segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Os Cães dos Saloios

NOTA INTRODUTÓRIA

As três histórias seguintes constam de um volume dedicado “Aos Cães dos Saloios”, a publicar à posteriori, naquilo que essa relação tem de diferente e único. Como o modo de tratar os cães não é uniforme em todo o País, dominado durante séculos por uma economia de sobrevivência e povoado por diferentes etnias, predominou o uso canino para os mais diversos fins, em detrimento do seu bem-estar. Os saloios herdaram o gosto de caçar dos seus senhores medievais, enquanto matilheiros e pastores. Os cães têm sido seus companheiros de aventuras e desventuras, reflexo do seu êxito ou insucesso, numa relação muito próxima e adornada por considerações antropomórficas. Eles “entendem-se” uns aos outros!


O CÃO DO “SAIAS” SERRALHEIRO

O Saias era um serralheiro de cinquenta anos, corado de cara, leve de ossos e de olhos pequenos. De altura era meão, tinha bom trato e andava sempre a sorrir. Optou pelo ofício para fugir às lides do campo, com custo tirou a 4ª classe e permaneceu saloio de raiz. Vivia num brejo virado a oeste, numa encosta ventosa e solarenga, perto de uma vila e longe da sua confusão. Poucos sabiam o seu nome verdadeiro, toda a gente o tratava por Saias. A alcunha ganhou-a num baile, por força da embriaguez, quando um guarda o convidou a sair: “ Saia, se faz favor!”. A narrativa do sucedido e a manifestação do seu desgosto, valeram-lhe o nome que o acompanhou por toda a vida. Como serralheiro era uma desgraça, a si mesmo se chamava desenrascado, dele era frase gasta: “ Porrada daqui, porrada dali, e o portão fica à esquadria”. Dizia-se caçador, mas em abono da verdade, caçava tão mal quanto soldava. Como a teimosia nunca lhe faltava, e porque se sentia outro de arma à tiracolo, decidiu arranjar um cão a preceito. Deu quinhentos mil reis por um podengo e jurou dar nas vistas.

O cão era vivo e astuto, ganhou o nome de “Purdido” para se acostumar à voz “ busca o que está perdido”. Comprou-o para dar caça aos coelhos, para os detectar, e ir apanhar os que se encontravam feridos. Como a pontaria do caçador não era famosa, os coelhos podiam descansar e o cão perdia-se pelos montes. Quando alguém lhe perguntava pela caça, a resposta era sempre a mesma: “ O Purdido retraça-ma toda, até parece que não lhe dou de comer!”. E na verdade parecia, porque quando se soltava, dava sumiço aos coelhos e galinhas dos vizinhos. À conta disso, o serralheiro várias vezes andou “ à unha”, muito embora os prejuízos, corressem sempre por conta da casa. Pouco a pouco, começou a fartar-se do animal, já nem aguentava ouvir os pirralhos, a troça que faziam ao passar o seu portão: “ - Ò Saias prende o cão!”. Dar-lhe um tiro, não era capaz; se o desse a outro, passava vergonha; mandá-lo para o Canil da Câmara, também não queria. Ele gostava do animal, mas a situação não estava famosa, o problema tinha que ser resolvido. Alheio a isto tudo, o Purdido saltava-lhe para cima e lambia-lhe as mãos.

Naquele tempo, e não foi há tantos anos assim, os saloios trocavam porcos com os alentejanos, o toucinho dado pela bolota era muito procurado e os outros queriam febra. O negócio interessava a ambas as partes e ciclicamente, os camiões faziam-se à estrada, carregados de “recos”1 e soltando aroma pelas encostas. Foi aí que o Saias se lembrou, tinha encontrado a solução para o problema. Foi falar com um dos motoristas, o Zé da Glóira, pedir-lhe que levasse o cão em segredo, e o largasse na outra banda 2. Às cinco da manhã, depois de olhar para todos os lados, pôs o cão dentro de uma saca e colocou-o dentro da cabina do camião. Depois de fechar a porta, virou-se para o motorista e pôs o dedo à frente do nariz, dizendo: “ o segredo é a alma do negócio”. Sim, porque ainda teve que pagar pelo frete!

Há medida que os dias iam passando, o serralheiro “roía-se por dentro”, sentia a falta do bicho e nem podia olhar para a barraca. Para se consolar, lá ia dizendo para si “ encontraste um novo dono e estás melhor do que aqui”. Mas o remédio durava pouco, a saudade sufocava, o apetite estava de férias e a cama andava sempre às voltas. Ai como ele gostava de voltar a ouvir os pirralhos! O pátio parecia vazio e as horas não ter fim. Quase como em homenagem, colocava as poucas sobras à disposição dos cães vadios. “Já lá iam quinze dias, e parecia que fora ontem”. Quando lhe perguntavam pelo cão, não respondia, chamavam-lhe de “variado” e ele mandava-os para aquela parte.

Ao cair da noitinha, depois de haver jogado dominó na taberna, entrou trôpego em casa, sentou-se numa cadeira e deixou a porta aberta. Apoiou a cabeça nas mãos, deixou-a cair sobre a mesa e fechou os olhos. De repente, ouve um estalar de ossos, abre os olhos e nem queria acreditar: “ será que estou bêbado?”. Mas não, era o Purdido quem ali estava, dentro da barraca, a comer uma galinha, sabe lá de quem! O Saias correu para o cão e sentiu-lhe as costelas, pediu-lhe perdão e agradeceu à Providência. Depois da benzedura soltou: “ À Purdido dum corno, que de burro n’a tens nada!”.

Depois do feito, a aldeia agradou-se do cão e muitos passaram a levar-lhe comida. Morreu de velho e o Saias não teve mais nenhum!
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1 Nome popular atribuído aos porcos. 2 Designação dada às localidades da margem sul do Tejo.


O DESAPARECIMENTO DA CADELA DA MADAME

Os saloios são na generalidade gente hospitaleira, que recebe quem chega de acordo com aquilo que vê: “ tudo tens, tudo vales; nada tens, nada vales!” E como para eles estrangeiro é sinal de riqueza, todas as forasteiras recebem o título de “Madames”. Não sabemos onde desenterraram isso, se das Invasões Francesas ou do seu contributo para as “criadas de servir”. De qualquer modo, o tratamento não é desinteressado e a honraria pressupõe algum tipo de lucro.

E quando menos se esperava, chegou a determinada aldeia uma Madame. Era uma norte-americana, na força da idade, que tinha sido educada num colégio suíço e que adquiriu, pelos proventos do pai, uma quinta e vários lotes de terreno. Rapidamente aprendeu a falar português e a todos cativou pela sua simpatia. Com ela chegou também o seu companheiro, um francês quarentão, de poucas falas, dado ao copo e dito “caçador de talentos”. Este enfant de la patrie , oficialmente, dedicava-se a gerir a carreira de tenistas femininas vindas do Leste, na sua maioria russas, ucranianas, moldavas e romenas. Nenhuma delas alcançou o Top 10, mas algumas satisfizeram, na perfeição, os caprichos mais íntimos do seu empresário. E como o viver naquela casa se tornou insustentável, para suavizar a sua existência e encontrar uma confidente, a Madame adquiriu uma cadela Labrador, contra a vontade do seu companheiro que a tratava a pontapé, quer se encontrasse ébrio ou não.

Um dia, fustigada pelas constantes sevícias, a cadela fugiu de casa e nunca mais apareceu. A dona tudo fez para a encontrar, até contratou uma vidente, que munida de um pêndulo, tentava, guiada pelos espíritos, descobrir o paradeiro do animal sobre um mapa da região. Os espíritos pagaram-se bem, mas a cadela continuava sem dar sinal de vida. Como a bicha havia sido educada numa escola canina, onde teve bom aproveitamento, no meio do desespero e dois meses depois, a dona solicitou os serviços do Director da Escola, solicitando-lhe o emprego de cães pisteiros para a tarefa. O homem resistiu ao encargo, argumentando que os seus cães eram para a procura de pessoas e não de animais, que indevidamente os estava a ensinar a caçar e que o tempo decorrido já havia apagado todas as pistas. Mas perante tal pranto e a insistência, viu-se obrigado a concordar, pondo-se em marcha com três cães, na esperança de não estragar o melhor, usando os outros dois no seu lugar, o que não veio a acontecer.

E o bom do Brusco, assim se chamava o melhor pisteiro, depois de apanhar o rasto, sempre parava junto a uma oficina de mecânica automóvel. Fazendo fé no “nariz” do cão, o Director da Escola instava com o mecânico: “De certeza que o Sr. não viu por aqui uma cadela lavradora preta?” E como já eram decorridas três vezes e a pergunta era sempre a mesma, o mecânico incomodado retorquiu severamente: “ Você julga que eu não tenho mais que fazer, já lhe disse que não. Eu quero que todos os cães se explodam!” E assim se terminaram as buscas. Contudo uma dúvida pairava na cabeça do Director da Escola "O Brusco nunca me enganou, será que está a ficar velho e zonzo?"

Passados dez meses sobre o ocorrido, o Mateus chega à Escola, um ex-aluno divertido e esforçado, condutor de um rottweiler. Vinha feliz e trazia uma novidade, de tão contente que estava, quis dividir a sua felicidade: “ Ò Sr. João, você nem vai acreditar naquilo que eu lhe vou dizer, mas a verdade é que tenho agora uma lavradora preta cinco estrelas, ele faz tudo e nunca foi ensinada, é um espectáculo! Eu até a levei à Escola do Artur, e para espanto meu, ela também fez as escadas de quatro metros e meio!”

- Onde é que descobriste essa cadela? Perguntou o Director da Escola.
- A cadela era duma francesa maluca. O marido dela dava porrada no animal e ele foi parar a uma oficina de um amigo meu. Parece que andou por lá um gajo com uns cães, mas não teve hipótese, o mecânico mandou-o à fava! Respondeu o Mateus.

- Esse gajo que por lá andou, fui eu! Não te importas de trazer a cadela para que eu a veja? Solicitou o Director da Escola.

A cadela veio e o mistério ficou resolvido: era a mesma. O Mateus, sabendo do interesse da dona legítima, quis livrar-se do animal, para evitar maiores complicações e dar paz à sua consciência. Como o Francês ainda vivia com a dona, não resultando daí qualquer benefício para o animal, optou-se, depois da concordância da proprietária, por entregar a cadela a uma companhia cinotécnica policial, onde está até à presente data. Afinal o Brusco tinha razão, os homens é que mentem! Naquele dia, para além de um pedido formal de desculpas, o pisteiro recebeu uma suculenta iguaria do seu agrado.


TÊM VISTO A JINHA? Falar de cães é falar de homens, dos laços afectivos que se estabelecem a partir da dependência animal, da cegueira canina em seguir o seu líder e do provável fim comum. Poucas coisas são mais personalizadas que o nosso cão, alcançando-se, por força do hábito, uma transferência física e anímica do homem para o animal. Esta interacção distancia o cão do lobo, aumenta a nossa responsabilidade e engrossa o nosso caderno de encargos. A julgar pelo número de cães abandonados, grande número de pessoas ignora estes factos, causando problemas e vítimas, relegando para o colectivo, a solução que não encontrou e o preço das suas opções. Mas vamos à história.

O Ti Américo para os amigos, o Sr. Américo para quem servia, era um homem de sessenta anos, de cara estreita e barba mal semeada, pequeno, amarelado de tez e de aspecto pouco robusto. Já ninguém se lembra como chegou àquela terra, donde veio e o que fazia, ninguém lhe conheceu família, nem mesmo à hora da sua partida. Ocupava a vida a fazer fretes, valendo-se de um carro de mão feito de madeira, comprido e com uma roda do mesmo material, revestida a tira de pneu. Era frequente encontrá-lo entre a paragem das camionetas e a estação dos comboios, onde ganhava a vida e carregava os embrulhos para os clientes. O pequeno carro havia-lhe moldado a silhueta, mesmo quando não o empurrava, e por mais que desse aos braços, sempre andava curvado. Vivia sozinho numa barraca junto à linha do comboio, tratava de tudo o que era seu e deitava-se com as galinhas. Dificilmente ia “beber um copo”, a menos que alguém lho pagasse. De qualquer modo, entrava mudo e saía calado, não gostava de falar de si, e muito menos dos outros. Parecia ter sempre que fazer.

Como o dinheiro era pouco, aceitava sem melindre sapatos e roupas usadas. Não se escusava a um prato de sopa e rabiscava qualquer tipo de alimento. Quando havia feira na localidade, ele esperava pelo seu encerramento, deitando mão à fruta e aos legumes desprezados. Nesses dias, o pequeno fato de macaco azul vinha a abarrotar, o carro vinha carregado e um assobio ecoava na Praça. Muita daquela comida tinha que durar uma semana, exactamente até à próxima Feira. Numa dessas incursões, junto ao pneu de um tractor, viu uma saca de serapilheira atada. Temendo que estivesse esquecida e que o seu proprietário voltasse, resistia em tocar-lhe, pois não queria passar por ladrão. Estranhamente, a saca mexeu-se e de lá dentro saiu um ganido. Depois de olhar para todas as direcções, não resistiu e abriu a saca. Lá dentro estavam três cachorrinhos, dois mortos e uma cadelinha viva. Disposto a criá-la, levou-a para casa, indo todo o caminho a pensar no nome que lhe iria dar. Ficou Jinha.

A Jinha era uma cadela mestiça, provavelmente de quatro olhos1 com podengo, baixinha mas vivaça, negra e de pelo cerdoso. Rapidamente aprendeu a escoltar o carro, a acompanhar o seu dono para todo o lado. Quando o carro estava carregado ou o sol era forte, deitava-se debaixo dele; quando estava vazio, adormecia dentro da caixa. E que ninguém pensasse em tocar nalguma coisa, aí é que era o diabo! Era doida por sopa de tutano, o que nem sempre comia, porque a procura era muita e o magarefe tinha de cativar a clientela. Mas de vez em quando lá calhava. Felizmente que comia de tudo, desde batatas a couves, de feijões a azeitonas. Partilhava a mesma mesa e a mesma cama com o dono – tudo lhes era comum.

Certo dia, os despachos começaram a amontoar-se, e do Américo nem sinal! O homem da Agência ia perguntando a todos por ele, mas ninguém sabia onde estava, todos diziam que não o tinham visto. “ Provavelmente está a curti-la. Amanhã logo virá! “ Dizia o agente para se conformar.

Já haviam passado dois dias e do Américo nem notícia! Houve quem alvitrasse que fora à Sede do Concelho, que finalmente fosse visitar algum filho ou parente. Sim, até porque a Jinha não era vista, e onde estivesse um, estaria o outro.

Na taberna mais próxima da barraca jogava-se às cartas, à lerpa, e como o jogo era a dinheiro, as portas estavam trancadas. O estratagema era válido para os guardas e para as mulheres dos jogadores, evitando multas e publicidade desnecessária. Quando tudo parecia correr bem, sente-se a porta a abanar, alguém estava do lado de fora! As cartas voaram para dentro das tulhas, os jogadores esconderam-se por onde puderam e o merceeiro encomendou-se à Virgem. Fingindo que tinha sido acordado, perguntou: “ Quem é que está aí. Não são horas para acordar ninguém. Isto aqui não é nenhuma farmácia!”

Com a porta abanar e não obtendo resposta, também porque a hora já ia alta, o merceeiro avançou para a porta munido do “ tira-temas”2. Abriu-a com cuidado, com a tranca a ampará-la por dentro, espreitando receoso. Para espanto seu, viu somente a Jinha, que num movimento de vai-vem, não parava de ladrar. “ Ah cadela dum bode mocho, qe’que te deu para ma atazanares?”, dizia ele.

E porque a cadela não se calava, espelhando aflição, decidiram segui-la. Ela levou-os até à barraca do dono, onde sobre uma esteira, ele dormia para sempre, junto a um candeeiro sem petróleo e coberto por sacas de foskamónio. O homem foi sepultado e desconhece-se quem pagou o enterro. A cadela permaneceu durante dias ao redor da barraca, ao lado do carro e de olhos postos no horizonte. Ocasionalmente vinha à localidade para comer, até que um dia desapareceu.

Perante o ocorrido, os vizinhos perguntavam uns aos outros: “ Têm visto a Jinha? “

A Jinha tinha sido vista por quem não devia, pelos empregados camarários da “carroça”3. Não ofereceu resistência, foi um serviço limpo. Soube-se que morreu por injecção letal, porque dentro do prazo legal, ninguém a adoptou ou reclamou.
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1 Designação saloia para cão lanudo, bicolor, de máscara cerrada com uma mancha mais clara sobre cada olho. 2 Nome atribuído a um porrete. Na zona saloia usa-se o termo “ cachaporro”. 3 Viatura automóvel destinada à captura e transporte dos cães vadios. O nome é advindo do veículo usado anteriormente. Geralmente transportava quatro funcionários munidos de redes e arpões. Os cães eram capturados a partir do cerco e não raramente eram usados paus e pedras. O espectáculo era degradante.

A sucessora do PM

O PM, o gato de operou a sociabilização de tantos cães e morreu de velho, já tem sucessora, uma gatinha tigrada cinzenta, salva do abandono e recolhida à beira de uma estrada. Ela adora vir para a Pista Táctica, corre atrás dos cães e não se teme perante eles. Recebeu o nome de Maria Joana, respectivamente os nomes da sua salvadora e da sua madrinha. Graças à sua valentia e inquietude, os cães estão a sociabilizar-se com ela, mostrando a curiosidade típica e o desejo de a identificar. A Joana adora a gata, o Flikke já a considera da família e a bichana elegeu a pista como seu lugar social. A história repete-se, para bem dos cães e alegria da gata.

A procura do Atavismo

Esta tem sido uma guerra interminável, operada massivamente nos últimos cinquenta anos: a procura do atavismo canino. O Lobo Checo, o Lobo Italiano e os Pastores Holandeses disso são exemplo. Nos Estados Unidos até houve necessidade de regulamentar a percentagem de sangue lobo nos cães. O retorno ao Lobo tem-se revelado desastroso, porque os híbridos perdem dependência e ganham autonomia, dificultam a parceria e agem pelos seus instintos, tornando-se desprezíveis para os fins procurados. Por detrás de tudo isto, está a procura do super-cão, um guardião de créditos inquestionáveis, que à dentada tudo varrerá. A transferência da matilha animal para a constituição binomial é o maior dos seus entraves, inviabilizando os desejos dos que almejam feras no quintal. À parte disto, a capacitação dos híbridos tem sido morosa e votada ao insucesso, devido à troca de alvos que leva à perseguição de outros animais. Ganha-se o caçador e perde-se o guardião.

Há já muito que os saloios sabiam disso, em tempos idos, depois de verificarem a inutilidade dos raposos em cativeiro e querendo melhores cães de caça, iam deixar as suas cadelas com o cio no Cabeço da Velha, junto à Avessada, para que os raposos as cobrissem e daí resultassem excelentes caçadores. A manobra era feita “à boca calada” e muito poucos viram recompensado o seu esforço. O fraco índice de sucesso levou ao abandono das acções, muito embora se encontrem ainda, na região, características desse atavismo nalguns rafeiros caçadores. Depois de auscultar os mais velhos, a opinião é unânime: “quanto menos sangue raposo, melhor!”
Na Europa, o CPA foi o cão mais solicitado para estas vãs tentativas, por causa do seu tipo e morfologia. No entanto, os híbridos resultantes da sua contribuição, ao invés de suplantarem as suas qualidades, adquiriram outras bem distantes da mais-valia procurada. Ouvimos de um instrutor militar a seguinte sentença: “ Uma vez soldado, soldado para sempre. Depois de sentir o estalar do verniz, qualquer um sabe daquilo que é capaz! Dificilmente voltará a ser o mesmo!” No nosso modesto entender, o cão actual ainda tem demasiadas características atávicas que o ligam ao lobo, não necessita de mais e quanto menos tiver, melhor para todos, em abono do seu bem-estar e sobrevivência. Segundo a opinião de alguns etólogos, ligados à preservação de diferentes lobos, a “História do Capuchinho Vermelho”, como parte da cultura ocidental, contribuiu para o aniquilamento desenfreado desses animais. O medo que temos dos outros leva-nos a tentativas desesperadas, cria mercado. Até quando seguiremos as fábulas?

Fim-de-semana de 22 e 23 de Agosto: Trabalhar para melhorar

Este fim-de-semana não houve praia para ninguém. Os trabalhos foram escolares e dedicados à Técnica de Salto, na vertente da condução à trela. As aulas foram divididas em duas partes: uma teórica e outra prática. O Carlos Santos, o Carlos Esteves e o Bruno Carreiro, continuaram a limpeza da Pista Táctica. Todos os presentes melhoraram o seu rendimento e o aproveitamento foi superior. A Família Veiga Santos retomou os trabalhos e a Joana evoluiu segundo o esperado. Os almoços aconteceram no “il massimo” e os quatro períodos do treino foram concorridos.
No intervalo dos exercícios ainda se arranjou tempo para o “baptismo da Ana”, que apesar das instruções, fez do chão tapete. Esta nossa amiga, muito nervosa de início, mostrou a valentia reconhecida aos ribatejanos. A Flor continua no hotel e chegou uma nova aluna, a Íris, proprietária de um bassetóide SRD, de nome ZIGUI. O Eduardo foi para França de automóvel, levar a família para a sua nova residência em Paris. Volta para a semana. A Princesa continua a trabalhar para aparecer na “Caras” e na “Flash”, uma vez que detesta a “VIP”. A Rita visitou-nos e está a ficar uma mamã radiante.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, Ana Pinto/Loki, Bruno/Pepe, Carlos/Zara, Joana/Flikke, João Moura/Xita, Manuel/Mini, Octávio/Greg, Virgílio/Pascoalito e Zé Gabriel/Master & Menina.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

::: Temos pena! :::

A expressão acima é típica da malta nova, vulgarizou-se e é aplicada nos casos em que nada há a fazer, nas situações irremediáveis e que importa suportar. É também usada como falsa lamentação, quando qualquer coisa se torna inevitável ou determinado acto conduz ao fim esperado. Para que isso não lhe suceda a si e seja votado à mesma sentença, se pensa adquirir um cão, saiba de antemão, aquilo que o espera e os problemas que irá enfrentar, porque a adopção do animal é um compromisso “duro de roer”, confirmado pelo número de cães descartados ou abandonados. É bom saber com o que contar, para que o seu desejo não se transforme em castigo e se sinta vítima da sua opção, mal fadado pela sorte e condenado ao sacrifício.
A aquisição de um cão obriga, entre outras coisas, ao aumento das despesas, à alteração das rotinas, a cuidados especiais, a férias repartidas, a uma maior disponibilidade, à novidade pedagógica e à aposta no seu bem-estar. Em síntese: à alteração do seu modo de vida, individual, familiar e social. E para que tudo vá bem desde o início, a opção deve ser familiar e nunca resultar de um desejo individual, porque o cão é um animal social e toda a família estará, quer queira, quer não, implicada no seu processo de adopção. Quando assim não acontece, bem cedo o cão estará de “malas aviadas”.

O primeiro ano de vida de um cão é o mais dispendioso, mesmo que não se opte pelo seu adestramento, porque a ração para cachorros é mais cara, o quadro de vacinação tem que ser respeitado e as desparasitações são mais frequentes. Com o cão “a pagar as favas” e o dono a fugir às despesas, ele custará no mínimo 300 euros, podendo chegar aos 5.000, isto se todas as infra-estruturas já houverem sido criadas. Mas se houver necessidade de construir um canil e uma intervenção cirúrgica se tornar urgente, estes valores serão facilmente ultrapassados. Porque é mais um passageiro, a aquisição de um cão poderá levar à troca da viatura, à compra de uma caixa de transporte e a um sem número de acessórios. O cão mexe com o orçamento familiar e é bom que todos estejam de acordo. Não estamos aqui a contabilizar os estragos causados pelo animal, os praticados em casa ou contra terceiros. O cão é para quem pode e não para quem quer!

O animal obrigará à alteração de rotinas, devido à sua necessidade excursionista e aos seus passeios higiénicos, à limpeza das suas instalações e à prática do exercício físico necessário. Ele exige cuidado e atenção, porque sendo um animal social, procura a integração, busca a parceria e reivindica a coabitação. Desperta-nos para a brincadeira, interrompe os nossos afazeres e dá sumiço a alguns dos nossos objectos mais queridos. Não raramente faz asneiras para nos chamar à atenção e ainda por cima necessita de ser limpo. A vida de um proprietário canino pode dividir-se em duas fases: antes e depois do cão. Apesar da factura ser alta, os benefícios poderão falar mais alto. Só o amor aguentará a alteração das rotinas! Ídas ao veterinário, tosquias, a limpeza de orelhas, a administração de medicamentos, a distribuição do penso e o escovar diário, são alguns dos cuidados especiais a haver, muito embora cada cão obrigue a diferentes tarefas e preocupações, de acordo com o seu particular sexual, clínico ou racial, porque é um indivíduo e como tal, diferente dos demais. Quem não tem tempo para um cão, não o desperdice na sua aquisição!

E quando as férias chegarem, o que fazer com o cão? Há que pensar nisso!
A maioria livra-se dele e descarrega o fardo sobre empregados, amigos, parentes e vizinhos, a quem ficam a dever favores. Alguns optam por um hotel para cães e muito poucos partem de férias com ele. Para ser cão é preciso ter sorte e poucos são os que a vêem. De qualquer modo, a decisão não é fácil e causa algum embaraço, é mais uma decisão a tomar e um problema a resolver. Dá que meditar!

O cão reclama do dono uma disponibilidade física e mental muitas vezes para além do esperado, porque não é humano, tem outras preferências e diferentes objectivos, tem crenças próprias e agrada-se das coisas tangíveis à sua natureza. Não lhe podemos dar um livro para ler, mas ele pode interromper a mais gostosa das nossas leituras, acordar-nos a meio da noite e ladrar quando menos deve, incomodando vizinhos e derramando mal-estar à nossa volta. As queixas na Polícia que o digam!
Na sociedade actual poucos têm tempo para os filhos, para exercer a sua acção pedagógica enquanto pais. Alguns, impensadamente e para colmatar a falta, oferecem aos pirralhos um cão, o que só agrava a situação, porque os miúdos não ganham responsabilidade e o bicho aproveita-se da situação, sobrando a responsabilidade para os mentores da ideia. Um cão carece de educação e de um líder, e quando ambos faltam, ele tende à desobediência e a assumir a liderança. É errado entregar a educação de um cão a terceiros, porque a ausência do agente pedagógico pode provocar a rebeldia contra o próprio dono. Optar por um cão é educá-lo, procurar uma escola para a edificação comum.

A aposta no bem-estar canino deve ser considerada e muitas vezes colide com os interesses e desejos dos demais, atenta contra a nossa carteira e pode fazer gorar alguns dos nossos projectos. Para todos os efeitos o cão é mais um membro da família, bem diferente dum porco numa loja ou de um peixinho vermelho no aquário. Garantir uma boa instalação doméstica, uma alimentação equilibrada, a higiene necessária, uma assistência médico-veterinária capaz, interagir com ele e proceder à sua adaptação, são tarefas exigíveis a quem deseja ter um cão. Apostar no seu bem-estar é torná-lo feliz, mesmo que chegue cansado e a paciência já falte.
Se depois do que foi dito, ainda deseja ter um cão, seja bem-vindo, estamos aqui ao seu lado, seja nosso companheiro de jornada, temos muito a descobrir e os desafios não serão poucos. Pode contar com a nossa experiência, estamos prontos para o ajudar. Verá que vale a pena!

O Cão no Verão: alguns conselhos

  1. Evite deixar o cão encerrado dentro do automóvel, mesmo que deixe as janelas abertas. O calor pode-lhe ser fatal.
  2. Os cães de focinho mais curto apresentam maiores dificuldades em respirar, atingindo a exaustão mais cedo. Procure para eles um lugar mais arejado e sombrio.
  3. Os cães negros ou maioritariamente negros, quando sujeitos aos raios solares, atingem uma temperatura corporal até + 6º centígrados, quase instantaneamente. Proteja-os do sol.
  4. Se deixar o seu cão num hotel, dê preferência aos canis virados a Norte.
  5. Quando em viagem, não se esqueça da água e do bebedouro do seu cão.
  6. Se tem por hábito alimentar o seu cão pela manhã, passe a distribuição do penso para a noite. No verão os cães optam por comer nessa ocasião.
  7. Adquira um reservatório portátil de água.
  8. Coloque no animal uma coleira insecticida e evite permanecer em áreas alagadas ou húmidas, tanto ao amanhecer como ao anoitecer.
  9. Não marche com o seu cão quando a temperatura ambiente for superior a 25º centígrados.
  10. Não sujeite o seu cão a banhos de mar constantes. A água salgada acelera a desidratação. Se o fizer, lave-o depois com água doce. Praia e água potável são indissociáveis

Crónicas de uma Família chalada (relatos via telefone)

Apesar de todos conhecermos “A história do velho, do rapaz e do burro”, temos outra para vos contar, esta real: a da Família Veiga Santos.

Enquanto alguns deixam os seus cães num hotel e outros entregam-nos aos cuidado de empregados, parentes ou vizinhos, para já não falar naqueles que os abandonam, a Família Veiga Santos decidiu ir de férias com os seus cães para os Açores. A logística não foi fácil e exigiu algum planeamento. Uma semana antes da partida, por via marítima, foi enviado um canil desmontável, a montar junto à residência de férias. A Mini, uma cachorra miniatura, foi transportada ao colo da dona e o Abu, um CPA de 6 meses, foi no porão do avião. Chegaram em simultâneo, todos ilesos e o Pastor Alemão nem precisou de tomar calmantes, graças ao trabalho anteriormente desenvolvido. E lá pelas Ilhas, andam “serra acima, serra abaixo”, felizes e contentes, mostrando uma cumplicidade que não se conforma com o isolamento. Temos recebido notícias deles pelo telefone, a experiência tem sido gratificante e a adaptação dos animais excelente. A loucura dos donos trouxe a felicidade aos cães. Ainda há gente assim!
Um aluno meu, que procedeu doutra forma, quando confrontado com as exigências colocadas aos donos de cães, teceu o seguinte comentário: “ Se todos os donos de cães cumprissem com o indicado na Acendura, o número destes animais baixaria para 10 ou 5%. Em matéria de férias, há que haver equilíbrio”. Talvez este nosso prezado discípulo tenha feito uma importante descoberta, que 90 ou 95% dos cães se encontram em mãos impróprias, sujeitos à precariedade dos rendimentos familiares e a um sem número de condicionalismos, a quem o comodismo pode não ser alheio. Pergunta-se: a alta proliferação de cães não tem levado ao seu descarte e abandono? E por falar em equilíbrio, ecologicamente falando, o que deveria haver mais: lobos ou cães, caça ou caçadores? E depois, como entenderá o cão a ausência do dono? Entenderá ele o conceito de férias? Ficará a contar os dias? Como se sentirá?
Infelizmente, não temos uma reportagem fotográfica das aventuras da Família Veiga Santos. Tal não foi possível por dificuldades técnicas, o que lamentamos, porque as fotos revelariam a alegria desses binómios em férias e ilustrariam melhor este texto. E porque estamos a falar de condutores, ainda que de cães, lembro aqui o slogan militar “omnia per omnia portans” (transportando tudo por toda a parte).

Il Massimo

Esta veraneante acompanhada pela Isis, não é uma das nossas condutoras habituais, mas uma amiga recente e de reclamada conveniência, chama-se Ana e é a gerente do Restaurante Il Massimo, identificado entre nós como “o restaurante das tias“. Para além de gerente, a Ana é também a cozinheira, especialista em tapas e em diversas iguarias tradicionais. Intitula-se de inventora, é bem disposta e faz as nossas delícias. Apresenta umas entradas saborosas e umas sobremesas divinais. O preço da refeição completa é de 7 euros.
O Restaurante está situado em Alcainça, na estrada que vai da Malveira para Mafra, ao lado do talho e à frente do Supermercado Silva. O staff é constituído pelo patrão, pela gerente e pelo Sássá. O primeiro, no dizer do terceiro, “come, ralha, recebe o guito e desaparece”. O Sássá, para além de ser “pau para toda a obra”, é o empregado de balcão, o “preto”, como é tratado carinhosamente pela Ana. Vale a pena visitar este Restaurante, que apesar de modesto, é muito acolhedor e preserva os mistérios da nossa gastronomia meridional, salpicados aqui e ali de influências tropicais, castelhanas e italianas. Inovação é a palavra que melhor lhe assenta. Felicidades, Ana!

Fim-de-semana de 15 e 16 de Agosto: E a Zara aprendeu a nadar

Neste fim-de-semana dividimos os trabalhos entre a Escola e a praia pluvial. A maioria dos binómios encontra-se de férias e assistência às aulas foi diminuta. No Sábado, antes do horário normal das aulas, o Carlos Santos, o Jorge, o Rui e o Bruno acabaram a limpeza da pista táctica, deixando-a a brilhar e com os requisitos de sempre. Daqui enviamos o nosso muito obrigado. Depois evoluímos pela imobilização à linha e socorremo-nos do perímetro exterior. Na imobilização ninguém ganhou ao Audaz, apesar da pouca certeza do Jorge.
A Flor deu entrada no Hotel e a família do Daniel rumou em direcção às Praias do Sul. Os três Veiga Santos estão nos Açores, a família Moura na Costa Vicentina e a Pescadinha entregue às suas obrigações sociais. 80% dos alunos estão fora e daqui em diante começarão a regressar, partindo depois aqueles que aqui ficaram. A Zara também deu entrada no hotel e a Luna foi coberta pelo Antar. Em Dezembro teremos 3 ninhadas para venda, de excelente qualidade e créditos firmados.
No Domingo deslocámo-nos à nossa praia privativa, o Jorge ganhou um colchão com rádio e foi um dos únicos donos a entrar na água. Finalmente a Zara aprendeu a nadar correctamente e depois não queria outra coisa. Assim que pôde, roubou um dos alteres do Loki e nunca mais o largou. Os cães adoraram a aula, as fotos disso dão mostra. A Isis nada mais rápido do que anda e parecia um castor na sua azáfama. O Loki não gosta que o Rui vá para a água, fica aflito e quando o apanha, adverte-o com uma dentada, como que a dizer: toma cuidado contigo, não te afastes! A sessão das fotografias coube à Rita e surpreendentemente a Isis não desapareceu. O Bruno está radiante, a sua mãe chegou no Domingo, acompanhada pela sua irmã mais nova. Agora é que é caso para dizer: “comida pronta e roupa lavada!”
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Ana/Loki, Bruno/Pepe, Carlos Esteves/Zara, Jorge/Audaz e Rui/Isis.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

::: Ele não tem escolha :::

No dia em que o Homem transformou o lobo em cão, o bicho ficou sem escolha, sentiu a sua sobrevivência condicionada e ficou para sempre algemado à dependência. Mas mesmo que permanecesse lobo, a sua condição não sofreria alteração, porque foi a cegueira dos seus instintos que o levou ao aprisionamento. Talvez resida nisto a maior diferença entre homens e cães: o direito à opção.
A adaptação do cão doméstico foi alcançada pelo contributo do sentimento gregário, o cão é um animal social. Tudo aconteceu por substituição: da alcateia para a matilha e dela para a liderança humana. O cão não nasceu para estar só, precisa do grupo e sobrevive por ele. Não raramente, o excessivo amatilhamento, pela constituição da parceria, obsta à instalação da liderança humana. Assim, a aquisição instantânea de vários cães pode revelar-se um desastre, fomentar uma hierarquia onde o dono não terá lugar, voz activa ou qualquer domínio. E já agora, a haver um segundo cão, ele só deverá chegar quando o primeiro já reconhecer a liderança do dono, constituindo-se como auxiliar, mediante exemplo, na educação do recém-chegado.
Face a irracionalidade canina, o Homem obrigou-se ao lugar de “macho alfa”, porque o cão não tem escolha e não saberá a diferença entre o certo e o errado, se o líder não o fizer saber. É mais fácil educar um cão do que um filho, porque ele será o que nós quisermos, muito embora seja facilmente ludibriado e não evolua para além daquilo que lhe foi ensinado. É aqui que a Escola e o adestramento se tornam importantes, pelo aumento da experiência que lhe poderá salvar a vida.
Sujeito ao grupo, dependente do dono, o cão tudo fará para lhe agradar, porque cães e homens nasceram para ser amados e não basta somente perdoar-lhes as transgressões. Se nos é possível comparar, um cão sem o grupo é um apátrida, um refugiado em terra inóspita ou um lobo solitário. Ao contrário do que se julga, os cães da população activa são os que mais sofrem, devido ao isolamento e à ausência de vínculos afectivos eficazes. Inversamente, os cães das crianças e dos idosos são substancialmente mais felizes, graças à cumplicidade e à comunhão de vida que a divisão do tempo oferece. Nisto se vê a vanglória da disciplina quando confrontada com a afectividade.
Amar um cão, implica na sua sobrevivência, na aposta da sua adaptação ao meio, no estabelecimento de metas e objectivos que visem o seu bem-estar, no estabelecimento de regras que garantam a perfeita coabitação e na recompensa efusiva que visa o agradecimento. Educar é amar!

Eduardo & Vega: um binómio remanescente


Esta semana um novo binómio chegou à pista: Eduardo & Vega. Pouco a pouco, como aconteceu no passado recente, o número de cachorros CPA negros está a aumentar nas nossas fileiras. A Vega é uma cachorra da criação do Roberto Mariano, filha do Greg e da Buba, tem 4 meses de idade, uma vontade imensa de trabalhar e uma biomecânica excepcional, segue o Eduardo para todo o lado e não larga o pelotão da frente. Para além dos parabéns ao dono, que são merecidos pela excelente instalação doméstica, cuidado e tempo dispensados, há que reconhecer o trabalho do seu criador, pelo imprinting efectuado e pelo superior acompanhamento do 1º ciclo infantil. Quando ao criador certo se junta o dono ideal, a felicidade de um cachorro está garantida, o binómio cedo acontece e o futuro apresenta-se risonho.
A Vega parece a reencarnação da Inca e da Bia, descende directamente do Schwartz e do Warrior, é bisneta do Klint e neta do Bero. O Eduardo, que é também proprietário do Micks, o cão que mais evoluiu no último mês, está a aprender o particular das variedades recessivas, nomeadamente as precoces, já que a cachorra, logo na 1ª lição, ultrapassou o perímetro exterior da pista táctica. Conduzir cães negros é um privilégio, mas não é aconselhável para condutores inexperientes, porque a sua curva de crescimento é mais curta e o tempo não pode ser desaproveitado. Este é um novo desafio para o Eduardo, estamos convictos que o levará de vencida. Neste momento a Acendura encontra-se deficitária em lobeiros, apenas 3 participam nos trabalhos escolares: o Pascoalito, o Kaiser e a Amora. Breve o Juvat, propriedade do Carlos Santos, aumentará o seu número.

A novidade da Família Calado: um lobeiro negro

Apenas dois dos actuais alunos da Acendura conhecem o Nuno e a Cláudia, são eles a Pescadinha e a Isabel. Nos tempos que correm, a família Calado é uma recordista, atendendo aos divórcios que por aí grassam. A Cláudia foi uma criadora de CPA’s de qualidade e ainda mantém dois deles: a Bianca e o Antar. Quem desapareceu precocemente, para desgosto do Nuno, foi o One d’Acendura Brava, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Este lobeiro era extraordinário, a sombra do seu dono e um excelente guia para todos os cachorros. Como o Nuno esteve de aniversário no passado dia 29, alguns amigos mais chegados, decidiram oferecer-lhe um cachorro CPA, no intuito de o compensar pela perda acontecida. O cachorro é um lobeiro-negro, filho do Kaiser e da Pietra, da criação do Sr. Rafael Lopes. Recebeu nome de imediato: Sixty. A família Calado está feliz e o cachorro agradecido. No Outono estarão entre nós.

Carlos Esteves & Zara: quando o orgulho regional é também nosso

Recentemente saiu um artigo num jornal a enaltecer as qualidades profissionais do Carlos Esteves, a sua visão empresarial e o seu profissionalismo. Aquele diário atribui-lhe o título de “orgulho regional”, considerando a inovação e o sucesso que o Carlos atingiu no negócio dos pneus. Como é multifacetado, as suas qualidades não se esgotam por aí, adora desportos motorizados, dedica-se aos náuticos e é um defensor intransigente da família. Dela faz parte também a irrequieta Zara, uma cadela a lembrar o Cão de Água Português, muito alegre e traquinas que é nossa aluna. O binómio da First Stop raramente vai às “boxes”, como se tivesse pneus de longa duração e a estrada fosse infinda. Na cauda do pelotão escolar e na cola dos Pastores, no dito “lugar do morto”, devido `as constantes mudanças de andamento requeridas, o binómio da Igreja Nova vai vencendo os desafios colocados à sua frente, possui imagem de marca e serve de incentivo aos demais. A cachorra é matreira e conhece o bom coração do dono, chantageia-o psicologicamente e tira partido das suas emoções. Tal qual alvorada que vira dia de sol radiante, assim tem sido o trabalho deste binómio. Como diz o povo: “grão a grão, enche a galinha o papo!” Mesmo que o Carlos só vendesse tremoços e pevides, não deixaria de ser para nós motivo de orgulho, porque respeitamos o esforço e reconhecemos a paixão. O orgulho é também nosso!

Um comentário


Recebemos da Sofia Leite o seguinte comentário:

“Olá Sr. João muito me espantou quando fiz um search à Acendura Brava na Internet e vi os disparates que li a seu respeito. Comprei-lhe uma cadela à nove anos atrás, o meu irmão também lhe comprou dois pastores alemães dourados (espero que já saiba quem sou), sim sou a irmã do Rui. A Bia é filha da Menina e de um pastor que adorava abrir portas (Egas); fez 9 anos este mês e vive comigo em Inglaterra. É uma cadela perfeitamente saudável que adora abrir portas (sai ao pai) e tem a doçura da Menina. Este e-mail é só para lhe agradecer a fantástica companheira que me vendeu.”

Agradecemos o elogio e alegramo-nos com a parceria. Felicidades para ambas. Keep in touch!

Daniel-San & Crazy Teddy

Cá por casa sempre existiram nomes escolares, por causa disso há quem não conheça o verdadeiro nome dos seus colegas, graças à perpetuação do nome adquirido, geralmente ligado às características físicas ou psicológicas de alguns condutores que pelo seu trato se tornaram queridos dos demais. O léxico onomástico da Acendura acaba de ser enriquecido com um novo vocativo: Daniel-San. O apelido assentou sobre o Daniel, o condutor da Flor, que a muito esforço, lá consegue andar 400 m no círculo de obediência sem parar, o que para um homem de 38 anos é tarefa hercúlea. À imitação do miúdo do filme “Karate Kid”, a quem fica a dever o nome, o Daniel continua a trabalhar afincadamente, a esforçar-se para atingir os índices atléticos próprios do adestramento, exactamente como o demonstrou este fim-de-semana.
E por falar em fim-de-semana, importa dizer que os trabalhos foram desenvolvidos dentro do perímetro escolar, maioritariamente ligados à obediência e à técnica de salto. Teoricamente dedicámo-nos ao estudo da panzootia e das suas implicações sobre o rendimento canino, dando especial enfoque à relação entre a postura humana e a prestação animal. O Teddy, o cãozinho da Pescadinha, continua perdido de amores pela Zara, essa paixão está a levá-lo à loucura. Para espanto geral e quando nada o indicava, a Isabel compareceu com a Amora no Sábado. O António Cunha está a evoluir no entendimento com o Zorro, o Pepe é o actual campeão da Ponte-Quebrada, logo seguido pelo Flikke. A Xita vai ser mãe outra vez, o pai da prole irá ser o Thor. A Biti andou de braço dado com o Bibos e a Vega deslocou-se tal qual um veículo prioritário. O Dr. Zé Gabriel auxiliou nos trabalhos e ajudou os condutores necessitados de esclarecimento. O Jorge continua na idade da inocência e a Joana com a distracção típica dos seus treze anos. O Micks já teve alta e participou nos trabalhos, a Susana não consegue esconder o amor pelo Pascoalito e sentimos a falta do Octávio. A Família Fernandes & Veiga Santos encontra-se nos Açores a gozar a época estival. A Princesa, pelo mesmo motivo, é o novo Vizir de Odemira, muito embora tenha mudado a sede do seu califado mais para norte, junto ao Sado. O Dr. João Franco ficou a admirar os repuxos da Expo e o Filipe encontra-se de convalescença, vítima de um acidente doméstico. Desejamos-lhe rápida recuperação. O operacional do costume, Carlos Esteves, compareceu com a Zara e cumpriu. Fomos ainda visitados pelo Vicente, o criador do Bibos.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: A.Cunha/Zorro, Biti/Bibos, Bruno/Pepe, Carlos/Zara, Daniel/Flor, Eduardo/Micks & Vega, Isabel/Amora, João Moura/Xita, Joana/Flikke, Jorge/Audaz, Pescadinha/Teddy, Susana/Pascoalito, Xico/Pongo e Zé Gabriel/Master & Menina.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

::: Os ícones da Canicultura Portuguesa: a questão dogmática :::

Quase sempre assim fizemos e continuamos a fazê-lo, talvez por nos sentirmos enjeitados, ocultos pela Espanha e emparedados contra o Atlântico. É-nos mais fácil seguir as tendências dos outros do que preservar a nossa cultura, o que é bom vem de fora e é inquestionável, o que é nosso: já teve o seu tempo. O fenómeno é por demais visível e está presente em todas as áreas, inclusive na canicultura, onde a excelência dos cães importados, relega para o desprezível as raças nacionais. E como o cão é objecto de adoração, o importado vira ícone e tudo à sua volta se transforma em dogma.

Estarão os cães nacionais obsoletos? Serão uma encarnação descarada do nosso chauvinismo? Não aprendemos com os demais? Se assim é, a quem caberá a culpa? Que rumo tomar?

Como introdução ao tema e à sua problemática, porque inevitavelmente continuamos a pensar no uso a dar cães, muitos dos nossos exemplares mais robustos e polivalentes, acabam “carne para canhão”, constituídos em legião, nas matilhas de caça grossa, tal qual “janízaros” e a troco de quase nada, diante das condições que lhe são oferecidas.

Durante uma década criámos e adestrámos Cães de Água Portugueses, Castro Laboreiros, Filas de S.Miguel, Podengos Gigantes, Rafeiros Alentejanos, Serras da Estrela e Serras d’Aires. E fizemo-lo depois da experiência dos Fuzileiros com os Cães da Serra da Estrela, conscientes das suas dificuldades e apostados no sucesso. A constituição de binómios, nunca foi fácil, considerando as três disciplinas clássicas da cinotecnia: obediência, guarda e pistagem. Os únicos que se comportaram de modo excepcional foram os Filas de S.Miguel, contudo com um problema: a sociabilização “inter pares”. Criámos ainda Perdigueiros Nacionais, especificamente para caça e o rendimento não foi o esperado.
Cá por casa, confunde-se “silvestre” com “rústico”, porque a maioria das nossas raças é mais instintiva do que rica em personalidade, mais entregue a si própria e menos prestativa. Isto aponta para uma selecção descuidada, baseada quase em exclusivo nas características morfológicas, em detrimento da componente cognitiva. Aqui, criadores e adestradores persistem em andar de costas voltadas, acusando-se mutuamente e avançando cada um por si. Nisto encontra o cão importado terreno fértil, porque uns deixam de criar e os outros vão continuar a importar. O problema passa também pelos Clubes de Raça, exclusivamente preocupados com a venda das ninhadas e nada apostados na divulgação da sua mais-valia. Porque não temos provas de pastoreio para o Serra da Estrela, Castro Laboreiro e Serra d’Aires? Será por causa do desaparecimento dos lobos? Devido à má selecção, ninguém sabe o que fazer com os nossos cães, que continuam, teimosamente, arrumados nas estantes da nossa história recente, pouco requisitados para animais de companhia e arredados do seu lugar ao sol.

Criador em Portugal, é todo aquele que tem uma cadela, mesmo que desconheça quais os impulsos herdados mais importantes. Toda a minha gente discute genealogias, pouco ou nada sabe sobre cães e manda para o fado as mágoas do seu insucesso. Não deveriam os criadores ter alguma formação? Não seria importante relembrar que todos os animais que não se adaptaram, perderam o direito à sobrevivência? Será que os actuais criadores, agarrados aos “seus” pergaminhos, apostam na conservação do museu vivo canino, dispensando assim o virtual que dá vida aos dinossauros?

À parte disto, a opção pelo cão da estranja, quer se queira, quer não, assenta sobre uma razão económica, porque é novidade, tem procura, garante o lucro e a sua qualidade é reconhecida. Graças a isso, paralelamente ao seu ofício, alguns adestradores são seus importadores, arautos da sua mais-valia e principais responsáveis pela sua proliferação. No mundo da cinotecnia, o santo, aquele que é objecto de veneração, é o super-cão, porque possui qualidades para além das comummente encontradas, ainda que as não tenha ou seja o “cabo dos trabalhos”. Infelizmente, nem tudo o que vem de fora é bom. Vale a pena dar ouvidos ao provérbio árabe: “ confia em Alá, mas prende bem o teu camelo”, ou como se diz em português: “ fia-te na virgem e não corras! “ Há que ter alguma cautela.
No nosso modesto entender, os cães nacionais necessitam de evoluir no sentido da procura, ser entregues a uma nova leva de criadores e sujeitos a uma selecção aturada. Se for necessário actualizar ou alterar os estalões, porque não? De uma forma ou de outra, o futuro encarregar-se-á de enterrar o passado. Com isto, não estamos a defender a ruptura histórica ou o abandono das nossas tradições cinófilas, mas a catapultar para as gerações vindouras aquilo que nos foi confiado, garantindo a sobrevivência dos cães portugueses pela parceria que poderão oferecer. E como a ruptura está aí, perguntamos: o Serra da Estrela actual aguentará o trabalho dos seus ancestrais? E quantos Cães de Água mergulham ainda em espiral? Assim como o dogma é aceite pela fé, os cães serão aceites pela sua mais-valia, enquanto companheiros de jornada e amigos omnipresentes.

Fim-de-semana 1 e 2 de Agosto: 1º. de Agosto, 1º. de Inverno: as diabruras do Clima

Este fim-de-semana o tempo pregou-nos uma partida: chuva no Sábado e sol no Domingo. As diabruras do clima não quebraram o nosso ânimo, trabalhámos afincadamente e vimos resultados. Treinámos essencialmente obediência, porque do ponto de vista atlético os nossos cães estão bem e recomendam-se, apesar do nosso aluno médio ter hoje 44 anos de idade, contra os 23 de alguns anos atrás. O Flikke, o Micks, o Pipo e o Pongo chegaram à idade adulta, venceram as metas anteriores e preparam-se para outras responsabilidades. A nossa classe de cachorros é imensa e o número de CPA’s é muito elevado. O PM já tem substituto, é uma gatinha tigrada ainda sem nome, que adora o convívio dos cães e salta para o colo de toda a gente. Obra do bom coração da Maria.

A Zara avança “ a todo o pano “ e Tot continua igual a si próprio, demonstrando uma obediência inquestionável. A Joana está a entrar nos eixos e o seu pai não pára de evoluir. O Zappa está em franca recuperação e o Greg vai ser pai de novo. O Flikke foi introduzido às escadas e a Flor continua a resistir ao “quieto”. Os alunos mais jovens foram obsequiados com uma curta sessão de ginástica, a seu pedido e em prol do seu gozo. O Teddy continua o cantor do costume e o Abu adora o treino. Finalmente o Bruno regressou de Punta Cana, mais bronzeado e a derramar saúde. O Xico encontra-se lesionado e não compareceu, o Eduardo foi absorvido pelos trabalhos domésticos e a Ana continua na azáfama do costume. O Filipe foi de viagem e o Carlos Veríssimo compareceu. O Dr. Zé Gabriel ficou retido na Lourinhã e o Dr. João Franco apresentou-se aos trabalhos. A Princesa não veio porque foi dar caça aos golfinhos. Entregámos dois CPA’s do nosso núcleo de criadores, uma cachorra preta e um cachorro lobeiro/preto, criação do Sr.s Roberto Mariano e Rafael Lopes, respectivamente.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, António Cunha/Zorro, Bruno/Pepe, Carlos Esteves/Zara, Carlos Veríssimo/Tot, Daniel/Flor, Joana/Flikke, João Franco/Zappa, João Moura/Xita, Jorge/Audaz, Octávio/Greg, Pescadinha/Teddy e Susana/Pascoalito.

sábado, 1 de agosto de 2009

::: O Cão de mão-em-mão: as consequências da conveniência humana :::

“As pombinhas da Catarina andaram de mão em mão, foram dar à Quinta Nova, ao pombal de S.João”. Ao som desta cantiga infantil fui muitas vezes embalado e adormecido, por uma avó que julgava minha e que nunca o foi. É a melodia mais antiga que recordo, já não me lembro do resto da letra, será que tinha mais estrofes? Não sei, mas ela serve perfeitamente como introdução ao nosso tema de hoje: o cão de mão-em-mão.

Apesar do assunto ser do conhecimento geral, não tem merecido a devida atenção, porque é prática corrente e comummente aceite. Estamos a falar daqueles cães que são entregues a outrem por conveniência do primeiro proprietário. As razões são as mais variadas, mas não escondem o desprezo e o desrespeito pelos animais, muito embora o bom-nome dos prevaricadores saia incólume. Esta prática é uma forma dissimulada de abandono que pode anteceder o abandono propriamente dito, apesar das garantias dadas por ocasião da transferência. Conheci um cão que teve seis donos, depois perdi-lhe o rasto, não sei se teve mais. Outro que foi abatido a tiro no dia seguinte à sua entrega e inúmeros que não tiveram um final feliz. Felizmente conheço alguns casos de sucesso, cães que melhoraram o seu estatuto e encontraram a felicidade junto dos novos proprietários.

Enquanto fui canicultor, ciclicamente, ouvia a seguinte opinião: “ Eu sou contra a venda de cães!” Agora que penso nisso, contraponho: todos os cães deveriam ser pagos! E digo isto porquê? Para se tentar travar o descarte dos animais junto dos menos afectivos e mais chegados à razão, para lhes alimentar um sentimento de perca face ao valor dado pelos cães. Talvez assim se evitasse a política de “toma lá um cão por qualquer palha”. Por outro lado, o valor exagerado dos cães de raça, que também é um sinal exterior de riqueza, tal qual um carro de luxo ou uma excelente caçadeira, tem contribuído para o demérito dos outros cães, relegando-os para a indiferença, como se de uma verdadeira praga se tratasse. Não lhe restando outro remédio, há quem ande empenhado em capá-los todos!

À parte das questões éticas ou morais, que não devem ser jogadas fora, importa esclarecer que a adaptação canina vai acontecer pela cedência forçada dos cães. Para além da problemática ligada à idade (quando mais velho for um cão, mais difícil é a sua adaptação), os dispensados irão ser confrontados com a substituição da liderança, com a mudança do grupo, com a alteração de hábitos, com a novidade das regras e com a troca do território. Um cão nesta situação irá sentir-se abandonado, objecto de expulsão, como um lobo escorraçado do seu grupo. E não o foi? Que mal fez ele ao seu deus: o facto de estar a mais? Quem o foi buscar?
A substituição da liderança não é automática, porque o novo proprietário é um estranho, não foi aceite nem escolhido pelo cão. O animal irá estudá-lo, tentar compreender o seu comportamento, mantendo-o à distância e evitando o excesso de veleidades. Enquanto isso, sofre pela ausência do dono anterior, que considera ainda o seu, vivendo na esperança de o reencontrar, porque a divisão da liderança relega-o para um lugar mais abaixo na hierarquia, coisa que não vê com bons olhos e à qual resistirá por oposição ou afastamento. O rosnar perante a aproximação, o ladrar incontido, o desprezo pela comida, o isolamento persistente e o desejo de fuga, são manifestações típicas de desencanto, posturas de sofrimento. Há cães que encetam fugas e acabam atropelados!

A resistência à nova liderança será a mesma perante o novo grupo, porque o desconhece e suspeita dele, teme as suas reacções e não entende os seus propósitos. Andará “à procura da rolha”, de um lugar no seu meio, procurando comportamentos anteriormente identificados. Se a natureza do grupo for totalmente diferente do anterior, a adaptação será penosa e demorada, baseada na desconfiança e causa de afastamento. Dividir as atenções com outros cães pode ser um “pau de dois bicos”, que tanto pode acelerar como condenar a desejada integração, só tempo o dirá. O escalonamento do líder em relação ao grupo familiar, também pode criar entraves à reinserção, já que o cão desconfia da promoção gratuita e resiste à despromoção automática.

A alteração de hábitos lançará o animal na maior confusão, sentir-se-á perdido, exactamente como os aqueles que são recambiados para os hotéis pela primeira vez. O cão é um animal de hábitos e sobrevive pela sua assimilação. A troca de horários das refeições e a sua divisão, a alteração dos pensos, a novidade do habitáculo e o modo de relacionamento, são factores descodificadores que rebentam qualquer valente, induzindo-o à tristeza e à rejeição de novos desafios. O abandono dos hábitos antigos não é instantâneo, alguns permanecerão por mais algum tempo, indícios de uma felicidade perdida, marcas de um passado ausente. O cão não tem perspectiva de futuro.
Sujeito a uma liderança imposta, inserido num grupo estranho e obrigado a novos hábitos, o cão vai ainda ser confrontado com novas regras, que desprezará, porque não aceita a autoridade que as sustenta. Ele, como alguns maus actores, confunde a ficção com a realidade, é um caso típico de indução, assume a personagem que lhe atribuímos e julga-se ser assim. Como essa investidura é cimentada pelas regras ou pela sua ausência, a adição de novas, é tomada como um atentado à sua individualidade. A troca de papéis obriga à mudança de vida, ao corte radical com o passado, que é exactamente aquilo que o cão não quer. Por causa disso, facilmente passará da desobediência à total inibição, do convívio reclamado ao afastamento sistemático.

O território de um cão é algo que lhe é muito caro, porque necessita dele para se sentir bem, ali exerce o seu domínio. Quando é obrigado à sua troca, a adaptação não esconde um sentimento de perca, o animal não compreende a razão da mudança e sente-se vulnerável, objecto de castigo e exilado em terra estranha. Acerca da importância deste assunto, vale a pena reparar nas reacções dos cães confinados nos canis terminais, alguns parecem suplicar, à voz calada: “ tirem-me daqui! “ A variação do território é um dos subsídios mais usados para a reeducação dos cães dominantes, quando se pretende aumentar a submissão, porque a novidade propicia a dependência. Fazer isto a um submisso é como depenar um frango em água a ferver.

Quando penso nos cães de mão-em-mão, sempre me assola a seguinte questão: Se o cão vai para melhor, porque se encobre a acção? Sentir-se-á o ex-dono culpado? É bom que se sinta, para que não repita a “proeza”, porque traiu um amigo e votou-o ao sofrimento. Poucos, arrependidos do seu acto, vão tentar reaver os cães, e para espanto seu, descobrem que eles já partiram para outras mãos. Será que estão vivos?

Apesar de denunciarmos a situação, como é nossa obrigação, estamos aqui para ajudar na integração dos cães, auxiliando os novos proprietários na execução do seu compromisso, suavizando o sofrimento animal e apostando na sua rápida reinserção, para que o novo lar seja bem-vindo e o antigo o mais rapidamente esquecido. Podem contar connosco.