quinta-feira, 17 de março de 2016

NÓS POR CÁ: O HOMEM ABSTEVE-SE PORQUÊ?

Enquanto não se implementar aqui uma solução “à finlandesa”, a política pouco nos importa, apesar dos políticos nos causarem sérios amargos de boca, o que não nos pode deixar totalmente indiferentes, porque nos encontramos cativos às suas “magnânimas” decisões. No relógio de cuco que é a “Sic Notícias”, que repete de hora a hora sensivelmente as mesmas, ouvimos por casualidade os resultados da votação do último Orçamento do Estado. E como as novidades no Hemiciclo de S. Bento são tão raras, pelo menos as boas, interessou-nos saber qual a posição do novo e único deputado do PAN (Pessoas, Animais e Natureza) em relação ao dito orçamento. Ficámos a saber que ele não votou a favor nem contra, absteve-se simplesmente, decisão que nos “encucou”, valendo-nos de um verbo muito usado pelos nossos irmãos do outro lado do Atlântico, até porque nutrimos alguma simpatia pelas ideias daquele partido, como não podia deixar de ser, apesar de julgarmos algumas delas utópicas. Será que alguém lhe perguntou porque se absteve? Teria feito alguma declaração? Se sim, não chegou ao nosso conhecimento nem mereceu o devido destaque nas “notícias papagaio”.
Somos naturalmente resistentes às opiniões dos engenheiros, que nos perdoem os nossos amigos desta profissão, pois bem sabemos que em todas elas existem pessoas profundamente diferentes, porque se há gente que se diz saber de tudo, os engenheiros ocupam tradicionalmente o primeiro lugar no pódio, apesar de grande número de engenheiros civis infelizmente se encontrar hoje sem trabalho devido à crise no sector, permanecendo acantonados em casa, sem horas para se deitar e levantar, normalmente ataviados de roupão e de pantufas, sentados num sofá com um jornal pela frente. Como o nosso deputado é também Engenheiro de Construção Civil e especializado na recuperação do património arquitectónico e artístico, ainda mais nos interessou saber quais as causas que o levaram à abstenção.
Uma vez que o seu peso político não conta para a aritmética das decisões, pelo menos enquanto estiver só, pergunta-se: será que o fez para se poder sentar à mesa e dialogar com todos os partidos? Teria entendido que o Orçamento do Estado não era uma causa suficiente para se pronunciar, para não se situar nem à esquerda nem à direita? Temeria que a sua tomada de posição comprometesse de alguma forma a paz social e a estabilidade política? Entenderia que tanto a aprovação como o chumbo desse Orçamento em nada influiria na vida e bem-estar dos portugueses? Ele lá saberá, nós não sabemos! Certo é que vamos acompanhar de perto as suas propostas, intervenções e tomadas de posição, nomeadamente as relativas aos animais e em particular as que aos cães dirão respeito.   

NÃO GOSTO DE BATER NO CEGUINHO, MUITO MENOS NO COXINHO, MAS…

Desde a década de 80 que temos denunciado os males infligidos ao Cão de Pastor Alemão, tanto estruturais quanto psicológicos, e não nos calaremos até que a situação se altere, doa a quem doer, porque a raça está moribunda, em profunda agonia e a morrer para o trabalho, flagelos que não aceitamos pelo amor que nos liga aos cães em geral e pela predilecção que mantemos pela raça, outrora muito admirada e hoje gradualmente desleixada, por se encontrar doente, frágil e ter perdido a sua tradicional aptidão, achaques que vão contra os propósitos da sua formação e que só envergonham quem a desrespeitou, malbaratou e a transformou na abominação que hoje vemos, criadores que impropriamente se apossaram duma herança que nunca lhes pertenceu e que a derretem nas passarelas para cúmulo das suas vaidades.
Ainda que criadores, adestradores e juízes pactuem com este descalabro, por manifesta conveniência que não esconde um profundo desrespeito pelo bem-estar deste cão de trabalho, a opinião pública, hoje mais esclarecida pelo empenho dos media, manifesta-se e insurge-se contra as actuais linhas de criação e seus mentores por toda a parte, como aconteceu recentemente em Inglaterra no último Sábado, no famoso concurso canino “Crufts”, onde a cadela CPA “Cruaghaire Catoria” (Tori para os donos), com 3 anos de idade, ganhou o primeiro lugar na categoria de “Best of Breed” (Melhor da Raça), título que é atribuído ao cão tido como melhor exemplar representativo da sua raça num show de conformação. Ao que se consta e disso faz eco toda a imprensa britânica que tem uma secção dedicada aos animais, a dita cadela desfilou toda desengonçada e periclitante, evidenciando uma marcha dolorosa, desequilibrada, empinada e desenxabida, por sobrecarregar em demasia os seus membros traseiros, obrigados a suportar o seu peso corporal por alteração do seu ponto de equilíbrio. O desagrado da opinião pública que transpirou e se estendeu aos jornais, deixou a proprietária da cadela abatida num dia em que tinha tudo para ficar feliz. Chocada com a oposição, a Sr.ª Susan Cuthbert apressou-se a apresentar um atestado médico comprovativo do bom estado de saúde do animal, esforço inglório que não conseguiu desmentir o que toda a gente viu.
Na Capital, lá para as bandas de Belém, em frente aos Jerónimos e à espera de turistas, atrelado a uma carroça, costuma ver-se ali parado um cavalo belga de tiro (julgo que se chama Flamy), que junta ao atavio dos seus arreios uma bolsa de oleado para recolha dos seus dejectos, pormenor que se louva diante da higiene e saúde públicas. Num dia em que não posso precisar, ao passar perto daquele cavalo, caminhando eu com outro adestrador que muito considero, pessoa frontal e com certa graça, ouvi dele o seguinte comentário: “ Sabe o que é que me faz lembrar este cavalo? Os pastores alemães actuais, porque eles também evoluem como se estivessem a borrar prá saquinha, ainda que não a tenham!”. Humor à parte, caso a razão não surta efeito, espera-se que o crescente revivalismo alemão, ao invés de enveredar pelos erros expansionistas e xenófobos do passado, conserte e devolva ao Pastor Alemão a qualidade de outrora, produto doméstico indissociável do esmero germânico.
E, enquanto isso não acontecer, prós “borra na saquinha”, dizemos: não, obrigado! Daqui exortamos os novos criadores da raça a procurarem reprodutores livres dos exageros visíveis nos cães de exposição, flâmulas de fogo-fátuo, indivíduos de méritos por comprovar e filhos ilegítimos duma grandeza que perderam. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

PERDIDO POR UM, PERDIDO POR MIL

“Perdido por um, perdido por mil” é uma expressão simplificada do provérbio popular “perdido por cem, perdido por mil”, uma exclamação que se usa quando um mal está feito e outro nada agrava pelo irremediável da situação, um desabafo de impotência que usamos para não nos culpabilizarmos, como se fossemos ultrapassados pelas situações, vítimas delas, doutros ou da nossa natureza, até porque errar é humano! Esta forma de auto-consolo, típica de quem se conforma, reincide nos erros e não procura alteração é fatal e imprópria no adestramento, porque os cães necessitam de mestres, seguem-nos cegamente e aprendem pela experiência e pelo condicionamento, possuindo inclusive uma memória mecânica que os leva a reproduzir automaticamente os exercícios ou figuras que apreenderam por repetição, o que obriga os adestradores ao acerto e à procura de soluções. 
Quando “perdido por um, perdido por mil” serve para justificar um erro, nada pior do que acrescentar-lhe outro, procedimento próprio de quem perde as estribeiras com facilidade e é parco de engenho, deméritos que atentam contra a constância e progresso exigidos pelo treino canino. E como o provérbio é em si mesmo hedonista, importa esclarecer que um adestrador veio para servir. Ser um adestrador capaz não dispensa o auto-controlo que induz à solução adequada, o estudo pormenorizado das situações que possibilita o encontro das melhores respostas, tarefas que não dispensam o aperfeiçoamento pessoal e o desejo de ir mais além. Jamais deverá ser um homem de cabeça perdida mas alguém que a mantém no lugar. Como dizia um velho prático desta arte: “isto de ensinar cães dá cabo da cabeça a qualquer um!”.

O CÃO PERNICIOSO

Cresce o número de cães nocivos e mal adaptados, os chamados “perniciosos”, animais que acusam em demasia o stresse, delapidam o património dos seus donos, não cessam de fazer disparates e que numa fase mais adiantada podem chegar ao ponto de se automutilarem. Normalmente ganem em demasia, parecem esquecer facilmente as reprimendas e não cessam de destruir, retomando às acções nocivas sempre que lhes dá na gana. Tendem a rebocar os donos quando atrelados, resistem à assimilação de regras e à aquisição de novas rotinas, ladrando desnecessariamente a tudo e a todos, rebelando-se sofridamente contra o isolamento e confinamento, o que tem causado dificuldades e delongas na sua adaptação doméstica. O fenómeno está a tornar-se comum entre lupinos e vulpinos, mesmo em raças que nunca manifestaram esse comportamento por evidente territorialidade, apesar de ser também observado, como sempre foi, em bracóides e cães de aponte, patologia instintiva que vem sendo combatida pela administração de ansiolíticos, antidepressivos e pela castração.
Parece evidente que esta patologia resulta de razões genéticas e é decorrente das actuais políticas de selecção presentes nas várias raças, praticamente indistintas nos diferentes grupos somáticos caninos, o que tem generalizado este tipo de comportamento. Se porventura ele estiver também associado a razões ambientais, tal se ficará a dever ou será reforçado pelo viver urbano da maioria dos proprietários caninos. De qualquer modo, como não podemos estar a produzir cães para drogá-los ou castrá-los, o que é um contra-senso e uma clara afronta aos direitos do animal, importa escalpelar o problema, suavizar os seus efeitos nos afectados e proceder à sua eliminação nas gerações futuras.
Será que excessiva endogamia, agora reforçada pela crise que assola toda a CEE, o Mundo Ocidental e a economia mundial, acrescentou às insuficiências físicas caninas problemas psicológicos e cognitivos capazes de dificultar a integração e viver social dos cães? Que critérios de selecção poderão concorrer directamente para a implosão deste problema aparentemente epidémico? Todos sabemos que por detrás de todos os grandes conflitos mundiais sobressaem razões económicas que os sustentam, que o vil metal condiciona tudo e todos, inclusive a canicultura e as actividades a ela ligadas. Ora, na actual conjectura económica, caracterizada por várias políticas de austeridade, a canicultura sofre horrores porque a vida não está para graças e a oferta é superior à procura, realidade que lhe é ingrata, mais a empobrece e que lhe impede a aquisição de bons reprodutores, vendo-se assim remetida à prata da casa e a recorrer à consanguinidade, opção forçada de danosas consequências para o futuro imediato dos cães.
À parte disto e como causa principal do problema, agiganta-se a exagerada tipificação das raças, preocupação maioritariamente estética que tem vindo a desconsiderar o bem-estar dos cães e a sua utilidade, através de critérios selectivos que têm desequilibrado a sã unidade dos impulsos herdados caninos, pela ávida potenciação de uns e o enfraquecimento de outros. E se há um impulso que tem vindo sucessivamente a ser desconsiderado, ele é o relativo ao do conhecimento, mais-valia de origem genética que induz os cães à curiosidade e ao querer compreender, essencial à sua adaptação, bem-estar social, cumplicidade e uso, o que tem tido também como consequência um maior recrutamento de mestiços e rafeiros prós diferentes serviços destinados aos cães.
Em detrimento da procura do impulso ao conhecimento, tem-se vindo a potenciar exageradamente os impulsos ao movimento, à luta, à defesa e ao poder nos lupinos e vulpinos, o que tem vindo a dificultar a sua coabitação, controlo e uso consensual, porque a exclusividade destes impulsos tende a remeter os cães para os instintos, tornando-os quase indistintos dos bracos, pese embora a diferença de alvos.
Para suavizar os efeitos deste descalabro genético nos cães afectados, torna-se imperativo ser paciente e atribuir-lhes trabalho, sair com eles à rua o maior número de vezes possível, não os isolar e dar-lhes espaço, trabalhá-los debaixo de recompensa e não os confrontar, porque não desarmam debaixo de pressão, uma vez que apresentam características silvestres e suicidas por reforço dos instintos. Como são por norma meigos, carentes de carinho e dados a euforias, há que suborná-los como manobra de estímulo e subsídio para a dependência, porque doutro modo dificilmente largarão as suas acções automáticas e prescindirão da sua autonomia desastrosa. O seu baixo poder de concentração, caracterizado pela desatenção constante, impede-os de assimilar prontamente os exercícios mais simples propostos, dificuldade só perecível por curtas e persistentes sessões de treino, que não dispensam os usuais exercícios predatórios para o que foram criados.
Como se depreende, a eliminação destes cães perniciosos passa pela alteração das políticas de selecção, que doravante deverão ter em maior consideração o impulso herdado ao conhecimento, impulso que sempre estabeleceu e estabelecerá a diferença gradativa dos cães em termos de qualidade e aptidão. Quem não tem tempo para estes cães vai passá-lo a aturar os seus múltiplos disparates, pelo que não são recomendáveis para os demasiado exigentes, inexperientes, indisponíveis, impacientes ou coléricos. São cães como estes que nos fazem sentir saudades dos cães do passado. Mas como o mundo é feito de mudança e os homens aprendem com os seus erros, resta-nos a esperança que estes problemas não se repitam no futuro.

SETE ANOS É MUITO TEMPO!

Este blogue completa hoje sete anos de existência, tempo que aproveitámos para ajudar as pessoas a conhecerem-se a si mesmas para a melhor compreenderem os cães, propósito antrozoológico que nunca abandonámos, editando debaixo dessa preocupação 1818 artigos, estendendo aos nossos leitores o mundo do adestramento nu e cru, gratuitamente, sem sofismas e sem obedecer a tutelas. Trabalho que nos obrigou a acompanhar a par e passo todas as novidades relativas à cinotecnia e os avanços científicos que acorreram em seu auxílio. Tratámos múltiplos assuntos sobre cães e dissipámos dúvidas, respondemos a 3028 emails dos 18000 recebidos e recebemos 200 comentários, correspondência que enriqueceu a nossa experiência e que nos deu a conhecer canicultores e treinadores de todas as partes do mundo.
Demos a conhecer raças pouco conhecidas, variedades ignoradas, aconselhámos criadores e proprietários caninos, recomendámos ninhadas e ajudámos os interessados na escolha de cachorros. Ainda que não fosse uma das nossas preocupações iniciais, acabámos por estabelecer contacto com um número razoável de emigrantes portugueses, que cada vez são mais, gente que acabou por suavizar as saudades do solo pátrio pela leitura desta publicação. Internamente, através de reflexão, valemos àqueles que formámos e que nos seguiram as pisadas, convidando-os a aprofundar o seu conhecimento e a melhorar as suas lições e prestações, também a outros, porque nunca discriminámos ninguém, a existência deste blogue prova-o.
Através desta publicação dividimos experiências, congregámos alunos de diferentes gerações e alcançámos novos. Contámos episódios reais ocorridos com binómios, dividimos notícias, lançámos alertas, denunciámos erros comuns, apontámos as soluções mais simples e tratámos de diferentes linguagens interespécies. Analisámos vários métodos de ensino, debruçámo-nos sobre a instalação doméstica dos cães, explicámos o particular dos seus estádios etários, denunciámos os problemas causados pela consanguinidade e endogamia nas raças actuais, exortámos para a necessidade da sociabilização canina; indicámos dietas, ensinámos hábitos de higiene, enfocámos a importância da biomecânica no lobo familiar para o seu uso consensual, recomendámos material e apelámos à prática da medicina preventiva.
 Dedicámos muitos dos nossos artigos ao cão da nossa eleição: ao Cão de Pastor Alemão, companheiro fiel que sempre nos acompanhou e valeu, um amigo que não nos abandonou nas agruras que passámos. Explicámos as suas diferentes linhas e pressupostos de selecção, desnudámos o seu panorama histórico, denunciámos as suas fraquezas e adiantámos as suas mais-valias. Debruçámo-nos afincadamente sobre o seu treino, demos especial enfoque às variedades recessivas nele presentes, aconselhámos beneficiamentos, valemos a ninhadas, evidenciámos os problemas dos cães actuais, adiantámos tabelas de crescimento e exaltámos a sua versatilidade. Condenámos a exclusão da variedade branca da raça, realçámos a importância da variedade negra e dedicámos artigos a cada uma delas, nomeadamente à lobeira a quem a raça tanto deve. Poucos escreveram tanto sobre este cão!
Tratámos da relação óptima entre tratamento e treino, da recuperação do sentimento territorial canino, insurgimo-nos contra a castração arbitrária, desmistificámos raças, adiantámos um sem número de procedimentos pedagógicos, falámos do escalonamento da matilha escolar, reclamámos da urgência e necessidade das pistas tácticas, desnudámos a mímica e os rituais caninos, abordámos a incompatibilidade somática e reconhecemos a disciplina de obediência como embrião das outras. Explicámos comportamentos, clarificámos as atribuições dos cães destinados à protecção civil, analisámos o actual desempenho dos binómios policiais e militares, adiantámos as disposições legais em vigor, delongámo-nos sobre a disciplina de guarda, dizendo que a prontidão dos ataques deve ser igual à sua cessação, dedicámos vários artigos à endurance canina e a outras modalidades binomiais, tanto civis como militares, adiantando que a sorte nos obstáculos joga-se na sua entrada. Abordámos a pistagem (disciplina que mais agrada aos cães), alertámos para os perigos de envenenamento e ensinámos protocolos para que tal não aconteça, tudo em abono da salvaguarda canina que, a nosso ver, deve ser o primeiro objectivo do adestramento.
Insistimos na urgência dos cães em se acostumarem aos fenómenos naturais, em se familiarizarem com os disparos e a toda a sorte ruídos urbanos, de se adaptarem aos diferentes ecossistemas e a tirar deles os respectivos benefícios. Enfatizámos o hábito da caminhada diária de uma milha para o bem-estar dos animais, analisámos detalhadamente a sua morfologia e recomendámos exercícios próprios para o seu robustecimento, ensinámos estratégias para fortalecer o seu carácter, desnudámos procedimentos da reeducação canina (descodificação) e insistimos na prática da natação, porque infelizmente nem todos os cães sabem nadar.
Mas foi aos homens, enquanto líderes, condutores e responsáveis pelos seus cães, que dedicámos maior cuidado e atenção, manifestando-lhes, entre outras coisas, a importância do seu impacto visual, respiração e entoação de comandos no desempenho laboral dos seus companheiros, incentivando-os em simultâneo ao exercício de uma liderança activa e profícua, a treinarem os seus cães para melhor os conhecerem. Debaixo deste propósito adiantámos e explicámos as figuras básicas da obediência, os modos para o seu alcance, os erros mais comuns e as correcções necessárias, sublinhando que um cão não tem mais nem menos obediência: ou têm-na ou não a tem! Dissemos-lhes que a coluna vertebral do adestramento é composta por dois comandos: “junto” e “aqui”, e que a assimilação dos restantes sobre eles assenta. Destacámos a importância da recompensa e dos momentos de supercompensação como os estímulos mais indicados para a resposta afirmativa canina, alertámos para a disponibilidade que a aquisição de um cão exige e respondemos a todas as questões, problemas e desaguisados que nos foram solicitados, visando a excelente coabitação doméstica e a inserção harmoniosa dos cães na sociedade.
Fizemos aqui uma pequena síntese do que transmitimos ao longo destes anos, que também aproveitámos para montar 3 pistas tácticas. Depois do que dissemos e fizemos, sobra-nos um sentimento de dever cumprido e a obrigação de agradecermos a todos aqueles que colaboraram connosco, homens e mulheres comuns cujo anonimato não esconde o muito que nos deram. Sete anos é muito tempo, tanto que perdemos amigos e binómios que não tornaremos a ver. Resta-nos como consolo e força para continuar, ver os jovens que ajudámos a crescer, a maioria deles com carreiras brilhantes nos diversos sectores da sociedade, miúdos que se tornaram grandes com um cão ao lado. E como não podia deixar de ser, continuamos apaixonados pelos cães e deles não desistiremos, porque com eles temos vivido e certamente com eles morreremos.  

terça-feira, 15 de março de 2016

OS CÃES VINGAM-SE OU DEVOLVEM AO REMETENTE TUDO AQUILO QUE RECEBEM?

Certa vez dei um Pastor Alemão a treinar que, nas palavras do seu adestrador, “devolvia ao remetente tudo aquilo que recebia”, referindo-se que o lupino respondia à agressão com a agressão, o que veio a ter consequências nefastas naquele “amestrador”, que por várias vezes acabou suturado. Responder automaticamente à agressão é algo que se procura nos genuínos cães de guarda e que muitos sem o serem acabam por reagir da mesma maneira, facto que fica a dever-se ao seu perfil psicológico. Mas serão os cães capazes de se vingar, de aguardar o momento certo para o fazerem movidos pelo rancor? E se forem, a que se deverá isso?
Deixem-nos contar-vos uma história verídica, acontecida há alguns anos com um tratador militar e o seu veterano cão de serviço. Ao chegar aos 8 anos idade, sem nenhuma mazela aparente ou impeditivo a não ser a idade, determinado cão militar foi dispensado do serviço. Como era hábito então, questionaram o seu tratador se o queria para si, porque doutro modo iria ser abatido. O homem que tanto havia passado com aquele cão por ser de uma agressividade extrema, demorou alguns segundos a responder, decidindo-se finalmente: “ Meu Capitão, como tenho passado tanto com ele, já não estranho e fico com ele”, decisão que pareceu agradável ao oficial. Como o tratador morava num apartamento e durante o dia ninguém se encontrava em casa, optou por entregar o cão aos cuidados do seu pai, morador na província e com bastante terreno ao redor da sua habitação. Tudo parecia correr bem, até ao dia em que o cão atacou o pai do seu tratador. Revoltado com o sucedido, o militar deslocou-se a casa dos pais no intuito de desancar o cão, facto que veio a acontecer.
Perante aquele indesejável desfecho, o tratador optou por entregar o cão ao proprietário de um café perto da sua residência, estabelecimento comercial várias vezes assaltado por conta do tabaco e do álcool que ali era vendido, decisão que o seu proprietário muito agradeceu, porque finalmente podia conservar o que era seu e afoguentar os larápios, carentes de uma boa lição. Certa manhã, algumas semanas mais tarde, muito antes da abertura das lojas, o tratador saiu de serviço e rumou à sua residência. Ao passar em frente do café reparou que este havia sido assaltado, que a sua montra havia sido quebrada e que a máquina do tabaco se encontrava arrombada, facto que muito estranhou diante da ferocidade do animal que tinha deixado lá dentro. Ao acercar-se mais da porta, querendo certificar-se da presença e do estado do cão naquele silêncio, eis que o animal lhe cai em cima, mordendo-o violentamente, ataque que teve como consequência o internamento do tratador no centro clínico da sua corporação, devido à gravidade dos ferimentos infligidos. O cão que se havia desinteressado dos ladrões, não hesitou em atacar o tratador que vivamente o havia agredido, vindo a ter como destino a injecção letal.
Dir-nos-ão que o animal ainda não se havia familiarizado com o local e assumido aquele território como seu, o que é bem possível. Mas que explicação dar ao ocorrido com o seu tratador, senão a de um acto de pura e simples vingança? E foi-o de facto! Neste caso subsistem três razões que sustentam a vingança perpetrada: uma advinda da espécie canina (canis familiaris) e duas ligadas ao seu particular individual (perfil psicológico e treino), duas genéticas e uma ambiental. O cão continua a ser um predador e ao sê-lo é competitivo, impelido pelo instinto de sobrevivência, auxiliado pelo instinto de presa e dado a ocupar o lugar mais alto na hierarquia social ao seu alcance, nomeadamente os machos, resistindo assim à submissão e sendo nisso ajudado pelos impulsos herdados ao poder, à luta e ao conhecimento.
O perfil psicológico deste cão não deixa dúvidas, trata-se de um cão dominante, e chegamos a essa conclusão através da função para que foi escolhido e pelo particular do seu comportamento. Ainda que os canídeos selvagens pouco evoluam nas suas técnicas de caça, porque doutro modo proliferariam em demasia e exterminariam as suas presas, o que a breve trecho lhes seria fatal, as performances e técnicas do cão melhoram consideravelmente com o tempo e o treino, até porque é mais rico em personalidade do que nos instintos, pormenor que possibilita de sobremaneira os seus diferentes usos e permite o controlo dos seus instintos.
Acresce ainda o facto do cão em questão ter sido treinado para atacar e cão que o faz dificilmente voltará a ser o mesmo, acontece o mesmo com os soldados que voltam das guerras, por isso não aconselhamos o treino de guarda para cães cujos donos sejam de liderança precária ou periclitante. Desafiado e acostumado a ganhar, de sessão em sessão, qualquer cão, mormente este, convencer-se-á da sua dominância sobre tudo e todos, tornando-se gradualmente mais incisivo, maldoso e letal, chegando alguns a rebelar-se contra os seus donos, quando impedidos de atacar, prerrogativa dos muito-dominantes, como parece ser o caso do cão adiantado, que exigem donos ainda mais arrojados, o que não os impedirá eventualmente de se transformarem em vítimas, porquanto arriscam a pele por terem andado a brincar com o fogo. O panorama agrava-se ainda mais quando os cães aprendem a suportar e a desviar-se dos golpes, quando acostumados a ripostar (contra-atacar).
Compreende-se agora o porquê da vingança canina e que indivíduos a podem abraçar: os muito-dominantes, superiormente experimentados e aprovados nos ataques, quando vítimas de agressão, cães que não vergam diante de qualquer tipo de castigo e que podem perecer no calor dos confrontos quando enleados com opositores mais fortes ou superiores, bravura que é uma desvantagem. Dificilmente um cão submisso se rebelará contra o seu dono, mesmo que seja objecto de injusto ou duro castigo, já o mesmo não se poderá dizer de um inibido, que poderá usar gratuitamente os dentes diante de qualquer pavor, ainda que o faça de surtida e de forma dissimulada. Os cães que mordem a viatura de alguém que os pontapeou, depois deste sair do local, são de indubitável índole submissa, porque caso fossem dominantes, lançar-se-iam de imediato sobre a pessoa do seu agressor. Apesar disso, estamos também na presença de um acto de inquestionável vingança (há vinganças e vinganças). Um cachorro vítima de maus tratos poderá vir mais tarde a vingar-se do seu carrasco? Sim, caso venha a reunir as condições para isso e quando lhe puder “ser bom”, bastando para alguns a companhia dos donos. Não são muitos os cães capazes de se vingar, mas que eles existem, existem!

segunda-feira, 14 de março de 2016

каракачанско куче: O PASTOR BÚLGARO

Quanto mais conheço os cães do Leste, mais me lembro de Sócrates e de uma frase que lhe é atribuída: “Só sei que nada sei”, porque para lá das fronteiras italiana, austríaca e alemã existem cães que nem imaginava existirem, cuja qualidade, robustez, rusticidade, porte, aptidão e valentia não param de me surpreender. A minha surpresa relativa a estes cães, que abraça a maioria dos adestradores ocidentais, deve-se essencialmente a razões políticas ligadas ao extinto “Bloco Soviético”, onde o contacto das populações e o intercâmbio com o Ocidente era impossível, sobrevivendo as diferentes raças caninas pela sua necessidade para o trabalho (militar, policial e civil), contrariamente às ocidentais que desde cedo se tornaram coqueluches e animais de companhia. Se em todos os grupos somáticos caninos encontramos novidade, no dos molossos ela ainda é maior, atendendo ao seu número e diversidade.
Hoje vamos falar do Pastor Búlgaro, do Karakachan, nome que parece ter resultado das palavras turcas “kara” e “kaçan”, que aglutinadas significam “o negro que me fugiu” (heranças do antigo império otomano), um molosso de montanha destinado à guarda de rebanhos, capaz de enfrentar sozinho um urso, um cão que o regime comunista quase levou à extinção. Trata-se de um típico molosso, bem antigo, que se supõe ser proveniente da Trácia (Balcãs), originalmente criado para guarda e para a protecção de rebanhos (ovinos e caprinos) contra diferentes predadores. Do ponto de vista psicológico é um cão único, porque é extremamente atento, sempre disponível, duma lealdade a toda a prova, deveras valente e altamente territorial, vivendo em função dos seus donos e cumprindo com esmero os serviços que lhe são confiados, nomeadamente a guarda dos rebanhos contra ladrões, o que tem exaltado a sua dignidade ao longo dos tempos e afastado os larápios dos currais, tanto dentro das suas fronteiras naturais como fora delas.
Do ponto de vista físico há a ressaltar o seu andamento natural preferencial: o trote, que é de longo alcance e elástico, pormenor que o torna extraordinariamente musculado e resistente, apto para grandes caminhadas e pronto na transição para o galope, apesar do seu tamanho e de ter pé-de-gato. A raça apresenta dimorfismo sexual, sendo as fêmeas mais pequenas que os machos. Segundo o padrão oficial da raça, lavrado somente em 1991 e aprovado no ano de 2005 pelo Ministério da Agricultura Búlgaro, os machos devem medir entre 63 e 75cm de altura, pesar entre 40 e 55kg e as fêmeas entre 60 e 69cm, pesando entre 30 e 45kg. A raça comporta dois tipos de pelagem: curta e comprida. Deseja-se que os cães sejam malhados bicolores ou tricolores, preferindo-se os cães brancos malhados de cor escura. Toda a estrutura deste molosso rectangular, cujo comprimento do crânio é maior que o do focinho, é forte e musculada, apresentando a linha dorsal paralela ao solo e costelas em forma de barril.
O Karakachan, a quem alguns persistem em chamar de “cão de ursos”, é um dos símbolos da Bulgária, sendo comum oferecer-se um cão destes às visitas mais proeminentes que visitam aquele país. Assim sucedeu com George W. Bush, quando se deslocou à Bulgária em 2003 e com Vladimir Putin, actual Presidente da Federação Russa, que recebeu do 1º Ministro búlgaro, Boyko Borisov, um cachorro chamado “Buffy” em 2010 (na foto abaixo, agora com sensivelmente 6 anos de idade).
A tendência actual na Bulgária é criar cachorros Karakachan menos agressivos e a raça vem sendo usada como melhoradora de outras, tanto europeias como asiáticas. Verdadeiro orgulho nacional, também na filatelia o Karakachan se encontra presente.
Criámos e treinámos vários molossos durante décadas, demos preferência aos nacionais, encontrando nos últimos um desencanto generalizado pelo trabalho, baixos índices atléticos e parca curiosidade, factores que uma vez somados dificultaram a cumplicidade desejada. Honra seja feita ao Fila de S. Miguel, que apesar de ser o mais pequeno, é sem sombra de dúvidas o maior entre eles e dos melhores que há mundo. O que terá a ver um Karakachan com um Serra da Estrela ou com um Rafeiro Alentejano, ainda que morfologicamente sejam idênticos? Somente isso, porque o cão búlgaro é de longe superior! Estará a qualidade dos cães relacionada com o saber dos seus criadores? Não será a prestação no trabalho o melhor indicador dessa qualidade? Sim, o saber dos criadores resulta da observação do trabalho dos cães! Com que propósito criamos hoje os nossos, quando não temos para eles provas de trabalho que reafirmem as suas mais-valias? Como não temos resposta, resta-nos dar os parabéns aos búlgaros pelo esforço em prole da sua cultura e biodiversidade. 

NÓS POR CÁ: MARCELINO PAN Y VINO

O novo Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, é um presidente carismático bem ao gosto popular, com um discurso antigo, patriótico e conciliador, não raramente ambíguo, dado a banhos de multidão e profundo conhecedor da sociedade nacional e dos seus valores tradicionais. Num País onde o Presidente da República é rei e o povo mais saudosista ainda não esqueceu essa imagem, Marcelo surge como paladino da pátria e da república, um D. Sebastião que finalmente voltou e foi reconhecido pelos seus, uma lufada de esperança para quem tem a memória curta, acredita que tudo é possível e que no final tudo acaba em bem (“a ver, vamos”, como diz o cego).
O novo hóspede do Palácio de Belém, para além de dar música ao povo e de manifestar uma extraordinária capacidade de adaptação, apela despudoradamente à crendice popular e sustenta a ocorrência de milagres, lembrando amiúde os pretensamente associados à nossa história nas suas intervenções, o que lhe confere também um carácter místico, transformando-o numa versão optimizada de “Marcelino Pan y Vino”, história beata da autoria do falangista espanhol José María Sánchez-Silva y García-Morales que o cinema imortalizou.
Sem grande dificuldade, se continuar como até aqui, virá a ser também venerado como “marabuto”, porque junta o sincretismo político ao religioso, não sendo por isso de estranhar vê-lo rezar pela paz na mesquita de Lisboa, dando assim seguimento a um ecumenismo mais lato e sempre presente na portugalidade, como é o caso relativo a Fátima, onde a crendice popular casou as aparições dos mouros fatimidas com o aparecimento da Virgem, o que melhor serviu o catolicismo.
Marcelo está em estado de graça, é fotogénico e teatral, Marcelo é porreiro e parece atemporal, lembrando um treinador de futebol que é obrigado a dirigir jogadores de várias nacionalidades sem perder a sua identidade. Ele casa o rap com o fado, adapta-se a qualquer circunstância, aparece em locais inesperados e está por todo o lado. Ainda não tem cão, mas caso  se torne imperativo, breve aparecerá com uma matilha! Paternalista e aparentemente apostado em devolver à Nação a sua grandeza, intenta ressuscitar nos portugueses o seu orgulho patriótico. Venha o que vier, que nada nem ninguém apanhará o homem desprevenido – ele é um bicho político! Se um rei é preparado ao longo da vida para reinar, a Marcelo só faltava a oportunidade!

domingo, 13 de março de 2016

QUANDO O INSTINTO DE PRESA ULTRAPASSA O DA SOBREVIVÊNCIA

Quando o instinto de presa ultrapassa o da sobrevivência num cão ou numa raça em particular, estamos na presença de animais terrivelmente perigosos, diante de cães suicidas cujo condicionamento será muito difícil, jamais absoluto e que obrigará a meios e cuidados extraordinários, considerando a gravidade do dolo causado, que poderá até levar à morte das vítimas, segundo o carácter automático e imprevisível dos seus ataques, a que juntam um ímpeto pouco visto. Cães assim caracterizados são verdadeiros “kamikazes” que não cessam na procura de alvos e manifestam especial apetite pelos mais fracos e medrosos, alcançando depois presas maiores e mais fortes sem o concurso da experiência prévia e da provocação. Ainda que eles façam as delícias de treinadores e proprietários insanos, devem ser castrados, porque mais cedo ou mais tarde acabarão abatidos, não raramente depois de haverem perpetrado um inusitado, tremendo, irreversível e irremediável disparate. Este desvio comportamental é felizmente raro, muito embora desejado e procurado por uns poucos, gente que satisfaz as suas patologias pelo desejo e prática do fratricídio. Mentiríamos se disséssemos que nunca vimos cães destes e mentiríamos outra vez se negássemos que vieram a ser abatidos.
É importante não confundir estes cães com outros cujos impulsos inatos ao poder e à luta são em muito superiores ao do conhecimento, apesar do seu controlo exigir maior acuidade técnica e o seu processo pedagógico não dispensar o travamento, o que equivale a dizer que exigem um dono resoluto e experiente, para os incentivar à curiosidade indutora à cumplicidade e ao trabalho útil. Se os primeiros são instintivamente mais autónomos, despoletam as suas acções à revelia dos líderes, são dissimulados e silenciosos na fixação, perseguição e ataque dos seus alvos, procuram os conflitos por si mesmos, a eliminação das suas vítimas e não dispensam o ajuste de contas, os segundos carecem de maior ajuda, só evoluem pelo treino, desnudam as suas intenções aos líderes, avisam as vítimas, adquirem uma mímica própria para a função, cessam os seus ataques por ausência de resistência, temem o castigo e evitam ou hesitam atacar contendores com os quais foram malsucedidos. Ambos podem matar, os primeiros por incontido desejo individual e os segundos para apresentar serviço, o que denota uma razão social: o agrado dos donos, o que lembra a diferença entre um criminoso e um polícia. Os cinófobos confundem-nos e é comum ouvir-lhes dizer: “entre uns e outros, que venha o diabo e escolha!”.
Diante disto, convém desambiguar o termo “rusticidade”, tantas vezes mal usado e mal compreendido por cinófilos, canicultores e cinotécnicos. A rusticidade que se procura na canicultura está directamente relacionada com o menor cuidado nos diferentes estádios etários que os cães atravessam, com a maior resistência às doenças, às agressões ambientais e com a maior longevidade. Na cinotecnia, a somar a isso, a rusticidade procurada passa por uma melhor capacidade de adaptação, maior autonomia individual, uma maior capacidade de resolução, uma excelente máquina sensorial, fluência dos andamentos naturais (biomecânica típica e capaz), versatilidade, robustez e boa capacidade atlética, desde que próprias para a parceria e de fácil aproveitamento para fim útil.
O retorno à rusticidade visível nos cães de outrora, anterior às selecções operadas pelo eugenismo negativo, que tantas raças continua a vitimar, tem passado maioritariamente pelo retorno ao atavismo, nomeadamente pela hibridação com os diversos lobos e outros canídeos selvagens, cujos descendentes são férteis. Infelizmente essa estratégia não tem dado os frutos desejados. Ainda que do ponto vista físico se assista uma melhoria significativa, do ponto de vista psicológico é notório um retrocesso, devido à sobrecarga instintiva que obsta ao aproveitamento desses animais, mais autónomos e menos participativos, que usam a autonomia assim alcançada contra a liderança humana, o que tem vindo a causar sérios entraves ao seu uso consensual. Se em muitos é notório um total desencanto pelo trabalho, lembrando condenados ou mortos-vivos, outros há (muito poucos) que se tornam extremamente anti-sociais e perigosos, o que tem travado a sua proliferação e obrigado a um sem número de leis persuasivas, coercivas e restritivas, visando diminuir o percentual de sangue lobo nos cães e subtrair os riscos de dolo passíveis de serem causados pelos híbridos sobre pessoas e animais (cite-se o exemplo dos Estados Unidos).
Não é do lobo e dos seus híbridos que vem o maior perigo mas dos cães assassinos que se produzem, proposital ou acidentalmente, lobos familiares que de doméstico têm pouco e que resultam invariavelmente dos cruzamentos entre lupinos e molossos com forte sentimento territorial, juntando a versatilidade dos primeiros à vontade indomável presente nos segundos. Um cão de características assassinas e suicida não deverá ser treinado para guarda, porque dispensa motivos para atacar e qualquer convite ou motivação mais agravará o seu despropósito e comprometerá o seu controlo, a menos que queiramos ser “abatidos por fogo amigo” (alguns já foram). Treinar um cão para guarda é fazê-lo debaixo da estrita dependência do dono, obter dele uma obediência inquestionável, estabelecer-lhe regras de actuação, operar a sua reciclagem e labutar pela sua salvaguarda, para que não caia sobre tudo o que mexe e apenas reaja para o que foi preparado, verdades que parecem esquecidas e omitidas. Ainda que um cão seja excelente, com um equilíbrio notável e de fácil ensino para guarda, jamais deverá sê-lo se o seu dono for imaturo, irresponsável, anti-social, revoltado e desequilibrado, dado a extremos anímicos e facilmente irritável (inflamável), porque importa desarmar quem se descontrola, quer seja cão quer seja homem. Acerca da temática vale a pena lembrar uma cantilena da nossa infância: “se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais”. 

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos obedeceu à seguinte preferência:
1º _ DOBERMANN: O CÃO QUE É MENOS DO QUE SE SUPÕE E MAIS DO QUE SE IMAGINA, editado em 06/03/2016
2º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
3º _ ÉTICA ESCOLAR NA ACENDURA BRAVA, editado em 04/02/2015
4º _ LEMBRO-ME BEM DO KOLUMBOS, editado em 07/03/2016
5º _ A SOLUÇÃO DO CASEIRO E O “TOMA”, editado em 01/03/2016
6º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
7º _ SIM, EU ACREDITO NO CÃO MACACO!, editado em 17/12/2012
8º _ PACHÓN NAVARRO: UNIR EL PASADO AL PRESENTE, editado em 01/07/2015
9º _ VAMOS LÁ FALAR DE DISPARATES!, editado em 09/03/2016
10º _ “X” DE JARRETE DE VACA, editado 25/07/2011 

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Reino Unido, 6º Ucrânia, 7º França, 8º Rússia, 9º Quénia e 10º Angola.

quarta-feira, 9 de março de 2016

VAMOS LÁ FALAR DE DISPARATES!

Como “vamos lá falar de disparates” é uma frase acutilante e a toada dominante é hoje mais doce, podemos trocá-la por “aquilo que não devemos fazer”, que é o objectivo deste artigo, rubrica assente sobre uma história real do nosso quotidiano tantas vezes repetida. Determinado cavalheiro decidiu comprar um cachorro Pastor Alemão para oferecer à sua esposa, senhora que muito estima e que há pouco tempo havia sepultado o seu velho cão, também ele um Pastor Alemão. Interessados numa variedade cromática particular, deslocaram-se ao Sul do País, onde acabaram por comprar um cachorro com essa característica, trazendo-o de imediato para casa.
Encantada com a fragilidade e graciosidade do cachorro, que de alguma forma lhe fazia lembrar o cão falecido, a senhora foi-lhe tolerando toda a sorte de tropelias, ao ponto de não conseguir sair com ele à rua, por se ter auto dispensado do exercício da obediência. Devido à dificuldade que criou, viu-se obrigada a contratar uma pessoa para levar o cão a passear, um brasileiro alcunhado de “avô”, que entre outras tarefas, se prestava a trabalhar na construção civil, sendo colher para toda a obra como qualquer trabalhador não-qualificado. O homem aceitou o biscate e passou a sair diariamente com o animal. Como não entendia nada de cães, nem tampouco como pegar numa trela, deixava o Pastor Alemão rebocá-lo, não o contrariava quando intentava atacar os outros cães, consentia que amarinhasse sobre os transeuntes, deixava-o cheirar os caixotes do lixo, abocanhar restos de comida e permitia-lhe que farejasse, urinasse e defecasse à vontade ao longo dos trajectos. Tornado assim mais incontrolável e alcunhado de “maluco”, o cão foi recambiado para um monte alentejano, onde foi solto e nunca mais viu uma trela, tendo como companhia um cão doutra raça, uma vara de porcos Landrace Alemão e outros animais.
Quem será mais insano: a dona ou cão? A resposta é óbvia, porque nenhum cão nasce com um kit de obediência e todos carecem de regras para melhor se adaptarem, quer sejam bravos ou mansos. Um cão é uma prenda que exige cuidado e trabalho, que gera algum incómodo e reclama por alguma (muita) disponibilidade. Correndo o risco de nos repetirmos, dizemos: “quem não tempo para um cão, não o perca a adquiri-lo”. Daqui aconselhamos os nossos leitores a não incorrerem neste disparate e a dirigirem-se a uma escola canina, onde certamente serão elucidados e ajudados na educação dos seus cães. Para além disso, sendo esta a verdadeira razão de ser deste blogue, sempre estaremos à disposição de quem nos procurar, quer necessite de esclarecimento, conselho ou ajuda.