quarta-feira, 15 de junho de 2011
O CALCANHAR DE AQUILES E A INVULNERABILIDADE BINOMIAL
LS TIOS DE LISBOUA TÉNEN PERROS I NUN SE LES BÉNEM LAS CANHONAS
PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS
A grosso modo poderíamos dividir os criadores e adestradores entre eruditos e oficinais, na aversão de muitos em ligar a erudição ao empirismo e vice-versa. À revelia de uns quantos eruditos, andam por aí alguns oficinais a cruzar pastores alemães com malinois, na procura das vantagens presentes em cada uma das raças, ardil que agora acontece um pouco por toda a parte. Temos seguido com atenção o produto desta “restemenga” e nada nos convenceu da sua excelência, até porque a selecção das duas raças obedeceu a pressupostos diferentes. Os tão aguardados mestiços acabam por retornar ao atavismo comum às duas matrizes, desprezando a selecção alemã, fortemente empenhada na procura da excelência do impulso ao conhecimento. A versatilidade do Deutscher Schäferhunde sucumbe perante a carga instintiva e é substituída por um forte impulso à luta, aumentando a dificuldade de controlo dos animais, podendo obrigar no seu adestramento a meios ou métodos mais coercivos. Muitos dos exemplares já produzidos apresentam um medo latente a uma desconfiança até então nunca vista. A maioria dos pastores alemães usados nesses cruzamentos é proveniente das linhas estéticas ou de exemplares laborais pequenos e de pouca envergadura, o que tem gerado exemplares com um CAP abaixo de 2 nos machos (exemplares com 60 cm de altura e com menos de 30 kg), o que torna sofrível a sua apresentação e poder dissuasor. A sua ossatura é mais frágil quando comparada com a do pastor alemão e o crânio é mais alongado, assiste-se à perca das angulações traseiras e à diminuição do comprimento da cauda. Alguns exemplares são naturalmente selados e o seu manto apresenta-se rarefeito. Subsistem ainda alguns cachorros preto-afogueados. O seu andamento preferencial transitou da marcha para o galope, o que é uma vantagem, porque melhora os índices de prontidão e o cão “come” mais metros por segundo. A sua força de impacto é maior devido ao aumento da velocidade nos ataques lançados, assiste-se ao ataque a vários golpes e a distintas zonas (tendencialmente o mestiço cai sobre tudo o que mexe). Contudo, a sua fragilidade é por demais notória nos contra-ataques, já que o cão pesa menos e pode ser projectado sem grande dificuldade (alguns saiem lesionados dos ataques, normente dos membros anteriores). O mestiço é mais guerrilheiro do que soldado e apresenta alguma dificuldade na identificação dos inimigos, resiste mais às ordens e sempre procura serviço, o que o transforma no cão ideal para vigilantes e justiceiros, para quem gosta de “molhar a sopa” e sempre procura inimigos. Há quem goste de cães assim, nós não!A CRISE ECONÓMICA E OS CÃES
Os cães são um bom barómetro para avaliar a situação económica de um país, porque a canicultura e a cinotecnia avançam ou recuam de acordo com o poder económico da classe média, porque é ela que as sustenta e a ela se deve o seu desenvolvimento, já que não conseguimos alterar as preferências das classes mais abastadas, mesmo que lhes levantemos os fantasmas da insegurança e do aumento da criminalidade (parece que nem o inferno lhes mete medo!). Diante da actual crise económica, agora já ninguém duvida que ela existe e que vai perdurar por mais algum tempo, os consultórios veterinários são menos concorridos, as inscrições escolares diminuem, alguns alunos estão desempregados e a procura de ração barata aumenta. A incidência de ninhadas é menor, o preço dos cachorros baixa e estabelece-se a venda a prestações, factos que muito agradam aos borlistas e que se constituem em excelente ocasião de negócio para alguns mais endinheirados. Os hotéis caninos vêem diminuir a sua afluência, as preferências assentam sobre os cães mais pequenos e tudo somado vai aumentar o abandono e abate do lobo familiar. Será que tínhamos cães a mais ou haveria muita gente sem condições para os ter? Independentemente das respostas, cada escola canina deverá viver de acordo com o particular da sua clientela e usar os seus membros para a sua divulgação e desenvolvimento, desenvolver um conjunto de estratégias que tornem o adestramento mais apelativo e alcançar novas utilidades para os seus cães, porque estamos perante um duro processo selectivo e só os adaptados sobreviverão. Hoje mais do que nunca, todos os sectores ligados à canicultura devem unir-se e disso dependerá a sua sobrevivência (criadores, proprietários, veterinários e adestradores, entre outros), porque o que a uns falta… não sobra aos outros. Esta necessidade, tornada sensível pela agudez económica, já há muito deveria ser contactada e implementada, porque como diz o povo e nisto parece ter razão: “Não há mal que sempre dure e bem que nunca se acabe”. Porem, ainda temos a esperança que os dias maus terão fim e sabemos que só a solidariedade poderá colmatar os dramas individuais. Nisso os portugueses sempre se agigantaram, suportando os momentos de crise e indo adiante. O desafio repete-se e a solução já é de todos conhecida. Porque persistimos nós (Acendura), em fazer da escola uma família? Dar-nos-ão razão agora? GINÁSTICA CINOTÉNICA CORRECTIVA: 10/3 DMEX – A SOLUÇÃO PARA A ESPÁDUA
PELO “QUIETO” TAMBÉM SE ALCANÇA O “AQUI”
Como é sabido, o comando de “quieto” é um automatismo de travamento, mas os seus benefícios não se remetem em exclusivo à imobilização pura e simples ou ao reforço da liderança humana, vão para além disso e acabam também por abraçar o comando de “aqui”. Como o alcance do “quieto” irrepreensível visa a fixação exclusiva na pessoa dono e não permite que o cão olhe noutra direcção, o “aqui” encontra-se facilitado, porque o cão espera a ordem e não nasceu para estar parado, muito menos em figura de esfinge. Do mesmo modo, qualquer “aqui” perde significado perante a insuficiência do “quieto”. Nada disto se constitui numa novidade, já que o adestramento convencional assenta basicamente sobre três comandos: “junto”, “quieto” e “aqui”, comandos esses que irão oferecer a futura condução em liberdade.A OLHAR PELO PASSARINHO
ADESTRAMENTO POPULAR: A MILENAR PEDRA DO PASTOR
COM O MEU CÃO PRETO NUNCA ME COMPROMETO
ROSTOS DA ACENDURA PARA LÁ DO TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO
quarta-feira, 8 de junho de 2011
A TRAVESSIA DO SONHO PARA A REALIDADE: A INFÂNCIA NA COMPANHIA DO CÃO
Vivemos debaixo do mau hábito da separação compulsiva dos distintos grupos etários, política que enfraquece o homem no seu todo e que tende a rebentar com a família, núcleo indispensável para o bem-estar, formação e equilíbrio dos indivíduos que a constituem. E neste flagelo de graves consequências sociais, são os idosos e as crianças quem mais sofre os seus horrores, talvez por necessitarem de maior acompanhamento e os outros andarem demasiado ocupados, raramente com tempo pra si próprios. A maioria dos idosos acabará nos lares que anunciam o inevitável e as crianças verão o calor familiar substituído por escolas ou instituições tornadas apelativas, onde permanecerão a maior parte dos seus dias, como pintos ou leitões em unidades de produção a aguardar transferência. Com alguma sorte, ainda verão os seus pais à noitinha (se ainda viverem juntos), nos fins-de-semana e nas férias, isto se não tiverem actividades extracurriculares e não forem recambiados para um longínquo clube de férias, tido como de aventura diante da sua desventura. As alterações promovidas pelo trabalho na sociedade contemporânea e as substituições que ele provoca, até parecem naturais pela sua aceitação, como se sempre houvéssemos vivido assim ou descoberto agora a melhor forma de vida. À imitação das caixas de correio num prédio de inquilinos, cada idade tem a sua box e a cada uma corresponde um estigma. Marcados por esta influência, também os centros de treino caninos dispensaram o concurso das crianças ao longo dos anos, acabando somente por se lembrar delas quando o fim terapêutico canino se tornava imperativo, o que aponta para uma patacoada social e pedagógica de grande monta. No passado também procedemos assim e afastámos os infantes das nossas actividades, mas depois de verificarmos o carácter impessoal vigente na sociedade e de repararmos na ausência de parâmetros a que ele levou, mudámos a nossa atitude neste últimos vinte anos e passámos de polícias para barqueiros, auxiliando os infantes na travessia do sonho para a realidade, aceitando-os a partir dos seis anos de idade.
Dispensar as crianças do adestramento é um cruel atentado contra a condição humana e é um crime ainda maior para aqueles que se dizem seguidores do método da precocidade, que sabem da importância da experiência variada e rica neste ciclo etário. Aos primeiros agradecemos que se informem e aos segundos perguntaremos: só os cães nos interessam? Nada impede que o adestramento se transforme numa psicoterapia lúdica e contribua para o salutar desenvolvimento da personalidade nos infantes, acompanhando as suas mudanças graduais de comportamento e auxiliando-os na aquisição das bases da sua personalidade. A ideia de um centro de treino exclusivamente para maduros, porque se constitui numa pedra de tropeço prà unidade, mais cedo ou mais tarde, será uma tertúlia destinada à auto-destruição, ainda que de início se mostre bastante concorrida. Não podemos dizer que amamos os nossos alunos se desprezarmos os seus filhos ou não nos prontificarmos para ajudá-los. Tanto podemos ajudá-los em classes integradas e a partir dos cães em treino, como aceitá-los como condutores dos seus inseparáveis amigos, acções que contribuirão para o seu amadurecimento social, emocional e cognitivo, transmitindo-lhes regras e padrões de comportamento básicos de acordo com o seu desenvolvimento psicológico. E como o adestramento é dinâmico e a as transformações físicas acompanham o desenvolvimento intelectual, a prática cinotécnica, para além de os ajudar no discernimento entre as acções certas ou erradas, irá ainda contribuir para a melhoria da sua coordenação motora, aumentar a sua capacidade de resolução e subsidiar outros aspectos importantes ligados ao seu pleno desenvolvimento. Sim, o adestramento pode dar combate aos seus transtornos emocionais, diminuir o índice das neuroses infantis, ajudar no ultrapassar de transtornos emocionais e suprir algumas carências de vária ordem. Isto se pedagogicamente agirmos certo e com a colaboração dos pais, enquanto seus companheiros de jornada e agentes de ensino primordiais. Se o adestramento não for para a família, terá que dividir o seu tempo com ela e mais cedo do que se julga, acabará preterido. segunda-feira, 6 de junho de 2011
AMOR, AMOR AOS CÃES E O AMOR DELES
Sobre a química cerebral que despoleta o amor, pouco sabemos e carecemos de conhecimento mais profundo: do esclarecimento possível para o nosso entendimento. Que o amor desperta ou é acompanhado de outros sentimentos não temos dúvidas. Que em todos nós há amor é um facto, ainda que nalguns seja difícil identificá-lo, mercê da sua ocultação ou fragilidade diante de várias patologias. Também não temos dúvida quanto à sua aceitação cultural, como não duvidamos da influência da cultura nos modelos amorosos. Basta dizer, que quase sem darmos conta, passámos da frivolidade para o erotismo, segundo os ciclos que têm composto o avanço da humanidade. Se a identificação dos vários tipos de amor se encontra facilitada pela etimologia das palavras da antiguidade, o mesmo não se passa com a identificação de todas as suas formas subjectivas, porque todos apresentamos diferentes tipos e formas de amar. Mas se entendemos o sentimento para além das suas manifestações e de acordo com as reacções que provoca nos outros, talvez compreendamos o que é o amor de facto, porque doutra forma seríamos obrigados a aceitar em pé de igualdade o narcisismo, o hedonismo e toda a casta de ermitões (muitas vezes julgados santos pelo atraso da ciência). Assim, julgar o amor pelos seus frutos torna-se mais fácil, na medida em que o efeito induz à causa e o sentimento ganha forma, já que o amor é a mais excelente das comunicações, porque congrega e produz alteração no comportamento dos seus dadores e receptores, levando-os à unidade tanto de propósitos como de vida. Será a partir daqui que avaliaremos o nosso amor pelos cães e o amor que eles nos têm, enquanto acção reflexa num trajecto que se deseja comum. STEPHANITZ, EQUITAÇÃO E ADESTRAMENTO: O TRAJECTO DA JOANA
NOVOS BLOGS NOUTRAS LÍNGUAS, ENDLICH MAL EIN BLOG IN DEUTSCH
Dentro em breve, mal se constituam as respectivas equipas de redacção (já em formação), surgirão novos blogs/sites noutras línguas, destinados a outras realidades culturais e geográficas. Assim iremos ter um destinado ao Brasil e outro em língua alemã, produzidos por acendras locais e igualmente empenhados na nossa filosofia de ensino, multiplicando assim o velho blog português http://www.acendurabrava.blogspot.com/ , que brevemente irá ser substituído por outro. O elevado número de leitores alemães e brasileiros a isso nos obriga, porque ameaça a hegemonia dos portugueses e exige maior reparo. Já não é de agora a colaboração dessa gente e é chegado o momento de retribuir o seu empenho e apoio. A novidade não apanhou de surpresa os leitores mais assíduos desta nossa publicação porque, no 2º parágrafo dos textos da semana, sempre se tem aludido a uma dessas realidades e comentado alguma das suas situações de vida. sexta-feira, 3 de junho de 2011
IMPULSO AO PODER, CRIAÇÃO E HIBRIDAÇÃO
Há um pequeno César dentro de cada um de nós, todos nascemos com impulso ao poder, ninguém gosta de ser contrariado, todos desejamos ser obedecidos e ver realizada a nossa vontade. A força desse impulso e a resistência dos outros irá determinar como o usaremos e que rumo lhe daremos. Nesse combate vale tudo, porque ninguém consegue sufocar a sua natureza em constante apelo, parece que a felicidade individual passa por aí e ninguém é feliz se não tiver algo de seu. Valha-nos Deus! Se calhar inventámo-Lo para combater esta nossa cegueira e demos-Lhe as seguintes palavras (entre outras tantas para além dos 10 Mandamentos): “aquele que quiser ser o maior entre vós, seja o menor”; “se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me”; “seja feita a Tua vontade” e “um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como a vós mesmos”. Um Deus que não tinha onde reclinar a cabeça, que sucumbe perante o poder dos homens e que lá no final sai vitorioso, ressuscitando para nos dar morada junto d’Ele. O impulso ao poder humano é um caso muito sério, uma inclinação que não tem poupado vítimas e que jamais deixará de as fazer, mesmo entre aqueles que se dizem seguidores da divindade e seus representantes na Terra. Diante deste cenário apraz-nos dizer: como o mundo seria mais justo se só os animais tivessem impulso ao poder (pelo menos para os homens!). Exceptuando a possível alteração produzida pela premissa metafísica, parece-nos difícil separar o impulso ao poder da auto-realização humana, já que todos procuram, tanto líderes quanto subordinados inatos, uma dose quanto baste de “quero, posso e mando”, surgindo a marginalidade e os comportamentos a ela associados como resultado do mesmo apelo, ainda que por meios condenáveis pela sociedade.
É igualmente difícil separar o impulso ao poder do acto de criar ou de o inovar, isto se essa nova criação se encontrar sujeita ou servir os propósitos desse mesmo impulso. Diz-se e Gilberto Freyre também o disse, que Deus criou as raças e os portugueses criaram o mestiço, o que é uma inverdade histórica, já que essa prática é anterior à nossa nacionalidade, foi praticada nos impérios da antiguidade, consumada nos casamentos reais e usada para o aumento do seu domínio e poder. O que se deve aos portugueses é o seu aproveitamento global, a generalização da mestiçagem nos territórios ultramarinos e no Novo Mundo, como política para garantir o povoamento, a extracção das riquezas e a sua soberania ali, considerando o escasso número de habitantes no seu território metropolitano. Os reis que outorgaram a mestiçagem ou que a ela não se opuseram, também eles oriundos de diferentes etnias europeias, de português sobrava-lhes o título, sendo cada um deles mais germano, inglês ou francês do que o outro. A criação dos originários pombeiros, gente que dava caça aos escravos, encontrou na mestiçagem a nata das suas fileiras, o que se compreende face à resistência dos nativos em dar caça ao seu próprio sangue ou de submeterem a sua tribo a tal assolação. Conclui-se assim que a criação do mestiço resultou duma medida económica para garantir o poder. Se uns construíram impérios a expensas doutras etnias, outros houveram que criaram raças de cães, o princípio é o mesmo e acabou por servir idêntico propósito, já que a novidade dessas raças veio contribuir eficazmente para a defesa dos bens individuais, para o sucesso no esforço bélico, para o exercício policial, para reforço da actividade cinegética, para a autonomia dos deficientes e para afirmação do status, entregando a cada um dos seus novos proprietários muitas das mais-valias que há muito aguardavam.
O adestramento continua invadido por um corolário de apelos incontidos ao poder, diariamente somos surpreendidos com indivíduos predispostos à dominância, gente de todas as idades e com igual propósito, que pretende encontrar nesta arte os fundamentos para o seu castelo, um meio violento para se afirmar e ultrapassar os outros, ainda que o não diga e que dê a entender exactamente o contrário, porque a cobardia aguça o engenho e a simulação é-lhes natural. Perante a situação, como deverá proceder um adestrador digno desse nome? Ignorará as intenções deles? Dará azo ao disparate e mostrar-se-á conivente ou desnudará os indivíduos e tentará produzir neles alteração? O caminho mais fácil é lavar daí as mãos, o mais difícil é produzir alteração. Se entendermos a salvaguarda dos cães como o objectivo central do adestramento, não restam dúvidas: seremos obrigados a produzir alteração na pessoa dos condutores! Com isto, podemos perder um ou mais alunos, ganhar o rótulo de imprestáveis ou de idiotas, mas mais vale ganhar a alcunha do que fazer jus ao nome. Que ninguém se engane, nenhuma lei trava um desejo, uma inclinação ou uma ambição, apenas obriga os indivíduos ao disfarce que impede o seu castigo, até porque, invariavelmente, o montante do prémio é superior aos danos causados pela contravenção. Denunciar os abusos cometidos sobre os cães é nossa obrigação, assim como também é a formação dos seus condutores. Se não evitarmos atempadamente os abusos binomiais, alguns inocentes irão pagar o preço da nossa “distracção” ou indiferença, tal qual ovelhas prontas prò abate. O adestramento deve ser uma ocasião para a paz e para que isso aconteça, é necessário perscrutar as intenções de cada um dos nossos alunos e sintonizá-los com os nossos objectivos e filosofia de vida. Todo e qualquer impulso, inclusive o relativo ao poder e com mais acuidade, deve ser direccionado para o bem comum, sem contudo eliminar a criatividade individual que enriquece o colectivo escolar. Eu quero encontrar na rua um cão que me acompanhe quando estiver só, não um que me mate porque não alcanço socorro! Trabalhar assim é lutar, também, contra o aumento da criminalidade.GESCHICHTE EINES ALTEN SÜNDE: A HISTÓRIA DO ILAK, O CÃO-LOBO by Hans Freudig
When I was young, a história poderia começar assim, porque já lá vão algumas décadas, ofereci um presente envenenado a um irmão: o ILAK, um cão-lobo que doei como se fosse o mais excelente dos Pastores Alemães. Felizmente não resultou daí qualquer dano para ninguém, nem para o bicho nem para os sucessivos proprietários que o adquiriram e conduziram, o que não me isentou de rara preocupação durante alguns anos, até porque o meu propósito inicial era francamente maldoso e queria de alguma forma comprometer o meu irmão. Um dia, o qual não recordo exactamente, ele disse-me: “Hans, eu quero um cão como o do Wilhelm. Quando tiveres outra ninhada, espero que me ofereças um!”. Na altura, não que isso sirva de justificativa, esse meu irmão era muito prepotente, funcionava como meu patrão e sempre fazia questão de manifestar a sua autoridade, mesmo nos momentos em que tal era desnecessário e se tornava por demais abusivo. Farto do aturar, que madurezas era coisa que não faltava, anui ao seu pedido e esfreguei as mãos de contente, porque a minha hora parecia ter chegado. O tal de Guilherme que me havia comprado o primeiro cão, trabalhava connosco e comprou-mo para arranjar um aliado, porque também ele, por detrás do seu ar de franciscano descalço, não ia à bola com o meu irmão, tudo fazendo para o destronar e ocupar o seu lugar. Por má sorte, veio a alcançar os seus intentos, ainda que por pouco tempo. Mas voltemos à história do ILAK.
A minha Pastora Alemã Arim já tinha 7 anos de idade e ao invés de a beneficiar com um cão da sua raça, optei por cruzá-la com um lobo de uma reserva, porque tal me pareceu bem, atendendo à picardia que mantinha com o meu irmão, necessariamente silenciosa porque o homem não era para brincadeiras e dele dependia o meu futuro. A cavalo e com a cadela a correr ao meu lado, coloquei-a na cerca dos lobos por altura do seu período fértil, temendo por ela e ávido de um desfecho feliz. Três coisas podiam acontecer: a morte da cadela (coisa que eu nem queria imaginar), ela ser coberta ou acabar por fugir, gorando assim os meus intentos. Passada uma semana, com o coração nas mãos, voltei ao reduto dos lobos e chamei por ela. Mais depressa do que em imaginava, ela apareceu, feliz e de cauda ao alto. Escusado será dizer que as lágrimas escorriam-me pela cara abaixo e jurei nunca mais repetir a “proeza”. Trinta e cinco dias depois já havia evidências seguras da sua prenhez, notícia que de imediato transmiti ao meu irmão, geralmente acompanhada de bons augúrios e na certeza de cachorros extraordinários. Os cachorros nasceram no tempo certo e saíram uns matulões, metade preto-afogueados e a outra metade lobeira a puxar para o cinza. Para que os meus planos dessem certo, escolhi o cinzento maior da ninhada, um infante que havia nascido com 890 g e isto sem a mãe haver tomado qualquer suplemento ou aditivo.
Por volta dos seis meses de idade, já o cachorro era enorme e começava a demonstrar algumas tendências, nomeadamente a aversão que tinha ao nosso offiziellen, um funcionário africano que trabalhava para nós e que tudo fazia para nos encalacrar, para quem o cão era um demónio pior do que o dono, no mínimo, o melhor dos complementos prà sua malvadez! Se fosse só por causa do homenzinho, o cão jamais viria a ser treinado, porque a antipatia entre os homens era recíproca e o cão prestava-se à festa. Numa tarde sou surpreendido por uma pergunta:” Hans, quem é o veterinário mais entendido em Pastores Alemães?” Como quem não está acostumado a mentir, sempre lhe foge a boca para a verdade, respondi-lhe prontamente: “ É o Dr. Weiss Schlösser!”, sem pensar nas consequências de tal resposta. “ Prepara-te, porque depois de almoço vamos ao seu consultório, pois gostava de uma opinião avalizada sobre o ILAK” – concluiu. O apetite para o almoço daquele dia desapareceu ainda antes de ter chegado, a ida ao veterinário atormentava-me de sobremaneira, temia ver-me denunciado e com o futuro laboral comprometido. Pelo caminho pensava em estratégias para ludibriar o Dr., e como não é bom ter só um plano A, ia formulando desculpas credíveis para o sucedido, caso a trama viesse a ser descoberta.
No consultório fomos amavelmente recebidos, o cão foi colocado em cima da marquesa e a inspecção demorou cerca de trinta minutos, minutos de muito aperto para mim, agravados pelo silêncio cortante da observação, nem as moscas se ouviam, somente o boliço distante dos carros que passavam pelo exterior do edifício. O clínico observou o cão à minúcia, não parava para comentários, até que finalmente soltou: “ Parabéns Sr. Jurgen, o seu cão é o melhor Pastor Alemão que vi nestes últimos trinta anos! Disto não se vê todos os dias! Verdadeiramente um perfeito exemplar!” Suspirei de alívio, parecia estar a viver o dia da redenção e dizia em silêncio para Deus: “ Obrigado bom pai, deste-me aquilo que não mereço!” Daquele dia em diante, a soberba do meu irmão aumentou e os Pastores Alemães passaram a dividir-se em duas categorias: o ILAK e os outros; o exemplar e as imitações. O caso não era para menos, o bicho atingiu 74 cm de altura, veio a atingir um perímetro torácico de 130 cm e um peso de 53 kg, sem nunca estar gordo.
O tempo correu de tal maneira que quando demos por isso, já estávamos a entregar o cão. Seguiu-se a observação detalhada do animal pelo treinador, que estupefacto me disse: “ Amigo Hans, este bicho é dos gigantes, nunca vi coisa assim e olhe que já vi muitos pastores alemães. Nele tudo é grande, até os dentes!”, ao que lhe respondi: “Eu bem lhe disse Sr. Franz, afinal não o enganei, o cachorro é mesmo de primeira!” Depois disso fomos assistir à primeira aula e seria melhor não termos ido. Ao passar por uma poça de água, o homem pôs os pés por ela adentro e o cachorro passou-lhe ao lado. A atitude do cão não agradou ao mestre e este tomado de zelo, agarrou-o ao colo e projectou-o para dentro do charco dizendo: “ 1ª Lição, metes as patas onde eu meto as minhas!”. O meu irmão levantou as mãos à cabeça em silêncio, enquanto olhava para mim, meio confuso e outro tanto indignado. Para o sossegar, eu projectava o meu polegar direito para cima e apertava o óvulo da minha orelha em sinal de aprovação. Mais confiante em mim do que na demonstração daquele treinador, o Jurgen aceitou as suas condições e entregou-o aos cuidados daquele mestre, que foi o seu único treinador e que acabou por treiná-lo irrepreensivelmente, outros não o fariam tão bem e facilmente se entende porquê.
Durante algum tempo deixei de ter notícias do cão-lobo e aproveitei um convite do Sr. Franz para almoçar, já que a sua mulher era uma excelente cozinheira. Na alegria do convívio e na euforia produzida pelos bons vinhos da nossa terra, até porque a comida estava apurada e puxava parar beber, decidi revelar um segredo e disse para o dono da casa: “ Sr. Franz, sabe porque é que o ILAK devolvia ao remetente tudo aquilo que recebia? Simplesmente porque é um híbrido de lobo!” Ao ouvir a estranha revelação, o velho treinador permaneceu quedo e mudo, somente os seus olhos se mexiam, lembrando fagulhas prontas pra tudo incendiar. Depois, levantou-se da mesa e abriu a gaveta de um armário, tirando de lá uma pistola que ele mesmo havia construído. Com ela empunhada e apontada para mim, disse-me: “ Podia ter-me dito a verdade desde o princípio, que eu não me negava. Agora, brincar com a minha boa fé e gozar com a minha integridade, nunca!” Antes que carregasse no gatilho e aproveitando um breve momento em que limpava o suor da sua testa, eu saí pela janela e estivemos meia dúzia de anos sem nos falarmos. O homem tinha carradas de razão!
Entretanto, gratos pela atenção que havia dispensado ao ILAK, fui convidado para lanchar na casa dos músicos seus proprietários, onde acabei por conhecer também a Sr.ª Gertha, uma visita assídua da casa e uma apaixonada incondicional por cães. Bastante curiosa com o tema da conversa, ela decidiu ir ao quintal conhecer o cão. Ainda dentro de casa e reparando nele através da vidraça da porta da cozinha, disse: “Gretchen, o teu cão é enorme e devia ser treinado. Posso ir lá fora ter com ele?” A dona de casa sorriu e respondeu-lhe:” O meu cão já foi treinado e bem. Claro que podes ir lá fora, está à vontade”. Já haviam passado vinte minutos e a Sr.ª Gertha teimava em regressar. “Gertha, o teu chá já deve estar frio! Não te faltará tempo para conviveres com o ILAK. Vem para dentro!” Como ninguém respondeu ao apelo da dona casa, decidi ir procurar a senhora em falta. Ao chegar ao jardim, deparei-me com uma imagem insólita: a pobre da Gertha estava debaixo de um limoeiro, presa pela garganta, com os dentes do ILAK a segurá-la! O bicho rosnava e ela não se mexia. Depois de liberta, soltou: “Que rico cão, deixas-me levá-lo ao treino?” Os donos da casa olharam um para o outro e disseram-lhe que sim. Temendo por danos maiores ou pela ocorrência de qualquer disparate, combinei com aquela senhora que a acompanharia no primeiro dia ao treino.
Poucos dias depois, deslocámo-nos ao campo de treino. A Sr.ª Gertha saiu com o cão e eu fiquei dentro do seu BMW amarelo de duas portas, de atalaia, não fosse algo acontecer. Mal tinham passado o portão do recinto e sentindo a proximidade dos outros cães, o ILAK soltou um uivo tremendo e metálico. Os condutores dos outros cães viram-se a braços com o susto provocado nos seus animais, parecia que um tornado ali havia passado e levado tudo à sua volta. O Sr. Ferdinand, o director daquela escola, estarrecido e espavorido, gritou: “ Ò Gertha, tira imediatamente esse cão daqui!” A boa da senhora sentiu-se descriminada e lá respondeu: “ Tiro o cão porquê? Eu sou sócia da escola!” Possesso, o treinador retorquiu-lhe: “Mas não é o cão! Ponham-se os dois lá fora!” Até hoje, porque me viu dentro do carro, o Sr. Ferdinand jura que o sucedido foi obra minha, uma manobra para o comprometer e desacreditar. Contrariada, a Sr.ª Gertha nunca mais saiu com o ILAK, apesar de muitas vezes o ir visitar a sua casa e brincar com ele no jardim. E como a vida não pára, o cão-lobo morreu de velho no princípio do século, o Sr. Franz, agora viúvo, vive no estrangeiro com o filho, o casal de músicos separou-se e só agora o meu irmão tomou conhecimento de todos os factos. Esta é a história do ILAK, o cão-lobo, uma história verídica que poderia ter um final diferente, um relato da minha maldade que apresento como um pedido de desculpas. Queira Deus que o meu irmão me perdoe, se fosse ao contrário, eu não sei se lhe perdoaria. Resta-me a esperança de ele ser melhor do que eu. Sosseguem os mais exaltados ou medrosos, porque o comportamento do ILAK é atípico dentro dos híbridos de lobo, porque na sua maioria eles não evidenciam tais características, sendo ao invés medrosos e desconfiados, naturalmente avessos à formação de equipa, porque a sua carga instintiva fala mais alto e obsta ao seu aproveitamento. Apesar de tudo, tenho saudades do ILAK, ainda sonho com ele, vejo-o todas as noites a correr na floresta antes de dormir. quarta-feira, 1 de junho de 2011
OUVIR A CHARANGA E NÃO IR DE CHAROLA
O TEMPO PASSA E ELA CONTINUA
Corria o ano de 1995, quando demos uma cachorra cruzada de Collie Barbudo com Pastor Alemão a um conhecido de então. O obsequiado pôs-lhe o nome de July e ela veio a transformar-se numa companheira excepcional. Ainda participou, por duas ou três ocasiões, nas exibições escolares e sempre se comportou exemplarmente. No passado Sábado, dia 28 de Maio, recebemos a foto acima com o seguinte comentário: “Os meus melhores 16 anos da minha vida em companhia da minha amiga JULY… PS desculpem em estar deitada à vaca”. É caso para se dizer que o tempo passa e ela continua. O pai da July durou 21 anos (Faruk of Highlands), depois teve que ser abatido, porque alguns dos seus órgãos paralisaram. Às suas costas fundou-se a Acendura Brava e durante muito tempo serviu de referência para nossa escola. Desejamos que a July dure tantos ou mais anos com saúde e alegria.“DEUS TENHA PENA DOS RICOS PORQUE OS POBREZINHOS COM QUALQUER COISA SE CONTENTAM”
Sempre ouvimos esta frase nos momentos de crise ou de maior aperto. Não sabemos quem a disse pela primeira, mas compreendemos sem maior dificuldade qual o seu sentido, algo idêntico ao constante nos aforismos: “Só perde quem tem” e “quem não tem cão, caça com gato”, que dependendo da gravidade das situações nos poderão levar a outro: “ é pior a emenda que o soneto”. Não é de política que iremos falar e também de nada adiantaria, porque raros são os eleitores que lêem os programas dos partidos concorrentes às eleições e os políticos sabem disso. Os pobres e os ricos que aqui abordaremos serão aqueles que acertam ou erram nas opções relativas aos seus cães, muito embora essas decisões possam vir a ser condicionadas ou tornadas dependentes por algum entrave económico. Qualquer modalidade canina deverá contribuir prò bem-estar global dos cães convidados para a sua prática. Não existindo esta condição, por maiores que sejam as ânsias dos seus condutores, os seus sonhos e projectos, as suas carências e o seu desejo de protagonismo, qualquer cão deverá ser dispensado desse trabalho, porque ele será forçado, deveras esforçado e indutor a danos de vária ordem. Na cinotecnia não se deverá albardar o burro à vontade do dono, mas encontrar uma modalidade ou método que facilitem a aprendizagem do cão e diminuía substancialmente o número das respostas artificiais a que se verá obrigado. Assim, cada condutor deverá considerar o particular biológico do seu cão, o seu potencial, as suas capacidades e incapacidades, o tipo de respostas diante do estímulo certo e a sua capacidade de resolução. Aqui a riqueza vem do conhecimento e a pobreza do improviso, dos golpes de sorte que geralmente dão em azar. A polivalência canina não é absoluta e encontra-se dependente de vários factores que variam de indivíduo para indivíduo (genéticos, sanitários, ambientais, treino etc.). Os condutores que procuram conhecimento nunca estão satisfeitos e os tolos sempre encontram razão de contentamento. O QUE NÃO MATA, ENGORDA
Com a chegada da época estival aumentam de sobremaneira os perigos para os cães. Tanto nas praias como nas florestas, apesar de há muito existirem recipientes para esse efeito, proliferam restos de comida por toda a parte, de toda a ordem e para todo o paladar, iguarias do agrado dos bichos e que lhes poderão ser fatais. Se há alturas do ano em que não convém transitar com o cão desatrelado, o Verão é certamente uma delas, especialmente junto a falésias, matas ou pinhais muito concorridos, onde o risco de encontrar comida deteriorada é mais do que certo. Quanto sair à rua com o seu cão esteja atento e não o deixe comer nada, pois isso poderá salvar-lhe a vida. Ao invés de engordar, a comida deixada pelos menos asseados, pode intoxicar e condenar à morte o seu companheiro, sempre pronto prò petisco e à espera de oportunidade. “O que não mata, engorda” é lição doutros tempos, quando a comida era pouca e tudo tinha que se aproveitar. Estamos noutra era e os cães obrigam-nos a andar de olhos abertos.
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