segunda-feira, 20 de julho de 2015

GAIVOTAS: A MORTE QUE VEM DO MAR E PAIRA NO AR

Como se os corvos já não bastassem para aumentar o rosário de penas dos canicultores, agora temos as gaivotas à perna, aves marítimas que nas últimas décadas têm vindo a alterar os seus hábitos alimentares, talvez por haver menos traineiras a fazer-se ao mar e o peixe escassear na foz dos nossos rios e na orla marítima. Certo é que vemo-las cada vez mais distantes do mar, alimentando-se em lixeiras, ao redor de matadouros, debicando caixotes do lixo e atacando os animais domésticos ao seu alcance (patos, pintos, pombos, gatos e cães, entre outros).
 A alteração da sua dieta tem sido acompanhada pela procura de novos locais para nidificarem, fazendo agora ninhos nos lugares mais impensáveis e mais perto das nossas habitações (nos nossos quintais, em anexos, ao redor de janelas, telhados e chaminés), coabitação que tem levado algumas a atacar pessoas, por sentirem os seus ninhos e prole ameaçados (nos ataques sobre os humanos tendem a atacar o crânio e a face).
Pelo que nos tem sido dado a observar, nenhum lago, capoeira ou canil descobertos estarão a salvo do seu interesse e cobiça, caso se encontrem num raio de 50Km distantes do mar. Com facilidade e rara avidez comem pão e ração, restos de comida (batatas fritas e gelados inclusive), sobras de carne e bolos, não se escusando a debicar as carcaças de animais que encontrem. Os cães da sua predilecção são os cachorros e os toys, particularmente os que pesam abaixo dos 5kg, porque são-lhes fáceis de transportar, muito embora possam atacar, matar e comer outros maiores no local, quando em bando e sem oposição, o que tornará vulnerável qualquer cachorro por alturas do desmame. Como se deslocam a terra em grandes bandos, são capazes de se congregar para se defenderem e atacar milhafres, falcões e águias, facto que já presenciámos e que podem ser comprovados por várias fotos à disposição na internet.
Somente os corvos dão-lhes luta, porque avançam também em bando e disputam os mesmos “petiscos”, apesar de menos vistos nalgumas paragens. Os corvos, que causam os mesmos estragos, costumam levar vantagem no combate entre ambos, dividindo entre si os cadáveres dos seus opositores, apesar da luta ser renhida e da vitória depender do número de cada um deles. Quando o número das gaivotas é muito superior ao dos corvos, estes evitarão as hostilidades e esperarão que as gaivotas “saiam de cena”.
Alimentar as gaivotas pode ser uma opção de alto risco e resultar num tremendo disparate, porque a garantia do alimento levá-las-á a nidificarem mais perto de nós, a aguçar a sua argúcia, a pilharem o que quiserem e quando lhes der na gana, podendo atacar-nos a nós, aos nossos filhos, aos pets e às visitas lá de casa, por avidez de alimento ou por sentirem os seus ninhos ameaçados. Como se depreende porquê, quando têm crias no ninho, porque são territoriais e altamente protectoras, o seu apetite torna-se mais voraz e exigente, não hesitando em entrar na nossa casa e a roubar tudo o que encontrarem, o que para além do incómodo e da intromissão, resultará numa tremenda falta de higiene, já que defecam do ar e quando pousadas.
Apesar de ainda pouco frequentes entre nós mas com tendência para aumentarem, sendo mais incidentes durante o dia e no Inverno, os ataques das gaivotas sobre pessoas e animais não deverão ser encarados de ânimo leve, porque geralmente resultam em cabeças cortadas, abundante sangramento e quedas, podendo delas sobrar alguns ossos partidos e esporadicamente um acidente cardiovascular, porque atacam preferencialmente idosos e crianças (algumas delas já viram os seus lábios rasgados e abertos). Os cães mais pequenos raramente sobrevivem a um ataque de gaivota, porque entram rapidamente em choque hipovolémico, se não forem imediatamente socorridos. As gaivotas acostumadas a pedinchar comida, acabam por roubá-la das mãos das pessoas e a perseguir sacos de plástico e malas, não poupando também os carteiros. E tudo isto porquê? Porque a sua envergadura e peso permitem-lhes, quando ávidas ou raivosas, atingir-nos a uma velocidade de 65km/h, o seu dedo traseiro é uma verdadeira lanceta e o seu bico de 5cm funciona como uma navalha afiada.
Os ataques das gaivotas costumam acontecer em duas fases: uma primeira em que soltam um pio de alerta a dois metros de nós, seguida de um bombardeio de vómito e fezes que nos atingirá, e uma segunda iniciada por um pio de baixa frequência, a do ataque propriamente dito, em que acabam por nos atingir pela parte de trás da cabeça. Como prevenção, aconselham-se os canicultores a cobrirem os seus canis de rede, se tiverem cachorros ou forem criadores de cães miniatura, o que impedirá a entrada das gaivotas, garantirá a protecção dos cães e impedirá o roubo da ração. E como estamos no Verão, aconselhamos especial atenção para os proprietários caninos que diariamente circulam com os seus cães junto à orla marítima. Caso os seus companheiros de quatro patas sejam pequenos ou cachorros, melhor será optarem por outros percursos. Não havendo essa possibilidade, devem mantê-los a seu lado, em movimento ou ao colo e evitar que permaneçam parados para além de 3 minutos. Em simultâneo e a título de prevenção, porque as gaivotas há muito que perderam o respeito pelos humanos, os seus donos deverão sair ataviados com um panamá ou com outro tipo de chapéu.
 Obedecendo ao mesmo cuidado, os Restaurantes, Cafés, Esplanadas e Snack-Bares onde as gaivotas gozem de livre circulação e se encontrem a seu bel-prazer deverão ser evitados. Estamos hoje a pagar e mais pagaremos amanhã, por havermos destruído os habitats das espécies selvagens, que sem outras opções, disputam agora connosco o nosso espaço, família, animais e demais pertences, movidas pela sobrevivência que as induz à procura de abrigo e comida. Resta dizer que a vida das gaivotas na cidade permite-lhes uma taxa de sobrevivência de 95%, que poderão viver 40 anos e que a sua população poderá aumentar 20% anualmente.

WOLFDOG KUNMING (昆明狼狗):A HIBRIDAÇÃO LUPINO/SPITZ PARA FINS MILITARES

Quem julgar que a hibridação canina é algo que pertence às últimas três décadas do Século passado engana-se redondamente, porque a cinotecnia militar, um pouco antes do final ou logo após a II Guerra Mundial, adoptou essa prática para a obtenção de melhores cães de guerra em vários continentes. As novas fronteiras político-geográficas estabelecidas a partir do término daquele conflito, baseadas em diferenças ideológicas profundas, bipolarizaram o mundo e votaram alguns países ao isolamento, que impossibilitados de importar cães por razões várias, viram-se obrigados ao aproveitamento da “prata da casa”, estratégia que também serviu para a sua exaltação patriótica, ainda que um pouco esfarrapada por provir de uma necessidade (debaixo das mesmas contingências nasceu o Lobo Checo). Dito isto, facilmente se compreende da existência do Wolfdog Kunming made in China, um lupino/spitz resultante do cruzamento de pastores alemães, lobos e cães locais, cuja criação remonta a 1950 para resposta às necessidades de cães militares na Província de Yunnan (sudoeste da China). Estes híbridos viriam mais tarde a ser melhorados pela contribuição de 10 Pastores Alemães oriundos da extinta República Democrática Alemã (RDA, DDR, Alemanha de Leste, etc.).
Esta raça de cães, reconhecida no seu país de origem em 1988, é muito idêntica na sua aparência ao Cão de Pastor Alemão, apesar de mecânica e cognitivamente poder apresentar algumas diferenças, justificadas pela degenerescência do cão alemão, uso doutros cães na sua formação e pela infusão de sangue lobo, na diferença que sobressai entre um lupino e um spitz, muito embora a raça seja hoje mais próxima do CPA do que dos cães primitivos e lobos daquelas paragens. Hoje a China possui excelentes Pastores Alemães, melhores até que os produzidos na Europa e na América, mas conhecendo o extraordinário pragmatismo chinês, quem nos garantirá que por detrás de algum deles não haverá um Wolfdog Kunming? Mas se porventura tal contribuição acabar por melhorar o CPA, quem se oporá? Não precisará a raça de ser melhorada e liberta dos flagelos que a condenam?
Comparando objectivamente o Wolfdog Kunming com o Pastor Alemão, o cão chinês é ligeiramente maior em altura, peso e envergadura (64-68 cm e 30-38kg), lembrando neste e noutros aspectos os antigos e afamados Pastores Alemães de linha laboral. O seu manto é mais curto, não é rampeado de garupa e esta pode ser igual ou um pouco mais alta que a cernelha. A sua cauda tende em encaracolar quando excitado e é naturalmente mais rústico. Normalmente bicolor,  conserva a máscara e o manto pretos, pouco diferindo à vista do CPA. Se na morfologia pouco difere, psicológica e socialmente observam-se algumas diferenças. Apesar da sua alta capacidade de aprendizagem, é mais instintivo e tende a liderar, requer  um dono experiente e decidido, reclama por actividade e exige uma longa caminhada diária, porque doutro modo tende a ser destrutivo.
Este cão, que para todos os efeitos é uma variante do Pastor Alemão, tal como é o Pastor de Shiloh, tem vindo a ser usado como cão de guerra e de polícia na China, proliferando agora na sociedade civil como cão guarda e companhia.

OS DE ALBERTA TÊM OS OLHOS ABERTOS E OS PORTUGUESES JÁ NÃO AGUENTAM COMER MAIS!

Num lugar designado por Jumpingpound, na auto-estrada que liga o Estado norte-americano de Montana com a província canadiana de Alberta, entre Banff e Calgary, todas as viaturas que transportem qualquer tipo de barco são obrigadas a parar e sujeitas a inspecção, a qualquer hora do dia ou da noite, fiscalização agora reforçada por três binómios cinotécnicos, para se evitar a entrada naquele território dos mexilhões zebra e quagga, espécies invasoras de rápida propagação, sem inimigos naturais, capazes de comprometer a biodiversidade, de provocar desastres ambientais e avultados prejuízos (existem 13 Postos de Inspecção só na Província de Alberta). Estima-se, caso os ditos mexilhões ali se instalassem, que os prejuízos por eles causados poderiam chegar aos 75 000 000 Dólares, considerando o entupimento dos 8.000km de canais subterrâneos de irrigação e a destruição dos lagos e cursos de água presentes naquela província canadiana. O combate preventivo contra estas espécies invasoras, que absorvem os bons nutrientes presentes nas águas e que só lá deixam porcaria, é também subsidiado por outras províncias canadianas e estados norte-americanos (Alberta, British Columbia, Saskatchewan, Idaho, Montana, Oregon e Washington), investindo em conjunto 6400 mil dólares anuais. Os cães farejadores têm dado conta do recado e as inspecções têm sido mais breves.
Ao tomarmos conhecimento desta notícia e das medidas tomadas por canadianos e americanos para combaterem estas espécies invasoras, lembrámo-nos logo duma que aqui não sofreu qualquer tipo de combate preventivo e que igualmente causa avultados prejuízos, condena a biodiversidade, induz à desertificação, danifica arrozais e outras culturas, destrói represas e vulnerabiliza barragens: o lagostim de rio, uma praga que assolou os nossos cursos de água e que tem levado à extinção de muitas espécies aquáticas nativas, graças ao seu um apetite voraz, rápida propagação e à inexistência de predadores naturais. Sempre fomos mais dados a correr atrás do prejuízo do que a trabalhar pela prevenção, talvez por isso sejamos mais conformados que outros e façamos da desgraça uma festança, debaixo da velha máxima: “ainda podia ser pior” ou “amanhã logo se verá”. Esta sabedoria pacóvia, que vive do desenrasque e não acautela o futuro, tem vindo historicamente a endividar as gerações futuras, enraizando tradições que apenas perpetuam a miséria. Uma destas tradições mais recentes é o “ Festival Gastronómico do Lagostim do Rio”, que se realiza anualmente em Ferreira do Zêzere, cujo rio já não apresenta os apreciados e afamados peixes de outrora. E como em tudo somos originais, alguém adiantou uma solução na internet para o problema dos lagostins: “ se não podemos vencê-los, vamos comê-los”. Será que a fartura não vai dar em miséria?
 Não sabemos se o “pessoal” tem menos apetite ou já se fartou dos lagostins do rio, que nada têm para comer, porque o número destes crustáceos da subordem “Astacidea Latreille” não cessa de aumentar no Rio que agora dá água a Lisboa.  Pondo de parte as nossas pequenas misérias, importa referir que as mais-valias caninas também se estendem à detecção de espécies animais e vegetais invasoras, responsáveis por desastres ambientais que ao alterarem os ecossistemas, comprometem ou eliminam a biodiversidade. Os cães de serviço em Alberta foram treinados por métodos em tudo iguais aos usados nos cães de resgate e salvamento, especializando-se depois na detecção de mexilhões. Cada vez mais se estreitam os laços entre a antrozoologia, a zoologia, a biologia, a ecologia, a etologia, a cinologia e a cinotecnia, o que exalta a nossa preocupação com o mundo em que vivemos e a contribuição dos cães para o seu equilíbrio, companheiros sempre presentes ao longo de milénios.  

DOENTES CARDÍACOS: A MORTE PODE ESPERAR!

Comecemos pela história, que apesar de tantas vezes repetida, vale a pena relembrar:
No passado mês de Fevereiro, em Germantown, Wisconsin/USA, com a temperatura local a marcar os 0 graus celsius, por razões desconhecidas, a Sr.ª Krystal, em pijama e roupão, decidiu abrir a porta da frente da sua casa, quando se encontrava sozinha com o seu Labrador, a quem carinhosamente apelidou de “John Boy”. Num ápice caiu desmaiada sobre uma cadeira ao redor da porta, quiçá por ser uma doente cardíaca e se ter sujeitado ao rigor daquela invernia. O cão, estranhando a paralisação da dona, saiu de imediato à procura de socorro, percorrendo as ruas mais próximas daquela casa, acabando por encontrar o Chefe de Patrulha Jeff Gonzalez, que se encontrava estacionado dentro da sua viatura policial. O facto do cão ter coleira e haver ladrado para o carro-patrulha, despertou a atenção daquele polícia, que optou por abrir a janela da viatura e chamar aquele Labrador para si. Depois de sair do carro, dispôs-se a seguir o animal, que acabou por guiá-lo até à presença da sua dona inanimada, senhora que o polícia julgou já cadáver, ao vê-la caída sobre a cadeira, com o corpo muito frio e com os lábios azuis.
Afortunadamente a Sr.ª Krystal ainda mantinha activos os seus ritmos respiratório e cardíaco. Depois de ligar para a Central a pedir auxílio, Jeff Gonzalez foi auxiliado pelo seu parceiro que se encontrava por perto, carregando ambos a dita senhora para dentro de casa, saindo dali às pressas rumo ao hospital, enquanto aquela trágica notícia era comunicada aos familiares mais próximos da sinistrada. Sem o auxílio do “John Boy”, a sua dona, ao invés de apanhar um valente susto, teria perecido. O mais curioso desta história é que este heróico Labrador, antes de ser propriedade da Sr.ª Krystal, foi três vezes adoptado e as mesmas vezes devolvido ao canil de acolhimento! Perante o sucedido, Tianne Wendt, a filha de Krystal, soltou algo idêntico a:  “o que tem que ser tem muita força”. Apesar de não ser esse o caso de “John Boy”, cresce o número de cães capazes de preverem ataques nos seus donos fragilizados, havendo-os peritos no aviso de acidentes cardiovasculares e episódios de epilepsia, sendo todos condicionados a procurar socorro em caso de emergência. Ter um cão-enfermeiro pode salvar-lhe a vida!  E se a sua saúde insiste em pregar-lhe partidas, do que está à espera para adquirir um cão? A vida é o melhor dos bens, a morte pode esperar!

ELA NÃO QUER CÁ DEIXÁ-LOS QUANDO MORRER

Como sucede com muitas famílias plebeias, as mulheres da Casa de Saxe Coburgo Gota têm-se mostrado mais razoáveis que os homens, menos dadas a paixões e com maior sentido de Estado. Assim tem sido a Rainha Isabel II de Inglaterra, hoje com 89 anos de idade e quase 64 de reinado (fá-los-á no próximo dia 9 de Setembro), de quem os britânicos apenas se podem queixar de lhes ter servido de inspiração e garantido a sua própria identidade. É possível que ninguém lhe cante uma canção do tipo “Goodbye England's Rose” na hora da sua partida, apesar de o merecer mais do que ninguém. Mais uma vez o seu bom senso prevaleceu, porque ao aperceber-se da brevidade dos seus dias entre nós, decidiu interromper a reprodução dos seus cães, para não deixar por cá animais jovens longe dos seus cuidados, decisão que foi anunciada recentemente pelo assessor real Monty Roberts. Se mais gente seguisse o seu exemplo, fosse igualmente responsável e precavida, certamente haveria menos cães vendidos ao desbarato, descuidados, abandonados e até abatidos.

FRASE DA SEMANA

Para o País e para o universo da política europeia, a frase da semana é sem dúvida a de Passos Coelho : “ Por acaso até foi uma ideia minha…”, referindo-se à sua contribuição para o recente acordo alcançado entre a Comunidade Europeia e a Grécia, mérito agora posto em causa e que tem sido motivo de alguma chacota, porque a dita ideia parece afinal ter sido da autoria do 1º Ministro Holandês. No que à canicultura e à cinotécnica diz respeito, a melhor que ouvimos e que considerámos a frase da semana foi: “ Estou tão acostumado a ouvir disparates sobre cães que até lhes acho graça ! ”, da autoria de um experimentado adestrador sexagenário, por ocasião de um debate ocorrido na esplanada de um Café. 

QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXVI)?

O “Vassili” é um galgo russo Borzoi com 6 anos de idade, muito calmo, ajuizado e concentrado, que apesar de veloz, nunca participou em nenhuma corrida de galgos ou numa prova de agility. Cão extremamente dedicado à família (constituída por um casal e três filhos menores), cujas rotinas sempre assumiu como suas, comporta-se exemplarmente em casa e na rua, dispensando o uso da trela nos seus passeios ao exterior. Quando vê um carrinho de bebé, desinteressa-se de tudo ao seu redor e corre para acompanhá-lo, o que por vezes assusta os pais das crianças e deixa intrigado quem assiste à cena. Os seus donos sorriem quando ele procede assim e logo serenam as pessoas, dizendo-lhes que ele é manso, confiável e muito afável. Porque procederá o Vassili assim? Hipótese “A”: Fica excitado com o movimento dos carrinhos de bebé. Hipótese “B”: Quer proteger os bebés durante a sua deslocação. Hipótese “C”: Vai atrás do odor dos biberões. Hipótese “D”: É seduzido pela meiguice dos pais quando falam com os bebés. Hipótese “E”: Está condicionado a andar junto dos carrinhos de bebé da família e confunde-os com os alheios. Para a semana cá estaremos com um novo caso e indicaremos qual a hipótese certa.

SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR

A solução certa para esta rubrica da semana passada é a Hipótese “D”: O seu condutor introduziu-o ao obstáculo por meios violentos, a despeito da técnica necessária. A Hipótese “A” é falsa porque caso o cão tivesse medo das alturas, demonstrá-lo-ia também na Paliçada e na Passerelle. A Hipótese “B” é também falsa e denunciada pela foto da rubrica, pois se o cão entra bem ao obstáculo, este jamais poderia ter-lhe sido mal indicado. Também a hipótese “C” não deverá ser considerada, porque o cão evolui a medo para além das zonas de contacto. A proximidade do dono tende a encorajar os cães e não o contrário, pelo que a Hipótese “E” deverá ser descartada.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
2º _ OS CÃES SUICIDAM-SE?, editado em 11/07/2015
3º _ ESCLARECIMENTO, editado em 11/07/2015
4º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
5º _ ONDE ADESTRAR PARA TER MAIS SUCESSO?, editado em 11/07/2015
6º _ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
7º _ QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXV)?, editado em 10/07/2015
8º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
9º _ A ADOPÇÃO DE UM CÃO PAREDES MEIAS COM A GRATIDÃO, editado em 26/10/2009
10º _ NÃO COMO BURROS A TIRAR ÁGUA À NORA, editado em 29/08/2013  

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim distribuído:
1º Portugal, 2ºBrasil, 3º Alemanha, 4º Estados Unidos, 5º Reino Unido, 6º Rússia, 7º Moçambique, 8º Suíça, 9º Índia e 10º México.

sábado, 11 de julho de 2015

ESCLARECIMENTO

Temos recebido vários emails acerca de escolas caninas que se têm aproveitado do nosso nome para aumentar a sua carteira de clientes, valendo-se para isso da sua situação geográfica, plágio dos nossos princípios pedagógicos e usurpação dos nossos méritos. Diante desta situação, lamentamos o logro e informamos os nossos leitores que não nos escusamos a indicar as escolas cujos directores formámos ou outras que entendemos dignas do seu ofício, bastando para tal inquiri-lo através do email deste blog. Assim sendo, só podemos responder por aqueles que indicamos e não por outros que nos são alheios. Há que combater os oportunistas, aqueles que tendo um só olho julgam os outros cegos.

OS CÃES SUICIDAM-SE?

Criei, treinei e convivi com dezenas de milhares de cães, de todas as idades, de ambos os sexos, de todos os tamanhos e das raças mais variadas, mas nunca conheci nenhum que cometesse suicídio e não creio que o venha a ver. Ao invés, vi alguns a lutarem desesperadamente pela vida e em todos um forte instinto de sobrevivência, mesmo quando doentes, lesionados, feridos, incapacitados, convalescentes ou agastados pelos anos – os cães não desistem, morrem a lutar pela vida! Por isso não creio que o suicídio seja uma prerrogativa canina, apesar de ter presenciado a letargia duns poucos que os levou à morte, por se isolarem e deixarem de comer.
Mesmo que o stress induza à ansiedade e esta gere a depressão capaz de promover o suicídio, este será sempre um acto reflexo e não um acto deliberado dos cães, surgindo como efeito do stress, tanto daquele que geneticamente não suportam como doutro de que eventualmente venham a ser alvo. Em ambos os casos deve-se ao homem este tipo de comportamento, quer pela manipulação das raças quer pela alteração das rotinas dos animais (mudanças de hábitos capazes de causar-lhes transtornos traumático-sociais). A depressão canina é uma das áreas mais complexas da medicina comportamental e abrange fenómenos relacionados com medos e fobias, ansiedade e desordens obsessivo-compulsivas que normalmente afectam os cães. Ainda que estes distúrbios possam estar associados entre si, diferem em termos neuro-fisiológicos, o que não raramente dificulta o seu diagnóstico clínico. A depressão ou estado depressivo canino poderá estar relacionada com a ansiedade e por norma acontece quando os cães se encontram expostos a situações de stress, quer ele seja crónico, sistemático ou traumático, levando-os à alteração ou desuso das suas funções biológicas, assim como à apatia, inapetência, tristeza, menor interacção, indiferença aos estímulos e isolamento social (há cães que debaixo de stress e ansiedade comem desalmadamente).
A causa maior do suicídio induzido aos cães, a que constatámos e temos notícia, reporta-se à morte dos seus donos, particularmente daqueles com quem mantinham um relacionamento social quase exclusivo, deveras próximo e extraordinariamente cúmplice, ao ponto de não superarem a sua ausência e de não aceitarem a sua substituição, felizmente casos raríssimos e merecedores da nossa atenção para que não se repitam, mais comuns entre os cães dos idosos ostracizados e aqueles que vivem a totalidade dos seus dias ao lado dos seus proprietários e treinadores, dividindo com eles todos os momentos e sendo a sua sombra. Para que isto não suceda, torna-se imperativo que o grupo social dum cão não se restrinja a uma só pessoa mas a várias, porque todos somos perecíveis e não partiremos melhor se os cães forem para a cova connosco, o que a ser verdade, seria a pior das recompensas para quem tanto nos ajudou.
Pelo que se depreende, considerando o bem-estar canino e a relação ansiedade-depressão, há que combater todos os tipos de ansiedade que afectam os cães. Ainda que nem todas as depressões induzam automaticamente à sua morte, todas elas contribuem para a sua menor qualidade de vida e para o encurtamento dos seus dias (matam aos poucos, lentamente). A ansiedade mais visível nos cães é aquela que catalogamos como “ansiedade da separação”, causada pela ausência dos donos e visível quando os cães aumentam a sua actividade perante a saída dos seus proprietários, podendo gemer, ganir, exigir atenção, pular e segui-los para onde quer que vão, tremendo ou demonstrando alguma agressividade perante a sua partida, manifestações intimamente ligadas aos diferentes perfis psicológicos encontrados nos cães (se inibidos, submissos ou dominantes). Depois dos donos virarem as costas, esta ansiedade resultante da insatisfação levará alguns cães a arranharem as portas, a mordê-las e a esburacá-las, podendo proceder do mesmo modo sobre utensílios domésticos e pertences dos seus donos (armários, fios eléctricos, livros, móveis, plantas, paredes, roupas, rodapés e vassouras). Outros, dominados pela mesma ansiedade, irão urinar e defecar em locais inaceitáveis (atrás da porta de casa, no sofá da sala ou até mesmo na cama dos donos), desencanto que poderá ser acompanhado e não raramente é por uivos, latidos e/ou gemidos, vocalizações geralmente comprovadas pelas queixas dos vizinhos. Diante deste cenário, alguns ficarão deprimidos e não comerão nem beberão na ausência dos donos, podendo ainda evidenciar sialorreia (babar-se), tremores, dispneia, taquicardia, diarreias, vómitos, lamber afincadamente o seu corpo ou automutilar-se, como é o caso dos cães que mordem a cauda.
Vá-se lá saber porquê, nesta República de coca-bichinhos, talvez por andarmos todos ao mesmo, o diálogo entre veterinários e etólogos tem-se revelado pouco frutuoso, o que tem sido fatal para os últimos, porque chegaram depois e, obrigados à sobrevivência, sujeitam-se a aceitar qual tipo de trabalho, mesmo o distante das suas competências e abaixo das habilitações, ainda que formados pelas mais reputadas universidades estrangeiras (conhecemos um certificado por Cambridge a aviar sacos de compras no AKI). Raros são os veterinários que fazem uma pós graduação em Etologia e alguns etólogos obrigam-se a tirar veterinária para poderem ser melhor aceites e continuar os seus trabalhos. Não obstante e apesar do seu paupérrimo currículo em comportamento animal, raros são os veterinários que não receitam ansiolíticos aos cães, como não é de estranhar diante de donos ingénuos ou ignorantes, historicamente acostumados a desculpabilizar-se e a atribuir aos cães a culpa dos desaires que os vitimam (certa vez tive um aluno médico cuja máxima guardei: “um tipo para ir ao médico, tem que ter uma saúde ferro”). Enquanto os etólogos estiverem na prateleira (nos call centers e nas caixas dos supermercados), a castração e os ansiolíticos continuarão a “resolver” todos os problemas comportamentais caninos.
Os cães são animais sociais e não nasceram para estar sós, vêm a este mundo na crença de que permanecer em grupo aumenta-lhes as chances de sobrevivência, já que os seus antepassados quando agiam assim tinham melhores hipóteses de se alimentarem e defenderem. Esta herança permanece ainda hoje nos cães domésticos, que entendem os seus donos como líderes de matilha e por causa disso sofrem com a sua ausência, por se sentirem mais vulneráveis, desprezados ou abandonados. Antes de encharcar o seu cão em ansiolíticos de difícil desmame e de possível acção contrária, vamos indicar-lhe algumas medidas que combatem eficazmente a “ansiedade da separação”, normalmente responsável por um sem número de problemas físicos e psicológicos como já o dissemos atrás.
Em primeiro lugar importa dizer que, sempre que possível, deverá ser o cachorro a escolher o lugar em que se encontra mais cómodo e seguro dentro da nossa habitação, escolha que obedecerá ao seu grau de desenvolvimento e perfil psicológico. Nessa impossibilidade, o melhor que há a fazer, logo após o adquirir, é colocar no sítio que mais lhe convém o bebedouro, o comedouro e outros objectos do agrado do animal, com o odor donde veio e com o seu, para que não estranhe e mais depressa aceite aquele lugar. Caso o animal tenha vindo numa caixa transportadora, também ela deverá ir para aquele local, porque à falta de melhor se abrigará e escudará dentro dela. A separação do animal deverá ser gradual e associada ao comando de “fica” (gente experimentada nestas andanças espera pelas férias para poder estar mais tempo em casa e adaptar o animal ao seu novo território sem atropelos). Antes de sair entregue ao animal um brinquedo da sua preferência ou um petisco do seu agrado, para que a sua saída se transforme numa experiência feliz e o cão a associe ao prazer ou á diversão. Quando sair, faça-o sem cerimónias, porque a demora nas despedidas tornará o animal mais ansioso e propenso ao sofrimento. Dê liberdade de circulação ao cão dentro de casa para que mais depressa a considere sua, ganhe autonomia e mais tarde venha a defendê-la (convém não esquecer que o cão é um animal excursionista e detesta o enclausuramento forçado). Escusado será dizer que deverá deixar junto dele objectos com o seu odor (geralmente aqueles que ele rouba), para garantir de alguma forma a sua ausência, minimizar a separação e transmitir-lhe a calma necessária (se usar o brinquedo, retire-o na hora de retornar a casa).
Uma vez terminado o calendário de vacinação do seu cachorro leve-o diariamente a passear num período mínimo de uma hora, o que satisfará as suas necessidades excursionistas e sociais, melhorará a sua sociabilização, robustecerá o seu carácter, ajudá-lo-á a crescer, a satisfazer as suas necessidades fisiológicas fora de casa, a familiarizar-lhe com diferentes ecossistemas e diversos fenómenos naturais, pondo-o em sintonia com o relógio biológico. Para além de tudo isto, as saídas ao exterior facilitarão o seu bem-estar em casa, uma vez que parte do conhecido para o desconhecido e ali retemperará as forças. Quando se ausentar de casa evite sujeitar o animal a sons ou roídos a que não está acostumado e que poderão constituir-se para ele em traumas pela novidade ou surpresa. Como importa aproveitar e potenciar a máquina sensorial do animal, antes de sair de casa esconda pequenos petiscos do agrado do cão, mantendo-o assim ocupado e satisfeito nesses afazeres, estratégia que o libertará da ansiedade e que o fará suportar a separação. Quando voltar para casa não vá de imediato fazer-lhe festas, trate primeiro das suas prioridades, para que ele não faça da sua saída um drama e aprenda a respeitar e a assimilar as suas rotinas. Não sobrando outra hipótese, há quem alvitre como solução a aquisição de um novo cão para o acompanhar, opção nem sempre válida quando o perfil psicológico do recém-chegado é idêntico ao do residente.

ONDE ADESTRAR PARA TER MAIS SUCESSO?

Com a falência das associações recreativas e culturais da maioria das terriolas, realidade que não é de hoje, os seus campos de futebol e respectivos balneários acabaram abandonados e vandalizados, servindo agora alguns de prados e currais para carneiros, como albergues para flirts, meia dúzia deles como base para os helicópteros de combate aos incêndios e outros acabaram transformados em centros de treino caninos, locais preferenciais para quem pretende montar uma escola e que pouco ou nada tem para investir, aproveitando-se do piso duro e regular daqueles amplos espaços, que apenas exigem como manutenção o corte cíclico das ervas. E na inexistência dum campo de futebol desprezado, há quem alugue um local ermo ou outro à beira de uma estrada por uns míseros patacos, geralmente à torreira do sol e circundados por rede ovelheira com 1m de altura, vindo depois a rotulá-los de nomes pomposos em voga. Serão eles os indicados para o ensino canino?
É evidente que não! Eles apenas espelham a nossa realidade socioeconómica, a qualidade, disponibilidade e conhecimento das pessoas adjacentes ao mundo da nossa cinotecnia. Pardieiros como estes tendem a saturar os cães e a remetê-los para o stress, porque são locais que jamais escolheriam e que irão comprometer o seu desenvolvimento e sucesso pedagógico, uma violência diante do fim em vista. Uma escola canina digna desse nome deverá recriar ou tirar partido de ecossistemas do agrado dos cães, onde constem árvores, arbustos, lagoas, diferentes pisos e cotas diversas, transformar-se num paraíso que os liberte da ansiedade, para que ali se sintam bem e os donos também.
Quando se recria um ambiente destes, estamos a “apanhar o fio à meada”, a ligar o passado ao presente, a devolver aos cães o seu habitat ancestral e natural, a ensiná-los em terrenos onde se sentem à vontade para aprender, surgindo o ecossistema como um importante subsídio de ensino, já que alegria que demonstram ali irá aumentares-lhes a curiosidade e o gosto pela descoberta, condições que promoverão o desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento pela experiência feliz. O contacto com a água é uma das predilecções caninas, o caminhar pelos bosques e florestas é algo que não dispensam e que avidamente procuram. Os cães não estarão já fartos de confinamento, muros e cercas de arame? Não terão nascido para a excursão? Paupérrima é a escola que não tem um pedaço de floresta e uma lagoa ou piscina ao dispor dos seus instruendos. E porque importa que os cães gostem de vir para a escola e esta deve apostar no seu bem-estar, onde se sentirão melhor: num pedaço de terra estéril ou num ecossistema onde a vida fervilha?
Virá o tempo em que adestradores e arquitectos paisagistas trabalharão juntos para a edificação de centros de treinos caninos capazes de melhor responderem às necessidades dos animais, uma vez sanada a presente crise e retomada a senda do progresso. Entretanto, há que dar os parabéns à Câmara de Lisboa pela inserção no Jardim Romântico do Campo Grande duma pista de obstáculos canina, projecto pioneiro que gostaríamos de ver repetido e melhorado por outras autarquias do País (quando tiverem verba para isso). Depois do que dissemos e explicámos, o sucesso no adestramento acontecerá mais facilmente nos ecossistemas do agrado dos cães, naqueles que lhes devolvem a tranquilidade e o bem-estar. E como morrer por morrer, é melhor fazê-lo a rir, o que dizer duma escola cercada de rede ovelheira, vazia de vegetação, fustigada pelo sol e sem sombras, que se alvitra ser anti-stress? Do que diferirá duma colónia de detenção? Só lhe faltam as marretas para partir pedra, porque os condenados já lá estão! 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O MAU HÁBITO DE VIR DUMA ESCOLA DE PASTORES ALEMÃES

Um adestrador que se forme numa Escola de Pastores Alemães não pode e não deve ensinar as demais raças caninas na perspectiva do Cão de Stephanitz, porque se o fizer não obterá os mesmos resultados e subaproveitará os cães ao seu encargo, o mesmo é válido para os oriundos de um grupo de Border Collies que desejem ensinar cães com outras características de igual modo. O Pastor Alemão exige muito pouco dos seus condutores em matéria de entrega emocional, porque mais depende da memória mecânica do que da afectiva para chegar à associativa, é naturalmente concentrado e disciplinado, o que lhe facilita a aquisição das posturas e das manobras requeridas sem grandes repetições. Como é muito disponível, a menos que seja por demais submisso, o grosso dos seus machos necessitará mais de travamento do que de estímulo, porque é naturalmente competitivo, audaz, protector e reage prontamente às provocações, o que não implica que dispense uma profunda relação de cumplicidade com o seu dono ou condutor, cuja existência garantirá novas e menos visíveis formas de entendimento binomial. Sendo precoce, dinâmico e de alguma forma persistente, busca o progresso e não dispensa a novidade de desafios, o que a ninguém espanta porque foi criado para o trabalho, dispensando a excessiva recompensa por viver em função do serviço, ser naturalmente sério e pouco propenso a subornos. E se o pudermos acusar de algo, certamente será de excesso de zelo, porque não lhe sendo distribuído trabalho, não hesitará em inventá-lo.
Como a maior parte dos cães não é assim, quer pecando por menor disponibilidade quer exigindo maior estímulo, factores ligados ao pormenor da sua carga instintiva, biomecânica e morfologia, ao particular da sua envergadura e à procura doutros serviços por diverso equilíbrio dos principais impulsos herdados, ver-nos-emos obrigados a trabalhá-los doutro modo, pacientemente e com maior tolerância, a felicitá-los amiúde e efusivamente para que a experiência feliz, que não dispensa a recompensa, accione a memória afectiva que os induzirá ao cumprimento das tarefas. Neles a ênfase recairá sobre a acção e o travamento deverá acontecer gradual e suavemente para que não percam o gosto por aprender, ao temerem a liderança. Como se depreende, o rigor que caracteriza o treino dos pastores alemães só os afogaria e os pastores alemães treinados deste modo tendem à desobediência e nalguns casos a perverterem a liderança, podendo os machos menos dominantes e as fêmeas tornar-se quezilentos ou piegas. Um grande número de molossos, debaixo de pressão, tende à imobilidade ou à revolta, muitos bracóides (se não todos) irão exigir estratégias lúdicas para o alcance das metas propostas, os vulpinos acusam em demasia as correcções e os toys carecem de muito agrado e protecção. A somar a isto, em todas as raças subsistem indivíduos diferentes que irão exigir abordagens e acompanhamentos díspares.
Cada cão deverá ser tratado e ensinado de acordo com a sua sensibilidade e vocação, entendido tal qual é para que a liderança não atrapalhe o seu desenvolvimento cognitivo, que poderá exigir mais disciplina ou afecto de acordo com o seu perfil psicológico. Será este discernimento que tornará maior e mais adequado qualquer adestrador, que para todos os efeitos é como um actor, desdobrando-se em múltiplas personagens para poder valer a todos os cães. Jamais alcançaremos o cão ideal mas podemos abstrair de todos o melhor que têm para dar. Para isso cá estamos e nisto se baseiam ou deveriam basear as nossas credenciais.

O QUE FAZER COM OS CÃES INIBIDOS

O que fazer com os cães inibidos? Investi-los com uma pele que não a sua, até que acreditem que lhes pertence! Um dos maiores desafios para os adestradores é a recuperação de cães inibidos, tarefa que irá exigir-lhes observação, estudo, engenho, tempo, perseverança, empatia e muita paciência, porque o progresso destes animais é lento e sujeito a revezes, capacitação que automaticamente dispensa os mais coléricos, os menos flexíveis e os que carecem de resultados imediatos como estímulo para o trabalho.
Contrariamente ao que se pensa, a inibição de origem genética é mais comum entre os cães padronizados do que entre os provenientes da selecção natural, quer eles sejam silvestres ou párias, fenómeno associado a beneficiamentos que alteraram, ainda que involuntariamente, tanto pela endogamia quanto pela consanguinidade, o são equilíbrio dos principais impulsos herdados na procura de características morfológicas (estéticas). Um cão pode inibir-se por razões ambientais mas não totalmente, sendo a sua recuperação mais célere pela alteração do desfecho e dos efeitos ligados aos traumas. Muito mais difícil será a recuperação de um cão que nasceu inibido e que treme diante de tudo e todos, mazela geralmente reforçada por um imprinting descuidado.
Ainda que o extraordinário temor destes cães seja mais visível ao nível social, ele pode estender-se aos fenómenos naturais e diante da apresentação de qualquer novidade, o que obrigará a mil cuidados e ao estabelecimento de etapas, cujo cronograma nos será indicado pelos animais, mediante a aprovação nos trabalhos antecedentes. Na fase embrionária o adestrador obriga-se a passar a maior parte do tempo com o cão - à coabitação, para que ele se sinta protegido e pouco a pouco aceite as rotinas diárias de quem o acompanha.
A seu tempo, evoluir-se-á do interior para o exterior, do conhecido para o desconhecido e da separação do binómio para a sua integração no meio de outros, havendo o cuidado de não o inserir num grupo já hierarquizado ou portador de cães provocadores ou briguentos. O ideal é apresentá-los primeiro e isoladamente no terreno ou terrenos do cão medroso, vantagem que facilitará o seu entrosamento, isto se os cães utilizados estiverem convenientemente sociabilizados e forem de fácil controlo. Sempre será mais fácil recuperar um cão nestas condições do que uma cadela, apesar da cópula poder beneficiar de sobremaneira ambos e o exercício da maternidade vir em auxílio das cadelas. Paralelamente à sociabilização entre iguais, que deverá acontecer primeiro com o cão atrelado, operar-se-á a sociabilização e convívio com outras pessoas, optando-se por escolher aquelas cuja mímica seja de fácil leitura para o animal e não exteriorize instabilidade ou qualquer tipo de agressividade. Depois de certificada a confiança do animal no adestrador, este deve sair com ele para ecossistemas calmos e repousantes, onde o cão se sentirá cómodo e confiante, nem que seja pelo conforto daquele que o guia pela trela. Daí passar-se-á, para percursos mais concorridos e movimentados, com gente apressada e máquinas em movimento.
No processo de reabilitação do animal não adianta contrariá-lo, antes criar-lhe condições para que evolua sem suspeita e sem sobressaltos, caso contrário aumentará a sua resistência e menos confiará em nós (não podemos correr este risco). De etapa em etapa, o cão robustecerá gradualmente o seu carácter e passará a confiar em si próprio pela experiência adquirida, novidade que jamais alcançaria sem o contributo humano. A recuperação dos cães medrosos é um trabalho que pertence à reeducação, área do ensino canino que deveria ser matéria obrigatória para qualquer adestrador, uma vez que ela não se destina exclusivamente aos cães agressivos. E se ensinar cães é um acto de amor, recuperá-los é o seu expoente máximo. Os cães medrosos têm solução e ela passa pela dedicação dos adestradores, que enternecidos pela sua desprotecção, irão ensiná-los a vencer os seus medos, revestindo-os da confiança que a genética lhes omitiu, mercê da caminhada conjunta que a ambos fez crescer (o cão ganha confiança e o adestrador saber)

WILMA MELVILLE: COM OS PÉS PARA A COVA MAS APOSTADA EM DESENTERRAR VIVOS

Ao falarmos da norte-americana Wilma Melville, presidente e fundadora da National Disaster Search Dog Foundation/ USA, lembramo-nos imediatamente da finada Dorothy Harrison Eustis (1886-1946), de quem já tratámos em edições anteriores, principal impulsionadora dos cães-guia de cegos à escala planetária, porque ambas fizeram da perseverança mote e colocaram as suas vidas ao serviço dos outros, tirando partido da sua paixão pelos cães. Mas afinal quem é Wilma Melville? Nada mais que uma septuagenária norte-americana (78 anos), aposentada e ex-professora de educação física, que retomou o seu contacto de infância com os cães, depois de haver criado os filhos, decidindo-se a treinar um cão (Murphy) para busca e salvamento no território sísmico da Califórnia, vindo em 19 de Abril de 1995 a participar na procura de sobreviventes no centro de Oklahoma City, quando ali rebentou uma bomba no Edifício Federal Alfred P. Murrah, atentado terrorista perpetrado pelo americano Timothy McVeigh e do qual resultaram 168 mortos.
Graças a essa experiência e ao tomar contacto com os binómios que a acompanharam naquela acção, cujos cães se preocupavam mais com o sítio onde pôr as patas e menos com os possíveis sobreviventes, depois de descobrir que nos Estados Unidos apenas haviam 15 cães de busca e salvamento, número bastante inferior ao verificado na minúscula Suíça, que ao tempo já tinha 52, decidiu dedicar-se corpo e alma a esta especialidade canina, ambição e projecto que viu concretizados ao fundar a National Disaster Search Dog Foundation, fundação de carácter humanitário e sem fins lucrativos. A 11 de Setembro de 2001, Wilma enviou 13 binómios especializados para os edifícios desmoronados do World Trade Center e graças ao trabalho de uma estagiária de jornalismo, a trabalhar ao tempo na cadeia de televisão Fox News, a quem competia digitar os textos de rodapé daquele canal televisivo, os americanos chegaram ao conhecimento da Prof.ª Wilma, cujo número de telefone apareceu no pequeno ecrã por 12 horas.
O telefone não parava de tocar (houve necessidade de instalar mais telefones) e as doações vindas de toda a América não cessavam. Num ápice, Wilma Melville tinha um milhão de dólares na mão! Curiosamente a cinotécnica nunca soube o nome daquela estagiária de jornalismo, que devido à sua irreverência, acabou por contribuir assim para a formação de uma excelente unidade de resgate apostada em salvar vidas. Daí até hoje, a National Disaster Search Dog Foundation tem vindo a enviar binómios para todas as partes do mundo, como o fez este ano no Nepal, aquando do sismo ocorrido a 25 de Abril, ao mandar para lá 6 equipas cinotécnicas. Wilma, nesta andanças há 15 anos, que se considera mediana de inteligência, diz que o segredo do seu sucesso ficou a dever-se à sua inesgotável perseverança, o que a nosso ver não explica a sua rara clarividência e espírito prático, já que optou por recrutar cães resgatados, entregá-los aos bombeiros e treiná-los para catástrofes (isto de ser rafeiro tem muito que se diga, na América alguns encontram pessoas, em Portugal a maioria perde os testículos).
O maior sonho desta filantropa é montar um grande centro de formação nacional, aquele que será o primeiro do género nos Estados Unidos, que terá os mais diferentes simulacros para atender a equipas de busca nacionais e internacionais, sonho que está em vias de se concretizar num rancho doado à sua fundação, situado a norte de Los Angeles, a 90 minutos daquela Cidade e com aproximadamente 50 hectares (eu gostava de lá ir quando estiver pronto e fazer lá uma formação). Esta preocupação da Sr.ª Melville espelha o cuidado que dispensa na preparação destes cães, treinando-os arduamente para as tarefas que os esperam, o que aqui na Europa pouca gente leva a sério. Na foto seguinte temos uma passerelle de endurance, em tudo idêntica à usada pelos nossos alunos até 2009, que lembra também a escada de preparação e a memorável passerelle de linhas (dá para matar saudades, já naquele tempo estávamos na vanguarda).
Resta-nos dar os parabéns à Sr.ª Wilma Melville e desejar-lhe saúde, longa vida e novos projectos, que bom seria termos por cá uma! E se já nasceu ou vier a nascer, oxalá não venha a emigrar. 

GLENN & BUZZ: SIDE BY SIDE, ALLWAYS TOGETHER

O Glenn e a Buzz, ele um Jack Russel e ela uma Staffordshire Bull Terrier, foram encontrados abandonados num túnel junto ao mar numa localidade inglesa. Depois de recolhidos por uma instituição, verificou-se que o Jack Russel era cego e que a sua companheira Staffordshire servia-lhe de guia, possibilitando assim a sua sobrevivência. Esta história recente, comovente e de partir o coração a qualquer um, correu mundo e de toda a parte choveram pedidos para a sua adopção (Estados Unidos, Canadá, Europa, América do Sul e até da Austrália). Depois de um longo processo de triagem junto das famílias britânicas interessadas, os dois companheiros foram entregues a uma da qual se agradaram imediatamente, como se de “amor à primeira vista” se tratasse. Os dois companheiros, que se julga com idades compreendidas entre os 9 e 10 anos, vão assim continuar juntos e passar o resto das suas vidas na companhia da nova família adoptiva, que muito se enterneceu pelo seu exemplo de vida. Chegámos á notícia através do Website do Mirror e não resistimos em divulgá-la aos nossos leitores. O que dirão acerca disto os já célebres cientistas japoneses da Universidade de Azabu no Japão, que conseguiram provar que os cães amam os donos como os bebés amam as suas mães? Como o tema do amor canino é polémico e sujeito a muitas contradições, aguardamos novos desenvolvimentos científicos, o que não impede o envio de um voto de felicidades para o Glenn e para a Buzz, que irão passar a sua 3ª idade melhor do que até aqui.