quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O ÚLTIMO DOS VADIOS: O HOMEM-CÃO

Nas sociedades organizadas o número de cães vadios tem diminuído significativamente, apesar da adopção ser deveras inferior aos ofícios da injecção letal. O lugar outrora ocupado por esses cães, é agora disputado pelos sem abrigo, tão vadios quanto os primeiros e sujeitos à mesma sorte. A tendência generalizada daqueles que gostam de animais é atribuir-lhes qualidades ou prerrogativas humanas, mas nós não fomos por aí, tomámos exactamente o rumo inverso e fomos à procura de homens com características caninas. A tarefa não foi difícil e deparámo-nos com o homem-cão: o sem abrigo, um rebola contentores que se barrica em cartões e caixotes e que se abriga em espaços próprios para animais abandonados. Tal qual cão de igual fado, o sem abrigo vive arredado do grupo e distante da família, vê encurtado o número dos seus dias e convive diariamente com a morte. Como cão geneticamente impróprio, sobrevive pelos instintos e despreza os impulsos mais comuns e necessários à sua aceitação. Apesar de nele ainda existir a esperança, adormece agarrado ao passado e teima em acordar, como rafeiro que se esconde para não ser incomodado. Talvez se encontre doente e a doença seja crónica ou congénita, talvez seja um incapaz, um impróprio, um cobarde ou um suicida, mas não deixa de ter um nome e ser um irmão ao nosso lado. Se na arcada de um teatro clássico se encontrarem dois vadios, mesmo no Natal, e um for homem e outro cão, qual dos dois será mais facilmente adoptado?

O Natal, para além de uma evocação, é uma celebração de agradecimento a Deus, que através do nascimento do Seu Filho se tornou homem, habitando entre nós para nos trazer a Paz, uma manifestação inequívoca do Amor Divino sobre a decadente fraternidade humana, inebriada de rituais e distante dos propósitos seu Criador, que a todos pretende salvar. O Natal induz-nos à Páscoa e nela se revela a essência da Fé Cristã: um Deus que morre por nós, ao contrário de outros que obrigam à morte dos seus seguidores. O Deus revelado em Cristo coloca-nos a todos e em exclusivo debaixo do Seu sacrifício vicário, como único caminho para a ressurreição e para a comunhão celeste. O natal ocidental tornou-se numa festa do consumismo, num preceito distante do seu sentido original, numa ocasião de barriga farta perante aqueles que nada têm para comer e que são tratados abaixo de cão, esquecidos pelo encerrar das janelas e pelo ribombar dos cânticos. Não podemos mudar o mundo, mas podemos suavizar o sofrimento de alguns, dar mostras do que recebemos e torná-lo extensível aos mais próximos, porque assim cresceu a Igreja Primitiva, quando à Eucaristia sucedia a divisão dos bens. Quando ao Natal se tira a perspectiva escatológica, o carácter transitivo da nossa vida aqui, morre a Fé e a porca volta ao seu chiqueiro.

Os cães recebem presentes no natal: uma nova coleira, uma trela brilhante, iguarias do seu agrado e são objecto de maior tolerância. Alguns deles sentam-se à mesa com os donos e são os seus únicos companheiros, recebem capas para o frio e são convidados para o seio familiar, tornam-se gente e isso agrada-lhes, ainda que o desconheçam a causa da honraria e ignorem o que é natal. Entretanto, lá fora, o sem abrigo continua vadio e ainda há quem lhe atice os cães, como se fosse um lobo esfaimado prestes a atacar. Só a cegueira pode garantir a supremacia do antropomorfismo sobre a fraternidade, a menos que vivamos em matilhas ou alcateias e nisso nos sintarmos esplendidamente. De qualquer modo, o preço usual de um brinquedo canino garante duas refeições económicas a um sem abrigo, carenciado delas e incapaz de as alcançar; o preço médio de uma saca de ração de qualidade dá para sustentar um sem abrigo durante uma semana. Daqui apelamos à generosidade, aos nossos condutores e leitores, a todos aqueles que tendo cães, não vivem de costas voltadas para os homens.

Quando falamos sobre este assunto, lembramo-nos de uma história verídica, a acontecida a um comandante de polícia dos Palop’s. O Sr. Brigadeiro fulano tal veio a Portugal comprar-nos 2 casais de Pastores Alemães, aproveitando a ocasião para adquirir também alguns veados. Como os Pastores eram cachorros, adiantamos-lhe a receita do “reforço” e como por lá não existia qualquer distribuição de ração, ensinámos-lhe a confecção dos diferentes pensos, coisa que muito agradeceu e prometeu levar à risca. Passado um ano voltou a visitar-nos, o que muito nos alegrou. Pensávamos nós que os cães tinham sido aprovados e que vinha à procura de mais. Infelizmente a realidade foi outra, os cães acabaram envenenados pela população, que não raramente lhes roubava a comida, porque a fome grassava e não tinham o que dar às crianças. Temendo pelos cães, não lhe vendemos mais nenhum. Apesar de triste é verdade: nas cidades os sem abrigo e os cães vadios lutam entre si pela sobrevivência, assistindo-se ao combate entre bípedes e quadrúpedes de idêntica condição, fora de horas e ao redor dos caixotes do lixo. Ainda que não o queiramos, este Natal não irá ser diferente, porque haverá fartura de sobras e o frio aperta.
* PS: Ainda não nos deparámos com nenhum sem abrigo chinês, budista ou muçulmano.

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