quarta-feira, 15 de junho de 2011

O CALCANHAR DE AQUILES E A INVULNERABILIDADE BINOMIAL

A conduta de um adestrador deverá ser pautada pela procura da verdade no desempenho das suas funções, mesmo que de inicio seja incompreendido ou abandonado. Isso irá obrigá-lo a descobrir em cada binómio as suas menos valias ou inaptidões, para que as levem de vencida e o adestramento valha a pena. A descoberta dos pontos fracos, muitas vezes ignorados pelos seus portadores, é uma meta que não pode dispensar, atendendo à salvaguarda dos cães e às expectativas dos seus proprietários, porque o objectivo é a invulnerabilidade binomial. Sempre será mais fácil semear expectativas do que colher frutos, pois as palavras leva-as o vento e o que sobra são os factos. Nenhuma mão de ajuda tem préstimo se não acudir à dificuldade, transformar a fraqueza em força é um dos objectivos mais urgentes do adestramento. Quem não está preparado facilmente será confrontado com a surpresa e nós estamos cá para capacitar, para ajudar a vencer as dificuldades dos que nos procuram. Amanhã agradecer-nos-ão por termos sido “chatos” e instado com eles até à mudança, porque nem todos atingem de imediato a percepção e a dimensão real dos exercícios. Como robustecer é para nós uma palavra de ordem, sempre nos veremos obrigados a descobrir as fraquezas de cada binómio no adestramento – o seu calcanhar de Aquiles.

LS TIOS DE LISBOUA TÉNEN PERROS I NUN SE LES BÉNEM LAS CANHONAS

À procura dos benefícios do sol e observando tudo à sua volta, um casal de idosos bem disposto e melhor refastelado num banco de jardim, comentava alegremente os hábitos e costumes da gente que por ali passava. Ninguém entendia peva do que diziam e também não tinham ar de ser turistas. Vendo o trabalho dos cães da escola, o homem comentou: “ ls tios de lisboua ténem perros i nun se les bénem las canhonas!” Curioso pela novidade, um dos nossos alunos foi entabular conversa com eles, saber quem eram, donde vinham e que raio de língua falavam. Para espanto seu, o casal respondeu às questões em português sem mácula, porque eram transmontanos, do Distrito de Bragança, do Concelho de Miranda do Douro e originários duma aldeia chamada Malhadas. A língua que falavam entre si era o mirandês, já tinham sido emigrantes em França e estavam agora de visita a Lisboa. O comentário que o homem havia soltado ao ver tanto cão, seria mais ou menos este (numa tradução arriscada): “ os tios de Lisboa têm cães e não se lhes vê as ovelhas!” A exclamação compreende-se pelo seu passado rural e pelo recurso à pastorícia nos tempos da sua meninice, quando os cães guardavam os rebanhos e auxiliavam os pastores pelo planalto mirandês afora. Para eles, ter cães sem ovelhas continua a ser um desperdício, quer o digam em “pertués” ou em “”mirandés” (sendinés), neste País bilingue.

PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS

A grosso modo poderíamos dividir os criadores e adestradores entre eruditos e oficinais, na aversão de muitos em ligar a erudição ao empirismo e vice-versa. À revelia de uns quantos eruditos, andam por aí alguns oficinais a cruzar pastores alemães com malinois, na procura das vantagens presentes em cada uma das raças, ardil que agora acontece um pouco por toda a parte. Temos seguido com atenção o produto desta “restemenga” e nada nos convenceu da sua excelência, até porque a selecção das duas raças obedeceu a pressupostos diferentes. Os tão aguardados mestiços acabam por retornar ao atavismo comum às duas matrizes, desprezando a selecção alemã, fortemente empenhada na procura da excelência do impulso ao conhecimento. A versatilidade do Deutscher Schäferhunde sucumbe perante a carga instintiva e é substituída por um forte impulso à luta, aumentando a dificuldade de controlo dos animais, podendo obrigar no seu adestramento a meios ou métodos mais coercivos. Muitos dos exemplares já produzidos apresentam um medo latente a uma desconfiança até então nunca vista. A maioria dos pastores alemães usados nesses cruzamentos é proveniente das linhas estéticas ou de exemplares laborais pequenos e de pouca envergadura, o que tem gerado exemplares com um CAP abaixo de 2 nos machos (exemplares com 60 cm de altura e com menos de 30 kg), o que torna sofrível a sua apresentação e poder dissuasor. A sua ossatura é mais frágil quando comparada com a do pastor alemão e o crânio é mais alongado, assiste-se à perca das angulações traseiras e à diminuição do comprimento da cauda. Alguns exemplares são naturalmente selados e o seu manto apresenta-se rarefeito. Subsistem ainda alguns cachorros preto-afogueados. O seu andamento preferencial transitou da marcha para o galope, o que é uma vantagem, porque melhora os índices de prontidão e o cão “come” mais metros por segundo. A sua força de impacto é maior devido ao aumento da velocidade nos ataques lançados, assiste-se ao ataque a vários golpes e a distintas zonas (tendencialmente o mestiço cai sobre tudo o que mexe). Contudo, a sua fragilidade é por demais notória nos contra-ataques, já que o cão pesa menos e pode ser projectado sem grande dificuldade (alguns saiem lesionados dos ataques, normente dos membros anteriores). O mestiço é mais guerrilheiro do que soldado e apresenta alguma dificuldade na identificação dos inimigos, resiste mais às ordens e sempre procura serviço, o que o transforma no cão ideal para vigilantes e justiceiros, para quem gosta de “molhar a sopa” e sempre procura inimigos. Há quem goste de cães assim, nós não!

A CRISE ECONÓMICA E OS CÃES

Os cães são um bom barómetro para avaliar a situação económica de um país, porque a canicultura e a cinotecnia avançam ou recuam de acordo com o poder económico da classe média, porque é ela que as sustenta e a ela se deve o seu desenvolvimento, já que não conseguimos alterar as preferências das classes mais abastadas, mesmo que lhes levantemos os fantasmas da insegurança e do aumento da criminalidade (parece que nem o inferno lhes mete medo!). Diante da actual crise económica, agora já ninguém duvida que ela existe e que vai perdurar por mais algum tempo, os consultórios veterinários são menos concorridos, as inscrições escolares diminuem, alguns alunos estão desempregados e a procura de ração barata aumenta. A incidência de ninhadas é menor, o preço dos cachorros baixa e estabelece-se a venda a prestações, factos que muito agradam aos borlistas e que se constituem em excelente ocasião de negócio para alguns mais endinheirados. Os hotéis caninos vêem diminuir a sua afluência, as preferências assentam sobre os cães mais pequenos e tudo somado vai aumentar o abandono e abate do lobo familiar. Será que tínhamos cães a mais ou haveria muita gente sem condições para os ter? Independentemente das respostas, cada escola canina deverá viver de acordo com o particular da sua clientela e usar os seus membros para a sua divulgação e desenvolvimento, desenvolver um conjunto de estratégias que tornem o adestramento mais apelativo e alcançar novas utilidades para os seus cães, porque estamos perante um duro processo selectivo e só os adaptados sobreviverão. Hoje mais do que nunca, todos os sectores ligados à canicultura devem unir-se e disso dependerá a sua sobrevivência (criadores, proprietários, veterinários e adestradores, entre outros), porque o que a uns falta… não sobra aos outros. Esta necessidade, tornada sensível pela agudez económica, já há muito deveria ser contactada e implementada, porque como diz o povo e nisto parece ter razão: “Não há mal que sempre dure e bem que nunca se acabe”. Porem, ainda temos a esperança que os dias maus terão fim e sabemos que só a solidariedade poderá colmatar os dramas individuais. Nisso os portugueses sempre se agigantaram, suportando os momentos de crise e indo adiante. O desafio repete-se e a solução já é de todos conhecida. Porque persistimos nós (Acendura), em fazer da escola uma família? Dar-nos-ão razão agora?

GINÁSTICA CINOTÉNICA CORRECTIVA: 10/3 DMEX – A SOLUÇÃO PARA A ESPÁDUA

Jamais se poderá desligar a figura do adestrador à do preparador físico canino, porque o treino é dinâmico e deve produzir alteração, o desenvolvimento atlético facilita o avanço cognitivo e o adestramento não dispensa a ginástica cinotécnica correctiva, enquanto subsídio inestimável para o melhor alcance das prestações caninas. A correcção morfológica, quando possível pela plasticidade inerente à idade dos cachorros, deve anteceder a obtenção de qualquer movimento ou figura, para que elas aconteçam naturalmente, graciosas e irrepreensíveis. Tudo isto nos transporta para o conhecimento anterior das distintas morfologias presentes nos cães e para a sua biomecânica, na relação indivisível entre carácter e morfologia, porque ambos formam um todo e cada um influi no outro, facilitando ou dificultando a tipicidade segundo as características individuais de cada cão. A recuperação de um animal, para além das considerações etológicas e psicológicas, não dispensa o conhecimento e aplicação das leis biológicas intimamente ligadas à física e à matemática, porque elas identificam o problema, equacionam os exercícios e dão-nos a solução. O abatimento da espádua em relação à altura da garupa, quando não intencional e típico de uma ou várias raças (cite-se o exemplo do Border Collie), é uma incapacidade física que pode estar ligada à fraqueza de carácter, a uma aceitação traumática ou exagerada da hierarquia social e também à precariedade da condução, fortemente conotada com a incapacidade física dos condutores. Como a anomalia morfológica tende a influir directamente no carácter ou a resultar dele, o que levará apenas ao aproveitamento parcial do potencial canino, importa levá-la de vencida para melhorar o carácter, porque a alteração da postura induz à aceitação doutros desafios, transmite confiança e diminui os medos inusitados. O levantamento dos anteriores não dispensa o concurso das barreiras verticais, já que cães com estas características sempre se agacharão diante de qualquer convite e tornar-se-ão lamechas. A altura indicada para as verticais é de 60 cm e distanciadas segundo a fórmula: 10/3 de DMEX (na sua última fase).
DMEX é a sigla para a distância média entre eixos, o comprimento médio entre os anteriores e os posteriores dos cães, que é também de 60 cm. Como a transposição das barreiras carece de ser a galope e o cão nesse andamento natural cobre mais metros, convém distanciá-las de acordo com o nosso propósito, que é o de impedir que o cão reduza o andamento e que as venha a saltar consecutivamente, sempre de espádua levantada e mantendo a constância no galope. A distância entre elas deverá ser igual a 3 X DMEX + 1/3 de DMEX = 10/3 de DMEX (60 X 3 + 20 = 200 cm/ 2 metros). O condicionamento carece de ser à trela e não dispensa o ânimo e o adiantamento do condutor em relação às transposições efectuadas pelo cão. Nos cães mais corpulentos ou isentos de maior plasticidade, essa distância deverá ser reduzida para 180 cm. Com isto evitar-se-á o estoiro do animal que geralmente produz justificada resistência, desinteresse ou aversão. Contudo, numa fase ulterior jamais se dispensará a distância de 10/3 de DMEX. Convém que o piso seja de relva ou de terra não muito dura, e nunca arenoso, para evitar a dureza dos impactos, o enterrar dos membros e proporcionar saltos mais cómodos prò animal.

Com uma carga horária de 20 minutos diários, repartidos por duas sessões de 10 e no período de 2 meses, o cão alcançará a correcção desejável, benefício que contribuirá para o nivelamento do dorso, para o aumento da sua resistência e velocidade funcional, para o robustecimento do seu carácter e para a melhoria dos seus ataques lançados, para uma maior autonomia e para a aceitação de novos desafios, porque estas acções encontram-se interligadas e dependem umas das outras, constituindo um todo que melhora pelo benefício das partes. A frequência cardíaca do animal a corrigir nunca deverá ultrapassar as 120 pulsações por minuto e a temperatura ambiente deverá estar abaixo dos 28º e acima dos 11º centígrados. O sentido da marcha correctora deverá evitar o encadeamento do cão e o solo deverá ser plano. Geralmente usam-se 5 barreiras verticais para o efeito, mas o seu número pode ser aumentado em função da resposta afirmativa do animal. A transição consecutiva das barreiras não dispensa a recompensa no final de cada trajecto, carga de ânimo que melhor suporta a mecanicidade das acções.



O espaço entre barreiras de 2 metros, tirados a partir duma DMEX de 60 cm, é o indicado para os cães entre os 55 e os 65 cm de altura, porque qualquer distância média entre eixos é própria para os animais até 5 centímetros a mais ou a menos do seu valor exacto. Considerando o tamanho das diversas raças de cães presentes no treino, os valores da DMEX serão respectivamente de 38, 49, 60, 71 e 82 cm, sendo o primeiro valor para os cães entre os 33 e os 43 cm de altura, o segundo para os de alturas entre os 44 e 55 cm, o terceiro próprio para os animais entre os 55 e 65 cm, o quarto para os que medem entre 66 e 76 cm e o quinto próprio para os cães entre os 77 e os 87 cm de altura. A altura das barreiras será de 40 cm para o primeiro caso (DMEX de 38), de 60 para o segundo, terceiro e quarto casos (DMEX de 49, 60, 71), e finalmente de 80 cm para o último caso (DMEX de 82). Ficam automaticamente dispensados deste exercício os seguintes cães: os portadores de insuficiência cardíaca ou respiratória, os epilépticos, os de CAP superior a 1.5, os de idade superior aos 8 anos e os displásicos, porque o seu concurso poderá agravar substancialmente as suas incapacidades e ser-lhes fatal. Nestes casos aconselha-se o recurso ao Extensor de Solo. A prática dos saltos verticais consecutivos tem-se revelado a melhor terapia para o levantamento e robustecimento da espádua, o que alivia o esforço de garupa, equilibra a abertura de pés e mãos, combate a concavidade do dorso, levanta a cabeça e liberta os ombros para uma maior projecção. Os cachorros só serão convidados para este exercício depois da maturidade sexual, normalmente após os 7 meses de idade.

PELO “QUIETO” TAMBÉM SE ALCANÇA O “AQUI”

Como é sabido, o comando de “quieto” é um automatismo de travamento, mas os seus benefícios não se remetem em exclusivo à imobilização pura e simples ou ao reforço da liderança humana, vão para além disso e acabam também por abraçar o comando de “aqui”. Como o alcance do “quieto” irrepreensível visa a fixação exclusiva na pessoa dono e não permite que o cão olhe noutra direcção, o “aqui” encontra-se facilitado, porque o cão espera a ordem e não nasceu para estar parado, muito menos em figura de esfinge. Do mesmo modo, qualquer “aqui” perde significado perante a insuficiência do “quieto”. Nada disto se constitui numa novidade, já que o adestramento convencional assenta basicamente sobre três comandos: “junto”, “quieto” e “aqui”, comandos esses que irão oferecer a futura condução em liberdade.

A OLHAR PELO PASSARINHO

Enquanto os condutores almoçavam, alguém teria que guardar o passarinho. Coube ao Sane tal tarefa e o canário agradou-se da companhia. Enternecidas pela imagem, as pessoas paravam amiúde, surpresas e encantadas por ambos. O Sane manteve-as à distância e não consentiu que alguém mexesse na gaiola, o que permitiu ao canário cantar livremente e deliciar-se com um radioso dia de sol, à sombra da laranjeira e rodeado de outras aves. Obrigado Sane, sabemos que podemos contar contigo!

ADESTRAMENTO POPULAR: A MILENAR PEDRA DO PASTOR

Os pastores sempre foram muito certeiros no arremesso de pedras, talvez pela necessidade e por terem muito tempo para treinar. Para além do simples arremesso, sempre foram exímios no uso da fisga (estilingue) e da funda, usando-as como subsídio de direcção tanto para cães como pràs ovelhas, e como meio para afastar os animais indesejáveis. O uso da pedra permitiu-lhes e continua a permitir-lhes o controlo à distância do gado e dos seus guias, tornando-os omnipresentes e poupando-lhes muito esforço, especialmente nos momentos de maior aflição e que carecem de solução imediata. A substituição da pedra pelo assobio irá acontecer gradualmente, quando a aptidão dos cães for visível e o uso da pedra se tornar obsoleto. Actualmente substituímos a coação da pedra pelo recurso à recompensa, o reforço positivo tomou o lugar da coerção e a pedra de travamento deu lugar à bola de evasão. Os pastores do passado recente não podiam proceder como nós, porque o dinheiro era escasso, a sua vida estava votada à austeridade e um só queijo seco tinha que dar para um pão de quilo. Não obstante e violando os mais elementares princípios pedagógicos, ainda há quem se sirva da pedra e não seja pastor, porque o comodismo seduz e o dolce far niente é por demais agradável. Seremos antropologicamente vocacionados para o arremesso do calhau?

COM O MEU CÃO PRETO NUNCA ME COMPROMETO

É muito difícil captar por imagens a Mª João Costa Lobo, proprietária do Toiro, um labrador negro que irá fazer 4 anos em Agosto deste ano. Já há algum tempo que ambos frequentam a escola, o cão tornou-se coqueluche e a dona esconde-se tendencialmente por detrás dele. O Vitor Hugo, tal qual um paparazzi, lá a conseguiu surpreender num dos momentos de supercompensação, agarrada ao bicho e de óculos escuros postos. Aqui apresentamos o binómio e daqui agradecemos ao fotógrafo. A João tem evoluído no adestramento e o Toiro adora os seus companheiros de classe. Desejamos que assim continuem, porque os consideramos nossos e sempre reclamamos pela sua presença. Sejam bem-vindos à Família da Acendura!

ROSTOS DA ACENDURA PARA LÁ DO TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO

Chama-se Eunice Fuhrmann, nasceu no Estado de Stª Catarina, é uma brasileira de ascendência alemã, já ultrapassou as quarenta primaveras e é professora de Língua Portuguesa do ensino secundário. Nossa colaboradora de longa data, prepara-se agora para ser a nossa chefe de redacção em Terras de Vera Cruz, adquirindo neste momento subsídios e formação para o seu futuro desempenho. Dentro em breve apresentaremos outros colaboradores a sul de S. Paulo e abaixo do Trópico de Capricórnio. Temos chegado ao Brasil através do Blog português, mas justifica-se a necessidade de publicações mais tangentes às sensibilidades, interesses e modo de vida dos cidadãos brasileiros, gente apaixonada pela canicultura e pela cinotecnia que sempre nos tem procurado e contactado.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A TRAVESSIA DO SONHO PARA A REALIDADE: A INFÂNCIA NA COMPANHIA DO CÃO

Vivemos debaixo do mau hábito da separação compulsiva dos distintos grupos etários, política que enfraquece o homem no seu todo e que tende a rebentar com a família, núcleo indispensável para o bem-estar, formação e equilíbrio dos indivíduos que a constituem. E neste flagelo de graves consequências sociais, são os idosos e as crianças quem mais sofre os seus horrores, talvez por necessitarem de maior acompanhamento e os outros andarem demasiado ocupados, raramente com tempo pra si próprios. A maioria dos idosos acabará nos lares que anunciam o inevitável e as crianças verão o calor familiar substituído por escolas ou instituições tornadas apelativas, onde permanecerão a maior parte dos seus dias, como pintos ou leitões em unidades de produção a aguardar transferência. Com alguma sorte, ainda verão os seus pais à noitinha (se ainda viverem juntos), nos fins-de-semana e nas férias, isto se não tiverem actividades extracurriculares e não forem recambiados para um longínquo clube de férias, tido como de aventura diante da sua desventura. As alterações promovidas pelo trabalho na sociedade contemporânea e as substituições que ele provoca, até parecem naturais pela sua aceitação, como se sempre houvéssemos vivido assim ou descoberto agora a melhor forma de vida. À imitação das caixas de correio num prédio de inquilinos, cada idade tem a sua box e a cada uma corresponde um estigma. Marcados por esta influência, também os centros de treino caninos dispensaram o concurso das crianças ao longo dos anos, acabando somente por se lembrar delas quando o fim terapêutico canino se tornava imperativo, o que aponta para uma patacoada social e pedagógica de grande monta. No passado também procedemos assim e afastámos os infantes das nossas actividades, mas depois de verificarmos o carácter impessoal vigente na sociedade e de repararmos na ausência de parâmetros a que ele levou, mudámos a nossa atitude neste últimos vinte anos e passámos de polícias para barqueiros, auxiliando os infantes na travessia do sonho para a realidade, aceitando-os a partir dos seis anos de idade. Dispensar as crianças do adestramento é um cruel atentado contra a condição humana e é um crime ainda maior para aqueles que se dizem seguidores do método da precocidade, que sabem da importância da experiência variada e rica neste ciclo etário. Aos primeiros agradecemos que se informem e aos segundos perguntaremos: só os cães nos interessam? Nada impede que o adestramento se transforme numa psicoterapia lúdica e contribua para o salutar desenvolvimento da personalidade nos infantes, acompanhando as suas mudanças graduais de comportamento e auxiliando-os na aquisição das bases da sua personalidade. A ideia de um centro de treino exclusivamente para maduros, porque se constitui numa pedra de tropeço prà unidade, mais cedo ou mais tarde, será uma tertúlia destinada à auto-destruição, ainda que de início se mostre bastante concorrida. Não podemos dizer que amamos os nossos alunos se desprezarmos os seus filhos ou não nos prontificarmos para ajudá-los. Tanto podemos ajudá-los em classes integradas e a partir dos cães em treino, como aceitá-los como condutores dos seus inseparáveis amigos, acções que contribuirão para o seu amadurecimento social, emocional e cognitivo, transmitindo-lhes regras e padrões de comportamento básicos de acordo com o seu desenvolvimento psicológico. E como o adestramento é dinâmico e a as transformações físicas acompanham o desenvolvimento intelectual, a prática cinotécnica, para além de os ajudar no discernimento entre as acções certas ou erradas, irá ainda contribuir para a melhoria da sua coordenação motora, aumentar a sua capacidade de resolução e subsidiar outros aspectos importantes ligados ao seu pleno desenvolvimento. Sim, o adestramento pode dar combate aos seus transtornos emocionais, diminuir o índice das neuroses infantis, ajudar no ultrapassar de transtornos emocionais e suprir algumas carências de vária ordem. Isto se pedagogicamente agirmos certo e com a colaboração dos pais, enquanto seus companheiros de jornada e agentes de ensino primordiais. Se o adestramento não for para a família, terá que dividir o seu tempo com ela e mais cedo do que se julga, acabará preterido.
A opção pelos seis anos de idade, ao contrário dos treze de então, acontece mais por culpa nossa do que pela incapacidade dos infantes, porque necessitaríamos de mais tempo, melhor preparação, novidade de estratégias e todo um conjunto de alterações nada fáceis, ligadas a aspectos lúdicos, a jogos específicos e ao particular do desenvolvimento infantil (físico, emocional, cognitivo e social). Normalmente aos seis anos de idade, as crianças já aprenderam, graças ao seu desenvolvimento psicológico, algumas regras e padrões de comportamento social, já conseguem discernir o certo do errado, tendem à racionalização e já adquiriram o conceito de melhor amigo, condições que muito nos ajudam e que levarão à nossa aceitação, que irão facilitar o seu sucesso entre nós e que complementarão o nosso esforço e objectivos, desenvolvidos a seu favor pelo contributo dos cães. Nomes como: Bernardo Braga, Bernardo Fialho, Eduardo Pardal, Francisco Marques, Inês Forte, Joana Moura, João Ramos, Maria Duarte, Mafalda Braga, Mariana Paiva da Silva, Miguel Antunes, Pedro Forte, Pedro Tomé e Rodrigo Coito (a lista é quase interminável), são testemunho vivo desta nossa preocupação e todos eles vieram a ser ou são excelentes condutores. Ainda recentemente e de modo imprevisto, fomos surpreendidos por um homem barbado e bem constituído que, sempre qualquer cerimónia, nos beijou e disse: “ Eu sou o…, não se lembram de mim? Andei aqui quando tinha oito anos e o meu cão chamava-se Gorky!” O rapaz tinha agora 28! Algumas das crianças do passado já têm filhos nas nossas fileiras de hoje, o que constitui para nós um motivo de orgulho e espelha a nossa disponibilidade para servir. De todos somos gratos, porque nos deixaram ser seus barqueiros e viajaram connosco um importante trecho das suas vidas, momentos únicos que guardamos com rara felicidade. Jamais nos esqueceremos deles!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

AMOR, AMOR AOS CÃES E O AMOR DELES

Há medida que vamos envelhecendo, começamos a questionar princípios, conceitos e ideias que até então nunca havíamos questionado. Ao olharmos para trás, para nosso desconforto, surpreende-nos a entrega que tivemos por tão pouco, as liças sem sentido, o peso inusitado que demos a certas coisas e o desprezo por outras mais valiosas. Apesar de sentirmos que andámos ocupados, ao mesmo tempo, não nos livramos de uma sensação de desperdício, face ao empenho exagerado revelado pela própria vida. Daqui temos retirado muitas lições, mormente duas: que só os inteligentes dirão, caso pudessem, que alterariam algumas coisas do seu passado e que os jovens sempre acabarão ludibriados pela ausência de maturação, o que à primeira vista nos parece um contra-senso, apesar de o não ser pela antecipação biológica da maturidade sexual à emocional. Todos tivemos uma idade em que acreditávamos em tudo o que ouvíamos, outra em que começávamos a acreditar em nós próprios, uma outra em que julgámos ser donos da verdade absoluta, depois uma em que nos encaixámos no colectivo e finalmente teremos outra em que questionaremos a validade de todas as nossas opiniões e crenças. Alguns ainda chegarão à fase da circunspecção, azedos para os demais e desinteressados pelo mundo à sua volta, presos aos seus pensamentos e pouco propensos para ouvir. Se confessamos que a transcendência operativa no adestramento resulta do amor, vale a pena reflectir sobre ele, talvez isso nos faça melhores condutores cinotécnicos.
Se há coisas de que muito se fala e pouco se sabe, o amor será certamente uma delas. Será ele um truque do nosso cérebro baseado em estímulos eléctricos, reacções químicas e hormonais que nos fazem sentir bem e nos activam a auto-estima? Poderá ser ele desligado de outros sentimentos ou emoções? Aonde nos conduzirá? Onde residirá? Quem poderá amar verdadeiramente? Aqui está um assunto que gostaríamos de ver tratado pelo ilustre Dr. António Damásio, cientista luso e chefe do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa, para além de professor no Salk Institute na Califórnia. A procura das respostas às perguntas que atrás formulámos levou-nos a horas infindas de leitura e reflexão, à consulta de muita gente, a paragens distantes, ao calcorrear imenso de velhos corredores de pedra e ao encontro de eruditos de vária ordem (catedráticos insofismáveis). Mas mesmo assim, voltámos de mãos vazias e não obtivemos uma resposta conclusiva.
Nesse trajecto, como não podia deixar de ser, não desprezámos também os teólogos, porque se dizem representantes terrenos do verdadeiro amor: o ágape, o visível na pessoa de Jesus Cristo, um Deus que se fez homem por nós. Não vamos aqui discutir os meios para alcançar essa graça, porque em cada um deles encontrámos opinião diversa e submissa às suas convicções. Porém, e pedimos imediatamente desculpa pela afronta, porque não é essa a nossa intenção, a teologia bíblica em pouco difere dos novos métodos de treino caninos, maioritariamente baseados na recompensa, isto se substituirmos os biscoitos pelas promessas, muito embora a fé no sacrifício vicário de Cristo seja para alguns, o suficiente para aos homens para alcançarem o amor de Deus. O amor do Emanuel, porque é sobrenatural, torna-se de difícil aplicação entre os mortais, mesmo daqueles que se dizem seus seguidores, por isso confrontados com a Lei e necessitados de arrependimento. Independentemente de sermos chamados, eleitos ou criados para esse sentimento maior, nenhum de nós, mesmo arredado desse beneplácito, dispensa o amor nas suas vidas. O pintor de tabuletas que nasceu em Branau-am-Inn no ano de 1889, dizia numa das suas obras mais lidas, que a religião vinha pela cultura, será que o amor também vem?
Sobre a química cerebral que despoleta o amor, pouco sabemos e carecemos de conhecimento mais profundo: do esclarecimento possível para o nosso entendimento. Que o amor desperta ou é acompanhado de outros sentimentos não temos dúvidas. Que em todos nós há amor é um facto, ainda que nalguns seja difícil identificá-lo, mercê da sua ocultação ou fragilidade diante de várias patologias. Também não temos dúvida quanto à sua aceitação cultural, como não duvidamos da influência da cultura nos modelos amorosos. Basta dizer, que quase sem darmos conta, passámos da frivolidade para o erotismo, segundo os ciclos que têm composto o avanço da humanidade. Se a identificação dos vários tipos de amor se encontra facilitada pela etimologia das palavras da antiguidade, o mesmo não se passa com a identificação de todas as suas formas subjectivas, porque todos apresentamos diferentes tipos e formas de amar. Mas se entendemos o sentimento para além das suas manifestações e de acordo com as reacções que provoca nos outros, talvez compreendamos o que é o amor de facto, porque doutra forma seríamos obrigados a aceitar em pé de igualdade o narcisismo, o hedonismo e toda a casta de ermitões (muitas vezes julgados santos pelo atraso da ciência). Assim, julgar o amor pelos seus frutos torna-se mais fácil, na medida em que o efeito induz à causa e o sentimento ganha forma, já que o amor é a mais excelente das comunicações, porque congrega e produz alteração no comportamento dos seus dadores e receptores, levando-os à unidade tanto de propósitos como de vida. Será a partir daqui que avaliaremos o nosso amor pelos cães e o amor que eles nos têm, enquanto acção reflexa num trajecto que se deseja comum.
É interessante reparar que normalmente avaliamos o nosso cão segundo aquilo que ele nos dá ou tem para dar e raramente nos questionados sobre o que ele espera de nós. Esta postura, nada respeitosa por ser egoísta, espelha uma relação interesseira que por vezes estendemos a outros relacionamentos e compromissos. Se na cinotecnia ela é uma manifestação de puro especicismo, na sociedade ela poderá condenar aqueles que mais amamos e por inerência votar-nos à solidão, já que a reciprocidade é a forma mais elementar do amor. E nisto não diferimos dos cães, já que a sua gratidão provém daquilo que lhes dispensamos e que é do seu agrado. Com base nesta permuta de interesses podem formar-se binómios regulares, contudo jamais chegarão à excelência operativa. E não chegarão porque não é a regra que estabelece a diferença, mas sim a dedicação, enquanto manifestação amorosa. Este amor sempre nos levará, quando autêntico, à supressão das dificuldades dos animais, à entrega individual em prol do conjunto, ao ânimo perante as dificuldades e à paciência para as levar de vencida, até porque o melhor cão nas mãos erradas, pouco vale e o mais fraco deles, quando entregue ao homem certo, normalmente acabará por surpreender-nos, o que nos remete para o problema da liderança e para as distintas formas da exercer, que só serão adequadas pelo conhecimento mais tangível do animal, naquilo que ele tem de único enquanto indivíduo. Como poderá compreender-nos, se nós não o compreendemos? Como poderá ele seguir-nos, se ignorarmos as suas dificuldades? Destas ambiguidades anda o adestramento cheio e não sabemos se alguma vez se livrará delas.

O compromisso baseado no amor é o que melhor que serve a cinotecnia e que melhores frutos dá no treino, quando os homens assumem perante os seus cães que não os desprezarão, que estarão com eles hoje e sempre, haja o que houver e aconteça o que acontecer. Só um condutor incondicional terá ao seu lado um cão incondicional, porque o bicho segue o exemplo. Infelizmente sabemos que esse compromisso é muito raro, não só entre os condutores ou instruendos, mas também entre todos os envolvidos nas diferentes áreas da canicultura, onde aparece com uma gota de água perante o abandono dos cães, o seu desprezo, passagem de mão e abate. A cinotecnia exige comunhão de vida e sempre nos sobrarão razões para a desleixar. É curioso observar, que são aqueles que menos se entregam, os que mais esperam dos cães e os primeiros a cair face ao gorar das suas expectativas, porque a paixão tem pouca duração quando comparada com o amor, sentimento que tudo suporta e não esmorece, porque vem do serviço e não reclama retribuição imediata. Ensinar cães é também ensinar pessoas a amar e se não houver comunhão de objectivos com base neste sentimento, dificilmente uma escola sobreviverá e atingirá os seus propósitos, seja ela do que for, porque só a afeição consegue suportar a disciplina, a obrigação e todas as dificuldades. Por esta razão continuam a existir bons e maus professores, uns que são amados e outros odiados, uns que produzem alunos que os ultrapassam e outros que apenas geram ténues imagens de si próprios, imitações de um modelo em si mesmo já deficitário e depauperado. No entanto, é preciso alguma fortuna para encontrar bons alunos.
O amor dos cães exige comunhão de vida, cumplicidade e exemplo, condições que levam ao natural desenvolvimento da sua capacidade de aprendizagem. O amor dos donos deverá ser capaz de suprir essas necessidades e o segredo do sucesso residirá na reciprocidade desse sentimento. Se ele terá de ser paternal, fraternal ou outro, só o nosso cão o dirá, de acordo com as suas características, necessidades e histórico de vida. Os soldados humanos, quando no calor da luta e diante da incerteza do seu destino, sempre carregaram junto a si recordações da sua infância, dos seus entes queridos e dos dias felizes que com eles passaram. Donde virá a força para o cão guardião? Certamente da confiança no dono e nas vitórias passadas, dos simulacros donde saíram vencedores e da recompensa de que sempre foi alvo. A gratidão é um dos frutos do amor e os cães precisam dela. O adestramento sem amor é uma violência baseada na submissão, uma prática esclavagista que se remete exclusivamente ao engrandecimento do reizinho que há dentro de cada um de nós, ávido de vassalos e parco de retribuições.

STEPHANITZ, EQUITAÇÃO E ADESTRAMENTO: O TRAJECTO DA JOANA

Já tarda a hora do perdão aos alemães, para que a perseguição não dê azo à revolta e eles voltem à ribalta pelas piores razões. A Alemanha não pode ser só julgada pelos seus erros, mas avaliada sobre o seu todo, no muito que tem contribuído para o avanço da humanidade e como suporte da unidade e identidade europeias. Isto nada tem a ver com a Joana, mas o Cap. de Cavª Max Stephanitz tem, porque nasceu alemão, cinquenta e seis anos antes da formação do partido nazi e trouxe até nós o Cão de Pastor Alemão. O percurso deste nobre teutónico, da equitação para a canicultura, iria revelar-se de extrema importância no pragmatismo selectivo que imprimiu ao Deutshe Schäferhunde, quando o associou aos avanços científicos evidenciados pela escola inglesa do seu tempo. A passagem pela equitação militar, cimentou-lhe conceitos ligados à funcionalidade e à sua versatilidade, factores decisivos prà excelência binomial da raça que apadrinhou, não sendo por isso de estranhar no adestramento global a influência da equitação em muitas modalidades caninas, tanto desportivas quanto específicas, se considerarmos a sua preparação, rendimento, metas e objectivos. À equitação se deve a libertação canina do pastoreio ancestral, dando assim aos cães uma maior dimensão e um conjunto de novas utilidades. Conhecedores disto, sempre aconselhámos aos alunos mais aplicados e ávidos de evolução, a prática da equitação como subsídio para a melhor compreensão do adestramento, até porque, como se podia ler nos picadeiros de antigamente, “todo o cavaleiro que se excede perde o direito de ser obedecido”. É esse o trajecto seguido hoje pela Joana, uma jovem dinâmica e amiga dos animais, que gosta de desafios, procura o equilíbrio, busca o seu potencial e quer conhecer os seus limites. Talvez agora, de rédeas na mão, consiga desenvolver maior sensibilidade para pegar na trela. Força Joana, estamos contigo, porque em cada barreira que ultrapassas, o nosso coração rejubila, ganha ânimo e rejuvenesce mais uma vez.

NOVOS BLOGS NOUTRAS LÍNGUAS, ENDLICH MAL EIN BLOG IN DEUTSCH

Dentro em breve, mal se constituam as respectivas equipas de redacção (já em formação), surgirão novos blogs/sites noutras línguas, destinados a outras realidades culturais e geográficas. Assim iremos ter um destinado ao Brasil e outro em língua alemã, produzidos por acendras locais e igualmente empenhados na nossa filosofia de ensino, multiplicando assim o velho blog português http://www.acendurabrava.blogspot.com/ , que brevemente irá ser substituído por outro. O elevado número de leitores alemães e brasileiros a isso nos obriga, porque ameaça a hegemonia dos portugueses e exige maior reparo. Já não é de agora a colaboração dessa gente e é chegado o momento de retribuir o seu empenho e apoio. A novidade não apanhou de surpresa os leitores mais assíduos desta nossa publicação porque, no 2º parágrafo dos textos da semana, sempre se tem aludido a uma dessas realidades e comentado alguma das suas situações de vida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

IMPULSO AO PODER, CRIAÇÃO E HIBRIDAÇÃO

Há um pequeno César dentro de cada um de nós, todos nascemos com impulso ao poder, ninguém gosta de ser contrariado, todos desejamos ser obedecidos e ver realizada a nossa vontade. A força desse impulso e a resistência dos outros irá determinar como o usaremos e que rumo lhe daremos. Nesse combate vale tudo, porque ninguém consegue sufocar a sua natureza em constante apelo, parece que a felicidade individual passa por aí e ninguém é feliz se não tiver algo de seu. Valha-nos Deus! Se calhar inventámo-Lo para combater esta nossa cegueira e demos-Lhe as seguintes palavras (entre outras tantas para além dos 10 Mandamentos): “aquele que quiser ser o maior entre vós, seja o menor”; “se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me”; “seja feita a Tua vontade” e “um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como a vós mesmos”. Um Deus que não tinha onde reclinar a cabeça, que sucumbe perante o poder dos homens e que lá no final sai vitorioso, ressuscitando para nos dar morada junto d’Ele. O impulso ao poder humano é um caso muito sério, uma inclinação que não tem poupado vítimas e que jamais deixará de as fazer, mesmo entre aqueles que se dizem seguidores da divindade e seus representantes na Terra. Diante deste cenário apraz-nos dizer: como o mundo seria mais justo se só os animais tivessem impulso ao poder (pelo menos para os homens!). Exceptuando a possível alteração produzida pela premissa metafísica, parece-nos difícil separar o impulso ao poder da auto-realização humana, já que todos procuram, tanto líderes quanto subordinados inatos, uma dose quanto baste de “quero, posso e mando”, surgindo a marginalidade e os comportamentos a ela associados como resultado do mesmo apelo, ainda que por meios condenáveis pela sociedade. É igualmente difícil separar o impulso ao poder do acto de criar ou de o inovar, isto se essa nova criação se encontrar sujeita ou servir os propósitos desse mesmo impulso. Diz-se e Gilberto Freyre também o disse, que Deus criou as raças e os portugueses criaram o mestiço, o que é uma inverdade histórica, já que essa prática é anterior à nossa nacionalidade, foi praticada nos impérios da antiguidade, consumada nos casamentos reais e usada para o aumento do seu domínio e poder. O que se deve aos portugueses é o seu aproveitamento global, a generalização da mestiçagem nos territórios ultramarinos e no Novo Mundo, como política para garantir o povoamento, a extracção das riquezas e a sua soberania ali, considerando o escasso número de habitantes no seu território metropolitano. Os reis que outorgaram a mestiçagem ou que a ela não se opuseram, também eles oriundos de diferentes etnias europeias, de português sobrava-lhes o título, sendo cada um deles mais germano, inglês ou francês do que o outro. A criação dos originários pombeiros, gente que dava caça aos escravos, encontrou na mestiçagem a nata das suas fileiras, o que se compreende face à resistência dos nativos em dar caça ao seu próprio sangue ou de submeterem a sua tribo a tal assolação. Conclui-se assim que a criação do mestiço resultou duma medida económica para garantir o poder. Se uns construíram impérios a expensas doutras etnias, outros houveram que criaram raças de cães, o princípio é o mesmo e acabou por servir idêntico propósito, já que a novidade dessas raças veio contribuir eficazmente para a defesa dos bens individuais, para o sucesso no esforço bélico, para o exercício policial, para reforço da actividade cinegética, para a autonomia dos deficientes e para afirmação do status, entregando a cada um dos seus novos proprietários muitas das mais-valias que há muito aguardavam.
Também não se pode dissociar o direito à diferença do impulso ao poder e afastar de ambos os pressupostos presentes na criação das diferentes raças caninas actuais, uma vez que é a procura do “must” as norteia. Procura-se o “cão mais” (o maior; o mais pequeno; o mais forte; o mais bonito; o mais feroz; o mais manso; o melhor caçador; o mais raro; o mais rápido; o mais capacitado e por aí adiante), muitas vezes desrespeitando a sobrevivência, longevidade e qualidade de vida dos pobres animais, pormenores que tardiamente mereceram a nossa atenção. Na procura de “ter um cão melhor do que o teu” e sobrando daí as honrarias inerentes à façanha, para além da mestiçagem inconfessa (por vezes comprometida nos resultados por convicções a leste da ciência), ainda há quem avance pelo atavismo e crie híbridos de qualidade inesperada ou de características pouco vistas e indesejáveis. Para o monarca doméstico, que se julga tão augusto quanto os que a história reza, o seu cão tomou o lugar das águias, dos abutres, dos grifos e dos leões daqueles que o inspiraram, porque domina o bicho e pode alcançar alguma vantagem ou poder sobre os outros. É evidente que sem impulso ao poder não haveria evolução, mas atendendo à natureza do cão, tudo isto nos parece uma brincadeira infantil de mau gosto.

O adestramento continua invadido por um corolário de apelos incontidos ao poder, diariamente somos surpreendidos com indivíduos predispostos à dominância, gente de todas as idades e com igual propósito, que pretende encontrar nesta arte os fundamentos para o seu castelo, um meio violento para se afirmar e ultrapassar os outros, ainda que o não diga e que dê a entender exactamente o contrário, porque a cobardia aguça o engenho e a simulação é-lhes natural. Perante a situação, como deverá proceder um adestrador digno desse nome? Ignorará as intenções deles? Dará azo ao disparate e mostrar-se-á conivente ou desnudará os indivíduos e tentará produzir neles alteração? O caminho mais fácil é lavar daí as mãos, o mais difícil é produzir alteração. Se entendermos a salvaguarda dos cães como o objectivo central do adestramento, não restam dúvidas: seremos obrigados a produzir alteração na pessoa dos condutores! Com isto, podemos perder um ou mais alunos, ganhar o rótulo de imprestáveis ou de idiotas, mas mais vale ganhar a alcunha do que fazer jus ao nome. Que ninguém se engane, nenhuma lei trava um desejo, uma inclinação ou uma ambição, apenas obriga os indivíduos ao disfarce que impede o seu castigo, até porque, invariavelmente, o montante do prémio é superior aos danos causados pela contravenção. Denunciar os abusos cometidos sobre os cães é nossa obrigação, assim como também é a formação dos seus condutores. Se não evitarmos atempadamente os abusos binomiais, alguns inocentes irão pagar o preço da nossa “distracção” ou indiferença, tal qual ovelhas prontas prò abate. O adestramento deve ser uma ocasião para a paz e para que isso aconteça, é necessário perscrutar as intenções de cada um dos nossos alunos e sintonizá-los com os nossos objectivos e filosofia de vida. Todo e qualquer impulso, inclusive o relativo ao poder e com mais acuidade, deve ser direccionado para o bem comum, sem contudo eliminar a criatividade individual que enriquece o colectivo escolar. Eu quero encontrar na rua um cão que me acompanhe quando estiver só, não um que me mate porque não alcanço socorro! Trabalhar assim é lutar, também, contra o aumento da criminalidade.

GESCHICHTE EINES ALTEN SÜNDE: A HISTÓRIA DO ILAK, O CÃO-LOBO by Hans Freudig

When I was young, a história poderia começar assim, porque já lá vão algumas décadas, ofereci um presente envenenado a um irmão: o ILAK, um cão-lobo que doei como se fosse o mais excelente dos Pastores Alemães. Felizmente não resultou daí qualquer dano para ninguém, nem para o bicho nem para os sucessivos proprietários que o adquiriram e conduziram, o que não me isentou de rara preocupação durante alguns anos, até porque o meu propósito inicial era francamente maldoso e queria de alguma forma comprometer o meu irmão. Um dia, o qual não recordo exactamente, ele disse-me: “Hans, eu quero um cão como o do Wilhelm. Quando tiveres outra ninhada, espero que me ofereças um!”. Na altura, não que isso sirva de justificativa, esse meu irmão era muito prepotente, funcionava como meu patrão e sempre fazia questão de manifestar a sua autoridade, mesmo nos momentos em que tal era desnecessário e se tornava por demais abusivo. Farto do aturar, que madurezas era coisa que não faltava, anui ao seu pedido e esfreguei as mãos de contente, porque a minha hora parecia ter chegado. O tal de Guilherme que me havia comprado o primeiro cão, trabalhava connosco e comprou-mo para arranjar um aliado, porque também ele, por detrás do seu ar de franciscano descalço, não ia à bola com o meu irmão, tudo fazendo para o destronar e ocupar o seu lugar. Por má sorte, veio a alcançar os seus intentos, ainda que por pouco tempo. Mas voltemos à história do ILAK. A minha Pastora Alemã Arim já tinha 7 anos de idade e ao invés de a beneficiar com um cão da sua raça, optei por cruzá-la com um lobo de uma reserva, porque tal me pareceu bem, atendendo à picardia que mantinha com o meu irmão, necessariamente silenciosa porque o homem não era para brincadeiras e dele dependia o meu futuro. A cavalo e com a cadela a correr ao meu lado, coloquei-a na cerca dos lobos por altura do seu período fértil, temendo por ela e ávido de um desfecho feliz. Três coisas podiam acontecer: a morte da cadela (coisa que eu nem queria imaginar), ela ser coberta ou acabar por fugir, gorando assim os meus intentos. Passada uma semana, com o coração nas mãos, voltei ao reduto dos lobos e chamei por ela. Mais depressa do que em imaginava, ela apareceu, feliz e de cauda ao alto. Escusado será dizer que as lágrimas escorriam-me pela cara abaixo e jurei nunca mais repetir a “proeza”. Trinta e cinco dias depois já havia evidências seguras da sua prenhez, notícia que de imediato transmiti ao meu irmão, geralmente acompanhada de bons augúrios e na certeza de cachorros extraordinários. Os cachorros nasceram no tempo certo e saíram uns matulões, metade preto-afogueados e a outra metade lobeira a puxar para o cinza. Para que os meus planos dessem certo, escolhi o cinzento maior da ninhada, um infante que havia nascido com 890 g e isto sem a mãe haver tomado qualquer suplemento ou aditivo.
Depois do desmame, entreguei o cachorro ao meu irmão, grato e pleno de expectativas. O cachorro crescia assustadoramente e todos os dias o dono levava-o várias vezes à rua. Grande e de orelhas abatidas (apesar de as haver levantado de vez e no tempo certo), ninguém o via como um Pastor Alemão. Vinham uns e inquiriam: “É um Deutsche Dogge? Outros exclamavam: “ Que lindo Weimaraner!” A paciência do dono acabou quando um indivíduo lhe disse: “ Esse cão tem cor de burro quando foge!” Farto de aturar os comentários dos transeuntes, no seu ver asnos a rasar a ignorância, voltou para o escritório e questionou-me: “Ò Hans, ninguém diz que o ILAK é um Pastor Alemão, todos lhe atribuem outra raça e agora mesmo, um disse-me que o cão tem cor de burro quando foge! O que queria ele dizer com isso? Como o meu irmão havia sido alfabetizado na estranja, ele não entendia muito a língua materna, o que me facilitou a resposta e lhe sossegou as ideias. “O que o homem queria dizer é que o cão é muito raro! – disse-lhe. Ele respondeu-me: “Lá raro é, porque não é nada parecido com o cão do Wilhelm! Com o passar do tempo o cachorro fez-se soberbo, toda a gente o admirava e o orgulho do seu dono aumentava a olhos vistos.

Por volta dos seis meses de idade, já o cachorro era enorme e começava a demonstrar algumas tendências, nomeadamente a aversão que tinha ao nosso offiziellen, um funcionário africano que trabalhava para nós e que tudo fazia para nos encalacrar, para quem o cão era um demónio pior do que o dono, no mínimo, o melhor dos complementos prà sua malvadez! Se fosse só por causa do homenzinho, o cão jamais viria a ser treinado, porque a antipatia entre os homens era recíproca e o cão prestava-se à festa. Numa tarde sou surpreendido por uma pergunta:” Hans, quem é o veterinário mais entendido em Pastores Alemães?” Como quem não está acostumado a mentir, sempre lhe foge a boca para a verdade, respondi-lhe prontamente: “ É o Dr. Weiss Schlösser!”, sem pensar nas consequências de tal resposta. “ Prepara-te, porque depois de almoço vamos ao seu consultório, pois gostava de uma opinião avalizada sobre o ILAK” – concluiu. O apetite para o almoço daquele dia desapareceu ainda antes de ter chegado, a ida ao veterinário atormentava-me de sobremaneira, temia ver-me denunciado e com o futuro laboral comprometido. Pelo caminho pensava em estratégias para ludibriar o Dr., e como não é bom ter só um plano A, ia formulando desculpas credíveis para o sucedido, caso a trama viesse a ser descoberta.

No consultório fomos amavelmente recebidos, o cão foi colocado em cima da marquesa e a inspecção demorou cerca de trinta minutos, minutos de muito aperto para mim, agravados pelo silêncio cortante da observação, nem as moscas se ouviam, somente o boliço distante dos carros que passavam pelo exterior do edifício. O clínico observou o cão à minúcia, não parava para comentários, até que finalmente soltou: “ Parabéns Sr. Jurgen, o seu cão é o melhor Pastor Alemão que vi nestes últimos trinta anos! Disto não se vê todos os dias! Verdadeiramente um perfeito exemplar!” Suspirei de alívio, parecia estar a viver o dia da redenção e dizia em silêncio para Deus: “ Obrigado bom pai, deste-me aquilo que não mereço!” Daquele dia em diante, a soberba do meu irmão aumentou e os Pastores Alemães passaram a dividir-se em duas categorias: o ILAK e os outros; o exemplar e as imitações. O caso não era para menos, o bicho atingiu 74 cm de altura, veio a atingir um perímetro torácico de 130 cm e um peso de 53 kg, sem nunca estar gordo.

Pressionado pelos clientes e também pelos restantes utentes do escritório, o Jurgen viu-se coagido a mandar treinar o seu cão, não sem antes consultar a minha opinião, parecer que muito me agradou e que iria evitar, mais uma vez, a minha denúncia, mantendo assim a sua gratidão por mim. “ O que achas de o mandar treinar na polícia? Dizem que são muito bons treinadores?”. “Nem penses nisso! Esses tipos já estão ultrapassados e são violentos. Coitado do teu cão, o que iria sofrer! Está descansado que hei-de encontrar-te um treinador capaz. Vou já começar a tratar do assunto” – respondi-lhe. Ele aceitou a sugestão e eu meti mãos ao trabalho ou por outra, puz os pés ao caminho. Dizem que o diabo as tece, que sempre ajuda nas patranhas e assim aconteceu. No regresso a casa, vinha eu no autocarro, deparei-me com um homem que se fazia acompanhar por Pastor Alemão que rebocava uma carrocinha carregada com uma bilha de gás. Os gestos do homem, a aparência dos seus trajes e o aspecto do cão levaram-me à seguinte conclusão: “ ora aqui está o homem certo para o cliente certo!” Desci do autocarro e fui falar com ele, inquiri da sua disponibilidade, condições e honorários, adiantando-lhe em simultâneo da excelência do animal. Ele respondeu-me que estava disponível, que o treino custaria 250 marcos mensais (pensão completa) e que o cão ficaria em sua casa por um período de dois meses. Não podia ser melhor, porque antes desse período expirar, já eu estaria colocado numa sucursal estrangeira, segundo as melhores recomendações do meu irmão. Combinámos a entrega do cão para o dia seguinte, porque a urgência a todos interessava, ao Jurgen para evitar problemas, a mim porque me protegia e ao treinador porque andava necessitado de alguns cobres (dá para desconfiar quando um negócio agrada às duas partes!).

O tempo correu de tal maneira que quando demos por isso, já estávamos a entregar o cão. Seguiu-se a observação detalhada do animal pelo treinador, que estupefacto me disse: “ Amigo Hans, este bicho é dos gigantes, nunca vi coisa assim e olhe que já vi muitos pastores alemães. Nele tudo é grande, até os dentes!”, ao que lhe respondi: “Eu bem lhe disse Sr. Franz, afinal não o enganei, o cachorro é mesmo de primeira!” Depois disso fomos assistir à primeira aula e seria melhor não termos ido. Ao passar por uma poça de água, o homem pôs os pés por ela adentro e o cachorro passou-lhe ao lado. A atitude do cão não agradou ao mestre e este tomado de zelo, agarrou-o ao colo e projectou-o para dentro do charco dizendo: “ 1ª Lição, metes as patas onde eu meto as minhas!”. O meu irmão levantou as mãos à cabeça em silêncio, enquanto olhava para mim, meio confuso e outro tanto indignado. Para o sossegar, eu projectava o meu polegar direito para cima e apertava o óvulo da minha orelha em sinal de aprovação. Mais confiante em mim do que na demonstração daquele treinador, o Jurgen aceitou as suas condições e entregou-o aos cuidados daquele mestre, que foi o seu único treinador e que acabou por treiná-lo irrepreensivelmente, outros não o fariam tão bem e facilmente se entende porquê.

Passado pouco tempo parti para o estrangeiro e lá recebia amiúde notícias do treinador agradecido, relatos que despoletavam a minha hilaridade face à ignorância do homem e às suas dificuldades. Dizia ele: “Amigo Hans, o ILAK não fica com elas, devolve ao remetente tudo aquilo que recebe. É torcido como os chifres de uma cabra montesa, mas havemos de lá chegar!” O pobre homem não entendia, até porque nem sabia, que mais vale tratar um lobo como cordeiro do que aguçar-lhe os dentes. Pela valentia do homem e pela aceitação da lei do mais forte por parte do cão, aquela equipa tornou-se unha com carne, não sem que antes os dentes de alguém tivessem entrado na carne de outrem. Conhecedor das características do animal e apostado em fazer dele um bom guardião, o treinador aprimorava o seu instinto de presa nos fundilhos de uns quantos toxicodependentes, que mesmo fustigados dessa maneira, persistiam em se reunir junto à Bahnhof (estação de comboios). Certa vez num mercado, a dupla Franz/ Ilak aguentou a carga de nove ciganos e conseguiu desbaratá-los. Episódio atrás de episódio crescia por aquelas paragens a lenda de um cão chamado ILAK.

Forçado a ir também para o estrangeiro e com a família às costas, na impossibilidade de o levar, sabe-se Deus quanto lhe custou, o meu irmão deu ou vendeu, ainda hoje não sei bem, o ILAK a uns Musiklehrer, um casal que dava aulas de música num reputado colégio privado. Quando eu retornei ao País, já o cão lhes pertencia e era tratado como um verdadeiro príncipe, porque nada lhe era exigido, deambulava à vontade pelo quintal e era objecto do maior carinho por parte daquela família. Porém, eu ignorava o que lhe teria sucedido e onde estaria. Poucos dias após o meu regresso, recebo um telefonema de um cidadão estrangeiro que dizia: “ Alô, estou a falar com o Sr. Hans Freudig? É para lhe dizer que tenho um cão dos seus, um exemplar muito bonito, mas infelizmente é muito manso e não serve para guarda! Se o Sr. estiver de acordo, eu entrego-lhe este cão e o Sr. dar-me-á futuramente um cachorro filho dele mais apto para o que eu pretendo”. Estranhando o comportamento do cão, porque era atípico nos cães que criava, perguntei-lhe qual o nome do animal, ao que ele me respondeu: “ Ele chama-se ILAK”. Ao ouvir tal nome, soltei um palavrão daqueles que a todos choca e que acabou também por assustar o meu interlocutor, por força da entoação e do ímpeto da resposta. Depois de haver respirado, disse-lhe que aquele cão estava treinado para guarda de modo irrepreensível e que caso lhe interessasse, iria providenciar um encontro dos dois com o treinador do cão, coisa que veio a acontecer no dia seguinte pela manhã. O reencontro do ILAK com o seu mestre foi efusivo e a demonstração do trabalho de ambos excelente. Tão excelente que o homem já não me quis dar o cão, finalmente convencido da sua qualidade e mais-valias.

Durante algum tempo deixei de ter notícias do cão-lobo e aproveitei um convite do Sr. Franz para almoçar, já que a sua mulher era uma excelente cozinheira. Na alegria do convívio e na euforia produzida pelos bons vinhos da nossa terra, até porque a comida estava apurada e puxava parar beber, decidi revelar um segredo e disse para o dono da casa: “ Sr. Franz, sabe porque é que o ILAK devolvia ao remetente tudo aquilo que recebia? Simplesmente porque é um híbrido de lobo!” Ao ouvir a estranha revelação, o velho treinador permaneceu quedo e mudo, somente os seus olhos se mexiam, lembrando fagulhas prontas pra tudo incendiar. Depois, levantou-se da mesa e abriu a gaveta de um armário, tirando de lá uma pistola que ele mesmo havia construído. Com ela empunhada e apontada para mim, disse-me: “ Podia ter-me dito a verdade desde o princípio, que eu não me negava. Agora, brincar com a minha boa fé e gozar com a minha integridade, nunca!” Antes que carregasse no gatilho e aproveitando um breve momento em que limpava o suor da sua testa, eu saí pela janela e estivemos meia dúzia de anos sem nos falarmos. O homem tinha carradas de razão!

Entretanto, gratos pela atenção que havia dispensado ao ILAK, fui convidado para lanchar na casa dos músicos seus proprietários, onde acabei por conhecer também a Sr.ª Gertha, uma visita assídua da casa e uma apaixonada incondicional por cães. Bastante curiosa com o tema da conversa, ela decidiu ir ao quintal conhecer o cão. Ainda dentro de casa e reparando nele através da vidraça da porta da cozinha, disse: “Gretchen, o teu cão é enorme e devia ser treinado. Posso ir lá fora ter com ele?” A dona de casa sorriu e respondeu-lhe:” O meu cão já foi treinado e bem. Claro que podes ir lá fora, está à vontade”. Já haviam passado vinte minutos e a Sr.ª Gertha teimava em regressar. “Gertha, o teu chá já deve estar frio! Não te faltará tempo para conviveres com o ILAK. Vem para dentro!” Como ninguém respondeu ao apelo da dona casa, decidi ir procurar a senhora em falta. Ao chegar ao jardim, deparei-me com uma imagem insólita: a pobre da Gertha estava debaixo de um limoeiro, presa pela garganta, com os dentes do ILAK a segurá-la! O bicho rosnava e ela não se mexia. Depois de liberta, soltou: “Que rico cão, deixas-me levá-lo ao treino?” Os donos da casa olharam um para o outro e disseram-lhe que sim. Temendo por danos maiores ou pela ocorrência de qualquer disparate, combinei com aquela senhora que a acompanharia no primeiro dia ao treino.

Poucos dias depois, deslocámo-nos ao campo de treino. A Sr.ª Gertha saiu com o cão e eu fiquei dentro do seu BMW amarelo de duas portas, de atalaia, não fosse algo acontecer. Mal tinham passado o portão do recinto e sentindo a proximidade dos outros cães, o ILAK soltou um uivo tremendo e metálico. Os condutores dos outros cães viram-se a braços com o susto provocado nos seus animais, parecia que um tornado ali havia passado e levado tudo à sua volta. O Sr. Ferdinand, o director daquela escola, estarrecido e espavorido, gritou: “ Ò Gertha, tira imediatamente esse cão daqui!” A boa da senhora sentiu-se descriminada e lá respondeu: “ Tiro o cão porquê? Eu sou sócia da escola!” Possesso, o treinador retorquiu-lhe: “Mas não é o cão! Ponham-se os dois lá fora!” Até hoje, porque me viu dentro do carro, o Sr. Ferdinand jura que o sucedido foi obra minha, uma manobra para o comprometer e desacreditar. Contrariada, a Sr.ª Gertha nunca mais saiu com o ILAK, apesar de muitas vezes o ir visitar a sua casa e brincar com ele no jardim. E como a vida não pára, o cão-lobo morreu de velho no princípio do século, o Sr. Franz, agora viúvo, vive no estrangeiro com o filho, o casal de músicos separou-se e só agora o meu irmão tomou conhecimento de todos os factos. Esta é a história do ILAK, o cão-lobo, uma história verídica que poderia ter um final diferente, um relato da minha maldade que apresento como um pedido de desculpas. Queira Deus que o meu irmão me perdoe, se fosse ao contrário, eu não sei se lhe perdoaria. Resta-me a esperança de ele ser melhor do que eu. Sosseguem os mais exaltados ou medrosos, porque o comportamento do ILAK é atípico dentro dos híbridos de lobo, porque na sua maioria eles não evidenciam tais características, sendo ao invés medrosos e desconfiados, naturalmente avessos à formação de equipa, porque a sua carga instintiva fala mais alto e obsta ao seu aproveitamento. Apesar de tudo, tenho saudades do ILAK, ainda sonho com ele, vejo-o todas as noites a correr na floresta antes de dormir.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OUVIR A CHARANGA E NÃO IR DE CHAROLA

Aproveitando as comemorações do dia da GNR em Belém, presididas pelo Presidente da Republica, Prof. Aníbal Cavaco Silva, uma classe da Acendura optou por encerrar momentaneamente o seu trabalho e ir assistir ao desfile das forças em parada. A Charanga é sempre alvo das maiores atenções, não fora ela a única a tocar a galope em todo o mundo. À mesma hora no jardim e provavelmente associado ao dia da criança, um cortejo de cabeçudos fazia as delícias da pequenada, evoluindo desordenados com as suas carantonhas. No meio do troar dos cascos, do rufar dos tímbalos, do silvar das cornetas, do rebentar dos balões e das acrobacias dos gigantones, um dos nossos cães entrou em pânico, e caso não fosse bem seguro, provavelmente chegaria a casa bem antes do seu dono. O pobre condutor ficou destroçado e não segurou alguns desabafos relativos ao comportamento do cão, porque o insólito acabou por transportá-lo para o centro das atenções, tal qual guest star apanhado de surpresa e levado a desempenhar o arriscado papel de duplo. O medo do cão nasceu com ele e carece urgentemente de ser vencido, porque doutra forma, o seu condutor ver-se-á obrigado a sair à rua de capacete, coteveleiras e joelheiras, a entregar a alma a Deus e o corpo à Virgem padroeira de Portugal. Para não ir de charola, é importante que acostume o animal aos diferentes sons e ruídos, aumentando gradualmente o seu volume, proximidade e intensidade de acordo com as respostas positivas do cão. É errado começar esse trabalho com ele imobilizado, o que lhe aumentaria o temor, obstaria à melhor aceitação e comprometeria a desejável familiarização. Deseja-se que a supremacia dos diferentes automatismos aconteça e a cumplicidade binomial tudo leve de vencida. Se houver necessidade disso, porque os cães rijos agem naturalmente assim, poderemos instigar o cão contra os ruídos ou associá-los à cobaia e à recompensa. Se despoletarmos as experiências felizes recorrendo ao ruído, o problema poderá também vir a ser ultrapassado. Qualquer opção, atendendo à sua validade, terá que considerar a razão do trauma (genética ou ambiental), o particular do indivíduo, o seu histórico e grau de ensino. Porém, nada dispensa a cumplicidade resultante da confiança no dono.

O TEMPO PASSA E ELA CONTINUA

Corria o ano de 1995, quando demos uma cachorra cruzada de Collie Barbudo com Pastor Alemão a um conhecido de então. O obsequiado pôs-lhe o nome de July e ela veio a transformar-se numa companheira excepcional. Ainda participou, por duas ou três ocasiões, nas exibições escolares e sempre se comportou exemplarmente. No passado Sábado, dia 28 de Maio, recebemos a foto acima com o seguinte comentário: “Os meus melhores 16 anos da minha vida em companhia da minha amiga JULY… PS desculpem em estar deitada à vaca”. É caso para se dizer que o tempo passa e ela continua. O pai da July durou 21 anos (Faruk of Highlands), depois teve que ser abatido, porque alguns dos seus órgãos paralisaram. Às suas costas fundou-se a Acendura Brava e durante muito tempo serviu de referência para nossa escola. Desejamos que a July dure tantos ou mais anos com saúde e alegria.

“DEUS TENHA PENA DOS RICOS PORQUE OS POBREZINHOS COM QUALQUER COISA SE CONTENTAM”

Sempre ouvimos esta frase nos momentos de crise ou de maior aperto. Não sabemos quem a disse pela primeira, mas compreendemos sem maior dificuldade qual o seu sentido, algo idêntico ao constante nos aforismos: “Só perde quem tem” e “quem não tem cão, caça com gato”, que dependendo da gravidade das situações nos poderão levar a outro: “ é pior a emenda que o soneto”. Não é de política que iremos falar e também de nada adiantaria, porque raros são os eleitores que lêem os programas dos partidos concorrentes às eleições e os políticos sabem disso. Os pobres e os ricos que aqui abordaremos serão aqueles que acertam ou erram nas opções relativas aos seus cães, muito embora essas decisões possam vir a ser condicionadas ou tornadas dependentes por algum entrave económico. Qualquer modalidade canina deverá contribuir prò bem-estar global dos cães convidados para a sua prática. Não existindo esta condição, por maiores que sejam as ânsias dos seus condutores, os seus sonhos e projectos, as suas carências e o seu desejo de protagonismo, qualquer cão deverá ser dispensado desse trabalho, porque ele será forçado, deveras esforçado e indutor a danos de vária ordem. Na cinotecnia não se deverá albardar o burro à vontade do dono, mas encontrar uma modalidade ou método que facilitem a aprendizagem do cão e diminuía substancialmente o número das respostas artificiais a que se verá obrigado. Assim, cada condutor deverá considerar o particular biológico do seu cão, o seu potencial, as suas capacidades e incapacidades, o tipo de respostas diante do estímulo certo e a sua capacidade de resolução. Aqui a riqueza vem do conhecimento e a pobreza do improviso, dos golpes de sorte que geralmente dão em azar. A polivalência canina não é absoluta e encontra-se dependente de vários factores que variam de indivíduo para indivíduo (genéticos, sanitários, ambientais, treino etc.). Os condutores que procuram conhecimento nunca estão satisfeitos e os tolos sempre encontram razão de contentamento.

O QUE NÃO MATA, ENGORDA

Com a chegada da época estival aumentam de sobremaneira os perigos para os cães. Tanto nas praias como nas florestas, apesar de há muito existirem recipientes para esse efeito, proliferam restos de comida por toda a parte, de toda a ordem e para todo o paladar, iguarias do agrado dos bichos e que lhes poderão ser fatais. Se há alturas do ano em que não convém transitar com o cão desatrelado, o Verão é certamente uma delas, especialmente junto a falésias, matas ou pinhais muito concorridos, onde o risco de encontrar comida deteriorada é mais do que certo. Quanto sair à rua com o seu cão esteja atento e não o deixe comer nada, pois isso poderá salvar-lhe a vida. Ao invés de engordar, a comida deixada pelos menos asseados, pode intoxicar e condenar à morte o seu companheiro, sempre pronto prò petisco e à espera de oportunidade. “O que não mata, engorda” é lição doutros tempos, quando a comida era pouca e tudo tinha que se aproveitar. Estamos noutra era e os cães obrigam-nos a andar de olhos abertos.