sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

SAIR DO “AI” PARA O “EM FRENTE”, DA PAIXÃO PARA O AMOR

A paixão só vê o que quer ver e o amor o que precisa de ser melhorado, a primeira é uma êxtase que acontece de olhos fechados e o segundo um trabalho continuado com eles bem abertos, para que a paixão não se extinga e se mantenha sempre ao seu lado. Todos já vimos o fim “imprevisto”de diversas paixões, gente de costas viradas, amor transformado em ódio, gozo em aversão, interesse em indiferença e até beijos em estalos. Como a finidade da paixão sempre dependerá da qualidade do amor, importa que ele a mantenha, que seja consequente, que produza e seja activo, para que à fase dos encantos não suceda a dos desencantos, epílogo bastante comum entre gente de ânimo leve. Como a paixão desconsidera o erro e tem breve duração, só o amor poderá operar a correcção e fazê-la perdurar, para não virmos a ser vítimas de nós próprios ou dos excessos dos que amamos. Assim vivemos com quem nos quer bem, assim educamos os filhos, assim deveremos educar os nossos cães também, regrando-os para que sejam felizes e possam viver ao nosso lado, por longos anos e sem incomodar quem nos rodeia, como resultado do amor que lhes temos.
Para que os cães não coloquem a sua vida em risco, causem um sem número de acidentes e façam vítimas, importa adestrá-los e educá-los convenientemente, dedicando-lhes a atenção e o cuidado necessários para a alteração do seu comportamento, tarefas que exigirão tempo, constância e paciência, predicados próprios do amor que a paixão tende a atabalhoar. Os apaixonados por cães adoram dar-lhes beijinhos, fazer-lhes as vontades, delirar com as suas travessuras e reconhecer-lhes um sem número de virtudes subjectivas. Enquanto isso, os animais vão-se tornando irascíveis e de difícil sociabilização, comportando-se como reizinhos entre lacaios, sobrepondo a sua vontade ao controlo dos donos. Ainda que a paixão possa ser a responsável pela aquisição de um cão, só o amor será capaz de promover a sua educação. Quem não educa sempre andará com um “ai” no peito e quem educa atinge a cumplicidade, descobre um companheiro, faz-se entender e melhor entende o que ele quer. Do que vimos e experimentámos, disso damos notícia!

GALOPAR NO TEMPO CERTO

Os percursos de galope devem acontecer nos cachorros por volta dos seis meses de idade, altura em que o seu crescimento horizontal desponta e o vertical vai diminuindo (isto nos cães rectangulares). A necessidade dos percursos prende-se com o equilíbrio locomotor dos cachorros, adaptando-os mais depressa à novidade morfológica, pelo desenvolvimento muscular que sustenta as alterações do esqueleto. Este é o seu objectivo. Qualquer escola canina digna desse nome, deve oferecer, quinzenalmente, uma aula para o efeito com uma duração máxima de 2 horas, com os tempos de super compensação incluídos e de igual duração aos de trabalho, sendo este o seu do Plano de Aula e cronograma. A sequência natural dos andamentos, deverá acontecer de acordo com o crescimento dos cachorros, porque primeiro deslocam-se a passo, depois transitam para a marcha, e finalmente evoluem para o galope, algo visível no 2º Ciclo Escolar (dos 6 aos 8 meses). Nas raças rectangulares, o galope desponta à medida que o seu comprimento aumenta, potenciando-se quando cessa o seu crescimento. Como o condicionamento e as suas respostas não são naturais, causando saturação e desinteresse, a melhor maneira de lá chegar, é sustentá-lo sobre o crescimento animal. Nisto reside a estratégica e o seu sucesso.
A cadência e profundidade do galope, assim como o seu alcance e posterior travamento, quando associados às inversões e às mudanças de direcção, são as metas a alcançar, porque sem elas o objectivo tardará: o arranque instantâneo. Este trabalho deverá respeitar os momentos de recuperação e o particular de cada cachorro, considerando os seus ritmos vitais, morfologia e estado de aprumos. Atendendo à política da integração das classes, onde os cães adultos se transformam em agentes de ensino, convém que alguns se façam presentes, induzindo os seus pupilos às tarefas a realizar. A escolha não deverá ser arbitrária, mas sim criteriosa, dispensando-se os cães mal sociabilizados ou por demais territoriais. Pretende-se com isto diminuir os riscos de ataque, porque a acontecerem, condenam a estratégia e atentam contra o ensino, podendo em simultâneo, causar traumas de difícil eliminação. Cada grupo de ensino deverá ser composto por 1 cão adulto e 3 cachorros. Os grupos deverão trabalhar em diferentes zonas, para impedir o cruzamento e a confusão. Nenhum grupo deverá ter mais do que 1 cão adulto, para que o interesse dos cachorros se mantenha e a competitividade se faça presente. O desempenho nos percursos de galope denunciará, dentro da mesma raça, quais os indivíduos precoces e serôdios, já que os primeiros evoluirão comodamente e os segundos transitarão invariavelmente para o andamento abaixo: a marcha.
Os galopadores menos apetrechados, apresentam naturais dificuldades no exercício da “ Ponte-Quebrada “, pelo que devem, previamente, ser convidados para os percursos de galope, para que o robustecimento aconteça e o obstáculo sirva os seus propósitos (os alongamentos). O trabalho a realizar consistirá na perseguição de um objecto, evoluindo-se do churro para a vara, dos lançamentos curtos para os mais distantes. O lançador será o condutor do cão adulto, a quem cabe a responsabilidade colectiva. Cada dono deverá incentivar o seu cachorro à perseguição e captura do objecto. Os cachorros desinteressados deverão sair dos grupos e trabalhar isolados com os seus condutores. A sua integração acontecerá depois da capacitação efectuada, de modo gradativo e entre cachorros menos ávidos e aguerridos. A dificuldade encontra-se ligada aos seguintes factores: incumprimento das tarefas domésticas, ausência de variação dos ecossistemas, excessiva submissão, demasiado apego ao dono e insuficiente sociabilização. Numa fase mais adiantada, porque o trabalho é do agrado dos cachorros, poderemos solicitar-lhes a guarda e a defesa dos objectos capturados. Aqui, conforme se depreende, o trabalho deverá ser individual e longe da presença dos demais. Há que evitar as escaramuças, pois importa que todos saiam robustecidos.
A procura e captura da vara lançada, é uma manobra de indução predatória que visa as futuras tarefas. Os cães adoram este trabalho e rapidamente se enfileiram. Apesar do nosso objectivo primordial ser o de muscular, acabamos por promover também o equilíbrio dos seus principais impulsos herdados. Convém lembrar que muito antes de ser guarda, já o cão era caçador. A vara substitui a ave a perseguir, a perna do herbívoro a segurar, o inimigo a capturar ou a abater. A manobra não é inócua, ao contrário do que pensam alguns patetas, porque a brincadeira induz ao trabalho e denuncia a pedagogia. Correr atrás de uma bola, apesar de parecer inofensivo, pode não o ser. A transição para acções mais sérias é automática e a regra é da nossa responsabilidade (o controlo deve ser nosso). Na escolha do local para o efeito, o piso deverá ser a primeira coisa a considerar, tendo em conta os diferentes grupos somáticos, tipos de pé e disposições de eixos. Assim seremos obrigados a procurar um neutro, um que coloque todos em igualdade de circunstâncias, (nem demasiado solto, nem excessivamente duro). Um relvado pode ser uma excelente opção. As calçadas, os pisos de areia solta e os planos inclinados, não são recomendáveis porque: cortam as almofadas e causam impactos desgastantes, travam as mãos e induzem a luxação do ombro, esforçam demasiado o esqueleto e obstam ao equilíbrio dos eixos.
Rotineiramente, a Acendura desenvolvia este trabalho na praia fluvial da Foz do Lisandro, onde a areia é mais compactada, menos revolta e sempre húmida. Ao contrário da sua congénere marítima, geralmente muito concorrida, a praia fluvial é pouco frequentada, o que permite uma área de trabalho maior e isenta de confrontações indesejáveis. Por outro lado, devido aos sedimentos transportados pelo rio, a areia da sua margem tem mais goma, graças aos terrenos ribeirinhos, ricos em greda, saibro e piçarro. O particular geográfico do local, lembra um fiorde norueguês, oferecendo condições excepcionais para a tarefa, porque se encontra virado para o poente e protegido dos flancos norte e sul, garantindo o trabalho no Inverno e no Verão sem violar o disposto no Quadro Geral de Temperatura e Humidade. Trabalhar num piso destes, favorece o fortalecimento indolor dos dedos caninos e ajuda na transição automática dos seus andamentos naturais, combatendo o pé chato e possibilitando a elegância aos diferentes andamentos naturais. Entre a tracção e os percursos de galope, tal qual os fazemos, escolhemos a segunda opção, porque primeiro importa recuperar os membros e só depois o dorso. Proceder ao contrário, é atentar contra o estado geral de aprumos e arruinar os eixos caninos.
Quem não deve ser convidado para este trabalho? As cadelas gestantes no segundo mês de gestação, os cachorros com idade inferior aos 6 meses, os cães com mais de 6 anos, os convalescentes, e todos os privados dos necessários vínculos afectivos. A proibição é também extensível aos cães portadores de displasia grave, aos bassetóides e aos acelerados de ritmos vitais. Os cães mais pesados, apesar de poderem participar, devem fazê-lo com moderação para evitar a estafa. Não raramente complementamos os percursos de galope com exercícios de obediência, no equilíbrio saudável entre travamento e aceleração. Também treinamos o “quieto” e o “aqui” (demorado e à distância), tirando partido da recompensa. A escolha da matéria complementar a instalar ou a recapitular, irá depender da classe em instrução, de acordo com os seus objectivos e grau de capacitação. Eis em síntese o que fazemos nos percursos de galope. Quando desenvolvemos uma disciplina capazmente, acabamos por abraçar outras de imediato. A divisão clássica das disciplinas cinotécnicas, cada vez mais subdividida em especialidades, procura aproveitar todo o potencial canino e nessa exploração nada do que é acessório pode ser esquecido, para que não falte e cause entrave. O desenvolvimento do galope não contribuirá para o aumento da força de impacto nos ataques lançados? Não tornará mais pronta a prestação de socorro? Há que “juntar as peças”!

A TRACÇÃO NÃO É PARA TODOS E PODE AGRAVAR A SAÚDE DE ALGUNS

O uso dos cães na tracção é milenar, aconteceu um pouco por toda a parte, das regiões mais setentrionais até às do novo mundo. Os cães transportaram tudo por toda a parte, subsidiando o homem nas suas tarefas e contribuindo para o seu progresso. As actuais modalidades desportivas de tiro canino são decorrentes desse uso e evidenciam A mais-valia do nosso fiel amigo. De acordo com os diferentes ecossistemas, foram desenvolvidas raças próprias para este trabalho, cite-se o exemplo dos Huskies e Malamutes. Mas para além da utilidade e do desporto, a tracção tem feito parte da musculação canina e usada, muitas vezes arbitrariamente. Se respeitarmos o objectivo central do adestramento, a sobrevivência animal, somos obrigados a regrar esta variante laboral, para que subsista o bem-estar canino e a divisão de tarefas não o ponha em riso. A tracção canina não se destina a todos os cães e nem tão pouco à totalidade dos indivíduos de uma raça, mesmo que ela tenha sido escolhida para o efeito. Tracção e musculação andam de mãos dadas, mas a segunda tem outros meios para substituir a primeira, sem pôr em risco a integridade física dos seus praticantes. Mushing e tracção servem diferentes propósitos ainda que o fim útil seja o mesmo, porque uns procuram a prática desportiva e outros a musculação dos seus cães.
Os cães demasiadamente compridos, os extraordinariamente selados, os de mãos divergentes e os com abatimento de metacarpos, não devem ser convidados para este exercício. O mesmo se aplica aos que se deslocam em passo de andadura e aos de infundada robustez articular. Depreende-se disto, que a modalidade não está isenta de riscos, que pode perigar a saúde canina, agravar ou provocar lesões e incapacidades. Tal não deve ser o nosso propósito. Segundo o registo histórico, a tracção tem sido desenvolvida entre 3 grupos somáticos: Os lupinos, os vulpinos e os molossos. A escolha da morfologia canina para o efeito tem considerado o particular do trabalho, a resolução animal e a sua continuidade na tarefa. O seu modus operandi, exactamente igual ao das outras disciplinas cinotécnicas, deve ser progressivo, equilibrado por metas e objectivos aquém do estoiro animal, considerando O CAP e os ritmos vitais dos indivíduos convidados para a tracção. Também a idade deve ser considerada, mormente a curva de crescimento de cada indivíduo convidado. Temos por norma só aceitar cães a partir da maturidade sexual, e quando os aceitamos antes, somente os atrelamos à arreata (atrelados lateralmente aos cães que puxam, mas libertos da tracção).
Tanto se pode atrelar um cão como vários, o que dependerá da natureza do trajecto, da carga a transportar e da celeridade requerida. Ao contrário dos esquimós, que tiram partido da dominância do macho alfa, somos obrigados ao exercício prévio da sociabilização inter pares, para que o robustecimento individual aconteça e a matilha animal sucumba. Só consideramos para a tracção os cães com um CAP entre 1.6 e 2 (coeficiente de envergadura em que se divide a altura do cão pelo seu peso), justificando o seu peso atlético pelo particular do exercício. Os cães de focinho encurtado, por dificuldades no arrefecimento, assim como os abaixo dos 40% de focinho em relação ao crânio, não devem ser convidados para este trabalho, porque cedo entram em colapso. Do mesmo modo, são dispensados os animais com um ritmo cardíaco superior às 85 pulsações em descanso. Nunca se deve colocar a tracção na base do exercício físico, mas sim no seu cumular, porque o bom desempenho sucede à preparação. Na tracção usufrui-se dos benefícios da instalação dos comandos direccionais, nela se descobre mais uma das suas utilidades, porque o seu concurso viabiliza a perfeita condução. Há que experimentar para ver!
Considerando a relação óptima, a tara nunca deve exceder ¼ do peso da carga total, e esta nunca deverá ser superior ao peso do cão, especialmente em trajectos acidentados e irregulares. Os carros devem ter dois pares de rodas da mesma altura, para que o peso se distribua equitativamente. A sua largura não deve exceder o dobro da envergadura do cão. A altura dos eixos deve ser inferior à altura dos jarretes, para que o equilíbrio aconteça e a força actue. O arreio do cão (colete; arnês ou peitoral), deve ter no mínimo dois pontos de ligação por lado e garantir a ligação peito/pescoço/garrote. Especialmente entre os cães meridionais e nados na baixa altitude, o Quadro Geral de Temperatura e Humidade deve ser respeitado. A tracção sempre deve contribuir para o aumento do perímetro torácico, para a melhoria dos ritmos vitais, para o robustecimento das articulações e para o equilíbrio físico e psicológico, porque ela faz parte do fim económico do treino: a divisão de tarefas. Sem “ junto” a tracção não subsiste, a menos que a coerção usurpe o lugar da cumplicidade e façamos dos cães gado muar.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/ 2011
2º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/102009
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ O CANIL, editado em 29/12/2009
5º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 Semanal de Leitores por País ficou assim escalonado:

1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Angola, 6º China, 7º Indonésia, 8º Reino Unido, 9º França e 10º Rússia.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CÃES PEQUENOS: SUBSTITUIR A IRRITAÇÃO PELA SEGURANÇA

Apesar de meio mundo jurar o contrário, os cães pequenos precisam de tanto ou mais ensino que os outros, apesar de raros nos centros de treino, porque se irritam com facilidade, provocam os cães maiores, atacam quando menos se espera, desconfiam dos veterinários e poderão carregar nas visitas de lá de casa, movidos pela insegurança ou coagidos pelo ciúme. Naturalmente cães de aviso, tratados na nossa latitude como “cães de vigia”, há muito que vêm sendo utilizados em matilhas com diferentes propósitos, mormente nas guardiãs e nas cinegéticas, onde se prestam como cães de aviso e sinal. A sua fragilidade leva-os à potenciação dos sentidos e bem depressa detectam qualquer intruso ou animal. Cães domiciliários por eleição, tendem ao reforço da territorialidade pela exiguidade dos espaços, assumem a exclusividade do grupo familiar e detestam intromissões, particularmente doutros cães. Defensivos em casa e ofensivos na rua, quiçá pela sua fragilidade e excesso de cuidados, tendem a considerar-se iguais aos humanos que os cercam e a resistir à sua liderança, especialmente quando contrariados ou confrontados com a novidade.
Maioritariamente mal sociabilizados, acostumados a ser reis e senhores, embirram com tudo e todos quando saem à rua, pela alteração do seu sentimento gregário e de acordo com a sua experiência de vida, ligada à sua instalação doméstica e direitos adquiridos no lar, geralmente alcançados por beneplácito e não pela observação das regras. Ladram normalmente para os cães grandes e rosnam-lhes à passagem, podendo atacá-los caso se acerquem dos seus donos, de modo imprevisto e dissimulado, e se por acaso saem ilesos da contenda, o mesmo nem sempre acontece aos seus donos, que pegando-os ao colo para os proteger, acabam por receber os golpes dos seus oponentes. A sucessiva política de castração das cadelas veio ainda agravar o problema, porque as castradas tendem a substituir o impulso à defesa pelo da luta, comportando-se como se fossem machos, dependendo isso da altura em que foram alvo da castração. Quando em liberdade, os cães pequenos constituem-se em presas dos grandes, porque correm à desfilada quer rosnando quer gemendo, o que os obriga à sociabilização pela sua segurança. Não obstante, é comum vê-los desatrelados e sem controlo, como se fossem invisíveis e não causassem problemas.
Para além dessa sociabilização entre iguais, porque raramente saem à rua e vêm pouca gente, os cães pequenos necessitam de se sociabilizar também com as pessoas (normalmente mal-entendidas por eles como concorrentes), para que não mordam nas crianças e nalguém que deles se aproxime, rendido à sua graciosidade, pequenez e ar desprotegido. Alcançada esta sociabilização, será mais fácil levá-los ao veterinário e isentar o clínico de qualquer risco. Parece mentira mas é verdade: os cães pequenos são os mais amordaçados nos consultórios veterinários, porque não consentem que outros lhe toquem, mesmo que vão a seu socorro. E ai do clínico que não se acautele, porque depois de ser mordido, vai ficar a saber que aquele cãozinho nunca tinha mordido a ninguém! Realmente há pessoas com muito azar! Só o adestramento poderá sociabilizar verdadeiramente os cães pequenos, devolver-lhes a segurança e inibir-lhes a irritação, para que possam, tal qual os outros, coabitar harmoniosamente com pessoas e animais, sem se constituírem em presas ou doentes de difícil tratamento. A derradeira palavra caberá aos donos!

VENÇA O TRAUMA E LIBERTE-SE DO CASTIGO

Nem todos os que caiem dum cavalo são capazes de o montar de novo, apesar de ser essa a atitude recomendável. Do mesmo modo, muitos dos que são mordidos por cães vão passar a vida a fugir-lhes, o que só irá agravar a sua situação. Denunciados pelo seu mimetismo e pelas descargas de adrenalina, sem o saber, irão despoletar o instinto de presa dos cães, mesmo daqueles mais dóceis e simpáticos, dos quais não se esperaria tal reacção. Quando o medo se transforma em trauma, a recuperação dos indivíduos não irá ser fácil e nem todos conseguirão ultrapassar o desequilíbrio, havendo alguns que, sem razão aparente para isso, parecem ter nascido já cinófobos, sobrando ainda outros que nunca o foram e que lhes interessa sê-lo por comodismo. Tanto os cinófobos como os traumatizados por cães (os que foram mordidos por eles e não esquecem), devem dirigir-se às escolas caninas e procurar ali ajuda, objectivando a cessação das suas fobias e a supressão dos seus traumas, o que irá transformar o adestrador num terapeuta, investidura que não lhe é estranha, uma vez que se dedica a adequar pessoas a cães e vice-versa. Se a equitação não dispensa um cavalo manso para o volteio, as escolas caninas necessitam de cães próprios para esta terapia, auxiliares obedientes, submissos e cautelosos, quase a rasar os cães-guias, daqueles que na gíria se diz “de meter moeda”, capazes de transmitir confiança a quem não a tem e segurança a quem precisa.
Ainda antes de se entregar um cão a um traumatizado, convém que assista às aulas ao nosso lado, o que lhe aumentará os níveis de confiança, que oiça as explicações dadas à classe, que repare nas distintas reacções dos cães, que conheça os rudimentos técnicos pela observação, que detecte os erros dos condutores presentes, que conheça os modos de correcção e que seja sempre ouvido e elucidado. Em paralelo, devemos convidá-lo, gradualmente, para o convívio com os cachorros, com os cães mais pequenos, com as cadelas e com os cães mais submissos, tentando levar de vencida a insegurança e a desconfiança que o dominam. Se tivermos em classe condutores infantis ou idosos, porque a sua fragilidade é maior, o que facilita a empatia e a identificação, devemos convidá-lo para junto deles, no intuito de facilitar a sua futura integração no grupo escolar. A recuperação de um traumatizado não poderá ter um cronograma previamente atribuído, porque cada indivíduo é um caso e as alterações comportamentais individuais acontecem em diferentes momentos. Tudo isto será inválido se não confiar em nós e não sentir desejo de ir avante, pelo que importa não o forçar e ganhar a sua amizade, o que não nos liberta das necessárias injecções de ânimo, particularmente diante de reveses ou retrocessos.
Quando menos se esperar, por convite ou iniciativa própria, o outrora traumatizado pedir-nos-á para conduzir um cão da classe, que de início deverá ter as características adiantadas no final do primeiro parágrafo. Primeiro faremos que evolua sozinho e que tire partido dos comandos de imobilização (junto, alto, senta, deita, de pé e em frente). Quando virmos que se sente confortável e que adquiriu o à vontade que lhe garante o controlo do animal, é chegada a altura do integrar dentro das classes, atrás de um binómio seguro e secundado por outro de igual característica, para que não vacile e se queira “pôr ao fresco”(vir embora). Vencida esta etapa sem atropelos, iremos convidá-lo para conduzir outros cães da classe, ligeiramente diferentes, de maior porte e necessitados de maior acuidade técnica. Se tudo correr bem, ele acabará por conduzir todos os cães escolares ao seu dispor, participando na “troca de condutores” como qualquer aluno regular. No decorrer da nossa actividade, recuperámos todos os traumatizados que nos surgiram, vindo alguns a ser excelentes condutores e figurantes, auxiliando depois outros com igual dificuldade.
Recuperar as pessoas traumatizadas por cães é um ofício maior do adestramento, uma obra solidária em prol da sociedade, cada vez mais egoísta e insensível aos dramas alheios. Para além disso, os cães serão melhor aceites se as pessoas não os temerem e se familiarizarem com eles. Daqui reiteramos: “ vença o trauma e liberte-se do castigo”, porque sabemos que é possível e não queremos vê-lo a fugir dos cães, a constituir-se em presa e vir a ser outra vez atacado. Se tem fobia a cães ou se encontra traumatizado por eles, não hesite, contacte-nos ou procure uma escola canina perto da sua residência, o seu problema tem solução e pode ser ultrapassado. Estamos disponíveis para o ajudar, a decisão é sua. Vale a pena tentar!

TARDA NÃO TARDA, BUJARDA!

Há quem não tenha perfil para ser militar, quem abomine tudo o que à tropa diz respeito e quem defenda a extinção de todos os exércitos e arsenais (nucleares e outros), o que me parece justo e razoável desde que não seja unilateral. No entanto, sem daí granjear qualquer lucro pessoal ou desejar mal a alguém, acho que todos os jovens deveriam fazer uma recruta de alguns meses, sem os prejudicar profissionalmente, tal como se fazem outras formações, algumas delas, diga-se em abono da verdade, de utilidade duvidosa e de lucro imediato para os formadores. Quer se concorde ou não, a incorporação militar é um processo pedagógico único, particularmente para aqueles que precisam de assumir a pontualidade, de ser disciplinados, de compreender e respeitar a hierarquia, de ser responsáveis, de cumprir o que lhes cabe, de ser decididos, de equilibrar a razão com a emoção, do apego aos procedimentos, de exercício físico, de espírito de sacrifício, de reconhecer o esforço colectivo e a importância de cada um para o seu sucesso. É evidente que há pessoas que já nascem assim, como é evidente que a maioria delas se comporta de modo díspar. Geralmente acaba incorporado quem menos precisa e os mais necessitados nem lá metem os pés, para mal das famílias e da sociedade, gerando gastos e desencontros que uma melhor formação de carácter poderia diminuir.
Na tropa aprendi que “hábito não é regulamento” e que “conhaque é conhaque e serviço é serviço”, princípios à primeira vista toscos, mas que se revertem de extrema utilidade, quando importa cumprir e refrear desejos. Na semana passada, aproveitando as Férias de Natal dos miúdos e a baixa de preços, também porque o hotel aceitava cães, uma família nossa conhecida decidiu ir até uma estância de inverno espanhola, levando consigo o seu Pastor Alemão Negro, um cachorro matulão de oito meses, com 68cm e com 38kg. A viagem de carro correu sem percalços e o animal não se fez notar, embalado pela viatura e aconchegado pelos mais novos, adolescentes que nunca tinham visto neve, apesar dela raramente faltar na nossa Serra da Estrela. Encantada com aquela infinda paisagem branca, que lhe invadia a alma de artista, a matriarca da família largou o cão pelos campos fora, sem saber o que a neve ocultava, desconhecendo o território, a natureza dos seus limites e os perigos que escondia, apesar de previamente instruída para não o fazer, atendendo à salvaguarda do animal. Estranhamente, o animal veio de lá a vomitar e com as fezes alteradas, tanto de aspecto quanto de cor, pelo que enfatizamos (já não nos lembramos quantas vezes o fizemos), que antes de soltar o seu cão, passe em revista o território e certifique-se da ausência de perigos para o animal, pois “hábito não é regulamento” e há erros que se pagam caro! E como a excursão foi a Espanha, rematamos com um aforismo de lá: “ Inicialmente, los hábitos son telarañas, después se convierten en cables” (no cabo dos trabalhos, dizemos nós).

O TRANSPORTE

Como preâmbulo à temática, para melhor entendermos o nosso trabalho, importa desnudar o cão, os seus objectivos e processos utilizados. Os cães nascem para sobreviver, a sobrevivência é o seu objectivo principal, a procura do alimento é a sua tarefa prioritária. Por causa disto, com a domesticação, o homem, ao tornar-se no dono da comida, transformou-se no patrão do cão. Daqui se antevê, que a amizade canina não é desinteressada, porque se encontra alicerçada nesta relação de dependência. Que outra razão haverá, para o apego automático dos cães vadios àqueles que os socorrem? Porque não consentimos que outros alimentem os nossos cães? O que torna a recusa de engodos imperiosa, para além da sobrevivência canina? Onde estiver a comida, aí estará a afeição do cão e graças à recompensa, permanecerá ao nosso lado pronto para nos agradar.
Existe uma relação entre a predação canina e as disciplinas cinotécnicas, um aproveitamento objectivo dos cinco momentos que constituem o seu modo de caçar, a saber: a procura, a detecção, a perseguição, a captura e o transporte. Os criadores das actuais raças caninas potenciaram algumas destas acções em prejuízo de outras, criando incapacidades e desequilíbrios. Cabe ao adestramento reequilibrar, caso o consiga, os cães que lhe são entregues, devolvendo-lhes o seu modo original de actuação. Para cada momento se criou um cão, para cada raça uma atribuição e nisto o cão ficou mais pobre. Com a contribuição da evolução das espécies, o homem conseguiu, nestes últimos 130 anos, transformar um lobo num passarinho de 4 patas (cães-toy). À excepção dos retrievers e de alguns bracóides, a maioria dos cães perdeu a capacidade de transportar, necessitando do amparo que só a gula pode oferecer. Não será o cão moderno um bucho anafado de biscoitos? Do instinto de caça só sobrou a recompensa e a presa adquiriu outras formas. Agora a história deverá ser contada ao contrário, do fim para o princípio, tirando-se partido experiência directa, da memória afectiva e do reforço positivo. Só a recompensa poderá valer ao transporte.
Entendemos por transporte a recolha e entrega de um ou mais objectos, por parte do cão, debaixo de ordem e com destino definido, visando acções binomais prà prestação de socorro. Este trabalho resulta do aproveitamento dos instintos de caça e presa, e procura transformar a predação em acções de salvamento e resgate. Existe uma clara distinção entre cães transportadores e carregadores, os primeiros transportam os utensílios na boca, os outros carregam-nos mediante atavios próprios par o efeito. Apesar da diferença operativa, as duas especialidades são parte integrante do mesmo objectivo: o salvamento. Mas se ambas contribuem para o mesmo fim, também a sua finalidade pode ser alterada, estender-se a usos distantes do seu propósito original. Qual a importância do transporte? Não existe cão de trabalho sem transporte, porque o fim útil do treino é a divisão de tarefas – a complementaridade. Não espelhará o transporte a cumplicidade exigível a um binómio? Um carpinteiro ensinará o seu cão a buscar-lhe as ferramentas, um pastor a tocar as suas vacas ou ovelhas, o cão doméstico entregará os chinelos ao dono, carregará o seu jornal e transportará o saco do lixo para o contentor.
Quando começa o seu treino? O transporte começa no consentimento do espólio canino, é reforçado através do churro e dos brinquedos, sendo próprio do ciclo infantil que decorre dos 45 aos 120 dias. A acção começa por ser doméstica, potencia-se na escola e desfruta-se no lar. Os seus benefícios podem ser restritos ou abrangentes, dependendo do uso que lhe queiramos dar. Quando deixaremos de exigir essa tarefa a um cão? Quando tal lhe for penoso e ponha em risco o seu bem-estar físico e psicológico. Normalmente os cães são dispensados da tarefa quando atingem os 8 anos de idade. Os mais fracos deverão terminá-la atempadamente. De qualquer modo, quando os cães chegam aos 6 anos, diminuímos a frequência e o peso da carga, particularmente àqueles com uma esperança média de vida de 10 anos. Como treinaremos? O transporte acontece da perseguição para os objectos estáticos, das formas anatómicas para as mais complexas, das pegas mais macias para as mais duras, dos objectos equilibrados para os desequilibrados, dos mais leves para os mais pesados com diferentes diâmetros.
Qual a força de transporte de um cão médio? Um cão médio aumenta a sua força de transporte, dos 2 para os 36 meses, quarenta vezes, não devendo abocanhar e transportar objectos com peso superior a 30% do seu peso corporal. Quanto deverão pesar os objectos destinados aos cachorros? Dos 45 aos 120 dias – 2% do seu peso corporal (300gr), dos120 aos 180 dias – 3% do seu peso corporal (600gr), dos 180 aos 240 dias – 5% do seu peso corporal (1Kg). Os valores dos pesos consideraram o crescimento médio de um exemplar CPA. Contudo, o percentual indicado é válido para todos os cachorros. E os destinados aos cães adultos? Depois da maturidade sexual, os cães jovens serão convidados para um esforço maior. Dos 8 meses aos 12 meses – até 10% do seu peso corporal (3Kg), dos 12 aos 18 meses – até 15% do seu peso corporal (5.25Kg), dos 18 aos 24 meses – até 25% do seu peso corporal (9.5Kg), dos 24 aos 36 meses – até 30% do seu peso corporal (12Kg). Os valores referenciados em quilos consideraram um cão de 40Kgs de peso. No entanto, o percentual indicado é válido para quase todos os cães.
Não poderão carregar mais peso? Não devem, devido ao esforço articular, às mudanças de velocidade e ao aumento da frequência dos seus ritmos vitais. É importante não esquecer, que a prestação de socorro não acontece somente em pisos planos, pode passar pelo subir de uma rampa ou escada, pelo saltar de uma vala ou barreira. O peso a transportar deverá considerar as dificuldades próprias de cada percurso, tendo em conta a salvaguarda do animal e só depois a sua capacidade de resolução. Rotineiramente, o trabalho laboratorial é desenvolvido sobre os obstáculos do perímetro exterior da pista. Os cães mais robustos, com pesos superiores a 35Kg, conseguem arrastar cargas até 70% do seu peso corporal. Os grandes molossos e os portadores de mandíbulas fortes, podem tornar-se bons transportadores? Podem e geralmente fazem-no sem grandes dificuldades. Eles não são transportadores natos, mas genuínos cães de captura. Há que ensiná-los de imediato a não retraçar os objectos, coisa que naturalmente fazem para enterrar os dentes, no intuito de os estilhaçar. Apesar de conseguirem levantar mais peso que os demais, cansam-se mais rápido e interrompem as acções. Na prática, não devem transportar objectos com mais de 15% do seu peso corporal. Que cães não deverão ser convidados para o transporte? Os cães estruturalmente côncavos, os portadores de assimetrias articulares, os de ritmos vitais elevados, os fustigados pela epilepsia e pela displasia, os convalescentes e idosos. Também os obesos e os pernaltos.
Como proceder com um cão que nunca transportou? Como se tivesse 45 dias de idade, desenvolvendo a cumplicidade e suscitando o interesse, recompensando sempre que necessário e premiando todo e qualquer progresso. Os brinquedos não são do cão, são do dono e devem suscitar a cobiça do animal. Eles não devem ser entregues ao cão, mas anunciar a chegada do seu líder, ter o seu odor e ser objecto da sua estima. Devem constituir-se em fruto proibido e apetecível, algo que divide com o dono. Existe algum tipo de cão mais vocacionado para o transporte? Todos os cães podem ser transportadores e devem fazê-lo de acordo com o seu peso, tipo de mordedura e morfologia. O cão típico de transporte oscila entre os 27 e os 40kgs de peso, é normalmente rectangular, com pouco elevado de cabeça, de dorso paralelo ao solo e de média angulação. Apresenta eixos locomotores paralelos e geralmente tem pé de lebre. O seu focinho é forte e de extensão igual à do crânio. Os cães que tendencialmente incorrem no efeito campainha, com a cabeça nivelada pela linha do dorso, apresentam uma predisposição natural para este trabalho. O cão destinado ao transporte necessita de ter o peito forte e desenvolvido, um perímetro torácico acima dos 85cms e ser convergente de mãos.
Depois de alcançado o transporte, qual é a meta seguinte? Abocanhar e transportar objectos estáticos distantes, debaixo de ordem expressa, segundo indicação do dono, a quem prontamente os entregará. A capacidade de diferenciar os objectos, fica a dever-se mais ao dono do que ao impulso ao conhecimento canino, por força da sua paciência, insistência e generosidade na recompensa, a menos que o animal pertença a uma raça criada para esse fim. Como sabemos que a selecção canina raramente atenta para a importância do impulso ao conhecimento, ignorando-o muitas vezes, caberá aos proprietários dos cachorros operar o seu desenvolvimento, acção possível pela experiência variada e rica, no acompanhamento objectivo dos seus ciclos infantis. O cão deverá conhecer os objectos pelo nome. Como operaremos essa “ experiência variada e rica”? Se um cão é rico em espólio, a tarefa encontra-se facilitada, basta sugerir a sua identificação. Quando tal não acontece, o espólio deverá ser enriquecido por brinquedos apelativos, de diferentes formas, texturas e pegas, com sons diferenciados e distintas progressões. Felizmente existe no mercado um grande número de brinquedos pedagógicos. Se o desprezo pela identificação se verificar, a recompensa tende a vencê-lo. Mas se a dificuldade de mantiver, urge relacionar cada objecto com uma acção do agrado do cão. Os cães não agarram a trela quando desejam ir à rua?
Como se classificam os transportadores? Os cães são classificados pela capacidade de diferenciar os objectos que transportam. A classificação encontra-se assim distribuída: até 3 objectos, o rendimento do cão é considerado medíocre, de 4 a 5 objectos – médio, de 6 a 7 objectos – médio alto, de 8 a 10 objectos – superior. Para além disso, o cão é considerado extraordinário e o dono não deixará de o ser. Há notícia de cães que conseguiram identificar algumas dezenas de ovelhas. Existem algumas provas para transportadores? Actualmente não existem provas específicas de transporte. Apesar disso, ele está presente em diversas provas de obediência e pistagem, ainda que de modo suave. Exemplo disso é o transporte do haltere no schutzhund e a procura do brinquedo no COB (Certificado de Obediência Básica). Tal qual a técnica de condução, o transporte não é uma disciplina, mas sim um complemento curricular, uma ferramenta indispensável aos cães de resgate e salvamento.

JAZZ DIE MORGENGLANTZ: O ASTRO DA COMPANHIA

Chamado a protagonizar uma série televisiva, onde trabalhou para além de dois anos, o Jazz tornou-se vedeta e convenceu-se que era inspector da Polícia Judiciária, tanto na ficção como depois dela, sendo usado para a captura de eventuais criminosos, normalmente duplos fornecidos pela Acendura, efectuando as suas acções ofensivas e outras de modo exemplar. Ao todo, não sabemos quantos ataques realizou, mas foram alguns centos. Puxado para a ribalta por necessidade, a sua adaptação à ficção não foi fácil, porque inicialmente sentia-se desconfortável no “plateau” e não interagia com os actores, porque havia sido treinado estritamente para guarda, para a protecção exclusiva do agregado familiar que o adoptou. Não obstante, respondia afirmativamente a 35 comandos de obediência, executados ao gesto como convinha, porque em Portugal ninguém paga a pré-produção. Estava sociabilizado com outros cães, familiarizado com qualquer tipo de animal doméstico e acostumado aos tiros, que funcionavam para ele como sinal de partida. Detestava as cenas domésticas e abominava as partes lúdicas dos actores infantis, o que nos obrigou ao uso do “Bibos”, que ao contrário dele, adorava sofás e prestava-se a todo o tipo de diabruras. Filho dum negro e duma lobeira, Lobo e Nail, neto do Warrior e do Brusco, veio a demonstrar o melhor das duas variedades cromáticas: a seriedade dos negros e a subtileza dos cinzentos.
Como já atrás se disse, a entrada do Jazz ao mundo das séries televisivas não se pode dizer que tenha sido fácil, porque bem cedo aprendeu a resmungar com a Inês, a sua condutora, uma jovem na altura com 13 anos de idade que ele adorava. Acresce ainda o facto de ter nascido muito-dominante, o que lhe conferia uma teimosia pouco vista frente à novidade da liderança. Vezes sem conta, nos intervalos das cenas, quando ia descansar para junto da carrinha que o transportava, aproveitava a ocasião para defender a viatura e o seu motorista, por auto-recriação e contra quem o dirigia em cena, o que lhe valeu alguns castigos que não surtiram efeito. Raros foram os cães que nos obrigaram ao reforço da linguagem gestual à verbal e ele foi o último deles, como se pode ver na foto abaixo, onde rosnando resiste a pôr-se de pé. Com o decorrer do tempo, que exigiu tenacidade, mestria e paciência, o Jazz transformou-se no astro da companhia, convencendo-se do seu papel e executando-o irrepreensivelmente, valorizando o nosso esforço e contribuindo de sobremaneira para o êxito da série.
No mundo do vídeo fez de tudo um pouco, desde rebocar “bandidos” pelas pernas até empurrar cadeiras de rodas. Saltou para o capot de vários carros, puxou “criminosos” pelas janelas e ainda “voou” por cima de uma Renault Express para apanhar um “delinquente”, à primeira e sem qualquer dificuldade, capacidade que lhe adveio do treino nas pistas tácticas e do seu aproveitamento na endurance (1.2m de salto vertical instantâneo, 3.75m de salto em extensão e muros até 2.5m). Hábil no contra-ataque, tornado incorruptível e treinado na contra-ordem, o Jazz, apesar de ser um cão familiar, bem que poderia ter sido cão policial ou de patrulha. Infelizmente os Pastores Alemães não são eternos e vivem em média menos que outras raças, porque raramente descansam, mantendo-se alerta e prontos para intervir. O Jazz morreu, mas continua vivo para quem o conheceu e ainda aparece aos fins-de-semana na televisão, para alegria da criançada.
Com a sua morte perdem-se momentos que jamais viveremos, porque não há dois cães iguais e os anos não nos poupam. Obrigado companheiro, foi bom ter-te ao lado, ainda sonho contigo acordado.

EUSÉBIO MORREU!

No tempo em que se ia à mercearia comprar uma quarta de café e outro tanto de açúcar, quando quem trabalhava não tinha direito à baixa, à reforma e a outras regalias sociais, Eusébio era o tónico que mais valia à gente simples deste País, uma lufada de ânimo para enfrentar o dia-a-dia, que alimentava a esperança de quem mais sofria, pacificando a Nação com o regime pela exaltação internacional deste moçambicano, a quem o Benfica muito deve, nem sempre valeu e o País pouco se importou. Convém não esquecer, que nessa época, na década de 60 do século passado, a escolaridade mínima obrigatória se remetia à 4ª classe, que o analfabetismo era maior na Metrópole do que na Colónia/Província de Cabo Verde, que o ideal era arranjar um emprego no Estado e que o campeonato de futebol era o acontecimento domingueiro mais marcante, o que tornava a ida aos estádios num desejado evento social. E neste sentido, morreu o ídolo dos pobres, a quem alguns intelectuais, para além da humildade do homem e abusando dela também, sempre consideraram inculto, bronco e marionete do regime deposto pela actual democracia, a despeito do Povo que o considerava seu, sendo também ele explorado até à exaustão, até não poder mais!
Para o futebol nacional, para além de referência, Eusébio da Silva Ferreira é e será sempre um ícone. Para o internacional não o deixará de ser e para aqueles que o conheceram muito menos. Marcou muitos e grandes golos, carregou a Selecção Nacional às costas, engrandeceu o Benfica e nunca reclamou méritos para si mesmo. Quando entrevistado, era fraterno e parco de palavras, o que lhe granjeou a fama de inculto, própria de um nativo assimilado. Estranhamente, volvidos todos estes anos, o discurso dos futebolistas não sofreu qualquer alteração, mesmo dos considerados vedetas, porque ouvimos continuamente frases como: “futebol é isto mesmo” e “agora há que levantar a cabeça e pensar no próximo jogo!” Não é possível estabelecer um paralelo entre Eusébio e Cristiano Ronaldo, porque ao primeiro tudo foi exigido e ao segundo tudo lhe foi dado, muito embora não o tenha desbaratado, um pertenceu ao “futebol força” e o outro acrescentou-lhe um fino recorte. Acresce ainda a diferença entre a humildade do moçambicano e a vaidade do madeirense. Mas para além disto tudo, o “Pantera Negra” será sempre um símbolo de África e um ídolo para os africanos, porque no tempo do “futebol europeu dos brancos”, enquanto negro, estabeleceu a diferença pela qualidade. Adoptado por Portugal e equipado pelo Benfica, parte agora quem cumpriu! Obrigado Eusébio pelas alegrias que nos deste, descansa agora em paz de tanta pancada que apanhaste!

FRASE DA SEMANA

A frase desta semana pertence a um taxista lisboeta, ex-combatente da Guerra Colonial e dado a meditações. É ela: No dia em que Deus fez as africanas, já se sabia que o Mundo ia acabar negro”. Disseram-nos que o homem para além de motorista é também poeta e já editou um livro a expensas próprias!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010
2º _ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
3º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º _ “X” DE JARRETE DE VACA, editado em 25/07/2011
5º _ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUÍÇO, ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 Semanal de Leitores por País ficou assim escalonado: 1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º China, 5º Rússia, 6º Alemanha, 7º Reino Unido, 8º Andorra, 9º Angola e 10º Suiça 

sábado, 4 de janeiro de 2014

CABEÇA DE ANDORINHA, PATAS DE GALINHA E CAUDA DE PAVÃO

Sempre que alguém compra um Pastor Alemão de proveniência estrangeira, mesmo que esse exemplar seja deplorável do ponto de vista morfológico, o que cada vez mais se repete, logo faz soar as trombetas e depressa faz dele um ícone, como se esse “esganarelo” fosse o melhor cão do mundo. Passado o alarido e atentando ao pormenor, agora com o animal na nossa frente, reparamos que é estreito de crânio e de peito, que abate os metacarpos e tem os pés chatos, que descodilha em marcha e vareja de traseira, tal qual pavão de cauda a arrastar pelo chão. Passado algum tempo, ficamos ainda a saber que concorre a bolsas de líquido sinovial, que sofre de insuficiência pancreática e que transmite prognatismos vários à sua prole. Não obstante, ainda poderá vir a ser campeão, talvez para premiar o esforço que o traz de pé! 
Uma boa cabeça e ossatura forte são predicados que a raça não dispensa, tanto na beleza como no trabalho, apesar de pouco vistos por toda a parte (quando quisemos ilustrar este artigo, também não foi nada fácil encontrá-los). Com base nestas características poderemos iniciar uma linha de criação bem sucedida, porque tudo o resto poderá ser acrescentado num ou dois beneficiamentos. A excessiva endogamia e a persistência em determinadas linhas têm vitimado o Pastor Alemão de sobremaneira, tornando caricata à sua selecção e arredando a raça das suas mais-valias. A evolução da raça não deverá passar pela sua aproximação às outras agora em voga, mas ser orientada para aquilo que a distingue e torna única: a sua versatilidade. Ninguém deverá produzir Pastores Alemães com o Malinois na cabeça, porque cada morfologia se presta a determinado tipo de função ou trabalho e a polivalência do Pastor é única. É importante relembrar que a morfologia de um cão não se encontra desligada do seu desempenho e grau de equilíbrio, que um Pastor macho abaixo dos 33kg é atípico, ainda que seja muito procurado e oriundo de um canil deveras chocalhado.

HUSKY E SERRA DA ESTRELA: UMA PARCERIA DIFÍCIL

Há alguns anos atrás, data que agora não conseguimos precisar, na Capital Paulista, no Brasil, assistimos a uma desavença entre dois cães numa exposição de beleza, onde um Fila Brasileiro adulto decidiu atacar uma Husky de 7 meses de idade. Dum momento para o outro, o sangue correu pelo chão fora e devido à desproporção dos animais, toda a gente temeu pela vida da cachorra. Depois de sanado o conflito, veio a descobrir-se que o sangue vertido pertencia ao Fila Brasileiro, proveniente de vários cortes que tinha na barriga e que a Husky não havia sofrido qualquer lesão. Ainda que poucos falem disso, devido à manipulação das distintas raças caninas, existe entre algumas delas uma incompatibilidade somática, baseada nas distintas morfologias, díspares funções e modos de actuação, fundamentando aversões cuja eliminação nem sempre é fácil. É evidente que o grau de aversão irá depender do sexo dos animais, da idade e do perfil psicológico de ambos, do seu particular territorial, do tipo de instalação doméstica e da qualidade da liderança, que nestes casos carece de ser activa e atenta. Quando o sexo é diferente e a diferença de idades é notória, a ocorrência de conflitos é menor, quase nula e automática, a menos que o ciúme do cão mais velho impere e os donos nada façam. Caso é sabido, qualquer sociabilização não dispensa a prévia familiarização, muito embora seja difícil um cão adulto morder um cachorro antes dos 10 meses de idade. Optar pela escolha de duas fêmeas pode não ser a melhor das opções, porque o impulso à defesa presente nelas, a seu tempo, poderá induzi-las a picardias mais ou menos graves. 
Fomos criadores de Serra da Estrela e para além dos nossos, treinámos três dezenas de alheios. Não criámos Huskies, mas treinámos inúmeros, porque em tempos idos a raça esteve na moda, preferência hoje abandonada que outros explicarão, apesar de não nos ser difícil adivinhar o porquê. Antes do boom do Weimaraner, do Malinois e do Border Collie, considerando o Husky e o Serra da Estrela, assistimos, aconselhámos, instalámos e treinámos as seguintes duplas: Husky /Boxer, Husky/Fila de S.Miguel, Husky/Golden Retriever, Husky/Labrador, Husky/Pastor Alemão, Husky/Serra da Estrela, Husky/Schnauzer, Serra da Estrela/Boxer, Serra da Estrela/Cocker, Serra da Estrela/Galgo Espanhol, Serra da Estrela/Labrador, Serra da Estrela/Malamute do Alasca e Serra da Estrela/Pastor Alemão. Ainda treinámos e nalguns casos reeducámos, híbridos de quase todas elas e de outras “cruzas”, quando a hibridação era pouco procurada e aqui acontecia acidentalmente. Pelo trabalho que deram na reeducação, os híbridos de Pastor Alemão com Serra da Estrela ficaram célebres, tanto nos centros de enfermagem como na nossa memória. Não obstante, todos saíram prontos e nenhum deles veio a causar problemas. Valha-nos isso! É importante relembrar que as nossas aulas eram colectivas e que as distintas classes de adestramento trabalhavam em conjunto, segundo um escalonamento prévio que visava a melhoria do rendimento global, o que nos permitiu observar, in loco, diversas incompatibilidades inter-raciais e operar a sua reconciliação, pela identificação da matilha escolar que induzia à sociabilização procurada. 
A coabitação de um Husky com um Serra da Estrela no mesmo lar ou dentro do mesmo território, tantas vezes problemática, geralmente efectuada por quem pouco ou nada sabe sobre cães e apenas se deleita com as diferenças raciais, é merecedora de uma análise mais pormenorizada, considerando os diferentes casos e os problemas que apresentam, já que não é fácil agregar um lupino a um molosso, desconsiderando a idade, o sexo, o perfil psicológico, o viver social e as tendências de cada um deles. Se persistirmos em adquirir um Husky e um Serra da Estrela, a escolha mais acertada é comprar os dois em cachorros, com idade aproximada e sexos diferentes, porque sem atropelos se familiarização um com o outro e escalonar-se-ão de acordo com o sexo, evitando-se assim possíveis conflitos sociais. Segundo a nossa experiência e aquilo que é do domínio público, o macho deverá ser o Serra, porque caso seja o Husky, é possível que no futuro saiam os dois porta fora. Mas se não desejarmos uma prole de mestiços ou correr esse risco, e houver como optar entre dois machos e duas fêmeas, mais vale trazer os primeiros, porque as fêmeas, devido ao impulso à defesa, tornam-se quezilentas e concorrentes, ciosas do seu espaço e atenção, não sendo por norma simpáticas umas com as outras. Estamos a tratar de animais “inteiros”, porque desprezamos a castração por atentar contra o bem-estar animal, muito embora ela resulte, na maioria dos casos, para a cessação dos problemas. 
Assim, é de todo indesejável, quando já se tem uma cadela adulta, ir buscar uma cachorra para sua companhia, isto se a adulta for activa e fértil, porque após o 1º cio da mais nova, não hesitará em fazer saber quem ali manda. Poderá verificar-se o contrário se a mais nova for dominante e a residente por demais submissa. Agora, se o adulto for macho e se adquirir um cachorrinho do mesmo sexo, a ocorrência de desacatos é praticamente nula, porque o mais velho protegerá o infante e ensiná-lo-á de acordo com o seu particular, garantindo o seu predomínio. Também aqui, excepcionalmente, poderá haver uma inversão hierárquica, particularmente se o mais novo for o Husky. A adopção dum cachorro macho por uma cadela adulta, independentemente da raça da fêmea, é quase automática e isenta de problemas, mesmo que a cadela seja das rijas, porque mais cedo ou mais tarde, o macho reclamará o seu lugar hierárquico. Neste caso, por precaução e até à maturidade sexual do cachorro, convém que lhe seja atribuído um espaço próprio, para que não invada o da cadela e venha a ser escorraçado.
De qualquer forma, com o decorrer do tempo, a coabitação de um Husky com um Serra, ainda que harmoniosa do ponto de vista social, será algo desgarrada, porque um não pára quieto e o outro não está para correrias. O que une as duas raças é o apego à autonomia e ambas requerem uma liderança incondicional. Do ponto de vista logístico a coisa também não é fácil, a menos que saiamos à noite com o Serra, quando importa descansar, e de manhã com o Husky, quando despertamos vigorosos. Conduzir os dois em simultâneo e alinhados, irá requer muita paciência e empenho, porque um quer rebocar-nos e outro não quer ir “a toque de caixa”, preferindo deslocar-se um pouco atrasado. Do convívio entre ambos, é mais fácil o lupino dar ao molosso maior disponibilidade do que receber dele mais juízo, até porque o Serra não guarda o Husky e este abomina qualquer tipo de custódia. Em termos de constituição binomial, por serem mais instintivos que a maioria dos cães, ambos apresentarão problemas, ainda que diferentes, já que o Husky resiste ao travamento e o Serra à transição dos andamentos naturais, um carece de assaz inibição e o outro da sublimidade dos estímulos. A raça que mais ajuda na recuperação do Husky é o Pastor Alemão e a que mais vale ao Serra é o Fila de S.Miguel, apesar do último ser pouco sociável. O assunto não se esgota aqui, como não se esgotam as coabitações mais estranhas. Ainda não vimos as duplas Bulldog Inglês/Greyhound e Irish Wolfhound/Chihuahua, mas estamos certos que algures, alguém já as constituiu!

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
3º _ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO NEGRO, editado em 05/06/2010
5º _ O ESTRANHO ANÚNCIO DOS PASTORES ALEMÃES CASTANHOS, editado em 26/04/2013

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal dos leitores por País deu a seguinte classificação:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º China, 6º Espanha, 7º Rússia, 8º Suécia, 9º França e 10º Andorra.