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Apesar do assunto ser do conhecimento geral, não tem merecido a devida atenção, porque é prática corrente e comummente aceite. Estamos a falar daqueles cães que são entregues a outrem por conveniência do primeiro proprietário. As razões são as mais variadas, mas não escondem o desprezo e o desrespeito pelos animais, muito embora o bom-nome dos prevaricadores saia incólume. Esta prática é uma forma dissimulada de abandono que pode anteceder o abandono propriamente dito, apesar das garantias dadas por ocasião da transferência. Conheci um cão que teve seis donos, depois perdi-lhe o rasto, não sei se teve mais. Outro que foi abatido a tiro no dia seguinte à sua entrega e inúmeros que não tiveram um final feliz. Felizmente conheço alguns casos de sucesso, cães que melhoraram o seu estatuto e encontraram a felicidade junto dos novos proprietários.
Enquanto fui canicultor, ciclicamente, ouvia a seguinte opinião: “ Eu sou contra a venda de cães!” Agora que penso nisso, contraponho: todos os cães deveriam ser pagos! E digo isto porquê? Para se tentar travar o descarte dos animais junto dos menos afectivos e mais chegados à razão, para lhes alimentar um sentimento de perca face ao valor dado pelos cães. Talvez assim se evitasse a política de “toma lá um cão por qualquer palha”. Por outro lado, o valor exagerado dos cães de raça, que também é um sinal exterior de riqueza, tal qual um carro de luxo ou uma excelente caçadeira, tem contribuído para o demérito dos outros cães, relegando-os para a indiferença, como se de uma verdadeira praga se tratasse. Não lhe restando outro remédio, há quem ande empenhado em capá-los todos!
À parte das questões éticas ou morais, que não devem ser jogadas fora, importa esclarecer que a adaptação canina vai acontecer pela cedência forçada dos cães. Para além da problemática ligada à idade (quando mais velho for um cão, mais difícil é a sua adaptação), os dispensados irão ser confrontados com a substituição da liderança, com a mudança do grupo, com a alteração de hábitos, com a novidade das regras e com a troca do território. Um cão nesta situação irá sentir-se abandonado, objecto de expulsão, como um lobo escorraçado do seu grupo. E não o foi? Que mal fez ele ao seu deus: o facto de estar a mais? Quem o foi buscar?
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A resistência à nova liderança será a mesma perante o novo grupo, porque o desconhece e suspeita dele, teme as suas reacções e não entende os seus propósitos. Andará “à procura da rolha”, de um lugar no seu meio, procurando comportamentos anteriormente identificados. Se a natureza do grupo for totalmente diferente do anterior, a adaptação será penosa e demorada, baseada na desconfiança e causa de afastamento. Dividir as atenções com outros cães pode ser um “pau de dois bicos”, que tanto pode acelerar como condenar a desejada integração, só tempo o dirá. O escalonamento do líder em relação ao grupo familiar, também pode criar entraves à reinserção, já que o cão desconfia da promoção gratuita e resiste à despromoção automática.
A alteração de hábitos lançará o animal na maior confusão, sentir-se-á perdido, exactamente como os aqueles que são recambiados para os hotéis pela primeira vez. O cão é um animal de hábitos e sobrevive pela sua assimilação. A troca de horários das refeições e a sua divisão, a alteração dos pensos, a novidade do habitáculo e o modo de relacionamento, são factores descodificadores que rebentam qualquer valente, induzindo-o à tristeza e à rejeição de novos desafios. O abandono dos hábitos antigos não é instantâneo, alguns permanecerão por mais algum tempo, indícios de uma felicidade perdida, marcas de um passado ausente. O cão não tem perspectiva de futuro.
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O território de um cão é algo que lhe é muito caro, porque necessita dele para se sentir bem, ali exerce o seu domínio. Quando é obrigado à sua troca, a adaptação não esconde um sentimento de perca, o animal não compreende a razão da mudança e sente-se vulnerável, objecto de castigo e exilado em terra estranha. Acerca da importância deste assunto, vale a pena reparar nas reacções dos cães confinados nos canis terminais, alguns parecem suplicar, à voz calada: “ tirem-me daqui! “ A variação do território é um dos subsídios mais usados para a reeducação dos cães dominantes, quando se pretende aumentar a submissão, porque a novidade propicia a dependência. Fazer isto a um submisso é como depenar um frango em água a ferver.
Quando penso nos cães de mão-em-mão, sempre me assola a seguinte questão: Se o cão vai para melhor, porque se encobre a acção? Sentir-se-á o ex-dono culpado? É bom que se sinta, para que não repita a “proeza”, porque traiu um amigo e votou-o ao sofrimento. Poucos, arrependidos do seu acto, vão tentar reaver os cães, e para espanto seu, descobrem que eles já partiram para outras mãos. Será que estão vivos?
Apesar de denunciarmos a situação, como é nossa obrigação, estamos aqui para ajudar na integração dos cães, auxiliando os novos proprietários na execução do seu compromisso, suavizando o sofrimento animal e apostando na sua rápida reinserção, para que o novo lar seja bem-vindo e o antigo o mais rapidamente esquecido. Podem contar connosco.
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