sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

AS VANTAGENS DE TRABALHAR POR TERRENOS DESCONHECIDOS

Um psiquiatra não muito conhecido, tem por hábito, para melhor conhecer os seus pacientes e lhes valer, fazer-lhes a seguinte pergunta: “Teve alguém na sua infância que lhe dispensasse e demonstrasse um amor incondicional?”, consciente dos reflexos da infância na vida e comportamento dos adultos. Seguindo o mesmo raciocínio, perguntamos: “costuma sair diariamente com o seu cão e variar-lhe os passeios?”, porque sabemos da sua importância para o bem-estar, desenvolvimento, comportamento, cumplicidade e aprendizagem dos cães.
Intencionalmente, ao invés de dizermos “as vantagens de passear por terrenos desconhecidos” (variação dos passeios), optámos por “as vantagens de trabalhar por terrenos desconhecidos”, realçando a obrigação e o empenho dos donos para melhor entenderem e valerem aos seus cães, porque eles agem por reflexo e sempre espelham os cuidados de que foram alvo. A menor capacidade de aprendizagem canina é de origem genética e pode ser agravada pela experiência repetitiva e pobre, num ambiente ausente de novidade e parco em desafios, normalmente responsável por comportamentos marginais, que sendo inadequados, obstam à coabitação harmoniosa. E porque o cão é um animal naturalmente excursionista e aprende pela experiência, nada melhor que lhe dispensar uma experiência variada e rica, o que nos transporta para a novidade e variação dos passeios diários, política do agrado dos animais, que vai ao encontro das suas necessidades (físicas, psicológicas e cognitivas) e que se presta de sobremaneira às expectativas dos donos.
A variação dos passeios diários caninos robustece a liderança e o carácter dos animais, contribuindo para a eliminação de entraves relativos aos desequilíbrios que obstam à sociabilização, à cumplicidade e à adaptação dos cães no mundo que os rodeia, familiarizando-os com os diferentes ambientes que terão pela frente, graças à presença dos donos que marcham a seu lado e que lhes transmitem ânimo e segurança, vencendo assim os seus medos individuais ou atávicos. A novidade dos passeios robustece a liderança porque o cão parte para o desconhecido e sujeita-se ao norteamento, fica dependente do seu guia e encosta-se a ele diante da novidade, porque é um ser social e detesta ser surpreendido, o que fará florescer a cumplicidade entre ambos.
Perante a novidade de desafios e pelo apoio do dono, o carácter do cão sai robustecido, aprendendo a evoluir nos diferentes trajectos sem temores, a identificar e evitar os perigos, o que o tornará mais seguro e apto como animal utilitário e de companhia, acostumando-se a toda a sorte de cenários e ruídos que doutra forma o poderiam intimidar. O conhecimento da azáfama das gentes e a presença doutros animais, pela familiarização, irão contribuir eficazmente para a sua sociabilização, deixando de os ver como inimigos, provocação ou ameaça, levando-o à uniformidade de procedimentos e a igual desempenho nos diferentes panoramas e ecossistemas.
O robustecimento de carácter pela satisfação na multivariedade dos desafios, liberta os cães do stress e opera a sua inserção no meio sem atropelos, o que lhes propiciará outro à vontade e a serenidade necessárias ao seu desenvolvimento cognitivo, já que a curiosidade tomará o lugar do pavor, da aversão e da suspeita, geralmente responsáveis pelo seu ensurdecimento, revolta e distracção. Como o treino específico para qualquer disciplina cinotécnica, baseado em primeira instância no aproveitamento das mais-valias caninas, não dispensa o cuidado prévio com a preparação geral que o alicerça, quanto mais rica for a experiência anterior dum cão, mais fácil e maior será a sua posterior aprovação. Muitos dos cães condenados ao mesmo trajecto, mal saem à rua querem retornar a casa, onde normalmente se sentem reis e senhores e menos incomodados, adquirindo comportamentos anómalos por ausência de novidade, reforçando assim a sua territorialidade, antipatia com as visitas e propensão para a destruição, agravando nalguns casos a sua saúde e esperança de vida. Leve o seu cão à praia, ao campo, à cidade e às florestas, vençam túneis e desçam rios, saia com ele de noite e de dia, acostume-o às diferentes condições climatéricas e fenómenos naturais, evolua com ele em diferentes ecossistemas e acostume-o a diversos meios de transporte, porque ao fazê-lo, o cão sairá mais feliz e não deixará de o surpreender, a exemplo do que se passa com os cães de rua moscovitas.

QUERER FAZER BEM E ACABAR POR FAZER PIOR

Amochar está na ordem do dia quando os cães se portam mal, por todo o lado se vêem donos a fazê-lo, como se tivessem a bater massa de pão ou a espremer algum colchão, forma de repreensão violenta que a tudo se presta, inclusive à falta de instrução e sobre cães de manifesta mansidão, procedimento importado que nos revolta e que tanto dano causa aos pobres animais. Mais uma vez vi isso da minha janela, quando uma famélica cadela atacou um indefeso cachorro. Primeiro ouvi o ganir da vítima e depois o gemer lancinante da penitenciada, que após ser suspensa pelo lombo, foi amochada no chão, debaixo de alguns agravos verbais e do comando de “quieto”, ficando assim isolada com o dono a acariciar o outro cão, mais por descargo de consciência do que por verdadeira comoção. Revoltado, sai à rua e fui inteirar-me da situação, dirigi-me ao dono e inquiri das razões de tal procedimento. Segundo ele, a cadela apresenta sérios problemas de sociabilização, porque repetidas vezes tem atacado outros cães, o que não o tem impedido de continuar a soltá-la. Perguntei-lhe porque isolou a cadela e foi fazer festas ao agredido, ao que ele me respondeu tê-la posto de castigo, para não voltar a fazer mal aos outros cães, o que me obrigou a contar até três para não ser desagradável.
Depois, com a calma que os anos me têm dado, expliquei-lhe que ao acariciar o cachorro, estava a aumentar o ciúme da sua cadela e a agravar mais a situação, que ao invés de isolá-la, deveria trazê-la atrelada para junto do agredido, para se familiarizar com ele e caso tentasse agredi-lo, ser de imediato repreendida, conselho que não observou, mais por comodismo do que por outra razão, dizendo-me que o seu procedimento era bastante e o mais correcto. Disposto a dar-lhe uma lição e apostado em denunciar-lhe o erro, ainda que não houvesse sido pago para isso, convidei-o para jogar uma bola, incentivar o cachorro a segui-la e libertar a cadela, desejo que vi na íntegra satisfeito. Como era de esperar, caso não tivesse pegado no cachorro e travado a cadela, o desgraçado teria sofrido um ataque ainda mais violento. Desde quando é que o isolamento se presta à sociabilização? Será que os treinadores de bancada estão a ceder lugar para os adestradores de rua? Há gente que vê televisão a mais, que confunde a ficção com a realidade, que opta por não se instruir e vive convencida que sabe tudo! 

O RICKY, O RICARDO E AS SILVAS

Para tudo há uma primeira vez e o somatório das experiências torna-nos a todos mais capazes. O Ricardo é um rapaz citadino, com 12 primaveras, que conduz o Ricky, um Pastor Alemão preto-afogueado, com 12 meses de idade, 71cm de altura e a rondar os 40kg, irreverente, activo e pujante, daqueles de quem se diz “ser cão a mais” para um tenro pré-adolescente, franzino e super protegido, que não tendo o peso e a envergadura necessários para a tarefa, se vê obrigado a tirar da vontade aquilo o corpo tarda em lhe dar (os cães crescem mais depressa). Apesar das dificuldades, o Ricardo não desiste e pouco a pouco vai levando a água ao seu moinho, apoiado pelos pais e incentivado por quem o ensina. Este fim-de-semana saiu para os arrabaldes saloios, sem saber ao certo ao que ia, apesar de expectante, curioso e resoluto, beneficiando duma tarde primaveril em pleno Janeiro, o que infelizmente já não é de estranhar, diante das notórias alterações climáticas a que vamos assistindo.
Com o Márcio a conduzir o camião TIR da Holanda para Portugal, não houve a possibilidade de se repetirem as acções ofensivas iniciadas na semana anterior. Também a Joana não se pôde fazer presente nos trabalhos, porque a sua mãe celebrava, nesse mesmo dia, o alcance dos seus 60 anos, data memorável para a família que uma filha dedicada não pode desleixar. As ausências destes nossos amigos levaram-nos à introdução da pistagem, disciplina cinotécnica que muito agrada aos cães e para a qual demonstram uma predisposição notável. Como sempre a iniciamos pela procura do dono, o Ricardo foi obrigado a esconder-se no campo escolhido para o efeito, uma pequena parcela rural, outrora uma fazenda e hoje a campo, aqui e ali adornada por caniçais e alguns esparsos silvados. Inexperiente nestas andanças, o moço acabou por se acoitar no meio das silvas, vindo a descobrir pela maneira mais fácil, que elas não se prestam a boa cama.
Na primeira tentativa, o Ricky saiu estonteado, sem saber por onde ir e o que dele se esperava, ignorando os marcadores que lhe indicavam o rasto, despropósito que corrigiu e bem, na sua segunda prestação, que executou de modo condizente, convincente e célere, encontrando o moço como se ele necessitasse de auxílio urgente. Participaram ainda nos trabalhos os seguintes binómios: Fátima/Gigas, Jorge/Adele e Brownie, Matos/Dharma e o Rui Santos com o seu casal de Pastores Alemães vermelhos (sentimos a falta do Óscar e da Raquel).
O Red, apesar dos seus 8 anos de idade, por circunstâncias várias, nunca havia sido introduzido à pistagem, o que não lhe serviu de embaraço, porque prontamente rompeu as silvas e deu com o Rui. A Dharma esteve como peixe na água e a Adele descobriu finalmente um dono, evidenciando bons indícios para esta prática desportiva e utilitária, levando de vencida o receio de se aproximar da pessoa a resgatar, temor que venceu pelo amor que nunca teve e que finalmente encontrou no Jorge.
As actividades terminaram com um jantar no campo, repasto que mereceu de todos rasgados elogios: uma saborosa e suculenta sopa de pedra. Nada disto seria possível sem a disponibilidade e pronta colaboração do Matos, um anfitrião inexcedível que prima pela entrega, franqueza e simpatia.
Voltaremos àquele lugar com novas actividades e mais vitórias.

TIPOLOGIA DOS PASTORES DA ACENDURA BRAVA

Um amigo e aluno nosso, pessoa interessada e apaixonada por Pastores Alemães, agora com uma cadela descendente das nossas linhas de criação, tem vindo a pedir-nos, sistematicamente, que tornemos pública a tipologia dos nossos pastores, apesar de estarmos arredados da criação há uma década, o que não nos tem impedido de seleccionar progenitores para a obtenção de ninhadas, que não sendo nossas, acabam por respeitar os nossos pressupostos selectivos e alcançar os mesmos índices de sucesso laborais. Os pastores da Acendura Brava não diferem em muito dos outros que por aí há, apenas evidenciam as características dos cães anteriores à década de 70 do século passado que, como é sabido, eram substancialmente mais multifacetados, curiosos, seguros, cúmplices e atletas, por norma com uma esperança média de vida maior (13 anos).
Do ponto de vista psicológico são cães calmos, seguros, atentos e curiosos, que vivem em constante observação, com um forte sentimento territorial, que evidenciam um superior impulso ao conhecimento, por norma resistentes e disponíveis, de alta capacidade atlética e de extrema dedicação aos donos, de sociabilização entre iguais quase automática, pouco dados à cegueira dos instintos e de carácter forte, incorruptíveis, propensamente guardiões e silenciosos, vocacionados para o serviço nocturno e apegados ao exercício natatório, que desferem ataques elevados e que normalmente atacam a dois golpes, sendo a sua primeira mordida de ajustamento. Tendem aos ataques cirúrgicos, aprendem com facilidade a desarmar agressores, não se intimidam com os fenómenos naturais e acostumam-se facilmente aos disparos, prestando-se à novidade de desafios e sempre aguardando por serviço. Possuidores de uma excelente máquina sensorial, são exímios rastreadores, evidenciando-se na pistagem e na assimilação dos diferentes percursos de ronda, actividades em que se sentem como peixe dentro de água. A riqueza das suas expressões mímicas é de fácil leitura e a sua rusticidade dispensa-os de maiores cuidados, quando chegados aos 18 meses. Hábeis na transição das respostas naturais para as artificiais, exigem donos de qualificada liderança, para que não correm riscos desnecessários.
No que à morfologia diz respeito e quando comparados com os da linha estética, são menos atarracados de pescoço e menos rampeados (mantendo a curvatura natural da garupa). São menos angulados e apresentam costelas menos rectas, peito profundo e largo, boa ossatura, excelentes aprumos e uma garupa larga e poderosa. Quando excitados nivelam a cauda pela linha do dorso, têm membranas interdigitais redondas e não em cunha (marca da casa), apesar de manterem o tradicional pé-de-gato que caracteriza a raça e que lhe garante a celeridade operativa. De média-alta cadência de galope (de 45 a 51km/h de velocidade instantânea), têm no trote o seu andamento preferencial, alcançando o suspenso sem grande dificuldade numa cadência constante de 7.8km/h (ou mais), em distâncias até aos 50km. Transitam facilmente de andamentos e travam com facilidade e segurança, são exímios nadadores, trabalham no subsolo sem dificuldades e galgam em média muros até aos 2.5m. Depois dos 18 meses e em descanso, a sua frequência cardíaca oscila as 60 e 80 pulsações por minuto, mesmo entre exemplares sem treino ou que nunca trabalharam. Muitos deles podem apresentar alguma semelhança com os cães dos anos 30 e 40. Os pastores da Acendura Brava, quando chegados à idade adulta, são um pouco mais altos pesados e pesados que os seus congéneres, notoriamente de maior envergadura. O valor médio para os machos é de 67cm/42kg e para as fêmeas de 62cm/38kg.
Este regresso ao atavismo da raça só foi possível mediante o contributo de canis alemães, que historicamente produziam cães de trabalho, também de alguns alsacianos e particularmente da contribuição das suas desprezadas variedades recessivas, que no sei todo, tanto ontem como hoje, continuam a enaltecê-la pelo trabalho. De imediato deitámos mão ao beneficiamento histórico entre negros e lobeiros, dando seguimento a uma política de quadro aberto, baseada nos beneficiamentos entre as diferentes variedades cromáticas presentes no Cão de Pastor Alemão. Por causa disso, a maioria dos nossos pastores é recessiva em negro uniforme e qualquer exemplar da variedade dominante (preto-afogueada), pode ter na sua ascendência lobeiros, negros, vermelhos e cinzentos uniformes. Apesar de não desprezarmos os cães de exposição, mais nos importou evidenciar os de trabalho, seleccionando-os pelas provas dadas e objectivando o seu histórico desempenho. Como o assunto não se esgota nesta breve síntese, oportunamente voltaremos ao assunto.

QUAL SERÁ O MOTIVO (XII)?

Um Pastor Alemão, que de um momento para o outro se transformou em vedeta, ao gravar uma cena de determinado episódio televisivo, viu-se na contingência de perseguir 3 presumíveis criminosos de origem africana, que se escapavam lado a lado e a correr na sua frente. Como estas coisas do cinema são demoradas e exigem várias repetições, a dita cena foi repetida várias vezes e o cão sempre mordia no mesmo figurante, desprezando os outros dois, para desgraça do pobre coitado e espanto de quem se encontrava no “plateau”. Qual seria o motivo da sua preferência? Hipótese A: Apanhava sempre o mesmo porque ele se atrasava. Hipótese B: A preferência do cão não obedeceu a nenhuma causa, foi meramente acidental. Hipótese C: Porque aquele indivíduo era o mais gordo dos três e transpirava mais. Hipótese D: Porque aquele homem lembrava-lhe alguém que detestava. Hipótese E: Porque dos três era o único que tinha medo de cães. Para a semana adiantaremos qual a hipótese correcta. 

SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR

A hipótese certa para a rubrica “QUAL SERÁ O MOTIVO (XI)?” da semana passada é a Hipótese D: Queria sair para defecar. Atendendo à rusticidade do animal, a Hipótese A não deverá ser considerada, até porque a dureza do terreno seria mais notada pelo dono do que pelo animal. A Hipótese B não se coloca perante o tipo de manto do cão, que dormindo ainda com o dono, dificilmente acusaria a baixa de temperatura. O texto indicia tratar-se de um cão adulto, logo acostumado a um horário próprio para a distribuição de ração, pelo que a Hipótese C deverá ser descartada. Quanto à Hipótese E, dificilmente o cão estranharia o ressonar do dono, uma vez que estava acostumado a dormir ao seu lado e por vezes na mesma cama. Como resultado do sucedido, porque se tratou dum caso real, o dono ao acordar, viu-se coberto por uma abundante, inesperada e malcheirosa gelatina.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim escalonado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO, editado em 05/06/2010
3º _ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
4º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
5º _ PASTOR DE SHILOH: SUPER-CÃO OU DECEPÇÃO?, editado em 23/01/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu á seguinte ordem:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Rússia, 5ºAlemanha, 6º México, 7º Indonésia, 8º Ucrânia, 9º Índia e 10º Luxemburgo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

যুক্তরাজ্য দারিদ্র্য COMPANHEIROS DE INFORTÚNIO

Sam Edmonds, um fotógrafo e operador de câmera australiano, numa viagem ao Bangladesh, descobriu na Capital daquele País, Dhaka, quando se encontrava a trabalhar junto da ONG Obhoyaronno e por indicação do seu presidente, um grupo de 10 crianças de rua que adoptaram 10 cães vadios, vivendo com eles familiarmente no Parque Robindra Shorbod daquela Cidade, maioritariamente muçulmana, infestada de cães transmissores de raiva e uma das mais populosas do Mundo, que há muito ultrapassou os 15 milhões de habitantes. Os miúdos sobreviviam e sobrevivem da apanha do plástico que encontram e servem-se dos seus magros proventos para se valerem a si e aos cães. Graças ao trabalho de Edmonds, que fotografou aqueles miúdos e cães, intitulado “Robindra Boys” e aos esforços da já citada ONG, o Governo Bengali, ao invés de proceder a um plano de matança canino generalizado, como já aconteceu noutras latitudes, levou a cabo um programa de vacinação anti-rábica sem precedentes.
As crianças saíram do anonimato ao ser conhecida a sua história através das fotos, que acabaram por enternecer meio mundo e alertar a opinião pública para o problema dos animais abandonados naquelas paragens. Pondo de parte o sensacionalismo da notícia e o seu aproveitamento político, porque histórias destas há-as por toda a parte (aqui superabundam os ciganos romenos com pinschers e os sem-abrigo com cães de toda a espécie), exalta-se uma vez mais a função terapêutica canina, a sua contribuição para o bem-estar das gentes, no combate ao ostracismo, à exclusão social e à solidão. Oxalá os miúdos sobrevivam, cheguem à idade adulta e singrem na vida. Registam-se aqui os nomes que deram aos cães (por ordem alfabética): Basha, Bullet, Jaz, Kula, Lalu, Michael, Moti, Romeo, Tiger e Tom, uns que nos são familiares e outros próprios da cultura do lugar. O final feliz da história não esconde o crime, a vergonha e a miséria de haver crianças abandonadas e jogadas na rua. Queira Deus que a Sr.ª Christine Drummond, uma neozelandesa produtora e apreciadora de comida de cão, que ainda recentemente disponibilizou 42 toneladas dela para valer às crianças esfomeadas do Quénia, não tome conhecimento dos “Robindra Boys”, caso contrário, de uma só cajadada mataria dois coelhos, sentir-se-ia imensamente feliz e benemérita, ao enviar-lhes umas quantas paletes de “junk food”! Talvez a esperança de haver vida para além da morte, nos impeça, de alguma forma, de nos matarmos todos aqui, onde a injustiça reina e o fratricídio não cessa. Força miúdos!

“IN” DE INAUDÍVEL, INVISÍVEL, INCANSÁVEL, INCORRUPTÍVEL E INVENCÍVEL

NOTA PRÉVIA: Antes de avançarmos sobre o tema, tudo o que aqui fizermos saber, só deverá ser levado a cabo quando respeitado o disposto no art.º 12 da Lei 46/2013 de 4 de Julho, cuja leitura aconselhamos vivamente aos nossos leitores, para salvaguarda dos cidadãos, dos seus direitos e evitar capturas abusivas, desnecessárias ou acidentais.
Os adjectivos acima qualificam um genuíno cão de guarda. Para que evidencie essas qualidades, será necessário que possua um bom impulso ao conhecimento, capaz de lhe garantir a curiosidade e o aprendizado pelos erros, diante do rigoroso treino a que irá ser sujeito, visando a sua autonomia condicionada. É evidente que se espera que também tenha bons impulsos ao alimento, ao movimento, à defesa, à luta e ao poder. Somado a isto, um autêntico cão de guarda deverá associar ao seu perfil psicológico o particular físico que melhor sirva às suas mais-valias cognitivas e operacionais, para não ser surpreendido e sair vencedor, pormenor também ligado ao quociente da divisão da sua altura pelo peso, que deverá oscilar entre 1.75 e 1.6, já que os cães de quociente 1.8, 1.9, 2 e daí por diante, apesar de rápidos, são mais barulhentos e menos cuidadosos, próprios para ataques deliberadamente ostensivos e quase instantâneos, em pisos regulares, duros e de reduzida dimensão. Os cães mais pesados, que ostentarão quocientes de 1.6 a 1.5, por mais excelentes que se mostrem, jamais conseguirão esconder a demora na sua prontidão, pela exaustão que os apoquenta e tornará inoperativos. A questão do défice do peso tem estado intimamente ligada à solução atabalhoada da mestiçagem entre Pastores Alemães e Malinois, no que à guarda diz respeito, considerando a relação entre a fisionomia e a capacidade de aprendizagem dos indivíduos sobre a natureza dos seus ataques, se maioritariamente instintivos ou condicionados.
A missão do cão de guarda aglutina duas funções: a de sentinela e patrulheiro, exigindo ambas um policiamento inaudível que possibilite uma abordagem segura e bem sucedida, particularmente nas vigias nocturnas, quando os sons são mais perceptíveis à distância, o que irá exigir o casamento perfeito das patas do animal com o tipo de solo que pisa, uma boa condição física para que a respiração do cão não seja demasiado audível e denuncie a sua presença, o que a acontecer, lhe tirará a vantagem do efeito surpresa, comprometerá a eficácia dos seus ataques e poderá facilitar o seu aniquilamento.
Pelas mesmas razões, deverá encontrar-se sociabilizado com todo o tipo de animais, para não lhes dar caça, não se entreter com eles e acabar caçado. Contrariamente ao que por aí se vende, o cão de guarda não é uma ladrador nato, mas um predador que não denuncia a sua presença, mesmo quando instado a mostrar-se, que sinaliza a presença de intrusos, quando for caso disso, pela fixação e imobilização, jamais pelo recurso a qualquer uma das suas vozes, a menos que tal lhe tenha sido ordenado. Também não deverá entrar ao serviço com qualquer tipo de coleira ou estrangulador posto, para não denunciar a sua presença e facilitar o seu domínio no confronto directo. Alguns cães, devido ao particular das suas articulações traseiras ou ao pouco desgaste das unhas, fazem muito barulho quando se deslocam nos pisos duros, o que lhes compromete o serviço e a salvaguarda, entraves que não lhes dispensarão o aparo das unhas.
Se o cão à noite deverá ser um fantasma, durante o dia não deverá passar de uma miragem, porque importa que não seja visto nem os seus hábitos conhecidos, porque doutro modo sempre arranjarão maneira de o distrair, ludibriar e até capturar (mais pesado e bruto é um javali mas sabendo-se por onde passa, facilmente o caçaremos com um simples laço). Para que isso não suceda torna-se obrigatório que a cor do manto do cão se confunda com a policromia das cores dominantes locais, que o seu ponto de observação (uma prioridade a estabelecer) não seja visível da rua, que não deambule pelo perímetro a guardar, que não se refresque ou coma quando em trabalho e que não satisfaça as suas necessidades fisiológicas durante os turnos de vigilância, pelo que, antes de entrar ao serviço, deverão ser retirados dali quaisquer dejectos, brinquedos e objectos capazes de o distraírem ou de melhor servirem as intenções e defesa de quem invade. Nunca por nunca, deverão ser deixadas mangueiras no local atribuído à sua vigilância, para que não sujeite a um canhão de água ou venha a apanhar umas valentes ripadas. Quando os horários de policiamento são diurnos e o calor aperta, não havendo outra possibilidade, o seu bebedouro deverá ser colocado num local escondido, de material inaudível, fixo ao chão e colocado sobre um tapete, para não tornar perceptível a sua vulnerabilidade e o cair da água não denuncie onde se encontra.
Pelo que acabámos de dizer, nenhum cão será um guarda efectivo se não for conveniente preparado e instalado no local do seu serviço. Quando as temperaturas mensuráveis na área se encontrarem acima dos 28 graus célsius e não havendo sombra que o proteja, os turnos de vigilância não deverão exceder as 2 horas, porque mesmo que não seja visto, virá a ser denunciado pelo aumento da sua frequência respiratória, menos valia que geralmente vitima os cães mais curtos de focinho. Diante destas contingências e por norma, o cão deverá beber e urinar antes da sua prestação. Se porventura se destinar ao policiamento nocturno, deverá ter um manto próprio para a tarefa, preferencialmente de pelo duplo, muito embora abaixo dos 5 graus célsius tenda a abrigar-se e a acomodar-se, podendo vir a desleixar-se, o que obrigará a treino aturado debaixo das amplitudes térmicas que irá encontrar, para que não as estranhe e nelas se habitue, desempenhando cabalmente as suas tarefas A chuva não causa entrave à esmagadora maioria dos guardiões, muito embora devam evitar as poças por ela formadas, não as usando como piscinas ou meio de arrefecimento, hábitos que lhe poderão ser fatais.
Considerando a salvaguarda do cão e sua prestação, sempre lhe será mais fácil o policiamento nocturno, desde que não se veja iluminado e as luzes do perímetro a guardar se encontrem apagadas, porque é menos visível, dispensa maior acuidade visual e o recurso ao faro vem em seu auxílio. O policiamento diurno, que aumenta a sua exposição e por conseguinte a sua vulnerabilidade, irá obrigá-lo a um condicionamento objectivo e repetido, para diminuir a sua silhueta e evoluir a coberto dos acidentes naturais ou artificiais que lhe garantam a ocultação e lhe possibilitem a apresentação de surpresa. Por outro lado, ele deverá operar apenas no território a guardar, desinteressando-se das pessoas para além dos seus limites e das provocações vindas do exterior, geralmente usadas para ser visto, estratagema comum que visa a sua identificação e posterior desarme. Tudo isto será inalcançável se não for portador de um forte impulso ao conhecimento, qualidade que lhe garantirá uma superior capacidade de aprendizagem e facilitará a missão.
Como se depreende, o exercício guardião não dispensa a componente atlética que o sustenta, todo um conjunto de exercícios aeróbios que possibilitarão os futuros anaeróbios inerentes à sua vocação, que deverão ter início logo após ter alcançado a idade da cópia (4 meses), para que a sua rusticidade não seja diminuída, a sua resistência aumente, os seus índices laborais se mantenham por mais tempo e melhor se adapte às exigências do serviço, cuidado que geralmente oferece a frequência mais baixa dos seus ritmos vitais, benefícios exigidos pela natureza da sua prestação.
Todo o cão de guarda que se deixa corromper tem breve duração e os dias contados, porque cedo se avizinha a sua eliminação, por mais atento e valente que seja. A quase totalidade do envenenamento canino fica a dever-se à ingenuidade, comodismo, irreflexão e irresponsabilidade dos donos, que apostados sabe lá em quê, desprezam os subsídios capazes para valerem aos seus cães. A corruptibilidade canina é instintiva e alimentada pelos maus hábitos, advinda da usurpação por terceiros das prerrogativas inerentes aos donos, que em sua substituição, promovem assim a banalização dos animais, apelando despudoradamente aos seus instintos mais básicos e indo ao encontro das suas preferências.
Se é verdade que o treino existe para o controlo dos instintos e potenciação dos impulsos caninos, então ele será mais que obrigatório para os cães de guarda. Tornar um cão incorruptível é a mais nobre das tarefas dos donos. Para que isso aconteça, há que somar às medidas preventivas, que começam por ser domésticas e exigem regra, a recusa de engodos e o desprezo pelos convites alheios, os relativos à comida, à brincadeira e indutores à desobediência, já que douto modo a contra-ordem sairá vitoriosa, mercê da afeição que vence todas as regras. Só dono deverá distribuir alimento ao cão e só ele deverá fazer uso dos brinquedos e demais pertences do animal. O treino específico da recusa de engodos só deverá acontecer depois da cessação da fase de crescimento dos cães e do alcance da sua maturidade emocional, para não prejudicar o seu desenvolvimento e não lhes gerar confusão.
Só a genética e a preparação cuidada tornarão um cão de guarda quase invencível, e não dizemos totalmente porque no combate entre o inteligente e o dito irracional, normalmente vence o primeiro, por ser mais perspicaz, possuir maior engenho e ter acesso a um arsenal mais variado, apesar do medo e da tensão o levarem de vencida em várias situações. Como o cão parte em desvantagem, é obrigatório que opere as suas capturas debaixo do efeito surpresa, que não se deixe iludir pela imobilidade dos intrusos, que aprenda a desarmá-los e imobilizá-los, mediante ataques cirúrgicos que impeçam imediata e definitivamente a sua defesa, porque a exemplo de um lutador de rua, quem se antecipa acaba por ganhar.
Só a experiência o tornará mais eficaz, o que o obrigará em treino, à captura de cobaias de diferente apresentação, técnica e recursos. Só a certeza da vitória obstará à sua rendição e fuga, o que indicia uma capacitação lenta e gradativa perante os níveis de resistência oferecidos – o cão deve sair vencedor de qualquer peleja, para ganhar confiança e partir decidido para o próximo confronto. Como o  assunto é extenso e apaixonante, prontificamo-nos a outros esclarecimentos que nos forem solicitados, adiantando que treinar seriamente um cão para esta função demora em média 18 meses e que raros são os cães que se encontram verdadeiramente capacitados antes dos 2 de idade, não dispensando o treino continuado que se presta à recapitulação, conversão e actualização das acções instaladas.

OLHO DE VIDRO E CARA DE MAU: O CATAHOULA LEOPARD DOG

O Cão Leopardo da Catahoula, “Louisiana Catahoula Leopard Dog”, depois de ser adoptado como cão oficial da Louisiana em 1979, é um cão de origem incerta e de linhagem tão obscura quanto a sua aparência. Existem duas teorias relativas à sua origem, uma atribuída aos Índios norte-americanos e outra aos colonos franceses que se radicaram na Louisiana. A primeira diz que o cão resultou do cruzamento de cães índios com os molossos de Hernando de Soto, no Século XVI e a outra que resultou do cruzamento entre o Beauceron e o Lobo Vermelho, três séculos mais tarde. Também não se sabe ao certo qual a origem do seu nome, pois há quem diga que resultou da aglutinação de duas palavras indígenas e outra que é produto do seu afrancesamento. Discussões à parte, enquanto cão de trabalho, o Catahoula foi seleccionado pelas suas qualidades e temperamento e não pela estética, o que tem levado muitos a considerá-lo como “cur” (rafeiro/mestiço), também devido às diferenças do seu tamanho e características físicas, disparidade sustentada por 3 linhas de criação diversa: Wright, Fairbanks e McMillin, que acabaram por acasalar entre si (apesar de reconhecida pelo AKC, a raça ainda não foi reconhecida pela FCI).
O que torna este cão único é sua aparência bizarra, com um ou dois olhos vítreos ou cada um metade colorido, o que lembra vidro rachado, e uma pelagem próxima do Cavalo Appaloosa ou do Dog Alemão Arlequim, para além da sua especialidade, que faz toda a diferença, a de subir às árvores (daí o termo leopardo), graças à morfologia das suas patas, que têm membranas interdigitais, funcionando como ventosas e que se prestam também e muito bem, ao seu desempenho dentro dos pântanos quando obrigado a nadar. Bom trepador e exímio nadador, o Catahoula é um caçador anfíbio, exímio e inveterado, que nada dá descanso a esquilos, guaxinins, javalis, leões da montanha, ursos negros e veados, assim como a qualquer animal doméstico se não for convenientemente sociabilizado, servindo ainda como pastor de varas e manadas, encontrando-se nisso apto para prestar provas de trabalho. Extremamente resistente, ele consegue bater grandes distâncias sem se cansar, perseguindo a presa silencioso e sem denunciar a sua presença, fixando-a primeiro e atacando-a depois. Graças às suas qualidades de pastor e caçador, já chegou à Austrália e Nova Zelândia, onde os seus créditos foram confirmados. Sem dúvida que aqui faria furor na caça ao javali. Ultimamente, por influência de alguns vídeos na Internet e a conselho da insanidade, muitos cães viraram Catahoulas e passaram a amarinhar pelos troncos de árvores, sem membranas interdigitais e sem certeza de isenção da displasia do ombro, o que é um claro atentado à saúde desses pobres animais.
Como guarda, por ser mais defensivo que ofensivo, este cão presta-se mais ao alarme do que à captura, apesar de ser territorial, o que não impede de capturar por intercessão ou de surpresa, sendo mais lesto e espevitado na perseguição. Contudo, exactamente por ser defensivo, pode cortar qualquer estranho que lhe force o convívio ou que lhe surja sem avisar. Quando devidamente sociabilizado para o efeito (logo desde tenra idade), pode vir a constituir-se num óptimo cão de busca e salvamento, tanto dentro como fora de água. Próprio para o canicross e para o agility, será um excelente cão de obstáculos e virá a ser um bom animal de companhia desde que não lhe outorguem a liderança, lhe estabeleçam regras e o sociabilizem cedo, porque tem como tendência varrer qualquer animal da sua frente e agredir quem lhe toque no prato da comida. Mas se por um lado isso é mau e indesejável, por outro, este cão pode ser um excelente guardião de capoeiras, expulsando texugos-çães, saca-rabos, doninhas e raposas. Por estas razões, nem todos poderão ter um cão desta raça, já que tende a dominar tudo e todos para impor a sua vontade, apesar de muito dedicado e protector da família. Quando criado com as crianças, rapidamente se tornará num excelente bodyguard da pequenada.
O Catahoula atinge a maioridade emocional aos 2 anos de idade. Muito embora seja de propensão independente e dominante, ele apresenta um bom impulso ao conhecimento, é versátil e cúmplice, desde que não o isolem e o condenem à inactividade, factores que geralmente o induzem a grande destrutibilidade, a mordiscar tudo o que se move e lhe passa pela frente (crianças, corredores, outros animais, bicicletas e viaturas automóveis, porque foi criado para o ofício cinegético, é um atleta em potência, extraordinariamente vigoroso, activo e excursionista (tanto como um Border Collie, um Jack Russell Terrier ou Braço Alemão de pêlo curto), o que irá reclamar uma interacção diária com o dono, trabalho e algumas léguas de passeio. Seria o cão indicado para um monte alentejano ou propriedades rurais com alguns hectares. A transição de alvos (dos animais para as pessoas) não é tarefa fácil, muito embora possa ser facilitada pelo exemplo dum cão de guarda tipo, mais velho, dominante e nisso indutor. Na hora da mestiçagem em que vivemos, já houve quem beneficiasse os seus Pastores Alemães com Catahoulas, no intuito de verem aumentada a sua versatilidade e a rusticidade, na idílica procura do super-cão.
O melhor aproveitamento das características do Catahoula assenta sobre dois pilares: liderança e sociabilização, liderança para alcançar o fim útil e sociabilização para lhe fortalecer o carácter, porque importa dominá-lo e levar de vencida os seus instintos, ataques inusitados, desconfiança e temores, para que não venha a tremer diante de qualquer um ou a agredir alguém com um comportamento diferente, independentemente da atribuição que venha a alcançar. Para além da necessidade de exercício diário, o Catahoula necessita de um abrigo quente se ficar no exterior, não tanto no nosso clima mas noutros com temperaturas mais baixas durante o Outono e Inverno. Morfologicamente estamos a falar dum cão do médio para o grande, de características molossóides, de cabeça larga, crânio achatado e rectangular, peito profundo (o que indicia um coração potente e boa capacidade pulmonar), maioritariamente de pêlo curto, com membros robustos e sólidos e cauda em arco, com uma esperança média de vida dos 12 para 13 anos. A sua altura oscila entre os 51 e os 70cm, respectivamente nas linhas McMillin e Wright e o seu peso entre os 16 e os 50kg, muito embora o projecto do seu estalão avance menor disparidade (de 16 para 37kg e de 51 para 61cm).
O Catahoula apresenta três tipos de manto, um bastante curto e rente à pele (descrito como “coat slick”), outro de pêlo comprido e finalmente um lanoso (coat wooly-wooly). Nem todos os Catahoulas têm pelagens arlequins por acção de gene dispersor “merle”, que não actua na totalidade do manto dos cães mas que dilui as cores somente nas áreas que apresentam aleatoriamente a sua presença, subsistindo indivíduos de cor sólida, normalmente castanhos, vermelhos, cinzentos e pretos, que podem apresentar manchas brancas na cabeça, no peito e nos membros, havendo ainda alguns tigrados. Entre os portadores do gene merle, sobressaem os vermelhos (mesclados de castanho e afogueado), os azuis (mesclados de cinza e preto), os pretos (com pouquíssimas manchas azuis ou cinza) e os cinzentos, podendo todos evidenciar algumas manchas brancas nas áreas já citadas. Para além destes, existem ainda exemplares tricolores, alguns que combinam cinco cores e outros maioritariamente brancos, com pequenas malhas de cor sólida ou totalmente invadidos pela presença do gene merle (os “patchwork”). Independentemente do tipo e da cor do seu manto, os Catahoulas não exigem cuidados adicionais na sua escovagem diária. Como a raça é proeminentemente branca, a surdez é o maior dos seus problemas, podendo ser total ou reportar-se somente a um dos ouvidos. Alguns cães apresentam problemas de visão e displasia da anca, mas com valores menores aos encontrados noutras raças. Eventualmente, chegada a velhice, alguns exemplares virão a sofrer de cancro.
O Catahoula, para além das atribuições que já manifestámos, pode ainda constituir-se num bom detector de componentes explosivos ou de elementos químicos. Graças à sua selecção para o trabalho, robustez física, propensão trepadora, características anfíbias, diferentes tamanhos, mantos e cores, a raça tornou-se universal e capaz de fornecer indivíduos para todo e qualquer ecossistema, garantindo os mesmos índices laborais. Caso raro no panorama da canicultura mundial, fortemente dominado pelas diferenças estéticas e desconsiderando as aptidões caninas, o Catahoula pode ser considerado “o rei dos cães”, um património da América para os americanos, tantas vezes enfeitiçados pela Europa e por vezes fixados nas últimas tábuas do “Mayflower”, apesar dos estaleiros e docas de Rotherhithe já não existirem. Oxalá não vão atrás de modas e valorizem a prata da casa, potenciem a raça e venham a servir-se dela como melhoradora doutras, já que pouco se espera da mui estagnada cinotecnia europeia.

AGRADECIMENTO AOS CÃES MAIS VELHOS

Não temos como agradecer aos cães mais velhos, que ao longo de décadas têm puxado pelos nossos cachorros, carregando-os literalmente às costas, para alcançarem igual ou maior desempenho, servindo de exemplo e agentes de ensino. Diante de tal impossibilidade, é justo que estejamos igualmente gratos aos seus donos, pela disponibilidade e empenho que manifestaram e continuam a manifestar. Os mestres actuais têm sido a Brownie, o Giga, o Radar e o Touro, que para além de servirem de exemplo aos mais novos, têm alentado os condutores recém-chegados, pelo que agradecemos ao Jorge Martins, à Joana Melo e à Mª João Costa Lobo o auxílio prestado.

QUAL SERÁ O MOTIVO (XI)?

Um Cão da Serra da Estrela, criado desde pequeno no quarto do dono, por vezes a dormir na cama dele, foi para um acampamento escolar, onde pernoitaram os dois numa tenda. Por volta das primeiras horas da madrugada, estranhamente, o cão levantou-se e não parava quieto, saltando por cima do dono, puxando-o com as patas e gemendo. Qual seria o motivo da sua inquietação? Hipótese A: Estranhou a dureza do piso. Hipótese B: Acusou a baixa de temperatura. Hipótese C: Tinha fome e queria comer. Hipótese D: Queria sair para defecar. Hipótese E: Sentiu-se aflito ao ouvir o dono ressonar. Para a semana adiantaremos qual a hipótese correcta.

SOLUÇÕES DA SEMANA ANTERIOR

A resposta certa à rubrica da semana passada “QUAL SERÁ O MOTIVO (X) “ é a “Hipótese B: Transporta a bola para chamar à atenção dos donos, para que o levem à rua. Perante o que o texto adianta, a “Hipótese A” não faz qualquer sentido. A “Hipótese C” é uma suposição que o mesmo texto não sustenta, pelo que não deverá ser considerada. A “Hipótese D” não tem qualquer nexo, porque se o cão temesse que os donos lhe roubassem a bola, escondê-la-ia e não a levaria até eles. A “Hipótese E” é uma conclusão antropomórfica, pelo que deverá ser descartada.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos adiantou a seguinte preferência:
1º _ CACHORROS GIGANTES E MUITO ANGULADOS NO 1º CICLO ESCOLAR, editado em 09/11/2012
2º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado 26/10/2009
3º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
5º _ COMPANHEIRO DE SESTAS E GUARDA-NOCTURNO, editado em 26/04/2013

OS NOSSOS LEITORES DA ÁSIA

Cresce o número dos nossos leitores na Ásia e no Sudoeste Asiático. O país daquelas paragens que maior número nos fornece de leitores é a China, muito embora tenhamos leitores regulares dos seguintes países: Azerbaijão, Bangladesh, Brunei, Coreia do Sul, Emiratos Árabes Unidos, Filipinas, Hong-Kong, Índia, Indonésia, Japão, Macau, Malásia, Myanmar, Nepal, Singapura, Taiwan e Vietname, nações por onde outrora andaram os nossos navegadores, mercadores e missionários, algumas de economia florescente e de razoável interesse pela cinotecnia, ao ponto de estarem a seleccionar e padronizar as suas raças caninas autóctones. Oxalá o seu interesse se mantenha. O Continente que mais leitores nos dá é o Europeu, cujos leitores do Leste não param de aumentar, seguido pelas Américas e depois pelo Asiático. A maioria dos nossos leitores africanos provém dos países de língua oficial portuguesa, onde se destacam Angola, Moçambique e Cabo Verde. No Quénia também temos leitores regulares e eventualmente alguns do Burquina-Faso, facto que ainda nos causa alguma estranheza. O número de leitores provenientes da Austrália é pouco significativo entre nós, menor até que os da Nova Zelândia. Um dos nossos objectivos do ano transacto era o de alcançar mais leitores no Oriente, o que graciosamente aconteceu a bem do nosso intercâmbio cultural e cinológico. 

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Ucrânia, 6º China, 7º Rússia, 8º Bangladesh, 9º Polónia e 10º Indonésia.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

UMA EXPERIÊNCIA DO ARCO-DA-VELHA

Apesar da sua aparência rocambolesca, a história que vamos contar-vos aconteceu recentemente, não será caso único e voltará a acontecer, graças à omissão da lógica e ausência de raciocínio, na cegueira do desejo que espera o milagre e que desconsidera os riscos. E sobre milagres, ficamos com as palavras de um mirandês, um iletrado fustigado pelos anos que sempre diz: “milagre é não estar só neste mundo e haver vida para além da morte”. O patriarca de uma família numerosa, carente de espaço para a sua gente, é surpreendido por uma boa notícia: um parente seu põe-lhe à disposição uma quintinha lá para os lados de Sintra, notícia inesperada que muito o alegrou e que veio ao encontro das suas expectativas e desejos. Na dita quintinha vivem lá três cães há muito amatilhados, um labrador negro e dois galgos, todos adultos, que ali continuarão e que recentemente trucidaram um rafeiro incauto, por lhes ter invado o espaço, episódio que tem alimentado a antipatia da vizinhança. O líder daquele trio é o labrador e os galgos sempre aguardam o seu mote, escalonamento que lhe garante a unidade, tornando-o coeso para o que der e vier.
O patriarca da nossa história tem também dois labradores, um dourado e outro chocolate, irmãos de ninhada, também eles amatilhados entre si e já sexualmente maduros, que foram criados no apartamento com a família. A dominância do dourado sobre o chocolate é por demais evidente, tão evidente que o segundo é deveras submisso, isento de iniciativa e sombra do irmão, acusando de sobremaneira a sua ausência e escudando-se nele nos passeios ao exterior, sendo incapaz de se defender. Apostado na sociabilização dos seus cães com o trio residente na quinta, com quem irão dividir o mesmo espaço, e sabendo que o dourado é mais activo e belicoso, o homem decidiu apresentar, sem mais nem menos, o seu labrador chocolate aos cães ali acantonados, na esperança que se todos se dessem bem, já que o seu cachorro não era uma ameaça aos olhos de ninguém.
Mal a “experiência” teve início, o labrador da quinta caiu ferozmente sobre o cachorro, no que foi secundado pelos galgos. E não fosse a pronta acção do dono, que o tirou daquele imbróglio, o pobre cachorro chocolate teria ficado em fanicos! Seria de esperar outro desfecho? Obviamente que não, considerando a matilha animal constituída e o seu histórico anterior. O consentimento doutros cães dentro duma matilha animal já constituída não é automático nem gratuito, particularmente entre cães adultos, já que esse agrupamento social se estabeleceu pela ausência de liderança humana e foi escalonado, em sua substituição, a partir do cão do cão mais forte, que sobre os outros exerce o seu domínio. Nem mesmo os cães hierarquicamente abaixo dele verão com bons olhos o aumento da matilha, entendendo os recém-chegados como intrusos, concorrentes e capazes de operar a sua despromoção social, sendo por vezes os primeiros a agredi-los como garante do seu status, perante a indiferença ou aceitação dos mais novos pelo dominante.
Nestes casos há que fragmentar a matilha, instituir a liderança humana e tratar cada cão individualmente, colocando todos, a seu tempo, debaixo da nova ordem, familiarizando cada um deles com os cães novos, de preferência com os beligerantes atrelados, o que dará maior confiança e protecção ao recém-chegados e impedirá os instalados de os amedrontarem ou escorraçarem, porque a sociabilização sem a prévia familiarização tende a estabelecer-se a partir do lei do mais forte e a perpetuar-se pelo medo, o que irá obstar ao bem-estar e desenvolvimento dos cães mais fracos, carenciados de recuperação. Não tendo o dono perfil ou disponibilidade para a tarefa, o melhor que tem a fazer é separá-los e alojar cada um deles num canil individual e gradualmente ir operando a necessária familiarização debaixo de supervisão, soltando e juntando os dois cães novos, alternadamente, com cada um dos residentes, porque o maior número dos recém-chegados irá obrigá-los a um novo tipo de postura, porque sem o apoio do grupo inicial, sentir-se-ão vulneráveis e alcançarão outro tipo de relacionamento e convivência. Quando os cães se encontram separados em canis no mesmo local, a liderança humana é facilitada e a familiarização dos animais torna-se mais fácil, porque precisam de ser soltos e dormem lado a lado. O êxito sempre resultará da transição da autonomia desregrada para a condicionada, trabalho que exigirá dos donos atenção, paciência, estudo, autoridade e reparo.