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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O Nobre das caçadas

Há um fidalgo em cada um de nós, um squire que habita na nossa cabeça e que por vezes nos convence, levando-nos à confusão entre aquilo que somos e o que gostaríamos de ser, pela força do sonho que nos suporta a realidade. Essa mania da grandeza transforma uns em comilões, outros em déspotas, uns tantos em filantropos, alguns em pedantes e todos perdem a noção da realidade pelo fruto da ilusão. Quando a burla não causa vítimas, a loucura morre na fonte, e segundo o extracto social de cada um aplicam-se termos como: excêntrico ou alienado. Lutaremos até morrer contra a criança que há em nós, porque apesar dos dissabores, mantém-nos vivos e conserva-nos o alento, mesmo que a desusemos ou lhe façamos orelhas moucas.
Na canicultura sempre seremos surpreendidos com indivíduos assim, uns tantos magnânimos que, distantes das suas obrigações, são proprietários de grande número de cães, sem condições para os sustentar e ignorando o seu bem-estar, mantendo os animais à molhada como reclusos em pátio prisional, dispensados dos veterinários, arredados da educação, sujeitos à precariedade das dietas, cativos à mixórdia, isentos de convívio e entregues a si próprios. O fenómeno é mais visível entre os pobres, porque a avareza dos ricos não embarca em cantilenas, muito embora possam tratar os seus cães de igual modo, como tantas vezes temos visto.
No campo é comum ver-se fileiras intermináveis de podengos acorrentados, em coelheiras exíguas e circundadas de ossos e dejectos, animais mutilados e com feridas por sarar, empoleirados nos abrigos e atazanados pelas moscas que lhe comem as orelhas. Os seus proprietários, os ditos nobres das caçadas, acham tudo muito natural, justificando a miséria como preparo essencial para o ofício cinegético. Na urbe subsistem ainda dois tipos de alienados de igual pancada: o filantropo e o pseudo criador. O primeiro dedica-se à captura de todos os animais abandonados, enjaulando-os às dezenas em garagens ou roulottes, alimentando-os de sobras, dispensando-os dos cuidados básicos e solicitando a caridade alheia, tal qual monge medieval de sininho a tinir com promessa de indulgências. O segundo, que se diz criador, faz do seu quintal uma maternidade, criando cães à laia de unidade industrial, dando aos animais condições idênticas às encontradas entre os operários na actual China. Nos dois casos, porque a privação da liberdade individual é um facto, a sociabilização acontece à dentada e os animais assilvestram-se, resultando daí feridos, moribundos e mortos: cães em campos de concentração! Porque andam sempre magros e têm o semblante triste? Será que a ingratidão impede a sua alegria? Sobre quem assentará a loucura?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ontem, hoje e amanhã

Antigamente os proprietários de animais domésticos não hesitavam na sua capacitação, esforçando-se por tirar deles o máximo rendimento, apesar das suas limitações ou menos valias, porque eram sua propriedade e só podiam contar com eles, transformando-os em auxiliares capazes e em companheiros de jornada. E quando as dificuldades surgiam, lutavam para as levar de vencida, culpabilizando-se pela sua falta de engenho ou arte face à demora nos resultados. Graças a isso, operaram autênticos milagres e ganharam experiência, tornaram-se sapientes e descobriram que alma dos animais sempre resulta da vontade dos donos.
Hoje, tanto na equitação como na canicultura, a filosofia é outra, assiste-se ao facilitismo e ao descarte dos animais, ninguém quer passar por dificuldades e a culpa é sempre dos bichos, ainda que a impropriedade dos donos seja por demais visível. Troca-se de cão ou cavalo como de camisa, os animais são desprezados como sapatos sem conserto e ninguém vê a ignomínia dos seus actos. Não são só os caçadores que abandonam cães, como não são só os mestres que trocam de cavalos, toda a gente os imita e todos procuram a vantagem, como se tudo fosse aceitável pelo politicamente correcto e o bem-estar animal fosse supérfluo. Mercê disto, a ignorância sobre os animais nunca foi tão abissal e o abate de muitos cedo acontece. Os animais de ontem são os mesmos de hoje, os homens é que são diferentes. Serão os homens de amanhã iguais aos de hoje? Esperemos que não!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O papel que ninguém quer

Para muitos, o melhor Adestrador do mundo é aquele que não chateia, que sempre atribui a culpa aos cães e que enaltece os donos, isentando-os de qualquer reparo e vendendo-lhes cabazes de esperança. São gente adulta que gosta de ser tratada como criança, na exaltação do particular em prejuízo do binómio, na permuta entre o serviço e o narcisismo, como se a mestria não resultasse do exercício e a parceria da comunhão. Educar cães, quer queiramos ou não, é educar homens, porque os cães não aprendem sozinhos e carecem de adaptação. E no mundo do inevitável, farto em prioridades, o cão pode esperar e ser relegado para depois, como se tivesse a nossa longevidade e compreendesse a natureza dos nossos tormentos. Infelizmente para ele, o cão não é um produto de 1ª necessidade e não se auto-sustenta, porque é dependente e sobrevive pela sujeição. Se a rudez de um cão sempre espelha um dono rudimentar, sobre quem incidiremos a nossa acção, quem necessitará de mudar?
Ainda que o não queira e faça tudo para o evitar, um Adestrador digno desse nome, sempre será um indivíduo incómodo, porque procura o bem-estar canino e nisso assenta o seu ofício. Cativo a essa missão, sujeita-se muitas vezes à incompreensão, personificando diferentes papéis segundo a perspectiva dos importunados, porque os conhece e sabe do que são capazes, porque os cães não mentem e o seu jugo tudo esclarece. A sua acção não se remete apenas ao exercício escolar, entra lar adentro, invade a privacidade, porque reclama por uma instalação doméstica capaz, pela excursão diária, por um tratamento condigno e tudo isto em prol do cão! A ausência de secretismo incomoda e o comodismo é abalado, os donos sentem-se vulneráveis e alguns mandam-no bugiar para outro lado. Não é fácil ser advogado do pobre diabo! É este o papel que cabe ao adestrador, num julgamento viciado e perante uma sentença adivinhada. Contudo, ele jamais irá desistir, a isso obriga a militância que o transporta ao cumprimento do serviço: o amor pelos cães!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lászlo Bölöni e os treinadores de bancada

Lászlo Bölöni, um romeno de ascendência húngara, foi treinador da equipa profissional do Sporting há algumas épocas atrás. A ele se ficou a dever, além de outras coisas, o lançamento para a ribalta de algumas das jovens promessas leoninas. Apesar de ser um homem de méritos reconhecidos e profundamente metodológico, não escapou aos apupos de muitos, maioritariamente treinadores de bancada e também filiados no F.C. do Deita-Abaixo. Certo dia, diante das câmaras televisivas e após um jogo, fustigado por perguntas tolas, explodiu ironicamente: “Em cada português há um treinador, em Portugal toda a gente entende de futebol!” Perante a afirmação, houve quem ficasse magoado no seu orgulho Pátrio, na interiorização do pensamento: “quem é este gajo para falar de nós, precisava era de quem lhe partisse as trombas!”

Infelizmente, o português continua à procura da rolha e sempre assim foi, proliferando entre nós uma dificuldade inata, a relativa à nossa congregação e unidade, porque mais depressa nos identificamos com um forasteiro do que com o vizinho do lado. Nos momentos mais difíceis da nossa história vingou a doutrina do “entre a espada e a parede”, algo que as crónicas sobre a Batalha de Aljubarrota não desmentem, nomeadamente sobre os conselhos para a linha da frente das hostes luso-inglesas. O português é sempre daquele que ganha e quando perde, remete o resultado para os meandros do fado e desaproveita as lições dos seus erros. E nisto os outros povos pouco diferem, apesar de mais unidos do que nós. Dificilmente passamos da tribo para a Nação e continuamos hábeis no fabrico das dissensões. E depois, lá surge o espectro da “justiça de Penafiel”, que alguns reclamam e ninguém quer!
Historicamente sempre discutimos futebol, política e código da estrada. Agora que os cães se vulgarizaram, passámos também a opinar sobre estes companheiros, a criticar métodos e treinadores, desconhecendo-os e a fomentar quezílias no seio da canicultura portuguesa, como se ela fosse inabalável e apenas produzisse esterco. Lamentavelmente, diante da situação, nenhuma deontologia subsiste e proliferam patadas para todos os gostos. Será que a nossa pequenez demográfica e geográfica contribui para o fenómeno, que nos obriga a tropeçar uns nos outros? A unidade dos treinadores peca por ser tardia e enferma pela cultura adjacente, sucumbe ao vírus da maledicência e retarda a sua convalescença. Se estes profissionais, enquanto minoria, trabalhassem no estrangeiro, certamente adquiririam outra postura e assimilariam sem delongas a ética profissional reinante, tornando-se gente irrepreensível e digna de louvor: melhores entre os demais. Não é isso visível nos nossos trabalhadores emigrantes? Porque insistimos em ser pássaros de gaiola, daqueles que sempre borram no mesmo sítio? A unidade é possível e a todos beneficiará. De outro modo, os “assentados” em S.Bento plagiarão decretos para além da nossa realidade, denegrindo a nossa qualidade e nivelando-a por outras bem abaixo da nossa. Até quando necessitaremos da hegemonia do porrete e nos comportaremos como nativos assimilados nesta Europa?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O preço da liberdade

Introduzimos o tema como uma história verídica, que para infelicidade nossa, aconteceu com um binómio da Acendura.
Determinado oficial e cavalheiro, mercê do aumento dos seus proventos, quando se encontrava num serviço de representação no estrangeiro, decidiu adquirir um Pastor Alemão. O animal veio adornado com o predicado “first-choice”, recebeu o nome de um chocolate apreciado, cresceu entre valões e flamengos, ali recebeu algum tipo de treino e acompanhou os donos no seu regresso a Portugal, acabando por engrossar as nossas fileiras. Ainda que na escola não mostrasse esse desvio, quiçá pelos bons ofícios do PM* e pela presença do adestrador, em casa corria atrás dos gatos e não lhes dava descanso. O binómio mantinha um trajecto rotineiro para a excursão diária e habitualmente o cão era solto em determinado local. Por ocasião de umas férias e porque importava guardar a casa, o cão ficou entregue aos cuidados de um vizinho. O recém-empossado respeitou os hábitos do líder e sempre agiu em conformidade com eles. Certo dia, no local usual da folgança, como de costume, o homem soltou o cão. Inesperadamente, vindo do nada, eis que surge um gato. O cão não se fez rogado e vá de correr atrás dele. No meio da perseguição atravessaram uma estrada, o gato saiu ileso e o cão de cauda amputada, porque foi pisado por um camião-cisterna de cimento. No comments!
A liberdade canina é uma liberdade condicionada, mesmo extrapolando os aspectos legais, porque se encontra cativa ao exercício da liderança humana e às garantias dadas pelos animais. É obrigação do dono, ainda antes de soltar o animal, bater minuciosamente o território escolhido, conhecer os seus confins e certificar-se da inexistência de perigos para a saúde do seu companheiro (vidros, pedaços de chapa, comida degradada, substâncias corrosivas ou tóxicas e tudo o que possa constituir-se em armadilha). O automatismo nos comandos de imobilização e direccionais torna-se imprescindível, particularmente os comandos de “aqui” e “junto”. O comando inibitório “não” deve ser soberano sobre qualquer reacção instintiva e a sociabilização (inter pares e interespécies) já alcançada. Para uma segurança mais efectiva, só se recomenda a liberdade aos cães depois da recusa de engodos ter sido instalada. Por outro lado, só a aprovada condução em liberdade dispensará o uso da trela. É de evitar, mesmo entre os cães mais arduamente treinados e experimentados, soltá-los no meio de outros cães ou pessoas, porque só respondemos pelos nossos e há muita gente que morre de medo. A protecção do nosso cão e dos demais, assim como o respeito pelos direitos de cidadania alheios a isso nos obriga, porque o disparate acontece maioritariamente por incúria, ainda que nos agrade rotulá-lo de acidente. A propósito: convém ler as letras mais pequenas que constam das apólices do seguro dos nossos cães, porque a retribuição das seguradoras encontra-se escudada nos preceitos legais. Quando eles são violados, as companhias ficam automaticamente desobrigadas a qualquer indemnização. Foi isso que assinámos!
Os lobos não nasceram para andar à trela, mas no dia em que os transformámos em cães, ela tornou-se indispensável, um subsídio de ensino eficaz e um garante da vida. A máquina instintiva canina, remanescente do seu atavismo, ainda condiciona a sua liberdade, porque os terrenos são repartidos e o perigo espreita. Treinamos os cães por causa disso, dominando instintos e potenciando impulsos. Tome todas a cautelas quando soltar o seu cão!
(PM*) – Gato Burma que durante 12 anos contribuiu para a sociabilização dos nossos cães.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Para bom entendedor meia palavra basta... (questões para reflectir)

  1. Um cão fortemente territorial guardará todo e qualquer perímetro desconhecido que lhe for confiado sem o concurso do dono?
  2. Um guardião de créditos firmados terá o mesmo desempenho com outro condutor ou líder?
  3. A troca sistemática dos abrigos, a alteração das rotinas, da ocasião do penso e dos horários de vigilância, não lhe alterarão a prestação?
  4. A coabitação com outros cães não o poderá induzir à troca de alvos?
  5. Devido à sua perigosidade e justificando-se a sua descodificação (reeducação), como proceder?

Há que dar de beber à dor, já dizia a Mariquinhas!

Agora que se comemoram os 10 anos do desaparecimento de Amália Rodrigues, fadista que emprestou ao fado nobreza e elevou ao povo os poetas consagrados, veio-nos à memória um fado que também ela cantava, nomeadamente o seu refrão. Na Feira do Animal, no stand ao lado do nosso, a Associação Pé ante Pata fez-se presente. Estes companheiros têm como objectivo doar cães abandonados, encontrando novos donos e lares para aqueles que foram descartados. A crueldade do assunto e o particular de cada cão chocam e ninguém pôde ficar insensível. O contraste entre os nossos cães e aqueles que ninguém quis, sufoca e incomoda. Como não podemos valer a todos, acariciámos os nossos cães e fomos dar de beber à dor, disputar uma cerveja no snack-bar mais próximo, na procura do esquecimento e na esperança de que tudo acabe em bem.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A história dos 4 cães de guarda (para adultos que gostam de cães)

Esta é uma história fictícia, mas bem possível de acontecer.
Quatro cães foram instruídos para guardar, por solicitação dos seus donos e de acordo com as suas necessidades. Quando entraram em acção, o primeiro morreu, o segundo ficou incapacitado, o terceiro dominado pelo medo e o quarto passou a morder em tudo e todos.
Cada um tirará as suas próprias conclusões!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Para onde irão eles?

As cidades estão repletas de idosos. Grande número deles tem um animal de companhia, para combater a solidão e teimar na sua reinserção social. Gatos e cães são seus confidentes, companheiros presentes face à ausência dos familiares mais próximos. Os animais garantem-lhes a independência, o direito à existência para além do fatídico lar que sempre espreita. Através dos bichos estabelecem novas amizades e ousam sair à rua, sentem-se necessários e agrada-lhes o compromisso. As idas ao veterinário são uma rara ocasião de convívio, algo que eles não dispensam, porque estão vivos e querem sentir-se úteis. E porque as pernas já tiveram melhores dias, os seus bichos são geralmente obesos, tão pachorrentos quanto aos donos e pouco dados a novas amizades. Quando os donos morrem, para onde irão eles? Grande número é sentenciado à morte, via injecção letal, porque a vida não está para veleidades e os que cá ficam têm mais que fazer. Cães e gatos continuam a morrer em silêncio, diariamente e sem disso darmos conta. Apraz-nos perguntar porquê, porque causamos vítimas na hora da nossa morte. Não podemos continuar assim, deverá a generosidade animal ser recompensada com a pena capital? Quem será irracional?

terça-feira, 14 de abril de 2009

::: O exercício da autoridade no adestramento :::

Não é raro ver-se publicitado o ensino dos cães com menção destacada ao repúdio da violência. E é frequente, da parte dos donos dos instruendos, o receio de que o adestramento comporte desconforto físico para os animais.

Aquela publicitação e este receio têm na sua origem a questão de saber se e como pode ou deve ser exercida a autoridade no adestramento. Uma resposta que satisfaça aos anseios afectivos dos donos poderá indicar, na esteira da referida publicidade, um plano de ensino prenhe de condescendências e de mimos, mas não corresponderá seguramente à realidade do treino, sob pena da sua total ineficácia. Uma outra que apenas se funde na imposição brutal de condutas criará possivelmente submissões, mas sempre no limiar da revolta, à margem da relação empática que cimenta a obediência.

Neste campo, como em muitos outros, a correcção dos procedimentos não se encontra nos extremos e pressupõe que se estabeleçam algumas precisões, sem receio de maus entendimentos. Sem dúvida que não têm hoje cabimento os métodos puramente coercivos, praticados no passado, em que o treino se iniciava na idade adulta em relação a exemplares dominantes. Reconhecida a vantagem e definidos os princípios básicos do método da progressividade, que supõe o treino dos cachorros a partir dos quatro meses e o acompanhamento dos seus ciclos de crescimento, a fórmula do treino reside no aproveitamento evolutivo ou gradual das capacidades dos animais, num ambiente que não lhes seja hostil ou penoso. Mas, ainda assim, a autoridade não pode ser esquecida e é no seu modo de exercício que se colocam dúvidas e surgem equívocos.

O adestramento do cachorro é essencial em diversas perspectivas: a de garantir condições de comportamento “social” no meio humano em que foi inserido; a de o preparar para sobreviver no “habitat” em que se movimenta; a de possibilitar o seu desenvolvimento equilibrado dos pontos de vista físico e psíquico; a de fortalecer o seu temperamento, a de alcançar um determinada utilidade laboral.
Sendo necessário, o adestramento é, em si mesmo, o primeiro factor de violência contra o cão, precisamente porque confronta ou contraria a liberdade natural. Pelo adestramento o cão é forçado a conduzir-se por uma forma adversa às reacções que naturalmente tomaria e, nessa medida, o treino constitui uma violentação da sua liberdade.

Ora esta “violência” do adestramento considerado no seu todo converte-se em outras tantas “violências” quantas as situações concretas do ensino, quantos os casos em que o cão é levado a comportamentos limitativos das suas reacções naturais e espontâneas.

Mas sendo, como se referiu, fundamental para a segurança e para o desenvolvimento harmónico do cachorro, o dono adestrador não deve subalternizar esses objectivos a sentimentos momentâneos de piedade ou semelhantes, desde que, é claro, estejam a ser respeitadas as capacidades do aluno e as boas condições de desenvolvimento do ensino.

A “violência”, tomada no sentido impróprio que se expôs, de contrariedade oposta às reacções naturais de liberdade, não significa nem pressupõe mau trato, mas não exclui o exercício da autoridade pelas formas dissuasoras que lhe pertençam e no caso se justifiquem.

A matilha sobrevive mercê de uma hierarquia rigorosa, pela qual se define o patamar de cada um dos seus elementos. As posições cimeiras não são consensuais, antes conquistadas e mantidas pelo indivíduo mais forte e de perfil mais dominante. O domínio na matilha é alcançado e conservado por imposição, pela força, pela ameaça intimidativa ou, se necessário, pela agressão.

Transposto para o ambiente doméstico da sua família de adopção, o cachorro, ainda que intua a diferenciação de espécies, é levado a considerar-se inserido numa matilha – chamemos-lhe matilha familiar – e, a certo passo do seu desenvolvimento, por força de mecanismos instintivos, a procurar o seu posicionamento relativo, quiçá, por razão do seu temperamento dominante, o estádio mais elevado da chefia suprema.

Mais ou menos francamente, com arrogância ou usando de subterfúgios, o cachorro pode ascender a essa posição, na presença de um dono complacente, despreocupado ou simplesmente ignorante dos processos evolutivos da mentalidade canina. E quando tal suceder, subvertidos os termos, o dono é relegado para uma posição hierárquica inferior, perdendo os atributos de autoridade que lhe deveriam pertencer.

Nesta situação o adestramento canino é impossível. Ainda que não seja condição suficiente, a autoridade hierárquica sobre o cão é condição necessária para o ensino. A que deverão juntar-se - se acaso pudermos conceber que o cão experimenta estados emocionais equivalentes ou próximos dos humanos - a confiança no dono e a afectividade pelo dono.

Seja como for, a subversão da autoridade é impeditiva do adestramento, precisamente porque o cachorro, julgando-se dono do bastão, não aceitará sem rebeldia o condicionamento dos seus comportamentos.

De modo que, como acima se referiu, a “violência” ínsita no adestramento (condicionamento contrário às reacções naturais de liberdade) é necessariamente prosseguida através da autoridade.

Ora é no exercício desta que pode residir – e penso que muitas vezes reside – o equívoco que a questão inicialmente formulada encerra.

O exercício da autoridade em qualquer situação da vida pressupõe o acesso a métodos de conformação, a meios de execução ou cumprimento e a processos de sancionamento, que podem ser mais ou menos extensos e diversos na sua natureza, consoante o ambiente que se considere. Isto é dizer, nomeadamente, que a autoridade não se exercita simplesmente por actos de “imperium”, determinativos, coercivos, senão também, por actos de indução, de dissuasão, enformados, porém, por uma característica especial, a de que, ainda assim, não se reconhece no visado a liberdade de escolha. Seja pela ordem ou comando, seja pela orientação esclarecedora, na base encontra-se sempre a prerrogativa de impor. Por outras palavras e numa súmula, o estabelecimento de certos padrões de conduta mediante o exercício da autoridade pode passar pela dissuasão, pelo acto determinativo e pela sanção.
E assim será tanto no relacionamento humano como no animal. Como acima se referiu, a chefia da matilha é obtida pelo cão dominante e por este assegurada através de actos disciplinadores que poderão ser de aviso (dissuasores ou indutores de certo comportamento) ou de penalização de desvios da conduta requerida, por via da agressão mais ou menos intensa (sanção).

Transposta a dominância do chefe da matilha para o dono adestrador, não encontro diferenças fundamentais quanto ao exercício da autoridade, que deve passar pelo cumprimento da vontade do dono, por via, conforme as situações, de persuasão, ordem e sanção. Diferenças haverá, obviamente, nos meios concretamente utilizados e, ainda, na atribuição de recompensas pelo cumprimento, que eventualmente não se verificará em matilhas naturais.

A persuasão constituirá, decerto, o meio primário de exercício da autoridade, conduzindo o cachorro à prática dos exercícios ou figuras desejadas como que num convite forçado. Parece-me que todo o adestramento inicial com uso da trela se insere neste princípio básico de persuasão, em que o castigo está ausente. O cão, por exemplo, é motivado a caminhar junto ao dono por via dos movimentos da trela determinados pela rotação do pulso e acompanhado por palavras de censura proibitiva (“não”), de convite à correcção (“junto”) ou carinhosas de estímulo (“muito bonito”), no que se traduz, a meu ver, a ideia de persuasão. A repetição de transposição de um obstáculo após um insucesso que atemorize o animal, acompanhado de atitudes de estímulo e entusiasmo, é ainda, parece-me, uma forma de exercer a autoridade de modo persuasivo.

Numa fase em que o animal já tem assimilada a acção pretendida, mediante vocalização ou gesto, a autoridade exerce-se através da ordem pura. Se o cão já conhece o comportamento que dele se requer em situações determinadas, a autoridade manifesta-se sem necessidade de expressão, por razão do condicionamento efectuado.

É neste estádio que se colocam mais problemas no exercício da autoridade, tendo em conta que esta tem por objecto a obediência e que, neste particular, o conceito é absoluto. A obediência supõe o pronto cumprimento da ordem ou a omissão de conduta perante uma situação em que a passividade corresponda a comportamento adquirido. À voz de “aqui” o cão deve imediata e rapidamente dirigir-se para o seu dono, à voz de “alto” imobilizar-se prontamente. À passagem de um cão desconhecido ou perante um gato em corrida provocadora, deve manter-se em absoluta passividade, independentemente da voz ou da presença do dono. De uma iguaria apetitosa encontrada no chão deve afastar-se, mesmo que o dono não esteja ao alcance dos seus sentidos.

O cão que desobedece a uma ordem assimilada confronta a autoridade do dono e justifica a sanção. Sobremaneira quando estiverem em causa pressupostos da sua segurança ou da sua integridade física. Há, todavia, que qualificar rigorosamente a conduta do animal como desobediência, dado que, muitas vezes, a não execução de certa figura resulta da incapacidade do animal ou da deficiência dos comandos ou “ajudas”.

A sanção tem de corresponder, necessariamente, a um desconforto, a uma penosidade, a algo que crie no animal uma relação de natureza negativa com o incumprimento. Poderá ser, por exemplo, o afastamento do dono, em jeito de desprezo, face à desobediência do comando de “aqui”, o que lhe criará ansiedade e desejo de proximidade. Poderá ser a prisão com a trela a um poste, afastado do dono. Mas poderá ir mais longe?

A diferença entre o líder humano e o dominante da matilha animal está na impossibilidade deste de reagir para além das formas de domínio físico absoluto, da agressão física, da mordedura. O dono adestrador terá de assumir, quando imprescindível, reacções de eficácia semelhante mas não necessariamente iguais às que se observam na matilha animal. O cão dominante que afasta da comida o guloso atrevido não excede, na sua conduta agressiva, o necessário para a produção desse resultado. Castiga a impertinência na medida necessária à reposição da obediência quebrada. Não se retrai, nem se excede. Ora é este equilíbrio, esta proporcionalidade, que deve enformar a conduta punitiva e tal supõe, da parte do dono adestrador um afinado sentido de oportunidade, uma imensa serenidade. Mas, mais, porque beneficia dos atributos da inteligência, o repúdio da violência.

Castigo nunca poderá converter-se em sevícia, em mau trato gratuito. E só se compreende na medida em que, simultaneamente, seja preventivo de futuras desobediências. O castigo, para corresponder a estes requisitos de proporcionalidade e de eficácia, tem de ser aplicado no momento oportuno (na presença de uma desobediência verdadeira e própria) e sem descontrole emocional por parte do dono. Estão arredados, assim, todos os castigos exógenos aos objectivos pedagógicos do adestramento, injustificados face à conduta do cão, excessivos em presença das concretas finalidades repressivas ou preventivas ou causadores de sequelas físicas ou psicológicas. Estão, por isso, proibidas, em qualquer circunstância, as agressões corporais por qualquer meio ou modo, com a trela, uma vara ou qualquer outro instrumento, os murros e os pontapés ou outra de natureza semelhante, sempre reveladoras, quando infelizmente acontecem, do desequilíbrio emocional do dono adestrador.

Querendo reunir em parágrafos conclusivos as ideias essenciais que pretendi transmitir e guardei no decurso da minha formação na Acendura Brava, termino referindo que:

1º- O adestramento só é possível se o dono adestrador se situar numa posição de supremacia hierárquica relativamente ao cão e exercer, quanto a este, a sua autoridade.

2ª- O exercício da autoridade, fundado na faculdade de impor, desenvolve-se através de processos de persuasão, de ordens ou comandos puros e do sancionamento da desobediência, mediante sanções cautelosas, proporcionadas, certeiras (oportunas) e despidas de envolvimentos emocionais.

3ª- A sanção deve corresponder a uma conduta que cause no animal, por via do fenómeno da memória afectiva, uma relação desconfortável com a desobediência praticada, de modo a prevenir práticas futuras semelhantes, estando liminarmente arredados os castigos físicos ou corporais, permissivos de sequelas físicas e medos ou traumas inibitórios.

JGAR