quinta-feira, 11 de setembro de 2014

THE KANAKAS ARE BACK AGAIN

Kanaka foi o nome atribuído aos nativos da Oceânia e aos insulares do Pacífico, gente que acabou recrutada, primeiro para a Austrália e depois para o Hawai, rumo às plantações de cana do açúcar, durante o Sec.XIX, após a abolição da escravatura e em regime semi-esclavagista. A partir de determinada altura, sensivelmente a partir do último quarto desse século, procedeu-se ao recrutamento de trabalhadores europeus para sua substituição, por razões ligadas maioritariamente ao aumento da produção, o que fez com que milhares de açorianos e madeirenses prá ali rumassem, mercê das dificuldades que atravessavam nas suas ilhas natais. Antes de ali chegarem, já muitos patrícios seus se encontravam na Califórnia, onde o trabalho era menos duro e a fortuna parecia ser mais fácil de alcançar.
Pouco a pouco, começaram a transferir-se do Hawai para lá, sendo alcunhados depreciativamente de “Canecas” pelos outros portugueses ali residentes, graças à sonoridade do substantivo inglês “Kanakas” e ao pouco conhecimento que tinham dessa língua. Ao tempo e pela mesma razão, ao Hawai e as ilhas ao seu redor, chamaram-lhes “Ilhas Canecas”. Com grande esforço, trabalho e dignidade, predicados reconhecidos pelos californianos dessa época, os portugueses singraram na vida, dedicando-se à agricultura e à produção de leite, alcançando posteriormente outras actividades e negócios, vindo alguns a ser banqueiros. Apesar de bem sucedidos e de se terem apossado do “sonho americano”, fica também para a história o termo “Kanaka”, que mais do que uma simples alcunha, evidencia a tradicional falta de unidade nos portugueses, demérito fratricida que o tempo ainda não apagou.
Os “Kanakas” de hoje, também eles aos milhares e para cima de meio milhão, mais continentais que insulares, já não são agricultores, leiteiros ou padeiros, mas maioritariamente mão de obra qualificada, que ao sair nos faz falta e que hoje ruma no sentido contrário ao dos Mares do Sul (mais para sul, só para Angola e já lá estão muitos!). Estamos a falar de enfermeiros, engenheiros, investigadores, jovens empresários, licenciados sem ocupação, professores, técnicos especializados, veterinários e por aí adiante. Oxalá sejam bem sucedidos e vejam premiado o seu empreendedorismo, sejam bem aceites e facilmente se integrem. Seria ouro sobre azul, se recebessem auxílio ou ajuda doutros portugueses ali radicados, o que apesar de desejável, não é garantido. Nas nossas andanças pelo mundo, mais nos valeram os espanhóis, particularmente os galegos, do que os portugueses que conhecemos, mais lestos a ignorar-nos e nada interessados em se dar a conhecer, muito menos a valer-nos, a nós ou a qualquer um! Este individualismo cego que busca aprovação e despreza o igual, sempre justificou em Portugal, ontem como hoje, a partida de alguns e a falta de provimento de todos.
Apesar do objectivo central deste blog apontar para a salvaguarda canina e para os requisitos técnicos que a garantem, analisando práticas e adiantando soluções, ele é também um veículo que liga os portugueses espalhados pelo mundo e que congrega leitores entre todas as nações, quer elas sejam de língua oficial portuguesa ou não, dando a conhecer o português, Portugal e as suas gentes, pelo que, invariavelmente, vamos dando notícia do que aqui se passa, dentro da imparcialidade possível que induz à verdade. E vamos continuar a fazê-lo, agora com razões acrescidas, porque das nossas fileiras também saíram portugueses para o estrangeiro, gente amiga e leitora assídua deste blog, que faz uso do seu endereço para receber e dar notícia.
Podemos afirmar, sem medo de errar, que a globalização aconteceu com os descobrimentos portugueses, com os conquistadores espanhóis e com a ascensão doutros povos depois deles, que enfraquecendo-os, forçaram o seu declínio e tomaram as suas feitorias e praças, administrando esses territórios, de uma forma ou de outra, até à queda do colonialismo e nalguns casos, até aos dias de hoje. Para além de estabelecerem o comércio global, os portugueses encetaram o diálogo inter-racial, ao ponto de unirem por laços sanguíneos os habitantes dos diferentes continentes, há milénios separados e isto há mais de cinco séculos, apesar de outros terem levantado contra os espanhóis “La Leyenda Negra” e a nós as culpas da escravatura, como se ela terminasse nos navios negreiros, outros não enriquecessem com o trabalho escravo, o racismo já houvesse sido banido e a xenofobia fosse um exclusivo luso.
Tal como no passado, historicamente cidadãos pró mundo, os portugueses que hoje partem, melhor apetrechados do que antes, irão produzir e gerar riqueza nas nações que os acolherem, integrando-se nelas como sempre o fizeram e constituindo ali família. Os verdadeiros “Canecas” de hoje, já não são os portugueses nem tão pouco os irlandeses, mas aqueles que são caçados como bestas nas linhas de fronteira, miseráveis que morrem de fome, frio e desidratação dentro de contentores, por infindas estradas nocturnas e na travessia dos diferentes mares, homens livres que se transformaram em escravos, enfrentando a morte para que a vida lhes sorria, em cujos farrapos são visíveis uma ou duas fotografias, daqueles que deixaram para trás e que lhe são queridos, estímulo que os mantém vivos e os leva para diante. Um crime milenarmente repetido, que de tão monstruoso, enche-nos a todos de vergonha!
Afortunadamente, os portugueses nasceram no lado certo do mundo e os que partem vão para melhor, o peso e os valores da sua cultura irão ser reconhecidos, o que facilitará a sua aceitação. Com alguma facilidade e sem grandes delongas, assimilarão as línguas nativas e a sua cultura, vindo a integrar-se plenamente, como se houvessem nascido ali, o que levará muitos a trocar o solo pátrio pela terra que adoptaram, como sempre aconteceu, a leste e oeste do meridiano de Greenwich e a norte e a sul do equador. Mais cedo ou mais tarde, serão completamente assimilados e só teremos notícia deles e da sua descendência pelos nomes de família, isto se não os apaladarem de acordo com os outros ao seu redor, o que já fizeram para evitar a descriminação e a xenofobia (hoje dificilmente terão necessidade disso). São muitíssimos os descendentes famosos de portugueses espalhados pelo mundo, gente que o vulgo ignora ter sangue português. Na foto abaixo manifestamos quatro deles: Harod Peary, Tereza Heinz Kerry, Tom Hanks e John Philip de Sousa (Keanu Reeves também o é, e um Kanaka por excelência, já que tem ascendência portuguesa, chinesa, irlandesa e havaiana, apesar de ter nascido no Líbano).
Com os que agora partem, esse número irá aumentar substancialmente, uma vez que os “canecas” cederam lugar aos “copos de cristal”, à nata que estamos hoje a exportar. Serão eles os pilares do tão anunciado Quinto Império, dum Portugal maior e dum Brasil global? Há quem diga que sim, muito embora se diga tanta coisa. Sê-lo-ão se o mundo for mais fraterno. Queremos daqui saudar os novos emigrantes, desejar-lhes votos de sucesso e prosperidade quer retornem ou não, porque partimos com eles em excursão e as suas vitórias serão também nossas, neste mundo que é de todos e para todos. Assim sendo, queremos também daqui saudar os nossos imigrantes, desde apostados na mesma senda e progresso. Portugal está de “malas aviadas”, oxalá não retorne de mãos vazias, não se transforme numa aldeia temática ou num efémero património da Unesco.

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