sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DIE SCHRECKLICHE KREATUR: A AVANTESMA

A Avantesma, também entendida como “abantesma”, é uma simulação típica da reeducação, consiste na transformação dum comum figurante numa criatura capaz de fazer suspeitar qualquer cão, que apelando despudoradamente aos seus instintos mais básicos, o levarão à auto-defesa, à perseguição e à captura daquele tipo inesperado de presa, dispensando-se assim os desarranjos sociais, os traumas psicológicos e os meios químicos usados para o mesmo efeito. O disfarce do figurante, que visa a troca de alvos, deve ser o menos familiar possível, para que desperte a curiosidade e se constitua numa criatura tentadora aos olhos do animal. Para a elaboração do disfarce podem usar-se as vulgares máscaras de carnaval e decorar-se os fatos de ataque com motivos naturais ou artificiais, visando o maior impacto da figura. Quando são conhecidas as inimizades de determinado cão, então o disfarce deverá recriar uma delas. Durante anos recorremos à Avantesma nos nossos acampamentos, quando tínhamos em mãos cachorros destinados ao ofício guardião. A última vez que a utilizámos foi numa instrução nocturna no Belas Clube de Campo, há alguns anos atrás e os resultados foram os esperados, para espanto da maioria dos participantes, onde transformámos a figurante, tirando partido da vegetação circundante, num misto de “Athene noctua” com “Mantis religiosa”, recriando os movimentos típicos dessa ave e desse insecto. 
A Avantesma serve para recuperar os cães que se tornaram mansos pelo peso ambiental (por inibição, erro pedagógico, liderança imprópria, excessiva sociabilização, carência de condições, ausência de estímulos e travamento desmedido), apesar de robustos e saudáveis dos pontos de vista físico e psicológico, sem entraves genéticos e acertadamente escolhidos para guardar, quando bonacheirões e apáticos. O disfarce do figurante (avantesma) serve ainda para iniciar os cachorros menos confiantes e os cães que só se interessam por alvos menores (cães, gatos e outros animais), operando neles a troca de alvos. Para além de despoletar o impulso à luta nos cães, ela tende a reforçá-lo, pela curiosidade que desperta e pela aversão que liberta, fortalecendo o ímpeto, melhorando a abordagem, potenciando os golpes e instigando à sua variação. 
O uso da máscara, que encobre as feições humanas e as transforma, tende a diminuir o receio dos cães e aumenta-lhes a fixação, particularmente daqueles que sempre foram repreendidos, que doutro modo jamais ousariam enfrentar o que quer que fosse, por medo da reprimenda ou do castigo, quando associados à figura humana, porque nem sempre um cão valente pressupõe um dono igual e os fracos, quando em vantagem e por medo, tendem a acobardar quem os serve, carregando neles sem piedade, para que nunca venham a ser carregados. Surtindo a avantesma o seu duplo propósito (o despertar dos receosos e a troca de alvos), gradualmente, de acordo com as respostas positivas obtidas, o figurante irá livrar-se do disfarce até ao seu total abandono. Por norma, quando o trabalho é bem feito, não há necessidade de retornar ao disfarce, e se houver, nada nos garante que sejamos bem sucedidos, porque os cães aprendem pela observação e pela experiência, o que os leva à desconfiança e dificulta o seu engano. Mas temos tudo a ganhar, se usarmos o disfarce para os cães já aprovados, porque certos do seu sucesso, bem depressa cairão sobre o figurante, robustecendo-se assim para os ataques reais. 
Como o figurante na Avantesma é um “transformer”, reproduzindo na sua actuação diferentes tipos de presa, os seus movimentos característicos e reacções à captura, é possível dotar os cães de novos ataques e ensiná-los ao ataque de alvos imóveis, porque o disfarce torna o figurante mais vulnerável e interessante para eles. Para o alcance do ataque a alvos imóveis, necessário quanto temos um homem armado pela frente ou um larápio versado em cães, que se deita imóvel no chão e finge-se de morto, o que normalmente leva ao desinteresse e à cessação dos ataques caninos, sempre será melhor recorrermos à Avantesma do que pedir ao figurante que alce a perna ou mexa os braços, porque se encontra numa posição incómoda e a sua mobilidade é menor. Perante o estoiro do figurante é irrisório pendurá-lo, pontapeá-lo ou pô-lo a nadar em seco. 
O disfarce de um figurante nem sempre pode ser considerado como “Avantesma”, porque muitas vezes é usado para canalizar a ira dos cães para alguém em particular, como simulacro para a captura de um grupo de indivíduos, previamente identificados e com características específicas. A Avantesma é somente uma manobra de estímulo, o resto é trabalho premeditado, melhor arquitectado e com destinatários certos.

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