segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O EFEITO BALOIÇO: O CÃO PENDURADO À ESQUERDA

O “Efeito Baloiço”, um dos vícios do duelo das vontades entre o cão e o dono, é caracterizado pelo pendurar do animal à esquerda quando atrelado, que desequilibra a progressão binomial e obriga a constante correcção. As razões que contribuem para o fenómeno podem ter uma tríplice origem ou resultar da sua combinação, já que podem advir do particular do cão, da sua instalação e da pessoa do dono. Independentemente do caso, a resposta animal desnuda o desencanto relativo ao uso da trela e denuncia a impropriedade afectiva entre o condutor e o cão. Quando as dificuldades se ficam a dever ao cão, que só o serão diante da aplicação e calendarização dos procedimentos certos, elas resultam da supremacia dos instintos sobre os impulsos e apontam para uma baixa capacidade de aprendizagem de que a má selecção não de pode alhear. Contudo, como tantas vezes já foi dito, a capacidade de aprendizagem de um cão pode ser melhorada durante a sua infância pelo benefício da experiência variada e rica sobre a plasticidade existente.

Na esmagadora maioria dos casos o problema fica a dever-se a uma má instalação doméstica, a um distante relacionamento binomial e a um atrelar apressado ou de emergência, condições que ao obstam ao correcto escalonamento hierárquico, procuram o desprezo ou a nulidade da liderança, porque a obediência não é uma resposta natural e sempre sofre algum tipo de resistência. Como se antevê, a razão aqui é de índole social e aponta para o relaxo, despreparo ou ignorância do dono, porque não investiu e desaproveitou, esperando do animal aquilo que era sua obrigação. Assim, o “Efeito Baloiço” é uma tentativa de inversão social, própria dos cães mais extremados ou isolados, uma postura revolucionária que procura a emancipação canina. Os cães mais medrosos facilmente enveredam por este vício, porque o “Junto” lhes causa arrepios e sentem-se vulneráveis, preferindo outras paragens. Os indivíduos mais dominantes preferem ir adiante e como não o podem fazer, tentam levar os donos de vencida pela exaustão. Do mesmo modo, os cães que sempre andaram em liberdade, não vêem com bons olhos a trela e o seu redireccionamento, porque a liderança atenta contra a sua livre escolha.

Isto leva-nos para a altura certa de atrelar, para seu modo de execução e para o aproveitamento circunstancial. A colocação da coleira deve anteceder o recurso à trela e deve acontecer aos 2 meses de idade. Só depois da habituação à coleira, coisa que demora 2 ou 3 dias, é que se convida o animal para os passeios atrelados, que devem acontecer de modo natural e gradual, evitando-se a saturação e o reboque. Nesta idade o cachorro não nos larga os atacadores dos sapatos, tendencialmente tropeçamos nele e sempre corre atrás nós. A trela deve ser usada na procura dos brinquedos e no retorno ao seu local de abrigo, apresentar-se como um reforço positivo das acções do infante e indiciar a presença da recompensa. Nos primeiros dias alcançaremos apenas alguns centímetros, mas como o passar do tempo, ganharemos um companheiro que até irá buscar a trela, porque se sente feliz e quer andar ao nosso lado. Este é um trabalho a desenvolver no lar, no período de vacinação que antecede a excursão e que melhor a prepara. Quanto mais tarde se atrela um cão, maiores serão as dificuldades, porque o desencanto reina e a coerção não surte o mesmo efeito. Atrelar um cão aos 2 meses de idade é aproveitar a protecção que nos solicita, contribuir para o seu crescimento saudável e fundamentar a parceria, graças ao apoio dispensado, ao incentivo omnipresente e à divisão de tarefas. Os cães são agradecidos e gostam de saber com o que contam, sentem mais a perca e resistem às mudanças.

Infelizmente são raros os proprietários de cães que assim procedem e os bichos acabam vítimas disso, porque são atrelados tardiamente e à revelia, contrafeitos e com ganas de se escapar. Na impossibilidade de recuperar o passado e quando a condução se torna impossível, procuram-nos e solicitam-nos ajuda, apresentando os cães debaixo do vício decorrente: o do “Efeito Baloiço”. Raros também são aqueles que reconhecem o seu contributo para o desaguisado e muitos são os que incriminam os seus cães, tratando-os de brutos sem qualquer préstimo. Perante a dificuldade somos obrigados à solução e quando o mau hábito está por demais enraizado, importa adiantar subsídios para o levar de vencida. Todavia, é mais fácil transformar o cão do que o dono, ainda que a transformação do primeiro acelere a recuperação do segundo. Passemos às soluções.

A procura da fixação na pessoa do dono. A maioria dos cães que incorre neste vício raramente olha para os donos ou atenta para as suas palavras, ensurdece-se para os comandos e cumpre as tarefas contrariado, denunciando a ausência de vínculos afectivos capazes e um crescimento desacompanhado, distante das rotinas domésticas e arredado de um contacto mais íntimo. Geralmente são cães com lugares pré-destinados e criados na perspectiva do “não me chateies”, que se desenvolveram a rumo próprio e que inventaram os seus próprios afazeres. Quando assim é, vamos ter que obrigar o dono a brincar com o cão, a descobrir as suas preferências, a adquirir tarefas divididas e a recompensá-lo de acordo com os resultados obtidos. Tirar o dono do pedestal é a meta, o objectivo é a recuperação do cão. Para que ela aconteça é necessário transformara a autonomia em dependência e fixar o animal na pessoa do dono. É melhor fazer as pazes com o cão do que impor o uso da trela, porque o binómio nasce em casa e desfila pela rua. Como grande número das pessoas é muito ocupada, depressa dará o tempo por perdido e solicitar-nos-á outras opções, apesar desta ser a melhor, porque pensam que os estamos a “mandar pentear macacos”.

As conduções por desequilíbrio. As conduções por desequilíbrio que usamos são duas: a condução de mão direita e a da trela sobre os ombros. A condução de mão direita, prática bastante comum nas unidades cinotécnicas profissionais do passado, também identificada por baixa técnica, consiste em conduzir o cão à esquerda pela acção da mão direita do condutor, que se serve do adiantamento da perna esquerda como alavanca, impedindo a fixação dos anteriores e evitando a progressão canina adiante. Apesar do condicionamento garantir a correcção, ela é incómoda para o condutor e de índole coerciva. A condução com a trela suspensa sobre os ombros do condutor tem o mesmo propósito e tenta cativar a atenção do cão pela surpresa, graças ao comando inibitório “não” e ao convite das mãos livres. Procura-se aqui o domínio dos comandos verbais sobre as acções, porque na maioria dos casos os condutores desfilam rebocados pelos cães, perdendo a sensibilidade, confundindo as ordens e inviabilizando as mensagens. O trabalho consiste em dizer “não” quando o cão se afasta da perna esquerda e conservá-lo aí pela cativação das mãos do condutor. O uso de um boneco ou biscoito na mão direita pode operar milagres desde que o cão não se farte ou desinteresse, o que é fácil de acontecer se tiver um fraco impulso ao alimento ou tenha sido arredado da cumplicidade. A condução da trela sobre os ombros do condutor, para além do seu propósito mais comum, possibilita ainda a normalização dos ritmos vitais do cão, evitando a saturação e o seu estoiro precoce. É também uma condução coerciva, apesar de menos lesiva que a primeira.

Os percursos lineares com inversão do sentido de marcha e mudanças de mão. São subsídios de correcção tirados a partir da surpresa, desenvolvidos num segmento de recta e visam o reparo do cão em relação ao dono ou condutor. A inversão do sentido de marcha e a mutação de mão de condução, quando usadas de modo imprevisível, possibilitam a eliminação do vício pelo concurso da surpresa, porque o cão nunca sabe o que o espera e vê-se obrigado a seguir o dono, circulando invariavelmente à sua esquerda ou à direita e sujeito à inesperada inversão do sentido de marcha. O exercício não deve ser praticado sem o aquecimento prévio do cão, porque subsiste perigo eminente de lesão. No passado recente, a maioria dos cães só aprendia obediência em pequenos percursos lineares, tirando partido de vários segmentos de recta. A prática foi abandonada pelo excesso de inibição, aumento da irritabilidade e riscos de lesão, porque dispensava o desenvolvimento cognitivo canino e os benefícios da ginástica, mormente o concurso dos obstáculos e as suas vantagens.

A mudança de condutores. É uma estratégia muito comum entre nós, considerando a felicidade dos cães pelo contributo das mãos alheias. A coisa não é nova e remete-nos para a ancestral relação instrutor-instruendo, quando o primeiro exemplificava para o segundo os procedimentos a haver. A novidade consiste em considerar os condutores alheios como agentes de ensino, ainda que devidamente orientados e acompanhados. A troca de condutores possibilita uma nova experiência para o cão e opera a fixação dos comandos, contraria os seus hábitos e liberta-o da menos valia do seu condutor, limando arestas para além do seu alcance, porque diferentes mãos têm diferentes desempenhos e existe gente que faz da adaptação uma virtude. Por outro lado, o dono do cão aprende com os procedimentos alheios para além do reparo do instrutor, coisa invisível quando se encontra a trabalhar, porque passa do rádio para a televisão e o replay é possível.


Existem outros métodos para a correcção do vício, alguns que até dispensam maiores cuidados por parte dos condutores, que geralmente abominamos e que de bom grado lhes endereçaríamos, se tal fosse possível e a lição valesse a pena. Tudo o que indicámos são medidas de excepção, rudimentos que não escondem a insatisfação dos cães e o seu uso descuidado. Como recuperar em cinotecnia significa reeducar e um binómio não subsiste sem liderança, os condutores necessitam de um maior aprimoramento, atendendo à sua condição e ao reflexo das suas atitudes. Atrelar no tempo certo e usar a cumplicidade podem evitar o fenómeno.

GÉNESIS NO FEMININO


Há quem pense, diga-se erroneamente, que a Acendura é uma associação de homens de “barba rija”. Logo desde o seu início as mulheres sempre se fizeram presentes, realçando a nossa técnica, derramando o seu suor e contribuído para a nossa exaltação. Muitas delas alcançaram destaque e o seu número é imenso. Deixamos aqui alguns nomes: Helena Andrade, Mónica Madeira, Guadalupe, Maria Duarte, Beatriz Silva, Margarida Jales, Pilar Calleja, Isabel Silva, Cristina Neves, Teresa Martins, Eugénia Barbosa, e Madalena Fialho. A lista é interminável e a nossa gratidão imensa. Algumas delas contribuíram noutras áreas para além do treino e injustamente são esquecidas, arredadas da memória colectiva, apesar da sua importância, disponibilidade e notoriedade de serviço. Tal é o caso de uma Senhora, a Dª Maria Margarida Costa Cássio, já falecida, que no ano de 1992 construiu a nossa primeira Pista Táctica na Quinta do Brejo, em Avessada. Os nossos primeiros cães tiveram o seu afixo: Villa de Sant’Agata. Foi ela quem criou os ascendentes dos nossos actuais cães, a Acendura começou com os seus Cocker’s e com uma Rafeira Alentejana de nome “Boleta”, a mesma que está com ela na fotografia acima. A Margarida tinha uma paixão enorme pelos cães, tratava os cachorros por “Mimins” e foi portadora de um altruísmo notável. Depois de algum padecer, a morte chamou-a precocemente. Relembramo-la hoje aqui, não porque fosse pessoa de homenagens ou gostasse de galanteios, mas porque tornou possível aquilo que hoje somos e o seu nome está por detrás de cada cão, ainda que os seus donos o não saibam. Passámos na Avessada e o vazio invadiu-nos, voltámos para a Escola e sentimos a sua presença. Obrigado Margarida.

A OFICINA QUE VIROU MUSEU: O RETORNO À QUINTA DO BREJO

Agora já sabemos, a Acendura começou na Quinta do Brejo, exactamente no mesmo sítio onde residia e leccionava o saudoso Mestre Nuno de Oliveira, equitador inigualável e figura incontornável da arte equestre nacional. A Quinta do Brejo foi semeada numa encosta, construída gradualmente e custo pelo esforço do Mestre Nuno. Passados poucos anos da sua morte, o Sr. D. Tomás de Alarcão, que foi seu aluno, comprou a Quinta aos herdeiros e ali tem efectuado inúmeros melhoramentos. A austeridade do traçado antigo, profundamente ligada a personagem do seu criador, encontra-se agora embelezada, com o seu quê de paço senhorial e a lembrar os palácios da Beira.

Ai encontramos de tudo, desde arcadas renascentistas a um pelourinho, as escadarias rasgam o espaço e a arquitectura lembra outros tempos. Nesse espaço, agora idílico, obra da inquietude do Sr. D. Tomás, pretende-se fazer turismo de habitação. A oficina de outrora virou museu, lugar de romaria a quem deixou tão importante legado. No lado sul do Picadeiro, à entrada para a tribuna, os escudetes com os nomes dos cavalos do saudoso Mestre ali permanecem, como se continuasse vivo e se dirigisse ao escritório, para o convívio descontraído após as lições, como sempre foi seu hábito.

Fomos ali render homenagem e matar saudades naquele lugar inesquecível, adornado pelo arvoredo e rasgado pela erudição, depósito de muitas estórias e vitórias. Parabéns D. Tomás por manter o Mestre vivo.

URBANISMO & LIBERDADE

Este fim-de-semana foi dedicado às dificuldades do quotidiano canino, aos desafios que são colocados aos cães urbanos. Treinámos a imobilização diante das passagens para peões, acostumámo-los ao trânsito automóvel e ferroviário, tirámos partido dos diferentes ecossistemas e devolvemos-lhes a liberdade à beira-mar. As classes estiveram concorridas e houve quem trabalhasse os 4 turnos. À excepção dos currículos de guarda e pistagem, tudo foi revisto e exercitado e é visível o trabalho que teremos pela frente. Nota máxima para o Master que se comportou à altura e especial de destaque para a dedicação do Gonçalo. O Rodrigo saiu de rastos e a Joana tem que melhorar o “Junto”.

O João Domingues está de volta com o Kaiser, o pai do Zorro e da Amora. Com eles veio também o patriarca da família, o Sr. Alberto Domingues, companheiro das nossas lides e pessoa interessada no nosso trabalho. A Ana Pinto carrega a Babel para todo o lado e a cachorra já anda à trela de modo irrepreensível. O Francisco ainda não se livrou da gripe e a Princesa foi para outras paragens, para o Zoo Marine, levando atrás a família. A sua ausência ficou ligada ao aniversário do seu filho Afonso, que recebeu como prenda de anos ir nadar com os golfinhos. Desta vez o Pedro Rocha não compareceu ao convívio e a Pescadinha anda às voltas com a tese. É caso para se dizer: pobre Teddy! A Vega voltou aos trabalhos e o Roberto ficou entregue aos trabalhos académicos. Almoçamos nos “Grelhados da Aldeia” e no “João da Vila Velha”.

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, Ana/Loki, Isis & Babel, Carla/Dirka & Shadow, Eduardo/Micks & Vega, Francisco/Luna, Gonçalo/Gaspar, Joana/Flikke, João/Kaiser, Jorge/Audaz & Juvat, Luís Leal/Teka, Manel/Mini, Octávio/Greg, Rodrigo/Tarkan, Vítor Hugo/Yoshi e Zé Gabriel/Master & Menina.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Jantar de Natal da Acendura Brava

O Jantar de Natal da Acendura Brava vai realizar-se no dia 22 deste mês, às 20 horas e 30 minutos, no Restaurante Típico “Beijo ao Boi”, propriedade do Sr. Carlos Veríssimo e sito no lugar do Barro/Loures. Aproveitamos para convidar todos os alunos para este evento, tanto os actuais como os do passado, porque entendemos a confraternização como modo de crescimento mútuo e união de propósitos. O jantar vai estar a cargo da Maître Cuisinier de l’Orde de l’hôtel da Ribeira Ruiva, Maria do Rosário e as iguarias, como sempre, serão do agrado geral. Se não tem os nossos contactos telefónicos, pode confirmar a sua presença através de e-mail para este Blog até ao dia 17 do corrente mês. Já sabe que será bem-vindo e que a sua presença será apreciada. Aguardamos o seu contacto.

A guerra de titãs: o Cão que ataca o treinador

Apesar de não ser impossível, dificilmente esta situação acontecerá entre aqueles que criaram o seu cão desde cachorro. E quando isso acontece, só pode resultar de duas coisas (isoladas ou combinadas): da super dominância do cão ou da impropriedade da liderança, porque os cães não nascem iguais e todos os homens são diferentes. Se o problema resultar do temperamento do cão, intimamente ligado a um forte impulso ao poder, só a reeducação poderá redireccionar o animal e capacitá-lo para a parceria. O desenvolvimento deste processo pedagógico deverá ser operado por um profissional, dispensando no princípio a presença do dono e sujeitando o cão ao internamento, para que o aumento da dependência implique na diminuição da autonomia e torne possível a gestão do animal. O trabalho será desenvolvido em quatro fases e só se passará de uma para a outra segundo a resposta positiva, envolve diferentes agentes de ensino e obriga à perpetuação dos procedimentos. Na 1ª fase o trabalho é da exclusiva responsabilidade do adestrador e garante o sucesso nas fases seguintes, porque procura a descodificação e instala o condicionamento, na supremacia dos estímulos sobre os instintos, visando o controlo e a utilidade. A existirem escaramuças, elas só serão admitidas nesta fase, porque se acontecerem nas seguintes, mostram a sua nulidade, despropósito ou impropriedade, condenando as restantes ao insucesso e dificultando de sobremaneira a recuperação do cão. Uma vez operado o redireccionamento do animal e os automatismos de travamento que garantem a cessação das acções indesejáveis e ratificam a liderança, é chegada a hora da 2ª fase. A 2ª fase é a da pré-transferência, quando se transfere a liderança para outro condutor, que apesar de experiente, tenta reproduzir o comportamento do dono do cão e testa os automatismo de acordo com esse particular. É geralmente um profissional e quando o não é, a experiência já lhe legitimou o encargo, possibilitando-lhe um desempenho seguro e ao mesmo tempo simulado. Não havendo o mínimo de percalços, o que obrigaria ao retorno à 1ª fase, dá-se início à transferência propriamente dita, altura em que debaixo de supervisão, entregamos o cão ao dono e lhe solicitamos a liderança. Esta é a 3ª fase e acontece em dois locais distintos: primeiro no local da reeducação e só depois no lar de adopção. Essa transferência só acontecerá mediante a aprovação do adestrador e do dono, pela certeza do primeiro e pela confiança do segundo. A 4ª fase, também ela subdividida em dois momentos, obriga o dono às classes escolares e opera, se for caso disso, os necessários reajustamentos, rectificando a mensagem que possibilita o accionar dos códigos. O que se procura aqui é fixação dos procedimentos, a regra que tudo garante e o reavivamento das respostas artificiais obtidas. Depois disto o cão é entregue à responsabilidade do dono, debaixo da advertência do apego aos procedimentos, porque o seu desuso pode reactivar o que até ali se levou de vencida, regressando o animal ao seu estágio inicial. A brevidade ou morosidade do processo pedagógico depende do grau da dominância do animal, da sua mais valia cognitiva e da experiência directa antecedente à reeducação. Geralmente, nos casos menos complicados, a 1ª fase tem uma duração de dois meses, a 2ª de um e a 3ª de dois. A 4ª, no seu segundo momento, é vitalícia, ainda que a idade do cão pareça vir em nosso auxílio. Certamente existirão outros métodos, não os contestamos, mas sobre o nosso podemos dizer que temos tido um aproveitamento de 100%. Com isto temos evitado a castração e a injecção letal, para alegria dos cães, gozo dos donos e pelo benefício do trabalho. Agradecemos aos donos que nos confiaram os seus cães e que foram alvo do nosso processo reeducativo, que nos contactem e que atestem ou não aquilo que aqui dizemos.
Normalmente, a impropriedade da liderança ou o seu receio são resolvidos pela assiduidade escolar e isso lhes basta, ainda que o objecto do ensino seja o dono e a tarefa não seja por isso mesmo mais facilitada, considerando a divinização canina presente nalguns e o antropomorfismo de outros, para já não se falar do abandono dos cães a si próprios e da ausência de condições que obstam à parceria. O objectivo deste artigo é evitar a morte prematura dos cães e o seu encerramento em canis, como se fossem feras ou não tivessem qualquer préstimo, o que infelizmente acontece e onde menos se espera. Nenhum cão é descartável e isento de qualquer préstimo, a arte do adestramento reside na adequação e no aproveitamento, na adaptação binomial que possibilita a divisão de tarefas.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

DEVOLVER A ALEGRIA A QUEM NASCEU SEM ESPERANÇA

Ao contrário do que se julga, é mais fácil regrar um cão do que transmitir-lhe alento, capacitá-lo para além da herança genética e fazê-lo esquecer a sua experiência directa, porque ele nasce sem perspectiva de futuro e sobrevive pela obediência ao grupo que o sustenta, enquanto ser social e dependente. A sociedade está cheia de paradoxos e a canicultura não escapa à regra, já que grande número de proprietários de cães tem medo deles, particularmente dos alheios, havendo ainda alguns que evitam a confrontação com os seus próprios companheiros ou que lhes descarregam “lições exemplares”, porque o medo é soberano e o “papão” anda à solta. Por causa disto, segundo os nossos registos, 95% dos donos têm como objectivo a obediência canina quando nos procuram, ignorando por completo aquilo que é devido a um cão e essencial para a sua resposta positiva, fazendo jus ao provérbio: “quem tem medo, compra um cão”.

Os cães, tal como os homens, nascem diferentes e isso é visível desde tenra idade. A ignorância generalizada que paira sobre nós nesta matéria tem levado à escolha arbitrária de cachorros, desconsiderando o seu particular e o dos seus donos, impedindo a coabitação harmoniosa e a relativa constituição binomial, lançando sobre os animais culpas que lhe são alheias e que resultam das leis do mercado. O comum mortal que procura um cão, é um visionário, alguém que quer fazer do sonho uma realidade e que busca um complemento para a sua felicidade. E quando assim é, o criador de cães faz-se um pregador de indulgências e um vendedor de terrenos no Céu, ainda que venda gato por lebre e abuse dos sentimentos de quem o procura. Nem todos os criadores são salafrários, mas em muitos deles predomina a ignorância que os vitimou e continua a causar vítimas, abraçando um ofício de nefastas consequências.

Se juntarmos a cinofobia à ignorância dos criadores, qualquer cão pode ser mal interpretado e alvo de uma educação inadequada, por força dos anseios do dono e desconhecimento do futuro adestrador, ávido de apresentar serviço e distante do particular individual do animal. Ainda que as incapacidades físicas caninas possam ser despistadas e evitadas, as impropriedades comportamentais continuam quase indetectáveis, pela ignorância dos seus indícios e apego a verdades subjectivas, porque a raça não garante o indivíduo e existem em todas elas indivíduos menos capazes, o que nos remete para a impropriedade na selecção ou para os seus pressupostos. E na simbiose entre o belo e o funcional, pelo menos até aqui, a perca tem suplantado o ganho e o cão ideal teima em nascer, na disparidade entre a manipulação genética e a selecção natural.

Imaginemos um cachorro inibido ou muito-submisso, jogado num quintal e constantemente repreendido, sujeito a uma liderança austera e a sucessivas inibições, arredado das suas tendências e cativo a um sem número de regras. Quando chegar à idade adulta como se comportará? Que méritos ou deméritos manifestará? Certamente fugirá da sua própria sombra e morrerá de medo pelos donos, ainda que descendente da mais feroz linha de cães guardiães. A reeducação, ao contrário do que muita gente imagina, não se destina exclusivamente aos cães agressivos, mas também àqueles que se tornaram silvestres e esquivos, os necessitados de reintegração social e que resistem à coabitação, quer o façam por razão genética ou ambiental ou fenómeno resulte da sua interacção.

A recuperação de um cão submisso, contrária à do muito-dominante que invariavelmente obriga à separação do dono face à inutilidade da sua presença, é um processo pedagógico bipartido que incide sobre o dono e o cão, que deve acontecer preferencialmente no lar de adopção, debaixo de supervisão e sujeito a constante avaliação, porque se procura minorar a insuficiência genética pelo contributo ambiental, já qualquer separação agravaria a recuperação pela necessidade da transferência, o que aumentaria a suspeição do animal e colocá-lo-ia no estágio inicial. No entanto, caso esse binómio doente seja escolar, a sua recuperação pode e deve também acontecer em classe, diante das dificuldades encontradas e pelo contributo dos diferentes agentes de ensino (adestrador, demais binómios e outros cães), porque a simpatia com o colectivo pode abreviar a recuperação.

O processo é moroso e sujeito a muitas cautelas, porque busca a descodificação e obriga à alteração do comportamento do dono, que apesar de inteligente, sempre tropeça nas suas reacções instintivas. Trata-se aqui de desenvolver o impulso ao poder do cão, responsável pela inibição dos impulsos relativos à sua auto-preservação. E porque estamos a falar de indução, há que aproveitar e redireccionar o impulso ao movimento, já que a maioria dos cães inibidos o usa apenas para escapar. A capacidade de bater outros territórios e alcançar outras tarefas, virá dos estímulos utilizados e aponta para a cumplicidade e recompensa. Adiantamos a seguir alguns conselhos para ajudar os que apostam na recuperação dos seus cães:

1. Esqueça que o relógio existe. O que interessa é a recuperação do animal, não tempo que ela demora.
2. Evite todo e qualquer comando inibitório, porque isso só agravará a situação.
3. Adquira uma postura e dicção calmas independentemente dos desaires.
4. Retome todas as acções com alegria, já basta a desmotivação do cão.
5. Recompense para além dos resultados, isso torná-lo-á agradável aos olhos do animal.
6. Evolua segundo as respostas encontradas e nunca de acordo com o seu desejo.
7. Convide o cão para o espaço comum e divida a sua vida com ele.
8. Conheça as suas preferências e reforce-as.
9. Visite o seu local de pernoita e aconchegue-o.
10. Mantenha escrupulosamente as rotinas.
11. Cuide diariamente da sua higiene e sinta prazer nisso.
12. Incentive-o para a brincadeira e parceria.

O que adiantámos refere-se às 12 qualidades inerentes a um dono exemplar. São elas (por ordem alfabética): altruísmo, camaradagem, cumplicidade, dedicação, docilidade, generosidade, militância, paciência, paixão, perseverança, rectidão e temperança. Feliz é o cão que encontra um dono assim! Fugirá dele ou fará tudo para lhe agradar?

A BENGALA DO "NÃO"

O Comando inibitório “Não” é um comando de emergência que é usado excepcionalmente para a cessação das acções, não substitui os restantes automatismos e pode perder eficácia pelo seu abuso. Os condutores inexperientes e os menos dedicados usam-no indiscriminadamente, tornando-o obsoleto e condenando os seus cães à suspeição. Esta prática denuncia o tipo de ensino ministrado, a ausência da instalação dos restantes comandos quer eles sejam direccionais ou de imobilização. Assim, não é errado dizer-se que quanto mais “nãos” sou obrigado a dizer, menos comandos tenho instalados, porque doutra maneira não sou obedecido. O hábito enraizado do “não” funciona como uma bengala para os que tropeçam no ensino e sistematicamente perdem o controle dos seus cães. Como comando inibidor que é, quando usado indevidamente e por sistema, inibe a velocidade, instala vícios e ensurdece os cães para as ordens. E mais grave do que isso é sujeitar um submisso a tal “terapia”. É indesejável e até vergonhoso que um cão no 3º Ciclo escolar ainda evolua debaixo dessa cantilena. Normalmente, os portadores da bengala são os que dispensam a recapitulação doméstica e que são surpreendidos pelas exigências do treino, muito embora os desconcentrados sempre se socorram dela. Na erudição da linguagem gestual não existe nenhum sinal para o “não”, porque o dispensa e a fixação exclusiva na pessoa do dono tudo resolve. O recurso sistemático ao “não” é um grosso improviso que obstrui o desenvolvimento cognitivo canino. Sejamos sinceros: não é o cão que é desobediente, o dono que é pouco aplicado. Fica a mensagem e esperam-se melhoras.

O QUE É QUE QUERES SER QUANDO FORES GRANDE?

Em tempos idos as crianças sempre eram bombardeadas com esta questão, hoje nem tanto “ e o que será, será”. Nós preocupamo-nos com as crianças que temos no treino e ao longo de décadas não têm sido poucas, meninas e meninos hoje bem sucedidos na vida, para gáudio dos seus pais e alegria nossa. O adestramento ajudou-os a ser pragmáticos e ambiciosos, a lutar contra as contrariedades e a transpor obstáculos, porque o treino é dinâmico e sobrevive por metas e objectivos, dá ânimo aos fracos e regra os mais audazes, obriga à mudança de atitude e denuncia os erros, ensina regras de convivência e premeia os resultados obtidos. Este fim-de-semana um condutor de palmo e meio trabalhou entre os adultos, de capuz enfiado e debaixo de chuva. O pirralho tem 8 anos e chama-se Rodrigo, é caso para se dizer: pequenino sim, mas cheio da mais feroz ambição. Andou uma légua com o cachorro entre os demais, alegre e bem disposto, com um atrevimento que nos alegra e dá forças para continuar. Não ficou em casa a jogar consola ou a ver televisão, dispensou os centros comerciais e veio trabalhar connosco. O que o Rodrigo desconhece é que as gerações se rendem umas às outras, que todos podem vir a ter um lugar ao sol. Pela nossa parte tudo faremos para que lá chegue, para que não se perca pela base da pirâmide social e procure ir mais além. Temos essa responsabilidade, capacitamos gente.

A INJECÇÃO QUE TUDO RESOLVE

À menor contrariedade ouvimos a alguém: “ vou pôr o meu cão a dormir”, ao invés de dizer: “vou mandar matá-lo”. A injecção letal tudo resolve desde problemas de sociabilização a acidentes esporádicos, encobre o descarte e merece a aceitação geral, porque os cães podem ser perigosos e é melhor cortar o mal pela raiz! Muitos deles antes da contagem decrescente ainda passam pela castração, mas como o sucesso não é absoluto, ficam a aguardar a picada final nos canis terminais municipais. Paira no ar um reboliço inquisitório, os vizinhos espreitam, anunciam a sentença e lamentam a demora: “ já mandou matar o seu cão? Está à espera de quê?” À conta dessa pressão social já muitos inocentes foram abatidos, companheiros que não foram ouvidos e pagaram com a vida os crimes dos seus donos. Ser proprietário de um cão hoje é um acto heróico, porque é preciso ter coragem para enfrentar o número crescente de esbirros, sedentos de sangue e ávidos de morte, carrascos de outros substancialmente melhores do que eles que não hesitam em provocar.

No Domingo chegou uma senhora alarmada à escola, já veio fora de horas e carregava um semblante triste. O seu Pastor Alemão de 4 anos de idade havia atacado uma vizinha e a situação estava a tornar-se insustentável face ao veredicto dos restantes moradores. Querendo dar uma oportunidade ao animal, indicada por uma veterinária nossa ex-aluna, solicitou-nos a adopção do cão, porque o tem em grande estima e tem sido o seu único companheiro, agora que está viúva e vive só. Com a morte do marido o cão deixou de vir à rua, porque puxa pela trela, tem muita força e é muito grande. Apesar de não termos sido os criadores do animal, conhecemos a sua origem genética e sabemos do que é capaz. No nosso entender o acidente foi motivado por ciúme, agravado pela ausência de sociabilização e induzido pelo desprezo da excursão. Propusemos à sua proprietária a recuperação do cão, coisa impossível sem a colaboração do filho, porque não conduz e dele depende para se deslocar. O problema é de fácil solução e até o resolveríamos gratuitamente. O que mais convirá ao filho: a recuperação do cão ou a injecção letal? Oxalá aceitem a nossa opção, porque mesmo que alguém aceite o cão, ao menor problema lá virá a injecção.

CONTRA OS CHUVISCOS MARCHAR, MARCHAR

Este fim-de-semana foi bastante concorrido. Apesar do alerta laranja, o nordeste poupou-nos e trabalhámos debaixo de chuva. As aulas foram essencialmente práticas e incidiram sobre os poucos conteúdos teóricos avançados. Exercitámo-nos na Técnica de condução e dedicámo-nos aos alunos mais recentes. Fomos visitados pelo Gonçalo Maria, filho do Gonçalo Albuquerque que conduziu a Cuca. A Lila não compareceu e a Carla Ferreira só trabalhou no Domingo. Aconselhámos ainda outra Carla, a dona de uma caniche chamada Nina que recentemente adquiriu uma cachorra filha do Thor e da Xita.

No Domingo fomos visitados pelo Sr. Paulo Serra Pedro e Família. A ocasião da visita ficou a dever-se à aquisição de uma nova cachorra que irá chamar-se Niki e é filha do Antar e da Luna. A Elisabete trabalhou só no Domingo e o Francisco não pôde comparecer. O Micks evolui na Técnica de Condução e foi ajudado pelo Loki e pelo Flikke. A Carla Ferreira está a melhorar a sua performance física e o Rodrigo cumpriu. A Ana Pinto fez-se acompanhar pela sua nova aquisição: a Babel, uma cachorra CPA negra filha do Thor e da Xita.

A família Veiga Santos & Ferreira fez-se presente e não trabalhou, ao contrário da família Costa que cerrou fileiras e trabalhou em bloco. Os almoços aconteceram no restaurante “Grelhados da Aldeia” em Alcainça. O Dr. Zé Gabriel desempenhou as suas funções de monitor e o Dr. João Franco foi para a praça. Continuamos sem notícias do Rui Santos e demos pela falta do Rui Ribeiro. A Pescadinha continua ausente e sentimos a falta do Zorro e do seu proprietário, assim como da Isabel Paiva da Silva e da Amora.

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Afonso/Rosita, Ana/Loki, Bruno/Pepe, Carla Ferreira/Dirka, Carlos Santos/Fortuna, Eduardo/Micks, Elisabete/Lua, Gonçalo/Gaspar, Gonçalo Maria/Cuca, Joana/Flikke, Jorge/Juvat, Luís Leal/Teka I, Pedro Costa/Pipo, Princesa/Ricky, Roberto/Turco & Teka II, Rodrigo/Tarkan, Vítor Hugo/Yoshi e Zé Gabriel/Master & Menina.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

São como os Espanhóis: têm de ver com as mãos!

Apesar de ignorarmos a origem da sentença, ela assenta-nos muito bem, muito embora duvidemos que todos os espanhóis assim procedam, porque a sua coroa alberga diferentes povos de distintos usos e costumes. Ainda que o seu número tenda à redução, há muito português que conserva o hábito de mexer, de apalpar a mercadoria antes de a comprar para se inteirar da sua qualidade. A acção é instintiva e acontece nos mais variados estabelecimentos comerciais: apalpamos e escolhemos a fruta, abrimos embalagens, destapamos e cheiramos os frascos de cosméticos, folheamos revistas e não as compramos, esticamos os tecidos, provamos à revelia o sabor dos produtos alimentares e nem sempre deixamos as coisas como estavam. O enraizado hábito de mexer, ligado à compreensão sensitiva, é transportado para o nosso quotidiano, dando ao relacionamento mútuo um calor, que não sendo intencional, pode ser identificado por outros como primitivo e passional. Graças ao despertar dos sentidos e porque sempre fomos assim, somos efusivos e damos ocasião aos sentimentos para além das razões ou convenções, deixando boquiaberto quem nos visita. Essa capacidade de tratar tudo como seu, é própria do português e foi transmitida ao brasileiro, ainda que essa intimidade se restrinja, na maioria dos casos, somente ao tratamento e daí não vá adiante. Debaixo da euforia cultural que nos domina, os cães são alvos preferenciais e duas perguntas inevitáveis ecoam nas praças (há quem nem pergunte e avance directo para o contacto), quando surge um cachorro no horizonte: “Como se chama? Posso fazer-lhe uma festa?”

Recebemos ontem um e-mail do Vítor Hugo, proprietário do Yoshi, um cachorro Pastor Alemão de 3 meses e meio, a pedir-nos conselho e que a seguir transcrevemos:
“Não sei se este tema já foi abordado no Blog. No meu caso é uma dúvida que desperta. O Yoshi, na rua, atrai alguns curiosos que se aproximam para o ver mais de perto e fazer uma “festinha”. Normalmente a reacção dele é a de ladrar quando algum estranho se aproxima. O que devo fazer quando as pessoas pedem para lhe mexer? Devo permitir ou desaconselhar?”

Antes de respondermos à questão e porque o assunto é o mesmo, lembramos a estupefacção de um aluno que já não está entre nós, aquando da sua visita à cidade norte-americana de New York. Segundo nos fez saber, quando se encontrava no Hide Park, encontrou um “handler” que passeava 15 cães em simultâneo. Após ter avistado a carrinha dos “Hot Dogs”, o homem mandou deitar todos os animais, no que foi prontamente obedecido, indo depois ao local do seu repasto. Os transeuntes passavam ao lado dos cães e ninguém lhes mexia, apesar de serem visíveis nos seus rostos expressões de cumplicidade e afecto. A atitude das pessoas apanhou o nosso aluno de surpresa, porque nunca tinha visto tal e estava acostumado a outra realidade. Dizia ele: “se fosse em Portugal, está bem, está! Caíam em cima deles que nem moscas!”
A dúvida do Vítor Hugo é pertinente, porque não quer prejudicar o cachorro e ser tido como bruto, que é o adjectivo mais aplicado a quem não deixa acariciar o seu amigo de quatro patas. Na cabeça das pessoas confunde-se familiarização com sociabilização, porque a primeira antecede a segunda e o vulgo tende à generalização. Todos os cães carecem de se familiarizar com toda a gente, mormente com aqueles susceptíveis de accionar os seus mecanismos de agressividade, unicamente pela diferença e na ausência de qualquer atitude hostil. E nesse sentido, a mudança dos ecossistemas e a variação dos passeios torna-se indispensável, não vá a bengala do cego constitui-lo em agressor ou a brincadeira das crianças num convite à peleja. A familiarização é uma forma primária da sociabilização propriamente dita, é ela que possibilita a guarda dos rebanhos, a tolerância com o pessoal das reparações e leva à aceitação daqueles que ocasionalmente nos visitam, como parte integrante do viver canino. No entanto, as pessoas querem mais e não antevêem de imediato o resultado das suas acções, porque sem darem conta, estão a possibilitar a morte do cachorro por envenenamento e o seu roubo, a criar entraves ao relacionamento dono-cão e a sujeitar o animal a uma série de comandos inibitórios, porque há gente que não presta e as suas intenções não são as melhores, ainda que vestidos de cordeiros e com o coração na mão. Na nossa compreensão, entendemos como filial a relação binomial, será que entregaremos os nossos filhos a qualquer um? Que de bom grado os sujeitaremos às delícias dos bajuladores? Que conselhos lhe damos na nossa ausência? Será que o perigo não espreita?
E perante a confusão reinante entre a simpatia e a empatia, somos obrigados ao esclarecimento das pessoas, o que exige algum tacto porque estamos a lidar com as suas emoções, apesar do abuso e da impropriedade dos seus actos, porque aparecem sem ser convidados e exigem tratamento íntimo, o que é uma clara violação aos olhos do animal e um atentado à propriedade do dono. Mas mesmo assim, temos que contar com eles e acostumar os nossos cães às suas arremetidas, não vá o diabo tecê-las e sobrar-nos algum dissabor. E porque há gente que não tem emenda, por mais claros que sejam os esclarecimentos, há que evitar aqueles que persistem no erro e nunca tomam conhecimento disso. Nestes casos, o comando direccional “roda” que garante a inversão do sentido de marcha, encontra rara oportunidade e mais rapidamente passará a automatismo. E o mais engraçado, se nisto houver alguma graça, é que temos regulamentos de conduta dos cães para os homens e o inverso não existe, ainda que se badale por aí a Carta dos Direitos do Animal.

O nosso conselho para o Vítor Hugo, extensível agora a todos vós, é que evite os bajuladores desenfreados e compulsivos, de modo discreto e cortês, mantendo a amizade do seu cachorro com aqueles que o fazem de modo regrado, que escutam o seu parecer e respeitam o animal. Ocasionalmente, “a ponto largo que o freguês é de longe”, sugerimos que sujeite o Yoshi a este tipo de encontros, que não necessitam de ser procurados, enquanto fauna dominante e milenar, para que não suceda ao cachorro o mesmo que me aconteceu, quando era menino e saía da catequese, que corria pelos campos fora para me livrar dos ósculos de velhas desdentadas. Alguns condutores de cães, fartos de banquetear os mais carentes, têm lançado mão de várias mentiras com algum sucesso, atribuindo aos seus cães doenças contagiosas, evitando assim os excessos e livrando-se de futuras investidas. Quando o Yoshi crescer o problema fica automaticamente resolvido, porque imporá respeito e só terá olhos para o dono. O desrespeito incide essencialmente sobre os cachorros, porque suscitam ternura e protecção, acabando alguns abandonados quando alcançam a fase adulta, por gente dita sensível e plena de sãos propósitos, dessa que é como os espanhóis: que vêem com as mãos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A ENDOGAMIA DO NOSSO DIA-A-DIA

Logo desde os primórdios da domesticação a endogamia aconteceu de modo experimental, tornando-se intencional pelos resultados obtidos. A ela se deve, um pouco por toda a parte, a separação entre o cão e os canídeos que estiveram na sua origem, tornando-o diferente e possibilitando a sua utilização, enquanto caçador, sentinela e guarda de rebanhos, pela diminuição da autonomia e pelo aumento da dependência. Se o lobo é produto da evolução das espécies, o cão é uma criação humana, desenvolvida para além da primeira e sujeita aos destinos da humanidade. O retorno às origens é hipoteticamente possível, os Dingos são exemplo disso, muito embora a maioria dos actuais grupos somáticos caninos não sobrevivesse a esse regresso, por força da selecção operada ao longo de milénios que impede o cão de se tornar selvagem automaticamente. Também por causa disto, o cão é para o homem uma responsabilidade acrescida, porque a sobrevivência canina está nas suas mãos e disso não se pode alhear.

Da endogamia ancestral chegámos à actual, mais artificial e nociva pela constituição das diferentes raças, pela observância dos padrões e pela opção das variedades dominantes, muitas vezes extraídas de indivíduos recessivos a quem se deve as diferenças, pondo em risco a continuidade dessas raças pela consanguinidade latente e pelas incapacidades que ela transporta, quer elas sejam de índole física, psicológica ou cognitiva. A maioria das raças caninas está enferma, particularmente as sujeitas a uma só variedade cromática e infestadas de genótipos iguais, responsáveis em primeira-mão pela perca do vigor, da qualidade de vida e da longevidade, perpetuando incapacidades físicas ou outras que certamente as virão a vitimar. Conhecendo-se a raça, toma-se conhecimento imediato das suas maleitas ou incapacidades familiares, porque a manipulação genética a isso induziu, ao desconsiderar o essencial na procura da excelência. E a cegueira a tudo levou, seleccionámos cães a partir do nanismo e do gigantismo, aproveitámos os fenótipos, fizemos cruzamentos biologicamente pouco prováveis e desprezámos um sem número de indivíduos da reprodução, provavelmente pilares do seu bem-estar e portadores do seu bio-equilíbrio. Infelizmente procedemos de igual modo com os outros animais domésticos.

Para garantir a continuidade das raças actuais, sabendo-se que a saturação acontecerá mais cedo ao mais tarde, obrigando à hibridação que possibilitará a multi-variedade, defendemos, naquelas em que tal for possível, os beneficiamentos heterozigóticos que garantam a infusão de outras linhas, pela contribuição das variedades recessivas sobre a menos valia encontrada nas dominantes, graças aos elementos comuns presentes em todos os cães. E dizemos isto porquê? Porque em muitas das variedades desprezadas do actual processo selectivo não são visíveis as mesmas incapacidades que acompanham os padreadores actuais. Quase sem darmos conta, porque a manobra é confiada ao segredo dos deuses, este rejuvenescimento tem acontecido, muitas vezes através da hibridação encoberta ou do retorno às variedades originais, sendo o Rottweiler de pêlo comprido um claro exemplo disso e não é caso único. Estamos em crer, dispensando a visão apocalíptica das coisas, que a ciência do Sec.XXI irá consertar os erros da canicultura dos Sec. XIX e XX, por necessidade e em abono dos cães.

A AUSÊNCIA DO DONO

Ao longo destes anos temos ajudado na recuperação de cães perdidos ou desaparecidos, geralmente os sujeitos à ausência ocasional dos donos quando confinados no seu próprio território ou alojados num alheio. E nisto temos sido bem sucedidos, ainda que nem sempre o nosso trabalho seja recompensado e todos possam voltar sãos e ilesos a casa. Como não temos uma empresa própria para o efeito, que indubitavelmente seria muito rentável, o nosso trabalho é emergente e acontece por apego aos cães, não busca a recompensa e causa-nos algum transtorno, por causa da troca de alvos e da transição da procura para o ofício cinegético.






Agora que os Huskies são cada vez menos (a fuga era-lhes instintiva e o retorno quase impossível), os cães fugitivos são-no por razões sociais, quando se vêem privados dos donos e intentam procurá-los, quando sentem e procuram companheira, quando se fartam do excessivo enclausuramento ou quando a ocasião se torna mais propícia. Afortunadamente são raros os cães que fogem aos maus-tratos, porque as campanhas de sensibilização têm surtido o efeito esperado junto da opinião pública. Todavia, ainda há cães que desaparecem de casa e se põem em fuga, geralmente nos períodos de férias ou de ausência prolongada dos seus donos. Queremos deixar aqui alguns conselhos para os proprietários de cães, medidas preventivas e capazes de evitar a fuga dos seus companheiros, porque nem sempre as coisas correm bem e há quem se lamente disso. Passamos a enumerá-las:

Se possível mantenha o cão no seu próprio território, respeitando as rotinas e os procedimentos de sempre.
A sua custódia deve ser entregue a uma pessoa do conhecimento do animal e responsável.
Desnude para a pessoa indigitada o carácter e tendências do seu cão.
Deixe um caderno de instruções a utilizar, porque o improviso induz ao esquecimento.
Desaconselhe os passeios em liberdade nas zonas não confinadas.
Insista no cuidado com as portas e portões.
Só saia depois de se certificar da inviabilidade de qualquer fuga.
Ao sair, deixe o seu número de contacto.
Na sua ausência contacte amiudadas vezes a pessoa encarregue, reavivando-lhe os conselhos e adiantando-lhe soluções.
Certifique-se do ânimo e de apetite do cão. Caso haja alteração, adiante subsídios para a minorar.
Solicite a fiscalização do encargo a um familiar ou amigo.

Pensando no menos provável, deve agendar e transmitir os seguintes telefones:

O contacto do veterinário assistente.
Os contactos dos outros veterinários da zona.
O número de telefone do Canil Municipal da área.
O número do Posto da GNR/PSP mais próximo.
O número da Junta de Freguesia/Câmara Municipal.
O contacto da Rádio Local.
O número de telefone dum Centro que se dedique à procura de cães.

Estas medidas podem salvar a vida ao seu cão, o seu cumprimento pode inviabilizar a fuga do animal, mas jamais levará de vencida a falta que sente por si. Por princípio, evite ausentar-se e leve-o de férias consigo. Não tendo essa hipótese e não garantindo as condições acima descritas, apesar de o cão estar melhor no seu território, tendo em vista a segurança, opte por um hotel de cães, porque sempre é melhor prevenir do que remediar.

A FAMÍLIA CÃO & GATO

Gatos e cães podem conviver sem maiores restrições, constituindo-se como amigos inseparáveis e companheiros de brincadeiras. Apesar de toda a sociabilização canina ser alcançada pela familiarização, ela torna-se mais fácil quando acontece desde tenra idade, no período que decorre entre a adopção e a idade da cópia (entre os 2 e 4 meses). Por esta razão sempre temos aconselhado, a quem compra um cachorro, a aquisição em simultâneo de um gatinho. Debaixo desta mesma intenção, sempre escolhemos um gato para nos acompanhar nos trabalhos escolares, o que não deixa de ser curioso, pois o gato aprende a fazer obstáculos e os cães adoram brincar com ele. Neste momento temos a Mª Joana que o Flikke tem sempre debaixo de olho e protege dos demais, ainda que nenhum lhe faça algum mal. A Teka I, a preta, também convive no lar com um gatinho e é comum vê-los enroscados um no outro, como se fossem irmãos ou membros da mesma espécie. Independentemente da raça ou grupo a que pertence, qualquer cão pode ser sociabilizado com estes felinos. Prova disso é a Lourinha, a companheira do Jardel, uma podenga média que adoptou uma gatinha branca. Dormem juntas e a gatinha segue a cadela para todo o lado. Já vimos a cadela com ela na boca, tal qual mãe extremosa rumo ao abrigo. A coabitação harmoniosa é possível, basta estar atento e manifestar desejo de a alcançar.

BINÓMIO CARLA/DIRKA

A Carla é uma amiga nossa já de algum tempo, é criadora de CPA’s e decidiu vir treinar connosco. Está neste momento a lutar por maior disponibilidade física, porque trabalho é coisa que não lhe falta e tem que melhorar a prestação atlética da sua companheira, que acontece pela parceria e exemplo da liderança. A Dirka é uma CPA Lobeira recessiva, mãe do Turco e do Shadow (o outro cachorro que a Carla treina). É muito afável e adora a dona, participando já na Troca de Condutores. Apresenta algumas dificuldades na ginástica, a adaptação não tem sido fácil porque nunca foi objecto de qualquer tipo de treino. Pouco a pouco vai evoluindo, surpreendendo a sua dona e mostrando o seu potencial. Bons treinos e felicidade para ambas.

BINÓMIO GONÇALO/GASPAR

O Gonçalo é um membro da velha guarda, um companheiro de jornada que nunca se furtou ao ofício. Participou connosco na instalação doméstica de vários cães de guarda, recebendo inúmeros troféus dessa aliciante actividade. Depois de uma dezena de anos voltou, agora com o Gaspar, um Serra da Estrela bem disposto e matulão. O bicho é muito engraçado e só se pode queixar da falta de pernas do dono, é muito sociável e raramente se dá por ele. Tem tudo para ser um campeão: excelente mobilidade e inegável curiosidade. Apesar da condução de pesados não ser fácil, nós acreditamos no Gonçalo pelas provas dadas, ainda que esteja mais velho e distante da boa forma física. No entanto, a vontade está lá.

BINÓMIO LILA/CUCA

A Lila é a esposa do Gonçalo, uma moçoila bonita que os anos não conseguem encobrir. A sua simpatia contrasta com o seu desempenho, profundamente afectado pelo uso exagerado da cadeira e pelo mau hábito do automóvel. Se fosse condutora de provas jamais ganharia uma corrida, porque no nosso grupo é a que mais vai às boxes. Como ela não é daquelas de atirar a toalha, estamos convencidos que irá melhorar, apesar das queixas e das estafas. A Cuca é uma híbrida de Serra da Estrela/CPA, grande, voluntariosa e meiga, com um excepcional impulso à defesa e uma vontade louca por aprender. Se a dona se aguentar, a cadela não defraudará e breve serão vedetas. Lançamos daqui uma palavra de ânimo para ambas, muito embora não falte garra à cadela. Sejam bem-vindas.

BINÓMIO VITOR HUGO/YOSHI

O Vítor Hugo, para os papás Vitó, é um jovem responsável que se faz acompanhar pela sua cara-metade: a Marta. É também o dono do Yoshi que é filho do Pongo, um cachorro CPA endiabrado de três meses e meio. Pelo que temos visto do Vítor Hugo, ele não irá ter problemas no treino, porque é agarrado aos procedimentos e leva tudo à risca. O Yoshi deu entrada no Pré-Treino porque é um cachorro citadino e sujeito aos horários de quem trabalha, passando alguns períodos do dia sozinho. Mostra qualidades que já conhecemos e queremos ver desenvolvidas, além duma precocidade indisfarçável e de uma graciosidade invejável. Ele, que já foi o retrato fiel do pai, está mudar de feições e parecer-se com a mãe, o seu crescimento e robustez estão acima da média e dá gosto olhar para ele. Ao binómio não desejamos felicidades, apenas a continuação do excelente trabalho.

CADELAS NA PASSERELLE E MICKS NA BRUMA

Trabalhámos os 4 turnos neste fim-de-semana, havendo condutores que se fizeram presentes em todos eles. Dedicámos o Sábado ao 3º automatismo de imobilização, tirando partido da Passerelle. Como é hábito, no intuito de salvaguardar o carácter dos cachorros, só ensinamos o “deita” no 2º mês de instrução, podendo alargar esse prazo de acordo com o particular dos indivíduos. Foram convidados para a figura os seguintes cachorros (maioritariamente cadelas): Tarkan e Turco, Luna, Teka I, Teka II e Vega. Todos saíram a fazer o automatismo impecavelmente, sendo aconselhado aos condutores a recapitulação doméstica do exercício. Ao Gaspar e à Cuca foi solicitado o “junto” e aos outros os exercícios inerentes à sua capacitação.

No Domingo trabalhámos na Pista e no exterior, varridos a vento forte e aguaceiros, alternadamente de Oeste e Noroeste. Da parte da tarde fomos até S.Julião, onde o Micks deu cartas e o Greg trabalho ao Octávio. O Abu esteve melhor nas imobilizações e a Carla conseguiu evoluir com a Dirka. O Yoshi desfrutou da areia e todos levámos com ela pela barba. Fizemos da praia um círculo de 36 m, manifestando especial cuidado na escolha do local, pois as alforrecas haviam-na invadido. Ali tirámos a tradicional sessão fotográfica e todos chegámos a casa ilesos, ainda que cobertos de areia e salitre. A experiência foi gratificante e acreditamos que o Yoshi dormiu bem.


A Princesa anda baldada, a Pescadinha atarefada e a Ana esteve de serviço na farmácia. O Rui Ribeiro foi aproveitar uns trocados e calculamos que o Carlos Esteves foi velejar, talvez para mares nunca dantes navegados. O Jorge acabou por treinar o Audaz, porque o Juvat encontra-se com uma luxação do ombro. A Elisabete (Beta), desencontrou-se e não trabalhou connosco no Domingo, conforme estava combinado. Continuamos sem notícias do Rui Santos, será que em Angola não há Internet? O Bruno esteve num curso de fim-de-semana e o dono do Zorro provavelmente numa competição de golfe. Daqui endereçamos os melhores resultados ao Filipe, um superior aproveitamento nos estudos.

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, Carla/Dirka, Eduardo/Micks & Vega, Francisco/Luna, Gonçalo Gaspar, Lila/Cuca, Joana/Flikke, Jorge/Audaz, Luís Leal/Teka I, Octávio/Greg, Roberto/Turco & Teka II, Rodrigo/Tarkan, Vítor Hugo/Yoshi e Zé Gabriel/Master & Menina.