segunda-feira, 6 de junho de 2011

AMOR, AMOR AOS CÃES E O AMOR DELES

Há medida que vamos envelhecendo, começamos a questionar princípios, conceitos e ideias que até então nunca havíamos questionado. Ao olharmos para trás, para nosso desconforto, surpreende-nos a entrega que tivemos por tão pouco, as liças sem sentido, o peso inusitado que demos a certas coisas e o desprezo por outras mais valiosas. Apesar de sentirmos que andámos ocupados, ao mesmo tempo, não nos livramos de uma sensação de desperdício, face ao empenho exagerado revelado pela própria vida. Daqui temos retirado muitas lições, mormente duas: que só os inteligentes dirão, caso pudessem, que alterariam algumas coisas do seu passado e que os jovens sempre acabarão ludibriados pela ausência de maturação, o que à primeira vista nos parece um contra-senso, apesar de o não ser pela antecipação biológica da maturidade sexual à emocional. Todos tivemos uma idade em que acreditávamos em tudo o que ouvíamos, outra em que começávamos a acreditar em nós próprios, uma outra em que julgámos ser donos da verdade absoluta, depois uma em que nos encaixámos no colectivo e finalmente teremos outra em que questionaremos a validade de todas as nossas opiniões e crenças. Alguns ainda chegarão à fase da circunspecção, azedos para os demais e desinteressados pelo mundo à sua volta, presos aos seus pensamentos e pouco propensos para ouvir. Se confessamos que a transcendência operativa no adestramento resulta do amor, vale a pena reflectir sobre ele, talvez isso nos faça melhores condutores cinotécnicos.
Se há coisas de que muito se fala e pouco se sabe, o amor será certamente uma delas. Será ele um truque do nosso cérebro baseado em estímulos eléctricos, reacções químicas e hormonais que nos fazem sentir bem e nos activam a auto-estima? Poderá ser ele desligado de outros sentimentos ou emoções? Aonde nos conduzirá? Onde residirá? Quem poderá amar verdadeiramente? Aqui está um assunto que gostaríamos de ver tratado pelo ilustre Dr. António Damásio, cientista luso e chefe do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa, para além de professor no Salk Institute na Califórnia. A procura das respostas às perguntas que atrás formulámos levou-nos a horas infindas de leitura e reflexão, à consulta de muita gente, a paragens distantes, ao calcorrear imenso de velhos corredores de pedra e ao encontro de eruditos de vária ordem (catedráticos insofismáveis). Mas mesmo assim, voltámos de mãos vazias e não obtivemos uma resposta conclusiva.
Nesse trajecto, como não podia deixar de ser, não desprezámos também os teólogos, porque se dizem representantes terrenos do verdadeiro amor: o ágape, o visível na pessoa de Jesus Cristo, um Deus que se fez homem por nós. Não vamos aqui discutir os meios para alcançar essa graça, porque em cada um deles encontrámos opinião diversa e submissa às suas convicções. Porém, e pedimos imediatamente desculpa pela afronta, porque não é essa a nossa intenção, a teologia bíblica em pouco difere dos novos métodos de treino caninos, maioritariamente baseados na recompensa, isto se substituirmos os biscoitos pelas promessas, muito embora a fé no sacrifício vicário de Cristo seja para alguns, o suficiente para aos homens para alcançarem o amor de Deus. O amor do Emanuel, porque é sobrenatural, torna-se de difícil aplicação entre os mortais, mesmo daqueles que se dizem seus seguidores, por isso confrontados com a Lei e necessitados de arrependimento. Independentemente de sermos chamados, eleitos ou criados para esse sentimento maior, nenhum de nós, mesmo arredado desse beneplácito, dispensa o amor nas suas vidas. O pintor de tabuletas que nasceu em Branau-am-Inn no ano de 1889, dizia numa das suas obras mais lidas, que a religião vinha pela cultura, será que o amor também vem?
Sobre a química cerebral que despoleta o amor, pouco sabemos e carecemos de conhecimento mais profundo: do esclarecimento possível para o nosso entendimento. Que o amor desperta ou é acompanhado de outros sentimentos não temos dúvidas. Que em todos nós há amor é um facto, ainda que nalguns seja difícil identificá-lo, mercê da sua ocultação ou fragilidade diante de várias patologias. Também não temos dúvida quanto à sua aceitação cultural, como não duvidamos da influência da cultura nos modelos amorosos. Basta dizer, que quase sem darmos conta, passámos da frivolidade para o erotismo, segundo os ciclos que têm composto o avanço da humanidade. Se a identificação dos vários tipos de amor se encontra facilitada pela etimologia das palavras da antiguidade, o mesmo não se passa com a identificação de todas as suas formas subjectivas, porque todos apresentamos diferentes tipos e formas de amar. Mas se entendemos o sentimento para além das suas manifestações e de acordo com as reacções que provoca nos outros, talvez compreendamos o que é o amor de facto, porque doutra forma seríamos obrigados a aceitar em pé de igualdade o narcisismo, o hedonismo e toda a casta de ermitões (muitas vezes julgados santos pelo atraso da ciência). Assim, julgar o amor pelos seus frutos torna-se mais fácil, na medida em que o efeito induz à causa e o sentimento ganha forma, já que o amor é a mais excelente das comunicações, porque congrega e produz alteração no comportamento dos seus dadores e receptores, levando-os à unidade tanto de propósitos como de vida. Será a partir daqui que avaliaremos o nosso amor pelos cães e o amor que eles nos têm, enquanto acção reflexa num trajecto que se deseja comum.
É interessante reparar que normalmente avaliamos o nosso cão segundo aquilo que ele nos dá ou tem para dar e raramente nos questionados sobre o que ele espera de nós. Esta postura, nada respeitosa por ser egoísta, espelha uma relação interesseira que por vezes estendemos a outros relacionamentos e compromissos. Se na cinotecnia ela é uma manifestação de puro especicismo, na sociedade ela poderá condenar aqueles que mais amamos e por inerência votar-nos à solidão, já que a reciprocidade é a forma mais elementar do amor. E nisto não diferimos dos cães, já que a sua gratidão provém daquilo que lhes dispensamos e que é do seu agrado. Com base nesta permuta de interesses podem formar-se binómios regulares, contudo jamais chegarão à excelência operativa. E não chegarão porque não é a regra que estabelece a diferença, mas sim a dedicação, enquanto manifestação amorosa. Este amor sempre nos levará, quando autêntico, à supressão das dificuldades dos animais, à entrega individual em prol do conjunto, ao ânimo perante as dificuldades e à paciência para as levar de vencida, até porque o melhor cão nas mãos erradas, pouco vale e o mais fraco deles, quando entregue ao homem certo, normalmente acabará por surpreender-nos, o que nos remete para o problema da liderança e para as distintas formas da exercer, que só serão adequadas pelo conhecimento mais tangível do animal, naquilo que ele tem de único enquanto indivíduo. Como poderá compreender-nos, se nós não o compreendemos? Como poderá ele seguir-nos, se ignorarmos as suas dificuldades? Destas ambiguidades anda o adestramento cheio e não sabemos se alguma vez se livrará delas.

O compromisso baseado no amor é o que melhor que serve a cinotecnia e que melhores frutos dá no treino, quando os homens assumem perante os seus cães que não os desprezarão, que estarão com eles hoje e sempre, haja o que houver e aconteça o que acontecer. Só um condutor incondicional terá ao seu lado um cão incondicional, porque o bicho segue o exemplo. Infelizmente sabemos que esse compromisso é muito raro, não só entre os condutores ou instruendos, mas também entre todos os envolvidos nas diferentes áreas da canicultura, onde aparece com uma gota de água perante o abandono dos cães, o seu desprezo, passagem de mão e abate. A cinotecnia exige comunhão de vida e sempre nos sobrarão razões para a desleixar. É curioso observar, que são aqueles que menos se entregam, os que mais esperam dos cães e os primeiros a cair face ao gorar das suas expectativas, porque a paixão tem pouca duração quando comparada com o amor, sentimento que tudo suporta e não esmorece, porque vem do serviço e não reclama retribuição imediata. Ensinar cães é também ensinar pessoas a amar e se não houver comunhão de objectivos com base neste sentimento, dificilmente uma escola sobreviverá e atingirá os seus propósitos, seja ela do que for, porque só a afeição consegue suportar a disciplina, a obrigação e todas as dificuldades. Por esta razão continuam a existir bons e maus professores, uns que são amados e outros odiados, uns que produzem alunos que os ultrapassam e outros que apenas geram ténues imagens de si próprios, imitações de um modelo em si mesmo já deficitário e depauperado. No entanto, é preciso alguma fortuna para encontrar bons alunos.
O amor dos cães exige comunhão de vida, cumplicidade e exemplo, condições que levam ao natural desenvolvimento da sua capacidade de aprendizagem. O amor dos donos deverá ser capaz de suprir essas necessidades e o segredo do sucesso residirá na reciprocidade desse sentimento. Se ele terá de ser paternal, fraternal ou outro, só o nosso cão o dirá, de acordo com as suas características, necessidades e histórico de vida. Os soldados humanos, quando no calor da luta e diante da incerteza do seu destino, sempre carregaram junto a si recordações da sua infância, dos seus entes queridos e dos dias felizes que com eles passaram. Donde virá a força para o cão guardião? Certamente da confiança no dono e nas vitórias passadas, dos simulacros donde saíram vencedores e da recompensa de que sempre foi alvo. A gratidão é um dos frutos do amor e os cães precisam dela. O adestramento sem amor é uma violência baseada na submissão, uma prática esclavagista que se remete exclusivamente ao engrandecimento do reizinho que há dentro de cada um de nós, ávido de vassalos e parco de retribuições.

STEPHANITZ, EQUITAÇÃO E ADESTRAMENTO: O TRAJECTO DA JOANA

Já tarda a hora do perdão aos alemães, para que a perseguição não dê azo à revolta e eles voltem à ribalta pelas piores razões. A Alemanha não pode ser só julgada pelos seus erros, mas avaliada sobre o seu todo, no muito que tem contribuído para o avanço da humanidade e como suporte da unidade e identidade europeias. Isto nada tem a ver com a Joana, mas o Cap. de Cavª Max Stephanitz tem, porque nasceu alemão, cinquenta e seis anos antes da formação do partido nazi e trouxe até nós o Cão de Pastor Alemão. O percurso deste nobre teutónico, da equitação para a canicultura, iria revelar-se de extrema importância no pragmatismo selectivo que imprimiu ao Deutshe Schäferhunde, quando o associou aos avanços científicos evidenciados pela escola inglesa do seu tempo. A passagem pela equitação militar, cimentou-lhe conceitos ligados à funcionalidade e à sua versatilidade, factores decisivos prà excelência binomial da raça que apadrinhou, não sendo por isso de estranhar no adestramento global a influência da equitação em muitas modalidades caninas, tanto desportivas quanto específicas, se considerarmos a sua preparação, rendimento, metas e objectivos. À equitação se deve a libertação canina do pastoreio ancestral, dando assim aos cães uma maior dimensão e um conjunto de novas utilidades. Conhecedores disto, sempre aconselhámos aos alunos mais aplicados e ávidos de evolução, a prática da equitação como subsídio para a melhor compreensão do adestramento, até porque, como se podia ler nos picadeiros de antigamente, “todo o cavaleiro que se excede perde o direito de ser obedecido”. É esse o trajecto seguido hoje pela Joana, uma jovem dinâmica e amiga dos animais, que gosta de desafios, procura o equilíbrio, busca o seu potencial e quer conhecer os seus limites. Talvez agora, de rédeas na mão, consiga desenvolver maior sensibilidade para pegar na trela. Força Joana, estamos contigo, porque em cada barreira que ultrapassas, o nosso coração rejubila, ganha ânimo e rejuvenesce mais uma vez.

NOVOS BLOGS NOUTRAS LÍNGUAS, ENDLICH MAL EIN BLOG IN DEUTSCH

Dentro em breve, mal se constituam as respectivas equipas de redacção (já em formação), surgirão novos blogs/sites noutras línguas, destinados a outras realidades culturais e geográficas. Assim iremos ter um destinado ao Brasil e outro em língua alemã, produzidos por acendras locais e igualmente empenhados na nossa filosofia de ensino, multiplicando assim o velho blog português http://www.acendurabrava.blogspot.com/ , que brevemente irá ser substituído por outro. O elevado número de leitores alemães e brasileiros a isso nos obriga, porque ameaça a hegemonia dos portugueses e exige maior reparo. Já não é de agora a colaboração dessa gente e é chegado o momento de retribuir o seu empenho e apoio. A novidade não apanhou de surpresa os leitores mais assíduos desta nossa publicação porque, no 2º parágrafo dos textos da semana, sempre se tem aludido a uma dessas realidades e comentado alguma das suas situações de vida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

IMPULSO AO PODER, CRIAÇÃO E HIBRIDAÇÃO

Há um pequeno César dentro de cada um de nós, todos nascemos com impulso ao poder, ninguém gosta de ser contrariado, todos desejamos ser obedecidos e ver realizada a nossa vontade. A força desse impulso e a resistência dos outros irá determinar como o usaremos e que rumo lhe daremos. Nesse combate vale tudo, porque ninguém consegue sufocar a sua natureza em constante apelo, parece que a felicidade individual passa por aí e ninguém é feliz se não tiver algo de seu. Valha-nos Deus! Se calhar inventámo-Lo para combater esta nossa cegueira e demos-Lhe as seguintes palavras (entre outras tantas para além dos 10 Mandamentos): “aquele que quiser ser o maior entre vós, seja o menor”; “se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me”; “seja feita a Tua vontade” e “um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como a vós mesmos”. Um Deus que não tinha onde reclinar a cabeça, que sucumbe perante o poder dos homens e que lá no final sai vitorioso, ressuscitando para nos dar morada junto d’Ele. O impulso ao poder humano é um caso muito sério, uma inclinação que não tem poupado vítimas e que jamais deixará de as fazer, mesmo entre aqueles que se dizem seguidores da divindade e seus representantes na Terra. Diante deste cenário apraz-nos dizer: como o mundo seria mais justo se só os animais tivessem impulso ao poder (pelo menos para os homens!). Exceptuando a possível alteração produzida pela premissa metafísica, parece-nos difícil separar o impulso ao poder da auto-realização humana, já que todos procuram, tanto líderes quanto subordinados inatos, uma dose quanto baste de “quero, posso e mando”, surgindo a marginalidade e os comportamentos a ela associados como resultado do mesmo apelo, ainda que por meios condenáveis pela sociedade. É igualmente difícil separar o impulso ao poder do acto de criar ou de o inovar, isto se essa nova criação se encontrar sujeita ou servir os propósitos desse mesmo impulso. Diz-se e Gilberto Freyre também o disse, que Deus criou as raças e os portugueses criaram o mestiço, o que é uma inverdade histórica, já que essa prática é anterior à nossa nacionalidade, foi praticada nos impérios da antiguidade, consumada nos casamentos reais e usada para o aumento do seu domínio e poder. O que se deve aos portugueses é o seu aproveitamento global, a generalização da mestiçagem nos territórios ultramarinos e no Novo Mundo, como política para garantir o povoamento, a extracção das riquezas e a sua soberania ali, considerando o escasso número de habitantes no seu território metropolitano. Os reis que outorgaram a mestiçagem ou que a ela não se opuseram, também eles oriundos de diferentes etnias europeias, de português sobrava-lhes o título, sendo cada um deles mais germano, inglês ou francês do que o outro. A criação dos originários pombeiros, gente que dava caça aos escravos, encontrou na mestiçagem a nata das suas fileiras, o que se compreende face à resistência dos nativos em dar caça ao seu próprio sangue ou de submeterem a sua tribo a tal assolação. Conclui-se assim que a criação do mestiço resultou duma medida económica para garantir o poder. Se uns construíram impérios a expensas doutras etnias, outros houveram que criaram raças de cães, o princípio é o mesmo e acabou por servir idêntico propósito, já que a novidade dessas raças veio contribuir eficazmente para a defesa dos bens individuais, para o sucesso no esforço bélico, para o exercício policial, para reforço da actividade cinegética, para a autonomia dos deficientes e para afirmação do status, entregando a cada um dos seus novos proprietários muitas das mais-valias que há muito aguardavam.
Também não se pode dissociar o direito à diferença do impulso ao poder e afastar de ambos os pressupostos presentes na criação das diferentes raças caninas actuais, uma vez que é a procura do “must” as norteia. Procura-se o “cão mais” (o maior; o mais pequeno; o mais forte; o mais bonito; o mais feroz; o mais manso; o melhor caçador; o mais raro; o mais rápido; o mais capacitado e por aí adiante), muitas vezes desrespeitando a sobrevivência, longevidade e qualidade de vida dos pobres animais, pormenores que tardiamente mereceram a nossa atenção. Na procura de “ter um cão melhor do que o teu” e sobrando daí as honrarias inerentes à façanha, para além da mestiçagem inconfessa (por vezes comprometida nos resultados por convicções a leste da ciência), ainda há quem avance pelo atavismo e crie híbridos de qualidade inesperada ou de características pouco vistas e indesejáveis. Para o monarca doméstico, que se julga tão augusto quanto os que a história reza, o seu cão tomou o lugar das águias, dos abutres, dos grifos e dos leões daqueles que o inspiraram, porque domina o bicho e pode alcançar alguma vantagem ou poder sobre os outros. É evidente que sem impulso ao poder não haveria evolução, mas atendendo à natureza do cão, tudo isto nos parece uma brincadeira infantil de mau gosto.

O adestramento continua invadido por um corolário de apelos incontidos ao poder, diariamente somos surpreendidos com indivíduos predispostos à dominância, gente de todas as idades e com igual propósito, que pretende encontrar nesta arte os fundamentos para o seu castelo, um meio violento para se afirmar e ultrapassar os outros, ainda que o não diga e que dê a entender exactamente o contrário, porque a cobardia aguça o engenho e a simulação é-lhes natural. Perante a situação, como deverá proceder um adestrador digno desse nome? Ignorará as intenções deles? Dará azo ao disparate e mostrar-se-á conivente ou desnudará os indivíduos e tentará produzir neles alteração? O caminho mais fácil é lavar daí as mãos, o mais difícil é produzir alteração. Se entendermos a salvaguarda dos cães como o objectivo central do adestramento, não restam dúvidas: seremos obrigados a produzir alteração na pessoa dos condutores! Com isto, podemos perder um ou mais alunos, ganhar o rótulo de imprestáveis ou de idiotas, mas mais vale ganhar a alcunha do que fazer jus ao nome. Que ninguém se engane, nenhuma lei trava um desejo, uma inclinação ou uma ambição, apenas obriga os indivíduos ao disfarce que impede o seu castigo, até porque, invariavelmente, o montante do prémio é superior aos danos causados pela contravenção. Denunciar os abusos cometidos sobre os cães é nossa obrigação, assim como também é a formação dos seus condutores. Se não evitarmos atempadamente os abusos binomiais, alguns inocentes irão pagar o preço da nossa “distracção” ou indiferença, tal qual ovelhas prontas prò abate. O adestramento deve ser uma ocasião para a paz e para que isso aconteça, é necessário perscrutar as intenções de cada um dos nossos alunos e sintonizá-los com os nossos objectivos e filosofia de vida. Todo e qualquer impulso, inclusive o relativo ao poder e com mais acuidade, deve ser direccionado para o bem comum, sem contudo eliminar a criatividade individual que enriquece o colectivo escolar. Eu quero encontrar na rua um cão que me acompanhe quando estiver só, não um que me mate porque não alcanço socorro! Trabalhar assim é lutar, também, contra o aumento da criminalidade.

GESCHICHTE EINES ALTEN SÜNDE: A HISTÓRIA DO ILAK, O CÃO-LOBO by Hans Freudig

When I was young, a história poderia começar assim, porque já lá vão algumas décadas, ofereci um presente envenenado a um irmão: o ILAK, um cão-lobo que doei como se fosse o mais excelente dos Pastores Alemães. Felizmente não resultou daí qualquer dano para ninguém, nem para o bicho nem para os sucessivos proprietários que o adquiriram e conduziram, o que não me isentou de rara preocupação durante alguns anos, até porque o meu propósito inicial era francamente maldoso e queria de alguma forma comprometer o meu irmão. Um dia, o qual não recordo exactamente, ele disse-me: “Hans, eu quero um cão como o do Wilhelm. Quando tiveres outra ninhada, espero que me ofereças um!”. Na altura, não que isso sirva de justificativa, esse meu irmão era muito prepotente, funcionava como meu patrão e sempre fazia questão de manifestar a sua autoridade, mesmo nos momentos em que tal era desnecessário e se tornava por demais abusivo. Farto do aturar, que madurezas era coisa que não faltava, anui ao seu pedido e esfreguei as mãos de contente, porque a minha hora parecia ter chegado. O tal de Guilherme que me havia comprado o primeiro cão, trabalhava connosco e comprou-mo para arranjar um aliado, porque também ele, por detrás do seu ar de franciscano descalço, não ia à bola com o meu irmão, tudo fazendo para o destronar e ocupar o seu lugar. Por má sorte, veio a alcançar os seus intentos, ainda que por pouco tempo. Mas voltemos à história do ILAK. A minha Pastora Alemã Arim já tinha 7 anos de idade e ao invés de a beneficiar com um cão da sua raça, optei por cruzá-la com um lobo de uma reserva, porque tal me pareceu bem, atendendo à picardia que mantinha com o meu irmão, necessariamente silenciosa porque o homem não era para brincadeiras e dele dependia o meu futuro. A cavalo e com a cadela a correr ao meu lado, coloquei-a na cerca dos lobos por altura do seu período fértil, temendo por ela e ávido de um desfecho feliz. Três coisas podiam acontecer: a morte da cadela (coisa que eu nem queria imaginar), ela ser coberta ou acabar por fugir, gorando assim os meus intentos. Passada uma semana, com o coração nas mãos, voltei ao reduto dos lobos e chamei por ela. Mais depressa do que em imaginava, ela apareceu, feliz e de cauda ao alto. Escusado será dizer que as lágrimas escorriam-me pela cara abaixo e jurei nunca mais repetir a “proeza”. Trinta e cinco dias depois já havia evidências seguras da sua prenhez, notícia que de imediato transmiti ao meu irmão, geralmente acompanhada de bons augúrios e na certeza de cachorros extraordinários. Os cachorros nasceram no tempo certo e saíram uns matulões, metade preto-afogueados e a outra metade lobeira a puxar para o cinza. Para que os meus planos dessem certo, escolhi o cinzento maior da ninhada, um infante que havia nascido com 890 g e isto sem a mãe haver tomado qualquer suplemento ou aditivo.
Depois do desmame, entreguei o cachorro ao meu irmão, grato e pleno de expectativas. O cachorro crescia assustadoramente e todos os dias o dono levava-o várias vezes à rua. Grande e de orelhas abatidas (apesar de as haver levantado de vez e no tempo certo), ninguém o via como um Pastor Alemão. Vinham uns e inquiriam: “É um Deutsche Dogge? Outros exclamavam: “ Que lindo Weimaraner!” A paciência do dono acabou quando um indivíduo lhe disse: “ Esse cão tem cor de burro quando foge!” Farto de aturar os comentários dos transeuntes, no seu ver asnos a rasar a ignorância, voltou para o escritório e questionou-me: “Ò Hans, ninguém diz que o ILAK é um Pastor Alemão, todos lhe atribuem outra raça e agora mesmo, um disse-me que o cão tem cor de burro quando foge! O que queria ele dizer com isso? Como o meu irmão havia sido alfabetizado na estranja, ele não entendia muito a língua materna, o que me facilitou a resposta e lhe sossegou as ideias. “O que o homem queria dizer é que o cão é muito raro! – disse-lhe. Ele respondeu-me: “Lá raro é, porque não é nada parecido com o cão do Wilhelm! Com o passar do tempo o cachorro fez-se soberbo, toda a gente o admirava e o orgulho do seu dono aumentava a olhos vistos.

Por volta dos seis meses de idade, já o cachorro era enorme e começava a demonstrar algumas tendências, nomeadamente a aversão que tinha ao nosso offiziellen, um funcionário africano que trabalhava para nós e que tudo fazia para nos encalacrar, para quem o cão era um demónio pior do que o dono, no mínimo, o melhor dos complementos prà sua malvadez! Se fosse só por causa do homenzinho, o cão jamais viria a ser treinado, porque a antipatia entre os homens era recíproca e o cão prestava-se à festa. Numa tarde sou surpreendido por uma pergunta:” Hans, quem é o veterinário mais entendido em Pastores Alemães?” Como quem não está acostumado a mentir, sempre lhe foge a boca para a verdade, respondi-lhe prontamente: “ É o Dr. Weiss Schlösser!”, sem pensar nas consequências de tal resposta. “ Prepara-te, porque depois de almoço vamos ao seu consultório, pois gostava de uma opinião avalizada sobre o ILAK” – concluiu. O apetite para o almoço daquele dia desapareceu ainda antes de ter chegado, a ida ao veterinário atormentava-me de sobremaneira, temia ver-me denunciado e com o futuro laboral comprometido. Pelo caminho pensava em estratégias para ludibriar o Dr., e como não é bom ter só um plano A, ia formulando desculpas credíveis para o sucedido, caso a trama viesse a ser descoberta.

No consultório fomos amavelmente recebidos, o cão foi colocado em cima da marquesa e a inspecção demorou cerca de trinta minutos, minutos de muito aperto para mim, agravados pelo silêncio cortante da observação, nem as moscas se ouviam, somente o boliço distante dos carros que passavam pelo exterior do edifício. O clínico observou o cão à minúcia, não parava para comentários, até que finalmente soltou: “ Parabéns Sr. Jurgen, o seu cão é o melhor Pastor Alemão que vi nestes últimos trinta anos! Disto não se vê todos os dias! Verdadeiramente um perfeito exemplar!” Suspirei de alívio, parecia estar a viver o dia da redenção e dizia em silêncio para Deus: “ Obrigado bom pai, deste-me aquilo que não mereço!” Daquele dia em diante, a soberba do meu irmão aumentou e os Pastores Alemães passaram a dividir-se em duas categorias: o ILAK e os outros; o exemplar e as imitações. O caso não era para menos, o bicho atingiu 74 cm de altura, veio a atingir um perímetro torácico de 130 cm e um peso de 53 kg, sem nunca estar gordo.

Pressionado pelos clientes e também pelos restantes utentes do escritório, o Jurgen viu-se coagido a mandar treinar o seu cão, não sem antes consultar a minha opinião, parecer que muito me agradou e que iria evitar, mais uma vez, a minha denúncia, mantendo assim a sua gratidão por mim. “ O que achas de o mandar treinar na polícia? Dizem que são muito bons treinadores?”. “Nem penses nisso! Esses tipos já estão ultrapassados e são violentos. Coitado do teu cão, o que iria sofrer! Está descansado que hei-de encontrar-te um treinador capaz. Vou já começar a tratar do assunto” – respondi-lhe. Ele aceitou a sugestão e eu meti mãos ao trabalho ou por outra, puz os pés ao caminho. Dizem que o diabo as tece, que sempre ajuda nas patranhas e assim aconteceu. No regresso a casa, vinha eu no autocarro, deparei-me com um homem que se fazia acompanhar por Pastor Alemão que rebocava uma carrocinha carregada com uma bilha de gás. Os gestos do homem, a aparência dos seus trajes e o aspecto do cão levaram-me à seguinte conclusão: “ ora aqui está o homem certo para o cliente certo!” Desci do autocarro e fui falar com ele, inquiri da sua disponibilidade, condições e honorários, adiantando-lhe em simultâneo da excelência do animal. Ele respondeu-me que estava disponível, que o treino custaria 250 marcos mensais (pensão completa) e que o cão ficaria em sua casa por um período de dois meses. Não podia ser melhor, porque antes desse período expirar, já eu estaria colocado numa sucursal estrangeira, segundo as melhores recomendações do meu irmão. Combinámos a entrega do cão para o dia seguinte, porque a urgência a todos interessava, ao Jurgen para evitar problemas, a mim porque me protegia e ao treinador porque andava necessitado de alguns cobres (dá para desconfiar quando um negócio agrada às duas partes!).

O tempo correu de tal maneira que quando demos por isso, já estávamos a entregar o cão. Seguiu-se a observação detalhada do animal pelo treinador, que estupefacto me disse: “ Amigo Hans, este bicho é dos gigantes, nunca vi coisa assim e olhe que já vi muitos pastores alemães. Nele tudo é grande, até os dentes!”, ao que lhe respondi: “Eu bem lhe disse Sr. Franz, afinal não o enganei, o cachorro é mesmo de primeira!” Depois disso fomos assistir à primeira aula e seria melhor não termos ido. Ao passar por uma poça de água, o homem pôs os pés por ela adentro e o cachorro passou-lhe ao lado. A atitude do cão não agradou ao mestre e este tomado de zelo, agarrou-o ao colo e projectou-o para dentro do charco dizendo: “ 1ª Lição, metes as patas onde eu meto as minhas!”. O meu irmão levantou as mãos à cabeça em silêncio, enquanto olhava para mim, meio confuso e outro tanto indignado. Para o sossegar, eu projectava o meu polegar direito para cima e apertava o óvulo da minha orelha em sinal de aprovação. Mais confiante em mim do que na demonstração daquele treinador, o Jurgen aceitou as suas condições e entregou-o aos cuidados daquele mestre, que foi o seu único treinador e que acabou por treiná-lo irrepreensivelmente, outros não o fariam tão bem e facilmente se entende porquê.

Passado pouco tempo parti para o estrangeiro e lá recebia amiúde notícias do treinador agradecido, relatos que despoletavam a minha hilaridade face à ignorância do homem e às suas dificuldades. Dizia ele: “Amigo Hans, o ILAK não fica com elas, devolve ao remetente tudo aquilo que recebe. É torcido como os chifres de uma cabra montesa, mas havemos de lá chegar!” O pobre homem não entendia, até porque nem sabia, que mais vale tratar um lobo como cordeiro do que aguçar-lhe os dentes. Pela valentia do homem e pela aceitação da lei do mais forte por parte do cão, aquela equipa tornou-se unha com carne, não sem que antes os dentes de alguém tivessem entrado na carne de outrem. Conhecedor das características do animal e apostado em fazer dele um bom guardião, o treinador aprimorava o seu instinto de presa nos fundilhos de uns quantos toxicodependentes, que mesmo fustigados dessa maneira, persistiam em se reunir junto à Bahnhof (estação de comboios). Certa vez num mercado, a dupla Franz/ Ilak aguentou a carga de nove ciganos e conseguiu desbaratá-los. Episódio atrás de episódio crescia por aquelas paragens a lenda de um cão chamado ILAK.

Forçado a ir também para o estrangeiro e com a família às costas, na impossibilidade de o levar, sabe-se Deus quanto lhe custou, o meu irmão deu ou vendeu, ainda hoje não sei bem, o ILAK a uns Musiklehrer, um casal que dava aulas de música num reputado colégio privado. Quando eu retornei ao País, já o cão lhes pertencia e era tratado como um verdadeiro príncipe, porque nada lhe era exigido, deambulava à vontade pelo quintal e era objecto do maior carinho por parte daquela família. Porém, eu ignorava o que lhe teria sucedido e onde estaria. Poucos dias após o meu regresso, recebo um telefonema de um cidadão estrangeiro que dizia: “ Alô, estou a falar com o Sr. Hans Freudig? É para lhe dizer que tenho um cão dos seus, um exemplar muito bonito, mas infelizmente é muito manso e não serve para guarda! Se o Sr. estiver de acordo, eu entrego-lhe este cão e o Sr. dar-me-á futuramente um cachorro filho dele mais apto para o que eu pretendo”. Estranhando o comportamento do cão, porque era atípico nos cães que criava, perguntei-lhe qual o nome do animal, ao que ele me respondeu: “ Ele chama-se ILAK”. Ao ouvir tal nome, soltei um palavrão daqueles que a todos choca e que acabou também por assustar o meu interlocutor, por força da entoação e do ímpeto da resposta. Depois de haver respirado, disse-lhe que aquele cão estava treinado para guarda de modo irrepreensível e que caso lhe interessasse, iria providenciar um encontro dos dois com o treinador do cão, coisa que veio a acontecer no dia seguinte pela manhã. O reencontro do ILAK com o seu mestre foi efusivo e a demonstração do trabalho de ambos excelente. Tão excelente que o homem já não me quis dar o cão, finalmente convencido da sua qualidade e mais-valias.

Durante algum tempo deixei de ter notícias do cão-lobo e aproveitei um convite do Sr. Franz para almoçar, já que a sua mulher era uma excelente cozinheira. Na alegria do convívio e na euforia produzida pelos bons vinhos da nossa terra, até porque a comida estava apurada e puxava parar beber, decidi revelar um segredo e disse para o dono da casa: “ Sr. Franz, sabe porque é que o ILAK devolvia ao remetente tudo aquilo que recebia? Simplesmente porque é um híbrido de lobo!” Ao ouvir a estranha revelação, o velho treinador permaneceu quedo e mudo, somente os seus olhos se mexiam, lembrando fagulhas prontas pra tudo incendiar. Depois, levantou-se da mesa e abriu a gaveta de um armário, tirando de lá uma pistola que ele mesmo havia construído. Com ela empunhada e apontada para mim, disse-me: “ Podia ter-me dito a verdade desde o princípio, que eu não me negava. Agora, brincar com a minha boa fé e gozar com a minha integridade, nunca!” Antes que carregasse no gatilho e aproveitando um breve momento em que limpava o suor da sua testa, eu saí pela janela e estivemos meia dúzia de anos sem nos falarmos. O homem tinha carradas de razão!

Entretanto, gratos pela atenção que havia dispensado ao ILAK, fui convidado para lanchar na casa dos músicos seus proprietários, onde acabei por conhecer também a Sr.ª Gertha, uma visita assídua da casa e uma apaixonada incondicional por cães. Bastante curiosa com o tema da conversa, ela decidiu ir ao quintal conhecer o cão. Ainda dentro de casa e reparando nele através da vidraça da porta da cozinha, disse: “Gretchen, o teu cão é enorme e devia ser treinado. Posso ir lá fora ter com ele?” A dona de casa sorriu e respondeu-lhe:” O meu cão já foi treinado e bem. Claro que podes ir lá fora, está à vontade”. Já haviam passado vinte minutos e a Sr.ª Gertha teimava em regressar. “Gertha, o teu chá já deve estar frio! Não te faltará tempo para conviveres com o ILAK. Vem para dentro!” Como ninguém respondeu ao apelo da dona casa, decidi ir procurar a senhora em falta. Ao chegar ao jardim, deparei-me com uma imagem insólita: a pobre da Gertha estava debaixo de um limoeiro, presa pela garganta, com os dentes do ILAK a segurá-la! O bicho rosnava e ela não se mexia. Depois de liberta, soltou: “Que rico cão, deixas-me levá-lo ao treino?” Os donos da casa olharam um para o outro e disseram-lhe que sim. Temendo por danos maiores ou pela ocorrência de qualquer disparate, combinei com aquela senhora que a acompanharia no primeiro dia ao treino.

Poucos dias depois, deslocámo-nos ao campo de treino. A Sr.ª Gertha saiu com o cão e eu fiquei dentro do seu BMW amarelo de duas portas, de atalaia, não fosse algo acontecer. Mal tinham passado o portão do recinto e sentindo a proximidade dos outros cães, o ILAK soltou um uivo tremendo e metálico. Os condutores dos outros cães viram-se a braços com o susto provocado nos seus animais, parecia que um tornado ali havia passado e levado tudo à sua volta. O Sr. Ferdinand, o director daquela escola, estarrecido e espavorido, gritou: “ Ò Gertha, tira imediatamente esse cão daqui!” A boa da senhora sentiu-se descriminada e lá respondeu: “ Tiro o cão porquê? Eu sou sócia da escola!” Possesso, o treinador retorquiu-lhe: “Mas não é o cão! Ponham-se os dois lá fora!” Até hoje, porque me viu dentro do carro, o Sr. Ferdinand jura que o sucedido foi obra minha, uma manobra para o comprometer e desacreditar. Contrariada, a Sr.ª Gertha nunca mais saiu com o ILAK, apesar de muitas vezes o ir visitar a sua casa e brincar com ele no jardim. E como a vida não pára, o cão-lobo morreu de velho no princípio do século, o Sr. Franz, agora viúvo, vive no estrangeiro com o filho, o casal de músicos separou-se e só agora o meu irmão tomou conhecimento de todos os factos. Esta é a história do ILAK, o cão-lobo, uma história verídica que poderia ter um final diferente, um relato da minha maldade que apresento como um pedido de desculpas. Queira Deus que o meu irmão me perdoe, se fosse ao contrário, eu não sei se lhe perdoaria. Resta-me a esperança de ele ser melhor do que eu. Sosseguem os mais exaltados ou medrosos, porque o comportamento do ILAK é atípico dentro dos híbridos de lobo, porque na sua maioria eles não evidenciam tais características, sendo ao invés medrosos e desconfiados, naturalmente avessos à formação de equipa, porque a sua carga instintiva fala mais alto e obsta ao seu aproveitamento. Apesar de tudo, tenho saudades do ILAK, ainda sonho com ele, vejo-o todas as noites a correr na floresta antes de dormir.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OUVIR A CHARANGA E NÃO IR DE CHAROLA

Aproveitando as comemorações do dia da GNR em Belém, presididas pelo Presidente da Republica, Prof. Aníbal Cavaco Silva, uma classe da Acendura optou por encerrar momentaneamente o seu trabalho e ir assistir ao desfile das forças em parada. A Charanga é sempre alvo das maiores atenções, não fora ela a única a tocar a galope em todo o mundo. À mesma hora no jardim e provavelmente associado ao dia da criança, um cortejo de cabeçudos fazia as delícias da pequenada, evoluindo desordenados com as suas carantonhas. No meio do troar dos cascos, do rufar dos tímbalos, do silvar das cornetas, do rebentar dos balões e das acrobacias dos gigantones, um dos nossos cães entrou em pânico, e caso não fosse bem seguro, provavelmente chegaria a casa bem antes do seu dono. O pobre condutor ficou destroçado e não segurou alguns desabafos relativos ao comportamento do cão, porque o insólito acabou por transportá-lo para o centro das atenções, tal qual guest star apanhado de surpresa e levado a desempenhar o arriscado papel de duplo. O medo do cão nasceu com ele e carece urgentemente de ser vencido, porque doutra forma, o seu condutor ver-se-á obrigado a sair à rua de capacete, coteveleiras e joelheiras, a entregar a alma a Deus e o corpo à Virgem padroeira de Portugal. Para não ir de charola, é importante que acostume o animal aos diferentes sons e ruídos, aumentando gradualmente o seu volume, proximidade e intensidade de acordo com as respostas positivas do cão. É errado começar esse trabalho com ele imobilizado, o que lhe aumentaria o temor, obstaria à melhor aceitação e comprometeria a desejável familiarização. Deseja-se que a supremacia dos diferentes automatismos aconteça e a cumplicidade binomial tudo leve de vencida. Se houver necessidade disso, porque os cães rijos agem naturalmente assim, poderemos instigar o cão contra os ruídos ou associá-los à cobaia e à recompensa. Se despoletarmos as experiências felizes recorrendo ao ruído, o problema poderá também vir a ser ultrapassado. Qualquer opção, atendendo à sua validade, terá que considerar a razão do trauma (genética ou ambiental), o particular do indivíduo, o seu histórico e grau de ensino. Porém, nada dispensa a cumplicidade resultante da confiança no dono.

O TEMPO PASSA E ELA CONTINUA

Corria o ano de 1995, quando demos uma cachorra cruzada de Collie Barbudo com Pastor Alemão a um conhecido de então. O obsequiado pôs-lhe o nome de July e ela veio a transformar-se numa companheira excepcional. Ainda participou, por duas ou três ocasiões, nas exibições escolares e sempre se comportou exemplarmente. No passado Sábado, dia 28 de Maio, recebemos a foto acima com o seguinte comentário: “Os meus melhores 16 anos da minha vida em companhia da minha amiga JULY… PS desculpem em estar deitada à vaca”. É caso para se dizer que o tempo passa e ela continua. O pai da July durou 21 anos (Faruk of Highlands), depois teve que ser abatido, porque alguns dos seus órgãos paralisaram. Às suas costas fundou-se a Acendura Brava e durante muito tempo serviu de referência para nossa escola. Desejamos que a July dure tantos ou mais anos com saúde e alegria.

“DEUS TENHA PENA DOS RICOS PORQUE OS POBREZINHOS COM QUALQUER COISA SE CONTENTAM”

Sempre ouvimos esta frase nos momentos de crise ou de maior aperto. Não sabemos quem a disse pela primeira, mas compreendemos sem maior dificuldade qual o seu sentido, algo idêntico ao constante nos aforismos: “Só perde quem tem” e “quem não tem cão, caça com gato”, que dependendo da gravidade das situações nos poderão levar a outro: “ é pior a emenda que o soneto”. Não é de política que iremos falar e também de nada adiantaria, porque raros são os eleitores que lêem os programas dos partidos concorrentes às eleições e os políticos sabem disso. Os pobres e os ricos que aqui abordaremos serão aqueles que acertam ou erram nas opções relativas aos seus cães, muito embora essas decisões possam vir a ser condicionadas ou tornadas dependentes por algum entrave económico. Qualquer modalidade canina deverá contribuir prò bem-estar global dos cães convidados para a sua prática. Não existindo esta condição, por maiores que sejam as ânsias dos seus condutores, os seus sonhos e projectos, as suas carências e o seu desejo de protagonismo, qualquer cão deverá ser dispensado desse trabalho, porque ele será forçado, deveras esforçado e indutor a danos de vária ordem. Na cinotecnia não se deverá albardar o burro à vontade do dono, mas encontrar uma modalidade ou método que facilitem a aprendizagem do cão e diminuía substancialmente o número das respostas artificiais a que se verá obrigado. Assim, cada condutor deverá considerar o particular biológico do seu cão, o seu potencial, as suas capacidades e incapacidades, o tipo de respostas diante do estímulo certo e a sua capacidade de resolução. Aqui a riqueza vem do conhecimento e a pobreza do improviso, dos golpes de sorte que geralmente dão em azar. A polivalência canina não é absoluta e encontra-se dependente de vários factores que variam de indivíduo para indivíduo (genéticos, sanitários, ambientais, treino etc.). Os condutores que procuram conhecimento nunca estão satisfeitos e os tolos sempre encontram razão de contentamento.

O QUE NÃO MATA, ENGORDA

Com a chegada da época estival aumentam de sobremaneira os perigos para os cães. Tanto nas praias como nas florestas, apesar de há muito existirem recipientes para esse efeito, proliferam restos de comida por toda a parte, de toda a ordem e para todo o paladar, iguarias do agrado dos bichos e que lhes poderão ser fatais. Se há alturas do ano em que não convém transitar com o cão desatrelado, o Verão é certamente uma delas, especialmente junto a falésias, matas ou pinhais muito concorridos, onde o risco de encontrar comida deteriorada é mais do que certo. Quanto sair à rua com o seu cão esteja atento e não o deixe comer nada, pois isso poderá salvar-lhe a vida. Ao invés de engordar, a comida deixada pelos menos asseados, pode intoxicar e condenar à morte o seu companheiro, sempre pronto prò petisco e à espera de oportunidade. “O que não mata, engorda” é lição doutros tempos, quando a comida era pouca e tudo tinha que se aproveitar. Estamos noutra era e os cães obrigam-nos a andar de olhos abertos.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

NODUM NATUS ERAM (ainda eu não era nascido)

Ainda eu não era nascido, já os cães eram usados para atacar pessoas, aproveitados como militares, polícias e guardiões. Ainda antes de morrer, gostaria que eles se transformassem em mensageiros da paz, que ao invés de continuarem a saga do lobo mau, servissem para evitar a violência presente nos homens, contribuindo assim para eliminação patológica e contextual desse mal. Dificilmente verei este meu desejo cumprido, porque os homens nascem violentos e eu não escapo à regra. Será que não poderemos usar a nossa força, firmeza e energia no sentido inverso? Será a nossa relação com os cães interesseira? É evidente que podemos alterar a nossa perspectiva e abraçar outros ideais, abandonar velhas práticas e proceder doutro modo. Não há dúvidas quanto ao carácter interesseiro que norteia o nosso relacionamento com os cães, o que importa é transformar o seu uso, usá-los como terapia para congregar e não como meio para afastar os outros. É este o grande desafio que é colocado à cinotecnia no Sec.XXI.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

AVERSÃO, INDIFERENÇA, SIMPATIA, GOZO, NECESSIDADE, DEDICAÇÃO E ADORAÇÃO

Desnudaremos os 7 sentimentos que constituem o título e que correspondem às posturas mais comuns relativas aos cães, através da resposta e análise às seguintes questões: Como vêem os cães, que conselhos dão aos filhos, como procedem diante das dificuldades, o que pensam do adestramento e o que normalmente fazem com os animais. A identificação do sentimento que levou à aquisição do cão é tarefa obrigatória para todo e qualquer adestrador, porque desnuda de alguma forma o seu proprietário, as suas expectativas e o seu modus operandi, clarificando assim o tipo de abordagem a fazer, o método de trabalho a seguir e as ênfases a dar, no sentido de alterar, caso se justifique, a postura do dono, considerando a salvaguarda do animal e o interesse do seu proprietário pelo processo pedagógico. Se não existir qualquer tipo de afinidade ou simpatia entre os proprietários caninos e o adestrador, é quase impossível que a relação entre ambos seja profícua e as observações do técnico venham a ser seguidas. A relação entre o Adestrador e os condutores carece de ser empática, porque é baseada na confiança que leva à aprendizagem. Sem esta condição, o mais erudito dos adestradores poderá ficar a dissertar para as moscas, invalidando assim todo seu potencial e mais-valia. Sim, só conseguiremos educar cães se os donos nos acompanharem, de outro modo dificilmente nos confiarão os animais. Em síntese, conquista-se o dono para alcançar o cão. As pessoas que têm aversão a cães não perdem tempo com eles, naturalmente “querem é distância” e tendem a trocar de passeio quando connosco se cruzam. O sentimento poderá ser de origem cultural ou resultar dum trauma. Existem zonas no país onde as pessoas abominam os cães, porque os consideram um fardo ou por que os associam à miséria. A primeira consideração remete-nos para um histórico relativo à economia de sobrevivência e a segunda à nossa herança cultural judaico-cristã, onde o cão quase sempre aparece associado ao descalabro e ao castigo. Os traumas relativos aos cães, geralmente ocorridos durante a infância ou na puberdade dos indivíduos, apesar de serem ultrapassáveis, justificam a aversão de muitos, porque são feridas abertas que levam à alteração de comportamento, invariavelmente ligadas a ataques inusitados perpetrados por um ou mais cães. Independentemente das causas que levam à aversão dos indivíduos, eles vêem os cães como um perigo e transmitem o mesmo sentimento para os filhos, exaltando os prejuízos em detrimento das vantagens, proibido-lhes inclusive a posse de qualquer cão, pelo menos enquanto estiverem debaixo da sua alçada. Aqui reside um dos motivos que leva alguns à aquisição de cães somente na idade adulta. Muitos dos tolhidos pela aversão comportam-se de modo irascível, não escondem o seu asco, manifestam o seu desagrado e chegam a ser provocadores. Um pequeno número deles não hesitará em envenenar os cães alheios à sua volta ou a eliminá-los por outro meio igualmente cobarde, o que torna obrigatórias tanto a prevenção quanto a recusa de engodos no adestramento. Dependendo do perfil psicológico dos indivíduos, do seu índice de malícia e da projecção do seu engenho, sempre haverão uns que nunca nos dirigirão qualquer palavra ou cumprimento e outros que tentarão acercar-se de nós para alcançarem os seus nefastos intentos. Há que estar atento!
Aqueles que manifestam total indiferença pelos cães, desde que estes não os aborreçam, são um dos grupos maioritários presente na sociedade, sendo geralmente gente metropolitana apegada a outros interesses e valores, para quem os cães são puro folclore e resquício de uma cultura que teima em se ir embora (ultrapassada). Dentro do grupo dos indiferentes também encontramos gente oriunda do interior, indivíduos que abraçaram o viver urbano e que intentam a cada passo esquecer-se das suas origens. Tanto uns como outros, dificilmente ofertarão um cão aos filhos, porque não vêem nisso algum proveito, a menos que alguém lhes prove o contrário. Tendencialmente cativam-nos para outros interesses e ridicularizam os proprietários caninos. Também não hesitarão, perante a insistência dos filhos, em enfatizar os prejuízos e disparates atribuídos aos cães, presentes nos noticiários e merecedores de especial enfoque. Eventualmente terão cães se alcançarem uma quinta ou moradia e se os bichos lhe causarem algum incómodo, tanto poderão optar por os mandar ensinar, doar ou mandá-los abater. Se houver lugar ao adestramento do animal, ele surgirá exclusivamente por necessidade e nunca por apego ao cão ou àquilo que lhe é devido, porque vêem o treino como uma tarefa. Apesar desta gente procurar a coabitação harmoniosa do cão no lar e na sociedade, não se estafará muito para a alcançar. Perante a demora e as exigências no ensino não hesitarão em lançar o cão no olho da rua ou a enviá-lo para o espaço. Num casal, quando um dos cônjuges pertence à categoria dos indiferentes, o futuro do cão encontra-se comprometido, o seu viver social abalado e poderá vir a ser despachado, porque as dificuldades do indiferente levá-lo-ão a queixas intermináveis e insuportáveis. Quando dois indiferentes adquirem um cão (o caso apesar de sórdido não é raro e acontece por múltiplas razões), duas coisas podem acontecer: ou o cão é um anjo ou vai fazer as suas diabruras para o quinto dos infernos. Faz todo o sentido quando dizemos que o cão é projecto familiar. Ensinar os cães dos indiferentes é um acto que reclama por celeridade, porque doutro modo estaremos também nós a atentar contra a salvaguarda dos animais. A indiferença dos donos é muitas vezes responsável pela paixão que os cães nutrem pelos adestradores.
Não são poucos os que denotam especial simpatia pelos cães. Este sentimento pode provir duma feliz experiência anterior, de um sonho de infância ou de um apego inexplicável e incontido. Será do grupo dos simpáticos que sairá um pequeno número de pessoas que se dedicará a actividades em prol dos cães (recolha, adopção e sustento dos animais abandonados). Esta sensibilidade poderá constituir-se numa necessidade, revestir-se de especial dedicação e atingir a adoração, caminho geralmente sem regresso e que acabará por escravizar os indivíduos seus portadores e estender-se àqueles que aceitarem o seu desafio. Como o seu número é reduzido, a maioria das pessoas que simpatizam com os cães fazem-no porque os não têm e gostariam de os ter. Essa carência de reciprocidade, intimamente ligada à ausência de condições de vária ordem, irá levá-los à procura do contacto com os cães alheios, tratando-os como se fossem seus e não raramente à revelia dos donos, o que é um abuso insofismável, desafortunadamente enraizado entre nós. O simpático acaricia sem avisar, distrai os cães dos outros, tenta cativá-los, dá-lhes de comer e incentiva-os para outros desafios ou brincadeiras, muitas vezes inoportunas face à sobrevivência dos animais e ao cumprimento das ordens anteriormente manifesto, factos que ele ignora pelo sufoco apelativo. Quando não é bem sucedido e os cães reagem de modo inesperado, quer rejeitando a carícia quer advertindo para o abuso, bem depressa cai o vitupério e os seus proprietários, sem maior dificuldade, alcançam o nome de besta. Os simpáticos, talvez por serem apenas simpáticos, não estão para suportar os incómodos que os cães causam, servindo-se apenas dos alheios para a satisfação das suas necessidades, numa clara alusão a um amor quanto baste. Os seus filhos espelharão a mesma educação e todos verão o adestramento como desnecessário, provavelmente porque nada mais esperam dos cães e ignoram os perigos que os rodeiam – Deus nos salve dos bajuladores! Quando finalmente um simpático arranja um cão e se apresenta no treino, é porque encontrou problemas para além da sua capacidade de resolução. A situação exige tacto, porque a natureza dos problemas, só por si, não vai alterar tanto a essência quanto o comportamento do indivíduo. De que padecerá o cão do simpático? Provavelmente de abuso de autoridade, porque quem não consegue refrear-se, dificilmente saberá dar o exemplo, dizer não e abraçar a disciplina. Deseja-se que a sintonia com os restantes alunos escolares corra em nosso auxílio.
Existem alguns indivíduos que têm cães somente pelo gozo de os ter, gente que com alguma dificuldade se compromete com os animais. Para eles, na maioria novos-ricos à procura de melhor aceitação, os cães devem ser como as vacas: gordos e reluzentes. Contudo, eles não são perigosos para os seus semelhantes, porque querem os cães para reafirmar o seu status e não para causar dolo a ninguém, servindo-se deles como recepcionistas ou cartão de visita. Na procura da satisfação pessoal, outros há quem pensam e agem de modo diverso, dando azo a sentimentos recalcados ou desviados presentes na sua natureza predadora, que deliberadamente se servem dos cães para dar caça aos seus fantasmas sem outra justificação, porque entendem que a intimidação é o melhor dos caminhos para o poder. O primeiro grupo raramente nos procurará, a não ser que queira causar boa impressão e o segundo exigir-nos-á que ponhamos os cães a morder sobre tudo o que mexe, desejo que infelizmente não realizaremos. Porém, sem muito esforço, logo encontrarão que lhes satisfaça as ambições. Por detrás de sãos princípios doutrinários e a coberto de uma pretensa preocupação com os cães, sobrevivem no mundo da canicultura e do adestramento indivíduos que apenas se servem dos animais para atingirem os seus propósitos, porque o título de campeão é apetecível e também porque lhes dá “pica” (gozo), o que aponta claramente para o fim terapêutico canino e para os benefícios que a serotonina oferece. Entre os gozadores, na eventualidade de algum desarranjo ou contrariedade provocada pelo cão, bem depressa o desinteresse substituirá o gozo e animal acabará substituído, tal qual um carro velho ou outro tareco lá de casa. A capacitação de um hedonista, porque importa evitar o desprezo do cão, deve acontecer inicialmente pela exaltação das suas pequenas vitórias no treino e não dar lugar à denúncia ou à confrontação. É importante não esquecer que esta gente tem cães para aumentar a sua auto-estima e forçar a sua aceitação, pelo que importa tratá-la com a maior deferência possível. Os seus filhos dir-nos-ão amanhã: “ Eu fui criado no meio de cães, na casa dos pais sempre havia alguns, não sou propriamente um ignorante nesta matéria”.
Ter cães é uma necessidade para muita gente, algumas instituições não podem prescindir deles e outras ainda não entenderam a sua importância. A necessidade dos cães, intimamente ligada à natureza biológica e social dos indivíduos, prende-se com aspectos ligados ao seu equilíbrio emocional e bem-estar (terapia), ao aumento da autonomia de alguns (deficientes de vária ordem) à possibilidade de novos proventos e também ao retorno idílico à vida simples, campestre e mais saudável (contacto com a natureza). Não abordaremos o segmento dos cães para deficientes, porque disso falarão, com mais propriedade e conhecimento, os profissionais formados para esse efeito. Remeter-nos-emos em exclusivo à necessidade do cidadão comum, que ao contrário do que muita gente pensa, não é desprezível e tem-se revelado de extrema importância para o bem-estar dos indivíduos, suprimindo-lhes carências de vária ordem, relacionadas com o alcance do seu equilíbrio psicológico e com o combate à solidão e ao ostracismo, subsídios objectivos para a sua reintegração social. Todos sabemos do aproveitamento político do desporto e em Portugal um jogo de futebol pode até encurtar uma sessão no Parlamento. O quadro pode parecer-nos rocambolesco, mas as vitórias de um clube de futebol ou da nossa selecção podem alimentar a esperança ou desanuviar aqueles que mais sentem a crise, dando-lhes alento para suportar as dificuldades. Com os cães passa-se exactamente o mesmo, porque não nos abandonam, são nossos confidentes, aceitam-nos tal qual somos, fazem-nos sentir úteis, ajudam na construção do nosso pequeno mundo, são muito afectuosos, fazem da reciprocidade prática corrente, e por aí adiante. Diante deste cenário, não é difícil compreender a possível dialéctica antropomórfica de alguns, que reclamam para os seus cães características e qualidades quase humanas. O discurso não é livre porque em muitos casos a opção foi forçada. Quem tem acompanhado grande número de idosos e solitários? Feito as delícias das crianças e substituindo aquelas que já partiram? Ajudado os jovens a crescer e aliviado as dores de tantos? Quem está sempre ao nosso lado e tem acalentado muitos dos nossos sonhos? Tudo isto revela uma necessidade objectiva dos cães, quer eles surjam por complemento, substituição ou se tornem imprescindíveis. A plebe que precisa deles, como já atrás se disse, tende a tratá-los como iguais, o que nos obrigará a cuidados excepcionais no adestramento desses”cães-homens”, porque para os seus donos eles não são cães, cães são os dos outros! Sempre nos pedirão maior deferência, rara sensibilidade e não se acanharão em manifestar-se. Com certeza iremos ouvir histórias fantásticas, algumas semelhantes às ouvidas entre pescadores e caçadores ou outras relativas a dons paranormais (que eles juram estar presentes nos seus companheiros). Será deste grupo de carentes que sairá o grosso dos indivíduos para os lares de acolhimento e outras actividades relativas ao resgate dos cães abandonados. O indivíduo que não dispensa a companhia do seu cão, depois de confiar em nós, pode tornar-se num aluno modelo, porque através da cumplicidade manifesta poderá chegar à excelência binomial, opção mais equilibrada e que o levará a considerar objectivamente o particular biológico do seu cão. Também nós somos visionários e estamos cá para massificar os sonhos de muitos, porque ensinamos para alcançar a excelente comunicação interespécies e continuamos a acreditar que muitos lá chegarão.
A dedicação aos cães pode não provir duma necessidade ou ser resultado duma carência, porque muita gente abraça o ofício sem dar por isso e acaba por gostar da experiência, como se o tempo aguardasse pela circunstância. O que caracteriza a dedicação é a transformação das velhas rotinas em novos procedimentos, o gozo de descobrir e querer mais, a aposta no caminhar com o cão ao lado e procurar a sua coabitação sem contudo desrespeitar a sua natureza. A dedicação aumenta e depura-se com a experiência, obriga a adaptação de ambos e pode alcançar a comunicação telepática, benefícios que o treino canino oferece e pode despertar. Proliferam por aí ideias ou noções erradas acerca do adestramento, caricaturas que em nada se identificam com esta arte e que apenas servem para relembrar o passado, ilustrar certos propósitos ou ironizar quem os segue. O treino do cão de guerra já lá vai, o de polícia vai a caminho, o de guarda tira o bilhete e o de circo já embarcou. Sobra o cão familiar, e às suas custas o adestramento evoluiu para patamares nunca vistos, ganhou criatividade e descobriu outras disciplinas, devolveu os cães aos donos, generalizou-se por todo lado e constitui-se como parte integrante da cultura popular, saiu do troar dos tacões e abraçou a salvaguarda dos animais, tornando o treino canino numa manifestação incontestável de dedicação, graças à relação óptima entre tratamento e adestramento. Só a dedicação alcança o treino e o entende como uma tarefa prioritária, procura o discipulado e busca a simbiose. A transcendência operativa do adestramento reside no amor, na capacidade de cada condutor alcançar uma paternidade extraordinária e incomum, mercê da comunhão de objectivos que o une ao seu cão, não sendo por isso de estranhar que os bons pais venham a ser igualmente bons condutores. Quando essa dedicação se torna cultural, não é difícil compreender como 2 ou 3 gerações da mesma família se filie na mesma escola. Os portadores deste sentimento não esperam que os seus cães façam, ensinam-nos a fazer, são tolerantes e esperam pelas adaptações dos seus companheiros, sujeitam-se ao auto-exame antes de os repreender, são fortes no incentivo, constantes nas acções e dedicados ao aprimoramento. Só a dedicação poderá compreender que o ensino é um acto continuado, sujeito à novidade de desafios e carente de novas soluções. Todos os alunos escolares procedem assim? Não! Mas a Escola existe para os educar, amparar e transformar, e é essa a verdadeira causa da sua existência, já que os cães não aprendem sozinhos e necessitam de sobreviver.
Os cinófobos abominam os cães, os indiferentes dão-lhes pouca ou nenhuma importância, os simpáticos brincam com eles, os gozadores possuem-nos sem os compreender, os que necessitam deles usam-nos e saciam as suas faltas, os dedicados amam-nos, e o que farão os seus adoradores? Adorá-los-ão simplesmente! Como complemento e seguindo mesmo raciocínio, os cinófobos nem os querem ver, os indiferentes querem distância deles, os simpáticos buscam a sua proximidade, os gozadores querem-nos no sítio certo, os necessitados onde fazem falta, os dedicados trabalham para que permaneçam a seu lado e os adoradores arranjar-lhes-ão prerrogativas divinas e andarão de acordo com os seus amuos. E que mensagem transmitirão aos seus filhos? Os cinófobos transmitir-lhes-ão os mesmos medos, os indiferentes tentarão afastá-los dos cães, os simpáticos formarão bajuladores, os gozadores serão gozados pelos filhos, os necessitados isentá-los-ão de maior contacto com os animais, os dedicados tentarão transmitir-lhes igual sentimento e os adoradores, para mal dos seus pecados, raramente têm filhos. Diante de algum contratempo provocado pelos seus cães, os indiferentes livrar-se-ão deles, os simpáticos procurarão ajuda, os gozadores substitui-los-ão, os necessitados levá-los-ão para afinação, os dedicados buscarão solução e os adoradores conformar-se-ão com a sua sorte. Todos eles compreendem ou irão compreender o adestramento de maneira diferente. Para o cinófobo a cinotecnia é uma prática de tolinhos e uma manifestação de maldade, o indiferente vê-lo-á como desperdício de tempo e de dinheiro, o simpático não vislumbrará imediatamente da sua necessidade, o gozador raramente estará para aí virado, o necessitado cumprirá com os protocolos de ensino, o dedicado não o dispensará e o adorador desprezá-lo-á. Afinal, fazemos com os cães o mesmo que fazemos com tantas outras coisas, tudo resulta do nosso maior ou menor interesse e não tanto dos talentos individuais.
Queremos dedicar o último parágrafo deste texto aos adoradores de cães, figuras ímpares no panorama da canicultura, mas nem por isso muito vistos (diremos nós: Graças a Deus!). A figura do adorador de cães lembra uma papoila isolada no meio de um campo de trigo, porque se destaca dos restantes e evita ter com eles qualquer contacto, tal qual crente de seita secreta e proibida. É geralmente uma pessoa alheada, que se alheou ou que se viu forçada a isso, tendo apenas como alternativa viável a companhia de um ou mais cães. Quando é rico é tratado como extravagante e quando é pobre como lunático. Existem indivíduos destes em todos os extractos sociais, muito embora sejam melhor ou pior atendidos de acordo com a sua importância ou poder económico. Sem quase nenhuma dificuldade, o adorador de cães irá transformar-se no martírio dos veterinários e no suplício dos adestradores, porque os primeiros não terão como tratar as doenças do dono e não escaparão as arremetidas do bicho – um Deus que não quer ser importunado. Quando um adorador chega a uma escola ou centro de treino canino, ele vai coagido e para cumprir calendário, geralmente a rogo do veterinário assistente, que farto de aturar ambos, passa a “batata quente” (infelizmente temos nisto bastante experiência). É evidente que nunca alcançarão a constituição binomial, porque ela exige o domínio do inteligente sobre o irracional e ali os termos da fracção são manifestamente inversos. Na melhor das hipóteses, o adorador compreenderá o treino como um recreio ou uma ida a um jardim-escola (kindergarten), e aproveitará a ocasião para apresentar o seu príncipe alado aos outros meninos (muito educados mas manifestamente inferiores ao “Sol” da mamã). Dificilmente aceitará ali algum reparo ou sugestão, porque nos julga imbecis e impróprios, algo semelhantes a sapateiros de pouco préstimo, já que só ele compreende as necessidades, as aspirações e os humores do seu deus de quatro patas. Como quase tudo nos cães resulta da investidura e disso não querem ser destronados, nomeadamente das mordomias, o cão do adorador resistirá ao ensino e será dominado por um sentimento de revolta, pelo menos na presença do dono, que tudo agrava e compromete, o que nos obrigará à educação do animal na ausência do seu subordinado (a estratégia tem-se revelado eficaz e engordado os bolsos de muitos). A subordinação do dono (assumida, consentida e irreversível), que é muitas vezes usada como meio de provocação e prepotência, obstará à liderança que tudo poderia transformar. Ainda que a educação do cão seja possível, a recuperação do dono é algo que nos escapa. Caberá essa responsabilidade a outros, isto se vierem a ser consultados, porque o adorador acha-se certo e não reclamará por qualquer apoio. Neste caso, como em muitos outros, os problemas presentes nos cães encontram razão no descalabro presente na cabeça dos seus proprietários. Abordámos os sentimentos mais comuns relativos aos cães para que cada um se examine, compreenda como os trata e aquilo que lhes causa. Em simultâneo, avançámos alguns subsídios para aqueles que têm como ofício ensinar cães e que acabarão confrontados com as pessoas que lhes chegam.

sábado, 21 de maio de 2011

BINÓMIO: UMA TERAPIA SEGURA CONTRA A FERRUGEM

Apesar do “fenómeno” já ter sido desacreditado, ainda subsistem por aí umas tantas igrejas que oferecem milagres e cura para tudo, como se fossem donas da mais excelente das terapias alternativas. Com este texto não queremos ser confundidos com elas ou interpretados como vendedores de alguma panaceia, tão-somente testemunhar os benefícios que a terapia binomial tem oferecido aos nossos condutores seniores, lançando daqui o convite a todos aqueles que se encontram nessa idade e que não querem, imediatamente, entregar a sua vida aos pontos, porque é possível ser-se ancião e ter saúde. Move-nos a preocupação fraterna e não o aumento dos proventos, porque a maior fatia deste desafio recairá, indubitavelmente, sobre nós e disso estamos cientes, mercê da alteração dos métodos e estratégias a que nos veremos obrigados. Contudo, estamos cá para servir e nisso reside a nossa vocação.
Ao contrário de outros, vá lá saber-se porquê, a Acendura Brava sempre tem tido condutores seniores nas suas fileiras, gente que se tem sentido bem entre nós e que sempre acaba por nos surpreender. Nos últimos vinte anos o seu número foi de 10% na totalidade das inscrições e tem vindo a crescer nos últimos tempos. Talvez isso se deva ao facto de termos muitos reformados, ao cuidado generalizado com a saúde, às múltiplas acções de esclarecimento desenvolvidas nesse sentido e ao querer de alguns que abraçaram e abraçam esse propósito. No tempo em que mantínhamos classes de competição, conseguimos inclusive levar condutores seniores às provas e nenhum deles mal se comportou ou foi motivo de troça, muito pelo contrário! Corrijam-nos se estivermos errados, mas entendemos as escolas caninas como meios para congregar as pessoas e não somente os condutores ou proprietários caninos, porque a organização de qualquer evento sempre reclama por outra gente, vicissitudes que a logística não dispensa e é bom estarmos cientes disso. No mundo global a escola canina deve ser para todos e ajudar na trajectória comum, colocando ao seu dispor as suas mais-valias, independentemente do sexo, idade, raça, actividade, lugar social, credo ou religião das pessoas, porque somos portadores do bem que os cães nos oferecem e não podemos guardá-lo somente para um grupo de eleitos. E se assim não o fizermos, seremos ultrapassados e arrumados nas estantes reservadas aos horizontes da memória, tal qual dinossauros à espera de serem redescobertos. A escola canina deverá ser activa e acompanhar a erudição da modernidade, adaptar-se para os desafios contemporâneos e contribuir para o alcance das aspirações humanas do seu tempo.

Segundo a teoria oxidativa, que hoje não merece qualquer tipo de contestação, considerando também que o excesso de actividade em determinadas idades pode originar tumores, diante do envelhecimento biológico provocado pela respiração (porque cada vez que respiramos, pagamos um preço pela absorção de oxigénio que necessitamos para produzir energia), longe de oferecermos a longevidade, julgarmos ser a prática do adestramento a melhor das terapias para os indivíduos seniores, uma vez que solicita os movimentos naturais inerentes à sua autonomia física, sem contudo provocar grande desgaste ou induzir a maior envelhecimento. Entretanto, seria absurdo sustentarmos que a cinotecnia garante só por si a longevidade, sabendo que ela se encontra ligada, para além do legado genético dos indivíduos, a meios culturais como a nutrição, a medicina e a cirurgia e que tanto ela como a gerontologia, ainda precisam de grandes avanços para lá chegar. Como simples perreros que somos, apenas damos testemunho do que vimos e ouvimos da boca dos nossos condutores seniores. E é com base nisso que convidamos outros iguais a acompanhá-los no combate à ferrugem, para que a sua autonomia aumente sem maiores atropelos e alcancem melhor qualidade de vida. É evidente que não estamos à espera que atinjam os 7.8 km/h em marcha, que venham a acompanhar os seus cães a uma velocidade de 6 metros por segundo ou que suportem duras sessões de treino baseadas na sobrecarga, porque isso nos remeteria para a responsabilidade da morte assistida ou para a convicção duma vida vindoura incomparavelmente melhor. Não é esse o nosso ofício, não abraçamos a metafísica e lidamos apenas com vivos.

Como se depreende, a inscrição de alunos seniores vai obrigar a adaptações e à variedade de métodos consoante as características dos indivíduos, tanto na formação como na sua integração, forçará a alteração dos planos de aula e induzirá à criação de metas intermédias e à novidade de cronogramas, que poderão acontecer isolados ou por integração. Geralmente são convidados a participar nas aulas colectivas até ao período do trabalho específico, estratégia que dá ao grupo um arejamento maior e fá-los sentir parte integrante da classe escolar, pois é importante que todos se sintam bem, que uns não se sintam atraiçoados e outros um empecilho. Para além das vantagens para as partes, o grupo cresce coeso e em sabedoria, recriando no treino um ambiente familiar há muito arredado da sociedade contemporânea, fortemente individualizada e distante dos problemas alheios. Escusado será dizer que o sucesso da integração dependerá de quem dirige: a pessoa do adestrador, que deverá saber gerir o esforço colectivo para o bem-estar individual, sem proporcionar atrasos nos mais empenhados ou vocacionados. À partida a tarefa parece difícil, mas ela irá ser suavizada pela mestria de uns em prol dos outros e é nesta permuta que residirá a melhor solução. Ademais, acresce uma lição de vida: as escolas mais duradouras sobrevivem pela excelência colectiva e as fortemente individualizadas tendem a desaparecer subitamente. Todos são importantes. A que deverá dar mais peso um adestrador: às medalhas ou às pessoas? Dependendo da opção, assim terá mais ou menos gente ao seu lado.

É por demais abusivo e injusto considerar a integração dos seniores um sacrifício. Caso o haja, a sua maior fatia irá ser paga por eles, atendendo aos inevitáveis esforços de integração e de capacitação, a uma menor disponibilidade física e à maior dificuldade no atingir das metas. Todas as pessoas que nos procurem têm dificuldades ou procuram o nosso auxílio, de outro modo jamais nos procurariam ou teríamos conhecimento delas. Contrariando uma ideia generalizada e preconceituosa, importa dizer que os condutores seniores têm-nos colocado menos problemas e dificuldades que outros de grupos etários diferentes, apresentando muitas vezes maior capacidade de sacrifício, pontualidade e empenho, coerência nos objectivos e mais avidez de conhecimento. E como se isto não bastasse, na galeria dos condutores lendários da Acendura o seu número é maioritário, havendo alguns que inclusive se tornaram monitores desta escola.

Reafirmamos o convite aos seniores para as nossas fileiras, desafiamo-los para a constituição binomial, queremos que sejam donos dos seus próprios passos e apostamos na sua qualidade de vida, até porque eles têm muito para nos ensinar e sem eles a nossa família estaria incompleta, tal qual geração errante e sem parâmetros. O exercício do adestramento é uma prática para todas as idades e tende naturalmente a eliminar insuficiências ou supostas dificuldades. Há que dar combate ao sedentarismo, ao isolamento, ao desinteresse e à apatia, factores que muito contribuem para o envelhecimento precoce das gentes, pois só temos uma vida e importa que a vivamos intensamente. Educar cães é fazer-se presente, é dizer que ainda vale a pena, é procurar dias melhores para suportar os indesejáveis, é apostar na vida diante da certeza da morte, mesmo sabendo que o envelhecimento é um processo irreversível e que começa logo após a maturação reprodutiva, resultando da diminuição de energia disponível para manter a fidelidade molecular. Mais vale sair de casa do que esperar que dêem pela nossa falta e finalmente nos venham buscar, quando já nada nos importar e sobrar o carrego para os outros. À parte disto, o adestramento possibilita a inserção social dos idosos, reafirma a sua importância e promove-lhes novos interesses. E como ninguém gosta de estar só, arranjem um cão e sejam bem-vindos. Estamos à vossa espera e temos como ajudar-vos. O convite está feito.