quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

RAÇÃO ENERGÉTICA, VITAMINAS E GELEIA REAL

Entre o equinócio do Outono e o solstício de Inverno, por vezes também entre o último e o equinócio da Primavera, nas ditas estações intermédias que normalmente ditam a muda do pêlo dos cães, segundo o relógio biológico, temos por hábito e sempre nos demos bem, distribuir aos cães de trabalho rações de alta energia, considerando o desgaste que o Outono provoca nos animais. Geralmente, ao enriquecimento da dieta associamos a adição de vitaminas ou a distribuição de geleia real, um estimulante biológico de acção energética e regeneradora do organismo, que muito tem contribuído para o bem-estar, saúde e longevidade dos nossos cães, não apresentando qualquer contra-indicação.
Nestas ocasiões procuramos rações à base de borrego ou de peixe, com teores de gordura entre os 18 e os 20%, procedimento que somado aos atrás adiantados, tem garantido a celeridade da muda, a obtenção de um bom “casaco” para o Inverno, maior resistência diante das alterações climatéricas e sazonais, para além de melhor desempenho laboral. Uma saca de ração energética, um frasco de vitaminas ou uma embalagem de geleia real, duas vezes ao ano, não irão agravar significativamente as despesas com os cães e só lhes irão fazer bem. As fotos que ilustram este artigo são do Mastim do Tibete, um cão pouco conhecido, que não para de nos surpreender e de quem iremos falar brevemente. 

SE ELE DESAPARECER, NÃO HESITE, LIGUE LOGO!

Parece impossível mas o número de cães desaparecidos não pára de aumentar. Por todo o lado vemos notícias e fotografias de cães que se perderam, ao ponto de se tornar corriqueira esta situação excepcional. É possível que a pobreza encoberta leve alguns proprietários caninos ao abandono dos seus animais, disfarçando assim esse acto diante da presença do microchip nos cães. Caso o seu cão desapareça, ligue imediatamente para o Canil Terminal Municipal da área onde o animal se perdeu, porque pode acontecer, mais por engano e superlotação, o abate de alguns cães antes do breve período da sua reclamação e concedido pró seu resgate. Depois, contacte os postos policiais da área (GNR, PSP, Guarda Municipal, Florestal e Marítima), assim como consultórios veterinários ao redor, adiantando-lhes o nº do microchip e a descrição pormenorizada do animal. Caso haja essa possibilidade, sirva-se também dos bons ofícios das rádios locais. Nada disto irá dispensar a busca imediata que deverá efectuar. Não encontrando o cão, é chegada a hora de colar os avisos nos locais públicos mais concorridos, tendo o cuidado de neles colocar uma fotografia a cores, que desnude a morfologia, estatura e envergadura do animal a monte, adiantando o seu nome, sexo e idade, para além doutras particularidades que o tornam único.
Na foto acima, podemos ver o Sargento norte-americano Terry Young no programa da Oprah, com a apresentadora ao centro e abraçada à sua esposa, sendo acompanhados por uma cadela mestiça de Pastor Alemão, vermelha de médio porte: a “Target”, a quem a família Young ficou a dever a ida àquele show. A Target, o Sacha e o Rufus, três rafeiros vadios no Afeganistão, foram adoptados pelos militares americanos da Base de Dan Aw Patan, na província oriental de Paktia, junto à fronteira com o Paquistão, tornando-se suas mascotes. A meio de uma noite de Fevereiro, um homem-bomba, atado a 25kg de explosivos, invadiu aquela base para matar o maior número de soldados americanos possível e causar outros danos. Os três cães detectaram-no e adivinharam-lhe as intenções, escorraçando-o dali para fora e obrigando-o a detonar-se no exterior, depois de lhe terem ladrado e mordido. Graças à acção dos cães, as vidas de 50 soldados americanos foram poupadas, apenas cinco deles ficaram feridos e todos já se encontram recuperados. O Sacha morreu no confronto, a Target e o Rufus ficaram feridos, vindo a ser tratados pelos médicos militares, alcançando a partir dali, merecidamente, o estatuto de heróis. Na foto abaixo podemos ver o Rufus e a Target.
Quando os militares terminaram a sua comissão e regressaram a casa, trouxeram os cães consigo, Rufus foi entregue aos cuidados doutro militar e rumou para a Geórgia, cabendo ao Sargento Young, a viver no Arizona, ficar com a Target. Depois de se acostumar a conviver com o outro cão residente na casa do citado sargento e de se habituar a comer ração, a cadela, no intuito de se aliviar, saiu da casa do dono e foi parar a um quintal vizinho, o que levou o seu proprietário a requisitar os serviços do canil municipal, vindo a Target a ser capturada, não tendo na altura qualquer placa de identificação ou microchip. Por engano e para desgosto da família Young, particularmente do seu filho de 4 anos de idade, que se apresenta inconsolável, a heroína de Dan Aw Patan acabou por ser ingloriamente abatida com uma injecção letal. Como os enganos não acontecem só nos Estados Unidos, caso o seu cão fuja, já sabe: contacte de imediato os canis terminais municipais, para que ele não seja mais um “target” nas mãos de alguém distraído ou vítima do excesso de zelo. A propósito: se tem um cão fugitivo, é melhor ter os cartazes sempre à mão, certamente irão dar-lhe muito jeito! Não seria melhor ensiná-lo?

O PORQUÊ DA SIGLA “K9”

A sigla “K9”, que veio para ficar, resultou dum trocadilho de palavras relativas ao termo inglês “canine” e foi primeiro adoptada pelos militares americanos como designação dos cães de guerra. Posteriormente, a sigla veio também a ser adoptada pelas polícias de vários países, designando globalmente a multivariedade de trabalhos dos cães policiais e dos confiados aos bombeiros, cujas unidades cinotécnicas passaram a chamar-se  “K9” e a ostentar a sigla nas suas armas.
A sigla não se prende a um método de ensino particular, apesar das metodologias de treino terem sofrido profunda alteração e se terem generalizado depois da Guerra do Vietname. Mais do que no método, a designação “K9” abrange especialidades tais como: cães de guerra, policiamento, detecção de cadáveres, de explosivos e de estupefacientes, assim como cães de resgate e salvamento, num todo de acções defensivas e ofensivas em prol da salvaguarda dos cidadãos e do melhor apetrechamento dos exércitos. Diante desta abrangência de trabalhos e especialidades, a sigla é por vezes usada incorrectamente por quem os omite, ignora ou despreza.
 Por curiosidade e ausência de informação, gostaríamos de ser mosca, para podermos aquilatar dos trabalhos cinotécnicos do exército russo, hoje desenvolvidos em segredo e certamente na vanguarda, considerando o histórico e a riqueza da sua cinotecnia, nem sempre preocupada com os direitos dos animais mas tradicionalmente dotada de binómios excepcionais.

KOMBAI: CORRERAM CONNOSCO E ANDARAM AO PAU COM OS CÃES!

O episódio histórico que vamos narrar-vos já tem barbas, aconteceu no sudeste da Índia, no Sec.XVIII, a 27 de Junho de 1772, quando os portugueses ainda por lá andavam, com os holandeses à perna e os ingleses à espreita, na luta pelos entrepostos comerciais nas longínquas terras do Oriente. É curioso reparar na política de então dos nossos aliados britânicos, que durante a União Ibérica, a pretexto dos Reis espanhóis governarem sobre nós (1580-1640), surripiaram-nos um sem número de territórios e feitorias, mantendo-nos guerra aberta e ignorando o Tratado de Windsor de 1386, celebrado entre a Inglaterra e Portugal, por ocasião do casamento do nosso D. João I com D. Filipa de Lencastre. Tanto antes como depois desse período, de conluio com os holandeses ou por iniciativa própria, continuaram a fazê-lo, mercê da avidez das suas Companhias. Na data atrás mencionada (27 de Junho de 1772), data da primeira insurreição indiana contra o domínio colonial inglês, depois de terem vencido os portugueses em batalha, as forças da Companhia Inglesa marcharam contra Kalayar Kovil, um reino no Malabar e de etnia Tamil, sob o comando do Coronel Joseph Smitt e do Capitão Bonjour.
Governava naquelas paragens o segundo rei de Sivaganga, o Rajá Muthu Vaduganatha Thevar, que antecipando-se aos ingleses e adivinhando as suas intenções, organizou a defesa dos seus territórios, templos e demais riquezas, no que foi ajudado pelos irmãos Maruthu, que inesperadamente enriqueceram as suas fileiras com cães Kombai, animais extremamente ferozes contra intrusos. Apesar da ferocidade dos cães, que tanto dano fizeram às hostes inglesas, e do empenho dos seus defensores, a sorte da batalha coube aos invasores, assim como o saque dos templos e do que valia a pena deitar a mão. Muthu Vaduganatha Thevar morreu nos confrontos e os templos mantiveram-se fechados por algum tempo. Tanto o Rajá quanto os irmãos Maruthu, ainda hoje são venerados e referenciados como combatentes da liberdade. Do Malabar até ao Ceilão (hoje Sri Lanka), passando pela Birmânia, Myanmar, Malásia, Indonésia, Vietname e Singapura, onde a língua Tamil ou Tamul se mantém (também no Sul e Leste África), para além das igrejas e fortes que por lá deixámos, agora em ruínas, a nossa presença ficou assinalada por um pequeno grupo de descendentes, que se mantém orgulhoso da sua ascendência lusa e confissão católica, sobrevivendo ainda alguns nomes de família portugueses, dos quais “Silva” é o mais comum, obra da conversão operada pelos jesuítas.
Perguntar-se-á: e o Kombai? Ainda é possível encontrá-lo no Estado Indiano de Tamil Nadu, muito embora o seu número seja diminuto e facilmente confundido ou adulterado com outros cães, como é o caso do “Rajapalavam”, um cão com menos estatura e de maior envergadura. Os Kombai provenientes da selecção natural, em contraposição aos da selecção operada pelo homem, têm-se revelado mais saudáveis e resistentes às doenças. O Kombai ganhou o seu nome da cidade onde nasceu, é um cão de porte médio, com a aparência de um Dingo e muito parecido com o Leão da Rodésia, porque também tem, a meio do dorso, uma crista de pêlo contrária ao crescimento do restante manto. Diz quem o conhece, que a raça tem um temperamento maioritariamente selvagem e idêntico ao encontrado no Bull Terrier, que ostenta a mesma ferocidade e capacidade de mordedura de um rottweiler, muito embora seja fácil de ensinar, por ser confiável, fiel e obediente como um Pastor Alemão, apesar propensamente agressivo e cruel. A cor do seu manto é idêntica à encontrada no Leão da Rodésia. Conhecido como reputado pastor e caçador desde o Sec.IX, o Kombai, prestou-se à guarda de rebanhos e fazendas contra os ataques de leões e leopardos. Hoje é usado maioritariamente como cão de guarda. 
Estamos em crer (esta é a nossa opinião e carece de comprovação científica), que o Kombai e o Leão da Rodésia têm uma origem comum, não só eles mas também os restantes “ridgeback” do sudoeste asiático, que não são muitos, considerando as provadas migrações de África para outros continentes e servindo o Oceano Índico como estrada, tendo em conta o particular linguístico dos hotentotes (que diverge dos bantos), a presença da língua tamil no continente africano e a existência exclusiva destes cães junto de povos asiáticos com idêntica raiz linguística. Na foto abaixo podemos ver um exemplar de Thai Ridgeback, uma raça tailandesa com a mesma característica morfológica (a crista a meio do dorso).
Para a história fica a luta do povo indiano pela auto-determinação e o uso dos cães no campo de batalha, que apesar de terem sido ali derrotados, uns e outros, permanecem na sua terra volvidos 242 anos, 67 dos quais sem ingleses à vista, portugueses na costa e holandeses a roer-lhes os calcanhares, sendo mais fácil ver um hindu ou um paquistanês em Dover que um inglês em Madras (Chennai). Não há dúvida: a história é feita pelos vencedores! Estarão os europeus a pagar a factura, com juros, dos seus velhos e abusivos impérios coloniais? Se a globalização se iniciou com os descobrimentos portugueses, ela é feita hoje em sentido contrário, apesar do objectivo ser o mesmo: a procura de melhores oportunidades de vida.

QUAL SERÁ O MOTIVO (VIII)?

“Sempre que chove, a minha cadela ou deixa de comer ou come muito pouco! Esta semana foi demais, a semana inteirinha a chover, mal deu para a levar à rua!” – palavras de um aluno nosso, que revoltado com o tempo, estranhava a falta de apetite do animal. A que se deverá a inapetência da cadela? Hipótese A: À Estação do Ano, porque nas estações mais frias os cães comem menos. Hipótese B: Porque a chuva provoca sonolência e inactividade nos cães. Hipótese C: Porque a privação do exercício diário induz a uma menor apetência. Hipótese D: A chuva, ao provocar o aumento de temperatura, reduz o apetite dos cães. Hipótese E: Porque os percentuais mais altos de humidade inibem o apetite. Para a semana publicaremos a resposta correcta.

SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR

A hipótese certa à rubrica “QUAL SERÁ O MOTIVO (VII)?” é a E: Porque estava a guardar a casa e a dona. Porque mesmo que o pontapé tenha despoletado a reacção do cão, dificilmente ele se queixaria, já que os rottweilers são por norma mais resistentes à dor que a maioria dos cães. O ataque do cão não proveio de qualquer tipo de ensino, porque o texto não o manifesta e muito menos estaria ensinado a morder no dono. Atendendo à antipatia do cão pelo dono, de nada valeria ao homem chamá-lo pelo nome. Como os camionistas não têm hora certa para entrar em casa, porque é o serviço que determina a hora da sua chegada, a “hipótese D” não deverá ser considerada. Sobre o artigo “Os Cães de Deus”, a Ordem eclesiástica retratada é a dos Dominicanos.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking Semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/ 06/ 2011
2º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO, editado em 05/ 06/ 2010
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/ 08/ 2013
4º _ O ESTRANHO ANÚNCIO DOS PASTORES ALEMÃES CASTANHOS, editado em 26/ 04/ 2013
5º _ SIM, EU ACREDITO NO CÃO MACACO!, editado em 17/ 12/ 2012

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 Semanal de leitores por país obedeceu à seguinte ordem:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Rússia, 6º Indonésia, 7º Angola, 8º Índia, 9º Ucrânia e 10º Espanha.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

OS CÃES DOS INFANTES: CRESCER SEM SOBRESSALTOS

Um dia, que longe deste não virá, seremos obrigados a questionar-nos acerca das crianças, do que fizemos delas e o que deveríamos ter feito, considerando o seu bem-estar e a importância deste ciclo para o resto das suas vidas. Hoje já estamos a sofrer dos desaguisados emocionais que promovemos, ao criarmos os nossos filhos longe de nós e dos nossos afectos, ao sobrecarregá-los de actividades, para além das suas necessidades e vocações, ao juntá-los a outros iguais e condená-los ao abuso, à mediocridade e ao isolamento, substituindo como isso o insubstituível apoio familiar. Segundo a experiência que temos e que pode ser comprovada, a aquisição de um animal de companhia na infância e na pré-adolescência, tem contribuído de sobremaneira para o equilíbrio emocional, para o desenvolvimento cognitivo, para o acerto vocacional, para o robustecimento de carácter e para a integração social destes indivíduos em formação e desenvolvimento. E como o mais interactivo dos animais é o cão, dos que é possível levar para casa, às suas custas muita gente tem crescido saudável e bem sucedida.
 Mas como pode um simples animal, que até há bem pouco tempo era um lobo ou outro canídeo selvagem, contribuir para o equilíbrio emocional das crianças? Antes de responder à questão, importa adiantar que a cinoterapia é válida tanto para crianças como para adultos, sendo cada vez mais utilizada para combater o deficit de atenção, a hiperactividade e demais alterações de conduta, típicas ou atípicas das diferentes idades, para além de ser um precioso auxiliar para os indivíduos remetidos para a educação especial. O préstimo canino para o equilíbrio emocional das crianças, dos adolescentes e doutros reside na interacção que os cães propiciam, superior à encontrada noutros animais, devido à sua proximidade e pronta reacção.
Conviver diariamente com um cão, irá aumentar a responsabilidade, a sensibilidade e respeito das crianças, obrigando-as a conviver com diferentes sentimentos, já que tudo não pode ser como elas querem, porque o objecto da sua afeição reage, levando-as ao acerto e a desenvolver a empatia que leva à compreensão do animal e àquilo que ele sente, terapia tantas vezes indicada para os filhos únicos, por norma egoístas ou narcisistas, que se julgam o centro do universo, por força da exclusividade dos cuidados dispensados. Por outro lado, o convívio apertado de uma criança com um cão, combate a inibição e estimula o desejo de partilhar, aumentando em simultâneo a sua motivação para aprender. A somar a isto, o cão irá aproximá-la das outras crianças, quebrando assim barreiras de comunicação sem lhe quebrar a auto-estima, já que o animal sempre lhe será fiel. Diante de tamanhos benefícios, é nossa opinião que mal uma criança tenha força, destreza e aptidão, deva concorrer ao adestramento, geralmente na idade em que também vai para a escola.
Endossar uma criança para as classes de adestramento aos 6 ou 7 anos de idade, não significa que essa seja a melhor idade para ter um cão, considerando o seu desenvolvimento e os benefícios cognitivos transmitidos pelo animal. O ideal é que cresça com o cão ao lado desde o berço, pois a ciência já provou que apenas 30% do desenvolvimento das crianças é genético e que os restantes 70% ficam a dever-se a estímulos externos, tais como brincadeiras, actividades e exercícios, recebidos maioritariamente até aos 3 anos idade, altura em que o seu cérebro cresce 60%. Convém relembrar que a principal actividade de desenvolvimento nas crianças acontece pela brincadeira. A convivência das crianças com os animais de companhia desde tenra idade, mediante a afeição e a brincadeira recíprocas, para além de promover uma abordagem segura ao mundo físico e social, possibilita-lhes o estímulo de habilidades motoras e cognitivas, sem maiores contratempos emocionais, revelando-se excelente para o seu desenvolvimento. Será que as menos valias presentes nas novas gerações (motoras, psicológicas, cognitivas e sociais) se devem à ausência de contacto com os animais?
Assim, quando os pais oferecem um cão aos seus filhos desde o seu nascimento, estão a promover o desenvolvimento de todo o seu potencial. Vários estudos e pesquisas realizadas demonstraram que as crianças que habitualmente interagem com animais, apresentam um maior desenvolvimento cognitivo e obtêm maior pontuação em testes de QI, para além de melhorarem gradualmente a leitura, benefícios advindos dos animais de companhia, que ao serem elementos motivadores, promovem nelas o interesse e o prazer pelo conhecimento. Quando uma criança convive amiúde com um cão, aprende a sua linguagem corporal, habilidade fundamental para a empatia, porque induz à compreensão dos sentimentos e reacções do animal, ensino facilitará depois à compreensão doutros. Brincalhões por excelência, os cães apoiam o desenvolvimento e crescimento das crianças, ajudando-as nas transições das suas diferentes etapas sem sobressaltos, para além de serem o público perfeito para as suas “criações”, porque são disponíveis e alimentam a sua curiosidade, imaginação e fantasia.
A assiduidade das crianças nos centros de treino caninos, dos dignos desse nome e que juntam à prática a formação teórica, dará indícios seguros quanto à sua vocação, porque se desnudam pelos interesses, grau de curiosidade, pelo menor ou maior apego aos procedimentos (rigor), pela constância nas acções, evolução, e pela concretização dos seus desejos. Os miúdos que se têm destacado no adestramento, têm agarrado carreiras promissoras e têm sido bem sucedidos, como temos assistido ao longo de décadas, gente fraterna que veio a atingir lugares de destaque na sociedade e em prol da comunidade (médicos, veterinários, zootécnicos, investigadores científicos, professores, assistentes sociais e demais actividades pedagógicas, científicas e filantrópicas). Curiosamente, nenhuma das crianças que se destacou, veio a dedicar-se ao adestramento, apesar de parecerem inequivocamente vocacionadas para ele. Salvo algumas excepções, esse lugar veio a ser ocupado por adultos, geralmente de carreira incerta e de infância menos feliz, arredada dos animais e responsável pela sua vocação tardia, indivíduos que não brincaram na altura certa e que ao invés de receberem um cão, foi-lhes oferecido um peixe vermelho ou uma tartaruga.
À medida que o cão se torna conhecido da criança, ela vai alcançando o equilíbrio entre a emoção e a razão, visando o sucesso do trabalho comum (dela e do animal). A integração dos infantes nas classes de trabalho, a importância do trabalho individual para o rendimento colectivo e o exemplo dos binómios mais adiantados, libertarão as crianças do desânimo e levá-las-ão à procura de soluções, lições válidas para a vida perante as contrariedades que irão enfrentar, já que o adestramento se presta ao desenvolvimento da paciência, da observação, da constância, do autocontrolo, do respeito pelo animal e da autonomia e liderança das crianças. Como se depreende, tudo isto irá contribuir para a formação de um carácter sólido, decidido e ambicioso, mas ao mesmo tempo respeitador da liberdade e dos direitos alheios.
O convívio com os cães e o seu treino por parte das crianças, são experiências sociabilizantes que irão transcender a relação com o animal e estender-se ao entendimento com outros grupos etários humanos, mais-valias que promoverão a integração e a melhor aceitação social dos infantes, pelo preparo da comunicação havida com os animais, o que transforma o cão num veículo de aproximação entre as pessoas, independentemente do seu sexo, idade, credo ou raça, já que a interacção canina projecta a interacção social e induz ao respeito pelas diferenças (percepção social), graças à coerência das reacções caninas anteriormente experimentadas, que libertam a criança do egoísmo e aumentam-lhe as expectativas de ser melhor apreciada, amada e respeitada. Ao lado de um cão, qualquer criança fica menos tímida e ansiosa, sentindo-se mais relaxada e segura, o que lhe facilita o relacionamento. Depois do que dissemos, rematamos: felizes são as crianças que crescem com um cão lado! 

TIER-SPRECHSCHULE ASRA: AVANÇO OU LOUCURA?

Não fora o livro “Amazing Dogs: A Cabinet of Canine Curiosities”, recentemente editado, da autoria do sueco Jan Bondeson, um professor e investigador associado à Escola de Medicina da Universidade de Cardiff, País de Gales, a “Tier-Sprechschule ASRA” (Escola da Fala para Animais), que funcionou em Leutenberg, nos arredores de Hanôver, desde o início da década de 30 até ao final da Guerra, dificilmente chegaria ao nosso conhecimento, já que originalmente foi um projecto secreto. Pretendia-se com aquela escola, sob a direcção da Sr.ª Margarethe Schmitt, com o aval do III Reich e patrocínio do Führer, ensinar cães a falar com os humanos, capacitando-os para soletrar, ler e escrever, criando a partir dos mais aptos uma raça de cães super-inteligentes, que uma vez constituída em exército, seria capaz de melhor acompanhar e mais valer aos soldados das “SS”, tanto nos campos de concentração como nas batalhas. É importante referir que nesta época superabundavam experts em comportamento animal na Alemanha e na Áustria, como foi o caso de Konrad Lorenz, um austríaco que veio a leccionar na Universidade de Königsberg, na Prússia, criador do conceito de “imprinting” em 1935 e que recebeu o Prémio Nobel da Ciência em 1973, pelos seus estudos sobre comportamento animal, que muito contribuíram para o avanço da etologia no geral e da cinologia em particular.
Antes de escrevermos este artigo, tivemos o cuidado e nalguns casos a paciência, de ler toda a sorte de comentários acerca deste assunto, oriundos na maioria dos casos de cronistas distantes da cinologia e mais interessados em ridicularizar o projecto, por ter acontecido debaixo dos auspícios do regime nazi, que podia ter surgido para além dele, ainda que com outros propósitos, considerando o amor e os respeito históricos dos alemães pelos animais, particularmente pelos cães, que sempre consideraram como sendo muito inteligentes. Talvez por causa disso, ainda hoje, o número das raças caninas germânicas seja o triplo das portuguesas reconhecidas internacionalmente, continuando a ser para nós penoso compará-las, diante da qualidade e préstimo dumas e doutras. O facto de Hitler e outros destacados nazis terem tido vários cães, mais reflecte uma herança cultural do que uma opção forçada pela política, que transformada em sentimento, antecedeu, conviveu e sobreviveu ao regime. Como facilmente se conclui, não estamos e não queremos com isto, fazer a apologia do nazismo, apesar de muitos dos seus experimentos, quando libertos da côdea ideológica, terem contribuído para a saúde, bem-estar e progresso da humanidade, muito embora se condenem os meios e se chorem as vítimas.
 Como resultado do trabalho desenvolvido na “Tier-Sprechschule ASRA” e para espanto geral, sob a direcção da “SS” Margarethe Schmitt, alguns cães conseguiram pronunciar algumas palavras, citando-se o caso dum rafeiro chamado “Don” que, quando lhe perguntavam quem era Adolfo Hitler, respondia: “Mein Führer” e que não foi caso único. Quanto ao resto das habilidades adquiridas por aqueles cães, estamos convencidos que umas resultaram do condicionamento e outras do “Clever Hans Effect”, como é o caso do conhecidíssimo Terrier Airedale “Rolf”, de Mannheim, propriedade da Sr.ª Moeckel, estrela desde 1911, que pretensamente teria conhecimentos de matemática, religião, ética e filosofia. Designa-se por “Clever Hans Effect” (no alemão “Kluge Hans - Effekt), a capacidade que alguns animais têm de responder à linguagem corporal dos donos, descoberta e explicada pelo psicólogo Oskar Plungst em 1907, após o estudo das pertenças habilidades aritméticas do cavalo “Hans”, um trotador Orlov e propriedade do Sr. Wilhelm Von Osten. Conhecedores dos contributos de Plungst e doutros que a eles se somaram, sempre fizemos uso da linguagem corporal no ensino canino, como complemento pedagógico enriquecedor e nas situações em que o silêncio se revela ser de ouro.
O trabalho da “Tier-Sprechschule ASRA” teria sido em vão? Seria aquele plano infazível e por isso mesmo bizarro? Honestamente, pensamos que terá valido a pena, considerando o seu aparente sucesso e a nossa experiência nessa área. Terá sido inválido diante do propósito de fazer dos cães uma força demolidora de retaguarda ou de esperar que eles viessem a dominar a língua dos homens. De qualquer modo, o seu trabalho pioneiro provou ser possível encontrar outras formas de entendimento entre homens e cães para além das usuais, desmistificando aptidões caninas até ali praticamente desconhecidas ou inexplicáveis. Sabemos ser possível ensinar algumas palavras a um ou mais cães, tirando partido duma relação próxima, que mais aprofunda o conhecimento que temos deles, através do aproveitamento e alteração das suas vozes naturais (bufar, ganir, gemer, ladrar, latir, rosnar e uivar), todas elas de natureza gutural. No caso da língua alemã, sobejamente mais gutural que a nossa, a tarefa irá revelar-se mais fácil, apesar de nunca o ser, porque dificilmente conseguiremos ultrapassar os trissílabos, razão que também preside à instalação dos códigos, que leva ao encurtamento dos comandos para dissílabos, para além das razões inerentes ao seu cumprimento pronto e imediato.
Desconhecendo os propósitos, o labor e os resultados da “Tier-Sprechschule”, tentámos fazer o mesmo há alguns anos atrás, com um cruzado de pinscher a conviver connosco debaixo do mesmo tecto, a quem conseguimos, pela da alteração do seu gemer e depois de rara insistência, ouvir-lhe a palavra “pai”, bastando depois dizê-la para que a repetisse. De qualquer modo, no calor das acções, diante de aperto e longe do sossego que suporta essa resposta artificial, os cães optarão automaticamente pelas suas vozes naturais, o que tornará inglório esse esforço diante dum cenário de guerra e que nada abonará em função da sua utilidade. É sabido que os cães reagem mais depressa aos sons metálicos do que a outros, facto ligado à sua sobrevivência e à consequente reacção aos fenómenos naturais. Segundo a foto de arquivo que remata este parágrafo, os responsáveis da “Escola de Leutenberg” já o sabiam, revelando-se prático e inteligente o meio usado para a transmissão das palavras (através de um cabo que unia duas campânulas metálicas, uma sobre o emissor e outra ao redor do animal). De qualquer modo, os cães reagirão muito mais depressa às palavras do que as soletrarão.
Ensaia-se na “Tier-Sprechschule” a relação proveitosa entre o trabalho e a recompensa, sistematiza-se a fixação exclusiva na pessoas dos donos, eleva-se o condicionamento para patamares nunca vistos e encontram-se novos caminhos para as respostas artificiais, descobrindo-se pela primeira vez novas formas de entendimento, que dispensam a persuasão e a coerção, pela novidade da comunicação que leva à adequação de homens e cães, em função de um trajecto e objectivo comuns. É possível que a maioria dos cães não tenha saído de lá a falar, mas os seus adestradores aprenderam a melhor comunicar com eles. O objectivo era por demais ambicioso mas não deixou de ser proveitoso para a selecção e adestramento dos futuros cães de utilidade. Méritos que o sensacionalismo da notícia e a obra de Bondeson não antevêem com facilidade e tendem a menosprezar.
Graças a experimentos deste calibre, tanto pelos sucessos como pelos insucessos, exalta-se o contributo da cinologia germânica para a melhor compreensão dos cães que temos hoje.

CANAAN DOG: O PRIMO DO MÉDIO-ORIENTE

A história do Canaan Dog prende-se com o regresso ao passado, que transportado para o presente, irá perpetuá-lo no futuro, como um apanhar de um fio à meada, no retorno aos tempos bíblicos e anteriores à diáspora hebraica, quando os israelitas chegaram à Terra Prometida acompanhados pelos seus cães, numa caminhada milenar que continua até aos dias de hoje. Para além da história, da religião, do nacionalismo e da política, o Canaan Dog emergiu da necessidade, porque a maioria das raças caninas modernas, mesmo as mais eleitas e resistentes, sentia grande dificuldade perante as amplitudes térmicas mensuráveis em Israel. A recuperação desta raça, com 10.000 anos às costas, na sua génese pastora e caçadora, ficou a dever-se ao trabalho e ao cuidado de Rudolphina Menzel, uma especialista em comportamento animal, oriunda da Áustria, que por volta de 1930, foi buscar os primeiros exemplares ao deserto, junto dos beduínos (seus primeiros caçadores), onde sobreviviam como cães párias, com o objectivo inicial de fazer deles cães de trabalho. Apesar de ter demorado 6 meses para capturar o primeiro cão, que se encontrava semi-selvagem, o seu esforço foi recompensado, porque os cães capturados não apresentaram dificuldades na domesticação, mostrando-se adaptáveis e fáceis de treinar. Na foto abaixo vemos Rudolphina com o seu marido, o Dr. Rudolph Menzel.
Finalmente, em 1934, a Sr.ª Menzel iniciou o seu programa de reprodução selectiva da raça, entregando cães para fins militares, para guarda e para as famílias. Em 1949 fundou o “Instituto de Orientação e Mobilidade dos Cegos”, ousando em 1953, treinar Canaan Dogs para cães-guia, ideia que não foi avante devido à falta de tamanho da raça e à sua natureza independente. Não obstante, alguns deles obtiveram sucesso junto de crianças invisuais. O plano de melhoramento da raça evoluiu ao redor do Instituto e alguns anos mais tarde sofreu grande incremento, mercê duma fundação em prole dos Canaan Dogs (B’nei Habitachon), por detrás do actual canil “Shaar Hagai Kennels”, de Myrna Shibolet, que ainda hoje mantém as directrizes adiantadas por Rudolphina Menzel, falecida em 1973, mas que antes de partir, lavrou o estalão da raça.
Ontem como hoje, é muito difícil encontrar estes cães no seu habitat natural e em regime semi-selvagem, porque vivendo a céu aberto, grande número deles foi vítima do combate contra a raiva, empreendido pelo governo israelita. O aumento das populações para áreas antes isoladas, que carregaram consigo toda a sorte de cães, resultou na perca do seu habitat e na sua hibridação, circunstâncias que mais agravam a sua proliferação. Sempre que se torna necessário sangue novo, há que ir junto dos beduínos do Deserto de Negev, onde têm sido encontrados alguns excelentes exemplares, posteriormente usados para reprodução.
O Canaan Dog (Kelef Kanani), apesar de ser um cão primitivo, foi dos primeiros a ser usado na detecção de minas terrestres, detecta componentes explosivos com facilidade, mostra especial aptidão nas áreas da busca e salvamento, desempenha muito bem as funções de cão mensageiro, presta-se aos serviços de guarda e de patrulha, pode tornar-se num cão-guia e é um excelente companheiro para as crianças. Mostrou as suas aptidões na II Guerra Mundial e continua a ser usado pelo Exército israelita como cão de resgate e salvamento. É um cão extremamente territorial que vive em constante alerta, reage prontamente a provocações e é cão de um só dono. Contudo, necessita de ser sociabilizado desde muito novo. Apesar de já ter ultrapassado as fronteiras de Israel há quase 50 anos, o seu número no Mundo não ultrapassará os 2.000 exemplares.
Cão extremamente veloz e necessitado de exercício, rústico como poucos, o Canaan Dog “come” a trote bastante terreno, apesar transitar para o galope sem qualquer dificuldade. Com uma altura a oscilar entre os 51 e 61cm e com um peso entre os 18 e 25kg, este cão quadrado, de dorso paralelo ao solo, orelhas erectas e cauda enrolada, próprio para suportar grandes amplitudes térmicas, apesar de por vezes ser glutão, não é muito exigente em termos de alimentação. Ainda que o branco seja a cor maioritária na raça, são admitidos exemplares castanhos, cremes, cor de areia, dourados, pretos e vermelhos, assim como os bicolores de vermelho e branco, vermelho e preto e preto e branco.
De origem comum aos nossos podengos, daí o título deste artigo, podendo nalguns casos confundir-se com eles, mostra a mesma independência, igual disponibilidade atlética e resistência, uma máquina sensorial idêntica, a mesma biomecânica e os mesmos perfis psicológicos, o que obriga ao trabalho pela memória afectiva e prova o primitivismo dos nossos podengos, ausentes da exagerada de manipulação humana, mais por mérito dos caçadores do que dos criadores oficias da raça. Os israelitas souberam aproveitar o Canaan Dog, apesar de terem que o caçar no deserto, aproveitando o silvestre para fim útil. E os portugueses, como têm aproveitado os podengos? Será que só se prestam para caçar coelhos e não alcançam outros usos? Perante cães similares, de origem comum e igual potencial, a diferença terá que residir nos homens e no desaproveitamento dos cães!
Ao falarmos do Canaan Dog e mencionarmos Rudolphina Menzel (a seguir vamos falar de Dorothy Eustis), queremos prestar homenagem às senhoras que têm enriquecido as nossas fileiras, muitas delas excelentes adestradoras, umas já avós e outras com idade de serem suas netas, companheiras de jornada que edificaram a nossa história e dignificaram o nosso trabalho. Para elas vai o nosso sincero “muito obrigado”.

REBENTAR, REMEDIAR E VALER: A HISTÓRIA DOS CÃES-GUIA PARA CEGOS

Esta é uma história, como tantas outras, que se pode resumir na frase: “Deus escreve direito por linhas tortas” ou noutra: ” há males que vêm por bem”, mais apropriada para quem não crê em Deus e não acredita na Opera Dei, revelada em Cristo, em prole da Humanidade. Como há quem julgue, erroneamente, que os actuais escolas de cães-guias tiveram a sua origem pioneira nos Estados Unidos, importa esclarecer onde e porque surgiram. Assim, a primeira tentativa sistemática de produzir cães-guias, aconteceu em França, mais propriamente em Paris, no Hôpital des Quinze-Vingts, por volta de 1870. Oito anos depois, em 1878, um invisual austríaco de Viena, de nome Josef Riesinger, surpreendeu os seus conterrâneos com um Spitz Alemão que treinou para o guiar. No século XIX, no Ano de 1819, o bávaro Johann Wilhelm Klein, fundou em Viena o “Blinde-Erziehungs-Institut” (Instituto para a Educação de Cegos) e mencionou o primeiro conceito de cão-guia para cegos de que há memória, muito embora não exista qualquer registo que prove a prática das suas ideias, apesar de ter editado a obra “Lehrbuch zum Unterricht der Blinden”. O mesmo não se passou em 1847, quando Jakob Birrer, um invisual suíço, divulgou a sua experiência com um cão, que ele mesmo treinou durante cinco anos. A foto abaixo é de Johann Wilhelm Klein.
A história moderna dos cães-guia para cegos surge como resposta aos efeitos do uso do gás na I Grande Guerra, responsável pela cegueira de muitos soldados, arma venenosa que se abateu sobre as hostes de todos os contendores. A ideia partiu do Dr. Gerhard Stalling, um alemão, que ao aperceber-se que o seu cão tinha tomado conta de um soldado cego na sua ausência, decidiu criar e treinar grande número de cães para auxiliarem aqueles veteranos. Em Agosto de 1916, em Oldenburg, abriu a primeira escola de cães-guia do mundo, que cresceu rapidamente e se estendeu a outras cidades alemãs, abrindo filiais em Bona, Breslau, Dresden, Essen, Freiburgo, Hamburgo, Magdeburgo, Munique e Hanôver, treinando um total de 600 cães por ano. Ao que consta, estas escolas, para além de fornecerem cães para ex-soldados, passaram também a produzi-los para pessoas invisuais de vários países (Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido e União Soviética). Infelizmente, essa parceria iria acabar em 1926. Sensivelmente na mesma altura e com grande sucesso, surge outra grande escola de cães-guias, perto de Berlim, em Potsdam, que mantinha permanentemente 100 cães em treino e entregava 12 por mês. Nos seus primeiros 18 anos educou cerca de 2.500 cães-guias, com uma taxa de insucesso de apenas 6%. A foto abaixo é do médico-militar Gerhard Stalling.
É aqui que entra a primeira americana na história, a Sr.ª Dorothy Harrison Eustis, e diga-se em abono da verdade, que em muito boa hora. Esta senhora, que vivia ao tempo na Suíça, onde se dedicava a treinar cães Pastores Alemães para o exército, para a polícia e para os serviços aduaneiros, encantou-se ao ouvir falar da Escola de Potsdam, meteu os pés ao caminho e por lá passou vários meses, saindo de lá tão impressionada que, em Outubro de 1927, publicou um artigo no “Sunday Evening Post”, onde descrevia o trabalho daquela escola. Outro americano, um invisual chamado Morris Frank, ao tomar conhecimento do artigo, escreveu à Sr.ª Eustis propondo-lhe parceria e ajuda para a introdução dos cães-guias nos Estados Unidos. Empreendedora como era, ela prontamente aceitou o desafio. Naquela época a raça de eleição para os cães-guia era o Pastor Alemão. Na foto seguinte podemos ver a Sr.ª Dorothy Eustis ao lado de um invisual com o seu guia canino, um Deutscher Schäferhund lobeiro. Coisas doutros tempos e que dificilmente voltarão, considerando as características dos actuais pastores alemães, menos seguros, mais irritadiços, notoriamente mais frágeis e dados a chiliques.
Desafio aceite, Eustis pôs mãos à obra e treinou o cão “Buddy”, levando ambos de seguida para a Suíça, onde Morris Frank viria a aprender a trabalhar com o animal. Tudo correu conforme o desejado e Frank regressou aos Estados Unidos com o que se acreditava ser o primeiro cão-guia da América. Hoje sabe-se e está comprovado que tal não era verdade, pois a “Scuola Nazionale Cani Guida per Ciechi”, uma organização italiana, já havia iniciado a sua actividade em 1928. A partir desse mesmo ano e animada pelo sucesso de Morris Frank com o Buddy, Dorothy Eustis abriu as suas próprias escolas em Vevey na Suíça e posteriormente nos Estados Unidos, atribuindo-lhes o nome de “L’Oeil qui Voit” (O Olho que Vê), numa alusão à passagem bíblica constante no Livro de Provérbios, Capítulo 20 e versículo 12, que diz: “O ouvido que ouve e o olho que vê, o Senhor os fez a ambos”, o que não deixa de ser curioso. As escolas de cães-guia desta americana foram as primeiras da era moderna e subsidiaram as que hoje conhecemos.
Em 1930 era chegada a vez do Reino Unido, pelo interesse das inglesas Muriel Crooke e Rosamund Bond, que ao contactarem com Dorothy Eustis, dela receberam um dos seus adestradores. Um ano depois (1931), quatro cães-guias ficaram prontos, dando origem à fundação da “Guide Dogs for the Bind Association” (Associação de Cães-Guia para Cegos). A partir dali, as escolas de cães-guias multiplicaram-se pelo mundo, libertando os invisuais e as pessoas de precária visão de alguns estigmas e da dependência exclusiva de terceiros, o que muito tem contribuído para a sua melhor aceitação e inserção social, ao dotá-los de maior independência e mobilidade, factores que somados, têm concorrido para o aumento da sua merecida dignidade. Em Portugal existe uma escola de cães-guia: a ABAADV (Associação Beira-Aguiar de Apoio ao Deficiente Visual), em Mortágua, Distrito de Viseu, projecto que remonta a 1995 e que quatro anos depois começou a dar fruto, ao formar a primeira dupla Cego-Cão Guia, então constituída pelo Augusto Hortas e pela cadela Camila. Hoje a raça canina eleita para este serviço é o Retriever do Labrador e a escola portuguesa continua em franco progresso, merecendo todo o nosso apoio e respeito.
Não sobram dúvidas sobre a origem europeia das escolas de cães-guia, assim como ninguém duvida da importância da Sr.ª Dorothy Harrison Eustis para a sua proliferação intercontinental, uma americana decidida e empreendedora, que se fez à Europa para depois valer ao Mundo. Por detrás das primeiras escolas de cães-guia esteve a I Grande Guerra (1914-1918), que ao devolver milhares de soldados cegos, obrigou ao seu socorro e possibilitou que muitos mais fossem socorridos, auxílio que perdura até hoje e que no futuro se manterá. Diante destes factos, Deus escreveu direito por linhas tortas, porque o mal de uns tantos acabou por se reverter num benefício para outros. Há quem jure que as guerras contribuem para o progresso da Humanidade, nós pensamos que não é preciso rebentar para consertar, muito embora todos aprendamos com os nossos erros. Para a semana cá estaremos com outra história sobre o préstimo canino.

UMA CURIOSIDADE: OS CÃES DE DEUS

Em Itália, mais propriamente em Florença, capital da Toscânia, no Convento Dominicano de Santa Maria de Novella, na Capela dos Espanhóis (Cappelone degli Spagnoli), existe um fresco do Sec. XIV da autoria de Andrea Bonaiuto, também conhecido por Andrea Firenze, que para além de adiantar outros símbolos, pretende retratar a luta dos Dominicanos contra a heresia pela salvação da humanidade (na foto acima). O mural é conhecido ironicamente pelo nome “Os Cães de Deus”, porque na sua base se encontram retratados vários molossos, malhados de preto e branco, que perseguem uma alcateia de lobos, numa alusão a uma ordem religiosa. Saberão os nossos leitores qual? 

QUAL SERÁ O MOTIVO (VII)?

O Rimsky é um Rottweiler que, “inexplicavelmente”, tem o pêlo comprido e por causa disso foi oferecido à sua dona, que precisava dele para lhe fazer companhia, porque apesar de adorar ouvir música clássica (daí o nome do cão), sentia-me muito só durante as ausências do marido, pessoa obrigada a sair amiúde e durante vários dias, devido à natureza do seu trabalho. E verdade seja dita, nos últimos três anos, que é a idade que o cão tem agora, somados os meses de férias com os dias que esteve em casa, o marido da senhora, na melhor das hipóteses, apenas terá permanecido no lar 5 meses. A relação entre o homem e cão nunca foi muito famosa, porque o Rottweiler via-o como um estranho e ele temia-o, porque lhe rosnava quando se encontrava perto da dona.
Numa ocasião, já a madrugada ia alta, com a mulher já deitada, o bom do camionista foi para casa por ausência de serviço. Depois de meter a chave à porta e abri-la, deu de caras com o cão, que deitado mas atento, persistia em não o deixar entrar. Revoltado, o homem não foi “de meias medidas”, deu-lhe um pontapé e gritou-lhe: “Sai!” O Rottweiler agrediu-o imediata e violentamente, acabando o homem por passar a noite no hospital. Porque terá o cão reagido assim? Hipótese A: Porque levou um pontapé e doeu-lhe muito. Hipótese B: Porque estava ensinado a não deixar entrar ninguém à noite. Hipótese C: Atacou-o por não ter sido chamado pelo nome. Hipótese D: Não esperava o marido da dona àquela hora? Hipótese E: Porque estava a guardar a casa e a dona. Para a semana adiantaremos a resposta certa.

SOLUÇÕES DA SEMANA PASSADA

A resposta correcta à rubrica “O PORQUÊ DE SUA ALTEZA” é muito simples: mesmo que o Arquiduque quisesse, não poderia oferecer dois Pastores Alemães à sobrinha, porque a raça ainda não havia sido criada, o que veio a acontecer mais tarde, só a partir de 1898. Os indícios manifestos no artigo “PARA QUEM GOSTA DE HISTÓRIA” apontam indubitavelmente para D. Catarina de Bragança, princesa de Portugal e esposa de Carlos II de Inglaterra, de cujo dote fizeram parte a praça de Tanger no Norte de África e a feitoria de Bombaim na Índia, entregues aos ingleses. Foi ela que introduziu na corte inglesa o hábito do “five o’clock tea”. Para além de ser mulherengo, Carlos II tinha por hábito dormir com os seus cães na cama. Depois de enviuvar, D. Catarina veio viver para Portugal, onde mandou construir o Palácio da Bemposta em Lisboa. Tem uma estátua no condado nova-iorquino de Queens, a quem deu o nome, e uma réplica dessa no Vale do Tejo, lá para os lados da Expo e da Ponte Vasco da Gama. A resposta certa à rubrica “QUAL SERÁ O MOTIVO (VI)?” é a Hipótese A: Porque o rato tinha o odor da dona, queria interiorizá-lo e fazer parte do seu mundo. O cão não poderia ver a luz do rato, porque se encontrava debaixo da secretária. Ainda que seja de fácil transporte, o rato do computador, atendendo ao seu material, é pouco apelativo para os cães. Se esse acessório houvesse caído acidentalmente, pelo empoleirar do cão ou pela corrente de ar, jamais o animal o anicharia entre as mãos (o mais certo era roê-lo ou desprezá-lo).

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ ROTTWEILER E SERRA DA ESTRELA (AQUILO QUE OS UNE E SEPARA), editado em 07/01/2010
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS VÁRIAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO, editado em 05/06/2010
5º _ CPA: O BENEFICIAMENTO DO NEGRO COM O LOBEIRO, editado em 06/12/2013