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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O preço da liberdade

Introduzimos o tema como uma história verídica, que para infelicidade nossa, aconteceu com um binómio da Acendura.
Determinado oficial e cavalheiro, mercê do aumento dos seus proventos, quando se encontrava num serviço de representação no estrangeiro, decidiu adquirir um Pastor Alemão. O animal veio adornado com o predicado “first-choice”, recebeu o nome de um chocolate apreciado, cresceu entre valões e flamengos, ali recebeu algum tipo de treino e acompanhou os donos no seu regresso a Portugal, acabando por engrossar as nossas fileiras. Ainda que na escola não mostrasse esse desvio, quiçá pelos bons ofícios do PM* e pela presença do adestrador, em casa corria atrás dos gatos e não lhes dava descanso. O binómio mantinha um trajecto rotineiro para a excursão diária e habitualmente o cão era solto em determinado local. Por ocasião de umas férias e porque importava guardar a casa, o cão ficou entregue aos cuidados de um vizinho. O recém-empossado respeitou os hábitos do líder e sempre agiu em conformidade com eles. Certo dia, no local usual da folgança, como de costume, o homem soltou o cão. Inesperadamente, vindo do nada, eis que surge um gato. O cão não se fez rogado e vá de correr atrás dele. No meio da perseguição atravessaram uma estrada, o gato saiu ileso e o cão de cauda amputada, porque foi pisado por um camião-cisterna de cimento. No comments!
A liberdade canina é uma liberdade condicionada, mesmo extrapolando os aspectos legais, porque se encontra cativa ao exercício da liderança humana e às garantias dadas pelos animais. É obrigação do dono, ainda antes de soltar o animal, bater minuciosamente o território escolhido, conhecer os seus confins e certificar-se da inexistência de perigos para a saúde do seu companheiro (vidros, pedaços de chapa, comida degradada, substâncias corrosivas ou tóxicas e tudo o que possa constituir-se em armadilha). O automatismo nos comandos de imobilização e direccionais torna-se imprescindível, particularmente os comandos de “aqui” e “junto”. O comando inibitório “não” deve ser soberano sobre qualquer reacção instintiva e a sociabilização (inter pares e interespécies) já alcançada. Para uma segurança mais efectiva, só se recomenda a liberdade aos cães depois da recusa de engodos ter sido instalada. Por outro lado, só a aprovada condução em liberdade dispensará o uso da trela. É de evitar, mesmo entre os cães mais arduamente treinados e experimentados, soltá-los no meio de outros cães ou pessoas, porque só respondemos pelos nossos e há muita gente que morre de medo. A protecção do nosso cão e dos demais, assim como o respeito pelos direitos de cidadania alheios a isso nos obriga, porque o disparate acontece maioritariamente por incúria, ainda que nos agrade rotulá-lo de acidente. A propósito: convém ler as letras mais pequenas que constam das apólices do seguro dos nossos cães, porque a retribuição das seguradoras encontra-se escudada nos preceitos legais. Quando eles são violados, as companhias ficam automaticamente desobrigadas a qualquer indemnização. Foi isso que assinámos!
Os lobos não nasceram para andar à trela, mas no dia em que os transformámos em cães, ela tornou-se indispensável, um subsídio de ensino eficaz e um garante da vida. A máquina instintiva canina, remanescente do seu atavismo, ainda condiciona a sua liberdade, porque os terrenos são repartidos e o perigo espreita. Treinamos os cães por causa disso, dominando instintos e potenciando impulsos. Tome todas a cautelas quando soltar o seu cão!
(PM*) – Gato Burma que durante 12 anos contribuiu para a sociabilização dos nossos cães.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A escola-oficina


Sempre nos negámos a entender uma escola canina como um distrito de recrutamento, como uma poda de mancebos, um Tea Club ou algo idêntico à modalidade de Cage Rage. Todavia, gostaríamos que todos os nossos instruendos de quatro patas fossem aptos, portadores de um carácter sólido, manifestamente atléticos e prontos para aprender. Também muito nos agradaria que todos os donos ostentassem a melhor das disponibilidades, tanto intelectual quanto física, para o seu desempenho enquanto condutores de cães, que fossem gente esclarecida e com os requisitos mínimos para a função. Mas se assim fosse, qual seria a nossa utilidade? Procurar-nos-iam? Talvez no paraíso tudo isso seja possível, face à boa ordem que tudo dispensa, inclusive as escolas caninas.

E porque ainda estamos aqui, os problemas não cessam, a reciclagem torna-se indispensável, a novidade sempre nos apoquenta e o conserto torna-se obrigatório. Sim, uma escola canina é uma oficina de consertos!

A pergunta é óbvia: o que consertamos nós?
Em primeiro lugar, somos confrontados com questões éticas relativas à constituição binomial, porque a adequação tem um preço que deve ser pago por ambas as partes, o que pode não acontecer face as capacidades individuais de cada um. Sempre existirão líderes impróprios e cães excelentes, líderes capazes e cães menos aptos. E nem tudo o que é sabido pode ser dito, porque importa manter o ânimo de uns e salvaguardar os outros. Se entendermos a constituição binomial como um casamento, o adestramento será, pelo menos na sua fase inicial, um autêntico namoro. Assim, a constituição binomial é o objectivo fulcral dos nossos trabalhos, muito embora desejássemos que tal acontecesse antes do treino propriamente dito, o que infelizmente é pouco comum. Por causa disso, o desentendimento entre homens e cães, sempre foi a primeira causa para o aumento das nossas fileiras. A maioria das pessoas apenas quer que o cão lhe obedeça!









Engana-se quem pensar que as escolas caninas são exclusivamente para os cães. Sê-lo-iam se eles aprendessem sozinhos ou já nascessem com um kit de obediência incorporado. Mas como não é esse o caso, há que instruir os donos para a tarefa, porque o desempenho canino sempre espelhará a qualidade dos seus mestres. E uma coisa é certa: é mais fácil ensinar cães do que donos! A capacitação dos condutores, que antecede e propicia a constituição binomial, é a primeira das metas a alcançar, segundo o contributo teórico-prático. Através do treino, vamos ser obrigados a consertar os desaguisados domésticos, a “escrever” novos capítulos na história dos cães, contrariando a sua experiência anterior e apresentando-lhes a face desconhecida dos seus donos, oculta no dualismo entre o querer e o ser capaz.

Uma vez consertados os donos, é chegada a hora de nos virarmos para os cães. Se o exercício da obediência regra os mais atrevidos, também é verdade que a prática da ginástica torna os inibidos mais audazes. Dependendo do carácter dos cães em classe e respeitando o princípio pedagógico da individualização, os conteúdos de ensino a ministrar deverão considerar o seu robustecimento. Como a aptidão de um cão se encontra ligada aos factores físico e psicológico, o plano de aula deve considerar o seu acerto, valendo-se dos subsídios disponíveis na pista táctica. A correcção morfológica (operada a partir dos aparelhos correctores), o robustecimento do carácter e a melhoria dos ritmos vitais, são consertos típicos e inseparáveis do “método da precocidade”, porque qualquer função se encontra sujeita àquilo que a sustenta (preparação).

Em síntese, moldamos homens e cães para um projecto comum, visando a capacitação bilateral para a autonomia desejada. E dito desta maneira, tudo parece fácil, particularmente quando os objectivos são alcançados e os percalços esquecidos. A escola não faz milagres, mas tem realizado os sonhos de muitos, graças ao trabalho oficinal que os transportou para a realidade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

E quando o Bebé chegar, o que fazer com o Cão?

Esta é uma dúvida que paira sobre a cabeça dos futuros papás, proprietários de um ou mais cães, preocupados com o bem-estar e salvaguarda do seu bebé. Este é também o caso do Carlos e Esteves e da Rita Rua. E como o assunto é do interesse geral, aqui deixamos algumas dicas ou conselhos.

PRIMEIRA REGRA: Se não controla as acções do seu cão de modo seguro e objectivo, afaste-o do recém-nascido. Você pode chegar tarde!

E como até os cães mais controlados necessitam de preparação para a novidade, também aqui são exigidos cuidados pré-natais, para que tudo corra bem e a desejada parceria aconteça. Não havendo parecer médico contrário ou reticência do veterinário, segundo a nossa opinião, a coabitação entre o bebé e o cão, deverá obedecer a 5 momentos distintos. São eles: a preparação, a apresentação, a familiarização, a sociabilização e a adopção. Qualquer um deles é importante e cada um dá acesso ao que imediatamente lhe sucede.

Aconselhamos, considerando o sucesso de muitos, quando o cão é anterior à chegada do recém-nascido, que o animal já tenha sido alvo de algum condicionamento na área da obediência, pelo ajustamento doméstico eficaz ou pelo contributo dos subsídios escolares. Esta pré-condição, projecta a adaptação segura, minimiza as dificuldades e diminui drasticamente o número dos problemas vindouros. Como se compreende, improvisar nesta matéria é ficção, desenrascar é demérito, porque não podemos optar pela política: “depois de casa roubada, trancas na porta!”

O que faremos na preparação?
Os trabalhos da preparação, como o próprio nome indica, são anteriores ao nascimento da criança, um conjunto de metas que visa a adaptação canina para o feliz evento. Antes de tudo, importa que os donos respeitem a higiene diária do bicho, coisa pouco comum de se ver, já que a maioria dos proprietários caninos é besuntona. Já vimos CPA’s e Serras da Estrela a ser tosquiados, cães que nunca viram uma escova e poucos são os donos com um trem de limpeza capaz. E como limpar cansa, rotineiramente os cães vão a banhos, como se de patos se tratassem! As boas condições higino-sanitárias caninas, pelo menos nesta ocasião, devem ser meticulosamente respeitadas. O cão deverá participar nos preparativos e familiarizar-se com as futuras rotinas, saber o que lhe irá ser permitido ou não, e os cuidados a haver, para que o berço não seja retraçado e o carrinho inundado pelo seu fluxo mictório. Tudo deverá ser do conhecimento do animal, para que a sua curiosidade não venha a dar azo ao disparate. Em todas as disciplinas cinotécnicas existe um crescendo operativo, um aproveitamento da confusão canina, entre a ficção e a realidade, uma transição gradual entre a fase teatral e a real. Faremos o mesmo nesta ocasião. Será a nossa capacidade de antevisão que irá fazer a diferença, na reprodução das situações com que o cão irá ser confrontado (quem deve embalar o berço são os pais, não o cão, os brinquedos caídos não devem ser abocanhados, o sono do bebé deve ser respeitado e a sua comida não deverá ser furtada). Para melhor preparar o cão para a chegada do bebé, também para se acostumar ao seu choro, é desejável substitui-lo no berço, atempadamente, por um boneco similar, de dimensões reais e que chore, atribuindo-lhe o nome de tratamento que irá ser dado à criança, para que o berço não tombe e o bebé vá parar ao quintal. O que se procura na preparação, quando houver necessidade disso, é alteração positiva do comportamento do cão face à novidade do recém-nascido. O advento do bebé não deverá promover a descida hierárquica do cão, coisa que o animal não veria com bons olhos, mas robustecer a liderança pela parte integrante.

O que é e para que serve a apresentação?
Quando a preparação é bem feita, a transição para a apresentação é automática, porque a aceitação já foi alcançada. A apresentação começa pela mostra do novo membro da família ao cão e sugere as adaptações necessárias, as inerentes ao diálogo inter espécies e ao particular do indivíduo canino envolvido. A supremacia dos códigos anteriormente aplicados, deve ser capaz de reparar, todos os problemas causados pela novidade. Como se depreende, a apresentação é um acto condicional, cativo ao momento próprio e dentro das rotinas previamente estabelecidas.
Como operaremos a familiarização?
A familiarização é um momento subdividido em duas fases: uma na presença dos progenitores e outra na sua ausência. Trata-se aqui de habitar o cão à criança, como elemento presente no seu quotidiano. Sem familiarização não há sociabilização nem adopção. Ainda bem que o cão é um animal de hábitos! A convivência entre ambos começa na presença dos pais, debaixo da sua direcção, atenção e fiscalização. O bicho deverá coabitar com o bebé, respeitar o seu status e tolerar o seu particular, de modo gradativo e de acordo com as respostas alcançadas. A passagem à segunda fase começa por ser falsa, porque será desenvolvida pela ocultação dos pais, tendo a situação sob controlo e “debaixo de olho”. A transição não é automática e existem cães manhosos, geralmente vítimas de donos de igual condição. Jamais passe à segunda fase na incerteza da resposta animal. Apesar de ser mais fácil deixar o cão no canil ou pendurado numa varanda, é melhor que o cão se acostume à criança, desde logo, do que a atacar depois de crescida, quando já andar e intentar puxar-lhe as orelhas.

Qual a importância da sociabilização e como a desenvolveremos?
Só a sociabilização plena garante a adopção. A sociabilização é um processo pedagógico que capacita o cão a viver na sociedade, de modo descontraído e extrovertido, segundo as regras aplicadas, na defesa da sua integridade e dos demais, quer eles sejam seus iguais ou diferentes. Como em tantas outras coisas, a sociabilização começa por ser doméstica e estende-se a todos os indivíduos presentes na sociedade adjacente. Como já se percebeu, a sociabilização é advinda do concurso da familiarização e das metas que a tornaram possível. Tornar um cão sociável é ajudá-lo a vencer os seus medos e receios, a controlar os seus instintos e a desenvolver a sua capacidade não-predadora, pela prática do exemplo e pelo contributo da sua curiosidade. Sociabilizar o cão com o bebé, é uma tarefa aturada e unilateral, porque mais depressa nos entende o bicho do que o recém–nascido. Protegendo a criança e satisfazendo a necessidade de contacto canina, a sociabilização torna-se viável pelo cumprimento das regras. O cão deve ser alertado para o singular da criança, a identificar a sua mímica como algo próprio e inofensivo. Os arremessos caninos contra crianças, muito raramente são contra as de colo, verificando-se mais tarde, por abuso ou invasão de território, por aqueles que nunca tiveram algum contacto com elas. É desejável que o cão permaneça junto do berço e do parque, que assista a todos os cuidados relativos ao bebé e que não use as suas fraldas como espólio. A sociabilização carece de tempo e estabelece-se com o crescimento da criança.
Como acontece a adopção?
A adopção é um fenómeno típico dos cães bem sociabilizados, daqueles que foram objecto de uma boa instalação doméstica e que se sentem membros activos do grupo. O cuidado dispensado a um cão nunca regressou de mãos vazias, transformando-se no aumento da segurança daqueles que o operaram. O cão tendencialmente defende aquilo que considera seu, particularmente se for territorial e se vir confrontado com intrusos. O êxito da sociabilização pode levar à guarda do bebé e isso acontece com alguma frequência, quando a criança é identificada como um bem a guardar, pertença do seu líder ou membro mais vulnerável do grupo: o cão irá adoptá-la como sua! E isto a ninguém deve espantar, porque o bicho procede de igual modo com os restantes bens do dono!
Conforme se antevê, o estabelecimento destas metas é tarefa do líder, que as deve alcançar para além da sua presença e sem o esforço dos elementos neutros (restantes membros da família), que usurpando papéis, podem comprometer todo o processo pedagógico.
Depois do que foi dito, dirão alguns:
- O meu cão nunca necessitou de nada disto!
Ao que responderei:
- Pois é, também eu, que nasci com um Pastor Alemão ao lado, afortunadamente com mais juízo do que o encontrado nos meus progenitores!
O apego aos procedimentos evita a tensão e diminui a novidade. Quem sabe não espera acontecer, faz!

Portfólio de um Reprodutor

À imitação dos já gastos “casamentos por procuração”, tal qual anúncio de convívio em matutino, alguns acordos pré-nupciais caninos são agora estabelecidos, via Internet, através do envio de fotografias dos reprodutores. A esmagadora maioria desses criadores envia somente uma fotografia do seu cão, de corpo inteiro e segundo o plano lateral, ignorando os demais planos de igual importância. Como acreditamos que o farão por desconhecimento, adiantamos aqui os planos necessários a um portfólio canino esclarecedor, servindo-nos do Afonso como ilustração, um cruzado de Chow-Chow com CPA, que apesar de distante dessas andanças, se disponibilizou para o efeito.

Do portfólio de um reprodutor devem fazer parte 5 planos: 1 lateral de corpo inteiro e 4 de pormenor (um frontal, um de traseira, um superior e outro da cabeça). Antes que nos acusem de excesso de zelo, adiantamos de imediato a importância de cada um deles e as informações que contêm, para que o futuro casamento, como noutras espécies, não se venha a revelar uma “carta fechada”.

No Plano Lateral de Corpo Inteiro são-nos dadas a observar, entre outras, as seguintes características:
1.A relação craniofacial. 2. A existência ou não de barbela. 3. O ângulo do stop. 4. A implantação das orelhas. 5. O tipo de chanfro nasal e comprimento do focinho. 6. Os eixos longitudinais craniofaciais superiores. 7. A inclinação do chanfro nasal. 8. A relação cabeça/dorso. 9. O elevado e a largura do pescoço. 10. O tipo de dorso (côncavo ou convexo). 11. A relação entre a altura e o comprimento (se o cão é quadrado ou rectangular). 12. A profundidade do tórax. 13. A inclinação da garupa. 14. A altura dos codilhos. 15. O comprimento da cauda e o seu tipo. 16. A inclinação dos metacarpos. 17. O tipo e classe de dedos. 18. As angulações traseiras. 19. A relação coxa/perna. 20. O tipo de pelagem e a distribuição das cores. 21. Desenvolvimento e proporção da espádua e das coxas.

No Plano de Pormenor Frontal podemos avaliar os seguintes pormenores:
1.O tipo de aprumos dianteiro. 2. A existência ou não de pé chato (dedos abertos). 3. A disposição dos joelhos. 4. A largura do peito. 5. A profundidade do tórax. 6. A simetria dos membros. 7. A inserção dos ombros.

O Plano de Pormenor Traseiro é esclarecedor relativamente a:
1. Ao tipo de aprumos traseiros (se há jarrete de vaca ou não). 2. Ao assentamento dos pés. 3. À largura das coxas. 4. Ao desenvolvimento muscular externo das coxas. 5. Ao tipo de ossatura. 6. À inserção da cauda. 7. À proporção entre a perna e a coxa. 8. Do estreitamento do jarrete ou não. 9. Da disposição da cauda.

No Plano de Pormenor Superior é-nos revelado o tipo de eixos (os cães galopadores são mais largos atrás e mais estreitos à frente, ou contrário dos molossos que são mais largos à frente). É o melhor plano para se identificar a relação do volume da cabeça em relação ao dorso. Espádua e garupa são aqui melhor avaliados. Também o tipo de costela é neste plano evidenciado.

No Plano de Pormenor da Cabeça procura-se identificar as seguintes características morfológicas:
1.Tipo de olhos e espaço interocular. 2. A existência ou não de máscara. 3. Tipo e largura da mandíbula. 4. Largura do crânio. 5. Existência ou não de despigmentação.

Para mais e melhores informações, recomendamos a consulta do Estalão da raça do seu cão, colocado à sua disposição pelo Clube Português de Canicultura. Fotografar animais não é fácil, basta ver as fotografias constantes nas revistas da especialidade. Os cães não fogem à regra. Há por aí alguns habilidosos, na arte de ocultar defeitos, que apenas “chapa” o melhor dos animais, ludibriando assim os futuros compradores pelo concurso de vários truques e pelo recurso a novos meios. Um dos mais comuns é o de esconder o abatimento de metacarpos no meio da relva. Há que estar atento. Doravante já sabe: o Portfólio de qualquer cão deve ter 5 planos.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Cão no Verão: alguns conselhos

  1. Evite deixar o cão encerrado dentro do automóvel, mesmo que deixe as janelas abertas. O calor pode-lhe ser fatal.
  2. Os cães de focinho mais curto apresentam maiores dificuldades em respirar, atingindo a exaustão mais cedo. Procure para eles um lugar mais arejado e sombrio.
  3. Os cães negros ou maioritariamente negros, quando sujeitos aos raios solares, atingem uma temperatura corporal até + 6º centígrados, quase instantaneamente. Proteja-os do sol.
  4. Se deixar o seu cão num hotel, dê preferência aos canis virados a Norte.
  5. Quando em viagem, não se esqueça da água e do bebedouro do seu cão.
  6. Se tem por hábito alimentar o seu cão pela manhã, passe a distribuição do penso para a noite. No verão os cães optam por comer nessa ocasião.
  7. Adquira um reservatório portátil de água.
  8. Coloque no animal uma coleira insecticida e evite permanecer em áreas alagadas ou húmidas, tanto ao amanhecer como ao anoitecer.
  9. Não marche com o seu cão quando a temperatura ambiente for superior a 25º centígrados.
  10. Não sujeite o seu cão a banhos de mar constantes. A água salgada acelera a desidratação. Se o fizer, lave-o depois com água doce. Praia e água potável são indissociáveis

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Sentimento colectivo para a edificação individual

Já não sei se li ou alguém me disse, que para fazer um clube bastam dois ingleses e que para o destruir dois portugueses bastam. Somos tendencialmente individualistas e sentimo-nos à parte dos demais, congregando-nos somente perante calamidades gerais. Grandes vultos na nossa história não hesitaram em considerar-nos um povo ingovernável, graças às nossas características e ao sectarismo presente em cada um de nós. A inveja trouxe-nos a Inquisição e os bufos nunca se encontraram em perigo de extinção, tal qual os maldizentes e os “deita abaixo”.
Na Acendura Brava privilegiamos o sentimento colectivo, damos igual tratamento a todos os condutores e somos adeptos de uma forte disciplina de grupo, colocando a nossa individualidade ao serviço dos demais. Mercê deste espírito fraterno, a permuta acontece: a erudição individual reforça o colectivo e cada um sai mais forte. O espírito de entreajuda é visível em todos os nossos trabalhos, não deixando ninguém para trás e procurando a parceria. À matilha espontânea escolar sucede a congregação dos condutores, gente apostada no mesmo objectivo: aprender para transmitir. Quanto mais coeso é o grupo, mais depressa se aprende. E depois, se não estivermos em paz uns com os outros, como poderemos sociabilizar os nossos cães?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

::: Acendura Brava: apresentação e princípios gerais de comportamento e treino :::

O trabalho seguinte desnecessita de prefácio, porque em si mesmo é revelador
e pouco lhe há a acrescentar. Apesar disso, importa agradecer ao autor, não só
pelo presente trabalho, mas também pela dedicação à sua Escola.

Assim, reconheço a justeza dos objectivos, as regras publicitadas, as verdades
manifestas, os propósitos apontados e os benefícios procurados.

O meu muito obrigado ao Dr. Zé Gabriel.
O adestrador em exercício:
JLS.Garrido


Objectivo

O presente texto tem por mero e limitado objectivo dar a conhecer a Escola e, de forma muito sucinta, alguns princípios gerais de comportamento e de treino.

As aulas teóricas são sustentadas em manuais e textos da autoria do responsável pelo adestramento, no qual são desenvolvidos os conteúdos de ensino, de acordo com o estádio de evolução dos binómios, desde as fases iniciais até aos níveis superiores de preparação.

A Acendura Brava

A Acendura Brava é um centro de treino canino que, beneficiando de uma experiência de cerca de 35 anos, se encontra aberto a todas as raças de cães, tendo em vista o respectivo adestramento e, quando esse seja o caso, a sua reeducação, eventualmente em regime de internato. A admissão dos cães pode ser condicionada à apresentação de atestado de robustez ou de outros exames a efectuar por médico-veterinário.

Para além do mero ensino comportamental, o adestramento na Acendura Brava tem em conta as necessidades fundamentais de correcção morfológica dos cães, através do uso de aparelhos (obstáculos correctores) e de exercícios adequados.

Como centro de treino canino a Acendura Brava não se assume como “escola de cães”, mas, sim, como escola de condutores. Nesta conformidade, os condutores constituem o discipulado e é por seu intermédio e com a sua participação activa e permanente que se alcança o adestramento dos cães.

Os condutores integram uma de três classes, designadas pelas letras A, B e C, de acordo com certos critérios de preparação e idade dos cães. A integração na classe A depende, sempre, da prestação de provas de acesso.

A pista de treino da Acendura Brava qualifica-se como “pista táctica”, na medida em que procura representar os obstáculos com que o cão pode deparar na realidade, designadamente em função do fim a que se destina. Como tal, é uma pista em permanentes evolução e mudança. Nessa pista é praticado o ensino elementar, o ensino especial e, em certas condições particulares, o treino de “endurance”.



Seis regras elementares de comportamento na Escola

Os cães entram e saem do recinto da Escola conduzidos à trela.

Os condutores apresentam-se para as lições à hora do respectivo início, devendo tempestivamente comunicar qualquer falta ou atraso.

Os condutores, antes da saída, limpam e arrumam nos devidos lugares o equipamento próprio que permaneça na escola (v.g. bebedouros).

Os binómios não devem entrar na pista sem prévia autorização do adestrador.


Nenhum obstáculo de “endurance” (identificados pelas extremidades vermelhas) pode ser efectuado sem a presença do adestrador e sem a sua prévia autorização.

No “círculo de obediência” e, de um modo geral, no decurso dos exercícios de treino, os condutores devem guardar silêncio entre si e tomar atenção às correcções e indicações do adestrador, ainda que se refiram a outros participantes.



Equipamento básico

Os condutores devem usar vestuário confortável e prático, com especial cuidado quanto ao calçado.

O material de condução elementar é constituído por estrangulador de cabedal e por trela de 1,80 metros, de modelos aprovados pela Escola.

Estrangulador e trela deverão ser marcados pelos donos.

Cada condutor deve possuir um bebedouro para o seu cão, adequado às características deste e também identificado.

Razão de ser do adestramento

O adestramento do cão permite que este adquira comportamentos próprios da sua integração no meio social humano, em resultado de comandos de obediência inseridos, mas tem um objectivo último mais vasto e que respeita a dotar o animal de condições de saúde e bem-estar e das que lhe permitam sobreviver no meio em que está inserido, face às dificuldades que se lhe apresentam.


O método seguido: método da precocidade

Fundado nos ensinamentos de Konrad Lorenz e de Trümler o método da precocidade preconiza o adestramento dos cães a partir dos quatro meses, aproveitando os seus ciclos de crescimento. Assenta sobretudo na ideia da persuasão, contrariando os métodos anteriores fundados na coerção e no ensino a partir da idade adulta (um ano). Relativamente aos animais chegados à Escola em idade mais avançada o método tem necessariamente de ser ajustado em função dos seus carácter e condições físicas.

Disponibilidade física e equilíbrio emocional do condutor

O treino do cão é dirigido pelo adestrador mas executado pelos condutores, salvo em situações especiais. Daí que, por um lado, o ensino vise primeiramente o próprio dono do cão, que tem de aprender o que pode e deve fazer e, por outro, exija do condutor disponibilidade física e uma emotividade equilibrada, que permita adequar os seus comportamentos às circunstâncias do treino.

Perseverança, paciência e rigor

Os novos condutores iniciam um processo de aprendizagem que exige, a um tempo, aquisição de conhecimentos teóricos, destreza de execução e dispêndio físico para que muitos não se encontram preparados. É natural que sintam dificuldade e pode acontecer que experimentem em algum momento a tentação da desistência. Nessas ocasiões, sugere-se que se colha o ânimo necessário para continuar no exemplo dos binómios mais adiantados, que sentiram e venceram iguais dificuldades. A perseverança cedo dará os seus frutos.

Também é natural que algum desânimo se instale quando, não obstante toda a boa vontade, o discípulo cachorro teima no desacerto. Não há que deitar culpas para o cão, que ainda está incipiente ou incerto. A aprendizagem exige tempo e paciência.

Tome-se por certo que as “faltas” do cachorro são sempre “culpa” do condutor e que, por isso, importa determinar os erros cometidos que levaram à inexecução ou à deficiente execução e proceder à sua correcção, com diligência e rigor.


Fidutia et labor

O adestramento exige confiança na capacidade de transformação e de realização. O condutor inseguro transmite imediatamente esse seu estado de espírito ao cão e leva-o, sem querer, ao insucesso. Mas não se confunda confiança com destemor imprevidente. A verdadeira confiança reside na convicção de ser capaz sustentada na segurança de saber fazer. E esta adquire-se com o trabalho, progressivo e insistente, esforçado e profícuo. Daqui o lema que se lê no calcetado do circulo de obediência: Fidutia et labor, confiança e trabalho!..

No adestramento canino só se alcançam os objectivos com trabalho, ainda que o treino tenha como horizonte próximo um grau inferior de condicionamento. Por isso na Acendura Brava não se estabelecem quaisquer limites à permanência dos alunos, dentro dos horários de funcionamento. Pelo contrário, a regra da Escola é a de motivar os condutores à máxima assiduidade e à máxima permanência, a de transformar a Escola no “seu” centro de trabalho. Para além das aulas curriculares, o condutor pode sempre usufruir das instalações da Escola e do apoio do adestrador tendo em vista o aperfeiçoamento e a progressão do binómio.

A confiança refere-se, também, ao próprio ensino. Mas não de forma cega ou gratuita, senão pela compreensão das razões e pela verificação prática. Por esse motivo o ensino teórico faz-se, na Acendura Brava, de forma participada, por meio de leituras explicadas e comentadas e resolução das dúvidas levantadas, com expressão, sempre que possível, em situações reais.

Grupo escolar

O ensino leva à constituição de binómios operativos. Condutor e cão passam a constituir uma “unidade”, distinta e diversa das demais. Todavia, no grupo escolar, os condutores e os seus cães actuam igualmente como agentes de ensino dos restantes participantes, mormente na execução de exercícios de adestramento. Por outro lado, sem prejuízo do espírito competitivo, próprio das pessoas e dos cães e que é saudável e motivador, o grupo escolar assenta em princípios de entreajuda e solidariedade, tendentes à formação de uma colectividade. O espírito colectivo que se deseja tem uma das suas mais interessantes expressões nas apresentações públicas da Escola, à qual concorrem actuais e antigos alunos.



Binómio e liderança


Binómio é o conjunto formado pelo cão e pelo seu condutor, entre os quais deve ser estabelecida e mantida uma relação profunda de amizade e cumplicidade, sem prejuízo da supremacia hierárquica do dono. A perfeita operacionalidade do binómio depende, ainda, da altura relativa dos seus elementos.

O cão só compreende a vida em matilha, nesta transformando o agregado familiar em que é recolhido e no qual procurará o seu lugar relativo. Dependendo do seu temperamento (muito dominante, dominante, submisso, muito submisso, inibido), assim o cão tenderá ou não, mais ou menos intensamente, a procurar um lugar cimeiro ou subordinado. Pretende-se que o cão possua um temperamento forte e voluntarioso mas que em todas as circunstâncias reconheça no seu dono e condutor o chefe da matilha. A liderança pelo condutor é condição necessária, ainda que não suficiente, para o êxito do adestramento.

Liderança não significa violência ou domínio pela força. A violência está arredada do adestramento, tomando-se por tal todo o tipo de agressão física ou psicológica gratuita ou desproporcionada. Mas supõe, sempre, a imposição da vontade do dono, quando operada dentro dos limites das capacidades do cão, não lhe permitindo evasivas ou fugas, ainda que pequenas, ao que é comandado. A admoestação verbal com uso do comando inibitório “não” será, as mais das vezes, remédio para as faltas.

O cão em casa

O adestramento ministrado na Escola tem de ser repetido pelo condutor, no seu ambiente doméstico, relativamente àqueles exercícios que não exijam condições especiais e para os quais tenham absorvido os correspondentes meios técnicos de execução – recapitulação doméstica.

É ao condutor que cumpre assegurar a alimentação e a higiene do cão, o passeio diário, a deslocação ao veterinário, a medição da temperatura e das pulsações, a verificação do estado das fezes, o cumprimento do calendário de vacinação. Nenhuma destas tarefas pode ser confiada a terceiros, a não ser em situações de premência inultrapassável.

A higiene do cão supõe a sua limpeza diária, com uso de equipamento adequado, a desparazitação regular, a utilização de desinfestantes, a alimentação adequada.

O passeio é fundamental para o desenvolvimento muscular, para a correcção de aprumos, para que o cão se torne confiante na presença de situações passíveis de lhe causar temor e para que se aperceba dos perigos que tem de evitar. Mas passeio não é um circuito descontraído em torno do quarteirão ou num jardim próximo, em que ao cachorro se permita cheirar criteriosamente os odores dos que o precederam. Este ritual dos cheiros é necessário, corresponderá a um momento de descontracção e de lazer mas não substitui o andamento à trela, em marcha junto do dono, concentrado na própria progressão, ginasticado, firme e na extensão recomendada. Impõe-se nos passeios a variação dos locais e dos ecossistemas.

Os demais elementos do agregado familiar do condutor são, relativamente ao animal, elementos neutros. Não participam das tarefas fundamentais cometidas ao dono, senão em circunstâncias excepcionais e evitando comandos inibitórios. São, todavia, imprescindíveis para o desenvolvimento psicológico do cão, comportando-se como companheiros de matilha, com quem o cão brinca e sobre quem exerce a sua função protectora. Os elementos neutros deverão acompanhar o condutor durante as aulas, sempre que possível.

Conhecer o cão

O cão é um indivíduo, com características próprias que devem ser conhecidas. Mas participa das que são comuns à raça, que igualmente devem ser apercebidas. A posição das orelhas e da cauda, os sons que emite, as atitudes corporais, devem ser estudadas e compreendidas, de modo a que a simples observação do canídeo permita aperceber um estado de alerta indicativo da aproximação de estranhos, um convite para a brincadeira, uma reacção de temor, a eminência de uma atitude agressiva, um pedido de ajuda, etc. Deve o condutor igualmente possuir algum conhecimento da morfologia do cão e dos seus aspectos funcionais


Viver com cão

Ao cão deve ser conferido um elevado estatuto, o de segundo no comando. É quem caminha ao lado do dono; é o zelador do bem-estar e da segurança do dono e de tudo e todos que a este pertencem. E isto é incompatível com o desprezo pela sua convivência, pelo ostracismo, pela vida entre as quatro paredes do canil. Sem dúvida que um canil se revela necessário em diversas ocasiões, mormente para salvaguarda da integridade do cão, mas não deve constituir uma “gaiola”, a cuja porta o dono se apresenta apenas para entregar comida e pedir trabalho. Viver com o cão, partilhar com este inteiramente o ambiente doméstico, permitir-lhe assento no sofá da sala, deixá-lo enrolar-se, à noite, aos pés da cama, ouvir-lhe o arfar sossegado enquanto se trabalha no escritório é percorrer o caminho certo para a construção de um binómio são. Infelizmente será, também, o “pesadelo” de donas de casa criteriosas…


O cão na Escola

Todas as aulas obedecem a um figurino estabelecido pelo adestrador, tendo em conta a diversidade dos binómios, o seu grau de evolução ou de capacidade e as necessidades específicas de cada um. Trata-se de uma tarefa complexa, raramente apercebida pelos condutores, que supõe um conhecimento particular e completo de todos os binómios, a definição de objectivos e o estabelecimento de metas para cada um. Sejam estes quais forem, porém, todas as aulas alternam períodos de trabalho (geral ou específico) com períodos de descanso dos cães, nos quais lhe é devida compensação pelo trabalho realizado..

O cão trabalhou, efectuou com êxito o que lhe foi determinado ou, pelo menos, evoluiu nos exercícios solicitados. Está cansado, apetece-lhe refrescar-se e anseia pela atenção do dono, pelo afago demonstrativo de agrado. Tem, isto é, direito à compensação, não a uma qualquer compensação, tímida ou distante, mas, sim, à compensação próxima, efusiva, exuberante. Nenhum condutor deve sentir-se inibido ou ridículo por acarinhar o seu cão. Deve, ao invés, mantê-lo junto a si, mostrar-lhe apreço, acariciá-lo. E, nestes momentos, um biscoito ou outra qualquer guloseima pode ser prémio devido.


Durante a permanência na Escola os condutores devem exercer vigilância sobre os cães, mormente nos momentos de repouso ou restauro em que há maior proximidade entre os animais, a fim de se evitarem confrontos indesejáveis. A sociabilização entre os cães e a sua indiferença relativamente a outros animais são imprescindíveis. Cão que ataca outros cães (efeito turquês) é candidato à reeducação e, por isso, desde cedo deve ser condicionado à convivência pacífica mediante manobras de sociabilização. Os ataques são sempre precedidos pela fixação do alvo e, muitas vezes, desacompanhados de sinais sonoros (rosnar), devendo o condutor estar atento aos indícios a fim de os anular. Tendo em vista a habituação dos cães, estes convivem na Escola com diversos animais, designadamente gatos que circulam em liberdade.



O “círculo de obediência”

Na pista de treino está definido, em calcetado, um percurso circular, com cerca de 50 metros de perímetro, a que se chama “círculo de obediência” e onde os condutores praticam muitos dos exercícios de treino. Na gíria escolar ainda hoje se fala em “círculo de 36 metros”, que correspondia à sua anterior extensão, definida para a utilização simultânea de 18 binómios.

A evolução dos binómios assenta nas práticas de cavalaria. A esquadra é composta por seis binómios e a sua evolução pode ser feita em frente de um, dois ou três binómios. Em qualquer situação, sendo a primeira a mais comum, cada binómio deve guardar a distância de um metro relativamente ao que o precede, mantendo sempre a cadência de andamento. A formação está sujeita a certas regras de precedência, mormente em razão das raças, pelagem, idade e sexo dos cães.


Linguagem verbal e gestual

O adestramento supõe a instalação de automatismos através de comandos de imobilização e de direcção. E estes exprimem-se por ordens verbais e por gestos. As ordens verbais podem variar de vocalização, de escola para escola, e tendem a ser progressivamente substituídas pelos comandos gestuais, que, todavia, deverão desde o início acompanhar os verbais. Os gestos, que também podem variar de escola para escola, possuem desenhos próprios, adequados ao movimento que se pretende do cão.

O uso disciplinado dos comandos verbais e gestuais é imprescindível, de modo a não criar confusão e a não esgotar inutilmente a capacidade de memorização do cão. A uma acção corresponde um só comando e o mesmo comando serve para uma só acção. Esta disciplina adquire-se com a prática, mesmo porque os comandos vão sendo gradualmente ensinados ao condutor e inseridos no cão.


Postura, respiração e entoação dos comandos

Conduzir um cão deve proporcionar a quem olha uma imagem de elegância, desenvoltura e entendimento. O condutor caminha erecto, com elasticidade, olhando em frente e respirando naturalmente. As orientações dadas pela trela são quase que apenas sugeridas. E os comandos emitidos, por regra, de forma convidativa, calma, serena, ainda que audível e determinativa. Em tal imagem descobrir-se-á, até (porque não?) um pequeno toque de vaidade.

Postura, respiração e entoação de comandos, assim, definem a qualidade do condutor e condicionam a própria qualidade do cão, sendo, por isso, objecto de cuidado especial no decurso do adestramento.




Condução e mão de condução

O adestramento compreende diversos tipos de condução: à trela, em liberdade, linear (progressão com o cão ao lado do condutor), dinâmica (com alterações do andamento do cão, da marcha para o galope), nuclear (progressão da cão em liberdade, permanecendo o condutor à distância). Nas fases iniciais do adestramento a condução é linear, atrelada e dinâmica. Mais para a frente passa-se para a condução em liberdade (também linear e dinâmica) e, em estádio avançado, para a condução nuclear. A condução linear atrelada começa com o cão do lado esquerdo do condutor (condução natural ou à esquerda), evoluindo depois para o lado inverso (condução à direita).

A trela não serve de “corda” para prender ou reprimir o cão. Constitui um instrumento de ensino pelo qual se transmite o comportamento que dele se deseja. Não funciona como factor de penosidade ou desconforto, senão como meio de ajuda ou de orientação. Com a trela o cão deve sentir-se seguro, protegido, confortável. Ao uso correcto da trela corresponde uma boa “mão de condução”. E esta aprende-se, mais ou menos facilmente de acordo com a maior ou menor sensibilidade do condutor.


“Junto” – a primeira e principal vitória

A primeira e principal vitória do condutor é conseguir o “junto” na condução à esquerda, isto é, conseguir que o seu cão se desloque conduzido à trela, sem pressão para o exterior, para a frente ou para trás, quase encostando o anterior direito à perna esquerda do condutor.

Primeira vitória porque a figura exige dinamismo na marcha, postura erecta e ágil, respiração controlada, resistência física, mão esquerda actuante na trela, comandos verbais no tempo certo, tudo ou quase tudo o que o condutor ainda não possui ou não consegue. O cachorro, por seu lado, parece adivinhar as dificuldades do dono e querer agravá-las, adiantando-se, atrasando-se, parando, “pendurando-se” à esquerda… Ao fim de uns centos de metros revelam-se as sequelas da vida sedentária e o comodismo reivindica o seu lugar. Haverá, então, que fazer apelo ao ânimo e continuar, na certeza de que, em dado momento, quando menos se esperar, o cão “entra” no “junto”, compreendendo e aceitando o que dele se pretende. A partir daí tudo se torna mais leve, prosseguindo mais facilmente a tarefa de “afinação”.

Principal vitória porque o “junto” é o pilar da obediência, dele dependendo a correcção de muitas outras figuras e, em particular, o êxito da futura condução em liberdade.



“Glórias” da Acendura Brava

Desta Escola, ao longo dos seus muitos anos de actividade, saíram formados cães extraordinários, muitos aqui criados, alguns a que terceiros não auguravam futuro promissor e uns tantos que, por razões de conformação, estavam erradamente sentenciados ao abandono e à inércia. Atingiram níveis elevados de preparação, alguns, felizmente ainda vivos, chegaram ao estrelato, participando em séries televisivas e todos constituíram e constituem motivo de orgulho para os seus donos e para o seu adestrador.

Não há razões para que o seu cão não venha também a ser uma das “glórias” da Acendura Brava. A obtenção desse resultado está inteiramente nas suas mãos. Para isso,

fidutia et labor!

JGAR

terça-feira, 14 de abril de 2009

::: O exercício da autoridade no adestramento :::

Não é raro ver-se publicitado o ensino dos cães com menção destacada ao repúdio da violência. E é frequente, da parte dos donos dos instruendos, o receio de que o adestramento comporte desconforto físico para os animais.

Aquela publicitação e este receio têm na sua origem a questão de saber se e como pode ou deve ser exercida a autoridade no adestramento. Uma resposta que satisfaça aos anseios afectivos dos donos poderá indicar, na esteira da referida publicidade, um plano de ensino prenhe de condescendências e de mimos, mas não corresponderá seguramente à realidade do treino, sob pena da sua total ineficácia. Uma outra que apenas se funde na imposição brutal de condutas criará possivelmente submissões, mas sempre no limiar da revolta, à margem da relação empática que cimenta a obediência.

Neste campo, como em muitos outros, a correcção dos procedimentos não se encontra nos extremos e pressupõe que se estabeleçam algumas precisões, sem receio de maus entendimentos. Sem dúvida que não têm hoje cabimento os métodos puramente coercivos, praticados no passado, em que o treino se iniciava na idade adulta em relação a exemplares dominantes. Reconhecida a vantagem e definidos os princípios básicos do método da progressividade, que supõe o treino dos cachorros a partir dos quatro meses e o acompanhamento dos seus ciclos de crescimento, a fórmula do treino reside no aproveitamento evolutivo ou gradual das capacidades dos animais, num ambiente que não lhes seja hostil ou penoso. Mas, ainda assim, a autoridade não pode ser esquecida e é no seu modo de exercício que se colocam dúvidas e surgem equívocos.

O adestramento do cachorro é essencial em diversas perspectivas: a de garantir condições de comportamento “social” no meio humano em que foi inserido; a de o preparar para sobreviver no “habitat” em que se movimenta; a de possibilitar o seu desenvolvimento equilibrado dos pontos de vista físico e psíquico; a de fortalecer o seu temperamento, a de alcançar um determinada utilidade laboral.
Sendo necessário, o adestramento é, em si mesmo, o primeiro factor de violência contra o cão, precisamente porque confronta ou contraria a liberdade natural. Pelo adestramento o cão é forçado a conduzir-se por uma forma adversa às reacções que naturalmente tomaria e, nessa medida, o treino constitui uma violentação da sua liberdade.

Ora esta “violência” do adestramento considerado no seu todo converte-se em outras tantas “violências” quantas as situações concretas do ensino, quantos os casos em que o cão é levado a comportamentos limitativos das suas reacções naturais e espontâneas.

Mas sendo, como se referiu, fundamental para a segurança e para o desenvolvimento harmónico do cachorro, o dono adestrador não deve subalternizar esses objectivos a sentimentos momentâneos de piedade ou semelhantes, desde que, é claro, estejam a ser respeitadas as capacidades do aluno e as boas condições de desenvolvimento do ensino.

A “violência”, tomada no sentido impróprio que se expôs, de contrariedade oposta às reacções naturais de liberdade, não significa nem pressupõe mau trato, mas não exclui o exercício da autoridade pelas formas dissuasoras que lhe pertençam e no caso se justifiquem.

A matilha sobrevive mercê de uma hierarquia rigorosa, pela qual se define o patamar de cada um dos seus elementos. As posições cimeiras não são consensuais, antes conquistadas e mantidas pelo indivíduo mais forte e de perfil mais dominante. O domínio na matilha é alcançado e conservado por imposição, pela força, pela ameaça intimidativa ou, se necessário, pela agressão.

Transposto para o ambiente doméstico da sua família de adopção, o cachorro, ainda que intua a diferenciação de espécies, é levado a considerar-se inserido numa matilha – chamemos-lhe matilha familiar – e, a certo passo do seu desenvolvimento, por força de mecanismos instintivos, a procurar o seu posicionamento relativo, quiçá, por razão do seu temperamento dominante, o estádio mais elevado da chefia suprema.

Mais ou menos francamente, com arrogância ou usando de subterfúgios, o cachorro pode ascender a essa posição, na presença de um dono complacente, despreocupado ou simplesmente ignorante dos processos evolutivos da mentalidade canina. E quando tal suceder, subvertidos os termos, o dono é relegado para uma posição hierárquica inferior, perdendo os atributos de autoridade que lhe deveriam pertencer.

Nesta situação o adestramento canino é impossível. Ainda que não seja condição suficiente, a autoridade hierárquica sobre o cão é condição necessária para o ensino. A que deverão juntar-se - se acaso pudermos conceber que o cão experimenta estados emocionais equivalentes ou próximos dos humanos - a confiança no dono e a afectividade pelo dono.

Seja como for, a subversão da autoridade é impeditiva do adestramento, precisamente porque o cachorro, julgando-se dono do bastão, não aceitará sem rebeldia o condicionamento dos seus comportamentos.

De modo que, como acima se referiu, a “violência” ínsita no adestramento (condicionamento contrário às reacções naturais de liberdade) é necessariamente prosseguida através da autoridade.

Ora é no exercício desta que pode residir – e penso que muitas vezes reside – o equívoco que a questão inicialmente formulada encerra.

O exercício da autoridade em qualquer situação da vida pressupõe o acesso a métodos de conformação, a meios de execução ou cumprimento e a processos de sancionamento, que podem ser mais ou menos extensos e diversos na sua natureza, consoante o ambiente que se considere. Isto é dizer, nomeadamente, que a autoridade não se exercita simplesmente por actos de “imperium”, determinativos, coercivos, senão também, por actos de indução, de dissuasão, enformados, porém, por uma característica especial, a de que, ainda assim, não se reconhece no visado a liberdade de escolha. Seja pela ordem ou comando, seja pela orientação esclarecedora, na base encontra-se sempre a prerrogativa de impor. Por outras palavras e numa súmula, o estabelecimento de certos padrões de conduta mediante o exercício da autoridade pode passar pela dissuasão, pelo acto determinativo e pela sanção.
E assim será tanto no relacionamento humano como no animal. Como acima se referiu, a chefia da matilha é obtida pelo cão dominante e por este assegurada através de actos disciplinadores que poderão ser de aviso (dissuasores ou indutores de certo comportamento) ou de penalização de desvios da conduta requerida, por via da agressão mais ou menos intensa (sanção).

Transposta a dominância do chefe da matilha para o dono adestrador, não encontro diferenças fundamentais quanto ao exercício da autoridade, que deve passar pelo cumprimento da vontade do dono, por via, conforme as situações, de persuasão, ordem e sanção. Diferenças haverá, obviamente, nos meios concretamente utilizados e, ainda, na atribuição de recompensas pelo cumprimento, que eventualmente não se verificará em matilhas naturais.

A persuasão constituirá, decerto, o meio primário de exercício da autoridade, conduzindo o cachorro à prática dos exercícios ou figuras desejadas como que num convite forçado. Parece-me que todo o adestramento inicial com uso da trela se insere neste princípio básico de persuasão, em que o castigo está ausente. O cão, por exemplo, é motivado a caminhar junto ao dono por via dos movimentos da trela determinados pela rotação do pulso e acompanhado por palavras de censura proibitiva (“não”), de convite à correcção (“junto”) ou carinhosas de estímulo (“muito bonito”), no que se traduz, a meu ver, a ideia de persuasão. A repetição de transposição de um obstáculo após um insucesso que atemorize o animal, acompanhado de atitudes de estímulo e entusiasmo, é ainda, parece-me, uma forma de exercer a autoridade de modo persuasivo.

Numa fase em que o animal já tem assimilada a acção pretendida, mediante vocalização ou gesto, a autoridade exerce-se através da ordem pura. Se o cão já conhece o comportamento que dele se requer em situações determinadas, a autoridade manifesta-se sem necessidade de expressão, por razão do condicionamento efectuado.

É neste estádio que se colocam mais problemas no exercício da autoridade, tendo em conta que esta tem por objecto a obediência e que, neste particular, o conceito é absoluto. A obediência supõe o pronto cumprimento da ordem ou a omissão de conduta perante uma situação em que a passividade corresponda a comportamento adquirido. À voz de “aqui” o cão deve imediata e rapidamente dirigir-se para o seu dono, à voz de “alto” imobilizar-se prontamente. À passagem de um cão desconhecido ou perante um gato em corrida provocadora, deve manter-se em absoluta passividade, independentemente da voz ou da presença do dono. De uma iguaria apetitosa encontrada no chão deve afastar-se, mesmo que o dono não esteja ao alcance dos seus sentidos.

O cão que desobedece a uma ordem assimilada confronta a autoridade do dono e justifica a sanção. Sobremaneira quando estiverem em causa pressupostos da sua segurança ou da sua integridade física. Há, todavia, que qualificar rigorosamente a conduta do animal como desobediência, dado que, muitas vezes, a não execução de certa figura resulta da incapacidade do animal ou da deficiência dos comandos ou “ajudas”.

A sanção tem de corresponder, necessariamente, a um desconforto, a uma penosidade, a algo que crie no animal uma relação de natureza negativa com o incumprimento. Poderá ser, por exemplo, o afastamento do dono, em jeito de desprezo, face à desobediência do comando de “aqui”, o que lhe criará ansiedade e desejo de proximidade. Poderá ser a prisão com a trela a um poste, afastado do dono. Mas poderá ir mais longe?

A diferença entre o líder humano e o dominante da matilha animal está na impossibilidade deste de reagir para além das formas de domínio físico absoluto, da agressão física, da mordedura. O dono adestrador terá de assumir, quando imprescindível, reacções de eficácia semelhante mas não necessariamente iguais às que se observam na matilha animal. O cão dominante que afasta da comida o guloso atrevido não excede, na sua conduta agressiva, o necessário para a produção desse resultado. Castiga a impertinência na medida necessária à reposição da obediência quebrada. Não se retrai, nem se excede. Ora é este equilíbrio, esta proporcionalidade, que deve enformar a conduta punitiva e tal supõe, da parte do dono adestrador um afinado sentido de oportunidade, uma imensa serenidade. Mas, mais, porque beneficia dos atributos da inteligência, o repúdio da violência.

Castigo nunca poderá converter-se em sevícia, em mau trato gratuito. E só se compreende na medida em que, simultaneamente, seja preventivo de futuras desobediências. O castigo, para corresponder a estes requisitos de proporcionalidade e de eficácia, tem de ser aplicado no momento oportuno (na presença de uma desobediência verdadeira e própria) e sem descontrole emocional por parte do dono. Estão arredados, assim, todos os castigos exógenos aos objectivos pedagógicos do adestramento, injustificados face à conduta do cão, excessivos em presença das concretas finalidades repressivas ou preventivas ou causadores de sequelas físicas ou psicológicas. Estão, por isso, proibidas, em qualquer circunstância, as agressões corporais por qualquer meio ou modo, com a trela, uma vara ou qualquer outro instrumento, os murros e os pontapés ou outra de natureza semelhante, sempre reveladoras, quando infelizmente acontecem, do desequilíbrio emocional do dono adestrador.

Querendo reunir em parágrafos conclusivos as ideias essenciais que pretendi transmitir e guardei no decurso da minha formação na Acendura Brava, termino referindo que:

1º- O adestramento só é possível se o dono adestrador se situar numa posição de supremacia hierárquica relativamente ao cão e exercer, quanto a este, a sua autoridade.

2ª- O exercício da autoridade, fundado na faculdade de impor, desenvolve-se através de processos de persuasão, de ordens ou comandos puros e do sancionamento da desobediência, mediante sanções cautelosas, proporcionadas, certeiras (oportunas) e despidas de envolvimentos emocionais.

3ª- A sanção deve corresponder a uma conduta que cause no animal, por via do fenómeno da memória afectiva, uma relação desconfortável com a desobediência praticada, de modo a prevenir práticas futuras semelhantes, estando liminarmente arredados os castigos físicos ou corporais, permissivos de sequelas físicas e medos ou traumas inibitórios.

JGAR

quarta-feira, 8 de abril de 2009

::: Reflexão sobre a perigosidade dos Cães :::

§ 1º

O Decreto-Lei n.º 312/2003, de 17 de Dezembro (alterado pela Lei n.º 49/2007, de 31 de Agosto), estabelece o regime jurídico de detenção de animais perigosos e potencialmente perigosos como animais de companhia, visando a que lhes “sejam proporcionados os meios de alojamento e maneio adequados, de forma a evitar-se, tanto quanto possível, a ocorrência de situações de perigo não desejáveis”. Sustenta-se o diploma na “convicção de que a perigosidade canina, mais que aquela que seja eventualmente inerente à sua raça ou cruzamento de raças, se prende com factores muitas vezes relacionados com o tipo de treino que lhes é ministrado e com a ausência de socialização a que os mesmos são sujeitos”.

§ 2º

Animal perigoso, para efeito da lei, é qualquer animal que tenha mordido, atacado ou ofendido o corpo ou a saúde de uma pessoa, que tenha ferido gravemente ou morto outro animal fora da propriedade do detentor; que tenha sido declarado, voluntariamente, pelo seu detentor, à junta de freguesia da sua área de residência, como possuindo carácter e comportamento agressivos ou que tenha sido considerado pela autoridade competente como um risco para a segurança de pessoas ou animais, devido ao seu comportamento agressivo ou especificidade fisiológica.

Desta sorte, no que respeita aos cães, nenhum é por definição animal perigoso, mas qualquer um pode, por ocorrência de uma das circunstâncias anteriormente referidas, vir a ser qualificado como tal.

Observa-se que a perigosidade, no que respeita a atitudes agressivas relativamente a pessoas, decorre da mordida, do ataque ou da de lesão do corpo ou da saúde de uma pessoa sem qualquer referência às circunstâncias concretas da ocorrência, colocando na mesma situação o animal que age inopinadamente e sem justificação e o que reage a provocações ou a estímulos por parte do lesado que desencadeiem a conduta agressiva.

Por outro lado, para a definição legal são indiferentes a intensidade e as consequências do comportamento considerado perigoso. Basta-lhe a mordida, o ataque ou a ofensa ao corpo e saúde de uma pessoa, ainda que se trate de conduta sem efeito danoso grave, como resulta da falta de menção a “ofensas graves à integridade física”.

Estas “ofensas” ao corpo ou saúde de uma pessoa são as que ocorrem de modo a privá-la de órgão ou membro ou a desfigurá-la grave e permanentemente; a tirar-lhe ou afectar-lhe, de maneira grave, a capacidade de trabalho, as capacidades intelectuais ou de procriação, ou a possibilidade de utilizar o corpo, os sentidos ou a linguagem; a provocar-lhe doença particularmente dolorosa ou permanente, ou anomalia psíquica grave ou incurável; ou a provocar-lhe perigo para a vida.
Seja ligeira ou grave (e independentemente das condições concretas em que se produz), a ofensa determina sempre a consideração do cão como perigoso, interessando a distinção, apenas, para o destino a dar ao animal. No primeiro caso (ofensa ligeira), a hospedagem por período determinado em centro de recolha, por determinação da autoridade competente, com posterior entrega ao dono com eventual obrigação de realização, em certo prazo, de provas de socialização e ou treino de obediência; no segundo caso (ofensa grave), o abate obrigatório.

São também qualificados como perigosos os animais que tenham ferido gravemente ou morto outro animal fora da propriedade do detentor. Não se trata, agora, pois, de perigosidade em função das pessoas. Objecto da protecção são os outros animais mas, apenas, quando se trate de lesões graves ou causais da morte ocorridas fora da propriedade do detentor. Pela inversa (e algo estranhamente): um cão que, dentro daquela propriedade, fira ou mate outros animais, ainda que repetidamente, mesmo que com demonstração de selvajaria, não é, para o legislador, um animal perigoso.

Note-se que, neste âmbito, apenas revelam as lesões graves, cujo sentido a lei não esclarece (ao invés do que sucede com as ofensas graves infligidas a pessoas), não sendo difícil, porém, a determinação dos casos passíveis de integrar o conceito: privação de membros ou órgãos, diminuição das capacidades funcionais, perigo de morte, etc.

“Detentor” não é, apenas, o dono, mas, sim, “qualquer pessoa, individual ou colectiva, que mantenha sob a sua responsabilidade, mesmo que a título temporário, um animal perigoso ou potencialmente perigoso”. ”Propriedade do detentor”, por seu lado, deve ser, segundo penso, entendida em sentido muito amplo, de modo a compreender os locais objecto de direito de propriedade titulado pelo detentor, a par de outros sobre os quais exerça, a título diverso, poderes de gozo e de fruição (arrendamento, comodato, posse) ou de que seja mero detentor. Se a expressão fosse tomada em sentido técnico as situações ficariam reduzidas ao direito de propriedade, com manifesto esvaziamento do dispositivo legal.

São ainda considerados perigosos, à margem de quaisquer lesões ou ofensas praticadas, os animais voluntariamente declarados como agressivos pelo detentor à junta de freguesia da sua área de residência e os que a entidade competente considere como risco para a segurança de pessoas ou animais. Por “autoridade competente” entende-se “a Direcção-Geral de Veterinária (DGV), enquanto autoridade veterinária nacional, as direcções regionais de agricultura (DRA), enquanto autoridade veterinária regional, os médicos veterinários municipais, enquanto autoridade veterinária local, as câmaras municipais e as juntas de freguesia, a Guarda Nacional Republicana (GNR), a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Polícia Municipal (PM)”.



§ 3º

Animal potencialmente perigoso, por seu turno, é “qualquer animal que, devido às características da espécie, comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possa causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais, nomeadamente os cães pertencentes às raças que venham a ser incluídas em portaria do Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, bem como os cruzamentos de primeira geração destas, os cruzamentos destas entre si ou cruzamentos destas com outras raças, obtendo assim uma tipologia semelhante a algumas das raças ali referidas”.

Disto resulta que os cães não são, como espécie, considerados como animais potencialmente perigosos, senão, apenas: a) os indivíduos que, devido às características da espécie (canina), comportamento agressivo, tamanho ou potência de mandíbula, possam causar lesão ou morte a pessoas ou outros animais; b) certas raças de cães ou indivíduos cruzados de semelhante tipologia, discriminados em portaria.

A Portaria n.º 422/2004, de 24 de Abril, determinou, como raças de cães e cruzamentos de raças potencialmente perigosas, as seguintes: Cão de fila brasileiro; Dogue argentino; Pit bull terrier; Rottweiller; Staffordshire terrier Americano; Staffordshire bull terrier; Tosa inu;

E o Despacho n.º 10819/2008, de 1 de Abril, do Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, sustentado em “acontecimentos recentes relativos a agressões provocadas por cães de raças potencialmente perigosas e seus cruzamentos”, veio proibir “a reprodução ou criação de quaisquer cães das raças constantes da Portaria n.º 422/2004, de 24 de Abril, incluindo os resultantes dos cruzamentos daquelas raças entre si ou com outras”, bem como a sua “entrada no território nacional, por compra, cedência ou troca directa”, com excepção, em ambos os casos, dos “cães cuja inscrição conste em livro de origem oficialmente reconhecido (LOP e outros).”


§ 4º

A aplicação a certas raças de cães do rótulo “potencialmente perigosas” suscita alguma controvérsia.

Nenhuma raça é, como tal, potencialmente perigosa para além da perigosidade que advém das características da própria espécie. Ora a domesticação da espécie canina perde-se no tempo; o cão é um animal doméstico, milenarmente condicionado ao convívio humano, pelo que na espécie não se encontrará qualquer traço marcante de perigosidade. Potencialmente perigosos poderão ser os indivíduos, em resultado das condições do meio e, nunca, por decorrência de matriz especial.

Pela inversa, argumenta-se que determinadas raças foram produzidas de modo a revelar particulares qualidades morfológicas e temperamentais para finalidades de guarda, de combate ou outras; que os casos de agressão grave conhecidos se reconduzem com alguma insistência a indivíduos dessas raças; que, por isso, estes devem ser considerados pelo todo, o que só pode significar a inclusão prévia da raça a que pertencem na classe “potencialmente perigosa”.

O legislador português seguiu a segunda corrente. Considerando embora, como acima se referiu, que a perigosidade canina se prende mais “com factores muitas vezes relacionados com o tipo de treino que lhes é ministrado e com a ausência de socialização”, não deixou de admitir, que também se prende, ainda que em menor medida, com a “eventualmente inerente à sua raça ou cruzamento de raças”. Parecendo, pois, admitir que a perigosidade não é inerente à espécie, assenta o dispositivo nas características dos indivíduos e, porque descobre essas características em certas raças, define-as, desde logo, como potencialmente perigosas.

Em meu entender a solução adoptada é conforme aos pressupostos legislativos. Não obstante a domesticação da espécie, permanecem nela, em natureza, os factores que, em determinadas condições, despoletam acções agressivas e, por isso, potencialmente perigosas, tanto mais quanto mais propício ao efeito danoso for a morfologia e o temperamento do indivíduo. Ora reconhecendo-se características de perigosidade (morfológicas e temperamentais) na generalidade dos indivíduos de certa raça, haverá que desde logo a destacar das demais, como potencialmente perigosa.

O erro poderá estar na eleição das raças e cruzamentos, por excesso ou deficiência.

Disto não resulta (ou não deve resultar) qualquer estigma para os animais das raças ou cruzamentos nomeados. O que o legislador prevê, ao fim e ao cabo, é que todas as limitações, restrições e obrigações expressas para os animais potencialmente perigosos sejam, sem qualquer margem para dúvidas de qualificação, aplicáveis aos indivíduos das raças ou cruzamentos referidos. Nomeadamente a necessidade de obtenção de licença de detenção; a inclusão do animal no cadastro; a obrigatoriedade de manutenção de medidas de segurança reforçadas; a afixação de placa de aviso da presença e perigosidade do animal; a obrigatoriedade de acompanhamento por condutor e de uso de meios de contenção adequados; o treino destinado à domesticação e socialização do animal; a formalização de seguro de responsabilidade civil; eventuais proibições de reprodução ou criação, restrição de entrada no território nacional ou determinação de esterilização.



§ 5º

O pressuposto legislativo referido aos factores relacionados com o tipo de treino e com a ausência de socialização aponta para a necessidade do correcto adestramento, ainda que considerando, apenas, o comportamento “social” do cão entre humanos e outros animais. Mas há mais exigências, para além, naturalmente, das que respeitem à preparação para trabalhos ou tarefas específicas de apoio ou auxílio a actividades humanas (guarda, salvamento, condução, detecção de substâncias, policiamento, etc.). São a de assegurar o bem-estar e o desenvolvimento físico e psíquico do indivíduo e a de garantir a sua sobrevivência face aos perigos do meio em que se insere, com especial relevo para os meios urbanos.

O adestramento não é tarefa simples que possa ser deixada a cargo de pessoas mal preparadas, pelo que se impõe ao dono do cão especial cuidado na escolha da escola ou centro de ensino, tendo em conta os métodos ou critérios de treino propugnados. O objectivo é, pelo menos, o de fortalecer o carácter do cão, o de o dotar de capacidade física adequada ao porte, à idade e à raça e o de o condicionar a regras de comportamento, assim contribuindo para a formação de cães saudáveis, adaptados ao meio, às pessoas e às coisas, confiantes mas conhecedores de limites impostos e merecedores de apreço e de respeito, ainda que sejam, na expressão legal, potencialmente perigosos.

JGAR

sexta-feira, 27 de março de 2009

A reter

É certo que os nossos animais precisam, para além de muito amor, de "cama, mesa e roupa lavada". Mas certo também é que precisam de cumprir os requisitos legais, nomeadamente o registo e licenciamento camarários. Por isso, e para que não nos seja vedado o acesso a algum lado com os nossos cães, é importante que se cumpra este requisito. É importante também, e pela mesma razão apontada anteriormente, que faça parte do "enxoval" do nosso fiel amigo um açaime.