ”, não é o mais indicado para cães que sofreram um certo “aprimoramento” racial, inclusive para não serem amistosos. Assim como não se deve sentar um cavaleiro inexperiente sobre um cavalo nervoso, também não se deve entregar um cão valente a um amador. Igual sandice é tratar um cão bélico como se fosse traquinas ou entender-se um assassino como mal-humorado. E se os cães precisam de ser seleccionados, muito mais necessitarão os homens que irão lidar com eles, pormenor que escapa a muita gente civil e militar. 

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