quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DO CONCEITO À PRÁTICA …

Exactamente como nas revoluções, onde sempre acontece a subversão dos ideais face à realidade económica, também na cinotecnia grande é a dificuldade na transição do conceito para a prática, até porque o ideal acaba por chocar com o conveniente ou o fazível pelos operadores, muitas vezes atribulados pelas suas menos valias, sujeitos ao calendário e escravos das suas tendências hereditárias, quer elas sejam de origem genética ou cultural. Nunca se viu como até agora tanto estrangulador de bicos, o que não deixa de causar rara estranheza, uma vez que a selecção belicista dos cães tende a desaparecer e os animais são cada vez mais dóceis, factores directamente relacionados com as leis relativas aos cães perigosos em voga na Europa. Por onde anda a excelência da técnica? Será que necessita de ser reinventada?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

UM VÍDEO “ENCANTADOR” SOBRE A TERAPIA DO BARRIL




Tudo o que seja inovação em matéria de adestramento interessa-nos, desde que sejam salvaguardados tanto o bem-estar quanto o superior aproveitamento dos cães, porque sem o contributo da erudição o progresso nesta arte sairia seriamente comprometido, coisa que não desejamos face à necessidade de um melhor entendimento interespécies. Não temos como hábito comentar o trabalho de outros, ainda que ocasionalmente possamos questionar alguns métodos ou conteúdos de ensino. Ao invés, e várias vezes o fizemos, temos enaltecido o contributo de muitos para o nosso êxito educacional. Perante a insistência de alguns amigos e alunos, excepcionalmente, vamos aqui comentar o vídeo http://www.youtube.com/watch?hl=pt&v=zgjcIaVwYYs, relativo a um caso terapêutico do Sr. César Millan, tido como “encantador” de cães e hoje muito na berra, um mexicano bem sucedido em Terras do Tio Sam. Antes da análise propriamente dita e para facilitar a compreensão objectiva de todos, sintetizaremos a história e o caso do CPA Garrett, propriedade dos Sr.s Sheila Malavasi e Joel Cohen, um cão com o mau hábito de perseguir incessantemente a sua própria cauda. Segundo o que nos é feito saber no vídeo, tanto pela narração quanto pelas imagens, o citado cão foi adquirido para fazer companhia a uma CPA (Keela), na altura com seis meses de idade. Talvez o facto do vídeo se encontrar dobrado em português do Brasil possa conter algumas paráfrases ou inexactidões face à tradução operada do inglês para essa variante da língua portuguesa, solução que nos desagrada e à qual somos alheios, considerando o habitual rigor das nossas observações. Parece que o Garrett chegou ao novo lar já com o problema e que com o passar do tempo agravou-o, rodopiando ainda mais sobre a sua cauda e chegando inclusive a mordê-la. É curioso reparar que esse rodopiar acontecia maioritariamente no sentido dos ponteiros do relógio e não no sentido inverso, o que em si é revelador e indicia um grave estado de ansiedade, já que os cães normalmente, para se descontraírem e disso obterem benefício, descrevem círculos contrários ao movimento da terra para satisfazerem as suas necessidades fisiológicas. Perante o problema houve quem aconselhasse a amputação da cauda e um clínico inclinou-se para um problema na coluna. Como a dona do animal não o queria ver amputado (porque o considerava como um filho) e o tratamento sugerido não alcançou os resultados esperados, entra em cena o “encantador” que ao jeito de Xamã apresenta os seus bons ofícios (com um dos pés em cima do sofá).

Pela inquirição do “encantador” ficamos a saber que o Garrett foi objecto dum adestramento inconclusivo, de uma cirurgia ineficaz e sujeito ao Prozac, que ao momento apenas saía duas vezes por semana e que no passado chegou a sair todos os dias em excursões de 3 a 4 km, sem contudo ter alcançado o “junto” alguma vez. Com o tacto que a situação exigia e perante o desespero dos donos, cuja responsabilização em nada ajudaria, o terapeuta começa por enaltecer a excelência das qualidades laborais dos pastores alemães, da sua necessidade de trabalho, da importância da excursão diária e da necessidade que têm das rotinas, verdades que aceitamos e confessamos em género, grau e número. Quase como um mágico a tirar um coelho da cartola, o “encantador saca de uma mochila e coloca-a sobre o dorso do Garrett, dispondo-se depois a passeá-lo com esse apetrecho carregado de algumas garrafas de águas vazias em ambos os flancos. A saída para o exterior aconteceu à “arreata” (com os dois cães em paralelo e do mesmo lado), com a cadela entre o terapeuta e o Garrett, manobra que só por si impedia o cão de rodopiar, uma vez que a cadela se constituía em muro e o atraso do cão era veementemente solicitado, quer pela linguagem verbal quer pela indução da trela. A somar a isto importa reparar no tipo de estrangulador utilizado, acessório omisso de qualquer plano de pormenor, mas que contribuiu para o alcance quase instantâneo do “junto”, o que é caso para se dizer: “ novidades só no Continente!”

Liberto do peso da liderança e da coerção da trela, o cão volta a rodopiar quando em liberdade e dentro do quintal dos seus donos, como sempre fez e não evidenciando qualquer melhoria. Aí o terapeuta interrompe-lhe as acções chamando-o para si (“aqui”). Depois decide-se por aumentar o peso das garrafas e de estipular um horário diário para o uso da mochila, para que passe a rotina e contribua assim para a supressão do problema. Não sabemos se o Garrett chegou a ultrapassar a tara, porque só nos é adiantada a receita e em momento algum se vê a cura do paciente. Julgamos possível ter acontecido e já diremos porquê. O que não podemos deixar passar em branco é a interpretação dada à mímica das orelhas do cão, na terceira posição e entendida como de contentamento, porque ela desnuda idêntico estado de ansiedade e descontentamento, não o prazer do Garrett em se transformar em cão de tiro (aquando do transporte da mochila), mas sim uma manifestação inequívoca da sua submissão diante duma indução forçada (coerciva). Estamos em crer que tal interpretação não resultou da ignorância, mas da tentativa conseguida para sossegar os proprietários do animal, face à sua sensibilidade e ao desconforto do cão. Como diz o povo: “quem não sabe ser caixeiro, fecha a loja!”

Pela nossa observação e já nos passaram pelas mãos milhares de cães, o desvio de comportamento visível no Garrett, indubitavelmente associado à ansiedade, é mais comum entre os cães submissos, assenta sobre determinados indivíduos e pode ter uma origem genética, predisposição que poderá ser agravada pelo viver social dos indivíduos e pelo particular da sua instalação. Os cães à revelia confinados a exíguos espaços, normalmente acorrentados e sujeitos ao isolamento a maior parte dos seus dias, podem abraçar este desvio desde que biologicamente mais propensos ao stress. Quando a Sr.ª Sheila Malavasi fala do episódio em que o Garrett ao morder a cauda se feriu, o animal encontrava-se encerrado na garagem e é visível uma corrente no chão desse anexo, o que facilitou a transição da perseguição para a tentativa de amputação da cauda. Quando dois cães se encontram numa moradia e ambos tentam ladrar aos seus portões, com o decorrer do tempo, o mais valente irá inibir o outro e impedi-lo de fazer o mesmo, o que poderá induzir o segundo à aquisição dessa tara pela imposição. Dificilmente as razões ambientais despoletarão a tara se não houver uma predisposição genética que se aposse delas, a menos que a violência exercida seja de tal monta que arrebente qualquer valente.
E porque inúmeras vezes já resolvemos este problema sem recorrer à técnica do barril, porque é isso que a mochila está a reproduzir, impedindo o cão de se dobrar sobre si, uma solução engenhosa que espanta pela originalidade e não esconde a coerção, adiantamos que o adestramento convencional pode solucionar o problema pela constituição binomial, enquanto meio para estabelecer a liderança, alcançar a cumplicidade, equilibrar os cães e dotá-los da necessária uma autonomia condicionada, benefícios inatingíveis sem a disponibilidade física e anímica dos donos, que apostados no bem-estar dos seus animais tudo farão para que se sintam felizes, dando assim combate à ansiedade, ao stress e à inquietação presentes nos cães actuais, também eles vítimas dos desequilíbrios do nosso quotidiano individual e social. Por causa deste e de outros problemas de igual monta optámos pelo método da precocidade, tentando dessa forma equilibrar aqueles que outros desequilibraram, mercê de más selecções ou de comportamentos impróprios e indignos para os cães. Fazendo jus ao que atrás dissemos, continuamos a defender a boa instalação doméstica, a excursão diária e o adestramento de todos os cães, independentemente do seu grupo somático, carga instintiva, propensão laboral, raça, idade ou sexo.

De volta ao vídeo, pareceu-nos exagerado o tipo de estrangulador utilizado e a impropriedade da mochila colocada no Garrett, já que esses acessórios são por demais agressivos, sendo inclusive lesivos para cães deste tipo : submissos e de linha do dorso recta, a menos que se procure a cura por um trauma maior e se aposte no selamento como a melhor das terapias ortopédicas. Somos conhecedores da transferência física e anímica dos donos para os cães, reconhecemos a importância da liderança, estamos cientes dos benefícios da “condução à arreata”, sabemos da necessidade das rotinas no adestramento e reconhecemos qual o real valor da excursão diária para o equilíbrio e bem-estar dos cães. Se os donos do Garrett cumpriram com as disposições do “encantador”, tudo leva a crer que foram bem sucedidos. No entanto, a terapia indicada é radical e abusiva dos direitos do animal, já que é despropositada e recai sobre um indivíduo anteriormente desprezado, desleixado ou descuidado. Quem não cumpre a sua parte sempre espera milagres, algum tipo de encanto ou de encantador, um anjo que lhe bata à porta e lhe resolva todos os problemas. Que ninguém se deixe embarrilar: os cães nasceram para a actividade e só a cumplicidade poderá produzir alteração e trabalho objectivo, a satisfação e o equilíbrio entre cães e homens. Mais vale trabalhar com o seu cão do que esperar por um Xamã, porque o apelo às divindades tem o seu preço e não deverão ser os cães a pagar a pagá-lo!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O DOM PARA ENSINAR CÃES

Desmond Morris, Granderath, Hagendorf, Jean-Henry Fabre, Konrad Lorenz e Trumler, por ordem alfabética e citando apenas alguns etólogos e entomologistas, muito contribuíram para a melhor compreensão dos cães e doutros animais, sendo percursores de uma nova ciência: a antrozoologia, vocacionada para o estudo das relações entre o homem e os restantes animais. Qualquer indivíduo mediano de inteligência e mal aviado de habilidades pode ensinar um ou mais cães desde que procure esse propósito, porque eles, ao fim e ao cabo como nós, entendem a linguagem da recompensa e do castigo, as manifestações de júbilo e desagrado e as emoções que as acompanham ou desnudam. A tarefa ser-lhe-á suavizada pelo uso da técnica advinda do condicionamento e pela extrema habituação presente no lobo doméstico, que tendo poucos instintos e sendo rico em “personalidade”, bem depressa se submeterá aos desejos de quem o sustenta e conduz. A grande revolução na etologia relativa aos cães, para além das suas duas maiores lições: que mais vale considerar o indivíduo do que o propósito da raça e que um cão pode ser ensinado em qualquer idade para qualquer fim, veio a acontecer pela questão: “O que fazer para que o meu cão me entenda?”. Esta dúvida teve o mérito de alterar e inovar os métodos de treino canino até então, realçando de imediato a responsabilidade humana no sucesso ou insucesso do adestramento, apesar de há muito se saber do domínio natural do inteligente sobre o irracional. Contudo, a pergunta pressupõe apenas a comunicação unilateral do homem para o cão, omitindo a comunicação possível do animal para o seu líder e protector, como se tal fosse irrelevante ou o especicismo fosse a melhor das políticas. A pergunta revolucionária e inovadora deveria ter sido complementada por uma outra: “ O que fazer para entender o meu cão?”, já que os cães têm diferentes vozes e expressões mímicas que evidenciam distintos estados de ânimo, hoje entendidos tardiamente como sentimentos.
Se ao adestramento for exigível um dom, ele resultará certamente da resposta às duas questões: da capacidade de compreender e se fazer compreender. Um nosso aluno de tempos idos, natural do lugar da Ordasqueira, Freguesia de Matacães e Concelho de Torres Vedras, homem simples e parco em palavras, quando questionado acerca da diferença gradativa dos mestres cinotécnicos perante a mesma técnica, costumava responder que ela resultava da “estaleca” individual, subentendo-se o termo por um conjunto de predicados únicos e apenas presentes nalguns indivíduos. Ao que parece, estamos na era dos “encantadores” tanto de cães como de cavalos, exaltando-se a saga de um humilde mexicano por terras gringas, um notabilíssimo adestrador que apresenta solução para tudo, inesperadamente e num ápice, e sobre o qual muito se tem escrito (ele mesmo virou escritor). Depois de lermos e relermos o que publicou, assim como os relatos dos seus êxitos, leituras que recomendamos para que se faça luz e se confirme a justeza da nossa opinião, chega-se à conclusão que nada trouxe de novo, que a chave do seu sucesso resultou do apego aos procedimentos correctos sobre a confusão operativa dos proprietários caninos norte-americanos, gordos em antropomorfismos e carenciados como sempre de um manual de instruções.
Os actuais métodos de treino canino não são os ideais, mas são até ao momento os que melhor servem o adestramento, face ao bem-estar dos cães e ao necessário aproveitamento dos seus impulsos herdados para o alcance das respostas artificiais procuradas no treino, o que não significa que os métodos menos recentes estivessem completamente errados e não possam pontualmente ser aplicados ainda hoje, atendendo às diferenças entre cães, ao seu particular instalador e à sua experiência directa, características advindas da sua selecção, perfil psicológico, lições de vida e viver social. O que o passado não dispensou, o presente reclama e o futuro aperfeiçoará é a autêntica comunicação interespécies, baseada no entendimento mútuo entre homens e cães que possibilita a aplicação dos estímulos certos para as acções requeridas, algo que ultrapassa os métodos, estabelece a diferença e que está para além da comum técnica, graças à intimidade presente em cada binómio por força da cumplicidade. E para que não restem dúvidas, importa fazer saber que a generalização de qualquer método acontece pela sua simplicidade, busca a mediania e granjeia por isso muitos adeptos.
A genialidade no adestramento, vulgarmente entendida como um dom nalguns indivíduos, resulta da fusão psicológica entre homens e cães que garante a sua unidade e acontece quando o cão certo vai parar às mãos do homem certo, uma responsabilidade tanto de criadores como de adestradores. A qualidade dum adestrador virá da capacidade de interpretar os diferentes cães e de encontrar para cada um deles os estímulos certos, as suas tendências e potencial individuais, suprimindo incapacidades e descobrindo mais-valias, mesmo que para isso se veja obrigado a alterar o comportamento de alguns condutores, também eles alunos e primeiros agentes de ensino, enquanto líderes, codificadores e emissores da mensagem. O dito dom para o adestramento vem do impulso ao conhecimento individual aqui transformado em vocação, da capacidade de interpretação e de se fazer compreender, de um novo relacionamento entre homens e cães.

A TENTATIVA DE SUICÍDIO DO TOT

Depois da morte do Carlos Veríssimo (e já lá vão quase três meses), o Tot acusou o desaparecimento do seu dono e líder, começando por partir alguns pertences do quintal e enveredando por uma série de disparates aparentemente injustificáveis. A letargia tomou o lugar da revolta e gradualmente desinteressou-se das iguarias do seu agrado, permanecendo prostrado e arredio, de olhar vago e desinteressado. A família preocupada com o sucedido contactou-nos, porque não lhe encontrava sinais exteriores de doença e não sabia o que fazer. A solução por nós encontrada foi a de o trazer para o treino e entregá-lo aos cuidados do Monitor Tiago Soares, que “substituindo” o líder desaparecido e valendo-se dos códigos, o convidou para um conjunto de tarefas do seu agrado. Com as calças demasiado apertadas no princípio, porque se tratava de um valente cão de guarda, o Tiago foi vencendo gradualmente os seus receios e o cão aceitou a sua liderança. Logo após o primeiro treino, o cão voltou à normalidade, retomou o apetite e recuperou a alegria. Doravante fará equipa com este monitor da escola até à constituição binomial, já que na família adoptiva ninguém apresenta essa disponibilidade. Graças ao uso dos códigos, o cão está de volta, voltou à matilha escolar, recuperou a sua utilidade e alcançou a excursão. Não lhe podemos trazer de volta o seu amado dono, mas tudo faremos para que se sinta bem entre nós, na escola donde veio e que muito bem conhece. Sê bem-vindo Tot, sempre teremos um lugar para ti nas nossas fileiras!

O ABU E OS 5 CÃES DE LONDRES: A NECESSIDADE DE REPÔR A ORDEM

Os recentes distúrbios em Londres fizeram-nos lembrar do Abu, um CPA amigo da dona que zela pela harmonia familiar, não hesitando em pôr na ordem o infante lá de casa, quando ele não cumpre com as suas obrigações ou desrespeita as regras instituídas, valendo-se para isso da persuasão necessária e inerente ao seu porte. Na capital inglesa vimos 5 cães com igual incumbência, perante uma turba de ladrões e saqueadores, meninos a pôr na ordem, extasiados pela destruição e tomados pela violência. Não é bonito usar cães contra cidadãos, mas talvez se justifique o seu uso como presença dissuasora e ostensiva, particularmente diante da barbárie que assume o fratricídio, que nada respeita e quer passar impune. A avaliar pelas imagens televisivas, parece que os bichos foram bem sucedidos e as investidas dos saqueadores travadas. Bem aventurados sejam os cães quando usados contra o abuso, quando zelam pela nossa protecção e não descansam para que tenhamos segurança.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O CLAUSTRO PRÀS BESTAS E OS CÃES DA “LEVADA”

Pelo estado de conservação dos monumentos e do nosso património histórico parece que os portugueses são pouco cuidadosos na preservação da sua cultura, desprezando os tesouros da nossa identidade que nos foram legados pelas gerações passadas. Esta política do “deita a baixo” tem raízes milenares e sempre volta à tona nos momentos de alguma convulsão social, onde a ocasião faz o ladrão e o que é de todos passa para o quintal dalguns. Talvez isso se deva ao abismo entre a erudição e a ignorância, à procura de um lugar ao sol mais fácil e à ancestral inveja que teima em largar-nos. E como se tudo isso já não nos bastasse, o “pragmatismo” de alguns acaba por arruinar muito daquilo que é nosso. Na dita capital do gótico, em Santarém, está situado o Convento de S. Francisco, fundado em 1242 por D.Sancho II, a quando da chegada dos Franciscanos àquela cidade. Classificado como Monumento Nacional pelo IPPAR desde 1917, há mais ou menos noventa anos que se encontra em obras de restauro. A determinada altura aconteceu por ali algo de insólito e inesperado, um Sr. Comandante Militar mandou arrancar as lajes do solo de grande parte do claustro, e fê-lo porque quis lá colocar cavalos e o piso era por demais escorregadio para o efeito, profanando sepulturas e arrancando inscrições. Hoje já não existem ali cavalos, somente umas câmaras poeirentas e um amontoado de lajes à espera de serem recolocadas. Longe vão os tempos em que os cães eram de uma obediência inquestionável, tanto os civis como os militares, independentemente do serviço a que se destinavam e perante qualquer situação. A avaliar pelo comportamento dos cães actuais, parece que nada aproveitámos do passado e que esquecemos a mestria dos adestradores que nos antecederam, gente que se notabilizou pela excelência do seu conhecimento, arte, empenho e prestação. Por todo o lado se vêem cães pendurados pelo pescoço, apoiados nos jarretes e de patas dianteiras suspensas, lembrando a levada dos cavalos iniciada nos pilões, com os seus tratadores ou condutores debaixo de sério embaraço, tal qual dedo trémulo sobre o gatilho, denunciando o desequilíbrio entre a acção e o travamento, tanto pela força do estímulo como pela ausência de controlo. O caricato da situação, quando entendido pelo chauvinismo, parece uma reminiscência barroca e quando avaliado friamente, à luz da técnica e diante do desempenho necessário, prefigura-se um autêntico disparate. No nosso caderninho de dúvidas a apresentar ao Pai Celeste, na devida altura, queremos acrescentar mais duas: porque será que em Portugal actualização significa rompimento com o passado? Num País tão antigo como o nosso, porque é que tanta gente insiste em ser geração espontânea? Não são só os claustros que são cultura, o adestramento também o é, e ambos parecem condenados a igual amargura, os primeiros ao arrancar das suas lajes e o segundo à ignorância da sua mestria. O claustro para as bestas e os cães da levada são duas faces da mesma moeda, obra da mesma filosofia e fardo que tarda em largar-nos.

1, 2, 3, 4… CONTACTO, ESTICÃO, BRAÇO DOBRADO, BISCOITO NA MÃO

O velho e respeitável modelo alsaciano para treinar cães, responsável directo por umas quantas modalidades desportivas, ao contrário do que se julga e longe de ter sido abolido ou substituído, continua em uso no mundo do adestramento, ainda que pretensamente suavizado ou usado como medida de recurso. A progressão em linha recta com retorno, a condução de mão direita, a acção do joelho esquerdo do condutor e a coerção continuam a ser utilizados sem maior contestação, responsabilizando exclusivamente os cães pelo sucesso ou insucesso do processo pedagógico, prática que atenta contra o que Hagendorf e Granderath sugeriram: “ o que fazer para que o meu cão me entenda?”. No nosso entender de pouco préstimo, mas profundamente cativo ao melhor entendimento entre cães e homens, julgamos mais acertada a progressão circular, a condução de mão esquerda, a naturalidade de movimentos do binómio e a substituição da coerção pela advertência verbal, porque sabemos que o stress obsta ao melhor desempenho e entrega os animais aos seus instintos mais básicos, o que é deveras reprovável face ao desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento. Com isto estamos a apelar para uma excelente instalação doméstica, para um quadro de crescimento funcional que antecede a escola propriamente dita, para a mais-valia técnica dos condutores e para a relação óptima entre tratamento e treino, maioritariamente responsável pelo estabelecimento dos vínculos afectivos inerentes ao sucesso educacional. Movidos pela curiosidade e assim como quem não quer a coisa, fomos espreitar uma escola canina, dita de reforço positivo e anti-stress. No adestramento, assim como noutras áreas do conhecimento humano, toda a reciclagem é bem-vinda e todos teremos sempre a algo a aprender. Debaixo desse interesse assistimos demoradamente a algumas lições, humildes e à torreira do sol, concentrados e ávidos de novidade. Os automatismos procurados (“junto” e tri-comando básico), a despeito da memória afectiva canina e sem prévio aquecimento dos animais, aconteciam pelo condicionamento mecânico numa toada de: contacto, esticão, braço dobrado e biscoito na mão. O contacto reportava-se à distribuição de biscoitos e o esticão à “correcção” das figuras, violência encoberta pela distribuição da paparoca. Do ponto de vista técnico não assistimos a qualquer novidade resultante da erudição e a haver reforço positivo, o que duvidamos seriamente, seria no “lavar de uma mão pela outra” na distribuição de guloseimas, na tentativa de suavizar a coerção ou de posteriormente a evitar. O método pareceu-nos altamente lesivo para os cães menos atléticos e mais frágeis do ponto de vista articular, fatal para os cardíacos e prós sujeitos a ataques de vária ordem. Os condutores ali não são considerados como alunos, somente como clientes, tornando-se mestres na arte de arrojar os cães e na prática dos subornar. O andamento preferencial não obriga à marcha canina e pode acontecer a passo, geralmente em pequenas distâncias e por breve espaço de tempo, o que não produz a desejável alteração atlética, atrasa a assimilação das respostas artificiais e reforça de sobremaneira a coerção. Como as aulas são individuais a sociabilização sai comprometida, a menos que a veemência dos esticões e a política de boca aberta produzam efeito, terapia já gasta e que de positiva pouco tem. Acabámos por redescobrir o velho método alsaciano, mais perto do seu homónimo na confeitaria e mais distante daquele que viabilizou o treino dos cães militares. O que vimos lembrou-nos a doma tradicional em uso nos pampas, um atabalhoamento técnico entre o pau e o pão.

COMPANHEIRO E ANJO DA GUARDA

Como é bom crescer com um companheiro que é ao mesmo tempo um anjo da guarda, um amigo sempre presente que vela os nossos sonhos. Nos momentos que se avizinham é bom não estar só, principalmente quando se é criança e o perigo tende a espreitar. A Maria pousa para o retrato e o Black inteira-se da sua segurança. A imagem dispensa as palavras, porque tanto é clara a alegria da criança como a preocupação do animal. Feliz é o infante que cresce com um cão ao lado.

CÃO DE GUARDA: FICÇÃO E REALIDADE

A venda de gato por lebre e a procura da pechincha, quando associadas à cegueira e às verdades subjectivas, levam inúmeras vezes à escolha errada de um cão para determinado fim. Os cães destinados à guarda não caiem das árvores como folhas no Outono, não são fáceis de encontrar e exigem uma liderança incontestável, porque resultam de uma apurada selecção genética e não dispensam o treino aturado. Diante destes factos importa considerar a opção pela mais-valia canina, porque ela não é a mais barata, exige trabalho, não dispensa o esforço e reclama rara disponibilidade.

A LIÇÃO DA PEQUENADA

No último Domingo constitui-se uma classe para a pequenada e os nossas infantes experimentaram o papel de líderes, coadjuvadas por duas jovens condutoras e sob o olhar atento do monitor Tiago Soares. Apesar da média das suas idades rondar os 7 anos, numa classe inteiramente feminina, nenhuma experimentou sérias dificuldades e todas se encantaram com o convite, demonstrando assim a sua atenção nas aulas e o seu gosto em aprender e participar. Os cães não lhes ofereceram resistência e entenderam que estavam ali para a sua protecção. O carinho das crianças fez-se sentir no final da sessão, emanando a ternura que os cães reclamam e tanto gostam. Porque elas mereceram e cumpriram acima das expectativas, iremos certamente repetir momentos iguais a este. Para além do gozo da pequenada e o do olhar embevecido dos seus pais, importa ensinar aos cães o respeito pelas crianças, meta que foi alcançada e que necessita constantemente de ser reavivada.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A FICHA DE INSCRIÇÃO COMO MEDIDA DE PRECAUÇÃO

Na ficha de inscrição escolar de um cão sempre deverá constar o seu histórico clínico, um espaço reservado para a anotação das doenças que contraiu, as operações a que foi sujeito e os acidentes em que incorreu, assim como as suas limitações, incapacidades e propensão para ataques ou colapsos, devendo ali constar também se é portador de próteses ou não e se está a tomar medicamentos, porque os donos omitem pormenores de suma importância que nos poderão colocar em maus lençóis e com a “vaca em braços”. Manda a precaução que este procedimento seja respeitado.

GINÁSTICA CORRECTORA E FREQUÊNCIA DOS RITMOS VITAIS

A ginástica correctora, como o próprio nome indica, visa a recuperação dos indivíduos caninos através da supressão das suas menos valias físicas, valendo-se para isso de exercícios de locomoção específicos, tirados a partir dos seus andamentos naturais, naturalmente desusados ou parcialmente comprometidos. Ao mesmo tempo, serve-se de obstáculos específicos, comummente tratados como aparelhos, para a necessária correcção de aprumos, condição essencial para o bem-estar dos animais, qualidade de vida, longevidade e melhor aproveitamento do seu potencial. Para que estes objectivos sejam alcançados e a correcção seja um êxito, importa respeitar a frequência dos batimentos cardíacos de cada animal, para que a terapia não se revele contraproducente e coloque em risco a vida de um ou mais cães. Assim, a carga, a intensidade e a frequência dos exercícios correctores deverão considerar a resistência e o tempo de recuperação de cada indivíduo. Perante cachorros que aumentam drasticamente o seu ritmo cardíaco, mais vale parar amiúde e parcelar os exercícios do que correr riscos desnecessários.

COMO RESOLVER A ANOMALIA DO “PEITO ESTREITO” OU INVERTIDO

Naturalmente o “peito estreito” está associado ao “pé de lebre” e ao abatimento dos metacarpos, é típico dos cães corredores que geralmente apresentam maior largura nos eixos traseiros. Na correcção morfológica existe uma regra de ouro: recuperar primeiro os aprumos e só depois o resto”, quer se trate do peito, da espádua, do dorso ou da garupa, o que neste caso aponta imediatamente para a recuperação dos metacarpos, normalmente associados à presença do “pé chato” (dedos espalmados e afastados entre si). Para a recuperação dos metacarpos, se a anomalia não resultar da descalcificação, seremos obrigados a manter o peso do cachorro de acordo com a tabela de crescimento da sua raça e segundo o particular da sua envergadura, já que o aumento inadequado do seu peso mais comprometeria os nossos propósitos. Para resolver o abatimento de metacarpos, a marcha em terra surge como o melhor dos subsídios, quando acompanhada pelos benefícios do extensor de solo e complementada com subidas e descidas naturais até 45 graus de inclinação. O convite para pequenos saltos verticais consecutivos, nunca superiores a 50 cm de altura, tem-se revelado também muito proveitoso e contribuído para um melhor assentamento. A luta pela posse dos objectos (churro ou outros brinquedos), deve também aqui ser considerada. Só depois da recuperação dos metacarpos, que é tarefa para o 1º Ciclo Escolar e que acontece entre os 4 e os 6 meses de vida dos cachorros, passaremos à correcção e aumento do peito, uma vez eliminada a concavidade dos aprumos dianteiros. O extensor de solo, os obstáculos elevadores, a ponte-quebrada, as verticais, a paliçada, a passerelle e a mesa alemã, aqui transformados em aparelhos, são preciosos auxiliares escolares para o aumento e correcção do peito, quando secundados pela natação e pela marcha suave sobre pisos arenosos a desenvolver no perímetro doméstico. A marcha deverá sobrepor-se ao galope, porque o segundo andamento pouco muscula à frente e naturalmente robustece a traseira. Nenhum cachorro com mais de 100 pulsações por minuto em descanso deverá ser convidado para qualquer tipo de ginástica correctora. O trabalho de recuperação obriga a dois meses de terapia, a 5 sessões semanais de trabalho útil com uma duração de 45 minutos cada. A duração do trabalho útil deve ser igual ou até inferior aos momentos dedicados ao descanso, à recuperação e à supercompensação, para que o estímulo se mantenha, as motivações surtam efeito e o estoiro não aconteça.

“X” DE JARRETE DE VACA

O “jarrete de vaca”, designação comum para o desaprumo em “X” dos membros posteriores nos cães, é uma anomalia física geralmente hereditária ou provocada por estados de subnutrição, que irá comprometer o bom desempenho atlético dos indivíduos seus portadores. Existem raças mais propensas a esta forma periclitante de equilíbrio, nomeadamente as mais compridas e mais anguladas, cujo excesso de convexidade lamentavelmente a isso induz. Quando o problema é de origem genética, a sua eliminação absoluta torna-se quase impossível, a menos que operemos a sua correcção entre os 4 e os 6 meses de idade de um cachorro, altura em que a sua plasticidade física é notória e acompanhada cognitivamente de igual modo. Para que tal aconteça, teremos de nos valer dos obstáculos e aparelhos correctores presentes na pista válidos para a solução do problema. São eles a piscina, a paliçada a 30 graus e o extensor de solo, porque a natação é aqui válida, as subidas induzem ao aprumo e o equilíbrio membro a membro opera maravilhas. A adição de 1 km diário de marcha reforçará a solução e só depois da aquisição deste andamento natural se deverá passar ao concurso dos obstáculos indicados. Nenhum cachorro com mais de 100 pulsações por minuto poderá concorrer a esta terapia, que deverá acontecer durante dois meses, cinco vezes por semana e com uma duração diária de 45 minutos (distribuídos pelos 3 aparelhos), uma vez respeitada a recuperação e os tempos de supercompensação típicos e necessários aos cachorros. Como é sabido, sempre que a temperatura da água se encontrar abaixo dos 15 graus centígrados, o concurso da piscina deverá ser desconsiderado (desprezado).

A CAUDA: MAIS DO QUE UM DETALHE

Todas as figuras de obediência visíveis nos automatismos de imobilização são posturas de esfinge, quer se intente parar, sentar ou deitar um cão. Evolui-se naturalmente do travamento para o “senta” e deste para o “deita”. A posição da cauda dos animais na obtenção das figuras tem um papel importante, porque dela dependerá o equilíbrio ou desequilíbrio dos cães, a execução consertada ou a sua adulteração. Para que a cauda não atente contra as figuras, é necessário que na obtenção do “senta” cada condutor a estique completamente na continuação do dorso do cão. Havendo este cuidado, que breve se transformará num hábito para o animal, por força do condicionamento, dificilmente ele se irá deitar “à vaca” (desequilibrado de patas traseiras). A sorte do “deita” joga-se no “senta” e a sua correcção opera-se exactamente na figura que o antecede cumprindo-se o procedimento atrás indicado. A isto se chama retorno à 1ª fase, porque mais vale corrigir do que persistir no erro, atitude que, quando desrespeitada, transformará qualquer monitor num palhaço a desprezar. Quer que o seu cão se deite bem? Então, ensine-o a sentar-se correctamente.

OBSTÁCULOS E PERCURSOS DE EVASÃO

Sinceramente nunca vimos e continuamos sem ver quais as vantagens para os cães ao serem licenciados tanto nas Juntas de Freguesia quanto nas Câmaras Municipais, apesar de não duvidarmos dos benefícios de tal procedimento para a saúde pública. Que contrapartidas oferecem as autarquias aos proprietários caninos? Eventualmente a entrega gratuita de sacos de plástico para os dejectos dos bichos, muito raramente sanitários para os animais, constantemente um chorrilho de proibições, invariavelmente a recolha dos cães vadios e costumeiramente a certeza semanal do seu abate. Não queremos com isto ser paladinos de causa alguma, arautos de qualquer partido (a constituir ou já constituído), somente queremos compreender porque pagamos e para quê, já que daí não nos resulta qualquer benefício. Não deveriam as autarquias, à guisa de retribuição, oferecer terrenos destinados e adequados para os cães, onde manteriam um espaço destinado para as suas necessidades fisiológicas e uma pista de manutenção dedicada ao seu bem-estar e exercício? Talvez seja melhor ver um ciclista, serra acima, possesso e com um cão no seu encalço ou um maratonista a rebocar outro pelos fundilhos! Será impossível estabelecer um convénio entre as autarquias e as escolas caninas para estender o adestramento a todos quanto precisam dele? Mais do que uma questão de princípio, esta é uma questão de justiça, considerando os direitos de cidadania e a existência dos animais que não deveriam ser jogados em saco roto. E nisto podíamos ser pioneiros, porque a necessidade é premente, terreno não nos falta e o investimento será diminuto. Num País pobre como o nosso (parece que agora já ninguém duvida disso, onde hoje se roubam cabos de telefone, batatas, couves e pimentos), não deveriam os adestradores militares e policiais ser colocados ao serviço da população, uma vez que são pagos por todos nós e neste momento a juros altíssimos? Qual será escolha mais razoável: a prevenção ou a repressão?
Enquanto tal não for possível e não existirem pistas municipais caninas, importa conhecer e desnudar as existentes nos centros cinotécnicos civis e militares, porque cada uma delas serve um ou mais propósitos e evidencia quais os seus objectivos, a sua filosofia de ensino e a razão de ser dos seus simulacros, intimamente ligados à natureza dos obstáculos, à sua combinação, disposição e benefícios. As pistas de obstáculos podem ser assim divididas (a grosso modo): tácticas, de manutenção, de competição, de exibição e de resgate e salvamento. Ainda antes da caracterização ou identificação de cada uma delas, queremos manifestar a nossa estranheza pelo desprezo actual relativo à ginástica cinotécnica, hoje erroneamente entendida como obsoleta e associada ao estoiro dos animais, o que tem levado a um menor conhecimento biomecânico e por consequência ao subaproveitamento e despreparo dos cães, desprezando em simultâneo a correcção morfológica e o robustecimento do seu carácter, benefícios interligados e indispensáveis ao melhor apetrechamento canino. A maioria das pistas actuais são de uma pobreza gritante, mais vocacionadas para o gozo dos donos do que pró benefício dos cães, onde a procura da modalidade ignora ou despreza a ginástica de base que melhor a subsidiaria. A somar a isto, lamentamos o abandono a que foram sujeitas muitas pistas militares, outrora verdadeiros símbolos das unidades e agora transformadas em paraísos para pardais e gafanhotos, isto porque os caracóis vêm agora de Marrocos. Caso contrário, também por lá andariam sem ser incomodados!
Sobre as pistas de competição e de exibição, que podem abraçar e contemplar disciplinas como o agility, a pistagem e a guarda, servindo ao mesmo tempo como pistas de manutenção, pouco haverá a acrescentar ao que é público e do conhecimento geral, porque estão na moda, são baratas e não carecem de actualização, estando por estas razões presentes em todo o lado. As pistas destinadas à prestação de socorro, ao salvamento e ao resgate são praticamente inexistentes em Portugal, porque acontecem a dois níveis: um à superfície e outro no subsolo, o que as torna dispendiosas e carentes da logística inerente à novidade tecnológica. O treino destas disciplinas, na ausência de pistas próprias, tem-se remetido a uns tantos obstáculos e exercícios específicos, à procura de simulacros no exterior e ao ávido embarque pràs calamidades alheias que acontecem um pouco por todo o mundo, quando à verba e não resulta em prejuízo para o serviço. A qualidade dos cães destinados a estas missões irá depender do número das suas participações, onde irão literalmente treinar e ganhar experiência, não raramente sem prévia preparação e surpresos pelo particular de cada situação. Contudo, em muitas áreas do salvamento e resgate, existem bons binómios (civis e militares) de créditos firmados em determinados serviços específicos tanto em terra como no mar. Em prol do povo e perante as alterações climáticas, responsáveis por fenómenos de estranha dureza e de consequências inesperadas, vemos com bons olhos o número crescente destes binómios entre os bombeiros.
As pistas tácticas são cada vez mais raras no nosso País (talvez os dedos de uma mão cheguem e sobrem para as contar), porque carecem de actualização, necessitam de maior investimento, reclamam por mais espaço (cerca de 1 hectare), os seus obstáculos e aparelhos não são fáceis de encontrar, a sua fabricação obriga ao uso de diferentes materiais (de acordo com os encontrados no quotidiano), e mais importante que tudo isto: dificilmente se encontrará quem as saiba montar de acordo a biomecânica canina e a sua capacidade de resolução, pois não sobra por aqui saber e experiência para tal. Mas antes assim, porque doutro modo seriam os cães a pagar as favas, porque a endurance tem regras, exige um crescimento gradual e baseia-se nos princípios gerais da pedagogia de ensino, não pode ser encarada de ânimo leve e exige dos binómios superior aplicação, condições difíceis de encontrar à partida num mundo dominado pela subjectividade. Graças ao seu avultado custo e à ignorância das suas vantagens, a começar pela hidroterapia e indo pela fisioterapia adiante, raríssimos são os centros caninos que têm piscinas para oferecer aos seus alunos, o que não deixa de ser um terrível contra-senso face à necessidade da correcção morfológica, da recuperação de lesões e de um melhor apetrechamento, para já não se falar da própria sobrevivência animal, porque nem todos os cães sabem nadar e muito poucos o fazem correctamente (com a totalidade dos membros abaixo da linha de água).
O que caracteriza as pistas tácticas é a multivariedade de obstáculos que possibilita o melhor aproveitamento interdisciplinar, dispostos de acordo com os desafios do quotidiano e apostados na sobrevivência animal, afim de garantirem os graus de operacionalidade e os indíces atléticos para as distintas funções caninas. Uma pista táctica sempre compreenderá obstáculos de pré-treino e correcção morfológica (ali tratados como aparelhos), obstáculos de índole ou carácter, técnicos e específicos, dispostos estrategicamente e em sequências evolutivas, visando acções relativas à competição, exibição, pistagem, salvamento, resgate e evasão, melhor subsidiando os cães guardiões, indiciando reprodutores capazes e operando em simultâneo o socorro binomial ou o necessário a cada um dos seus membros isoladamente. Como a pista táctica carece de actualização e reproduz em laboratório as dificuldades encontrados no dia a dia dos cães, ela é ao mesmo tempo de manutenção e de inovação, porque recapitula e transforma os códigos de acordo com as necessidades, evitando assim a surpresa causada pela novidade dos desafios, já que o objectivo primordial do adestramento é a sobrevivência animal. A supressão deste propósito no treino canino sempre nos remeterá para a actividade circense e transformará as escolas em verdadeiros ATL’s.
Como não poderia deixar de ser, os percursos de evasão sempre farão parte integrante de uma pista táctica, porque os cães estão sujeitos ao roubo e os donos poderão precisar deles para serem resgatados, o que obrigará à construção e uso de obstáculos específicos para esse fim. O concurso aos percursos de evasão dotará os cães de meios para o desencarceramento binomial e facilitará o seu retorno a casa, quando indevidamente perdidos, retidos, capturados, amarrados ou detidos e entregues a si próprios. A natureza dos obstáculos deverá suscitar todo um conjunto de acções que se irão transformar em requisitos caninos para a evasão. Estamos a falar do corte de arame e corda, de escalar e escavar, de nadar, de rastejar, retraçar, saltar e de outras mais. O suporte destas acções virá da ginástica cinotécnica e alcançará a endurance, porque de outro modo seria muito difícil suportar as diferentes sequências de obstáculos que propiciam a evasão. É evidente que por detrás de tudo isto se encontra e procura a obediência inquestionável, enquanto base e pré-requisito de todo e qualquer adestramento. Muitas das acções tidas como de evasão estão presentes nos cães mais instintivos ou naqueles que foram seleccionados para uma determinada função, resultando assim de forma automática e dispensando para o efeito de qualquer tipo de ordem, o que tanto pode constituir-se numa vantagem como numa desvantagem, consoante se considere o seu aproveitamento ou uso desautorizado, o que nos remeterá mais uma vez para o superior aproveitamento na disciplina de obediência. A aprovação nos percursos de evasão possibilitará ainda acções ofensivas e defensivas, onde a autonomia condicionada dos cães poderá vir a revelar-se indispensável, quer substituindo a presença dos seus condutores ou complementando o seu trabalho. O treino da evasão é uma obrigação e não uma opção, a menos que queiramos ficar sem cão!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

JUGO E GRATIDÃO

Apesar da amizade dos cães não ser desinteressada, a tanto lhes impele o instinto de sobrevivência, eles são extremamente gratos e não se esquecem daqueles que os trataram bem. Pela mesma razão e de igual modo, dificilmente esquecerão aqueles que os ignoraram ou maltrataram, podendo inclusive, um dia mais tarde, tomá-los de ponta e procurar um ajuste de contas, porque vivem em constante aprendizado e tomam a experiência como lições de vida. A ausência da perspectiva de futuro reforça a importância do passado e cada cão encontra-se cativo as marcas do seu trajecto, quer ele tenha sido isolado ou acontecido na companhia de outros cães. Isto relega-nos para a importância do imprinting, período que decorre entre o nascimento e os 50 dias de vida de um cachorro, altura em que grava a primeira experiência de sociabilização com os humanos através da pessoa do seu criador, personagem que esquecerá ou não, dependendo isso dos cuidados que ele lhe dispensou nessa ocasião. A experiência feliz, mercê da gratidão e para além doutras implicações, levará o cão a reconhecer o seu criador e a nunca se esquecer dele, por mais árduo que tenha sido o seu treino ou a delonga na sua separação. Inversamente, os criadores menos zelosos e pouco implicados, cedo serão esquecidos, poderão vir a ser encarados como desconhecidos e merecer dos cães alguma suspeita, particularmente quando o compromisso dos novos proprietários for substancialmente mais rico e afectuoso em relação ao havido com a ninhada.
Por outro lado, a aquisição de um cachorro depois dos 6 meses de idade, poderá apresentar algumas dificuldades acrescidas na aceitação do novo dono, por causa das regras e do tipo de hierarquia assimilados até então, enquanto bases do seu viver social que naturalmente resistirá à mudança. É evidente que tudo irá depender da experiência directa do cão, do tipo de adopção a haver, da qualidade da adaptação e da excelência do novo proprietário, mais apostado no bem-estar do animal do que na recolha de benefícios pessoais, atitude indubitável de reforço positivo.
A libertação do jugo que naturalmente culmina com o abandono de alguns cães, tornados assim vadios e ávidos de protecção, torná-los-á gratos em qualquer idade, aceitando de “braços abertos” a adopção e a pessoa que a assume, porque a transição para melhor acontece naturalmente e o inverso só é possível pelo uso da força. O primeiro processo induz à felicidade e à gratidão, o segundo à infelicidade e ao medo. Só a gratidão de um cão poderá operar o seu total aproveitamento e uso, possibilitar-lhe a adopção de respostas artificiais e provocar-lhe uma parceria autêntica e incondicional. Assim é com os cães, assim é com os homens também!

OS GENERAIS KLINKERHOFFENS DA WEHRMACHT CASEIRA

Não queremos aqui desprestigiar o bom trabalho do actor britânico Hilary Minster na série da BBC ‘Allo ‘Allo, que esteve no ar de 1982 a 1992, mas aproveitar a sua personagem para identificar outros generais Klinkerhoffens, também eles caricatos, que abundam pela cinotecnia, clientes de outras guerras e dominados igualmente pela ficção. Na realidade deste País de brandos costumes, sempre sobram alguns indivíduos mais bélicos e conflituosos, gente que irá usar os seus cães para o alcance da wehrmacht caseira, transformando-os em picadores de carne e pagando para que tal aconteça, mesmo que nada tenham para guardar ou não lhes seja reconhecido qualquer inimigo. Esta plebe abomina injustificadamente a disciplina de obediência e reclama por brevidade, pula de escola em escola e sempre acabará por encontrar quem lhe satisfaça o nefasto desejo, mesmo diante da impropriedade dos seus cães e do seu descontrolo. Se há cães que exigem um controlo absoluto e uma obediência inquestionável, exigindo em simultâneo donos atentos, activos e responsáveis, eles serão certamente os destinados à guarda, porque são armas, causam sério dolo e podem ser letais, o que face aos “acidentes” causados transformará qualquer desculpa numa banalidade. Comparando os cães do passado com os actuais, considerando ao mesmo tempo o trabalho dos seus mestres, talvez os do presente mordam mais, mas são significativamente menos obedientes e mais imprevisíveis. Entre o sonho e a realidade, porque o primeiro tende a omitir as dificuldades, há que considerar as vítimas e o futuro dos animais. Que tal dar um churro a certos donos para que mordam até cansar?

O DESPERTAR DA NOITE

Causa-nos alguma surpresa que muitas escolas caninas não laborem à noite ou não providenciem actividades nocturnas para os seus binómios, desprezando dessa forma as vantagens que ela oferece para o policiamento e prá detecção, enquanto ecossistema privilegiado para a obtenção de respostas naturais inerentes ao ofício guardião. O particular da noite tende a consertar a distracção e a dispersão diurnas, induz à potenciação sensorial canina e acciona os mecanismos que a sustentam, reforçando dessa forma os vínculos binomiais e os seus propósitos pelo superior desempenho dos cães. O hábito do trabalho nocturno acelera a absorção dos conteúdos de ensino e reforça as induções indispensáveis aos cães de protecção civil (guarda, defesa e alarme), funcionando como o melhor dos simulacros para essas investiduras ou atribuições. E como nestas coisas não há como ver para querer, experimente sair à noite com o seu cão, sente-se num banco de jardim com ele ao lado, e veja se há verdade naquilo que agora dizemos. Se por acaso adormecer, não se preocupe, o cachorro acordá-lo-á se houver necessidade disso. Estamos no Verão, as noites são serenas e convidativas – vale a pena experimentar!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

OLHOS VIDRADOS, BOCA ABERTA, ESTENDIDO E COM UMA POÇA DE SANGUE À SUA VOLTA

Algumas ruas deveriam chamar-se “dos cães mortos”, porque nelas sempre vêem cães atropelados, de olhos vidrados, boca aberta, estendidos e com uma poça de sangue à sua volta, permanecendo à beira das estradas por alguns dias, com a carcaça descolorada, a língua a deteriorar-se, os olhos baços, carregados de moscas e exalando um cheiro nauseabundo. Como nem todos aguentam a imagem, muitos viram a cara para o lado e tentam distrair-se pensando noutras coisas, muito poucos os levantarão e lhes darão descaminho, nem que seja até ao contentor do lixo mais próximo. A infelicidade não escolhe raça, cor, tamanho, sexo ou idade, nem todos os assim abatidos foram vadios e muitos deles foram amados, tiveram uma casa, uma família e um dono. Destes, não menos importantes que os outros, a causa do infortúnio resultou-lhes da fuga, da irresponsabilidade dos donos e da sua falta de preparo, gente pouco ou nada precavida, que entregou e continua a entregar a vida dos seus companheiros à sorte – à má sorte! Apesar do terrível desfecho, amiúde e um pouco por toda a parte, vêem-se donos a soltar cães em parques e jardins ao longo de estradas muito movimentadas, sem terem a certeza do seu retorno e sujeitando-os a um fim indesejável, quase certo e previsível, como se a insanidade não tivesse remédio, o perigo não espreitasse e a solução não fosse possível. Diante do desastre, importa dar combate à ignorância, salvar os cães e convidar todos os proprietários caninos para os bons ofícios da escola canina mais perto das suas residências, porque dela virá o auxílio e todas saberão certamente como resolver o problema. Até lá, se não tem como garantir o retorno pronto do seu cão, por favor não o solte e não ponha em risco a sua vida e a de outros. Importa diminuir a mortalidade canina nas estradas e você pode contribuir para isso, previna-se!