domingo, 14 de junho de 2015

O PRÉSTIMO DOS RAFEIROS

Os rafeiros em Portugal, suavizados pela designação de “cães sem raça definida”, cujo número de abatidos não ousamos contabilizar, por ser maior que o esperado e uma vergonha para todos nós, para uns têm sido uma bênção e para outros uma praga, respectivamente para quem os adopta e para quem não os tolera. Filhos da selecção natural e da desventura, sempre têm andado de braço dado com a fome, com os maus tratos e o abandono. Apesar de mais resistentes, saudáveis, equilibrados e com maior esperança de vida que os seus pares com pedigree, grande número deles irá morrer precocemente nos canis municipais, onde invariavelmente a injecção letal os espera, por não haver quem os reclame, solução draconiana que vai contra tudo aquilo que hoje ensinamos e acreditamos. Mais do que em factos ou numa pretensa menos valia, a indiferença, o desrespeito e o desaproveitamento destes cães, têm resultado de falsas premissas, ideologias desprezadas e ancestrais preconceitos, enraizados na nossa cultura no passado recente e/ou desde tempos imemoriais.
Haverá neles algum préstimo ou serão uns estupores sem qualquer proveito? Antes de respondermos à questão, razão objectiva deste texto, adiantamos que treinámos ao longo dos anos e em simultâneo rafeiros e cães de várias raças, convidando todos para o mesmo desempenho e tarefas, segundo a sua morfologia, estatura, peso e envergadura. Sem que isso constituísse para nós qualquer novidade, porque já o sabíamos, os cães de raça indefinida mostraram-se mais versáteis, evidenciaram maior rusticidade, revelaram-se mais fáceis de ensinar e atingiram níveis de cumplicidade acima dos encontrados nos seus colegas standartizados, resultado também comprovado noutras escolas caninas. Voltando à questão, entendemos que os rafeiros apresentam três mais-valias a considerar, enquanto cães de terapia, como melhoradores das raças existentes e como semental para a formação de novas raças.
Em oposição à maioria das raças caninas, que necessita de algumas específicas para esse trabalho, raro é o rafeiro que não se presta como cão terapia, facto que fica a dever-se ao equilíbrio dos seus impulsos herdados e à ausência da excessiva manipulação humana, factores que facilitam a sua interacção com os humanos sem maiores cuidados e sobressaltos. Portadores de uma maior rusticidade e distantes das maleitas resultantes da endogamia e da excessiva consanguinidade presentes nos cães de raça, eles poderão vir a ser melhoradores das distintas raças caninas, dotando-as de mais saúde e equilíbrio, devolvendo a algumas delas o potencial sensorial de que se viram privadas pela procura doutros usos e propósitos (não é por acaso que a hibridação está na moda). No caso português, a maioria dos rafeiros ainda descende de cães primitivos e do tipo spitz, mais ou menos mesclados com bracóides, que tanto poderão ser usados para a recuperação de cães ancestrais como para a formação de novas raças, tangencialmente mais próximas dos desejos actuais. Acresce ainda o facto das rafeiras se prestarem facilmente como amas-de-leite ou madrastas, tanto de cães como doutros animais.
O préstimo que reconhecemos aos rafeiros reforça a nossa oposição às actuais campanhas de castração, que contrariamente ao que se badala, não têm surtido o efeito desejado, facto comprovado pelo aumento do número de associações que se dedica ao resgate dos animais. Melhor seria controlar a natalidade canina do que esperar que os cães nasçam para depois os castrarem. E se eventualmente o número de cães abandonados diminuiu, não o podemos dissociar da actual crise económica, porque o tempo não vai para devaneios e as sobras não são muitas, muito embora possa surtir o efeito contrário, porque escasseando o pão, o cão é posto à estrada. Se entendermos os nossos rafeiros como uma herança de tempos remotos, reconhecermos as suas mais-valias e vencermos o preconceito, rapidamente mudaremos de opinião a seu respeito e usufruiremos do muito que têm para nos dar. 

A PUPPY VOADORA

A Puppy, uma híbrida de Barbudo dos Açores com um cão de raça indefinida, chegou-nos com a Rute, vindas doutra escola, onde aprenderam o básico que lhes possibilitou o seu avanço entre nós. Neste momento a condutora está a fazer o Curso de Monitores e a cadela nem parece a mesma, porque chegou aqui demasiado travada e agora parece que voa, alteração que ficou a dever-se ao progresso da dona e ao alcance de maior autonomia por parte da cadela, que desfila alinhada em liberdade como se andasse á trela. Com a melhoria da cumplicidade binomial, a Puppy aceita hoje qualquer desafio, desenvolvendo performances atléticas notáveis e evidenciando maior segurança. Oxalá assim continuem e não percam de vista os seus objectivos, já que a dona tem muito para aprender e a cadela muito mais para dar.

ESTAVA-SE MESMO A VER!

Quisemos saber qual a preferência das pessoas entre um bebé e um cão, atrelando ao carrinho duma criança o animal, numa rua muito movimentada, num horário bastante concorrido e no período de 1 hora. 18 pessoas de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 23 e os 70 anos, aproximaram-se deles, 15 fizeram festas ao cão e o ignoraram o bebé e somente 3 ignoraram o animal e acariciaram a criança. As três pessoas que optaram pelo bebé, todas do sexo feminino, tinham respectivamente as idades de 45, 52 e 67 anos. Todos os jovens, cerca 40% do total, de ambos os sexos e com idades compreendidas entre os 23 e os 27 anos, optaram por acariciar o cão. Estava-se mesmo a ver: venham os cães que os filhos podem esperar! Enquanto o País perde habitantes, o número de cães não pára de aumentar. O que nos reservará o futuro, onde iremos parar? Ao que parece o fenómeno é mundial, não será ele uma forma encriptada dum suicídio global há muito anunciado? Sacrifício por sacrifício, qual valerá mais a pena: pelos filhos ou pelos cães?

IGNIS FATUUS (FOGO-FÁTUO)

O Fogo-fátuo (do latim i̅gnis fatuus) é uma luz azulada que pode ser avistada em pântanos, brejos, etc., uma inflamação espontânea do gás metano (CH4) resultante da decomposição de seres vivos (plantas e animais típicos do ambiente). São também fogo-fátuo as labaredas vindas dos túmulos nos cemitérios, porque resultam da Fosfina (PH3) presente na decomposição dos cadáveres, que se apresenta à superfície dos túmulos na sua forma gasosa, sendo um gás altamente inflamável que se combusta à temperatura ambiente, particularmente nos dias mais quentes. A ocorrência de um fogo-fátuo, dependendo das circunstâncias e condições, pode despoletar um incêndio de proporções muito maiores. E se por acaso for surpreendido por um fogo destes, não se alarme e não fuja, porque ele segui-lo-á devido à deslocação do ar produzida pelo movimento do seu corpo (deixe-o arder).
Não é de química que queremos tratar aqui mas de uma raça que entendemos encontrar-se moribunda: o Cão de Pastor Alemão, que sobrevive hoje pelas memórias do passado, tal qual fogo-fátuo que se ergue sobre as campas dos finados. Pelas nossas contas, a raça encontra-se em decadência há mais de 50 anos, vindo a ser gradualmente substituída por outras nos serviços que a notabilizaram. Aos gloriosos cães de outrora (guardas, policiais e militares), que sempre são mencionados na venda dos actuais, sucedem-lhe agora os esganarelos do presente, cães de lastimável apresentação, de biomecânica periclitante e muitos deles disfuncionais, ora lembrando miniaturas dos seus protótipos ora recordando as primeiras bicicletas (as de Pierre Michaux ou as Penny Farthing) cuja roda dianteira, para além de ser pedaleira, era substancialmente maior que a traseira (estes cães sobrecarregam em demasia as mãos).
Raros são os Pastores Alemães actuais verdadeiramente aprumados e robustos, sendo natural encontrá-los de peito estreito ou invertido, com exagerado abatimento de metacarpos, mãos divergentes, parcos de ossatura e cabeça, de codilhos afastados, com os ossos a romper a pele e com jarrete de vaca, havendo cães com peso de cadelas e cadelas com peso abaixo do estalão, em tudo idênticos ao Malinois que porventura lhes serve de inspiração. Não obstante, sobra ainda a falácia de alguns eruditos, que não tendo quem os contradiga, adiantam que o Pastor Alemão para ser bom, tem que ser pequeno (para a carteira não será mau, tanto para quem vende como para quem compra)
Estes desaprumos e menos valias acabam por interferir no bom desempenho atlético destes cães, promovendo-lhes dificuldades na transição dos andamentos naturais, dificultando-lhes a sua escalada, levantando-lhes problemas na transição de saltos contínuos, extenuando-os e tonando-os irritadiços ou carentes, mais sensíveis às contrariedades e necessitados de maior estímulo, o que lamentavelmente nada abona a favor da sua autonomia funcional, por lhes faltar a segurança e o equilíbrio para o desempenho esperado. E como tarde é aquilo que nunca chega, ainda que timidamente, aqui e ali começam a aparecer exemplares capazes, muito embora o seu número não chegue para contrabalançar o montante dos desprezíveis, que continuam a proliferar e a ser vendidos à custa bom-nome dos Pastores há muito enterrados e que nada têm a ver com eles, de quem são uma ténue e pálida imagem, fogo-fátuo de uma glória que não lhes pertence.

DUO PELA MILÉSIMA VEZ

Pela milésima vez, porque já perdemos a conta a quantos cães o ensinámos, convidámos o Ricky e a Puppy para o “Duo”, manobra de sociabilização sempre em uso na Acendura Brava, destinada aos cães em geral e em particular para os cães de guarda, a quem é exigida uma sociabilização entre iguais inquestionável, uma obediência com a mesma característica e uma sobriedade de carácter notável. A manobra consiste no salto dum cão sobre outro que se encontra de pé e imóvel, também na passagem por debaixo dele, o que obrigará o cão em movimento a rastejar. Os cães prestam-se alternadamente ao mesmo exercício e a nenhum deles é permitido distrair-se, intimidar-se, intimidar ou agredir o seu companheiro de trabalho. E como por norma acontece, tudo correu bem, desfecho ligado ao conhecimento dos cães à sua carga horária escolar.

RICKY: O BARQUEIRO

O Ricky é um Pastor Alemão com um ano e meio de idade, propriedade dos pais do Ricardo e que é conduzido por ele (não será o contrário?). O Ricardo é um miúdo a entrar na puberdade, mais palrador do que ouvinte, confuso, simultaneamente desafiador e introvertido, extraordinariamente sensível e emotivo, com uma visão da vida acolchoada e resistente à eclosão dos seus talentos, um miúdo igual a tantos outros da sua idade, de alma e estampa meridional. Quando o descrevemos, lembramo-nos logo da descrição de Alves Redol acerca da personagem Constantino, na sua obra “Constantino guardador de sonhos e de vacas”, leitura que lhe recomendamos, muito embora subsista entre ambos uma diferença: o miúdo saloio era mais ambicioso que este lisboeta, talvez por ser menos protegido e ter que se jogar à vida. Quanto ao Ricky, o cão alemão é um autêntico barqueiro, um companheiro que tem ajudado o Ricardo a fazer travessia de casa para o mundo, da protecção para a responsabilidade, da ficção para a realidade, dos sonhos para a ambição e da indicação para a escolha, um amigo único pela sua devoção. E isto tudo sem o miúdo dar por isso! Obrigado cão, parabéns pais. E se amanhã se escrevesse um livro acerca deste humilde cão, certamente mereceria o título: “ Ricky pastor e barqueiro”.

NÃO SEI, É A QUE SE VENDE NO SUPERMERCADO!

Quando questionamos os proprietários caninos acerca da ração que estão a dar aos seus cães, a resposta mais comum é: ”Não sei, é a que se vende no supermercado!” As outras mais usuais são: “A que o veterinário me indica” e “A que o criador me recomendou”. Se a primeira resposta é decorrente de uma razão económica, sabendo-se que as grandes superfícies comerciais são pródigas em rações aparentemente baratas, as seguintes assentam numa relação de confiança com os veterinários e criadores dos cães, indivíduos que juntam à sua actividade a venda de rações, tirando partido da sua influência para fins mais ou menos lucrativos, estratégia também seguida por alguns treinadores de cães, podendo uns e outros vender toda a sorte de acessórios, o que associado às vendas através da Internet, têm sentenciado à falência as outrora florescentes “Pet Shops”, sobrevivendo um punhado a troco da venda de rações ao quilo para os mais diversos animais, permanecendo no ramo somente os que não o podem abandoná-lo (pela idade, ausência de capital e medo de arriscar), caso a renda seja barata.
É estranho reparar que a maioria dos proprietários caninos ou desconhece a marca da ração e/ou a sua composição, não sabendo diferenciar as existentes no mercado (que são cada vez mais) pela sua qualidade, se são ou não indicadas para a idade, raça, particular sexual e tipo de exercício a que sujeitam os seus cães, pagando alguns uma exorbitância por rações de menor qualidade, só porque são amplamente publicitadas, recomendadas por quem julgam saber mais do que eles ou porque os cães da vizinhança não se queixam. Será que não se queixam? Verbalmente não, mas carregam no seu aspecto geral, no manto, na envergadura, no esqueleto, nas articulações e no desempenho das suas tarefas os benefícios ou impropriedades da ração que lhes é distribuída, que se reflectem também no seu bem-estar, saúde, crescimento, na apetência do alimento, no aparelho digestivo, disponibilidade, tempo de recuperação, concentração, autonomia, tenacidade, força e resistência.
Desconfia-se da qualidade das rações quando: o cão come que nem um desalmado e não engorda ou mal pega na ração, quando de depois de ingeri-la bebe água em demasia, anda constantemente esfomeado, a comer ervas, fezes, caliça e estuque, rói madeiras e pedras, está continuamente a defecar ou tem dificuldades em fazê-lo e faz fezes deformadas ou em pasta. Também quando o seu manto de encontra seco e baço, os seus dentes se apresentam precocemente gastos e sem brilho e o seu estômago dilatado (os sintomas não se esgotam aqui). Não falta à maioria das rações o teor de proteína recomendado, resta saber qual o seu grau de absorção. O maior défice nas rações assenta sobre o percentual e a qualidade da gordura, pormenor que influirá directamente no seu preço. Importa também considerar o seu grau de digestibilidade e as vitaminas e minerais presentes na sua composição, ainda que a sua absorção seja diminuta e não seja absoluta ou integral. Muitos fabricantes de rações, ao invés de se valerem das carnes recomendadas para os cães, aproveitam-se de subprodutos animais, inclusive de carcaças, geralmente adquiridas a um preço irrisório e que também se prestam para a elaboração de salchichas para consumo humano. A esses subprodutos dão-lhe o nome de “farinha ou derivados de…” e não de “carne de…”.
Também na existem milagres na alimentação dos cães e uma ração se qualidade não poderá ser barata, ainda que o preço por si mesmo não indicie a qualidade, porque há por aí muitas que são caras e cujo proveito é deficitário, sendo mais lucrativas para quem as vende do que para quem as consome. Nem sempre os valores adiantados nos sacos correspondem ao seu valor real, sobrando quase sempre algumas diferenças em prejuízo dos consumidores (falamos com conhecimento de causa porque já mandámos analisar algumas). As rações com carne de borrego são topo de gama e as mais indicadas para cães em crescimento ou sujeitos a exercício intenso. As mais baratas são as de farinha de frango e as de carne de frango são as indicadas para animais mais sensíveis (diz-se que a canja de galinha é própria para doentes). E como de outra coisa não se fala a não ser dos ácidos Omega, cuidado com as rações à base de peixe (salmão, etc.), porque podem provocar problemas cancerígenos, já que o peixe utilizado é de piscicultura e sujeito a “bombadas químicas”, cujos efeitos ainda não são totalmente conhecidos. Uma boa ração à base de peixe combate as alergias, facilita a digestão e tem uma acção benigna sobre os dentes, cartilagens, ossos e articulações dos cães (por causa dos benefícios dos ácidos Omega).
A melhor comida para os cães é a fresca, quando bem balanceada e feita por quem sabe, ainda que seja menos prática que a ração, que será sempre um repasto de substituição. Quem nos poderá indicar a ração ideal para o nosso cão? De princípio o nosso veterinário assistente, muito embora a experiência daqueles que trabalham cães não seja de desprezar. As rações que se vendem nas grandes superfícies comerciais são as melhores? Raramente são, ainda que garantam por vezes a relação preço-qualidade. Recomendamos alguma ração? Sim, a quem nos perguntar. Uma boa ração de crescimento tem um preço aproximado por quilo de 2.6€, uma de manutenção 1.85€ e uma de borrego de 2.75€. Diz-se no futebol que “equipa que ganha não se mexe” e com as rações deverá suceder o mesmo, já que sua a troca sistemática para nada serve a não ser para tornar os cães biqueiros e gulosos. Não raramente são os cães os primeiros a dizerem se uma ração é boa ou má. Esteja atento ao seu cão! 

SEGUIR O PELOTÃO DA FRENTE

Francamente não sabemos se temos em Portugal um Banco Hematológico Canino a funcionar, gostaríamos de acreditar que sim, pelo menos na Faculdade de Veterinária estatal. E como importa seguir o pelotão que vai na frente, porque de outra forma ficaremos irremediavelmente atrasados, vamos agora falar do caso inglês, indubitavelmente um exemplo a seguir, diante do número de cães existente nos lares portugueses. O “Pet Blood Bank UK” é um serviço nacional de banco de sangue canino, a primeira e única instituição de caridade do Reino Unido deste tipo, que actua há oito anos e tem mais de 6.000 dadores nos seus registos. Em média, faz três sessões semanais de colheita de sangue, podendo cada uma atender até 22 cães dadores. Para serem seleccionados e aceites como dadores, os cães terão que ter mais de 25kg, gozar de boa saúde, não ter febre e as suas frequências cardíaca e respiratória serem normais. Em simultâneo e entre outros requisitos (entre eles a análise comprovativa da qualidade do sangue), porque ali ninguém brinca em serviço, os donos dos cães garantirão ainda que os seus pupilos não saíram dos territórios à sombra da "Union Jack" (da bandeira do Reino Unido).
A prática dos cães dadores de sangue tem vindo a aumentar significativamente, bastando para isso comparar os valores do primeiro ano desta instituição com os actuais, pois passou de 200 dadores para mais de 6.000 e de 500 unidades de sangue para 5.000 (cada unidade de sangue tem 450ml). Uma vez certificado o cão dador, o animal irá com os seus donos para a sala de colheita de sangue, sendo convidado a deitar-se sobre o lado em que se sente mais cómodo. Depois de calmo e confortável, é-lhe inserida uma agulha na veia jugular, procedendo-se à colheita de 450ml de sangue, intervenção que durará de 5 a 10 minutos. Uma vez o sangue recolhido, o cão recebe carinho e apreço de todos ao seu redor, para além de água, um lanche, um brinquedo, tempo para se relaxar e um lenço vermelho como prova da sua dádiva. A colheita de sangue não é dolorosa e a prová-lo estão os cães que repetidamente dão sangue ao longo dos anos, cuja mímica não denota temor ou tristeza. Caso algum cão entre em stress, a colheita de sangue é automaticamente interrompida.
O saco selado do sangue será depois enviado para o centro de caridade em Loughborough/Leicestershire, para se processar a separação do plasma das células vermelhas do sangue (eritrócitos). Ambos serão então armazenados até serem requisitados por um veterinário (o plasma é congelado até cinco anos e as células vermelhas do sangue são refrigeradas até seis semanas). Os cães que forem operados em Inglaterra podem ficar descansados, pois se vierem a necessitar de uma transfusão de sangue, ela não faltará, contrariamente ao que aqui se passa, onde para o efeito se caça um cão “à meia-volta”. Volta e meia, dá-nos vontade de emigrar.

CÃO QUE NASCE TORTO PODE ENDIREITAR-SE

Ao contrário do que diz o provérbio popular: “quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita”, ao referir-se ao particular da personalidade de determinados indivíduos ou a uma empresa mal estruturada, os cães que nascem tortos por anomalias genéticas conseguem endireitar-se pelos avanços da ciência. Tal foi o caso do Quasimodo, que por alguma semelhança com a personagem central do livro “Notre-Dame de Paris” da autoria do francês Victor Hugo, granjeou esse nome. Este pequeno cão nasceu com defeito nos pulsos, conforme se pode ver na foto acima, o que o impedia de caminhar normalmente e que resultou no seu abandono, sendo descarregado dum camião, em plena via pública, no Verão do ano passado (o episódio aconteceu nos Estados Unidos).
Afortunadamente, porque para tudo é preciso ter sorte, acabou por ser resgatado por uma família que o adoptou, vindo mais tarde a ser sujeito a várias cirurgias, suportadas por donativos alheios, no Ohio State University Veterinary Medical Centre, para que pudesse andar como os outros cães, desejo que se confirmou pelo sucesso das cirurgias. Depois de operado e convidado para andar, mostrou-se a princípio receoso e nervoso mas estimulado pelos sentidos e pela curiosidade do mundo à sua volta, lá lhe tomou o jeito e ousou dar os primeiros passos como qualquer cão. Agora que caminha como os outros, não seria altura de lhe trocarem o nome? Por certo haverá muita gente grata aos cães, tanta que as manifestações de solidariedade relativas a estes animais não param de aumentar. Aconteceu nos Estados Unidos, dificilmente aconteceria aqui… ou talvez não.

QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXII)?

O “Travolta” é um cachorro Labrador preto que recentemente completou 7 meses de idade. A partir dos 4 meses passou a acompanhar o seu dono que adora andar de skate, fazendo-o com alegria e sem necessitar de trela. Ultimamente anda algo estranho, mal o dono se distrai afasta-se dele, ficando para trás, cheirando as árvores e o chão ao seu redor, urinando com nunca, ainda que pouquíssimo de cada vez. O dono anda intrigado e teme que o cão se torne ainda mais desobediente. Não tendo outro remédio, é obrigado a circular com o cachorro atrelado. O que se terá passado pela cabeça do Travolta? Hipótese “A”: Está a ficar desobediente e precisa de treino. Hipótese “B”: Está farto de correr ao lado do skate. Hipótese “C”: Alcançou a maturidade sexual. Hipótese “D”: Ganhou medo de sair à rua. Hipótese “E”: Procura restos de comida. Para a semana cá estaremos com um novo caso e indicaremos qual a hipótese certa.

SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR

A hipótese certa para esta rubrica da semana passada é a Hipótese “C”: Alguma ave está a fazer o ninho na varanda ou no beiral do telhado. A Hipótese “A” não deverá ser considerada porque é desmentida pelo texto, pois se a varanda está virada a Sul, o calor far-se-á sentir ali com maior intensidade. Dificilmente o cão se interessaria por uma cadela no exterior com o cio, muito menos quanto encerrado em casa, porque segundo texto adianta, ele é castrado, o que torna pouco provável a Hipótese “B”. Também a hipótese “D” carece de fundamento, uma vez que nunca permitiram ao cão ir para a varanda e jamais reagiria alvoraçado por causa dumas simples ervas. A Hipótese “E” é fantasiosa e não deverá ser considerada.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
2º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/062011
3º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
4º _ NOVO BINÓMIO: MÁRIO/PIN, editado em 07/06/2015
5º _ DE ABRIL A SETEMBRO COM O PULVERIZADOR ÀS COSTAS, editado em 07/06/2015
6º _ NO COMMENTS, editado em 07/06/2015
7º _ HÁ QUE SALVAGUARDAR AS DIFERENÇAS MAS NÃO EXCLUIR NINGUÉM!, editado em 07/06/2015
8º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
9º _ ONDE É QUE EU JÁ VISTO?, editado em 07/06/2015
10º _ TREINO, TEMPERATURA E HUMIDADE, editado em 27/04/2009 

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha 5º Reino Unido, 6º Suíça, 7º Moçambique, 8º Rússia, 9º República Checa e 10º Bélgica.

domingo, 7 de junho de 2015

HÁ QUE SALVAGUARDAR AS DIFERENÇAS MAS NÃO EXCLUIR NINGUÉM!

Aludindo à necessidade e especificidade do ofício, um Treinador de Cães vê-se obrigado à transmissão de uma mensagem clara para os seus instruendos. Permitam-nos que estabeleçamos a diferença entre ele, uma dama e um diplomata, servindo-nos de um original que desconhecemos e que adaptámos: A dama, quando diz “não”, significa “talvez”; quando diz “talvez”, significa “sim”; e quando diz “sim”, não é uma dama. O diplomata, quando diz “sim”, significa “talvez”; quando diz “talvez”, significa “não”; e quando diz “não”, não é um diplomata. O treinador de cães, quando diz “sim”, significa “sim”; quando diz “não”, significa “não”; e quando diz “talvez”…não é um treinador de cães. Nada disto impede que que as damas venham a ser excelentes adestradoras, que os diplomatas sejam bem-vindos e que os adestradores sejam diplomatas, porque o adestramento é uma prática útil e salutar, cabendo aos seus agentes (adestradores e praticantes) estendê-lo ao maior número de pessoas possível.

UMAS MARTELADAS NÃO CHEGARAM PARA EVITAR UMA PERNA AMPUTADA

Não sabemos quem nos disse e em que país isso se passa, latitude onde só os pobres são condenados à morte, sendo maioritariamente negros e hispânicos. Seja ele qual for, uma coisa é certa: faz vista grossa à Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda que diga observá-la e reclame o seu cumprimento na terra dos outros, porque combater a violência com a violência é tornar a autoridade assassina e transformar os criminosos em vítimas, perpetuar conflitos cuja solução se encontra para além do uso da força e que se mantêm por causa dela. Mas não foi isso o que passou em Rosettenville/Johannesburg, na África do Sul, muito embora o sucedido tenha contornos igualmente sórdidos e manifestamente fratricidas. Uma menina de 9 anos de idade, a frequentar o 4º ano do ensino básico, depois de terminadas as aulas, dirigiu-se para casa, uma pequena habitação situada no quintal doutra maior, onde vive com os pais, ao que tudo leva a crer por troca de serviços, cujo proprietário tem dois cães, normalmente encerrados na garagem, mas não naquele dia. Ao chegar a casa, a menina negra foi atacada violentamente pelos dois cães (um deles é o da foto abaixo), acabando por lhe ser amputada uma perna neste último Domingo, segundo notícia da Netwerk24.
O ataque daqueles cães não teve consequências ainda piores porque um vizinho, munido de um martelo, lançou-se sobre eles em socorro da criança, acção que também não o deixou ileso, saindo da contenda mordido no pescoço. De acordo com as declarações prestadas pelo pai da criança, caso o vizinho não tivesse actuado, os cães teriam acabado com ela. Ainda segundo o pai da criança, o proprietário dos cães e alguns polícias que assistiram a tudo, nem sequer chamaram uma ambulância. Haveria de ser ele, quase duas horas depois do incidente, que ao chegar a casa, levaria a filha para o hospital, encontrando-a deitada e imóvel, a sangrar e queixar-se de dores e de frio. A menina acabou por dar entrada no Chris Hani Baragwanath Hospital, onde foi ligada a um ventilador com uma grave infecção na perna direita, vindo os seus rins a colapsar. Ainda permanece em estado grave naquela unidade hospitalar.
Contrariamente ao que dizem os proprietários dos cães, os animais ainda não foram removidos do local, sendo vistos ali no último Sábado por várias testemunhas, facto comprovado pela polícia que diz não ter qualquer registo de remoção de cães naquela área (Rosettenville), polícia que se nega a comentar o caso, por não se encontrar ainda arquivado. A história indigna-nos, revolta-nos e causa-nos calafrios, faz-nos temer que episódios destes possam vir a ocorrer aqui, particularmente no interior do País, no dito Portugal profundo, onde os Centros de Saúde não param de fechar, como já fecharam algumas Escolas, Repartições de Finanças e Tribunais. Urge ensinar aos nossos concidadãos medidas preventivas contra os ataques dos cães perigosos, dar-lhes subsídios para que possam defender-se e escapar ilesos, protegendo assim as suas crianças. Quem nos bater à porta não sairá de mãos a abanar, para isso estamos cá, prontos para elucidar e ajudar, mediante o conhecimento e experiência que adquirimos na reeducação canina ao longo de décadas.

ENTRE A NAVALHA DO CAPADOR, O EUTASIL E GUANGXI

Este ano, como sempre acontece, no dia do Solstício de Verão no Hemisfério Norte (21 de Julho), vai realizar-se na China, mais propriamente em GuangXi, o tradicional Festival Gastronómico da Carne de Cão, ocasião em que são abatidos em média 10.000 cães para o efeito, “iguaria” muito apreciada naquelas paragens (será que vão lá estar alguns suíços?). Como já aconteceu em anos anteriores, os protestos chovem de toda a parte, inclusive de dentro da própria China, para que aquele Festival não se realize, porque nem todos os chineses gostam ou são obrigados a comer carne de cão, devido à sua multivariedade cultural, havendo muitos que abominam tal prática e consumo e muitos outros que procuram no lobo familiar as vitaminas, proteínas e minerais que ele tem para oferecer, na impossibilidade de se valerem doutras carnes, já que o elementar arroz não os comporta. Adiantamos desde já que somos contra tal festival, que nos revolta e enoja, sentindo-nos ainda mais transtornados quando vimos crianças com fome e em que circunstâncias vivem certos povos no Mundo, diante dos nossos olhos e perante a nossa impotência, dramas tantas e tantas vezes indiferentes a quem ama os seus pets e cujo mundo acaba nas quatro paredes do seu aconchego.
É natural e compreensível que nos revoltemos contra festivais deste género, porque somos duma cultura diferente, temos os cães noutra consideração e usamo-los para outros fins. Contudo, falta-nos autoridade moral para o fazermos, uma vez que entendemos a castração como sinónimo de bem-estar nestes animais, abandonamos todos os anos milhares deles e abatemos anualmente cerca de 100.000 nos canis terminais municipais, número dez vezes maior que o destinado ao abate em GuangXi. É estranho mas é verdade: mais depressa solucionamos os problemas alheios que os nossos! Como poderemos ser arautos do bem-estar canino além-fronteiras, se não somos exemplo para ninguém? Somente através da máxima: “faz o que te digo e não olhes para aquilo que eu faço”. O trabalho em falta envergonha-nos e torna-nos hipócritas. Não será mais fácil resolver o problema entre 10 milhões de pessoas do que entre mais de um bilião? Pode ser que os chineses resolvam primeiro os problemas relativos aos cães do que nós, a quem se reconhece haver em cada cabeça uma sentença. Curiosamente, o território chinês é cerca de 108 vezes maior que Portugal. E como o peso das decisões se encontra sujeito a conjecturas políticas ou ao peso da política alicerçado na economia, após o forte e mui desejado investimento chinês em Terras Lusas, haverá algum governante português capaz de sugerir às autoridades chinesas que acabem com o Festival de GuangXi? Não será o dinheiro o melhor dos subsídios para a aceitação das diferenças culturais? Se continuarmos como até aqui, seremos como aqueles cães que ladram mas não mordem, o que pode ser traduzido por “povo de brandos costumes”, rotineiramente inconsequente.
É uma obrigação para os que entre nós gostam de cães, lutar pela aprovação de leis que mais penalizem os donos que os animais, sanções e penas mais duras para aqueles que os abandonam, cadastrar e exigir maior fiscalização sobre os proprietários caninos e lutar pela abolição da pena de morte nos canis terminais municipais, o que já acontece na vizinha Espanha, nos municípios de Madrid, porque a castração não resolve o problema do abandono (basta reparar no número crescente de associações que se dedicam a recolha de animais), e o recurso ao “Eutasil” não é solução mas uma prática criminosa. E como primeiro temos que arrumar a casa, este é o nosso combate e nisto estaremos outra uma vez a dar novos mundos ao Mundo. Até lá, deixem os chineses em paz, porque eles matam os cães e comem-nos (ao que tudo em indica, breve deixarão de fazê-lo, como já acontece na Coreia), nós matamo-los só para nos livrarmos deles, morte inglória e sem qualquer préstimo, ignomínia que nos compromete e que não esconde velhos costumes bárbaros e despóticos ainda em uso nos nossos dias.
É evidente que lutar pelos direitos dos animais é fazê-lo aqui e em toda a parte, não porque está na moda ou fica bem, mas resulta gratuito quando exigimos dos outros aquilo que não cumprimos ou sobre o qual fazemos vista grossa, quer por conveniência quer por comodismo. Já assinámos uma das petições contra o Festival Gastronómico de GuangXi, mas antes e depois dele continuaremos a denunciar os abusos aqui perpetrados contra os animais domésticos, particularmente sobre os cães, que sendo muitos, não se rementem unicamente ao abandono, aos maus tratos e ao genocídio. Nas vésperas do dia primeiro de Julho próximo, os chineses da região autónoma Zhuang abaterão 10.000 cães para consumo e os portugueses abaterão 8.200 para não serem incomodados. Quem será mais bárbaro? Segundo o que a BBC tornou público, 259.200 crianças morrem mensalmente de fome no Mundo, 6 a cada minuto, uma a cada 10 segundos! Se não nos importa a morte dos nossos semelhantes, menos nos importará o desaparecimento de outras espécies. Não deveremos desligar-nos do socorro mútuo e ligar-nos somente ao socorro dos animais, a menos que queiramos entregar o mundo aos cães e levá-los ao poder, o que para alguns insanos até não seria mau de todo. Não raramente, a pretexto de uma causa justa, as mais inocentes campanhas, para além de servirem de trampolim para alguns, visam desviar-nos a atenção, sendo manobras políticas ao serviço de velhos interesses. Gostar de animais é gostar primeiro das pessoas, por causa delas treinamos cães, a seu rogo e para seu auxílio. Deus nos conserve a razão, o bom senso e a clarividência!

ONDE É QUE EU JÁ VI ISTO?

Comecemos pela história, segundo a conta o Mirror. Lá para o Município de Aberystwyth, no País de Gales, um adolescente de 17 anos de idade foi mordido por um Border Collie preto e branco, que se encontrava solto, ao passar defronte duma propriedade onde o animal estava alojado. Do incidente não resultaram sérios danos no agredido, que apenas ficou com a perna inchada e algumas dores, sintomas que desapareceram rapidamente pela administração de antibióticos que lhe receitaram no hospital. Como apresentou queixa na polícia, e aqui é quem vem a novidade, os dirigentes locais daquela corporação entenderam fazer uma sessão de identificação de suspeitos, muito em voga nos States com humanos, quando importa que as testemunhas ou vítimas identifiquem os criminosos, dispondo lado a lado vários cães para que o jovem lhes indicasse qual deles era o agressor. Uma vez identificado o cão e o seu proprietário, o caso foi levado a tribunal, porque o rapaz adiantava ter ficado com medo de sair à rua (malandreco!).
Veio a saber-se que o Border foi treinado para salvamento e recebeu treino de obediência, nunca tendo manifestado quaisquer sinais de agressividade. Ficou provado que o animal saía amiúde da Quinta que o albergava para perseguir viaturas e morder em pneus, factos que contribuíram para responsabilizar e condenar o seu proprietário pelo incidente e que o obrigaram ao pagamento de 725 Libras (988.90€) para satisfação de multas, compensações e custos judiciais. Apesar de ter dito que não, o rapazola não terá provocado o cão? Nunca saberemos, porque o cão não fala e nada pode argumentar em sua defesa! Resta ainda saber se os cães expostos para identificação eram todos idênticos ou diferentes. Entretanto, desejamos rápidas melhoras ao adolescente, que perante um ataque tão bárbaro, irá necessitar no mínimo de apoio psicológico e quiçá psiquiátrico. Lembramos mais uma vez aos nossos leitores que são obrigados a sair à rua com os seus cães atrelados, que o montante das nossas multas não fica atrás do verificado nas Ilhas britânicas e que há gente que sempre engorda com o descuido dos outros, que aguarda ocasião para chatear e receber alguns cruzados (euros). 

BULL TERRIER: UM GLADIADOR AO SERVIÇO DA PAZ

Alguém já disse que as escolas caninas andam cheias de “roscas” e “chouriços”, numa alusão à presente proliferação de rafeiros e à novidade dos Dachshunds, Buldogues Franceses e Bull Terriers, já que os “baixotes” estão na moda, substituindo nas fileiras escolares os antigos, tenebrosos e espadaúdos guardiões do passado recente. Vamos hoje falar sucintamente sobre o Bull Terrier que tem merecido a preferência de muitas famílias portuguesas, naquilo que o distingue dos outros cães do mesmo grupo ou com apresentação semelhante, considerando as suas mais-valias, limitações e o tipo de parceria que oferece. Comparativamente, ele é mais interactivo, menos independente, teimoso e explosivo que o Dachshund, mais introvertido e menos brincalhão que o Buldogue Francês, patenteando um comportamento, quando seguro e alegre, muito próximo ao encontrado nos terriers de maior porte, simultaneamente autónomo e carente, ainda que por vezes mais soturno.
Os Bull Terriers Miniatura são levados da breca, mais briguentos, instáveis e provocadores do que os seus congéneres maiores, exigindo uma liderança inquestionável e decidida dos seus donos, que terão que optar pela sua precoce sociabilização e não se abster do exercício da disciplina, no são equilíbrio entre o cumprimento e a recompensa, porque não deixam de ser tremendamente afectivos. Quanto à história e aos mitos ligados ao Bull Terrier há que dizer que “a montanha pariu um rato”, que o cão actual pouco ou nada tem a ver com os seus ancestrais lutadores, com os cães de arena por detrás da sua formação, que a selecção operada garantiu a morfologia e suprimiu o ímpeto, transformando este cão num dócil e excelente mascote pràs famílias, talvez para desencanto ou desgosto daqueles que esperavam fazer dele uma arma secreta, como substituto dos cães hoje indexados na lista dos perigosos.
A predominância da cor branca, pese embora os problemas a ela associados, maioritariamente alergias várias, surdez e problemas de pele, tanto nesta como noutras raças, acabou por dotar a Bull Terrier de uma maior capacidade de aprendizagem, ao melhorar significativamente o seu impulso ao conhecimento, que no início do Séc. XX era sofrível pela excessiva carga instintiva, menos valia responsável por uma menor curiosidade e desejo de autonomia que obstavam a uma verdadeira parceria, necessitando a sua capacidade de aprendizagem de ser reavaliada, porque o valor que lhe foi atribuído encontra-se alguns furos abaixo do seu actual potencial.
Atleticamente falando, não é um cão de grandes performances, capaz de se interessar naturalmente por obstáculos artificiais, porque apesar de ter um campo visual excelente ou se calhar por causa disso, tende a abordá-los mediante o olfacto, conservando o nariz bem abaixo da linha de transposição, o que obrigará os seus condutores à repetição das vozes de introdução e não dispensará o seu condicionamento mecânico. Menos farejador que o Dachshund mas com instinto de presa superior, usa primeiro a visão e depois a audição na procura do dono, desusando o faro nessa busca, impropriedade que deverá ser ultrapassa pela prática da pistagem logo aos 4 meses de idade. Este pequeno cão de olhos triangulares conserva hábitos e progressões típicos dos cães de toca, perseguindo em qualquer terreno animais substancialmente maiores, tendo especial predilecção pelos que se encontram acoitados ou no subsolo. Necessita de treinar a capacidade de marcha, porque o trote é o seu andamento preferencial, transitando dele instantaneamente para o galope, visando a sua resistência e prontidão. Esta capacitação jamais será possível sem o contributo da sua memória afectiva, sem o subsídio do reforço positivo, pois contrariado tende à letargia.
A sua rara visão permite-lhe obedecer a grandes distâncias e detectar objectos longínquos, mesmo que parcialmente escondidos ou camuflados e a sua observação é quase imperceptível. Será na obediência que mais se evidenciará, porque é fiel e muito dedicado aos donos, não é dado a chiliques, não se intimida facilmente, é autoconfiante, suporta bem o frenesim à sua volta e mantem-se sereno quando isolado ou entregue a si próprio, até que o dono retorne ou o chame. Devido ao seu particular morfológico tende a atrasar-se no “junto”, obrigando os seus condutores ao incentivo e ao diálogo constantes. É melhor na obediência estática do que na dinâmica, sendo muito fácil ensinar-lhe os comandos de imobilização (quieto, alto, senta, deita, morto, etc.), não obstante ser hábil no chantagear dos donos, adquirindo posturas de submissão que partem qualquer coração. É naturalmente impoluto e incorruptível, tirando e conservando lições fornecidas pelas experiências negativas, o que é primordial para a sua salvaguarda e controlo.
Como é mais resistente à dor do que o comum dos cães, também porque é paciente e fiel, suporta com mais facilidade as diabruras das crianças, optando por “apagar-se” perante os seus exageros, manha que as fará desinteressar-se dele. É naturalmente asseado, sossegado, raramente ladra, o seu caminhar é quase inaudível e sente-se bem dentro de um apartamento, predicados que muito têm contribuído para a sua procura. Adapta-se bem à novidade de transportes, não treme nas alturas e aprende facilmente a subir escadas. Infelizmente a raça não é muito resistente (os seus ritmos vitais são por vezes elevados) e não tem, quando comparada com outras do seu tamanho, uma esperança de vida por aí além. A adição da cor operada no início do Séc. XX, maioritariamente proveniente do Staffordshire Bull Terrier, veio minorar os problemas dos exemplares brancos sem agravar o seu comportamento, devido à predominância do branco, à filosofia de se criar um cão para acompanhar cavalheiros e não um lutador de rua como havia sido no passado (outras raças com os mesmos ascendentes viriam a evoluir no sentido contrário).
Como cão de status que é, o Bull Terrier de origem europeia é um animal dócil, fácil de travar amizades e bem comportado, que até passaria despercebido não fora o seu focinho acarneirado (em forma de ovo), com uma silhueta um tanto ou quanto bizarra e por vezes cómica, um terrier distinto dos demais e nalguns casos diametralmente oposto, um cão mais para se ter do que para se usado, de olhar minúsculo, parado, intrigante, ao mesmo tempo profundo e inexpressivo. Decididamente um cão para quem não quer ter problemas ou quer acautelá-los. Resta dizer que o Bull Terrier não olha a meios para que os seus donos se sintam felizes, adoptando para o efeito posturas dignas de um genuíno bobo da corte, sendo ao mesmo tempo hábil em se fazer desentendido e teimoso se lho consentirem.
Ainda subsistem alguns exemplares menos simpáticos e agressivos, produto de selecções descuidadas ou intencionais num retorno inequívoco aos cães do Séc. XIX, que felizmente são raros, assim como gente que instiga e usa os seus Bull Terriers para fins não-humanitários e hoje considerados criminosos, plebe indigente que, dada aos jogos de sorte e azar, condena os seus cães à morte.

NOVO BINÓMIO: MÁRIO/PIN

Ingressou recentemente nas nossas fileiras um novo binómio, o constituído pelo Mário e o Pin. O dono é chegado ao pára-quedismo e aplicado na cinotecnia, o cão adora-o, é um Bull Terrier de 21 meses, muito alegre e brincalhão, que assimila sem dificuldades tudo o que lhe é ensinado. Este binómio tem evoluído de modo extraordinário, surpreendendo tudo e todos, levando de vencida as metas e objectivos de cada aula, numa evolução alegre e descontraída mas ao mesmo tempo rigorosa. Desejamos para ambos avidez de conhecimento, mais progresso e as maiores felicidades, que a sua parceria em tudo saia vencedora e que ultrapassem sem maiores percalços os desafios que terão pela frente. 

O ROBINSON DA MORTE AGRIDOCE

À falta de melhor, todas as agências noticiosas que têm uma secção destinada aos animais de companhia valem-se do caso de John Robinson, um americano até aqui ignoto de North Park/San Diego/Califórnia, que farto de ver o seu jardim emporcalhado e destroçado pelos cães da vizinhança, optou por uma solução engenhosa para acabar com os abusos, polvilhando a relva do seu jardim com pedaços de chocolate, medida bastante para pôr de sobreaviso os descuidados proprietários caninos ao seu redor, que inconformados e temendo pela saúde dos seus cães, porque sabem que o chocolate lhes pode ser fatal, chamaram e apresentaram queixa na Polícia (San Diego County Animal Control and the San Diego Police Department). No meio disto tudo, o bom do Johnnie, que não deu a cara, acabou por ir parar à televisão, sendo entrevistado pela NBC 7 onde teve ocasião de mostrar o seu desagrado com a vizinhança e os seus cães. Coboiadas da Califórnia que me fazem lembrar uma cantilena de miúdo: “Ò Susana, não penses mais em mim/ que eu vou para a Califórnia/ tocar o bandolim (já não me lembro da segunda estrofe, mas penso que seria menos recomendável ou algo adulterada). E como todas as mortes são amargas, mesmo com chocolate (só não o sendo na pena dos dramaturgos ou na inspiração dos poetas), acautele-se e valha ao seu cão: não o solte sem primeiro se certificar da inexistência de perigos ou engodos que lhe possam ser lesivos ou fatais.