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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O DOM PARA ENSINAR CÃES

Desmond Morris, Granderath, Hagendorf, Jean-Henry Fabre, Konrad Lorenz e Trumler, por ordem alfabética e citando apenas alguns etólogos e entomologistas, muito contribuíram para a melhor compreensão dos cães e doutros animais, sendo percursores de uma nova ciência: a antrozoologia, vocacionada para o estudo das relações entre o homem e os restantes animais. Qualquer indivíduo mediano de inteligência e mal aviado de habilidades pode ensinar um ou mais cães desde que procure esse propósito, porque eles, ao fim e ao cabo como nós, entendem a linguagem da recompensa e do castigo, as manifestações de júbilo e desagrado e as emoções que as acompanham ou desnudam. A tarefa ser-lhe-á suavizada pelo uso da técnica advinda do condicionamento e pela extrema habituação presente no lobo doméstico, que tendo poucos instintos e sendo rico em “personalidade”, bem depressa se submeterá aos desejos de quem o sustenta e conduz. A grande revolução na etologia relativa aos cães, para além das suas duas maiores lições: que mais vale considerar o indivíduo do que o propósito da raça e que um cão pode ser ensinado em qualquer idade para qualquer fim, veio a acontecer pela questão: “O que fazer para que o meu cão me entenda?”. Esta dúvida teve o mérito de alterar e inovar os métodos de treino canino até então, realçando de imediato a responsabilidade humana no sucesso ou insucesso do adestramento, apesar de há muito se saber do domínio natural do inteligente sobre o irracional. Contudo, a pergunta pressupõe apenas a comunicação unilateral do homem para o cão, omitindo a comunicação possível do animal para o seu líder e protector, como se tal fosse irrelevante ou o especicismo fosse a melhor das políticas. A pergunta revolucionária e inovadora deveria ter sido complementada por uma outra: “ O que fazer para entender o meu cão?”, já que os cães têm diferentes vozes e expressões mímicas que evidenciam distintos estados de ânimo, hoje entendidos tardiamente como sentimentos.
Se ao adestramento for exigível um dom, ele resultará certamente da resposta às duas questões: da capacidade de compreender e se fazer compreender. Um nosso aluno de tempos idos, natural do lugar da Ordasqueira, Freguesia de Matacães e Concelho de Torres Vedras, homem simples e parco em palavras, quando questionado acerca da diferença gradativa dos mestres cinotécnicos perante a mesma técnica, costumava responder que ela resultava da “estaleca” individual, subentendo-se o termo por um conjunto de predicados únicos e apenas presentes nalguns indivíduos. Ao que parece, estamos na era dos “encantadores” tanto de cães como de cavalos, exaltando-se a saga de um humilde mexicano por terras gringas, um notabilíssimo adestrador que apresenta solução para tudo, inesperadamente e num ápice, e sobre o qual muito se tem escrito (ele mesmo virou escritor). Depois de lermos e relermos o que publicou, assim como os relatos dos seus êxitos, leituras que recomendamos para que se faça luz e se confirme a justeza da nossa opinião, chega-se à conclusão que nada trouxe de novo, que a chave do seu sucesso resultou do apego aos procedimentos correctos sobre a confusão operativa dos proprietários caninos norte-americanos, gordos em antropomorfismos e carenciados como sempre de um manual de instruções.
Os actuais métodos de treino canino não são os ideais, mas são até ao momento os que melhor servem o adestramento, face ao bem-estar dos cães e ao necessário aproveitamento dos seus impulsos herdados para o alcance das respostas artificiais procuradas no treino, o que não significa que os métodos menos recentes estivessem completamente errados e não possam pontualmente ser aplicados ainda hoje, atendendo às diferenças entre cães, ao seu particular instalador e à sua experiência directa, características advindas da sua selecção, perfil psicológico, lições de vida e viver social. O que o passado não dispensou, o presente reclama e o futuro aperfeiçoará é a autêntica comunicação interespécies, baseada no entendimento mútuo entre homens e cães que possibilita a aplicação dos estímulos certos para as acções requeridas, algo que ultrapassa os métodos, estabelece a diferença e que está para além da comum técnica, graças à intimidade presente em cada binómio por força da cumplicidade. E para que não restem dúvidas, importa fazer saber que a generalização de qualquer método acontece pela sua simplicidade, busca a mediania e granjeia por isso muitos adeptos.
A genialidade no adestramento, vulgarmente entendida como um dom nalguns indivíduos, resulta da fusão psicológica entre homens e cães que garante a sua unidade e acontece quando o cão certo vai parar às mãos do homem certo, uma responsabilidade tanto de criadores como de adestradores. A qualidade dum adestrador virá da capacidade de interpretar os diferentes cães e de encontrar para cada um deles os estímulos certos, as suas tendências e potencial individuais, suprimindo incapacidades e descobrindo mais-valias, mesmo que para isso se veja obrigado a alterar o comportamento de alguns condutores, também eles alunos e primeiros agentes de ensino, enquanto líderes, codificadores e emissores da mensagem. O dito dom para o adestramento vem do impulso ao conhecimento individual aqui transformado em vocação, da capacidade de interpretação e de se fazer compreender, de um novo relacionamento entre homens e cães.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

IR À ESCOLA OU TER AULAS À PORTA DE CASA?

Ora aqui está uma pergunta que muita gente já fez, especialmente quem tem cão e gostaria de o ensinar. A tradição das aulas à porta de casa resultou originariamente de três factores: do aparecimento dos cães tidos como de utilidade, da ausência de treinadores civis e da competência relativa dos adestradores militares ou policiais, que nas horas de folga ou após o toque de ordem, treinavam e aplicavam aquilo que tinham aprendido nas Unidades, na sua maioria da Classe de Sargentos para baixo. Hoje já não são muitos os que andam por aí e somente alguns reformados insistem em andar de porta à porta, especialmente nas áreas mais nobres das cidades e perante o ladrar de algum cão, estratégia hoje seguida por adestradores civis de toda a casta e distinta proveniência. Os seus clientes são na sua maioria gente abastada que não tem tempo a perder com cães, dignatários a quem ousamos perguntar: se não têm tempo para eles, para quê desperdiçá-lo na sua aquisição? É evidente que o comodismo tem aqui uma importante palavra a dizer. Quer queiramos ou não, agrade ou não nos agrade a ideia, foram os treinadores militares que abriram as portas aos adestradores do presente. Oxalá os ultrapassem e honrem assim quem os antecedeu. Tentaremos, na medida do possível, avaliar estas duas opções imparcialmente e a partir dos três implicados directos no processo pedagógico (o cão, o dono e o adestrador), realçando as vantagens e desvantagens de cada uma delas. Comecemos pelo caso do ensino domiciliar. Dependendo da carga horária combinada e da qualidade do adestrador, o cão aprenderá mais rápido e sem maiores contratempos, porque o homem sabe ao que vai e o afastamento do cão em relação ao dono irá facilitar-lhe o trabalho. Assim, a celeridade laboral constitui-se numa vantagem, porque se poupa o cão, não se maça o dono e o adestrador trabalha a seu bel-prazer. Também o facto do treinador ir buscar o cão a casa, porque doutro modo dificilmente abandonaria as paredes domésticas, é uma vantagem para o animal, não sendo por isso de estranhar o apego de alguns cães à figura do seu adestrador, para espanto e tristeza dos seus proprietários. Se o cão se destinasse ao adestrador e não ao seu proprietário, certamente estaríamos na presença de um binómio eficaz, mas como não é esse o caso, pergunta-se: quanto tempo durarão as alterações e adaptações promovidas pelo treino, já que elas não são eternas e precisam de recapitulação ou reavivamento? Estará o dono incondicionalmente disposto a substituir o treinador ou só vestirá essa pele quando lhe der gozo ou for necessário, exactamente como faria com uma arma guardada num armário? O facto do proprietário não ter que se deslocar a lado nenhum e não ter de prescindir de algumas actividades ou obrigações, só por si, já é uma vantagem e mais que justifica a despesa com o adestrador. Com 2 ou 3 cães nesse regime, o adestrador duplicará o seu salário ou até poderá ultrapassar esse valor, fortuna de que se agradará e que irá levá-lo-á à procura de novos clientes.

As desvantagens do ensino domiciliar prendem-se com a não continuidade do processo educativo canino, com a ausência de recapitulação e com as motivações e despreparo do proprietário, já que voluntariamente cedeu a autoridade e espera tê-la de volta, muitas vezes sem nada contribuir para isso, porque não acompanhou os treinos, ignora os procedimentos e não sabe como fazer. Mesmo que ele tenha feito um processo de transição capaz, o desuso do cão remetê-lo-á para o esquecimento dos comandos. Dependendo da maior ou menor variação dos simulacros efectuada pelo treinador, assim o cão ficará melhor ou pior preparado para enfrentar os desafios a que irá estar sujeito. A somar a isto, o seu desempenho será menos seguro debaixo da nova liderança, porque a oportunidade e a entoação dos comandos são diferentes, os estímulos podem não ser satisfatórios e a cumplicidade não será certamente a mesma, factores por vezes responsáveis pela resistência às ordens e à pessoa do seu emissor, que uma vez instituídos levarão à inutilidade do cão. Raros são os casos em que o adestramento domiciliar se preocupa com a melhoria dos índices atléticos caninos e com a adequação dos seus ritmos vitais, porque a ênfase recai invariavelmente sobre a obediência e o seu desempenho. Normalmente a sociabilização efectuada é deficitária e encontra-se condicionada aos locais adjacentes à habitação. O facto do animal trabalhar desacompanhado (sem colegas de classe), também nada abona nesse sentido. Resumindo, as desvantagens do treino domiciliar prendem-se com a ”enxertia” do cão no dono, com os riscos daí advindos e com a periclitante liderança que o proprietário alcança, não raramente aquém do desejável, porque não foi objecto de instrução e o condicionamento do cão foi obra alheia.
As vantagens do ensino escolar, na vertente das aulas colectivas (também as há individuais), são imensas para os três implicados directos no adestramento de cada cão. Comecemos pela figura do seu proprietário, que mercê do treino e num ápice, passa de imediato a condutor, o que lhe garante à partida uma enorme vantagem e já vamos saber porquê. O dono vai adquirir no treino escolar os requisitos técnicos que lhe irão possibilitar o controlo objectivo do seu cão e alcançará assim a constituição binomial pelo exercício da liderança. Será confrontado com um conjunto de problemas que irá aprender a resolver, procederá à sua formação, aprenderá com os erros e com a perícia dos restantes condutores, que funcionarão também como seus agentes de ensino. Ganhará a experiência necessária para seu desempenho pelo concurso dos exercícios que lhe irão ser propostos, verá com os seus olhos as distintas fases ou etapas presentes no adestramento, melhorará os seus indíces atléticos, compreenderá finalmente que a alma do cão é a vontade do dono, que quase tudo na cinotecnia assenta sobre a investidura canina. Tomará conhecimento directo de cães doutras raças, doutras morfologias e de distintos perfis psicológicos, quer pela observação quer pela condução, libertando-se desse modo de possíveis traumas, medos ou antipatias, o que futuramente lhe possibilitará ensinar outro cão sem maiores dificuldades (autonomia). Irá ser agraciado com aulas teóricas e será convidado para actividades no exterior em diversos ecossistemas diferenciados. Compreenderá e praticará o reforço positivo, subsídio inescusável para o alcance da cumplicidade. Ficará ciente da importância da respiração, da entoação dos comandos e da postura prà melhor prestação canina. Sempre terá ao seu lado a ajuda preciosa do adestrador e a solidariedade dos outros condutores, elementos que apostarão no seu sucesso. A imensidade das vantagens não se esgota aqui, mas fiquemos com a mais importante: o homem ganha um companheiro!
Se as vantagens para o dono, agora transformado em condutor, são inúmeras, o mesmo se poderá dizer das alcançadas pelo cão, porque verá recompensado o seu esforço e sempre procurará aprovação. Como cada vantagem aqui adiantada daria um texto, somente as enumeraremos e outras haverão, tão ou mais importantes, que deixaremos pra depois. O cão alcançará na escola a familiarização e a sociabilização necessárias para a sua coabitação harmoniosa na sociedade (entre iguais, com os humanos e com os outros animais), aprenderá regras de higiene e de comportamento, chegará ao cumprimento pronto e imediato das ordens e verá fortalecido o seu carácter. Graças à presença de outros cães, que lhe servirão de mestres, porque os cães também aprendem pela observação, o seu processo de aprendizagem tornar-se-á mais natural e menos artificial, pautado por uma competitividade saudável que ele não desprezará. Com a musculação virá a melhoria dos ritmos vitais, o aumento da resistência e da velocidade, vantagens advindas do prévio fortalecimento e correcção dos aprumos. O currículo escolar irá possibilitar-lhe o ensino continuado, a reciclagem dos códigos, o reavivamento das ordens e a constância de desafios. Também irá assimilar, compreender e praticar distintos modos e tipos de condução de acordo o seu aproveitamento e propensão natural. Na escola desnudarão o seu potencial e aproveitá-lo-ão, indicando-lhe uma carreira ou serviço da qual se agradará, por merecer o seu aprovo e estar ao seu alcance. Sempre caminhará e evoluirá com o dono ao lado e darão assim continuidade aos vínculos afectivos domésticos, onde o amor será selado com base na recompensa e usado para a salvaguarda do animal. Em síntese, o cão ganha um líder do seu agrado!
Se um centro de treino canino é uma escola para o dono e uma academia para o cão, para o adestrador será uma faculdade, um lugar de estudo, trabalho, investigação, reflexão, sapiência, experiência, erudição, reciclagem e realização. É a escola que faz o treinador e não o inverso, porque é ela que o forma e capacita, desnuda as suas competências e congrega pessoas e cães à sua volta. Sem o saber e a experiência que ela oferece, qualquer treinador de porta à porta pode ser confundido com um vulgar mendigo ou intruso. As desvantagens do ensino escolar são diminutas quando comparadas com os seus benefícios. Todavia, devido a natureza do seu currículo, o ensino escolar é mais moroso, obriga ao empenhamento e disponibilidade dos donos e pode tornar-se num vício, tanto prós condutores como prós cães. Deste mal, felizmente, nos queixamos também nós!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

AVERSÃO, INDIFERENÇA, SIMPATIA, GOZO, NECESSIDADE, DEDICAÇÃO E ADORAÇÃO

Desnudaremos os 7 sentimentos que constituem o título e que correspondem às posturas mais comuns relativas aos cães, através da resposta e análise às seguintes questões: Como vêem os cães, que conselhos dão aos filhos, como procedem diante das dificuldades, o que pensam do adestramento e o que normalmente fazem com os animais. A identificação do sentimento que levou à aquisição do cão é tarefa obrigatória para todo e qualquer adestrador, porque desnuda de alguma forma o seu proprietário, as suas expectativas e o seu modus operandi, clarificando assim o tipo de abordagem a fazer, o método de trabalho a seguir e as ênfases a dar, no sentido de alterar, caso se justifique, a postura do dono, considerando a salvaguarda do animal e o interesse do seu proprietário pelo processo pedagógico. Se não existir qualquer tipo de afinidade ou simpatia entre os proprietários caninos e o adestrador, é quase impossível que a relação entre ambos seja profícua e as observações do técnico venham a ser seguidas. A relação entre o Adestrador e os condutores carece de ser empática, porque é baseada na confiança que leva à aprendizagem. Sem esta condição, o mais erudito dos adestradores poderá ficar a dissertar para as moscas, invalidando assim todo seu potencial e mais-valia. Sim, só conseguiremos educar cães se os donos nos acompanharem, de outro modo dificilmente nos confiarão os animais. Em síntese, conquista-se o dono para alcançar o cão. As pessoas que têm aversão a cães não perdem tempo com eles, naturalmente “querem é distância” e tendem a trocar de passeio quando connosco se cruzam. O sentimento poderá ser de origem cultural ou resultar dum trauma. Existem zonas no país onde as pessoas abominam os cães, porque os consideram um fardo ou por que os associam à miséria. A primeira consideração remete-nos para um histórico relativo à economia de sobrevivência e a segunda à nossa herança cultural judaico-cristã, onde o cão quase sempre aparece associado ao descalabro e ao castigo. Os traumas relativos aos cães, geralmente ocorridos durante a infância ou na puberdade dos indivíduos, apesar de serem ultrapassáveis, justificam a aversão de muitos, porque são feridas abertas que levam à alteração de comportamento, invariavelmente ligadas a ataques inusitados perpetrados por um ou mais cães. Independentemente das causas que levam à aversão dos indivíduos, eles vêem os cães como um perigo e transmitem o mesmo sentimento para os filhos, exaltando os prejuízos em detrimento das vantagens, proibido-lhes inclusive a posse de qualquer cão, pelo menos enquanto estiverem debaixo da sua alçada. Aqui reside um dos motivos que leva alguns à aquisição de cães somente na idade adulta. Muitos dos tolhidos pela aversão comportam-se de modo irascível, não escondem o seu asco, manifestam o seu desagrado e chegam a ser provocadores. Um pequeno número deles não hesitará em envenenar os cães alheios à sua volta ou a eliminá-los por outro meio igualmente cobarde, o que torna obrigatórias tanto a prevenção quanto a recusa de engodos no adestramento. Dependendo do perfil psicológico dos indivíduos, do seu índice de malícia e da projecção do seu engenho, sempre haverão uns que nunca nos dirigirão qualquer palavra ou cumprimento e outros que tentarão acercar-se de nós para alcançarem os seus nefastos intentos. Há que estar atento!
Aqueles que manifestam total indiferença pelos cães, desde que estes não os aborreçam, são um dos grupos maioritários presente na sociedade, sendo geralmente gente metropolitana apegada a outros interesses e valores, para quem os cães são puro folclore e resquício de uma cultura que teima em se ir embora (ultrapassada). Dentro do grupo dos indiferentes também encontramos gente oriunda do interior, indivíduos que abraçaram o viver urbano e que intentam a cada passo esquecer-se das suas origens. Tanto uns como outros, dificilmente ofertarão um cão aos filhos, porque não vêem nisso algum proveito, a menos que alguém lhes prove o contrário. Tendencialmente cativam-nos para outros interesses e ridicularizam os proprietários caninos. Também não hesitarão, perante a insistência dos filhos, em enfatizar os prejuízos e disparates atribuídos aos cães, presentes nos noticiários e merecedores de especial enfoque. Eventualmente terão cães se alcançarem uma quinta ou moradia e se os bichos lhe causarem algum incómodo, tanto poderão optar por os mandar ensinar, doar ou mandá-los abater. Se houver lugar ao adestramento do animal, ele surgirá exclusivamente por necessidade e nunca por apego ao cão ou àquilo que lhe é devido, porque vêem o treino como uma tarefa. Apesar desta gente procurar a coabitação harmoniosa do cão no lar e na sociedade, não se estafará muito para a alcançar. Perante a demora e as exigências no ensino não hesitarão em lançar o cão no olho da rua ou a enviá-lo para o espaço. Num casal, quando um dos cônjuges pertence à categoria dos indiferentes, o futuro do cão encontra-se comprometido, o seu viver social abalado e poderá vir a ser despachado, porque as dificuldades do indiferente levá-lo-ão a queixas intermináveis e insuportáveis. Quando dois indiferentes adquirem um cão (o caso apesar de sórdido não é raro e acontece por múltiplas razões), duas coisas podem acontecer: ou o cão é um anjo ou vai fazer as suas diabruras para o quinto dos infernos. Faz todo o sentido quando dizemos que o cão é projecto familiar. Ensinar os cães dos indiferentes é um acto que reclama por celeridade, porque doutro modo estaremos também nós a atentar contra a salvaguarda dos animais. A indiferença dos donos é muitas vezes responsável pela paixão que os cães nutrem pelos adestradores.
Não são poucos os que denotam especial simpatia pelos cães. Este sentimento pode provir duma feliz experiência anterior, de um sonho de infância ou de um apego inexplicável e incontido. Será do grupo dos simpáticos que sairá um pequeno número de pessoas que se dedicará a actividades em prol dos cães (recolha, adopção e sustento dos animais abandonados). Esta sensibilidade poderá constituir-se numa necessidade, revestir-se de especial dedicação e atingir a adoração, caminho geralmente sem regresso e que acabará por escravizar os indivíduos seus portadores e estender-se àqueles que aceitarem o seu desafio. Como o seu número é reduzido, a maioria das pessoas que simpatizam com os cães fazem-no porque os não têm e gostariam de os ter. Essa carência de reciprocidade, intimamente ligada à ausência de condições de vária ordem, irá levá-los à procura do contacto com os cães alheios, tratando-os como se fossem seus e não raramente à revelia dos donos, o que é um abuso insofismável, desafortunadamente enraizado entre nós. O simpático acaricia sem avisar, distrai os cães dos outros, tenta cativá-los, dá-lhes de comer e incentiva-os para outros desafios ou brincadeiras, muitas vezes inoportunas face à sobrevivência dos animais e ao cumprimento das ordens anteriormente manifesto, factos que ele ignora pelo sufoco apelativo. Quando não é bem sucedido e os cães reagem de modo inesperado, quer rejeitando a carícia quer advertindo para o abuso, bem depressa cai o vitupério e os seus proprietários, sem maior dificuldade, alcançam o nome de besta. Os simpáticos, talvez por serem apenas simpáticos, não estão para suportar os incómodos que os cães causam, servindo-se apenas dos alheios para a satisfação das suas necessidades, numa clara alusão a um amor quanto baste. Os seus filhos espelharão a mesma educação e todos verão o adestramento como desnecessário, provavelmente porque nada mais esperam dos cães e ignoram os perigos que os rodeiam – Deus nos salve dos bajuladores! Quando finalmente um simpático arranja um cão e se apresenta no treino, é porque encontrou problemas para além da sua capacidade de resolução. A situação exige tacto, porque a natureza dos problemas, só por si, não vai alterar tanto a essência quanto o comportamento do indivíduo. De que padecerá o cão do simpático? Provavelmente de abuso de autoridade, porque quem não consegue refrear-se, dificilmente saberá dar o exemplo, dizer não e abraçar a disciplina. Deseja-se que a sintonia com os restantes alunos escolares corra em nosso auxílio.
Existem alguns indivíduos que têm cães somente pelo gozo de os ter, gente que com alguma dificuldade se compromete com os animais. Para eles, na maioria novos-ricos à procura de melhor aceitação, os cães devem ser como as vacas: gordos e reluzentes. Contudo, eles não são perigosos para os seus semelhantes, porque querem os cães para reafirmar o seu status e não para causar dolo a ninguém, servindo-se deles como recepcionistas ou cartão de visita. Na procura da satisfação pessoal, outros há quem pensam e agem de modo diverso, dando azo a sentimentos recalcados ou desviados presentes na sua natureza predadora, que deliberadamente se servem dos cães para dar caça aos seus fantasmas sem outra justificação, porque entendem que a intimidação é o melhor dos caminhos para o poder. O primeiro grupo raramente nos procurará, a não ser que queira causar boa impressão e o segundo exigir-nos-á que ponhamos os cães a morder sobre tudo o que mexe, desejo que infelizmente não realizaremos. Porém, sem muito esforço, logo encontrarão que lhes satisfaça as ambições. Por detrás de sãos princípios doutrinários e a coberto de uma pretensa preocupação com os cães, sobrevivem no mundo da canicultura e do adestramento indivíduos que apenas se servem dos animais para atingirem os seus propósitos, porque o título de campeão é apetecível e também porque lhes dá “pica” (gozo), o que aponta claramente para o fim terapêutico canino e para os benefícios que a serotonina oferece. Entre os gozadores, na eventualidade de algum desarranjo ou contrariedade provocada pelo cão, bem depressa o desinteresse substituirá o gozo e animal acabará substituído, tal qual um carro velho ou outro tareco lá de casa. A capacitação de um hedonista, porque importa evitar o desprezo do cão, deve acontecer inicialmente pela exaltação das suas pequenas vitórias no treino e não dar lugar à denúncia ou à confrontação. É importante não esquecer que esta gente tem cães para aumentar a sua auto-estima e forçar a sua aceitação, pelo que importa tratá-la com a maior deferência possível. Os seus filhos dir-nos-ão amanhã: “ Eu fui criado no meio de cães, na casa dos pais sempre havia alguns, não sou propriamente um ignorante nesta matéria”.
Ter cães é uma necessidade para muita gente, algumas instituições não podem prescindir deles e outras ainda não entenderam a sua importância. A necessidade dos cães, intimamente ligada à natureza biológica e social dos indivíduos, prende-se com aspectos ligados ao seu equilíbrio emocional e bem-estar (terapia), ao aumento da autonomia de alguns (deficientes de vária ordem) à possibilidade de novos proventos e também ao retorno idílico à vida simples, campestre e mais saudável (contacto com a natureza). Não abordaremos o segmento dos cães para deficientes, porque disso falarão, com mais propriedade e conhecimento, os profissionais formados para esse efeito. Remeter-nos-emos em exclusivo à necessidade do cidadão comum, que ao contrário do que muita gente pensa, não é desprezível e tem-se revelado de extrema importância para o bem-estar dos indivíduos, suprimindo-lhes carências de vária ordem, relacionadas com o alcance do seu equilíbrio psicológico e com o combate à solidão e ao ostracismo, subsídios objectivos para a sua reintegração social. Todos sabemos do aproveitamento político do desporto e em Portugal um jogo de futebol pode até encurtar uma sessão no Parlamento. O quadro pode parecer-nos rocambolesco, mas as vitórias de um clube de futebol ou da nossa selecção podem alimentar a esperança ou desanuviar aqueles que mais sentem a crise, dando-lhes alento para suportar as dificuldades. Com os cães passa-se exactamente o mesmo, porque não nos abandonam, são nossos confidentes, aceitam-nos tal qual somos, fazem-nos sentir úteis, ajudam na construção do nosso pequeno mundo, são muito afectuosos, fazem da reciprocidade prática corrente, e por aí adiante. Diante deste cenário, não é difícil compreender a possível dialéctica antropomórfica de alguns, que reclamam para os seus cães características e qualidades quase humanas. O discurso não é livre porque em muitos casos a opção foi forçada. Quem tem acompanhado grande número de idosos e solitários? Feito as delícias das crianças e substituindo aquelas que já partiram? Ajudado os jovens a crescer e aliviado as dores de tantos? Quem está sempre ao nosso lado e tem acalentado muitos dos nossos sonhos? Tudo isto revela uma necessidade objectiva dos cães, quer eles surjam por complemento, substituição ou se tornem imprescindíveis. A plebe que precisa deles, como já atrás se disse, tende a tratá-los como iguais, o que nos obrigará a cuidados excepcionais no adestramento desses”cães-homens”, porque para os seus donos eles não são cães, cães são os dos outros! Sempre nos pedirão maior deferência, rara sensibilidade e não se acanharão em manifestar-se. Com certeza iremos ouvir histórias fantásticas, algumas semelhantes às ouvidas entre pescadores e caçadores ou outras relativas a dons paranormais (que eles juram estar presentes nos seus companheiros). Será deste grupo de carentes que sairá o grosso dos indivíduos para os lares de acolhimento e outras actividades relativas ao resgate dos cães abandonados. O indivíduo que não dispensa a companhia do seu cão, depois de confiar em nós, pode tornar-se num aluno modelo, porque através da cumplicidade manifesta poderá chegar à excelência binomial, opção mais equilibrada e que o levará a considerar objectivamente o particular biológico do seu cão. Também nós somos visionários e estamos cá para massificar os sonhos de muitos, porque ensinamos para alcançar a excelente comunicação interespécies e continuamos a acreditar que muitos lá chegarão.
A dedicação aos cães pode não provir duma necessidade ou ser resultado duma carência, porque muita gente abraça o ofício sem dar por isso e acaba por gostar da experiência, como se o tempo aguardasse pela circunstância. O que caracteriza a dedicação é a transformação das velhas rotinas em novos procedimentos, o gozo de descobrir e querer mais, a aposta no caminhar com o cão ao lado e procurar a sua coabitação sem contudo desrespeitar a sua natureza. A dedicação aumenta e depura-se com a experiência, obriga a adaptação de ambos e pode alcançar a comunicação telepática, benefícios que o treino canino oferece e pode despertar. Proliferam por aí ideias ou noções erradas acerca do adestramento, caricaturas que em nada se identificam com esta arte e que apenas servem para relembrar o passado, ilustrar certos propósitos ou ironizar quem os segue. O treino do cão de guerra já lá vai, o de polícia vai a caminho, o de guarda tira o bilhete e o de circo já embarcou. Sobra o cão familiar, e às suas custas o adestramento evoluiu para patamares nunca vistos, ganhou criatividade e descobriu outras disciplinas, devolveu os cães aos donos, generalizou-se por todo lado e constitui-se como parte integrante da cultura popular, saiu do troar dos tacões e abraçou a salvaguarda dos animais, tornando o treino canino numa manifestação incontestável de dedicação, graças à relação óptima entre tratamento e adestramento. Só a dedicação alcança o treino e o entende como uma tarefa prioritária, procura o discipulado e busca a simbiose. A transcendência operativa do adestramento reside no amor, na capacidade de cada condutor alcançar uma paternidade extraordinária e incomum, mercê da comunhão de objectivos que o une ao seu cão, não sendo por isso de estranhar que os bons pais venham a ser igualmente bons condutores. Quando essa dedicação se torna cultural, não é difícil compreender como 2 ou 3 gerações da mesma família se filie na mesma escola. Os portadores deste sentimento não esperam que os seus cães façam, ensinam-nos a fazer, são tolerantes e esperam pelas adaptações dos seus companheiros, sujeitam-se ao auto-exame antes de os repreender, são fortes no incentivo, constantes nas acções e dedicados ao aprimoramento. Só a dedicação poderá compreender que o ensino é um acto continuado, sujeito à novidade de desafios e carente de novas soluções. Todos os alunos escolares procedem assim? Não! Mas a Escola existe para os educar, amparar e transformar, e é essa a verdadeira causa da sua existência, já que os cães não aprendem sozinhos e necessitam de sobreviver.
Os cinófobos abominam os cães, os indiferentes dão-lhes pouca ou nenhuma importância, os simpáticos brincam com eles, os gozadores possuem-nos sem os compreender, os que necessitam deles usam-nos e saciam as suas faltas, os dedicados amam-nos, e o que farão os seus adoradores? Adorá-los-ão simplesmente! Como complemento e seguindo mesmo raciocínio, os cinófobos nem os querem ver, os indiferentes querem distância deles, os simpáticos buscam a sua proximidade, os gozadores querem-nos no sítio certo, os necessitados onde fazem falta, os dedicados trabalham para que permaneçam a seu lado e os adoradores arranjar-lhes-ão prerrogativas divinas e andarão de acordo com os seus amuos. E que mensagem transmitirão aos seus filhos? Os cinófobos transmitir-lhes-ão os mesmos medos, os indiferentes tentarão afastá-los dos cães, os simpáticos formarão bajuladores, os gozadores serão gozados pelos filhos, os necessitados isentá-los-ão de maior contacto com os animais, os dedicados tentarão transmitir-lhes igual sentimento e os adoradores, para mal dos seus pecados, raramente têm filhos. Diante de algum contratempo provocado pelos seus cães, os indiferentes livrar-se-ão deles, os simpáticos procurarão ajuda, os gozadores substitui-los-ão, os necessitados levá-los-ão para afinação, os dedicados buscarão solução e os adoradores conformar-se-ão com a sua sorte. Todos eles compreendem ou irão compreender o adestramento de maneira diferente. Para o cinófobo a cinotecnia é uma prática de tolinhos e uma manifestação de maldade, o indiferente vê-lo-á como desperdício de tempo e de dinheiro, o simpático não vislumbrará imediatamente da sua necessidade, o gozador raramente estará para aí virado, o necessitado cumprirá com os protocolos de ensino, o dedicado não o dispensará e o adorador desprezá-lo-á. Afinal, fazemos com os cães o mesmo que fazemos com tantas outras coisas, tudo resulta do nosso maior ou menor interesse e não tanto dos talentos individuais.
Queremos dedicar o último parágrafo deste texto aos adoradores de cães, figuras ímpares no panorama da canicultura, mas nem por isso muito vistos (diremos nós: Graças a Deus!). A figura do adorador de cães lembra uma papoila isolada no meio de um campo de trigo, porque se destaca dos restantes e evita ter com eles qualquer contacto, tal qual crente de seita secreta e proibida. É geralmente uma pessoa alheada, que se alheou ou que se viu forçada a isso, tendo apenas como alternativa viável a companhia de um ou mais cães. Quando é rico é tratado como extravagante e quando é pobre como lunático. Existem indivíduos destes em todos os extractos sociais, muito embora sejam melhor ou pior atendidos de acordo com a sua importância ou poder económico. Sem quase nenhuma dificuldade, o adorador de cães irá transformar-se no martírio dos veterinários e no suplício dos adestradores, porque os primeiros não terão como tratar as doenças do dono e não escaparão as arremetidas do bicho – um Deus que não quer ser importunado. Quando um adorador chega a uma escola ou centro de treino canino, ele vai coagido e para cumprir calendário, geralmente a rogo do veterinário assistente, que farto de aturar ambos, passa a “batata quente” (infelizmente temos nisto bastante experiência). É evidente que nunca alcançarão a constituição binomial, porque ela exige o domínio do inteligente sobre o irracional e ali os termos da fracção são manifestamente inversos. Na melhor das hipóteses, o adorador compreenderá o treino como um recreio ou uma ida a um jardim-escola (kindergarten), e aproveitará a ocasião para apresentar o seu príncipe alado aos outros meninos (muito educados mas manifestamente inferiores ao “Sol” da mamã). Dificilmente aceitará ali algum reparo ou sugestão, porque nos julga imbecis e impróprios, algo semelhantes a sapateiros de pouco préstimo, já que só ele compreende as necessidades, as aspirações e os humores do seu deus de quatro patas. Como quase tudo nos cães resulta da investidura e disso não querem ser destronados, nomeadamente das mordomias, o cão do adorador resistirá ao ensino e será dominado por um sentimento de revolta, pelo menos na presença do dono, que tudo agrava e compromete, o que nos obrigará à educação do animal na ausência do seu subordinado (a estratégia tem-se revelado eficaz e engordado os bolsos de muitos). A subordinação do dono (assumida, consentida e irreversível), que é muitas vezes usada como meio de provocação e prepotência, obstará à liderança que tudo poderia transformar. Ainda que a educação do cão seja possível, a recuperação do dono é algo que nos escapa. Caberá essa responsabilidade a outros, isto se vierem a ser consultados, porque o adorador acha-se certo e não reclamará por qualquer apoio. Neste caso, como em muitos outros, os problemas presentes nos cães encontram razão no descalabro presente na cabeça dos seus proprietários. Abordámos os sentimentos mais comuns relativos aos cães para que cada um se examine, compreenda como os trata e aquilo que lhes causa. Em simultâneo, avançámos alguns subsídios para aqueles que têm como ofício ensinar cães e que acabarão confrontados com as pessoas que lhes chegam.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A SUCESSÃO

Passar o testemunho nunca foi fácil e encontrar seguidor muito menos, porque se resiste à partida e nem sempre se encontra a pessoa ideal. Nas sucessões a transmissão nunca é absoluta porque as habilidades e tendências diferem individualmente, há sempre algo que se perde e procuram-se mais-valias. O rendido procura o seu reflexo e o que rende novidade ou autonomia, já que a percepção das coisas é diferente: um é dominado por um sentimento de perca e o outro espreita a oportunidade. E nisto não diferimos muito dos cães, porque a vida é feita de mudança e a história diz-nos isso mesmo: “rei morto, rei posto!” Quando a sucessão é meramente hierárquica e feita para além da capacidade dos indivíduos, ela torna-se mais fácil mas não garante a qualidade nem a continuidade da obra. A sucessão menos arriscada é aquela que resulta do discipulado, a que se sustentou no trajecto comum, comungou dos mesmos objectivos, que dividiu as dificuldades e sentiu as mesmas vitórias, porque lado a lado se constrói e nisto também se compreende o “junto” como pedra basilar da obediência. Emerge a hora da sucessão na Acendura, quem será o escolhido?
Ao longo da nossa existência foram muitos os que intentaram suceder-nos, havendo alguns que inclusive nos usurparam e tornaram seu aquilo que nunca lhe demos, plagiando livros, sustentando falsas indigitações, adiantando conteúdos de ensino que nunca professámos ou métodos que jamais usámos. O rol é extenso e a nenhum destes indivíduos estendemos a nossa mão e constituímos como nossos seguidores, porque viemos para servir e nunca nos seduzimos pelo caminho mais fácil, antes somos devedores de todos os que connosco se cruzaram e cruzam. Sempre combatemos os oportunistas e toda a casta de “chico-espertos”, gente que repetidamente sacudimos dos nossos calcanhares, pela clareza das suas intenções e ausência de sério fundamento, porque nem sempre querer é poder, há um abismo entre o desejo e a sua construção, alguma dificuldade entre o conceito e a sua aplicação. O verdadeiro candidato é aquele que estende a sua mão em ajuda e não aquele que nos amarra as mãos, o que suaviza as nossas dificuldades e nos ampara no caminho. Não obstante, há muita gente no mundo do adestramento da qual nos orgulhamos, indivíduos que connosco caminharam e foram adiante, que procuraram outros trilhos e rumos e alcançando sucesso. Como não somos obra acabada, necessitamos de quem a leve adiante, que pegue naquilo que recebeu e frutifique. Felizmente ainda temos nas nossas fileiras indivíduos destes e deles sairão os nossos sucessores, companheiros cujos talentos resultam da humildade e do gosto de bem servir, homens e mulheres que almejam a fraternidade e que fazem da paridade um meio para a alcançar, porque quem despreza os homens como alcançará os cães?
Os cães são o nosso serviço, a eles dedicamos as nossas vidas, eles não são uma meta mas sim um objectivo, não nos servem de bengala ou pretexto, meio para outros fins ou oportunidade para outros desejos, porque merecem ser amados, respeitados e entendidos segundo a sua natureza, propósitos muito para além do nosso bem-estar, riqueza ou galarim. Ao adestramento sempre chegam candidatos com pouco para dar na esperança de muito receberem, tal qual emigrante em terra fronteiriça à espera de embarcar, oportunistas e aventureiros de substratos sociais diversos que espreitam um lugar ao sol. Nenhum curso só por si altera a essência humana, o polimento apenas serve para ocultar prós demais aquilo que natureza do indivíduo encerra, a sua pequenez ou grandeza que o contacto com os cães cedo acabará por denunciar. O ensino de cães exige autenticidade, uma predisposição genética que evolui no contacto com estes animais, que vai adiante e se realiza na comunicação interespécies, transformando a paixão em militância e o trabalho em agradecimento. Enganam-se aqueles que julgam o adestramento um “el dorado”, porque os pobres bichos não são produto de primeira necessidade e com facilidade se descartam os homens deles, infelizmente. O gozo no adestramento reside no fazer-se compreender e ser correspondido, porque de uma relação amorosa se trata que visa a salvaguarda dos animais que nos são confiados, exactamente aqueles que ensinamos a rogo de outrem.
Adoptámos o nome acendura a partir do verbo latino acendrar, que significa limpar com cinza, afinar, lapidar, apurar e purificar, o que acaba por denunciar a nossa praxis e selecção, o convite que estendemos a todos os proprietários de cães para que melhor os entendam, para que se constituam em binómios, melhor usufruam disso e mais se preocupem com o bem-estar canino. Suceder-nos é continuar nesta mesma senda, é ser incómodo e ser incomodado para valer aos demais. Adestrar exige rara renúncia e transfiguração, um certo desnudo para que a mensagem seja perceptível, bem recebida e assimilada, condições longínquas para aqueles que resistem à transformação e persistem no hedonismo. Aquele que ama os cães, apesar de padrasto, tenta ser pai e aqueles que não o intentam só farão sofrer os animais, ainda que sejam objecto de honrarias e alvo dos mais variados pasquins. O adestrador nasce para os cães e purifica-se no seu contacto, descobre o lugar comum e alcança a liderança. Não, não é fácil encontrar um candidato sério, mesmo que a técnica encubra aquilo que a emoção reclama.
O apego à erudição, a insatisfação pela procura de melhores resultados, o estudo constante e a observação demorada não podem ser substituídos somente pela experiência, porque o mundo é feito de mudança, os homens mudam e os cães são nascem de acordo com a sua inclinação ou semelhança, todos os dias surgem novos subsídios e melhores soluções despontam, pois importa acabar de vez com a doutrina da “tábua rasa”. O contacto com os cães é ancestral mas novidade tem aumentado significativamente o seu bem-estar. Estar no adestramento obriga à reciclagem constante, à procura de novos contributos em áreas ou ciências que até aqui nos pareciam desligadas e sem qualquer contributo. Porque a verdade é esta: se os cães nos auxiliam no conhecimento dos homens, serão os homens que melhor nos poderão auxiliar no conhecimento dos cães. Por causa disso, em substituição dos actuais cursos técnicos, não virá longe o tempo em que os adestradores virar a necessitar duma licenciatura. Suceder-nos é também apostar na erudição.
Apesar do inescusável contributo da ciência, o adestramento é essencialmente uma arte e como tal necessita de bons executantes ou artistas, porque o termo é erroneamente entendido num só sentido quando na verdade se destina a ambos os elementos de cada binómio, sendo por isso mais fácil adestrar cães do que aprimorar condutores. O bom desempenho do adestrador, a sua criatividade, a inequívoca união binomial, a oportunidade das suas ajudas, a graciosidade das figuras que projecta e a sublimidade que emana devem constituir-se num convite, num incentivo para o treino e pràs mais-valias que ele oferece – um exemplo a seguir. O mundo está cheio de maus executantes e isso tem influído negativamente no desenvolvimento e continuidade de várias escolas, e quando se começa mal cedo se avizinha a tragédia. Elegemos como candidatos os artistas, aqueles que superiormente desempenham os distintos movimentos ou figuras, que transformam os requisitos básicos em momentos de rara beleza. A isto se chama transcendência operativa e é isso que avidamente também procuramos, até porque adestramos binómios para o universo das artes televisiva e cinematográfica.
Para além do discipulado, da excelência da mensagem transmitida, da predisposição ou talento natural, do apego à erudição, do conhecimento profundo dos distintos grupos somáticos caninos e da qualidade artística, sempre exigimos aos nossos sucessores experiência prévia e aprovada no ensino de cachorros, de cães adultos e nos sujeitos à reeducação. A somar a isto, exigimos ainda que tenham superior aproveitamento nas disciplinas que ministramos, que se especializem na recuperação morfológica e que dominam os segredos e benefícios dos aparelhos e obstáculos da pista táctica, bem como no domínio completo da técnica de condução. Atendendo à carga curricular facilmente se antevê da necessidade de um estágio pós formação, onde o candidato ou candidatos serão avaliados para a sua futura função. Esse estágio consta de aulas domiciliares e do ministrar de lições às classes escolares., obrigatoriamente antecedidas dos necessários planos de aula. A admissão de candidatos privilegia os alunos oriundos do nosso curso monitores ou os alunos que atingiram a Classe A escolar. Tentamos com estes requisitos melhor capacitar aqueles que darão continuidade ao nosso trabalho, porque a surpresa causa entrave, o improviso gera confusão e o embaraço não será a melhor das pedagogias, já que o desenrascanso adultera qualquer método, compromete a mais sana das filosofias de ensino e normalmente perverte os objectivos procurados. A candidatura a adestrador, para além dos cães que serão colocados à sua disposição, é um convite estendido somente aos condutores, àqueles que se constituíram em binómios e que são proprietários dos cães que conduzem.
De nada valerão todos os requisitos atrás adiantados se os candidatos não forem inatamente líderes, porque o adestramento acaba por ser um curso de liderança, uma investidura escondida por detrás do condicionamento canino, uma ocasião para a mudança que precisa constantemente de ser alimentada e reavivada, já que a propensão da maioria dos condutores é outra e o seu modo de vida isso reforça. Jamais será fácil transformar um escravo num soberano, transmitir convicções a um abatido e partir da desilusão para chegar à certeza. A investidura canina irá revelar-se muito mais atingível do que a humana. E isto Porquê? Porque no treino reconstruímos a estrutura social canina e necessitamos que os donos ocupem nela o lugar que lhes está reservado. Nos primeiros a resposta é natural e nos segundos ela é maioritariamente artificial. A actuação de um bom adestrador é caracterizada pela auto-renúncia em prol do desenvolvimento dos seus alunos, sacrifício hercúleo que reclama disponibilidade, força e ânimo constantes, uma superior perseverança nos princípios gerais da pedagogia de ensino e uma empatia inquestionável, porque alguns donos necessitarão de ser carregados ao colo para que os seus cães venham a segui-los. O bem-estar dum adestrador só acontece pelo progresso das suas classes e o seu gozo só resultará das suas pequenas vitórias. No meio da contrariedade terá de ir adiante e quando o desânimo lhe bater à porta não terá tempo para se deixar abater, porque ele é a mão estendida em ajuda e esse é o seu ofício. Por causa do combate do “aqui” e “agora” a que as metas obrigam e a brevidade de dias dos cães não é alheia, o seu trabalho e empenho vão para além do encerramento das aulas, seguem-no lar adentro até ao refúgio do seu leito e nisto sempre estará só, com os donos às voltas e os cães na cabeça, porque dele se espera solução e o resto aos outros pouco importa. Ainda que o faça em part-time, o seu trabalho será mais árduo do que o exigível a um animador de tempos livres, porque terá de rentabilizar o lúdico e transformar a brincadeira num caso sério, operações que empreenderá gradualmente pela subtileza e que serão sustentadas pela amizade que vai semeando. E neste sentido ele é também um visionário, porque lhe é exigido transformar o grupo em ferramenta, carregar as suas dificuldades e provocar alteração, levar de vencida as situações adversas e criar condições pró sucesso. Muito mais haveria a dizer e aqueles que abraçarem esta paixão irão certamente descobri-lo. Pelo que foi dito e atendendo à restrição que a escolha exige, quem se agiganta para o cargo? Pouquíssimos nomes nos vêm à memória, será que nos esquecemos de alguém? Se tem todas as condições que exigimos, pretende carregar o nosso fardo e ir adiante com o nosso trabalho, não hesite, apresente-se, certamente será bem-vindo. Venha que se faz tarde!

segunda-feira, 7 de março de 2011

E DEPOIS DO DOMÍNIO?

Escritores de tempos remotos, para muitos movidos por impulso divino ou por pretenso contacto com diferentes deidades, justificaram e continuam a justificar o domínio do homem sobre a terra e sobre tudo que nela habita, exaltando a humanidade sobre os demais e tudo colocando para a sua sobrevivência e serviço, dogma incontestável que pode levar-nos inclusive ao extermínio pela destruição do Planeta tal qual o conhecemos, porque nele somos reis e senhores e não há aqui quem connosco rivalize. A pretexto dum beneplácito divino e porque o homem é um predador insaciável, a fraternidade tornou-se hipócrita, a igualdade uma utopia e a liberdade um conceito para justificar as mais rebuscadas formas de escravatura, a coberto do politicamente correcto e de acordo com a desordem a que o vil metal obriga. Diante desta ordem (desordem), todos somos simultaneamente vítimas e carrascos, condenando por analogia os nossos iguais e todos os animais que congregamos ou que de nós se acercam. Infelizmente não temos solução para o problema, ainda que as velhas soluções metafísicas, diante do desespero, pareçam apetecíveis e acertadas face à necessidade de um milagre, porque quando grassa a agonia a redenção tende a ganhar forma, já que a esperança, segundo dizem, é a última coisa a morrer. Terá esta fé um origem divina ou será tão-somente um instinto animal, o ligado à preservação das espécies e à sua sobrevivência? Virá ela da cultura ou será individualmente predestinada, resultará da genética ou terá uma origem sobrenatural? As opiniões dividem-se e cada qual toma como verdade aquilo em que acredita. Porém uma coisa é certa: todos procuramos o domínio, exactamente como um simples cachorro movido por um forte impulso ao poder, ambição inata que o induzirá à desobediência e à rebeldia.

Ainda que tenhamos como objectivo central do nosso adestramento a sobrevivência animal, princípio do qual nunca abdicaremos, as pessoas que nos chegam procuram exclusivamente o domínio sobre os seus cães, segundo as suas expectativas e finalidades, ignorando de sobremaneira aquilo que justamente é devido aos animais, tendência que intentamos levar de vencida tanto pelo exemplo quanto pelo esclarecimento. Assim sendo, a obediência que sustenta a exploração canina e que cativa os cães ao esclavagismo funcional deverá ser abandonada, porque se faz tarde e os cães também almejam a felicidade, porque tudo fazem por nos agradar e não entendem a sobranceria que engorda o ego dos seus condutores. Se considerarmos o panorama do adestramento actual, facilmente descobrimos a discrepância entre as disciplinas ditas para o bem comunitário e aquelas cativas aos prazeres e aspirações individuais, não raramente fratricidas e como tal anti-sociais. O que será mais fácil encontrar nas lojas da especialidade: os acessórios para os cães de guarda ou os relativos ao exercício da pistagem? Se juntarmos ao número dos cães guias de cegos, o número dos cães que se exercitam na pistagem, resgate e salvamento, facilmente veremos que apenas são um 1/10 do montante daqueles que se penduram regularmente em fatos e mangas, apesar das primeiras disciplinas serem universais e inatas a todos os cães. Porque razão ou razões se dispensa a maioria dos cães ditos familiares do treino convencional?
Para se entender aquilo que a obediência oferece, não é preciso rara erudição ou aturada meditação, porque nela o domínio do homem sobre o cão é por demais evidente. Se esse domínio acontecer para além da salvaguarda dos cães e sem o respeito pela sua condição, as respostas artificiais adquiridas pelo treino outra coisa não serão do que subsídios contundentes para a mais abusiva exploração, quer se cante, assobie, coaxe, acaricie ou haja lugar à distribuição de biscoitos. A relação dos homens com os cães, tarefa a que a antrozoologia também se dedica, continua a ser interesseira e os lucros da parceria revertem quase em exclusivo para os proprietários caninos. Ainda que no nosso tempo se tenha assistido à suavização dos métodos, contudo os objectivos permanecem exactamente os mesmos, o que não encobre o uso abusivo e a violência de uns tantos objectivos, porque a essência humana não sofreu alteração e sempre procura a sua tendência natural., encoberta em desejos incontidos e infelizmente manifesta no desempenho de certos cães. Só deixaremos os cães em paz no dia em que os homens deixarem de lutar entre si, desejo visto como utopia e que procura um paraíso num local impreciso.
Assim como não deveremos distribuir armas a crianças e alienados, também resistimos a oferecer o domínio àqueles que dele farão mau uso, para que a sujeição canina não se reverta num mal maior e culmine na eliminação dos animais induzidos. Só o amor pelos cães justifica o recurso, o exercício e a prática na disciplina de obediência, já que a isenção deste sentimento tende a sobrecarregar os animais e a potenciar os ódios e embirrações dos seus proprietários, também eles oriundos dum mundo cão. O aproveitamento na obediência nunca será estéril, porque a partir dela se poderão formar cordeiros ou guerrilheiros, elementos aglutinadores ou indivíduos anti-sociais. A educação dos donos sempre deverá anteceder a capacitação dos cães, para que não se escondam por detrás dos animais e causem dolo a outrem pela calada, porque a obediência oferece o mancebo e o dono irá dar-lhe o uso que lhe aprouver. Atendendo à má sorte de tantos cães, questionamo-nos hoje se é lícito ministrar aulas de obediência a todos aqueles que nos procuram, já que os desacatos e tropelias mais comuns outra coisa não são do que gritos de descontentamento, manifestações de tristeza por parte dos animais.





domingo, 14 de novembro de 2010

A trela é uma arma

Não queremos aqui plagiar os ditos cantores de intervenção e um tema que lhes foi querido: “A canção é uma arma”, mas promover a defesa daqueles que rotineiramente saiem à rua com o seu cão e que temem pela sua segurança, despreparados, distantes das câmaras, de um policiamento eficaz e em horas passíveis de maus encontros, face ao aumento da criminalidade urbana e à inevitável instabilidade social que se agiganta. Os jovens de hoje já não tiveram a felicidade de brincar na rua, as nossas crianças idem, o que lhes dificulta a sua segurança, a defesa sua da integridade e a dos seus pertences, nem que seja a de um simples par de ténis. Diante de tal cenário e contrariando os mais optimistas, a ideia geral é: levem tudo mas não nos façam mal! Atendendo à situação ainda bem que assim é! Até à década de 70 do século passado (parece que foi ontem para os mais maduros e uma eternidade para os mais jovens), era comum ver-se pelas ruas e em todos os bairros bandos de crianças à solta: “índios e cow-boys”, “polícias e ladrões”, “portugueses e espanhóis”, heróis bravamente empenhados na liça e sempre atrasados para o jantar. No olho da rua todos aprendiam a defender-se, a juntar-se ao seu grupo e a ripostar as incursões dos bandos rivais. Qualquer jogo podia acabar “à pêra” ou à pedrada e raros eram aqueles que se iam queixar para casa, porque ainda apanhavam mais. As medalhas eram ganhas com nódoas negras e ocasionalmente alguém partia a cabeça. Coisas de miúdos! - Diziam os mais velhos. Hoje as ruas são doutros índios, de ladrões autênticos e doutros que nem espanhóis são! Dos cow-boys não há memória, ser polícia é ingrato e os portugueses passaram à história (acoitam--se em casa).

Quem passeia ao romper da aurora e ao lusco-fusco quando os polícias de turno são recolhidos e quando todos vão prà cama? Quem vagueia por locais ermos e por vielas ignotas? Certamente os proprietários caninos, gente que trabalha durante o dia e que se vê a braços com o repúdio geral, plebe segregada e sujeita a uma catrefa de proibições, cidadãos indefesos por força das circunstâncias, o que tem levado muitos ao abandono da excursão diária e ao borrar consentido dos animais dentro de casa, pois se para certa casta de marginais o cão é um entrave, para outros ele será o melhor dos pretextos, considerando o seu à vontade e a tradicional inoperância defensiva dos cães familiares, mais carentes de protecção e menos dados a desafios.

Quem já combateu na rua sabe da importância do elemento surpresa e da vantagem de quem dá primeiro, que o perigo sempre espreita e da necessidade das costas também verem. Passear na selva urbana é uma opção arriscada e obriga a todos os cuidados, porque os meliantes aguardam ocasião e têm grande predilecção por gente distraída, não são exigentes no furto e qualquer coisa lhes serve de ganho, apesar de violentos e isentos de maiores escrúpulos. Quando passear ao romper da aurora procure circular junto das áreas mais movimentadas (estações de comboios, paragens de autocarro, postos de combustíveis, livrarias, quiosques, cafés, etc.), evite as estradas desertas, os locais de difícil acesso e as azinhagas mal iluminadas. À noite respeite as mesmas condições e evite as zonas densamente arborizadas, porque são excelentes locais de ocultação para quem se serve das embocadas. É de todo recomendável que saia de casa acompanhado por algum familiar ou por outros condutores de cães. Evite o cruzamento próximo com vielas escuras, porque não sabe o que o espera pra lá da esquina, abandone o passeio e passe para o lado contrário, o que lhe dará mais tempo para agir e obrigará o embuçado a mostrar-se, manobra de que não se agradará. Também nos cruzamentos evite circular com o seu cão “à frente”, para que o criminoso não se entreponha entre si e o seu companheiro, dificultando desse modo a defesa de ambos. Saia com o seu cão à rua debaixo do comando de “atenção” e varie sistematicamente os passeios. Se algum desconhecido lhe perguntar se o cão morde, não se faça rogado, peça-lhe que se afaste e diga-lhe que o danado até morde nas estrelas, mesmo que isso não corresponda à verdade, porque tal poderá evitar o assalto imediato ou à posteriori. Ensine o seu cão a ladrar e peça-lhe que o faça diante de indivíduos suspeitos ou de intenções duvidosas, porque o ladrar é um aviso e ninguém sabe quando passará à ameaça. Não estoire o animal e deixe-o recuperar em zonas seguras, pois poderá vir a precisar da sua ajuda para o socorro de ambos. Acostume o animal a refrescar-se somente em casa e não consinta que ele se afaste da sua vista quando intentar defecar, pois pode acabar ludibriado e facilitar o seu assalto. Estas são algumas medidas preventivas para evitar confrontações indesejáveis, lamentáveis escaramuças onde só perde quem tem e quando menos se espera.

Acautelando a possível confrontação, infortúnio que abominamos e queremos evitar a todo o custo, é desejável que o binómio se encontre em maioria e que você se sirva do cão como escudo e da trela como lança, desde que o assaltante não venha munido de arma de fogo. O cão já deverá saber defender-se e contra-atacar, para poder ser solto e evitar assim o manietar do dono. A trela possibilita diferentes movimentos e acções, evoluções circulares de diversas combinações que projectam golpes bastante contundentes, quando usada como funda e dardo constantes ou como matraca, o que dificultará a abordagem do assaltante, a braços com o cão e sujeito e sujeito a contra golpes. O conjunto do fecho com o remate da trela, e estamos a referir-nos aquela que usamos, pesa sensivelmente 300 g, podendo atingir velocidades entre os 90 e os 135 km/h e alcançar forças de impacto entre os 27 e os 40.5 kg, dependendo isso da aceleração imprimida (se 2 ou 3 voltas por segundo), o que poderá ser letal ou colocar o agressor KO diante da certeza de algum golpe. A trela deverá trabalhar como reforço das acções caninas atingindo o assaltante noutras zonas do seu corpo, o que dificultará deveras a sua defesa, porque se agarrar a trela não se poderá defender das arremetidas do nosso companheiro. Nunca se deverá perder a trela para o assaltante, porque ao munir-se dela poderá neutralizar os ataques do cão e causar-nos igual dolo. Neste caso, de imediato e para além do incentivo a dar ao animal, seremos obrigados ao confronto físico e à luta corpo-a-corpo, usando para isso os pés e as mãos, estímulos que o cão bem aproveita e que reforçam o seu instinto de presa.

Qualquer confronto exige uma predisposição inata, uma preparação prévia e sangue frio, condições para muitos inalcançáveis ainda que em sonhos as desejassem. Diz-se que a necessidade aguça o engenho, que determinada cultura banaliza acções que outras culturas não alcançam e que a experiência tende a vencer os obstáculos seus conhecidos. Já vimos casos em que isso aconteceu e lamentavelmente muitos mais onde tal não se verificou. No entanto, considerando os possíveis ataques à sobrevivência dos proprietários caninos, aconselhamos que adquiram técnicas de defesa pessoal, subsídios que lhes garantam a defesa da sua integridade, muito embora a sabedoria possa desarmar os intentos de uns tantos, sendo por isso mesmo a melhor arma, porque trabalha por antecipação e produz o desconserto alheio, apesar da absorção do conceito não se propagar à prática na cabeça de muitos, fenómeno justificado pela sua individualidade. E porque não podemos ficar de braços cruzados e entregar ao fado todos os infortúnios, treinamos a defesa com a trela nas diferentes induções que praticamos, tendo o cuidado de proteger as cobaias. A trela é e pode ser uma arma, tal qual uma moeda ou um simples pente, o que a torna eficaz é o seu uso acertado, o que nos remeterá para a mecanicidade das acções, sem contudo desaconselharmos a procura de qualquer confronto, até porque qualquer ataque é inválido se desconsiderar o contra-ataque e qualquer arma levará ao surgimento de uma contra-arma. Diante disto, a prevenção será sempre a escolha mais acertada.

sábado, 6 de novembro de 2010

A recuperação dos medrosos

Nas andanças do adestramento há sempre um cão que nos espera, um medroso a necessitar de recuperação porque nasceu inibido ou muito-submisso, contrariamente aos da sua raça e da sua prestação, um anátema para muitos e um problema acrescido para o dono. Ao contrário dos cães que foram amedrontados, geralmente vítimas de um imprinting atabalhoado, duma má instalação doméstica ou duma liderança abusiva, cuja recuperação acontecerá sem grandes percalços pela alteração da liderança, pela promoção social e pela novidade de desafios, a recuperação dos cães geneticamente medrosos não irá ser fácil e necessitará do acerto de todos os agentes de ensino envolvidos, tanto no aconchego doméstico quando dentro do perímetro escolar.

Estes cães têm um comportamento marginal e irão obrigar a uma terapia própria e a medidas excepcionais, porque desde cedo se isolam e sujeitam-se às investidas dos seus pares. A sua extrema dependência quando associada a uma inusitada carga instintiva levá-los-á a alimentar-se debaixo de suspeita, a carreiras evasivas, à troca da defesa pelo esconderijo, ao evitar de confrontos, ao temor face à autoridade e à resistência diante da novidade. O problema é anterior à transição do canis lupus para o lupus familiaris e ao eugenismo operado pelo homem, muito embora o último tenha contribuído para a sua proliferação, porque doutro modo dificilmente estes animais sobreviveriam nas alcateias, particularmente durante estações ou ecossistemas parcos em alimentos. Apesar de definhar dentro de uma matilha, o cão medroso sentir-se-á ali mais protegido do que perante a irrecusável constituição binomial, mercê do seu particular biológico, das suas características inatas e histórico social, condições que irão dificultar excessivamente a sua futura integração.

Apesar de subsistirem casos ligados à sagacidade de quem os vende e à ignorância de quem os adquire, a maioria dos cães medrosos chegará às nossas casas por comiseração, sentimento que mais tarde poderá transformar-se numa temível decepção e perpetuar pródigos desalentos na pessoa dos seus benfeitores, porque contrariamente ao amor, as paixões são volúveis e o desânimo enfraquece. A recuperação de um cão com estas características aponta para um processo inequívoco de reeducação, só possível pela dependência canina e pela alteração do seu viver social, esforço conjunto direccionado ao despoletar condicionado dos seus impulsos herdados indispensáveis e que induzirá a um renascimento por parto ambiental. Ainda que o sucesso seja possível, sempre será mais fácil regrar um valente do que suscitar valentia a um medricas. A haver alteração, ela resultará em primeira instância do super empenho do agregado humano, esperançado e apostado na sua recuperação. Dono e demais família do lar adoptivo, adestradores, condutores e cães escolares, todos estarão implicados neste projecto colectivo que visa esta emancipação individual, enquanto arautos da esperança e artífices da mudança.

Para além do combate ao logro e porque entendemos a venda de cães como uma prestação de serviço, quando detectamos um cão medroso aconselhamos de imediato a sua aquisição pelo criador, desde que na progenitora ou nos seus progenitores tal fenómeno não seja por demais evidente, o que comprometeria seriamente o desenvolvimento salutar do cachorro, atendendo a precariedade dos seus mestres. A excessiva agressividade dos progenitores, particularmente quando descontrolada e fortemente empenhada na defesa hierárquica, também não servirá os nossos propósitos, o que nos levará a aconselhar a doação do cachorro, conselho que manteremos diante da impossibilidade, impotência ou impropriedade do seu criador. Exceptuando estes casos, é de todo desejável que a recuperação do cachorro aconteça no lar que o viu nasceu e junto daquilo e daqueles que sempre conheceu. Por outro lado, a procura conhecedora e exigente obrigará os criadores ao mesmo encargo diante de igual problema, também porque vender um cão de fraca qualidade implicará em prejuízos imediatos e duradouros, mesmo que se abandone a criação, o que não virá a impedir o emporcalhar do bom-nome desses criadores eventuais.

A doação do cachorro problemático deverá considerar a sua recuperação e bem-estar, atentar para o perfil psicológico do obsequiado (que deverá ser experiente, disponível, empenhado, tolerante e compassivo), para as condições que oferece e para a existência ou não doutros cães de que poderá ser proprietário. Como o problema tem reflexos sociais e apostamos na transcendência operativa ambiental, não descuidando o possível contributo positivo de outros cães (biológico), é desejável que o cachorro venha a conviver um cão adulto do sexo oposto, equilibrado e razoavelmente controlado, porque a recuperação de um cachorro macho acontece naturalmente pela generosidade de uma cadela adulta e uma fêmea jovem sentir-se-á segura junto de um macho decidido, imitando-o e seguindo-o por toda a parte (vai com as costas quentes). O convívio entre cadelas deverá ser evitado, particularmente após a maturidade sexual, momento em que a mais velha procurará o agrado da liderança e escorraçará a mais nova da sua presença, fortalecendo-se de sobremaneira e enfraquecendo a outra sobejamente mais carenciada de ajuda. Do mesmo modo, a amizade entre um cachorro medroso e um cão adulto será comprometida durante o cio duma cadela residente, quando o instinto sexual despoletar sem rodeios o impulso ao poder do mais velho. A coabitação do cachorro problemático com cães castrados, considerando a sua recuperação, tanto poderá ser benéfica como catastrófica, ficando isso a dever-se ao carácter desses eunucos, à ocasião da mutilação e aos seus reflexos (taras e singularidades).

Assim, coabitação no lar adoptivo com outro cão garante a celeridade do processo reeducador, particularmente no convívio canino sem o espectro da exiguidade territorial e na permanência do espaço que lhes é comum. Este entendimento biológico, quando reforçado pela cumplicidade entre o líder e cão adulto, suscitará do cachorro a competitividade que gera a brincadeira, levá-lo-á a aceitar a hierarquia de modo natural e a assimilar a liderança como uma experiência feliz., porque só o equilíbrio doméstico poderá garantir as saídas ao exterior sem maiores atropelos. Os membros do agregado familiar, enquanto elementos neutros, deverão coibir-se de dar ordens ao cachorro ou proceder-lhe a reparos, forçar a sua presença ou contribuir para o seu afastamento, o que implicaria numa despromoção social facilmente absorvida pelo infante e que comprometeria a sua desejável ascensão. A brincadeira e a distribuição de brinquedos propicia a obtenção dum espólio próprio e as crianças responsáveis podem contribuir para a eliminação do espectro da autoridade, graças à parceria, à relação de proximidade, particularidade vocal e de interesses, à menor rigidez de postura e ao reduzido volume da sua silhueta, subsídios pedagógicos de valor inestimável para a recuperação do cachorro. A constituição binomial resultará das brincadeiras divididas com o cão adulto, da contribuição do agregado familiar e da propriedade da liderança, legitimada pelo exemplo e fundamentada na cumplicidade.

Se houver necessidade de atrasar o treino escolar, coisa difícil de acontecer diante do cenário acima descrito, espera-se o tempo necessário e o surgimento da autonomia que o suporta, porque o tempo não é um obstáculo mas um amigo que corre em nosso auxílio. No treino e porque queremos aproveitar a plasticidade física e cognitiva presente nos cachorros entre os 4 e os 6 meses de idade, abraçaremos a mobilidade em desfavor do travamento, os subsídios direccionais em prejuízo dos de imobilização, insistiremos na ginástica e no “junto”, porque sabemos que o desenvolvimento físico providencia o aumento cognitivo e que a experiência variada e rica opera por equilíbrio o seu desenvolvimento. A troca gradual de condutores, as distintas manobras de sociabilização, a disciplina das classes e o exemplo dos cães mais velhos tornarão viável a recuperação quase absoluta do cachorro, sintonizando-se com a sua espécie e preparando-o para a vida entre os homens, solicitando-lhe serviços que naturalmente e por si mesmo jamais alcançaria. Nisto reside a força do amor, dínamo do adestramento, força que massifica e quantifica os sentimentos nesta exigente arte de ensinar cães.

Poderá um cachorro medroso transformar-se num autêntico cão guardião? Sim e não, se entendermos a disciplina de guarda sem subtilezas e como modo de confrontação. Sim - se os simulacros produzirem alteração, preparação e capacitação; não - diante da novidade, da surpresa e na ausência de reciclagem, porque o condicionamento não ultrapassa a experiência animal e não consegue esconder os seus entraves individuais, apesar de muitos cães com estas características poderem vir a alcançar excelentes resultados em provas, por força da ficção que se transforma em realidade. O cão genuinamente guardião nasce assim e o devidamente estimulado adquire um comportamento quase idêntico, facto que toda a gente reconhece e que recentemente vimos denunciado, mais uma vez, no opúsculo “The Downfall of the German Shepherd” da autoria de Koos Hassing, cinotécnico holandês de reconhecidos méritos desportivos, um contestador de fórmulas sem questionar a sua essência ou denunciar a sua filosofia. Aqui como noutras disciplinas e para além das características individuais de cada cão, só a experiência sustenta a soberania do condicionamento.

Para transformar um medroso num guardião é necessário revitalizar-lhe os impulsos herdados inerentes a essa prestação, activando cada um deles pelo reforço positivo e dando tempo ao progresso. A primeira meta a atingir será a do bem-estar entre iguais, depois seguir-se-á a aceitação da liderança, logo a seguir a sociabilização e finalmente as induções. Provavelmente teremos de alterar as dietas, insistir na ginástica e não desprezar a recompensa. As induções começarão por ser domésticas, evoluirão para a Escola, acontecerão noutros terrenos e revitalizar-se-ão de novo em casa, considerando a fragilidade do seu particular gregário e a resistência que oferece perante a novidade de territórios e circunstâncias. As induções recairão inicialmente sobre o objecto e nunca sobre a pessoa do agressor, por convite e não por desafio, devendo ser projectadas debaixo do mesmo estímulo e acontecer sob condições óptimas, aquelas que o cão conhece e que lhe darão a certeza da vitória. Para que o cão vá adiante é necessário que perca o medo das pessoas, que as considere ao seu alcance e sujeitas ao seu domínio, benefício que geralmente alcançamos pelo exercício do APC e pelo convite à transposição de obstáculos humanos, debaixo de subsídios direccionais amplamente repetidos até se constituírem em rotinas, porque a familiarização é um trunfo que não podemos dispensar. Os indivíduos convidados para este trabalho não deverão temer por si , tudo fazendo para que a normalidade se mantenha e o imprevisto não gere confusão ou provoque retrocesso.

Sem o contributo dos obstáculos humanos, sucessores da sociabilização e pilares da familiarização, mesmo que o cão invista tenazmente contra a manga e proceda a vários derrotes, jamais se sentirá à vontade nas arremetidas superiores, porque a proximidade da presa e a ocultação do acessório provocar-lhe-ão estranheza, não rara suspeição e a suspensão antecipada das ordens. De início, todo e qualquer estratagema empregue ou manobra escolhida deverão privilegiar a acção em detrimento do travamento, que deverá acontecer pela rendição forçada dos figurantes (por suspensão da provocação, imobilidade, queda ou rendição). A indiferença aos tiros deverá ser alcançada (já explicámos como no nº XXIX do Caderno de Ensino) e os contra-golpes a aplicar deverão sempre considerar a indiferença ou resistência do cão, porque precisa de se sentir e sair vencedor, como um predador sobre a presa e nunca o contrário. Apesar do tipo, amplitude e constância no ladrar serem de origem genética, eles irão necessitar de treino específico e de potenciação, face ao desuso costumeiro do cão e perante a premente necessidade do aviso, já que a intimidação funciona e raramente causa vítimas, o que neste caso melhor serve ao cão. Preparar um cão para provas é como adiantar a solução de um teste, porque o bicho sabe ao que vai e dificilmente será surpreendido. Prepará-lo para os desafios do quotidiano será mais árduo, porque a cada minuto emerge uma novidade e contra nós se aguça o engenho.