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domingo, 14 de novembro de 2010

Caderno de ensino: XXXVII. O ladra

Condicionar um cão a ladrar é tão-somente aproveitar uma das suas vozes naturais, muito embora existam raças que ladrem mais do que outras. Podemos fazê-lo por aproveitamento, instigação ou persuasão de acordo com as características individuais de cada cão. O que se procura é o ladrar ordenado e não o instintivo, considerando a sobrevivência dos cães, o uso a dar-lhes e a salvaguarda binomial. Convém que o comando transite para a linguagem gestual e seja accionado por ela, o que impedirá a denúncia do binómio e possibilitará o uso do cão à distância. O ladrar é naturalmente uma voz de aviso que antecede o rosnar, que tanto o pode substituir como eliminar. Ensinar os cães mais submissos a ladrar é um requisito indispensável e um subsídio para a vida, considerando a sua ajuda ou socorro, porque o ladrar soa mais alto que o vulgar gemido. E neste sentido, fomentar o ladrar irá implicar num melhor equilíbrio dos indivíduos. Por outro lado e servindo o mesmo propósito, também os donos dos cães agressivos saiem a ganhar, porque vêem aumentado o seu controlo sobre eles, evitando assim a transição automática do rosnar para o ataque. Para além do aviso, o ladrar pode ser usado como intimidação tanto dentro do lar quanto nas saídas ao exterior. Diante das actuais especificações caninas o ladrar tem vindo a ser usado como sinal de identificação ou detecção.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Caderno de ensino: XXXIV. Os brinquedos

Tal como os próprios para as crianças, os brinquedos destinados aos cães são subsídios pedagógicos de valor reconhecido, porque preparam, elucidam, exercitam, condicionam, simulam, capacitam e potenciam os animais para os futuros desafios, os relativos ao seu quotidiano, formação, recapitulação, desempenho e sobrevivência. Contrariamente ao que se julga, não superabundam por aí brinquedos caninos, as lojas estão cheias deles porque têm pouca procura e a maioria dos donos nem imagina para que servem (muitos retalhistas também não). E para que não restem dúvidas acerca disto, basta dizer que na maioria das vezes, quando procuramos algum em particular, vemo-nos obrigados a esperar por ele e ficamos a aguardar por uma nova remessa ou encomenda. A sua escolha não deverá ser indiscriminada ou arbitrária e deverá considerar a idade do cão, a sua morfologia, peso, grau de desenvolvimento, o grupo somático a que pertence, as suas dificuldades e o serviço dele esperado, apesar de alguns brinquedos serem universais e do agrado de todos os cães. Adestrar sem brinquedos é enveredar pelo improviso, porque se despreza o material didáctico que melhor serve os seus intentos, é como dar aulas sem quadro, mesas e cadeiras e esperar que o desconforto não entrave a concentração. Para além da qualidade dos seus mestres, da riqueza dos obstáculos e do empenho dos binómios, qualquer escola canina é também avaliada pelos brinquedos que usa e recomenda, enquanto subsídios de ensino que aceleram e enriquecem o processo de aprendizagem. Cada disciplina cinotécnica exige brinquedos próprios e nenhuma delas os dispensa, porque a experiência é para os cães a madre de todas as virtudes.

Caderno de ensino: XXXV. O transporte

Como preâmbulo à temática, para melhor entendermos o nosso trabalho, importa desnudar o cão, os seus objectivos e processos utilizados. Os cães nascem para sobreviver, a sobrevivência é o seu objectivo principal e a procura do alimento é a sua tarefa prioritária. Por causa disto, com a domesticação, o homem, ao tornar-se no dono da comida, transformou-se no patrão do cão. Daqui se antevê, que a amizade canina não é desinteressada, porque se encontra alicerçada nesta relação de dependência. Que outra razão haverá, para o apego automático dos cães vadios àqueles que os socorrem? Porque não consentimos que outros alimentem os nossos cães? O que torna a recusa de engodos imperiosa, para além da sobrevivência canina? Onde estiver a comida, aí estará a afeição do cão, e graças à recompensa permanecerá ao nosso lado pronto para nos agradar. Existe uma relação entre a predação canina e as disciplinas cinotécnicas, um aproveitamento objectivo dos cinco momentos que constituem o seu modo de caçar, a saber: a procura, a detecção, a perseguição, a captura e o transporte. Os criadores das actuais raças caninas potenciaram algumas destas acções em prejuízo de outras, criando desse modo incapacidades e desequilíbrios. Cabe ao adestramento reequilibrar, caso o consiga, os cães que lhe são entregues, devolvendo-lhes o seu modo original de actuação. Para cada momento se criou um cão, para cada raça uma atribuição e nisto o cão ficou mais pobre. Com a contribuição da evolução das espécies, o homem conseguiu, nestes últimos 130 anos, transformar um lobo num passarinho de 4 patas (cães-toy). À excepção dos retrievers e de alguns bracóides, a maioria dos cães perdeu a capacidade de transportar, necessitando do amparo que só a gula pode oferecer. Não será o cão moderno um bucho anafado de biscoitos? Do instinto de caça só sobrou a recompensa e a presa adquiriu outras formas. Agora a história deverá ser contada ao contrário, do fim para o princípio, tirando-se partido experiência directa, da memória afectiva e do reforço positivo. Só a recompensa pode valer ao transporte.

Entendemos por transporte a recolha e entrega de um ou mais objectos, por parte do cão, debaixo de ordem e com destino definido, visando acções binomiais prà prestação de socorro. Este trabalho resulta do aproveitamento dos instintos de caça e presa, e procura transformar a predação em acções de salvamento e resgate. Existe uma clara distinção entre cães transportadores e carregadores, os primeiros transportam os utensílios na boca, os outros carregam-nos mediante atavios próprios par o efeito. Apesar da diferença operativa, as duas especialidades são parte integrante do mesmo objectivo: o salvamento. Mas se ambas contribuem para o mesmo fim, também a sua finalidade pode ser alterada, estender-se a usos distantes do seu propósito original.

Qual a importância do transporte? Não existe cão de trabalho sem transporte, porque o fim útil do treino é a divisão de tarefas – a complementaridade. Não espelhará o transporte a cumplicidade exigível a um binómio? Um carpinteiro ensinará o seu cão a buscar as ferramentas, um pastor, a tocar as suas vacas ou ovelhas, o cão doméstico entregará os chinelos ao dono, carregará o seu jornal e transportará o saco do lixo para o contentor. Quando começa o seu treino? O transporte começa no consentimento do espólio canino, transita para o churro e culmina nos brinquedos, sendo próprio do ciclo infantil que decorre dos 45 aos 120 dias. A acção começa por ser doméstica, potencia-se na escola e desfruta-se no lar. Os seus benefícios podem ser restritos ou abrangentes, dependendo do uso que lhe queiramos dar. Quando deixaremos de exigir essa tarefa a um cão? Quando tal lhe for penoso e ponha em risco o seu bem-estar físico e psicológico. Normalmente os cães são dispensados da tarefa quando atingem os 8 anos de idade. Os mais fracos deverão terminá-la atempadamente. De qualquer modo, quando os cães chegam aos 6 anos, diminuímos a frequência e o peso da carga, particularmente entre aqueles, com uma esperança média de vida de 10 anos. Como treinaremos? O transporte acontece da perseguição para os objectos estáticos, das formas anatómicas para as mais complexas, das pegas mais macias para as mais duras, dos objectos equilibrados para os desequilibrados, dos mais leves para os mais pesados com diferentes diâmetros.

Qual a força de transporte de um cão médio? Um cão médio aumenta a sua força de transporte dos 2 para os 36 meses quarenta vezes, não devendo abocanhar e transportar objectos com peso superior a 30% do seu peso corporal. Quanto deverão pesar os objectos destinados aos cachorros? Dos 45 aos 120 dias – 2% do seu peso corporal (300gr), dos120 aos 180 dias – 3% do seu peso corporal (600gr), dos 180 aos 240 dias – 5% do seu peso corporal (1 kg). Os valores dos pesos consideraram o crescimento médio de um exemplar CPA. Contudo, o percentual indicado é válido para todos os cachorros. E os destinados aos cães adultos? Depois da maturidade sexual, os cães jovens serão convidados para um esforço maior. Dos 8 meses aos 12 meses – até 10% do seu peso corporal (3Kg), dos 12 aos 18 meses – até 15% do seu peso corporal (5.25 kg), dos 18 aos 24 meses – até 25% do seu peso corporal (9.5 kg), dos 24 aos 36 meses – até 30% do seu peso corporal (12 kg). Os valores referenciados em Kgs consideraram um cão de 40 Kgs de peso. No entanto, o percentual indicado é válido para todos os cães. Não poderão carregar mais peso? Não devem, devido ao esforço articular, às mudanças de velocidade e ao aumento da frequência dos seus ritmos vitais. É importante não esquecer, que a prestação de socorro não acontece somente em pisos planos, pode passar pelo subir de uma rampa ou escada, pelo saltar de uma vala ou barreira. O peso a transportar deverá considerar as dificuldades próprias de cada percurso, tendo em conta a salvaguarda do animal, e só depois, a sua capacidade de resolução. Rotineiramente, o trabalho laboratorial é desenvolvido sobre os obstáculos do perímetro exterior da pista. Os cães mais robustos, com pesos superiores a 35 Kgs, conseguem arrastar cargas até 70% do seu peso corporal. Os grandes molossos e os portadores de mandíbulas fortes, podem tornar-se bons transportadores? Podem e geralmente fazem-no sem grandes dificuldades. Eles não são transportadores inatos, mas genuínos cães de captura. Há que ensiná-los de imediato a não retraçar os objectos, coisa que naturalmente fazem para enterrar os dentes no intuito de os estilhaçar. Apesar de conseguirem levantar mais peso que os demais, cansam-se mais rápido e interrompem as acções. Na prática, não devem transportar objectos com mais de 15% do seu peso corporal.

Que cães não deverão ser convidados para o transporte? Os cães estruturalmente côncavos, os portadores de assimetrias articulares, os de ritmos vitais elevados, os fustigados pela epilepsia e pela displasia, os convalescentes e idosos. Também os obesos e os pernaltos. Como proceder com um cão que nunca transportou? Como se tivesse 45 dias de idade, desenvolvendo a cumplicidade e suscitando o interesse, recompensando sempre que necessário e premiando todo e qualquer progresso. Os brinquedos não são do cão, são do dono e devem suscitar a cobiça do animal. Eles não devem ser entregues ao cão, mas anunciar a chegada do seu líder, ter o seu odor e ser objecto da sua estima. Devem constituir-se em fruto proibido e apetecível, algo que divide com o dono. Existe algum tipo de cão mais vocacionado para o transporte? Todos os cães podem ser transportadores e devem fazê-lo de acordo com o seu peso, tipo de mordedura e morfologia. O cão típico de transporte oscila entre os 27 e os 40 Kgs de peso, é normalmente rectangular, com pouco elevado de cabeça, de dorso paralelo ao solo e de média angulação. Apresenta eixos locomotores paralelos e geralmente tem pé de lebre. O seu focinho é forte e de extensão igual à do crânio. Os cães que tendencialmente incorrem no efeito campainha, com a cabeça nivelada pela linha do dorso, apresentam uma predisposição natural para este trabalho. O cão destinado ao transporte necessita de ter o peito forte e desenvolvido, um perímetro torácico acima dos 85 cm e ser convergente de mãos.

Depois de alcançado o transporte, qual é a meta seguinte? Abocanhar e transportar objectos estáticos distantes, debaixo de ordem expressa, segundo indicação do dono, a quem prontamente os entregará. A capacidade de diferenciar os objectos, fica a dever-se mais ao dono do que ao impulso ao conhecimento canino, por força da sua paciência, insistência e generosidade na recompensa. Como sabemos que a selecção canina raramente atenta para a importância do impulso ao conhecimento, ignorando-o muitas vezes, caberá aos proprietários dos cachorros operar o seu desenvolvimento, acção possível pela experiência variada e rica, no acompanhamento objectivo dos seus ciclos infantis. O cão deverá conhecer os objectos pelo nome. Como operaremos essa “ experiência variada e rica”? Se um cão é rico em espólio a tarefa encontra-se facilitada, basta sugerir a sua identificação. Quando tal não acontece, o espólio deverá ser enriquecido por brinquedos apelativos, de diferentes formas, texturas e pegas, com sons diferenciados e distintas progressões. Felizmente existe no mercado um grande número de brinquedos pedagógicos. Se o desprezo pela identificação se verificar, a recompensa tende a vencê-lo. Mas se a dificuldade de mantiver, urge relacionar cada objecto com uma acção do agrado do cão. Os cães não agarram a trela quando desejam ir à rua? Como se classificam os transportadores? Os cães são classificados pela capacidade de diferenciar os objectos que transportam. A classificação encontra-se assim distribuída: até 3 objectos o rendimento do cão é considerado medíocre, de 4 a 5 médio, de 6 a 7 médio alto, de 8 a 10 superior. Para além disso, o cão é considerado extraordinário e o dono não deixará de o ser. Há notícia de cães que conseguiram identificar várias dezenas de objectos ou diferenciar igual número de ovelhas. Existem algumas provas para transportadores? Actualmente não existem provas específicas de transporte. Apesar disso, ele está presente em diversas provas de obediência e pistagem, ainda que de modo suave. Exemplo disso é o transporte do haltere no Schutzhund e a procura do brinquedo nalgumas provas de obediência básica. Tal qual a técnica de condução, o transporte não é uma disciplina mas sim um complemento curricular, uma ferramenta indispensável aos cães de resgate e salvamento (no nosso modesto entender).

Caderno de ensino: XXXVI. O nó de corda

Existe à venda no mercado uma corda com sensivelmente 1m de comprido e 2.5 cm de espessura, de material natural e não abrasivo, rematada por 2 nós e subdividida por outros 2 que a demarcam em 3 partes iguais. Este acessório tem um tríplice objectivo: preparar os cães para o derrote, aumentar a capacidade de captura e potenciar a sua força de mordedura. Os nós intermédios servem para proteger as mãos dos preparadores, possibilitando-lhes diferentes movimentos e acções de acordo com as incumbências do trabalho a realizar pelos cães. Como a corda por si mesmo pouco préstimo tem, importa saber trabalhar com ela para alcançarmos os resultados esperados, transformando-a na presa que ela substitui. Devemos imprimir-lhe vários movimentos, os típicos duma presa amordaçada que intenta escapar-se, estrebuchando desesperada pela sua vida. A corda deve ser puxada sempre na nossa direcção e nunca pressionada contra o cão, porque a presa verdadeira jamais agiria assim e estamos a atentar contra os objectivos do acessório, obrigando o cão a largar a corda e a reiniciar a captura, induzindo-o dessa forma a dentadas de surtida e a ataques evasivos pouco potentes e ineficazes. O modo de actuar carece de ensino e prática, obedece a diferentes combinações de golpes e sempre pressupõe a vitória do cão. Como diria o nosso amigo Carlos Veríssimo, “Obviamente que não o vamos explicar aqui”.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Caderno de ensino: XXXIII. O "atenção"

O “atenção” é um comando de alerta com distintas aplicações, usado como percursor ou catalizador das acções e pode ser aplicado em qualquer das disciplinas técnicas, porque resulta da memória afectiva canina, evolui pela mecânica e rapidamente alcança a associativa. O “atenção” está para a guarda como o “em frente” está para o agility, porque prepara os cães para acções que já são do seu conhecimento. Usa-se o “atenção” na suspeita de engodos, no início do policiamento e nos momentos que antecedem a captura propriamente dita, como despertar para o instinto de presa. Como o comando pode ser usado para outros fins e até contrários, dependendo isso da mecanização e da recompensa, ele poderá servir para travar investidas ou para sugerir um comportamento mais amistoso, porque todo o comando é em si mesmo estéril e só o uso o identificará, já que os cães agem por aprovação e podem ser ensinados para aquilo que quisermos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Caderno de ensino: XXXII. "Ao teu lugar"

O comando “ao teu lugar” é usado para o reiniciar das acções policiais ou de captura. Consiste na recolocação do cão, por ele mesmo, no ponto de partida para os ataques lançados, esperando ordens e mantendo a atenção, quando a revista se torna dispensável e a cessação das ordens uma necessidade. É comummente usado para a fixação do “ninho” quando intentamos que o cão se mantenha no seu local de vigia, garantindo desse modo a protecção e o policiamento do território comum. A instalação do comando só deve acontecer depois do despertar do instinto de presa, para que não se transforme em inibição e venha a comprometer as acções de captura. Tanto na interrupção dos ataques lançados como na colocação do ninho, o cão deverá adoptar a postura de deitado, o que garantirá a certeza da imobilização no primeiro caso e a diminuição da sua silhueta no segundo. Este comando, quando bem utilizado, para além da cessação das ordens, contribuirá para a conservação dos índices de prontidão e alerta inerentes aos cães de guarda, porque ao anunciar as acções funciona como estímulo. Apesar do “ao teu lugar” ser alcançado pela memória afectiva (porque o trabalho é do agrado do cão), ele não dispensa o contributo da memória mecânica ou da mecanicidade das acções, porque o cão fica “em pulgas” e tenderá a diminuir a distância entre si e o intruso. O comando pode também ser instalado para mandar o cão para o seu lugar de pernoita ou descanso.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Caderno de ensino: XXXI. O "ronda"

O Ronda é um dos exercícios obrigatórios para o cão de guarda, porque garante o policiamento e possibilita a detecção atempada de intrusos. O percurso e o modo de abordagem do cão deverão pressupor os pontos nevrálgicos da propriedade a defender, anteriormente marcados pelo contributo de cobaias (pretensos agressores). O sentido da evolução deverá considerar os ventos dominantes na área, para que o animal circule contra o vento e mais depressa detecte algum intruso. O percurso deverá ser cronometrado, para que o dono se inteire imediatamente de alguma alteração. O cão deverá ser condicionado a evoluir pelos pisos mais silenciosos e a ocultar a sua silhueta, nem que para isso se veja obrigado a rastejar. Junto aos portões, para ficar fora do raio de acção dos sprays, o cão deverá policiá-los a 3 metros de distância. Quando convidar o seu cão a rondar, certifique-se que todos os membros do seu agregado familiar se encontram dentro de casa, que todas as portas dos anexos se encontram fechadas e que nada está a barrar o caminho ao cão. Sobre este tema, A Acendura Brava disponibiliza-se imediatamente para maiores esclarecimentos a quem os solicitar, porque o assunto é sério, não pode ser tratado levianamente e pode salvar-lhe a vida.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Caderno de Ensino: XXX. A recusa de engodos

Entende-se por “recusa de engodos” a não-aceitação pelo cão de comida ou água desautorizadas, quando fornecidas por outrem que não o dono ou colocadas à disposição do animal, sem consentimento prévio, ordem expressa ou para além das regras instituídas pelo líder. A aprovação na recusa de engodos é indispensável para todos os cães de utilidade, porque ao contribuir para a sua sobrevivência, aumentará a sua autonomia, operacionalidade e sucesso. O seu ensino é normalmente coercivo e quando o não é, irá resultar de um ou mais dos seguintes factores: fraco impulso ao alimento, impropriedade de carácter, insuficiência física, experiência prévia traumática ou da prevenção atempada e objectiva. O facto do cão ser um animal social, viver naturalmente em matilha e sujeito a um líder, facilita-nos o trabalho, porque garante a liderança e opera a sua aceitação.

Sempre será melhor optarmos pela prevenção e atingirmos a inibição pelo seu contributo, através de regras simples que evitarão demoras desprezíveis e acções mais coercivas. Se queremos um cão impoluto e incorrupto, seremos obrigados a trabalhar para isso, a estipular normas e a respeitar procedimentos que contribuirão para a codificação e salvaguarda do animal, já que donos desregrados geram cães desorientados. Reportamo-nos à inflexibilidade dos horários na distribuição dos pensos, à exclusividade do local de repasto, aos comedouros e bebedouros reguláveis, à proibição de outros alimentarem os cães, ao desaprovo da procura nos caixotes do lixo, ao desprezo pelo pedido de guloseimas à volta da mesa e ao cuidado de não deixar comida pelo chão, extensivo também às crianças que nos visitam, pródigas em engodos por distracção, desleixo ou esquecimento. Enquanto o cão não estiver preparado para a recusa de engodos, antes de o soltar, tanto nos passeios internos quanto nas saídas pró exterior, é de todo conveniente passar em revista o terreno a bater, porque isso pode salvar-lhe a vida e muitos já pereceram pela ausência desse cuidado.

Quando deveremos iniciar o treino prà recusa de engodos? Nas actuais obras de alguns adestradores não é clara a distinção entre treino e adestramento, entre experiência directa e treino propriamente dito, muito embora o segundo suceda ao primeiro na relação óptima entre tratamento e treino, o que tem dado azo a confusões e levado a cronogramas impróprios ou abusivos. Só o cão nos poderá dizer quando iniciar a recusa de engodos, se antes ou depois da sua maturidade sexual ou se teremos de esperar pela emocional, de acordo com a sua carga genética, perfil psicológico e serviço a que se destina. Um cachorro rijo poderá iniciá-lo aos 90 dias, o que é cada vez mais raro e a maioria dos cães só o iniciará entre os 10 e os 18 meses, porque importa que a inibição não leve a esterilização dos seus impulsos à luta e à defesa, o que nos levará a observar o particular de cada indivíduo.

Como faremos o treino prà recusa de engodos? Como já atrás se disse, a prevenção tem aqui uma importante palavra a dizer, porque tenderá a diminuir as acções persuasivas e coercivas que constituem este treino. Evolui-se da presença do dono para a sua ausência e as armadilhas a utilizar dependerão da resistência de cada cão. Primeiro opera-se pelo reparo, depois pela surpresa e finalmente pelo recurso às armadilhas (se for caso disso). Quando um cão for surpreendido pela armadilha e sofrer o seu impacto, coisa do seu desagrado e que lhe provoca algum desconforto, deve associar-se à acção o comando de “perigo”, para que debaixo dele seja avisado e venha a desprezar todo e qualquer tipo de engodos. O trabalho é aturado e sempre carece de reavivamento, porque decorre da liderança e é antinatural.

Há casos em que a retaliação deverá ficar ligada à recusa de engodos, para desencorajar as sucessivas tentativas de suborno, o que não é difícil atendendo à revolta dos cães e à contrariedade que as acções lhes provocam. Este complemento acontece por acção reflexa e tende a fundamentar a recusa de engodos, funcionando com prémio e ratificando a liderança. Considerando o que foi dito e diante do pouco know-how da maioria dos proprietários caninos, omitiram-se propositadamente alguns pormenores relativos aos procedimentos a haver. Porém, estamos disponíveis para maiores esclarecimentos, caso se justifiquem, não atentem contra o bem-estar dos cães e sirvam para a sua salvaguarda.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Caderno de ensino: XXIX. Tirar o medo aos tiros ou preparar o cão para os disparos?

O treino contra os disparos, vulgarmente mal entendido como “tirar o medo aos tiros”, deve preparar o cão para 3 acções indispensáveis ao seu uso e sobrevivência: a defesa (ocultação), o contra-ataque (progressão dissimulada) e o desarme. A familiarização a operar não deverá suprimir o medo do animal, mas alertá-lo para o perigo (que é real), e suscitar-lhe a resposta adequada. Os que foram combatentes sabem, por experiência própria, que foi o medo que os manteve vivos e que muitos valentes morreram, ingloriamente, por falta de cuidado. O condicionamento desejável acontecerá pelo contributo da memória afectiva canina, porque nela o cão armazena experiências felizes e aterradoras mal aconteça a sua apresentação, o que torna o medo instintivo num subsídio inestimável, quando bem aproveitado.

A familiarização com os disparos é por si mesmo estéril, porque apenas produz habituação e não sugere resposta (não alerta o animal e nem opera a sua salvaguarda), muito embora seja necessária e essencial pràs acções procuradas. Com maior ou menor medo todos os cães a alcançarão e com mais ou menos trabalho todos eles virão a apossar-se das reacções desejadas, dependendo isso dos indivíduos a instruir e dos métodos a utilizar. Subsistem vários métodos e todos eles mais eficazes do que prender um cão a uma oliveira e depois descarregar uma dúzia de tiros à sua volta. Os cães sujeitos ao boliço das cidades, particularmente os instalados junto a bairros problemáticos, virão a suportar melhor os tiros do que aqueles que nunca os ouviram e que virão a ser surpreendidos pelo ribombar das caçadeiras, independentemente do seu perfil psicológico. Há quem use música clássica nos canis e que se valha de marchas do tipo Radetzky-March ou Ich hatt’einen Kameraden. Indo para além do gosto de cada um e dos meios ao seu alcance, a familiarização terá que acontecer, evoluindo-se de longe para perto e da presença do dono para a sua ausência. A familiarização tem sido responsável pela aprovação de muitos cães nos testes de carácter, mesmo daqueles que geneticamente nele são deficitários, demonstrando dessa forma a falibilidade dos testes e a supremacia ambiental que premeia o esforço humano em detrimento da qualidade canina, mercê da ocorrência que anuncia o prémio prós animais.

Se houver que tirar o medo aos tiros, primeiro há que suprimi-lo da cabeça dos donos, convidando-os para manobras binomiais perante a sua ocorrência, serenando dessa forma os cães (o que raramente é visível) e reforçando as suas acções, tornando os disparos parte do habitat e próprio daquele ecossistema. Uma aula de obstáculos pode ser acompanhada de disparos, porque a novidade remete-se aos tiros e os automatismos direccionais serão soberanos, graças à sua instalação e à presença dos condutores. Treinar debaixo de foguetes pode constituir-se numa excelente ocasião, assim como junto a um campo de tiro, a uma oficina de latoeiro ou ao redor de uma estação de troca de pneus. É contraproducente iniciar estes trabalhos pelos automatismos de imobilização e de todo conveniente encetá-los pelos direccionais, para evitar o abuso do travamento e alcançar uma parceria mais dividida e descontraída. É evidente que os cães rijos desnecessitarão disto e os cachorros criados desde o aleitamento debaixo de disparos também, porque a riqueza de personalidade nos cães tende a esconder algumas mazelas presentes no seu carácter, nomeadamente as acções instintivas que obstam à sua mais-valia.

Caso, debaixo de fogo, os cães consigam desempenhar cabalmente os exercícios e trajectos de ginástica, a aceitação dos disparos transitará naturalmente para os automatismos de imobilização, sem os contratempos fornecidos pelo excessivo travamento, motivados pelo stress e pelo isolamento forçado. A prática da ginástica debaixo de fogo irá possibilitar ainda toda e qualquer evolução debaixo de tiro real, o que aumentará a operacionalidade canina e reforçará de sobremaneira a liderança, na relação entre os simulacros (treino) e as acções reais, manobras dispensáveis para a esmagadora maioria dos cães quer eles sejam de companhia ou não. É importante relembrar, e há gente que parece esquecer-se disso, que o travamento sucede à acção e não o inverso, persistindo em travar que nem sequer avança. A morosidade deste treino encontrar-se-á ligada à capacidade do líder se fazer compreender e à aceitação canina da liderança, factores interligados com o tipo de parceria havida, porque quando o cão confia no dono jamais o abandonará.

Tirar o medo aos tiros é fácil, difícil é preparar o cão para os disparos ou contra atiradores, considerando a sua ocultação, o ataque dissimulado, a surpresa e o seu sucesso (desarme e domínio do agressor). Tudo no adestramento é progressivo, gradual e ele não dispensa os mais elementares princípios da pedagogia de ensino, comuns a homens e a cães, garante da melhor evolução binomial. Através da brincadeira quase todos os cães perderão o medo aos tiros, outros serão levados à sua aceitação pelo contributo e dum ou mais impulsos herdados e só os cães mais sérios se tornarão verdadeiramente combatentes, recuperando dessa forma o seu estatuto de predadores, condição própria dos cães de guerra. O desarme do agressor não é difícil de se treinar, mas não nos cabe a nós explicá-lo aqui, porque confiamos na justiça instituída, dispensamos a popular e não queremos que nenhum cão morra numa tentativa frustrada. Com a paciência do dono e com a habituação todos os cães acabarão por ignorar os tiros, facto que muitos caçadores ignoram e que tem levado ao abandono de um sem número de cães.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Caderno de ensino: XXVIII. Os círculos pavimentares

Os Círculos Pavimentares são pontos de partida e zonas de travamento que se encontram desenhados no solo. Têm diâmetros que variam entre 50 e 60 cm e possibilitam diferentes sentidos e direcções entre si, de acordo com as ordens dadas ao cão. Servem os objectivos da condução nuclear e são invariavelmente executados pela linguagem gestual. O concurso aos Círculos Pavimentares pressupõe o treino para as evoluções silenciosas, típicas das manobras defensivas e ofensivas. Para além disso, nos meios televisivo e cinematográfico, o treino aturado nestes círculos possibilita ainda as evoluções em cena, tanto para o retorno à marcação como para a evolução dos planos, já que o adestrador se encontra por detrás das câmaras e impedido de falar. O uso mais frequentes destes círculos remete-nos para a rápida execução da linguagem gestual, quer nos automatismos de imobilização quer nos direccionais. Os Círculos Pavimentares que usamos, que outra coisa não são do que círculos direccionais, são geralmente feitos de pedra mármore, de várias cores e contrastantes com a do solo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Caderno de ensino XXVII. O lateralizar

O lateralizar é uma figura de obediência sem comando específico, que tanto pode ser solicitada através do comando de “junto” como pelo batimento da mão esquerda do condutor, quer o binómio se desloque para o lado da reunião quer lateralize para o lado esquerdo. A execução perfeita da figura obriga ao lateralizar do cão sem o concurso de qualquer adiantamento ou atraso. A deslocação para o lado do condutor é mais fácil do que a para o lado do cão, devendo começar-se o seu ensino por aí. Para garantir a perfeita lateralização do animal, que nunca deverá adulterar o “junto”, podemos valer-nos de uma vara indicadora ou do concurso da nossa mão esquerda. Só se deve ensinar um cão a lateralizar depois dele ter absorvido os comandos de “à frente” e “atrás”, que funcionarão como subsídios para a obtenção da figura. O lateralizar, uma vez assimilado como automatismo gestual, pode garantir a recolocação silenciosa do cão em cena e respeitar a marcação tanto nos decors quanto no plateau. Exceptuando as necessidades ligadas ao mundo do espectáculo (cinema e televisão), a figura é utilizada nas exibições de obediência ou como meio para reforçar o “junto”. O movimento torna-se mais fácil entre os cães menos angulados e de dorso paralelo à linha do solo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Caderno de ensino: XXVI. As escadas

Ensinar a subir e descer escadas é tarefa obrigatória para os cães de resgate, busca e salvamento, já que elas são utilizadas como meio tanto pró socorro como para a evacuação. Ensinamos as escadas aos cães familiares para que possam auxiliar-nos nos trabalhos de manutenção ou bricolage, entregando-nos ferramentas e utensílios. O cão aprovado nas escadas aumenta também as suas hipóteses de sobrevivência, porque estes obstáculos são parte obrigatória dos destinados à evasão. A adaptação às escadas não é automática e carece de ensino, para que o cão não passe degraus em falso e venha a ser projectado para o solo. Há que ensiná-lo a avançar primeiro os posteriores e só depois os anteriores, não deixando entre eles qualquer degrau em vão. Considerando a ginástica e a destreza inerentes ao obstáculo, convém que os cães já tenham adquirido a desenvoltura física e os indíces atléticos próprios para a tarefa. Todos os cães podem e devem aprender a subir e a descer escadas, a menos que a sua morfologia os impeça. Deseja-se que o cão ande nas escadas com a mesma à segurança e rapidez com que anda no chão.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Caderno de ensino: XXV. O "junto instantâneo"

O “junto instantâneo”é um modo mais célere e alternativo de executar o comando de “aqui”, dispensando o rodopiar do cão à volta do dono ou condutor, entrando directamente prà mão de condução (a esquerda). Nele, o cão gira sobre si mesmo, encosta-se ao líder e coloca-se à sua disposição. O movimento canino é de uma elegância extraordinária, espelha grande prontidão e não esconde a cumplicidade binomial. Quando mais rápida for a execução, mais espectacular é o seu efeito. De nada adianta executar a figura a partir da coerção ou da mecanicidade pura e simples, porque isso sempre será notório e sujeito a maior delonga, sendo por isso mesmo caricato e imprestável. Aqui impera o contributo da memória afectiva para o condicionamento. O modo correcto para a obtenção da figura virá da brincadeira e da fixação do cão num dos pertences da sua eleição, que usado correctamente, reproduzirá o movimento procurado. Para que o interesse do cão se mantenha, é necessário, após cada ensaio, devolver-lhe o pertence, solicitando-lhe a sua procura e captura. O “junto instantâneo” esteve durante muito tempo cativo aos mestres e arredado dos instruendos, na vã relação que intenta sustentar as diferenças e garantir a supremacia. Essa relação imprópria e egoísta é própria dos indivíduos que não querem que os outros saibam tanto quanto eles. O “junto instantâneo” é um automatismo indispensável para o retomar da unidade binomial e pode também servir para a cessação das acções, dispensando assim a inibição que opera a perca de velocidade canina. A melhor apresentação da figura acontece pela linguagem gestual, quando o condutor substitui o comando verbal pelo batimento na sua perna esquerda.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Caderno de ensino: XXIV. O "arco de fogo"

O Arco do Fogo é um obstáculo de exibição que não esconde a capacitação dos cães para o resgate e salvamento. O fogo é um dos inimigos ancestrais dos cães, uma barreira que colide com o seu instinto de sobrevivência, sendo inclusive um meio para os pôr em debandada. A habituação ao fogo deverá ser gradual e acontecer sem qualquer risco para os animais, tirada a partir de pequenas barreiras junto ao solo e de fácil transposição. Convém que antes do convite para o arco do fogo, o cão já esteja acostumado a estes obstáculos tipo alvo, que nunca deverão ter um diâmetro inferior a 45 cm e que normalmente são de 60 cm. Os arcos com diâmetros de 45 cm são próprios para os cães especialistas, não estando por isso ao alcance de todos. Pela mesma razão, a altura do arco em relação ao solo não deve ser superior aos 80 cm, porque só os cães mais ágeis e arduamente treinados conseguirão executar esse salto a 1.20 m de altura, exactamente a mesma que dista entre o parapeito duma janela do rés-do-chão e o solo. Recomendamos somente o salto elevado a 60 cm de altura. Os comuns cães de companhia dispensam este tipo de treino, o mesmo já não se pode dizer acerca dos cães de guarda, porque um simples isqueiro aceso pode pô-los a milhas! Os comandos a utilizar são iguais aos de qualquer transposição. Há que ter especial atenção com a direcção do vento, particularmente durante a fase instrutória, para que a capacitação a operar não se venha a reverter num trauma para os cães, factor ligado às incapacidades produzidas pela sua experiência directa. O concurso ao arco do fogo deve pressupor a total aprovação dos cães em todos os obstáculos de uma pista táctica, primeiro forma-se o atleta e só depois se passa prà função.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Caderno de ensino: XXIII. O "retraça"

O “retraça” é um automatismo próprio para os cães de resgate e pode ser usado noutras disciplinas ou especialidades cinotécnicas. Consiste no despedaçar de um obstáculo ou objectos avante que obstem à prestação de socorro canina, constituindo-se numa acção típica de desencarceramento. Os cães que tendencialmente destroiem os seus brinquedos, mais rapidamente assimilam o automatismo. Tendo em vista o aproveitamento desta característica, mais vale dar-lhes brinquedos inquebráveis ou proceder à sua substituição do que inibi-los. O treino começa com jornais e cartões, evoluindo-se depois para materiais mais duros (plástico e madeira). Para além do uso dos dentes, requer-se do cão o uso das patas dianteiras e o concurso do seu dorso, porque importa tirar o máximo partido da sua força física. A acção é típica dos grandes e médios molossos, mormente aqueles com maior força de mordedura, cujo focinho mantém a mesma largura ao longo da sua extensão. Os cães só devem operar à ordem e o automatismo é também fundamental para os que se destinam ao cinema e à televisão.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Caderno de ensino: XXI. O "escavar"

Fazer buracos é uma actividade típica dos cães e quase comum a todos eles. Talvez o acto seja atávico, já que alguns enterram sobras de alimentos, ocultam brinquedos ou procuram pequenos animais. A experiência ensinou-nos que esse escavar deve ser aproveitado e estimulado, tornando-se indispensável ao Salvamento, ao Resgate e às Manobras de Evasão. Consideram-se Manobras de Evasão as desenvolvidas pelos cães afim de se soltarem, quando roubados, raptados, ludibriados ou encarcerados e intentam voltar para casa. O ensino do “escavar” é fácil porque resulta do aproveitamento de uma resposta natural. Porém, a acção precisa de ser codificada e ter um comando próprio, porque só assim se poderá transitar da sua origem instintiva para o seu aproveitamento, o que muito valerá aos cães e ao socorro dos donos, pressupondo a sobrevivência de ambos. Começamos por enterrar um brinquedo e solicitamos ao cão que o desenterre, juntando de imediato o comando inerente à acção. Depois da assimilação do comando, quando o cão já escavar debaixo de ordem e desnecessitar da ocultação de qualquer objecto, aqui compensado pelo recurso à recompensa, evoluiremos dos pisos mais soltos para os mais duros até à construção de um túnel de evasão. É desejável iniciar este trabalho nas areias fluviais ou marítimas, porque se torna mais fácil e os cães vivem da experiência adquirida. O “escavar”, quando associado aos vários subsídios direccionais, possibilitará, para além da libertação do cão e do resgate do dono, acções binomiais típicas de outras áreas que o adestramento clássico não dispensa. Considerando a presença da claustrofobia nalguns indivíduos, raças ou grupos somáticos, é de todo conveniente que o ultrapassar de túneis e mangas anteceda a acção de escavar.

Caderno de ensino: XXII. O "corta"

O “corta” é outro automatismo próprio das Manobras de Evasão, de importância igual ao “escavar” mas de obtenção mais difícil, apesar de resultar de um estímulo natural, considerando os diferentes perfis psicológicos caninos, porque quem mal usa a boca para comer, dificilmente usará os dentes para outra coisa qualquer. Os cães que costumeiramente cortam e retraçam os brinquedos perspectivam uma propensão inata para a aprovação neste automatismo. O “corta” consiste no cortar de uma corda, que vai aumentando de volume de acordo com a satisfação do exercício, de modo gradual e respeitando-se o intervalo entre a pausa e o trabalho, porque a saturação do cão não serve os nossos interesses e leva-o a desistir da acção. Começamos por um pedaço de corda esticada, rígida e com 2 mm de espessura, que colocamos sobre os dentes molares do cão, incentivando-o de imediato ao seu corte. O trabalho é espaçado e demora alguns dias por causa da adaptação a que obriga. Mais tarde o cão cortará cordas com um diâmetro de 3 cm, aprenderá a soltar-se e a soltar o dono. O teste final para a aprovação no comando incidirá sobre a libertação do dono, que atado de pés e mãos numa cadeira, ordenará ao cão que o liberte, cortando as cordas que o mantêm cativo. O “corta” contribui para o aumento da força de mordedura, possibilitando dessa forma o reboque e o resgate de utensílios mais pesados. É obrigatório contrariar a tendência canina e usá-la só para fim útil, porque sem condicionamento o cão poderá vir a morrer electrocutado. Quando o “corta” não resolver e importar eliminar um obstáculo à frente, usaremos o comando de “retraça”, automatismo de que falaremos na próxima edição.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Caderno de Ensino: XIX. O "rastejar"

O “rastejar” é um modo indicador da marcha avante, constituído em comando específico que serve um duplo propósito: a diminuição da silhueta do cão e a sua abordagem mais segura. É um automatismo típico dos cães de guarda e um dos exercícios mais duros para os seus praticantes. O condicionamento pode ser alcançado à trela, pelo recurso a obstáculos indutores ou tirado a partir de acções lúdicas. Só deve ser ensinado aos cães adultos, devidamente musculados e com uma invejável saúde articular. O condicionamento à trela exige como pré-requisito a posição de “deita”, porque o “rastejar” resulta igualmente do abatimento da espádua, da combinação da 3ª posição de imobilização com o “comando de “abaixo”, segundo os 3 movimentos contrários aos ponteiros do relógio. Na ausência desses procedimentos, muitos alcançam o “rastejar” pelo pisar e aliviar da trela a cada passada do animal. É caricato ensinar a rastejar os cães rectos de traseira, porque evoluem na figura como gatos escondidos com o rabo de fora. O exercício do rastejar carece do contributo prévio da marcha e não a dispensa após o seu término, porque importa relaxar os músculos dos cães e normalizar a frequência dos seus ritmos vitais.

Caderno de Ensino: XX. O "nadar"

Ao contrário do que se pensa, nem todos os cães sabem nadar, pelo menos correctamente, correndo sério risco de morrerem afogados. O nadar parcial ou impróprio, caracterizado pelo chapinhar das mãos acima da linha da água, é um movimento que provoca a exaustão e que impede a progressão pra diante, obrigando os animais a uma evolução mais ou menos circular. Existem raças naturalmente anfíbias, que se sentem como peixe dentro de água, o que não quer dizer que todos os indivíduos a elas pertencentes, só por causa disso, sejam excelentes nadadores, mesmo que apresentem membranas interdigitais bastante proeminentes. Diferentes grupos somáticos têm diferentes prestações natatórias e todos necessitam de aprender a nadar correctamente, com a totalidade dos membros a laborar debaixo de água. Para que isso aconteça é necessário levar os cães para profundidades onde não tenham pé, mas que permitam o caminhar dos seus condutores. Depois, com o auxílio da trela que os rebocará para diante e que os impedirá de se empoleirarem, procederemos ao seu condicionamento, primeiro em pequenas distâncias e depois noutras maiores. É tolice jogar uma bola para dentro de água e esperar que o cão aprenda a nadar por si mesmo. Primeiro ensina-se o cão a nadar e só depois se jogará a bola ou outro brinquedo, porque uma má experiência aumenta a resistência ao exercício e pode constituir-se em trauma prò animal.

Depois do condicionamento desejado, convidá-lo-emos para nadar ao nosso lado, até que por fim o deixaremos nadar sozinho, exigindo-lhe todos os automatismos direccionais próprios da condução nas suas 3 linguagens, 2 modos e 3 tipos (linguagem, verbal, gestual e sonora, modos atrelado e em liberdade, tipos linear, dinâmico e nuclear). Quando o cão já souber nadar e mostrar excelente aptidão para isso, caso seja esse o nosso objectivo, podemos transformá-lo em cão de salvamento, ensinando-o a resgatar tudo dentro de água, quer se encontre à superfície ou submerso. É por demais evidente que temos que o ensinar a mergulhar e de preferência em espiral. No salvamento de pessoas, que resulta do transporte de brinquedos que vão mudando gradualmente de forma e de peso, recorre-se por vezes ao resgate de um boneco de tamanho e peso idênticos ao das pessoas, um “dummy” que tanto pode flutuar como submergir. Em abono da boa capacitação canina, deveremos evoluir das lagoas para os rios e destes para o mar, considerando a aumento das dificuldades e a certeza das respostas. A introdução à natação deve considerar a temperatura das águas, porque abaixo dos 15º centígrados pode atentar-se contra a saúde dos cães. Ainda que um Labrador Retriever possa ser um cão de salvamento aquático, convém usar raças de maior porte para a tarefa, com idênticos predicados e superior força física. Ensinar um cão a nadar é obrigatório, porque isso pode salvar-lhe a vida.

sábado, 10 de julho de 2010

Caderno de Ensino: XVIII. O "cruza"

O QUE É O “CRUZA”. O “ cruza” é um modo indicador para a marcha avante ou circular, caracterizado pelo serpentear do cão sozinho, ao redor das pernas do dono ou em torno de obstáculos. Chama-se “8” ao cruzar do cão à volta das pernas do dono com este imóvel, perfazendo assim um ou mais oito consecutivos. Quando o cão evolui em ziguezague sem contornar qualquer obstáculo, estamos na presença da “progressão desenfiada”, manobra típica dos cães de guarda quando debaixo de fogo. Tanto o “8” como a “progressão desenfiada” são figuras decorrentes do “cruza”. A figura é natural nos cachorros e acontece inúmeras vezes, quando se entrelaçam nas nossas pernas e impedem a nossa marcha. O seu afastamento compulsivo pode criar futuras dificuldades para a aceitação do “cruza”.

COMO SE ENSINA O “CRUZA”. Convém que os cães já tenham assimilado o comando de “abaixo”, considerando o preparo muscular para a dureza do exercício. O “cruza” tanto pode ser ensinado à trela como pelo contributo da recompensa, de acordo com a disponibilidade ou resistência ao exercício. Geralmente só ensinamos o cruza depois de havermos alcançado a condução em liberdade, tirando partido dos fortes laços afectivos binomiais. Primeiro servimo-nos do comando de “abaixo” e só depois o transferimos para “cruza”. Para facilitar o convite para o exercício, munimo-nos de uma trela curta e deixamos livre a mão que procede ao estímulo. O concurso ao Slalom, obstáculo típico das provas de agility, pode ajudar na assimilação deste modo indicador.

O QUE ENSINAR PRIMEIRO: O “8” OU “CRUZA”. Sem querermos incorrer na história do “Ovo de Colombo” e porque damos seguimento ao princípio pedagógico da actividade apreensível, que justifica a passagem do trabalho simples para o complexo, primeiro instalamos o “cruza” e só depois avançamos para o “8”.
O “CRUZA” IRREPREENSÍVEL. Considera-se o “cruza” perfeito quando: o condutor se desloca em passo ordinário e o cão serpenteia naturalmente sobre as suas pernas, sem lhe causar qualquer entrave ou atraso. O condutor obriga-se a andar erecto e a olhar em frente, reagrupando o animal no final do exercício pelo “junto”, comando que também o antecede.

INTERDIÇÃO À FIGURA. Quando a diferença de alturas entre os membros do binómio for inferior a 90 cm, o binómio encontra-se automaticamente dispensado da figura, afim de se evitar o esforço suplementar do cão e o embaraço do seu condutor. Os cães por demais submissos ou inibidos não deverão ser convidados para o exercício, porque aproveitando-se dele, enroscam-se nos donos, diminuem a sua autonomia e resistem ao andar para diante. Os animais portadores de displasia grave deverão ser dispensados deste exercício. O treino do cão de guarda não dispensa o ensino da “progressão desenfiada”, mas pode desprezar a instalação do “cruza”, considerando o risco prà sua imobilização ou eliminação.