sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

PROGRESSÃO DESENFIADA OU CARNE PARA CANHÃO

 
O ensino do cão de guarda é muito mais que um conjunto de simulações e figuras obrigatórias, porque exige a salvaguarda dos animais diante dos perigos que irão enfrentar. Um deles, que exigirá treino aturado e especial cuidado, é o confronto com um homem munido de arma de fogo, que em mais de 99% dos casos, resulta na morte dos cães, quando no seu posto e sem a presença dos donos, o que normalmente acontece quando estes se encontram fora de casa. Nas escolas caninas mais badaladas ainda se ensina o desarme e o tiro no momento da captura, o que de certo modo transforma os cães em kamikazes, porque acostumados aos tiros, avançam em linha recta para cima dos agressores, possibilitando-lhes o disparo fatal. Se pretendemos um cão sentinela, então temos que o ensinar a surpreender e a não ser surpreendido, a proteger-se dos ataques e a desferir os seus de modo certeiro e debaixo da máxima segurança, capacitações que dispensam a “voz” de aviso e que obrigam à diminuição e ocultação da sua silhueta. Enfrentar um homem com uma arma de fogo, arco ou besta, exige um cão observador, seguro, silencioso e superiormente adestrado para o efeito. Do seu treino deverão fazer parte, para além doutros conteúdos de ensino, a detecção de armas, a abordagem dissimulada, a progressão desenfiada, o ataque a alvos imóveis, o desarme do indivíduo e a sua pronta imobilização.
A detecção das armas de fogo torna-se fácil pela presença da pólvora nos cartuchos, porque tanto o enxofre, como o salitre e o carvão, são facilmente reconhecidos pelos cães, bastando incentivá-los na procura das armas e recompensá-los pelo trabalho desenvolvido. A abordagem dissimulada deve resultar da detecção das armas e levar o cão a rastejar ou a encobrir-se durante a abordagem, mais-valia que exige treino demorado, repetitivo e objectivo, para que o alcance do condicionamento rase o instinto. O ataque a alvos imóveis, que possibilita a captura e o desarme de um intruso, normalmente imóvel e a fazer pontaria, resulta da presença da arma, anteriormente identificada e tantas vezes detectada. O desarme do indivíduo é tirado da aversão canina ao estrondo que a arma produz, explosão tantas vezes repetida ao longo do treino. A imobilização do intruso, que procura o desequilíbrio e a sua queda imediata, é obra do trabalho desenvolvido contra o “fato”, que instiga, aproveita e potencia os ataques mais elevados empreendidos pelos cães, a zonas do corpo mais sensíveis ou nevrálgicas. O treino deverá evoluir do fato para as protecções ocultas. 
Falta-nos falar da progressão desenfiada, um quebra-cabeças para muitos, pela técnica que exige e pelo trabalho que dá, muito embora a sua ausência, transforme qualquer cão num alvo fácil de abater. A progressão desenfiada consiste na evolução rápida e em ziguezague dum cão rumo ao intruso, numa amplitude lateral mínima de 3m e numa velocidade igual ou acima dos 3metros por segundo. Convém que os cães convidados para a progressão desenfiada já ataquem, saibam detectar, capturar e imobilizar, para que o possível travamento da figura, não obste ao ímpeto dos seus ataques, funcionando a captura como recompensa. A progressão em ziguezague é primeiro instalada através de pinos para o efeito, sendo realizada inicialmente com o dono ao lado. Na segunda fase, o dono orientará o cão por detrás do agressor. Depois tirar-se-ão os pinos e repetir-se-ão as duas fases até à soberania dos comandos. Finalmente, com a progressão garantida, o dono ficará na linha de ordem (de partida) e o cão evoluirá sozinho. É de todo conveniente que os cães consigam, nas duas fases preparatórias, obedecer também à linguagem gestual. Para facilitar a assimilação canina, a progressão poderá ser acompanhada por uma melodia que respeite e marque a lateralização desejável. Poder-se-á usar um apito, desde que usado numa toada binária, o mesmo sucedendo com o “clicker”. O Slalom do agility é uma versão optimizada dos pinos de marcação e pela presença de qualquer um deles, se entenderá a índole e vocação de determinada escola canina. 
Para além do que já se disse, para diminuir as hipóteses de abate do cão, o seu canil deverá ser dissimulado e permitir a observação para o exterior, para que o cão não seja abatido lá dentro e observe o perímetro a guardar sem dificuldade. O ideal é que só policie à noite, mas se houver necessidade de rondas diurnas, elas deverão acontecer em horários alternados, para que os hábitos do cão e o seu percurso não sejam imediatamente conhecidos. Se não houver este cuidado, a sua eliminação do exterior torna-se fácil. Dois cães sempre farão melhor trabalho do que um. Na impossibilidade da ocultação do canil, deverá ser atribuído ao cão um “ninho de observação” (local de observação), onde condicionado e camuflado tudo observará sem ser visto. A escolha entre a ronda e o ninho de observação será ditada pela salvaguarda do animal, uma vez avaliadas a extensão, a geografia e a topografia da propriedade a defender. Como um assalto bem planeado não dispensa a prévia e demorada observação, que pode durar dias ou semanas, tudo deveremos fazer para tirar o animal da mira de algum “sniper”. 
Felizmente, só os cães dos mais abastados correrão estes riscos, porque só o prémio justificará o dispêndio de meios e de tempo dos assaltantes. Apesar do crime estar a mudar em Portugal, pelo acolhimento de indivíduos doutras paragens, melhor apetrechados para esse fim, os cidadãos portugueses continuam ainda fora do interesse das “máfias” ou “gangs” estrangeiros. Se a situação se agravar, então há que deitar mão à progressão desenfiada. Entretanto, por prevenção, vá intercalando os ataques lançados com os desenfiados, evitando em simultâneo, aqueles que obrigam o cão a expor-se em passagens estreitas (portas, corredores, túneis, janelas, etc.), porque se o agressor tiver uma arma, mais fácil lhe será abater o animal, por força da definição do alvo.

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