Os lobos sempre espevitaram a curiosidade dos
homens ao longo dos tempos, o que fatalmente os tem condenado à extinção, mesmo
depois de inventarmos o cão na pré-história e de termos ficado com um lobo à nossa
disposição. A procura do cão-soldado sempre foi alimentada pelo mito do “Lobo
Mau”, não fossem os homens eternas crianças com sede de poder, ávidos de
domínio e amantes de si próprios. Os homens da Europa Central, contrariamente
aos idílicos meridionais, mais dados a filosofias do que ao engenho, têm por
condição massificar os seus sonhos mercê do pragmatismo que sustenta as suas invenções
e que os leva para diante, assim são também os checos! Uma dezena de anos
depois da imposição da “Cortina de Ferro”, já os criadores de Pastores Alemães
do Leste andavam à brocha com os reflexos da consanguinidade e da endogamia
presentes nos seus cães. Não se antevendo para breve a “Perestroika” e a queda
do “Muro de Berlim”, tampouco a separação entre checos e eslovacos, optou-se
como solução, nalguns lugares da finada República Socialista da Checoslováquia,
pelo cruzamento dos pastores alemães com os lobos, no intuito de produzir uma
nova raça que conservasse a excelente parceria do pastor alemão aliada à
extraordinária autonomia dos lobos, advinda da sua rusticidade, resistência e
combatividade, num regresso inequívoco ao mais puro dos atavismos.
A ideia
era boa mas o resultado não foi o esperado, porque ao invés de se ter alcançado
o melhor das duas raças, a carga instintiva lupina diminui a desejável
cumplicidade canina, sobrando mais lobo do que cão, o que não tem tornado fácil
o adestramento destes cães-lobos, que exige mais inibição do que recompensa
para se atingir a parceria desejável, porque se dispersam facilmente, exigem
novidade de estímulos, procuram rumo próprio, resistem à interacção, são pouco
agradecidos, desiludem-se com treino e não dispensam um forte condicionamento
mecânico, isto quando comparados com os pastores alemães, apesar de mansos e
por vezes até esquivos. Mas se forem criados junto doutros cães adultos que
funcionarão como seus mestres, pelo exemplo deles e por força do seu particular
social, melhor aceitarão a liderança humana e mais facilmente chegarão à
cumplicidade e à interacção, porque são competitivos entre iguais e sentem-se
mais cómodos quando inseridos num grupo. Esta tem sido a estratégia que melhor
tem servido para a capacitação e uso destes híbridos, que nalgumas tarefas do
treino apresentam dificuldades próximas às visíveis no Malamute do Alasca.
É evidente que sobressaem algumas excepções, fáceis
de adivinhar quanto à sua origem (dominância em CPA, numa linha de lobos mais
interactiva ou no produto de ambos) e que com o decorrer dos anos a raça se
tornará mais moldável, independentemente de sofrer ou não outra infusão de lobo
familiar, graças á selecção que procura os mais aptos. E
é aqui que reside a grande dúvida quanto ao futuro da raça: o Lobo Checo
retornará ao Pastor Alemão ou perpetuará o sangue do Lobo dos Cárpatos que lhe
garante a existência e a diferença, virá ser um Pastor Alemão que no passado
teve uma origem silvestre ou um cão-lobo que em tempos dele descendeu? O
caminho mais fácil e seguro é o do retorno, aquele que procura a dominância do
CPA e que segundo se diz à boca calada, tem vindo a acontecer com alguma
frequência, caminho também facilitado pela abertura das fronteiras. Será
verdade? Se for, alguém correrá o risco de comprar gato por lebre, de adquirir
um Pastor Alemão com ascendência em lobo ou um cão-lobo que de silvestre pouco
ou nada tem. O Lobo Checo poderá ser um melhoramento para o Pastor Alemão?
Sê-lo-á se lhe eliminar as lacunas actuais e lhe conservar as características
seculares (físicas e psíquicas), isto com o aval da “SV”, o que nos parece
pouco provável e sendo o lobo relegado para a linha dos trisavôs,
beneficiamento já aceite noutras raças.
O Lobo
Checo como primeiro cão pode não ser a melhor das alternativas, isto se
pensarmos em adquirir um segundo de raça diferente, porque ao ser mais velho e
pelo peso hierárquico, levará o mais novo a comportamentos similares ao seu, o
que de todo não seria desejável, a menos que os criemos em separado e vigiemos
as suas brincadeiras, para além de bem cedo termos de reforçar os vínculos
afectivos com o mais novo, desenvolvendo com ele a inerente cumplicidade. Se
procedermos assim, o infante irá ajudar-nos de sobremaneira na recuperação do
cão-lobo. O cruzamento de 1ª geração entre o Pastor Alemão e o Lobo Checo,
infelizmente, não consegue levar de vencida a carga instintiva presente no
segundo. A persistência nesta opção deve dispensar a contribuição branca, lobeira,
cinzenta e vermelha, as três primeiras pela proximidade ao cão checo e a última
porque lhe iria aumentar significativamente a sua agressividade, o que
dificultaria deveras o seu controlo. A escolha menos comprometedora para este
efeito deverá recair sobre pastores negros ou sobre exemplares recessivos nessa
variedade cromática, muito embora a ossatura da prole tenda a aligeirar-se e as
indesejáveis manchas brancas surjam com maior frequência, pelo que se deseja
que o negro a usar seja naturalmente robusto e com um mínimo de 3/8 da
variedade dominante (preto-afogueada) na sua construção.
Dos 10 exemplares que testámos e de outro tanto que
observámos a trabalhar nas mãos de outrem, alguns entre militares há uns anos
atrás, porque hoje praticamente desapareceram das fileiras e das classes de
trabalho civis, passada que foi a novidade, avaliados os aspectos relativos à
cognição, à biomecânica e à máquina sensorial, estes lobos checos demonstraram
fraco impulso ao conhecimento, razoável propensão atlética e boa máquina
sensorial, muito embora o seu uso careça de maior disponibilidade objectivando
o seu fim útil. Do ponto de vista cognitivo conseguiram a absorver cerca de 25
comandos num período até 10 meses, o que os coloca um pouco acima das
capacidades do Podengo nacional mas que os deixa para trás da maioria das raças
comummente em treino (com a mesma carga horária e no mesmo período de tempo, um
Pastor Alemão regular assimilaria mais 40% dos comandos). Apresentaram alguma
resistência à trela, por vezes até algum desencanto, facto denunciado pelas
suas expressões mímicas. Foi perceptível a sua resistência aos alinhamentos, um
certo desapego aos condutores e alguma abstracção. Foram alvo de
supercompensação, induzidos por recompensa e admoestados por
contra-procedimentos, apesar de responderem melhor ao condicionamento mecânico
do que ao afectivo.
Do ponto de vista atlético viu-se que são portadores
de uma grande elasticidade, elegância e resistência, que rastejam com
facilidade e nadam serenamente sem grande dificuldade, mostrando preferência
pelos obstáculos naturais em detrimento dos artificiais. Verificou-se que a
marcha é o seu andamento preferencial e que usam o passo de andadura nas
abordagens. Evidenciaram grande capacidade de impulsão, especial à vontade nos
túneis e passagens estreitas, algum atabalhoamento na saída dos obstáculos mais
altos e algum incómodo nos mais elevados em relação ao solo. Vimos dois deles
fazerem 8 segundos aos 100metros e passados alguns minutos retornarem a uma
frequência cardíaca entre as 68 e as 74 pulsações por minuto. Segundo nos
fizeram saber, aqueles cães-lobos não reduzem o seu desempenho diante de
grandes amplitudes térmicas, suportando de igual modo o frio e o calor
intensos.
Pelo que nos foi dado a observar e já dissemos
atrás, a máquina sensorial do Lobo Checo é boa e não é excelente porque nem
sempre se dispõe a utilizá-la, particularmente quando introduzido na pistagem
depois da maturidade sexual e sem a parceria doutro cão já experimentado. Tem como
hábito “apanhar ventos”, de captar de cabeça levantada os odores que procura,
estranha ou necessita para os seus intentos, o que pode ser uma vantagem,
rastreando depois mais perto dos alvos. Tem sido usado como cão de busca e
resgate, mas o seu uso não se generalizou, muito embora raramente confunda os
comandos de “ronda” e “busca”. Tem uma audição acima da média, o que o torna
inquieto e a sua visão periférica é ligeiramente superior à encontrada no
Pastor Alemão.
O Lobo Checo necessita de muito condicionamento
para ser um cão de guarda eficaz, sendo mais fácil prepará-lo pela
transformação dos momentos lúdicos em simulacros, ensiná-lo a partir da brincadeira
para que ganhe confiança, porque procura a vantagem e é mais defensivo. A sua
mordedura não é muito potente (sensivelmente igual à do Pastor Alemão), prefere
surpreender e quando surpreendido recua ou tende a pôr-se em fuga. Sente-se mais
à vontade nas perseguições do que nos ataques lançados, ataca com mais ímpeto
quando atrelado, prefere os ataques de surtida, pode atacar pelas costas e
evita a todo o custo ser capturado. Reage pior ao fogo do que aos estrondos, é
mais atento no “lusco-fusco”, é difícil de enganar e faz abordagens
dissimuladas, podendo agachar-se antes de desferir os seus ataques, que valem
mais pela velocidade do que pela força de impacto, lembrando os desferidos
pelos belgas groenendael, muito embora sejam mais baixos e imprevisíveis, menos
projectados e notoriamente menos deliberados. Para se ter uma compreensão mais
exacta do potencial guardião deste cão-lobo, aconselhamos a leitura do texto “
O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS”, que editámos em 26/10/2009, já que as
características principais dessa variedade cromática do CPA são potenciadas até
mais 40% no Lobo Checo, sobejamente menos seguro, mais desconfiado e
imprevisível.
Na nossa
opinião, apesar de servir para melhor se entender a formação e a selecção do
Pastor Alemão, o Lobo Checo é um cão mais para contemplar do que para ser usado,
porque ao não ser um “produto acabado”, e não o é pelas insuficiências que
apresenta, ou acabará melhorado ou verá o número dos seus exemplares reduzido,
enquanto resultado de um tempo ido, que pode retornar se o Sr. Putin e os
interesses da Mãe-Rússia, ao colidirem com os da Ucrânia, os levarem para a
traulitada. Queira Deus que não! Ainda que os híbridos de Lobo tenham granjeado
alguma fama no rastreamento, os híbridos do chacal têm sido melhor sucedidos. O
Lobo Checo é maioritariamente manso, desligado e muito independente, o que
compromete a cumplicidade e a divisão de tarefas, um cão tipicamente de “ let
him go”, para se ter à solta no quintal, melhor instalado num parque temático
do que circunscrito às áreas urbanas. Antes assim, porque se houvesse sido
tirado a partir de cruzamento do lobo com um molosso, quem o aguentaria,
reconhecida que é a maldade presente nos molossos alupinados? O regresso ao
atavismo tem gerado muitos retrocessos e o Lobo Checo é também, nalguns casos,
exemplo vivo disso, um companheiro quase silvestre que nos remete para os
confins da domesticação, já que nenhuma raça poderá ser correctamente avaliada se
considerarmos apenas as suas excepções. Valeu a lição! Valerá o esforço?
É evidente que sim! Existem excelentes Lobos Checos
nas classes de trabalho, muito embora se ignore eventualmente que percentual têm
de Lobo e de Pastor Alemão. Mas uma coisa é certa: serão sempre os homens a
estabelecer a diferença, porque por detrás de um grande cão, sempre estará o
trabalho oficinal, apaixonado, sofrido, suado e conseguido de quem seleccionou
e melhor adestrou. Nós Acendura Brava, por respeito e admiração aos pergaminhos
do Deutscher Schäferhund, nunca optámos pelos caminhos da hibridação e nunca
sentimos essa necessidade, porque sempre colmatámos as menos valias do passado
recente da raça pelo recurso às variedades recessivas, há muito marginalizadas
e ainda reconhecidas no estalão, evitando assim bastardia e os seus retrocessos,
retomando as linhas antigas e dando-lhes outro seguimento. É importante não
esquecer que o Lobo Checo veio pela necessidade e que só o seu mérito o
perpetuará. Será este o desafio que enfrentarão os novos criadores e
apaixonados da raça. Oxalá o aceitem e o consigam vencer.