quarta-feira, 3 de setembro de 2014

EU NÃO VOU DAR AO CÃO AQUILO QUE EU NÃO COMO!

A última vez que ouvimos esta sentença, quase beijámos quem no-la disse, porque apesar de ser corriqueira, sempre nos esquecemos de a comentar, não porque seja erudita ou produto de um novo pensar, muito pelo contrário, já que é paradoxal, perde-se pelos confins do tempo e parece-nos até anterior à escrita. Quem a diz, fá-lo para justificar a má qualidade da dieta que diariamente distribui ao seu cão, alguém que abocanha o que pode e não consegue dar ao animal aquilo que deveria, condenando-o assim à mesma sorte, por ausência de melhores proventos, até porque cão é cão e terá que comer o que lhe puserem na frente, o que de especicismo não tem pouco e de razoável pouco ou nada tem, conceito e prática errados mas aceites pelo consenso generalizado, para quem faz todo o sentido.
Menos sentido faz e acontece com frequência, que indivíduos com magros orçamentos familiares tenham mais do que um cão, independentemente do seu tamanho ou voracidade, o que mais agravará a pobreza dos donos e a subnutrição dos animais, porque o dinheiro é o mesmo e há mais bocas para alimentar. A receita brasileira de “pôr mais água no feijão”, quando o número de convidados aumenta, acaba por ser aqui a única solução. É estranho gostarmos daquilo que nos condena, será essa a nossa verdadeira inclinação? E como se isto não bastasse, alguns destes indivíduos acabarão por se dedicar à criação de cães, actividade de lucros duvidosos e que irá influenciar negativamente na qualidade dos cães produzidos em Portugal, não sendo de estranhar que os cachorros vendidos, venham a desenvolver-se mais do que os sustentados pelos seus criadores e entregues aos seus “cuidados”, verdade que se repete e que geralmente leva à exclamação: “Está a ver? Afinal vendi-lhe um cão muito bom, até é melhor do que os meus!” (melhor seria que nada dissessem!).
Daí a pouco, com o aumento da despesa com os cães, alguns casais verão a sua economia drasticamente abalada, não terão férias, pé-de-meia e dinheiro para coisa nenhuma, viverão para o dia-a-dia à espera do final do mês, protelando para tempo incerto o nascimento dos seus filhos, que poderão vir ao mundo ou não, mercê da estranha adopção que os tornou “pais dos cães”. Que bom seria que os filhos dos mais ricos nos bastassem: a nós ao País e ao Mundo! Esta forma de escravatura dissimulada é a uma grave patologia, uma “caniculturite aguda” que nalguns casos, e cada vez são mais, não esconde o medo da natalidade e que pode levar-nos à extinção, a um país sem habitantes (fantasma) e à desertificação. A usurpação do lugar dos filhos pelos cães nos lares, como é sabido, é uma tendência anterior à actual crise e que tem vindo a aumentar com ela. Uma coisa é certa: mais depressa debelaremos a crise do que as suas causas, pois nenhuma especulação dos mercados financeiros conseguirá libertar-nos de vícios antigos.
Um deles é o esbanjamento que nos domina e o outro o mau hábito de passarmos a “batata quente” de uns para os outros, o que nos torna contraditórios, simultaneamente magnânimos e indiferentes. Como posso entregar um cão a quem mal se sustenta, a quem precisa de amealhar e que tarda em realizar-se? Sentir-me realizado quando lhe tiro o pão da boca? Mais valia transformar os canis e os lares de adopção caninos em quintas pedagógicas, transformando-os num bem colectivo, do que aumentar o número de proprietários caninos! Todos os que adoptam cães têm condições para os manter? É evidente que não! Por isso alguns animais irão ser mais uma vez abandonados ou retornarão às associações donde saíram, quando não acabam nos canis terminais municipais, por via da pobreza encoberta que resiste à exposição da vergonha. Vistas as coisas deste prisma, parece que Federico Fellini continua vivo, o “filme” lhe pertence e o pós-guerra está de volta. Que bom seria que tudo isto não passasse de pura ficção! 
Quem sustenta a canicultura é a classe média e será ela a estabelecer o preço dos cachorros, mediante a maior ou menor procura. Nos tempos que correm a procura baixou e baixou porque ela viu aumentada a sua carga tributária e diminuídos os seus proventos. Diante desta conjectura, a adopção de cães veio substituir a compra dos exemplares standartizados e assiste-se agora à troca dos cães maiores por outros mais pequenos, alterações assim produzidas por razões económicas. Se a classe média luta desesperadamente para evitar o défice, a classe abaixo dela já mergulhou na penúria, pelo flagelo que atinge as duas, reforçado pelo desemprego, pela baixa de salários, perca de regalias e menor poder de compra. Como poderão indivíduos sujeitos a este calvário, alimentar convenientemente os seus cães? Somente através de “rações de combate”, daquelas que custam 1/3 das recomendáveis e que subtraem aos índices de proteína e de gordura percentuais até aos 50%. Mesmo os mais abonados, e nisso reside o aumento dos lucros das empresas que se dedicam à alimentação dos animais de companhia, acabam por comprar rações de gama mais baixa ou por trocar de marca. Os retalhistas, querendo manter-se à tona, reduzem os seus lucros e aplicam descontos sobre a quantidade até aos 20%. Estas são as estratégias mais visíveis, porque haverão outras que não conhecemos, não fosse o segredo a alma do negócio, apesar de tão velhas quanto o mundo.
Por tudo isto se compreende, quais as razões que levam muitos a mal alimentar os seus cães, os mesmos que sobrevivem com um prato de sopa, um galão e um bolo, que fazem das salsichas o seu melhor repasto e que procuram “tascos” com pratos a 3.80 €, onde vão ocasionalmente, em dias especiais e enquanto o salário dura, porque até o McDonald está caro, apesar de agora também vender bifanas (esses “Américas” não perdem pitada!). A nosso ver, antes de entregarem os cães, visando o seu bem-estar e qualidade de vida, as associações que albergam animais para posterior adopção, deveriam certificar-se em que mãos os entregam, se os interessados têm meios para valer aos adoptados, muito embora falte autoridade a algumas delas para isso, constantemente de “mão estendida à caridade”, a administrar rações ofertadas e de baixa qualidade, quando não fora de prazo. Valha-nos que os cães, contrariamente aos homens, melhor sobrevivem debaixo da política de “amor e uma cabana”. Porque raio nos convencemos que os cães vivem de restos, os lobos nunca o fizeram, serão todos os cães modernos descendentes do chacal?
Ao abordar esta temática, mais ligada ao impulso do que à razão, lembrámo-nos de Johann Gottfried Von Herder, filósofo e escritor alemão setecentista, que a breve trecho disse: “ Quem vence um leão é um valente, quem domina o mundo é um homem de valor, mas, mais valente e corajoso do que eles todos, é aquele que sabe dominar-se a si mesmo”. Antes de adquirir um cão, certifique-se que tem condições para o manter satisfatoriamente, que a sua aquisição não vai agravar a economia do seu agregado familiar e sujeitá-lo a comer “o pão que o diabo amassou”, porque é uma vida que lhe é confiada e todos vivemos daquilo que comemos. Mais vale aguardar um pouco mais do que precipitar a desgraça, pensar antes de agir. 

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