sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MASTER: A HISTÓRIA DO PATINHO FEIO

O Master e o seu irmão Lobinho, ambos excelentes cães de trabalho, nasceram dum beneficiamento há muito procurado que visava a recuperação das qualidades laborais presentes nos CPA’S da primeira metade do Sec. XX, o que felizmente neles veio a suceder. Infelizmente o Lobinho morreu precocemente. Melhor sorte teve o Master que acabou pertença do Dr. José Gabriel, um advogado cuja classe, elegância e espírito de sacrifício associadas ao cuidado, ao empenho e à paixão, fizeram dele um cão estimado e um verdadeiro campeão. Ao contrário do seu irmão, que sempre foi muito bonito e parecia um boneco de peluche, o Master até aos 4 meses de idade parecia um “bicho-do-mato”, porque era desconfiado e pouco agradável à vista, vindo posteriormente, quando atingiu a maturidade sexual, a evidenciar rara beleza e uma parceria invejável. Se a beleza lhe veio da ascendência, o carácter foi-lhe também moldado pela dona, uma senhora que o adorava e que passava a maior parte do tempo com ele, alguém que não esquecemos e de quem sentimos falta, uma amiga cuja morte nos empobreceu.
Até aos sete meses de idade, o Master era um atleta desajeitado, “um quebra-paus”, dando a sensação de ter nascido avesso aos obstáculos. No mesmo espaço de tempo “pendurava-se à esquerda” e rebocava o dono, inviabilizando o “junto” e estoirando o seu condutor, homem há muito arredado do exercício físico. Pouco a pouco e com uma pequena ajuda nossa, o binómio começou a destacar-se e o Master passou de marreta a mestre, tanto na ginástica quanto na obediência, atingindo performances físicas pouco vistas e uma obediência inquestionável. Certa vez, lá para as bandas da Serra do Calvo (Lourinhã), numa pista táctica mal elaborada, copiada pela nossa, sem contudo obedecer às suas escalas, o que tornava aqueles obstáculos quase impossíveis de transpor, o Master conseguiu vencê-los à primeira e sem qualquer dificuldade. Para se ter uma ideia aproximada da capacidade de resolução deste excelente pastor, convém ver com atenção a foto que se segue, um obstáculo composto pela Ponte-Quebrada e pelo Tambor. A Ponte-Quebrada encontra-se aberta a 2m e o tambor ao centro também elevado a 2m, assente sobre duas verticais, com um comprimento de 80cm e uma abertura ogival de 60x45cm. Como se pode ver pela posição da cauda, o Master foi surpreendido no 1º momento da transposição, dentro do tambor e quando se preparava para alcançar o 2º bloco da Ponte Quebrada.
Dono de uma elasticidade, força e precisão extraordinárias, sendo seguro, sereno e valente, para além de generoso e bem sociabilizado, o Master veio a revelar-se um exímio nadador, próprio para a tracção e um excelente cão de terapia, sendo inúmeras vezes utilizado como embaixador da escola junto das crianças, que o adoravam e acabavam por conduzi-lo. Apesar de guardar e guardar bem, o patinho feio que virou cisne, serviu de mestre e incentivo para os cães mais jovens na prática da endurance, disciplina que parecia ter sido feita para ele, já que nela ultrapassou tudo o que havia para vencer, apesar de cão urbano e de companhia.
Testado em altitude e chamado a trabalhar nos mais variados ecossistemas, hábil na transição dos simulacros para as situações reais, evidenciando com isso a supremacia dos códigos absorvidos, que lhe garantiam a adaptação fácil, o Master era capaz de se ginasticar sobre tudo que aparecesse, para sua alegria, gáudio do dono e espanto de quem assistia.
O Master e o Lobinho foram, em termos de criação, a resposta à alternativa norte-americana do Pastor de Shiloh, já que nasceram com 1/8 de branco na construção, contribuição visível no focinho de ambos, sem máscara e com as faces brancas, apesar de ambos não ultrapassarem os 68cm de altura e os 40kg de peso. Por causa dessa infusão, contrária ao estalão actual da raça, que irradiou os exemplares brancos da sua selecção, nenhum deles teve qualquer registo. O Master cresceu na Escola ao lado do PM, um gato siamês que o acompanhou nas aulas e que o ajudou na sociabilização, um companheiro diferente que via como igual.
Muito mais haveria para dizer acerca do Master, que apesar de velhinho continua ao lado do dono, descansando agora das tarefas que tão bem cumpriu, enquanto cão escolar, de companhia, trabalho e terapia. Virá a desaparecer mais rápido do que a sua memória, porque foi único e excepcional, um amigo disponível, franco e leal como poucos, o nosso “Turudinho”!

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