quarta-feira, 10 de abril de 2013

QUEM NASCE MALFADADO, MELHOR FADO NÃO TERÁ

Não é nosso objectivo falar de João Silva Tavares, um poeta alentejano de Estremoz, a quem se atribui a letra do fado “O Fado de Cada Um”, por mais importante e rica que tenha sido a sua obra ou legado. E também seria gratuito falar do Maestro Frederico de Freitas, autor da música, cuja contribuição para o teatro de revista é sobejamente conhecida e reconhecida. A estrofe desse fado, um dos êxitos de Amália Rodrigues, que escolhemos para o título desta rubrica, também não pretende reforçar o carácter fatídico dos portugueses em geral e em particular os do Sul, porque também a entendemos pelo aforismo: “quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Tampouco nos interessa a doutrina calvinista da predestinação, com a qual não concordamos. O que queremos denunciar e pôr em reflexão é a contribuição humana para o disparate canino, a sorte de alguns cães que vão parar a mãos erradas, cujo número é grande e não cessa de aumentar. Como as violações sobre os direitos dos animais são inúmeras, sempre que pudermos, denunciaremos aqui as mais comuns, aquelas que atormentam os cães e que por serem pouco perceptíveis, encobrem a responsabilidade dos seus proprietários, gente que mais tarde se dirá malfadada, diante do carrego daquilo que fez ou deixou por fazer, ainda que eventualmente possa ter sido mal aconselhada.
Um proprietário de uma mercearia, situada num dos subúrbios de Lisboa, num local pouco recomendado pela assiduídade dos assaltos, temendo o pior, decidiu adquirir um cão que mordesse que nem um danado. Depois de buscar conselho, optou por adquirir um Cão de Fila de S. Miguel, não sem antes se deslocar aos Açores e atestar da sua valentia, seguindo a advertência de que os melhores cães estavam nas mãos dos fazendeiros e não nos criadores de beleza. E por lá andou a saltar hortênsias e muros de pedra durante dois meses, inúmeras vezes esfarrapado e a fugir dos dentes que o perseguiam. Por fim decidiu-se pelos progenitores e ficou a aguadar o cachorro no Continente, acabando por recebê-lo alguns meses mais tarde. O bicho ganhou o nome de Bravo e até aos seis meses de idade mostrava-se manso, apesar de grande e robusto. Temendo o logro, o seu proprietário ligou para o criador a queixar-se do comportamento do animal, merecendo deste o seguinte comentário: “Ele está é a dormir, para o próximo mês vou ao Continente, irei a sua casa e acertaremos as agulhas do animal. Isto se você me der guarida”. Garantida essa condição, o açoreano não tardou e começou a “despertar” o cão, dando-lhe três doses diárias de pancadaria com o que tivesse à mão. Quando o cão começou a desfazer paletes à dentada, deu o serviço por concluído e voltou para os Açores.
Vivendo acorrentado e sendo vítima da terapia acima descrita, o cão tornou-se incontrolável, não aceitando a autoridade de ninguém e muito menos do seu próprio dono, que entrava em bicos de pés para lhe dar de comer e saía com os calcanhares a bater-lhe no traseiro. Consciente do problema, decidiu procurar ajuda, acabando por nos contactar. Começou por nos contar o histórico do cão e concluiu com a seguinte sentença: “eu queria um cão mau, mas não tão ruim, que mordesse nos outros e não a mim!” No início do treino não teve essa sorte, porque qualquer comando que solicitasse era rejeitado à dentada, já que o animal se atrasava intencionalmente para cair sobre o dono. Valeu-nos a valentia do homem, que apesar de cortado, não desistia às primeiras (dificilmente alguém aguentaria tanto). Perante o desinteresse pelo alimento, pelos convites à brincadeira e pelo insucesso do açaime, que ele tentava tirar até ao desmaio, optámos por treinar o cão dentro de uma piscina, pois adorava água, com o dono ao lado a conduzi-lo pela trela, protegendo assim o homem e invalidando os ataques do animal, familiarizando-o com as ordens e o seu emissor. Ainda bem que nos encontrávamos no Verão! Passados poucos dias, já o cão aceitava a trela e o seu condutor, desfilando ambos alinhados e garbosos. O Bravo veio a tornar-se num ícone da nossa escola, porque apesar de nascer malfadado, conseguimos dar-lhe outro fado, o que se deve em grande parte ao dono, porque se fosse outro, apesar da sua culpa e da inocência do animal, de imediato o eliminaria. Outros cães não tiveram a mesma sorte e acabaram por pagar pelos actos dos seus donos. Será que não continuam?

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