sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

TARDA NÃO TARDA, BUJARDA!

Há quem não tenha perfil para ser militar, quem abomine tudo o que à tropa diz respeito e quem defenda a extinção de todos os exércitos e arsenais (nucleares e outros), o que me parece justo e razoável desde que não seja unilateral. No entanto, sem daí granjear qualquer lucro pessoal ou desejar mal a alguém, acho que todos os jovens deveriam fazer uma recruta de alguns meses, sem os prejudicar profissionalmente, tal como se fazem outras formações, algumas delas, diga-se em abono da verdade, de utilidade duvidosa e de lucro imediato para os formadores. Quer se concorde ou não, a incorporação militar é um processo pedagógico único, particularmente para aqueles que precisam de assumir a pontualidade, de ser disciplinados, de compreender e respeitar a hierarquia, de ser responsáveis, de cumprir o que lhes cabe, de ser decididos, de equilibrar a razão com a emoção, do apego aos procedimentos, de exercício físico, de espírito de sacrifício, de reconhecer o esforço colectivo e a importância de cada um para o seu sucesso. É evidente que há pessoas que já nascem assim, como é evidente que a maioria delas se comporta de modo díspar. Geralmente acaba incorporado quem menos precisa e os mais necessitados nem lá metem os pés, para mal das famílias e da sociedade, gerando gastos e desencontros que uma melhor formação de carácter poderia diminuir.
Na tropa aprendi que “hábito não é regulamento” e que “conhaque é conhaque e serviço é serviço”, princípios à primeira vista toscos, mas que se revertem de extrema utilidade, quando importa cumprir e refrear desejos. Na semana passada, aproveitando as Férias de Natal dos miúdos e a baixa de preços, também porque o hotel aceitava cães, uma família nossa conhecida decidiu ir até uma estância de inverno espanhola, levando consigo o seu Pastor Alemão Negro, um cachorro matulão de oito meses, com 68cm e com 38kg. A viagem de carro correu sem percalços e o animal não se fez notar, embalado pela viatura e aconchegado pelos mais novos, adolescentes que nunca tinham visto neve, apesar dela raramente faltar na nossa Serra da Estrela. Encantada com aquela infinda paisagem branca, que lhe invadia a alma de artista, a matriarca da família largou o cão pelos campos fora, sem saber o que a neve ocultava, desconhecendo o território, a natureza dos seus limites e os perigos que escondia, apesar de previamente instruída para não o fazer, atendendo à salvaguarda do animal. Estranhamente, o animal veio de lá a vomitar e com as fezes alteradas, tanto de aspecto quanto de cor, pelo que enfatizamos (já não nos lembramos quantas vezes o fizemos), que antes de soltar o seu cão, passe em revista o território e certifique-se da ausência de perigos para o animal, pois “hábito não é regulamento” e há erros que se pagam caro! E como a excursão foi a Espanha, rematamos com um aforismo de lá: “ Inicialmente, los hábitos son telarañas, después se convierten en cables” (no cabo dos trabalhos, dizemos nós).

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