segunda-feira, 14 de novembro de 2016

PIADA DA SEMANA: PÉ-DE-VENTO NA BARBEARIA

Um alentejano e um algarvio entraram na mesma barbearia. Enquanto estiveram a ser atendidos, não houve qualquer troca de palavras e o silêncio imperou, porque os barbeiros temiam que qualquer conversa descambasse em séria discussão. Quando terminaram de fazer a barba aos seus clientes, que aconteceu sensivelmente ao mesmo tempo, o barbeiro do algarvio ia pôr-lhe um pouco de aftershave, coisa que o cliente não deixou com o seguinte argumento.” Nada disso, não quero! A minha mulher vai sentir esse cheiro e pensar que eu estive numa casa de passe!” Em face disto, o barbeiro do alentejano perguntou-lhe também se desejava ou não aftershave, ao que ele respondeu: “Ponha bastante, compadre! A minha mulher nunca lá esteve, por isso não conhece o chêro!” E assim estalou o maior pé-de-vento naquela barbearia.

NA VÉSPERA LAMBEU-LHE A CARA E NO DIA SEGUINTE MANDOU-O PARA O HOSPITAL

Depois de uma noite mal dormida, por conta de um gato que se deitou na minha almofada a ronronar e que não tive coragem de escorraçar, sou interpelado na rua por um homem maduro, que ao saber-me treinador de cães e querendo ouvir a minha opinião, insiste em contar-me um episódio passado com um cão que outrora teve, próprio para guarda e que apenas queria para animal de companhia.
Segundo me fez saber, o cão era do mais dócil e meigo que havia, não vendo por isso necessidade de o treinar ou mandar treinar, apesar de ser teimoso e de só fazer aquilo que lhe apetecia. Na véspera de um fatídico dia, o cão saltou para o sofá e fartou-se de lamber-lhe a cara, enroscando-se nele como se fosse o melhor dos seus bens.
No dia seguinte, depois de lhe ter dado um comprimido de antibiótico envolto em fiambre e de lhe ter virado as costas, o cão jogou-se ao dono furiosamente, rasgando-lhe em vários pontos as costas e o braço esquerdo, ferimentos que obrigaram o homem a urgente tratamento hospitalar, acabando o cão recambiado para abate. Não obstante, passados alguns anos, decidiu comprar um cão da mesma raça para o mesmo fim, tão parecido com o anterior que parecia seu irmão, manifestando inclusive os mesmos comportamentos abusivos.
Assustado com o ocorrido no passado e temendo a sua repetição, o desfortunado homem perguntou-me se o novo cão lhe poderia fazer o mesmo e se era conveniente treiná-lo. Obrigado a pensar nos mistérios do rosário de Fátima para não ser extemporâneo e indelicado, depois de breve e retemperante pausa, apercebendo-me de imediato que o problema não residia nos cães mas na impropriedade do dono, pormenor que não lhe manifestei, disse-lhe que todos os cães carecem de algum tipo de treino e que ele torna-se obrigatório para os mais robustos e valentes para se evitarem acidentes escusados. Subordinar cães nunca foi difícil, difícil é promover donos, libertá-los da insanidade e revesti-los da liderança que alguns cães não dispensam! Para que quererá aquela alminha, cujo físico já mal responde, um cão fortemente territorial e bélico? Só porque aprecia a raça ou será que pretende livrar-se precocemente das agruras desta vida?

HÁ QUE CONSIDERAR O PESO E ALTURA

Visando a harmonia binomial, o conforto dos donos, o bem-estar canino, o seu robustecimento e uso (acção e inacção, prontidão e travamento), há que considerar a altura e peso dos dois membros que constituem um binómio, para que nenhum deles entre em esforço ou seja desaproveitado isoladamente pela impropriedade do outro. Existe de facto uma relação óptima entre o peso do dono e o do cão, devendo o primeiro pesar mais metade do peso encontrado no animal (ex: o cão pesa 38kg, o dono deverá pesar no mínimo 38+19 = 57kg), porque doutro modo o líder binomial não poderá dar um palmo de trela ao seu companheiro e dificilmente conseguirá suster os seus arranques quando instintivos ou provocados, restando-lhe apenas como hipótese, para a salvaguarda de terceiros, não largar a trela e jogar-se ao solo tal qual uma âncora (estamos a falar de cães de trabalho, acima dos 22kg e de uso convencional). É evidente que não estamos a tratar de cães previamente condicionados e de condutores com esmerada técnica, nem tão pouco do uso de acessórios que, sacrificando os animais, facilitam a sua condução e controlo, muito menos da energia excepcional que alguns “peso-mosca” demonstram, mas de gente comum e sem experiência prévia que decide iniciar e dar continuidade ao treino do seu cão, que dispensa ali andar aos trancos e barrancos (vale a pena começar o treino dos cachorros aos 4 meses de idade).
Existe também uma relação óptima entre a altura do dono e a do cão, devendo o primeiro medir mais 115cm sobre a altura ao garrote do animal (ex: o cão mede 65cm, o dono deverá medir 65 + 115 = 180cm (1.8m). É sabido que essa diferença de altura pode remeter-se somente a 100cm, particularmente se os condutores forem jovens, objecto de selecção, activos e atletas, boa forma que não atingirão sem esforço. Abaixo dos 100cm de diferença, os condutores ver-se-ão obrigados a dar mais do que uma passada para manterem a capacidade de marcha dos cães trotadores, o que inevitavelmente induzirá a maioria ao estoiro, nomeadamente nas aulas colectivas de progressão alinhada, quer elas sejam lineares ou circulares, onde o atraso binomial não pode ser consentido por prejudicar o bom andamento das classes e obrigar à perca da cadência de marcha que se deseja colectiva. Esclarece-se que o andamento natural canino que mais muscula é a marcha, mais-valia que o treino não dispensa em abono do bem-estar e capacitação dos cães, andamento que exige o acompanhamento lado-a-lado dos seus donos (existem excepções (raras) que contradizem a fábula “A RÃ QUE QUERIA SER BOI” de Jean de La Fontaine, condutores minúsculos cujas pernas parecem asas).
Se o défice de peso dificulta os condutores, a sua pouca altura acaba por prejudicar os cães, pelo que uns e outros, apesar de ninguém o querer dizer, são considerados impróprios, a menos que sejam excepcionais e donos de uma vontade que ultrapasse as suas limitações físicas, o que esporadicamente acontece para espanto dos demais (já assistimos a vários casos). Assim, os deslumbrados pelos cães gigantes, que pensam trabalhá-los e procuram quem os faça crescer artificialmente, devem vir para o treino ataviados de “botas das 7 léguas” (sempre haverá gente que intentará dar um passo maior que a perna).


UMA COISA É SER SOCIÁVEL, OUTRA COMUNITÁRIO E OUTRA AINDA TERAPEUTA

Há imagens que ficam e que nunca se esquecem, que sempre voltam à tona quando algo as relembra. Ao falar do abuso sobre os cães alheios por terceiros, lembro-me imediatamente da minha transição para a puberdade e das práticas católicas a que me sujeitaram. Nascido no seio duma família beata, era obrigado a beijar o anel do Sr. Prior e o Menino Jesus pelo Natal (na Páscoa também havia algo para beijar), actos feitos por todos em correnteza e dos quais sempre tentava escapar (por vezes conseguia). Do que eu não me escapava com facilidade era das velhas à saída da catequese, que zumbindo como varejeiras, de dentes podres ou com as placas a bater, sempre se atiravam aos miúdos para os beijar, dizendo-lhes “benza ó Deus”. Talvez por aversão a tal irmandade, sem nunca ter sido federado, tornei-me precocemente num bom atleta de velocidade. Chego a ter pena dos cães, que perante a perplexidade, inoperância e desprotecção dos seus donos, se vêem rodeados duma turba que os sacode, beija, acaricia, intenta dar-lhes de comer, pede-lhes a pata, senta-os no seu regaço e  chega até a dar-lhes ordens, apesar dos pobres bichos, entregues àqueles diabos, não terem pedido tal aparato, serem dominados pelo stress e intentarem esgueirar-se. E dono que com isto não pactue é de imediato acusado de querer ou ter um cão anti-social. É de estranhar que um País com tão poucos etólogos tenha um povo tão versado em etologia! Será por isso que não encontram trabalho?
Como não podia deixar de ser, o parecer popular está errado e confunde a necessidade de um cão ser sociável com o seu uso comunitário, que é isso exactamente aquilo que reclama. Todos os proprietários caninos, diante da actual lei sobre os cães perigosos, são obrigados à sociabilização dos seus cães, o que não implica que tenham a obrigação de transformá-los em mascotes para os beijoqueiros e restante populacho, urbe com alguma dificuldade em controlar as suas emoções, que muitas vezes não sai à rua com os seus cães mas que se diverte a aborrecer os alheios, contra a vontade dos donos numa descarada pantominice. Tornar um cão sociável é prepará-lo para viver em sociedade e condicioná-lo a obedecer às suas regras, respeitando tudo e todos sem manifestar agressividade contra ninguém, tornar-se um entre muitos sem incomodar os demais, danificar os seus bens ou perseguir outros animais. Uma coisa é certa: os donos esforçam-se por educá-los e os outros por estragá-los, tornando-os inquietos, desobedientes, abusadores, barulhentos e pedinchões, obstando assim à sua saúde e salvaguarda, atitude generalizada e abusiva que pode não esconder uma certa inveja.
Todos sabemos que as sociedades actuais estão enfermas, que as relações entre os homens são cada vez mais frias e impessoais, ora votadas à indiferença ora norteadas pelo interesse, que o homem contemporâneo perde gradualmente a família, sofre de isolamento, carece de identificação e afecto, de alguém que esteja ao seu lado nos momentos difíceis, que o faça sonhar e ir para diante, independentemente dos erros ou culpas que houvesse cometido. Sim, vivemos num mundo deprimido e quase não damos por isso ao fechar a porta da nossa casa. Na esplanada dum amigo que frequento, pelo menos 30% dos seus clientes (deverão ser mais porque nem todos se confessam) sofre de variadas doenças psíquicas que vão atenuando pelo recurso sistemático a ansiolíticos e antidepressivos associados a soníferos. Quase todos assaltam desesperadamente os cães alheios por necessidade terapêutica, na esperança que os cães possam valer-lhes, particularmente quando já desistiram dos seus conjugues e se afastaram ou foram afastados pelos filhos, também quando privados ou arredados da restante família. Os cães poderão valer-lhes, servir-lhes de terapeutas? Sem dúvida, mas não aqueles com que se cruzam, que são particulares e não se encontram preparados para esse fim, acabando eles também vítimas de vários traumas e depressões. Poderemos pedir bom senso a quem não o tem? Não. É melhor afastar os cães!

domingo, 13 de novembro de 2016

ACESSÓRIOS NECESSÁRIOS PARA O TREINO

Avisam-se os alunos do 2º Curso de Adestramento de 2016 para a necessidade de comprarem uma estaca para fixação na terra e uma trela extensível, tipo profissional, de fita, com um mínimo de 6m de comprimento. O modelo da estaca indicada é o constante na figura acima. Esta estaca é necessária para o trabalho nos diferentes ecossistemas, quando importa prender os cães nos lugares onde tal não é possível. A trela extensível, visível na foto abaixo, é um acessório indispensável à prática das disciplinas de obediência e pistagem.
Estes acessórios fazem parte do kit de adestramento comum e os seus benefícios são há muito reconhecidos, por subsidiarem e acelerarem o processo de aprendizagem canino. Por vezes não é fácil encontrá-los nas já raras lojas para animais. Contudo, é possível encomendá-los e adquiri-los hoje através da Net. Convém também adquirir um canivete de podar idêntico ao da imagem seguinte, que nas deslocações ao exterior tem-se revelado de uma utilidade extrema. 
E quando a acessórios não há mais nada a acrescentar, os esclarecimentos foram prestados e o aviso está dado.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O RANKING semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ PARA QUE FIQUE BEM CLARO!, editado em 24/04/2015
3º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
5º _ AS CADELAS E A LUTA PELA PRIMAZIA, editado em 07/11/2016
6º _ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
7º _ USA A CABEÇA MIÚDA!, editado em 10/11/2016
8º _ MAKE AMERICA GREAT AGAIN OR LET MY TRY AGAIN?, editado em 09/11/2016
9º _ QUE DIRECÇÃO TOMAR PARA O ENCONTRAR?, editado em 03/01/2013
10º _ O MEU CÃO TOIRO por Sancha Costa Lobo, editado em 10/10/2013

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte preferência:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Reino Unido, 5º França, 6º Alemanha, 7º Roménia, 8º Quénia, 9º Holanda e 10º Bélgica.

-7.692%, O FADO DAS DUAS TABELAS DE CRESCIMENTO NOS CACHORROS CPA DE PÊLO COMPRIDO

Ninguém pode afirmar com segurança, atendendo a proto-selecção efectuada no Cão de Pastor Alemão, que o pêlo comprido se encontra ligado a uma só variedade cromática, quer ela seja uniforme ou bicolor, porque desde sempre subsistiram exemplares assim em todas as variedades cromáticas, ainda que em menor número entre os negros e os lobeiros. A resistência aos CPA negros de pêlo comprido encontrou a sua justificação na menor curva de crescimento desta variedade recessiva e da possível confusão com o Pastor Belga Groenendael, que no final do Séc.XIX se encontrava mais perto do CPA que actualmente. O menor número de lobeiros com o pêlo comprido ficou a dever-se ao particular desta variedade, que normalmente altera a sua pelagem de acordo com o relógio biológico, apresentando-se mais fulva nas estações quentes e mais cinzenta nas frias. Não obstante, raro é o criador de Pastores Alemães que não aceita o desafio de criar lobeiros de pêlo comprido, que apesar de menos vistos, são de fácil obtenção e de assinalável beleza.
A introdução de exemplares de pêlo comprido em linhas de Pastor Alemão de pêlo duro, estratégia que oferece mais velocidade e melhor capacidade atlética aos cachorros, para além de lhes melhorar a apresentação e a densidade da cauda, sempre altera a relação entre a sua altura e peso, designadamente nos cachorros que nascem de pêlo comprido, que ao chegarem à idade adulta pesarão menos 7.692% que os seus iguais de pêlo duro. Esta alteração começa a notar-se logo aos 3 meses de idade, quando o seu peso já se encontra desfasado com a altura. Nestas circunstâncias é normal que um cachorro se encontre na tabela maior de crescimento em altura e na média em termos de peso. Devido ao uso generalizado e por vezes arbitrário de Pastores Alemães de pêlo comprido para a obtenção de exemplares de exposição, a esmagadora maioria destes apresenta igual défice de peso em relação aos exemplares destinados ao trabalho.
Tirar-se-ão imediatamente exemplares de pêlo comprido do beneficiamento entre um progenitor assim e outro recessivo nesse tipo de pelagem, mesmo que seja de pêlo duro. Assim, em todas as variedades cromáticas do Cão de Pastor Alemão é possível encontrar indivíduos de pelo comprido. O valor -7.692 resulta da comprovada diferença de peso entre dois cães com 65cm de altura, pesando o de pêlo duro 40kg e o de pêlo comprido 35kg (100x5:65= -7.692%). Ainda que seja possível tirar exemplares de pêlo comprido em qualquer variedade cromática do CPA, existem algumas que exigem cuidados especiais se quisermos respeitar a curva de crescimento da raça e a relação saudável entre a sua altura e envergadura. Alcançar exemplares preto-afogueados de pelo comprido não exige maiores cuidados, desde que o exemplar de pelo duro não seja demasiado leve, o que a acontecer iria perpetuar uma linha de pernaltos.
Já no que concerne à produção de exemplares de pêlo comprido negros ou fígado uniformes alguns cuidados há que respeitar, considerando o particular destas duas variedades precoces, com uma curva de crescimento mais curta e por norma com uma ossatura mais leve. O exemplar de pêlo comprido a utilizar, para além de ser recessivo naquelas cores, deverá ter uma cabeça sólida, boa ossatura, ser comprido e ter um perímetro torácico mínimo de 86cm, porque doutro modo os cachorros serão muito similares aos encontrados nas ninhadas de Groenendael, mercê da raiz atávica comum. Há também que escolher a altura certa para se fazerem as ninhadas, cujo nascimento deverá ocorrer no final do Verão, para que os cachorros apanhem pela frente as duas estações do ano frias e cresçam mais, porque se apanharem as mais quentes, bem depressa alcançarão as suas diferentes maturidades e estabilizarão o seu crescimento, o que não é nada conveniente. Nesta matéria, o que é verdade para negros e fígado é também para os CPA red fawn.
A produção CPA’s brancos de pêlo comprido é a nosso ver desnecessária e atentatória do bom-nome desta variedade cromática, porque ela é naturalmente propensa ao gigantismo e grande número dos exemplares brancos de pêlo comprido apresentam défices de peso, ossatura e envergadura anormais, ainda que costumem ser atletas de nomeada, evidenciando uma apresentação tangente à encontrada nos “grasshoppers” (gafanhotos), demasiado leve e pernalta. Para além da escolha acertada do progenitor para a produção de cachorros brancos, contrariamente ao que se exige nas restantes cores sólidas, os cachorros brancos deverão apanhar pela frente as duas estações do ano mais quentes, não dispensando em simultâneo o enriquecimento das dietas, já que o seu manto repele os raios solares e os seus benefícios. Também os cruzamentos feitos às escondidas entre a variedade branca e os exemplares de linha estética da raça é deplorável, porque põe em risco as mais-valias que o branco carrega para melhorar o Pastor Alemão, uma vez que não foi objecto das selecções desastrosas que condenam hoje a raça.
Eis-nos chegados aos lobeiros de pêlo comprido, variedade muito procurada, de rara beleza e marca de prestígio para quem a cria. A variedade lobeira comum carrega problemas advindos da proto-selecção (pouca ossatura e porte), não é das mais comilonas e exige dietas ricas, pelo que nenhum progenitor poderá ser recomendado se tiver fraco impulso ao alimento, for pernalta e leve de ossatura, o que não é raro acontecer entre os criadores que criam a variedade isoladamente (sem o contributo das outras). Um lobeiro robusto deve essa qualidade à contribuição do preto-afogueado, que naturalmente apresenta melhor cabeça, envergadura e ossatura, sendo desejável que tenha pelo menos 4/8 da sua construção nesta variedade cromática. Exceptuando o branco, o lobeiro é a variedade que apresenta uma curva de crescimento maior, o que não impede que muitos exemplares sejam pequenos e famélicos, impropriedades que ficam a dever-se à precariedade das dietas e a uma procura obsessiva por maior velocidade.
Como são raros os lobeiros de pêlo comprido, importa primeiro construir um lobeiro sólido para depois o beneficiar com um exemplar de pêlo longo, exemplar que deverá pesar no mínimo 36kg, não ser demasiado comprido ou pernalta, possuir uma crânio volumoso e ossatura forte, não ser demasiadamente estreito de peito, apresentar bons aprumos, ter um bom perímetro torácico, não ser demasiado estreito de rim e apresentar uma garupa forte e modelada, porque o cruzamento arbitral entre lobeiros e indivíduos de pêlo comprido, quando gera lobeiros com este tipo de pelagem, não traz ao mundo uma prole de encher o olho. No que diz respeito ao perfil psicológico do cão de pêlo comprido a beneficiar o lobeiro, importa que tenha bons impulsos herdados ao alimento e ao conhecimento, porque doutro modo poderá gerar cachorros famélicos e arredios. O facto de um cão ser de pêlo comprido não o torna melhor que outro de pêlo duro, sucedendo por norma o contrário.
Lobeiros de pêlo comprido são animais que exigem dietas ricas, que geralmente não dispensam a comida fresca e uma dose diária de 750g de carne na fase de crescimento, que obrigam a um acompanhamento próximo desde tenra idade e que carecem de espaço para correr e brincar. Diga-se em abono da verdade: ter um lobeiro de pêlo comprido, que normalmente é alto, com menos de 36kg aos 12 meses de idade é no mínimo deplorável.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LEONARD COHEN: ALELUIA PARA TI TAMBÉM!

Morreu hoje, com 82 anos de idade, o cantor, compositor, escritor e poeta canadiano Leonard Cohen, o homem das notas graves, cuja carreira musical durou cinco décadas. Das muitas composições que deu ao mundo, destaca-se o álbum e a canção “Hallelujah”(Aleluia), tema que o tornou mundialmente conhecido. O seu estilo inconfundível viria a influenciar outros intérpretes bem para além das fronteiras do Canadá. Descendente directo da original Tribo de Levi e de judeus ashkenazis, este cantor intimista e romântico tornou-se universal pelo carisma que emprestou aos temas que cantou. Como “Aleluia” (הַלְלוּיָהּ) em hebraico significa “louvai ao Senhor” e Cohen cantou a vida e a paixão, sentimo-nos gratos a Deus pelo uso deste cantor, que sendo simples foi grande e aplaudido por multidões. “תנוח על משכבך בשלום”, Leonard!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

USA A CABEÇA MIÚDA!

Hoje recebemos um email da Rita Nabais, uma nossa ex-aluna e arquitecta recém-formada, proprietária de um Whippet chamado Bolt com qual frequentou as nossas classes de ensino em Lisboa. O pequeno lebrel exige hoje cuidados especiais com a sua saúde devido a uma hérnia discal, que de alguma forma lhe condiciona o tipo e a carga do seu exercício diário. A Rita pretende ter outro cão e pediu-nos opinião, adiantando-nos que agora trabalha 8 horas diárias (felizarda, há quem não tenha trabalho!). É nossa opinião que não deve adquirir um segundo cão, independentemente do seu tamanho e grau de actividade, considerando o aumento dos encargos e a pouca disponibilidade, o bem-estar do cão afectado e o virtual acompanhamento do vindouro. Adquirir um segundo cão obriga à divisão da atenção pelos dois animais no mesmo período, o que pode não ser suficiente para nenhum deles, porque o primeiro reclama por amparo e o novo por cumplicidade. A somar a isto, assistir-se-á ao aumento das despesas, o que não é nada desejável para quem agora começa a trabalhar e que normalmente aufere um baixo salário.
No que aos cães diz respeito, porque o novo não será para sempre pequeno e o Bolt encontra-se diminuído, é mais do que certo que venha a dominá-lo, traição que o pequeno galgo certamente dispensará e não merecerá. Sabemos que os lebréis são naturalmente taciturnos e um pouco arredados, animais presentes que parecem ausentes. A presença de um segundo cão no seu território mais agravará o seu desapego e ostracismo, podendo induzi-lo ao stress e à infelicidade. Quando temos um cão fragilizado, a última coisa que devemos fazer é aborrecê-lo com outro! É evidente que podemos arranjar uma cadela para o acompanhar, o que de imediato resolverá os problemas hierárquicos mas que obrigará à esterilização da fêmea. Há casos em que um cão segundo ajuda na recuperação doutro já existente, mas não nestas circunstâncias. Conhecendo o Bolt como o conhecemos, entendemos que ele deve ser cada vez mais acarinhado, dispensado de amizades forçadas e ser objecto da atenção exclusiva da dona. E depois Rita, dois cães sozinhos num apartamento não fazem companhia um ao outro, sofrem ambos de ansiedade pela chegada do dono. E se mal tens tempo para um, porventura terás mais tempo para dois? Ama o cão que tens, suaviza-lhe o caminho e honra a sua lealdade, cresce com ele e muito aprenderás. Já pensaste em ser mãe? Que grande mãe darias! Felicidades. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

MERGULHAR NO PASSADO: O REGRESSO DO DEUS-CÃO

Ao abraçarmos a deidade atribuída aos cães actuais, que explicaremos e justificaremos em seguida, lembramo-nos automaticamente do esforço feito por alguns letões, quiçá pela necessidade de reforço da sua identidade, em redescobrir e restaurar os seus ritos pagãos anteriores ao cristianismo (Séc.XIII), entendido por eles como religião opressora. Já no Séc. XVIII e decididamente no XIX, século que ficou ali também conhecido como o do regresso ao neopaganismo, com base em alguns documentos e apoiados no folclore, alguns poetas e escritores decidiram ressuscitar os mitos populares, gente de um nacionalismo incontestável e de alguma forma ligada ao “Movimento Nova Letónia”, dos quais destacamos Andrejs Pumpurs, Juris Alunāns e Mikelis Krogzemis, mitologistas que por ausência de cânone, decidiram eles mesmos inventar as suas próprias divindades.
Por toda a parte e o no Mundo Ocidental com maior incidência, o cão está em vias de alcançar um estatuto quase divino, lugar que já ocupou na mitologia dos grandes impérios e civilizações da Antiguidade que nos fascinam e influenciam, apesar do seu papel actual não se confundir com o que lhe foi atribuído por egípcios, hindus, gregos, romanos, germanos, celtas e escandinavos. Com o declínio das igrejas históricas e o aumento do ateísmo, também com a perca de parâmetros e o incremento da subjectividade, parece haver um recrudescimento do paganismo e cresce o culto à volta do cão, um deus de quatro patas, doméstico e descartável, que muitos juram antropomórfico, fácil de adoptar e bem ao gosto popular, sem unanimidade de culto mas que é glorificado globalmente pelas suas múltiplas intervenções em prole da Humanidade, cada vez mais descontente com os seus governos e governantes.
Assim, cresce a dogmática ao redor do deus-cão, dizem que é essencialmente bom, que a sua maldade provém dos homens, que ninguém é tão leal como ele, que nunca abandona os seus, que se contenta com pouco, que está sempre pronto a ajudar e que tem muito parar dar. Há ainda quem diga que quanto mais conhece as pessoas, mais gosta dele, quem o use como conselheiro matrimonial e celebre o seu casamento, quem o prefira aos filhos, quem o vista ricamente e quem faça inúmeros sacrifícios por ele, quem trabalhe gratuitamente no seu resgate, quem pague fortunas para adquirir um e quem faça dele uma indústria. É rara a grande metrópole que não lhe dedica um monumento, há quem diga que tem lugar no Céu, os seus mausoléus expandem-se por toda a parte, é objecto da admiração e da veneração populares, tem leis que o protegem, fazem-no guardião das famílias e guerreiro, elogiam os seus feitos, imortalizam os seus actos no cinema e na televisão, está presente nos noticiários, suporta uma imprensa própria, é cada vez mais terapeuta e o seu número não cessa de aumentar. Será o Séc.XXI o século do cão, o do retorno a uma divindade pagã que havíamos esquecido ou agradamo-nos dele simplesmente porque o inventámos, é moldável e aumenta a nossa auto-estima? Ao amá-lo assim não estaremos a prestar culto a nós mesmos?

MAKE AMERICA GREAT AGAIN OR LET MY TRY AGAIN?

À imitação do ditador Adolf Hitler, que também foi eleito, Donald Trump ganhou as eleições presidenciais norte-americanas, tornando-se no 45º Presidente daquela grande e poderosa nação. Substancialmente menos eloquente que o seu falecido mentor austríaco, numa campanha rasgadamente emocional e indecorosa, com discursos próximos aos que edificaram o “nationalsozialismus” há 80 anos atrás, Trump seduziu o eleitorado branco, mormente o mais ignorante e pertencente ao subproletariado, com as suas impiedosas considerações xenófobas, racistas e sexistas, rebentando pelo voto os dois partidos do “establishment” norte-americano. A sua eleição ficou a dever-se mais ao desacerto do “Partido Democrático” que ao apoio recebido pelo “Republicano”, ao descartar o Senador Bernie Sanders, um judeu de Brooklyn e apoiar como candidata democrata a desgastada Srª Clinton.
Partidário duma política do tipo “America über alles” ou “America gegen alles”, Trump recebeu de imediato as felicitações dos líderes radicais da extrema-direita europeia, que aguardavam com rara ansiedade a sua eleição e que foi para eles motivo de redobrada alegria. Foi também prontamente felicitado por Vladimir Putin, líder da Federação Russa com aspirações a ditador. Deseja-se que a eleição de Trump não resulte em trampa e o mundo entre desnecessariamente em guerra mais uma vez. O Planeta tem sido governado até à presente data por ocidentais, o que não garante que amanhã não venhamos a ser governados por orientais, pois há que contar com a China, sempre à espreita de ocasião. Do governo dos ocidentais já sabemos o que esperar, da governação chinesa nem queremos imaginar. Se Trump reencarna o espírito do homem nascido em Braunau am Inn, sem grande dificuldade levantarão os chineses outro Gengis Khan. Dispensamos uns e outros – o Mundo necessita de paz!

DONALD AT HIS BEST

O TEXTO QUE SE SEGUE É UMA PIADA. Recém-empossado no cargo, Donald Trump toma conhecimento de um violento terramoto que deixa o Iraque, o Irão e a Síria totalmente destruídos, situação que deixa o mundo em choque e que leva algumas nações a prestar auxílio àqueles desafortunados países muçulmanos. A ONU manda soldados para ajudar a manter a paz, a Arábia Saudita envia petróleo, os países latino-americanos enviam roupas, a Alemanha alimentos, o Canadá envia equipas médicas e medicamentos, o Reino Unido engenheiros, os países asiáticos enviam trabalhadores para ajudar na reconstrução, a Austrália e a Nova Zelândia doam gado e sementes. Donald, depois de breve pensar sobre o auxílio a prestar, decide repovoar aqueles países, enviando para lá os 6 milhões de muçulmanos que vivem nos Estados Unidos.

PIADA DA SEMANA: UMA TESTEMUNHA ÀS DIREITAS

Durante um julgamento numa pequena cidade, o advogado de acusação chamou a sua primeira testemunha, uma senhora de idade avançada a quem perguntou se o conhecia, merecendo dela a seguinte resposta: “Claro que te conheço. Conheço-te desde pequenino e, francamente, desiludiste-me. Mentes descaradamente, enganas a tua mulher, manipulas as pessoas e falas mal delas pelas costas. Julgas que és uma grande coisa mas eu nem para limpar fossas te contratava. Claro que te conheço, e bem!” Embasbacado pela surpresa, o advogado apontou para o seu colega da defesa e perguntou à velhinha se também o conhecia, ouvindo da boca dela a seguinte sentença: “Claro que sim. Também o conheço desde a infância. É frouxo, tem problemas com a bebida, não consegue ter uma relação normal com ninguém e como advogado é um dos piores que já vi. Também sei que engana a mulher com três mulheres diferentes, uma das quais, curiosamente, é a tua mulher. Sim, conheço-o. Claro que sim”.
Com os advogados em estado de choque, o juiz chamou-os à sua presença para lhes dar uma palavrinha em particular e disse-lhes em voz baixa: “Se algum dos dois perguntar à velha se me conhece, juro que vão os dois presos!”

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

AS CADELAS E A LUTA PELA PRIMAZIA

Por estranho que pareça, não estamos a falar de animais castrados, é muito mais fácil sociabilizar cães entre si do que cadelas, porque as fêmeas são por norma mais impiedosas umas com as outras. Por causa disso, temendo que o seu guardião venha a ser ludibriado por uma fêmea com o cio, há quem opte e bem por um casal de cães para guardar os seus bens, já que a cadela residente bem depressa escorraçará a intrusa, incentivando o macho a seguir-lhe os propósitos. Na constituição de uma matilha funcional de ambos os sexos, a haver problemas de sociabilização, eles certamente eclodirão entre as fêmeas. Quando duas fêmeas entram em cio em datas diferentes, a que tardar em alcançá-lo, mesmo que até ali tenha sido subordinada pela outra, sentindo-a mais vulnerável, procurará inverter a situação e alcançar a primazia.
Se numa casa já houver uma cadela residente e o seu dono optar por adoptar ou hospedar outra já adulta, a primeira tudo fará para “meter na ordem” a recém-chegada, que ao sentir-se também aconchegada e sendo rija, breve ripostará. Em casos como estes exige-se que o dono faça saber quem ali manda, não permitindo a nenhuma delas o despoletar de picardias. Se os machos lutam pela conquista de novos territórios, as fêmeas lutam desalmadamente pela defesa do território que lhes foi atribuído, resistindo à sua divisão com outras. Naturalmente submissas a quem lhes provém o sustento, lutam também pela atenção e carinho dos donos, pormenor geralmente entendido como uma manifestação de ciúme.
Uma cadela mais nova quando confrontada com uma mais velha e frágil, sendo ambas territoriais, não hesitará em tomar o seu lugar, pelo que importa proteger a mais idosa, que vendo-se assim acossada, cada vez mais se afastará dos seus donos temendo as represálias da sua rival. Com mais facilidade se sociabilizarão cães com cadelas, duas cadelas castradas entre si e outras de raça diferente. Sim, as cadelas lutam pela predilecção dos donos e pelo domínio sobre as outras.

NÃO LHES GASTEM OS NOMES!

Se os cães falassem mandariam calar muitos donos, os mesmos que sem necessidade apelam ao seu nome por tudo e por nada. Mas como não falam, é comum fazerem-lhes “orelhas moucas” e gorar os seus intentos. Nenhum cão necessita de ser constantemente chamado pelo nome para executar determinada figura ou evolução, pois para isso assimilou o código, o que dispensa de imediato esse chamamento. O recurso sistemático ao nome do cão, quando não se torna um vício, demonstra uma liderança imprópria e/ou um condicionamento ineficaz, já que os comandos são suficientes por si mesmos para as acções requeridas e dispensam o abuso neste vocativo. Se entremearmos o nome do cão com as ordens, é mais do que certo que elas acontecerão com maior delonga pela quebra de atenção provocada, pretexto que os cães manhosos aproveitam para o seu incumprimento. A manha é de origem ambiental e são os donos que a provocam nos cães, ensinando-os a ser assim pelo desapego aos procedimentos. Quem gasta os nomes cães acaba por desaproveitá-los e destruir a condição exclusiva da obediência: o seu cumprimento pronto e imediato. Não lhes gastem os nomes, dominem e persistam nos comandos.

FÊMEAS CPA: TREINO E POSTURA

Quando se treina uma cadela Pastora Alemã e importa mantê-la com as orelhas erectas e em porte majestoso, é de todo conveniente que se dê primazia às acções que lhe solicitam a atenção, já que o seu impulso à defesa tende a ocupar o fraco impulso à luta de que é portadora, porque doutro modo depressa abaterá as orelhas, mímica própria de quem é submisso e acusa o stress, postura pouco intimidatória que denuncia o particular do seu género. Esta postura indesejável resulta geralmente das quebras de estímulo para a obtenção dos comandos básicos de obediência, quando, por exemplo, se esconde o brinquedo do animal e lhe é exigido o cumprimento duma figura, acusando a cadela o reforço da correcção pela ocultação do brinquedo e pela postura corporal do seu treinador, peso que somado leva à humilhação. Também as festas exageradas, massificadas em abraços constantes, induzem à mesma postura, conforme já se comprovou cientificamente. Por outro lado, as cadelas demasiado protegidas e a coabitar com os seus donos, adquirem a mesma mímica pela inexistência de um serviço protector que as obrigue a um estado de alerta.
Para resolver o problema importa tirar partido dos comandos de obediência à distância, designadamente da ordem de “quieto” com o animal de pé e com os donos entregues aos seus afazeres, o que dotará a cadela de maior autonomia pelo reforço de carácter e a fará estar atenta a tudo ao seu redor, mercê da observação a que se vê obrigada. Ao invés de constantemente a andarmos a afagar, devemos esperar que seja ela a solicitar os nossos mimos e não lhe endereçar diminutivos labiais que são próprios para os cães mais frágeis, tal qual debicar de periquitos. Esta postura contraída pode também resultar da variação na entoação dos comandos de obediência, que deverão ser dados numa dicção calma e segundo a sua divisão silábica, porque só assim poderemos evitar a contrariedade que gera o stress. Para além da atribuição de novas missões e também por causa delas, convém que as cadelas sejam convidadas para a captura e para o exercício da pistagem, exercícios que deverão ter lugar preferencialmente à noite pelo reforço de sons e odores que esta oferece, obrigando-as por isso a ser mais cuidadosas e menos relaxadas, até porque só anda de orelhas abatidas quem não encontra razão para as arrebitar. 

THEY LIVE AND DIE BY THE CODE

O Código é um conjunto de comandos verbais, mímicos e sonoros a instalar nos cães, que ratifica, altera, potencia e preserva comportamentos, visando a sua convivência e uso. Produto de condicionamento prévio, primeiro assente nos afectos e na coabitação, ele possibilita a comunicação interespécies para a unidade binomial homem-cão e tem como consequência/prémio a mútua cumplicidade, também facilitada pelo carácter gregário canino que não dispensa a liderança. A riqueza de um código, manifesta na maior apreensão de ordens, sempre dependerá da herança genética e do quadro experimental de cada cão, do seu impulso herdado ao conhecimento e da qualidade dos seus mestres, mestria que deverá aproveitar os seus ciclos de maior plasticidade física e cognitiva.
Não existe um código universal para todos os cães, tanto em apresentação como em conteúdo, porque tratamos com indivíduos e cada serviço pode exigir comandos específicos para a prontidão nas díspares acções. A natureza e o número dos comandos a instalar encontram-se cativos ao perfil psicológico de cada cão, porque só ele garantirá a sólida investidura. O código instalado pode compreender, consoante os casos, comandos de salvaguarda, terapêuticos e de auxílio; direccionais, de acção e inacção; sensoriais, lúdicos e normativos; de ocultação e exploração; invasivos e evasivos; de transporte, demolição, defensivos e ofensivos, todos com maior ou menor duração que possibilitam o controlo dos cães à distância e com os donos ausentes (autonomia condicionada). A resposta ao código melhora consideravelmente com o treino e o tempo, factores que contribuem para o automatismo dos comandos já instalados e que possibilitam o alcance de novos.
Todo e qualquer ensino canino assenta sobre um código, por mais rudimentar que seja, porque doutro modo jamais seríamos entendidos pelos cães e poderíamos usá-los. Mesmo não sendo alvo de qualquer ensino, os cães aprendem por si mesmos códigos de conduta, forçados pela dependência que lhes garante a sobrevivência, através da observação do mundo que os rodeia e também forçados pelos instintos. O sucesso e o insucesso que experimentam no seu dia-a-dia transformam-se-lhes em lições de vida. Os diferentes grupos somáticos caninos, as raças que os constituem, o género e o particular dos indivíduos, apresentam diferentes capacidades ou graus de aprendizagem. Porém, essa capacidade poderá ser melhorada pelo aproveitamento dos seus ciclos infantis, através duma experiência variada e rica e pelo exemplo doutros cães mais capacitados e versáteis, que uma vez observados, desafiarão os menos aptos e levá-los-ão a um rendimento superior, porque todos os cães são competitivos. No adestramento, o que melhor se presta a este propósito são as aulas colectivas constituídas por classes heterogéneas, onde uns e outros se fazem presentes, ninguém fica para trás e todos saem a ganhar.
Como não existe código sem condicionamento e o primeiro carece de ser instalado sem atrasos, confusão ou atropelos, cada figura ou acção a sugerir deverá obedecer sempre à mesma ordem, independentemente da linguagem a utilizar, se verbal, corporal, sonora ou composta pelas três, porque os cães não têm um dicionário de significados e não devemos adquirir uma postura contrária à ordem que lhes solicitamos verbalmente. O uso de diferentes comandos verbais para a mesma ordem, erro bastante comum que causa atrasos e compromete a aquisição de novos comandos, ao preencher o seu lugar, deverá ser de imediato eliminado pelo mal que causa, o que não dispensa a chamada de atenção aos condutores em erro.
Sem a memória associativa canina seria praticamente impossível estabelecer um código de linguagem com os cães e encaminhá-los para um fim útil. Existe um triplo caminho para a atingir: pela memória mecânica, pela afectiva ou pelo concurso das duas (qualquer das opções apresenta vantagens e desvantagens). Se optarmos pela codificação somente através da memória mecânica, pela simulação da lei do mais forte e a partir do sentimento gregário canino, o código instaurado transformar-se-á em modo de vida e os cães viverão em função da liderança, o que irá dificultar a sua sobrevivência após o desaparecimento do seu líder, porque não aceitarão de bom grado obedecer a terceiros e muito menos às suas ordens, porquanto se tornaram impolutos e incorruptíveis, o que irá dificultar de sobremaneira a sua reeducação (descodificação), que poderá não acontecer e condená-los à míngua e à morte, facto há muito comprovado nalguns cães de guerra e de guarda.
Se optarmos exclusivamente pela memória afectiva como fundamento do código, até o mais letal dos comandos instalados será de fácil eliminação, bastando para isso trocar-lhes os alvos e recompensá-los pelo acerto, estratégia que poderá exigir alguma delonga. Apesar da codificação pela memória afectiva ser mais célere, o cumprimento das ordens tende a ser mais demorado e dependente de circunstâncias particulares, porque é maioritariamente alcançada pela euforia e não pela concentração. Se a codificação obtida pela memória mecânica coloca os cães na estrita dependência dos donos, a alcançada pela memória afectiva é accionada pelas circunstâncias já conhecidas que são do agrado dos animais, o que tanto possibilita o seu uso por terceiros como o seu roubo. Os cães destinados ao mundo do espectáculo (cinema e televisão), quando ensinados assim e perante situações do seu conhecimento, bem depressa assumirão os seus papéis por não lhe provocarem qualquer estranheza, isto se os guionistas e guiões considerarem a sua experiência prévia.
A junção da memória mecânica à associativa para a construção dum código, onde o emitente é em simultâneo um igual e um líder, induz os cães à procura do primeiro e ao desprezo pelo segundo, aceitando o amigo e resistindo ao líder, usando de várias manhas para retardarem o cumprimento das ordens, quer ensurdecendo-se quer fazendo-se desentendidos. Os cães mais rijos desviarão o olhar perante as ordens, fingirão estar doentes, lamberão o focinho ou estalarão os dentes, com se não as tivessem ouvido (a manha não tem uma origem genética). É sabido que a maioria dos donos não prima pela liderança, teme a confrontação e não se encontra preparada para regrar cães dominantes, geralmente entendidos como rufias por via de excepcionais impulsos à luta e ao poder. Perante esta situação, alguns deles optam pelo misto das memórias para o estabelecimento do código, na esperança de contrariarem a carga genética dos seus cães. Apesar de ganharem a sua amizade, dificilmente conseguirão evitar os seus ataques instintivos, que acontecerão com menor frequência mas que serão cada vez mais violentos e inesperados.
Um cão muito-dominante exige um dono inflexível e um condicionamento mecânico incontestável porque carece de travamento, um submisso precisa do amparo que o torna audacioso e apto para as tarefas ao seu alcance, não dispensando por isso a memória afectiva que lhe transmite a segurança pela prévia experiência feliz. Se uns necessitam de regra, os outros necessitam de alento. Alentar um rufia é dar azo ao disparate e subjugar um submisso é convertê-lo numa estátua de sal, inibi-lo definitivamente. Existem raças e indivíduos que não dispensam o concurso da memória mecânica na instalação dos códigos e outros que só os alcançarão pelo contributo exclusivo da memória afectiva (cada cão é um caso).
A blindagem ou protecção dum código germina na relação óptima entre tratamento e treino, eleva-se na estrita dependência do dono e firma-se no rigor do treino, que opera o desprezo pela contra-ordem e que liberta os cães do suborno. E quando assim é, eles vivem e morrem pelo código. Ao iniciarmos o treino de um cão há que saber para que o queremos, se para nos valer ou para valer aos outros, se para uso exclusivo ou para uso comunitário. Conhecedores das múltiplas mais-valias caninas e apostados no bom-nome dos cães, sem dificuldade continuamos a preferir a segunda hipótese, sabendo que nem todos os cães se prestam para isso e que ter um cão só para nós, não implica em termos um cão contra os outros.