quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O ÚLTIMO GRANDE NEGÓCIO!

O teste genético para cães está a transformar-se num grande negócio e com facilidade as empresas que o fazem podem vender falsas esperanças, segundo alertam na revista académica e interdisciplinar NATURE os cientistas LISA MOSES, STEVE NIEMI e ELINOR KARLSSON num artigo intitulado “PET GENOMICS MEDICINE RUNS WILD”, respectivamente uma pesquisadora veterinária do Centro de Bioética da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts/USA, um veterinário que é Diretor do Departamento de Recursos Animais da Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts/USA e uma Professora Assistente da Escola Médica da Universidade de Massachusetts, Worcester, Massachusetts que é também e directora de genómica de vertebrados no Instituto Broad de Harvard e MIT, Cambridge, igualmente em Massachusetts/USA.
Apesar da ciência estar ainda atrasada e a maioria dos testes se basear em estudos pequenos e pouco abrangentes, da sua precisão e diagnósticos não terem sido validados e da maioria dos veterinários não saber o suficiente sobre as limitações dos estudos ou sobre a genética em geral para poder aconselhar os proprietários preocupados, os testes genéticos para animais de estimação vão de vento em popa e as empresas já começam a oferecer testes iguais para gatos, quando são precisas mais informações e proceder-se à adopção de alguns padrões que temos na saúde humana.
Diante destas considerações, segundo os cientistas atrás citados, estes testes genéticos deverão ser refreados, porque doutro modo algumas empresas continuarão a lucrar com a venda de informações potencialmente enganosas e invariavelmente imprecisas, que farão sofrer desnecessariamente donos e cães, para além de desperdiçar oportunidades para melhorar a saúde dos animais de estimação e impedir que os seus estudos possam ser válidos para a saúde humana. Diante disto, as pessoas aumentarão a sua desconfiança em relação à ciência e à medicina. Não obstante, os gastos globais com animais de estimação aumentaram 14% e os gastos anuais mundiais são estimados ao redor de 109 biliões de dólares.
Como se antevê, a genética é uma das mais recentes adições nesta indústria em expansão e em todo o mundo já existem 19 laboratórios confirmados que comercializam testes genéticos, testes que alguns veterinários usam para ajudar a diagnosticar animais doentes ou para recomendar que os sadios sejam submetidos a testes caros e por vezes evasivos, como é o caso das biópsias à medula óssea. Também alguns criadores de cães valem-se destes testes para tentar reduzir a incidência ou despistar doenças hereditárias. Nos Estados Unidos, como seria de esperar, uma cadeia de hospitais veterinários está a recomendar testes genéticos para todos os cães, adiantando que os resultados tanto possibilitam cuidados de saúde individualizados como podem orientar o adequado treino comportamental!?
Os autores do presente artigo crêem que 3 grandes problemas afectam os testes genéticos para animais no seu estado actual, a saber: FALTA DE VALIDAÇÃO, RESULTADOS OU INTERPRETAÇÃO IMPRECISOS e CONFLITOS DE INTERESSE. Sobre os dois primeiros adiantamos que os argumentos usados são verdadeiramente validados por evidência científica. Dito isto, passamos à transcrição do que disseram sobre o 3º problema – o conflito de interesses. Não havendo regulamentações governamentais nem autopoliciamento efectivo nesta indústria, há muitos conflitos de interesse associados à obtenção de lucros dos proprietários dos animais, coisa fácil de acontecer quando uma corporação proprietária de um banco de dados é também dona da mesma clínica e fabricante de rações específicas para animais de estimação.
Depois de alertarem para o “tsunami” de dados genómicos que se avizinha, estes cientistas americanos reclamam pela CRIAÇÃO DE DIRECTRIZES para a validação destes testes, que deveriam proceder de um selecto grupo de interessados e que compreenderia vários grupos de trabalho, directrizes que especificassem quais os padrões a ser adoptados, um documento semelhante às directrizes que regulam o uso das novas tecnologias nas pesquisas em animais de laboratório desenvolvidas pelo Subcomité de Ciência da British Small Animal Veterinary Association. O ideal, segundo os autores do artigo, é que essas instruções tivessem alcance global e que se constituíssem em lei à medida que os testes genéticos crescessem.
Entendem os mesmos pesquisadores que os actuais bancos de dados existentes, produzidos pela indústria, universidades e agências governamentais, deverão ser estendidos a todas as partes, garantindo em simultâneo o anonimato dos animais e dos seus proprietários. De acordo com o mesmo parecer, as empresas poderão ser incentivadas a dividir dados quando as directrizes propostas exigirem tamanhos de amostra que só poderão ser obtidos através do agrupamento de dados. Para melhorar a transparência, as partes interessadas poderão aproveitar o conhecimento acumulado nas últimas duas décadas por cientistas que pesquisam a genética humana e que têm estado a lidar com questões relativas à divisão de dados e com a privacidade do paciente.
Moses, Niemi e Karlsson apelam neste artigo ao recrutamento de ferramentas e conhecimentos, nomeadamente de bioinformáticos, cientistas da computação e outros com experiência em Big Data, já que serão necessários para gerir e analisar o enorme volume de informações recebidas. É também sugerido que estes especialistas poderão ser persuadidos a entrar no florescente campo da genética dos animais de estimação pelos ganhos financeiros ou por oferecer possíveis avanços para a solução de doenças humanas. Solicita-se ainda a formação e a educação de conselheiros genéticos entre veterinários e outros que trabalhem com a saúde dos animais, profissionais que forneceriam apoio e aconselhamento aos proprietários dos animais após testes genéticos e que também poderiam agregar-se aos seus colegas do aconselhamento genético humano nos principais centros médicos académicos.
O artigo termina apelando a ÉTICA DOS DADOS, considerando que há questões que poderão exigir um diálogo público já encetado e a nomeação de conselhos consultivos especializados, que deverão ter acesso irrestrito a todos os resultados obtidos por empresas de testes com fins lucrativos, para que não haja omissão de quaisquer resultados na venda de animais de estimação, o que ainda acontece e que a continuar poderá desgastar a confiança pública na ciência. O que importa guardar disto tudo? Que os actuais testes genéticos para cães não são totalmente fiáveis, por serem pouco abrangentes, carecerem de parâmetros e de haver poucos que os saibam interpretar. Por outro lado, constata-se que a medicina e a veterinária andam cada vez mais interligadas e que qualquer avanço científico acaba por contribuir para o enriquecimento de uns poucos.
PS: Este artigo foi-nos sugerido pelo nosso amigo e leitor João Carreiras, também ele investigador, pai de dois portentos e por ora residente em Sheffield/ENG/UK.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

PARA A ALASKA AIRLINES SÓ SÃO 3!

RAY PRENTICE, Director de Defesa do Cliente da ALASKA AIRLINES, que já leva 30 anos ao serviço desta companhia aérea, nunca ouviu falar de cavalos miniatura a bordo dos seus voos, mas com a nova política que a que a companhia adoptou a semana passada, deixou essa possibilidade em aberto, juntando cavalos miniaturas a cães e gatos enquanto animais treinados e de serviço para ajudar alguém com deficiência. Para além destes animais, nenhum outro é aceite como tal e pode ser transportado ao lado dos passageiros da Alaska Airlines.
Apesar do uso de cavalos miniatura como animais de serviço ser pouco frequente, algumas pessoas podem preferi-los a outros animais, porque são robustos, têm uma vida útil mais longa, podem ajudar pessoas com problemas de mobilidade e são conhecidos por guiar invisuais. A opção pelos cavalos pode também obedecer a alguma objecção religiosa relativa ao uso dos cães. ERIC LIPP, Director Executivo da OPEN DOORS ORGANIZATION, organização sem fins lucrativos que apoia deficientes em viagem, adiantou: “Só posso citar três pessoas que conheço nos Estados Unidos que os usam e eles podem executar funções como levantar, carregar, puxar e empurrar. Um cavalo miniatura, tal como o cão, vai buscar o que o dono lhe pedir e vai guiá-lo se necessário.
Ao nomear os animais permitidos a bordo e, por extensão, proibindo os restantes, a Alaska Airlines está a tentar diminuir o aumento dos relatos sobre mau comportamento animal no transporte aéreo, já que os noticiários têm vindo a destacar casos aberrantes e abusivos, como o sucedido em Janeiro, quando uma mulher tentou sem sucesso embarcar um pavão no NEWARK LIBERTY INTERNATIONAL AIRPORT, dizendo que se tratava do seu animal de apoio emocional. Também em Junho, um pretenso cão de apoio atacou um passageiro num voo da DELTA AIRLINES em ATLANTA, mordendo-o no rosto várias vezes. Defensores das pessoas com deficiência, companhias aéreas e agentes reguladores não têm dúvidas: alguns passageiros estão a defraudar as regras, a levar para os aviões animais de estimação e outros sob o pretexto de necessidade.
Para o homem da Open Doors Organization, Eric Lipp, as pessoas estavam a abusar e faziam-no porque os animais de apoio podem voar de graça, enquanto os de estimação são taxados. Para se entender o montante da intrujice há que atentar para os números divulgados pelo grupo industrial AIRLINES FOR AMERICA, que diz que o número de animais de apoio emocional subiu de 481.000 em 2016 para 751.000 em 2017 (o grupo não tinha dados sobre a prevalência de cavalos em miniatura especificamente). Para além da Alaska Airlines, também a SOUTHWEST AIRLINES e a UNITED AIRLINES aceitam os cavalos miniatura como animais de serviço, sendo que a última também admite macacos e aves.
A Alaska Airlines, através de comunicado, informou que a sua nova política visa proteger a saúde e segurança de passageiros e tripulantes, mantendo assim voos ordeiros e seguros. A mesma política define o que a companhia entende por animais de apoio emocional, estipula que os passageiros só podem viajar somente com um animal dessa categoria e eu ao únicos animais permitidos são cães e gatos. Na sua definição de animais de apoio emocional, porque considerá-los como aptos para o auxílio de deficiências relacionadas com a saúde mental e que não são treinados para outras tarefas específicas, acabou por abrir as portas aos cavalos miniatura.
Devido aos abusos e aos crescentes relatos de mau comportamento, os reguladores viram-se obrigados a reavaliar que animais, incluindo os de serviço e de apoio emocional, podem acompanhar os passageiros com deficiência nos voos. A partir de Julho deste ano, o TRANSPORTATION DEPARTMENT (Departamento de Transporte) recebeu mais de 4.000 comentários sobre o assunto, que estão a ser avaliados antes que as novas regras entrem em vigor. Actualmente, as companhias aéreas estão autorizadas a recusar animais de serviço com base no tamanho do animal e preocupações com a segurança dos outros passageiros, entre outras limitações. Segundo a agência atrás citada, os cavalos miniatura deverão ser avaliados "caso a caso" (há-os de vários tamanhos).
Alguns acham que os cavalos miniatura não deveriam ser permitidos em aviões. Airlines for America e outros dois grupos industriais, a REGIONAL AIRLINE ASSOCIATION e a INTERNATIONAL AIRLINE AIR TRANSPORT ASSOCIATION, disseram ao Departamento de Transporte em Julho que os cavalos miniatura “são muito grandes e pesados, com um nível menor de flexibilidade física, para serem adequadamente alojados em caixas de transporte. Também MELISSA POWELL, editora da revista da AMERICAN MINIATURE HORSE ASSOCIATION / MINIATURE HORSE WORLD, observou que estes animais preferem estar em manada, ao ar livre e que não são como os cães, pelo que passar horas num avião lotado não será o ideal para eles (será que vão mais cómodos dentro de um atrelado numa viagem longa pela estrada fora? Eu julgo que não!).
Certo é que os cavalos em miniatura vieram para ficar, são versáteis, fiáveis, dedicados e podem guiar invisuais em segurança, a mesma que poderão encontrar em cães treinados para o mesmo efeito. Qualquer dia, quando menos se esperar, num voo para qualquer parte, ainda vamos ter como companheiro de viagem um inesperado cavalinho em miniatura. Como tudo o que é novidade, hoje poderá parecer estranho, mas amanhã não o será.

SEMPRE SE VÊ CADA UMA!

Numa manhã dominical, enquanto aguardava a chegada de um amigo numa esplanada, olhei casualmente para a passagem de peões mais perto e vi um proprietário canino a atravessá-la com o seu cão como se vê na foto abaixo, com o animal adiantado em relação ao dono a todo o comprimento da trela extensível, leviandade e despropósito de possíveis consequências funestas, porque colocava em sério risco a vida do pequeno cão, que para além de ser pouco visível, poderia assustar-se por várias razões e fugir para o lado errado, vindo a ser atropelado antes do seu dono ter tempo de recolher a trela. Perante tal irresponsabilidade e possibilidade calei em mim um ou dois impropérios, mais por conveniência do que por livre vontade.
E como ver mal ao longe tem destas coisas, não é que o cavalheiro em questão era o amigo que aguardava?! Ainda antes de me dar os bons-dias e de tomar o café matinal, já estava com um  responso de todo o tamanho, por ter sido irreflectido e irresponsável, muito embora o seu pior defeito seja ser mandrião e detestar ser incomodado. Há muita gente assim e por causa disso há quem diga que o pau é o pai da humanidade e o garante da boa ordem, o que aliás está politicamente na moda, quiçá por causa dos exageros. O nosso amigo, por ser quem é e ser fiel a si próprio, não trouxe o cão ao seu lado, como era sua obrigação, para não se incomodar a pedir e garantir o “junto” do animal. Verdade seja dita, com um cão assim tão pequenito, sentir-me-ia mais seguro se atravessasse a passadeira com ele ao colo!
O comando de “junto”, de quem se diz ser uma das pedras basilares da obediência a ministrar a um cão em paralelo com o comando de “aqui”, sendo próprio para as deslocações binomiais na via pública, torna-se obrigatório nas passadeiras para peões e em todas as situações onde importe proteger os cães ou proteger outrem das suas arremetidas porque, para além de ser um comando operacional, é um comando proeminentemente social e visa a coabitação harmoniosa entre pessoas e animais que a sociedade não dispensa. Terá o nosso amigo aprendido a lição? Lá aprender, aprendeu, mas a sua natureza tende a falar mais alto e é difícil de sufocar (já me vieram dizer que ao sair daquele café fez exactamente o mesmo). E se isto é verdade, Deus dê paciência a quem ensina e muita sorte aos cães!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

OUTONO QUENTE E PICADAS DE ABELHAS

Com a onda de calor que se faz sentir neste Outono, também devido aos fogos que deflagraram por todo o País, assiste-se por cá a um recrudescimento de picadas de himenópteros (abelhas e vespas). É sabido que as abelhas quando submetidas a grande privação ou stresse tendem a abandonar as suas colmeias e a procurar a sua sorte noutro lugar, sendo o calor excessivo uma das causas mais comuns para esse abandono, para além do ataque das formigas.
Vespas e abelhas não atacam deliberadamente as pessoas, mesmo quando enxameadas, já o mesmo não acontece com a vespa asiática que chegou à Europa em 2004 e que foi detectada em Portugal em 2011, que tende a atacar quem se aproximar dos seus ninhos voluntária ou involuntariamente. As abelhas que cá temos não se podem considerar perigosas ou mortíferas, como acontece noutros continentes, onde certas espécies são altamente perigosas e letais para pessoas e animais (neste momento a Guiana Francesa está a viver um problema sério).
Contudo, há cães que têm o mau-hábito de caçar os insectos que lhes atanazam a cabeça ou que estão ao seu alcance. Felizmente nem todos são alérgicos às picadas dos insectos, mas muitos acabam por desenvolver uma reacção alérgica grave em poucos segundos ou minutos, entrando em choque anafiláctico, também conhecido por anafilaxia, cujos sintomas são inchaço ao redor da picada, dificuldade em respirar, aumento da frequência cardíaca, feber, tremores, vómitos, diarreia e extremidades frias. Perante este quadro, porque se encontra em risco de morte, leve imediatamente o seu cão ao veterinário.
Mas como nem sempre temos um veterinário à mão e os acidentes acontecem quando menos se espera, se o seu cão for picado por uma abelha (nas comissuras labiais, na boca ou na língua), a primeira coisa a fazer é tentar extrair-lhe o ferrão, não com uma pinça, porque ao seu apertado poderá desprender-se e libertar mais veneno (o que mais agravaria a situação do animal), mas raspando-o com uma folha de cartolina, com o cartão de crédito ou com algo similar a uma espátula, lavando depois a zona afectada com sabão neutro. Para diminuir o inchaço e acalmar a dor, poderá aplicar gelo enrolado numa toalha ou ir aplicando compressas frias. Poderá também utilizar uma mistura de água com bicarbonato de sódio se a picada for de abelha ou vinagre diluído em água se a picada for de vespa. Como estes primeiros socorros não substituem os serviços do veterinário e podem não ser totalmente eficazes, nada como procurar um clínico.
Que medidas preventivas devemos tomar para evitar que os nossos cães sejam mordidos por himenópteros? A primeira coisa a fazer é aplicar-lhes um coleira repelente de insectos, um spray próprio ou usar um stick para o mesmo fim nas zonas onde o pêlo é mais curto ou quase inexistente. Não deixe o seu cão ao ar livre nas horas de maior calor, porque nessas ocasiões a proliferação de insectos é maior. Evite trajectos ao exterior rodeados de farta vegetação e de diferentes fontes de água, porque são lugares muito procurados por abelhas e vespas.
E como valer aos cães passa por educar os seus donos, quando sair à rua com o seu cão debaixo deste Outono ardente, evite sair perfumado e utilize um desodorizante sem aroma, porque os himenópteros sentem-se especialmente atraídos por odores doces, como também podem ser atraídos por bebidas com açúcar (refrigerantes e sumos) e por alguns alimentos. Assim, quando sair com o seu cão, mantenha garrafas e alimentos fechados, porque doutro modo, mesmo que o seu cão não seja picado, você está a pôr-se a jeito. E finalmente, desacostume o seu cão de caçar moscas, porque ele não é um entomologista e como tal, não sabe diferenciar uma mosca de uma abelha ou de uma vespa.
Mantenha-se atento, proteja o seu cão e deliciem-se neste Outono atípico e de breve duração, pois a chuva e o frio parecem não tardar de acordo com o que dizem os meteorologistas.
PS: Evite manter o seu cão acorrentado nos dias quentes para que possa pôr-se em fuga diante de um possível ataque de abelhas. Mantê-lo acorrentado é impedir-lhe a defesa e contribuir decisivamente para a sua eliminação.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A AVANTESMA, O GRIFO E O SNIPER

Quem participou com alguma frequência nos nossos acampamentos sabe que, pela noite dentro ou ao romper da aurora, sempre aparecia uma criatura estranha, de aparência semi-humana, a que convencionámos chamar de “AVANTESMA”, geralmente camuflada com arbustos e matos da paisagem circundante, que se desfigurava, grunhia e esvoaçava num disforme assustador, despoletando nos cães o desejo de atacá-la. Apesar da apresentação da criatura lembrar um GRIFO(1), quem lhe dava vida era um aluno previamente escolhido para o efeito.
Recorríamos aos serviços desta criatura para suscitar dos cães o redireccionamento do seu impulso à luta, para que compreendessem que os inimigos a sinalizar, encontrar, perseguir e  atacar eram os humanos e não os animais com quem se cruzavam. A aparência animalesca da criatura servia exactamente para operar essa transição sem maiores dificuldades e os resultados eram quase imediatos, porque pouco a pouco a avantesma depenada dava lugar à cobaia. Recorríamos também à avantesma para potenciar, quando necessário, os ataques dos cães já aprovados.
A ideia não é originalmente nossa e partiu da desconfiança canina em relação ao trajar dos SNIPERS, sendo portanto de origem militar. Como não fazia qualquer sentido numa escola civil chamar “sniper” a um aluno assim camuflado, optámos por alcunhar tal representação de Avantesma, nome atribuído a pessoa ou objecto assustador, disforme ou demasiado grande. A foto que introduz este texto mostra uma avantesma francesa de fabricação industrial, própria para o treino duma modalidade desportiva canina.
Como complemento ao redireccionamento pretendido, quando não nos podíamos valer de colaboradores humanos, que apareciam inesperadamente ou que denunciavam a sua presença sem se mostrarem, servíamo-nos de manequins que eram colocados estrategicamente nos percursos nocturnos caninos. Um vulgar manequim, daqueles que se encontram nas montras de vestuário em tamanho real, quando colocado num lugar inesperado faz milagres. Com ele também podemos treinar o ataque a alvos imóveis, usá-lo em diferentes posturas e vesti-lo como entendermos.
O que importa guardar é o propósito da avantesma - operar a troca de alvos e redireccionar a fúria canina. Queremos daqui agradecer a todas as “avantesmas” que ao longo da nossa existência deram vida a essas criaturas afinal tão importantes. Para eles vai o nosso sincero obrigado.
(1)GRIFO – Animal fabuloso, representado com um corpo de leão e com cabeça e asas de águia.

UM CAMPEONATO QUE VALE A PENA VER!

De 2 a 5 deste mês, em SUIPES (Marne), decorreu o CAMPEONATO FRANCÊS DE CÃES MILITARES DE 2018 com a presença de 500 BINÓMIOS. Pela primeira vez vieram condutores cinotécnicos de outros países assistir ao campeonato, para conhecerem os métodos franceses e possivelmente aprender algo novo, intercâmbio que foi muito bem-vindo e que trouxe militares dos Estados Unidos, Líbano, Reino Unido e Tunísia, entre outros.
Soldados de toda a França foram ao encontro do 132º BATALHÃO DO EXÉRCITO no meio de campos de milho e ao lado de um grande cemitério militar para disputarem este campeonato anual. Algumas centenas de adestradores de outras forças armadas encetaram o mesmo percurso para alcançarem o título de “Campeão de França” nas suas categorias.
Os cães são ali avaliados pela sua mordedura e agressividade, desempenho em patrulha, procura de explosivos e intervenção, em conjunto com o comportamento e as acções dos seus líderes. Para além dos aspectos técnicos específicos e próprios das diferentes disciplinas cinotécnicas, visando um simulacro mais tangente à realidade, os convidados a ultrapassar obstáculos de difícil resolução no cumprimento das ordens recebidas, como VALAS E MUROS, OBSTÁCULOS DE ÍNDICE MÉDIO PARA OS CÃES DA CLASSE “A” DA ACENDURA BRAVA (2 m de largura/ 2 m de altura).
A organização deste evento militar esteve irrepreensível, de tal modo que um soldado tunisino convidado exclamou: “Estamos impressionados com a boa cooperação entre os diferentes exércitos, a polícia e a gendarmerie, connosco não seria assim tão simples!” Escusado será dizer que os Malinois deram cartas e que foram secundados pelos Pastores Alemães. Para quem gosta de cães de trabalho, este é um campeonato que sempre vale a pena ver!
PS: Chamo à atenção do conteúdo da 3ª foto deste artigo, para lembrar ao Paulo Motrena e à Carla Leitão que têm igualmente cães extraordinários. No caso do Bohr, muros como o da foto acima, ele até os faz por brincadeira.

WOOFERENDUM: DOGS AGAINST BREXIT

Ontem centenas de proprietários caninos levaram os seus cães até WESTMINSTER em Londres, numa iniciativa a que chamaram WOOFERENDUM, para incentivarem o debate público sobre o BREXIT e quiçá forçarem a um novo referendo, já que conservadores e trabalhistas encontram-se divididos sobre a saída do Reino Unido da União Europeia.
É por demais evidente que estamos perante uma inequívoca manobra política aproveitada pelo remanescente dos europeístas britânicos que, sabendo da divisão existente no parlamento e querendo relançar a discussão, não olharam a meios e deitaram a mão aos cães. Apesar de entendermos que a saída do Reino Unido da UE não é bom para os interesses europeus e muito menos para os britânicos, manifestações destas só servem para banalizar um assunto tão sério e não serão elas que obrigarão ao REMAINER que sugerem, muito embora despertem um forte apelo emocional.
Ainda que este WOOFERENDUM tenha tido como objectivo principal destacar o receio da escassez de veterinários e medicamentos para os animais de estimação, porque 90% dos veterinários a trabalhar no Reino Unido provêm da UE e o seu eventual desaparecimento comprometeria o bem-estar animal, percebe-se nitidamente que este “referendo canino” tinha como objectivo, não o que adiantou, mas forçar uma segunda votação sobre adesão à União Europeia, facto comprovado pelos cartazes carregados pelos manifestantes, descaradamente anti-Brexit.
O verdadeiro objectivo desta caminhada até ao parlamento, cujos organizadores esperavam uma maior adesão por parte do público e de activistas, torna-se bastante claro quando se lança para o ar que sair da Europa política prejudicará os cerca de 54 milhões de animais de estimação existentes no Reino Unido. Se todos os britânicos tivessem participado nesta caminhada com os seus animais de estimação, estou certo que as ruas londrinas ainda se encheriam mais do que pela ocasião do funeral da Princesa Diana, quando o Mayor de Londres se viu obrigado a pedir barreiras de contenção emprestadas à França!
Para a história fica um ordeiro acto cívico, uma manifestação de descontentamento contra as actuais políticas do Governo presidido por THERESA MAY, uma mobilização simultaneamente original e bem ao gosto britânico.
PS: Noutros lugares iluminar-se-iam as ruas com pneus a arder, queimar-se-iam autocarros e ainda sobraria tempo para se assaltar umas quantas lojas.

sábado, 6 de outubro de 2018

FLY SVETA, FLY, QUE O PAULO TAMBÉM VAI!

Este Sábado foi bastante profícuo em matéria laboral. Depois de ensaiarmos todos os detalhes respeitantes a um salto binomial pretendido, preparámos os cães para não dificultarem a vida aos seus condutores, ensinando-os a saltar sensivelmente a mesma distância de banco em banco, trabalho preparatório que não tem registo fotográfico porque o fotógrafo de serviço tinha as mãos nas algibeiras. Assim, na foto acima podemos ver a Svetlana literalmente a voar com o Zeus sobre um idílico riacho e na foto abaixo vemos o Paulo a seguir o seu exemplo na companhia do Bohr.
Com o Black no quintal e a não gostar de ser importunado, coube-me levar o Paco para o treino e, como cão do “chefe”, não teve a vida facilitada, sendo sempre o primeiro a exemplificar e a fazer os exercícios pretendidos, mostrando uma capacidade bem acima da média atendendo ao pouco treino que tem (há por aqui quem diga que é muito mal-empregado). Na foto seguinte vemo-lo a saltar um banco de jardim com relativa facilidade.
Como se tornava imperativo treinar passagens estreitas, porque tínhamos como objectivo pôr os cães a evoluir sobre muros de alvenaria, aproveitámos um barrote de madeira com 10 cm de largura para o efeito, onde para além da passagem, pedimos aos cães que se sentassem e fizessem a inversão de marcha. Na foto seguinte podemos ver o Paulo e o Bohr nesse trabalho.
Debaixo do mesmo trabalho e sobre o mesmo barrote, podemos a ver a Svetlana a mandar o Zeus sentar-se, tendo o cuidado de o equilibrar e de o ajudar no cumprimento da figura, que atendendo à pouca base, não era fácil para um inexperiente cachorro fazer.
Passagens estreitas é com o Paco, porque confia em quem o conduz, é concentrado e equilíbrio é coisa que não lhe falta. Vale a pena observar o desembaraço deste cachorro CPA. O desempenho do Paco chamou à atenção do Paulo Motrena que, quando fala, é geralmente para se queixar que está mal da perna ou do joelho. Mas desta vez inovou e disse acertadamente. Cães pretos!
Na foto seguinte, de rara beleza mas falha de plano, porque mostra o óbvio e não a dificuldade do exercício, vemos os 3 cães em classe sentados sobre obstáculos de musculação humana sem o acompanhamento dos seus condutores e debaixo do comando de “quieto”, o que equivale a dizer que fizeram este comando sobre uma superfície instável, apesar da serenidade que emanam.
Depois disso evoluímos para o topo dos muros, fazendo primeiro os mais largos e planos, para depois evoluir para os mais estreitos e redondos. Na foto seguinte podemos ver a classe a evoluir sobre um muro baixo, plano e largo como introdução, deslocando-se na frente da classe escolar o binómio constituído pelo treinador e pelo Paco.
Como nesta escola os cães só vão ao colo dos donos debaixo de necessidade extrema, quer sejam grandes ou pequenos, todos têm que aprender a subir rampas íngremes para melhor acompanharem os seus condutores. Na foto seguinte é possível ver a Svetlana a ensinar o Zeus a subir uma escora de muro para chegar ao seu topo, trabalho que executaram sem dificuldade.
E como subir implica em descer e para baixo nem “todos os santos ajudam”, quando não há outra alternativa, somos obrigados a ensinar os cães a descer em segurança, para que não venham a estatelar-se no chão, despropósito geralmente acompanhado por uma ou mais lesões. Assim, os cães deverão escorregar pelas paredes enquanto tal seja possível, para diminuir a distância que os separa do solo e o impacto. Na foto seguinte podemos ver o Paco a fazê-lo exemplarmente.
Com os cães a subir e a descer naturalmente, optámos depois por convidá-los a caminhar sobre um muro alto, redondo e estreito, primeiro isoladamente e depois em grupo. A foto abaixo desnuda o alcance desta meta. Os condutores viram-se obrigados a travar os cães, porque a confiança dos animais era tanta que queriam executar o trabalho a galope.
Alguns dos nossos leitores perguntarão o porquê deste trabalho e digamos que estão no seu direito. Uma aula assim aponta para um quíntuplo objectivo, a saber: 1º _ Robustecimento da liderança; 2º _  Superior preparo dos condutores; 3º _  Aumento da versatilidade canina para fins julgados úteis; 4º _ Maior confiança nos condutores por parte dos cães e 5º _ Potenciação da cumplicidade binomial.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: João/Paco; Paulo/Bohr e Svetlana/Zeus. A reportagem fotográfica esteve a cargo do suspeito do costume e ainda demos algumas dicas sobre adestramento a quem connosco se cruzou, gente tão boa que não se importa de fazer dos seus cães deuses, ainda que eles se venham a revelar déspotas e tiranos.
Neste momento os cães encontram-se a dormir e a relaxar do trabalho matinal. Quanto ao Paco, a dormir encostado à porta de entrada, comeu um reforço de 3 kg e deve estar a sonhar com as planícies verdejantes que sempre invadem os sonhos dos cães felizes. Bom fim-de-semana!

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015  
2º _ HÍBRIDO DE CHOW-CHOW/PASTOR ALEMÃO: MÁQUINA OU DESASTRE?, editado em 12/05/2016
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ II - TODOS COLABORARAM E NINGUÉM SAIU A PERDER, editado em 30/09/2018
5º _ DOBERMANN: O CÃO QUE É MENOS DO QUE SE SUPÕE E MAIS DO QUE SE IMAGINA, editado em 06/03/2016
6º _ PASTORES ALEMÃES LOBEIROS: O QUE OS TORNA ESPECIAIS, editado em 02/11/2015
7º _ ROUBADA PORQUÊ E PARA QUÊ, editado em 01/10/2018
8º _ TODOS COLABORARAM E NINGUÉM SAIU A PERDER! Editado em 30/09/2018
9º _ PACO, TU NÃO ERAS ASSIM!, editado em 03/10/2018
10º _  SOFIA & BALTAZAR, editado em 31/01/2014