Sobre a química cerebral que despoleta o amor, pouco sabemos e carecemos de conhecimento mais profundo: do esclarecimento possível para o nosso entendimento. Que o amor desperta ou é acompanhado de outros sentimentos não temos dúvidas. Que em todos nós há amor é um facto, ainda que nalguns seja difícil identificá-lo, mercê da sua ocultação ou fragilidade diante de várias patologias. Também não temos dúvida quanto à sua aceitação cultural, como não duvidamos da influência da cultura nos modelos amorosos. Basta dizer, que quase sem darmos conta, passámos da frivolidade para o erotismo, segundo os ciclos que têm composto o avanço da humanidade. Se a identificação dos vários tipos de amor se encontra facilitada pela etimologia das palavras da antiguidade, o mesmo não se passa com a identificação de todas as suas formas subjectivas, porque todos apresentamos diferentes tipos e formas de amar. Mas se entendemos o sentimento para além das suas manifestações e de acordo com as reacções que provoca nos outros, talvez compreendamos o que é o amor de facto, porque doutra forma seríamos obrigados a aceitar em pé de igualdade o narcisismo, o hedonismo e toda a casta de ermitões (muitas vezes julgados santos pelo atraso da ciência). Assim, julgar o amor pelos seus frutos torna-se mais fácil, na medida em que o efeito induz à causa e o sentimento ganha forma, já que o amor é a mais excelente das comunicações, porque congrega e produz alteração no comportamento dos seus dadores e receptores, levando-os à unidade tanto de propósitos como de vida. Será a partir daqui que avaliaremos o nosso amor pelos cães e o amor que eles nos têm, enquanto acção reflexa num trajecto que se deseja comum. segunda-feira, 6 de junho de 2011
AMOR, AMOR AOS CÃES E O AMOR DELES
Sobre a química cerebral que despoleta o amor, pouco sabemos e carecemos de conhecimento mais profundo: do esclarecimento possível para o nosso entendimento. Que o amor desperta ou é acompanhado de outros sentimentos não temos dúvidas. Que em todos nós há amor é um facto, ainda que nalguns seja difícil identificá-lo, mercê da sua ocultação ou fragilidade diante de várias patologias. Também não temos dúvida quanto à sua aceitação cultural, como não duvidamos da influência da cultura nos modelos amorosos. Basta dizer, que quase sem darmos conta, passámos da frivolidade para o erotismo, segundo os ciclos que têm composto o avanço da humanidade. Se a identificação dos vários tipos de amor se encontra facilitada pela etimologia das palavras da antiguidade, o mesmo não se passa com a identificação de todas as suas formas subjectivas, porque todos apresentamos diferentes tipos e formas de amar. Mas se entendemos o sentimento para além das suas manifestações e de acordo com as reacções que provoca nos outros, talvez compreendamos o que é o amor de facto, porque doutra forma seríamos obrigados a aceitar em pé de igualdade o narcisismo, o hedonismo e toda a casta de ermitões (muitas vezes julgados santos pelo atraso da ciência). Assim, julgar o amor pelos seus frutos torna-se mais fácil, na medida em que o efeito induz à causa e o sentimento ganha forma, já que o amor é a mais excelente das comunicações, porque congrega e produz alteração no comportamento dos seus dadores e receptores, levando-os à unidade tanto de propósitos como de vida. Será a partir daqui que avaliaremos o nosso amor pelos cães e o amor que eles nos têm, enquanto acção reflexa num trajecto que se deseja comum. STEPHANITZ, EQUITAÇÃO E ADESTRAMENTO: O TRAJECTO DA JOANA
NOVOS BLOGS NOUTRAS LÍNGUAS, ENDLICH MAL EIN BLOG IN DEUTSCH
Dentro em breve, mal se constituam as respectivas equipas de redacção (já em formação), surgirão novos blogs/sites noutras línguas, destinados a outras realidades culturais e geográficas. Assim iremos ter um destinado ao Brasil e outro em língua alemã, produzidos por acendras locais e igualmente empenhados na nossa filosofia de ensino, multiplicando assim o velho blog português http://www.acendurabrava.blogspot.com/ , que brevemente irá ser substituído por outro. O elevado número de leitores alemães e brasileiros a isso nos obriga, porque ameaça a hegemonia dos portugueses e exige maior reparo. Já não é de agora a colaboração dessa gente e é chegado o momento de retribuir o seu empenho e apoio. A novidade não apanhou de surpresa os leitores mais assíduos desta nossa publicação porque, no 2º parágrafo dos textos da semana, sempre se tem aludido a uma dessas realidades e comentado alguma das suas situações de vida. sexta-feira, 3 de junho de 2011
IMPULSO AO PODER, CRIAÇÃO E HIBRIDAÇÃO
Há um pequeno César dentro de cada um de nós, todos nascemos com impulso ao poder, ninguém gosta de ser contrariado, todos desejamos ser obedecidos e ver realizada a nossa vontade. A força desse impulso e a resistência dos outros irá determinar como o usaremos e que rumo lhe daremos. Nesse combate vale tudo, porque ninguém consegue sufocar a sua natureza em constante apelo, parece que a felicidade individual passa por aí e ninguém é feliz se não tiver algo de seu. Valha-nos Deus! Se calhar inventámo-Lo para combater esta nossa cegueira e demos-Lhe as seguintes palavras (entre outras tantas para além dos 10 Mandamentos): “aquele que quiser ser o maior entre vós, seja o menor”; “se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me”; “seja feita a Tua vontade” e “um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como a vós mesmos”. Um Deus que não tinha onde reclinar a cabeça, que sucumbe perante o poder dos homens e que lá no final sai vitorioso, ressuscitando para nos dar morada junto d’Ele. O impulso ao poder humano é um caso muito sério, uma inclinação que não tem poupado vítimas e que jamais deixará de as fazer, mesmo entre aqueles que se dizem seguidores da divindade e seus representantes na Terra. Diante deste cenário apraz-nos dizer: como o mundo seria mais justo se só os animais tivessem impulso ao poder (pelo menos para os homens!). Exceptuando a possível alteração produzida pela premissa metafísica, parece-nos difícil separar o impulso ao poder da auto-realização humana, já que todos procuram, tanto líderes quanto subordinados inatos, uma dose quanto baste de “quero, posso e mando”, surgindo a marginalidade e os comportamentos a ela associados como resultado do mesmo apelo, ainda que por meios condenáveis pela sociedade.
É igualmente difícil separar o impulso ao poder do acto de criar ou de o inovar, isto se essa nova criação se encontrar sujeita ou servir os propósitos desse mesmo impulso. Diz-se e Gilberto Freyre também o disse, que Deus criou as raças e os portugueses criaram o mestiço, o que é uma inverdade histórica, já que essa prática é anterior à nossa nacionalidade, foi praticada nos impérios da antiguidade, consumada nos casamentos reais e usada para o aumento do seu domínio e poder. O que se deve aos portugueses é o seu aproveitamento global, a generalização da mestiçagem nos territórios ultramarinos e no Novo Mundo, como política para garantir o povoamento, a extracção das riquezas e a sua soberania ali, considerando o escasso número de habitantes no seu território metropolitano. Os reis que outorgaram a mestiçagem ou que a ela não se opuseram, também eles oriundos de diferentes etnias europeias, de português sobrava-lhes o título, sendo cada um deles mais germano, inglês ou francês do que o outro. A criação dos originários pombeiros, gente que dava caça aos escravos, encontrou na mestiçagem a nata das suas fileiras, o que se compreende face à resistência dos nativos em dar caça ao seu próprio sangue ou de submeterem a sua tribo a tal assolação. Conclui-se assim que a criação do mestiço resultou duma medida económica para garantir o poder. Se uns construíram impérios a expensas doutras etnias, outros houveram que criaram raças de cães, o princípio é o mesmo e acabou por servir idêntico propósito, já que a novidade dessas raças veio contribuir eficazmente para a defesa dos bens individuais, para o sucesso no esforço bélico, para o exercício policial, para reforço da actividade cinegética, para a autonomia dos deficientes e para afirmação do status, entregando a cada um dos seus novos proprietários muitas das mais-valias que há muito aguardavam.
O adestramento continua invadido por um corolário de apelos incontidos ao poder, diariamente somos surpreendidos com indivíduos predispostos à dominância, gente de todas as idades e com igual propósito, que pretende encontrar nesta arte os fundamentos para o seu castelo, um meio violento para se afirmar e ultrapassar os outros, ainda que o não diga e que dê a entender exactamente o contrário, porque a cobardia aguça o engenho e a simulação é-lhes natural. Perante a situação, como deverá proceder um adestrador digno desse nome? Ignorará as intenções deles? Dará azo ao disparate e mostrar-se-á conivente ou desnudará os indivíduos e tentará produzir neles alteração? O caminho mais fácil é lavar daí as mãos, o mais difícil é produzir alteração. Se entendermos a salvaguarda dos cães como o objectivo central do adestramento, não restam dúvidas: seremos obrigados a produzir alteração na pessoa dos condutores! Com isto, podemos perder um ou mais alunos, ganhar o rótulo de imprestáveis ou de idiotas, mas mais vale ganhar a alcunha do que fazer jus ao nome. Que ninguém se engane, nenhuma lei trava um desejo, uma inclinação ou uma ambição, apenas obriga os indivíduos ao disfarce que impede o seu castigo, até porque, invariavelmente, o montante do prémio é superior aos danos causados pela contravenção. Denunciar os abusos cometidos sobre os cães é nossa obrigação, assim como também é a formação dos seus condutores. Se não evitarmos atempadamente os abusos binomiais, alguns inocentes irão pagar o preço da nossa “distracção” ou indiferença, tal qual ovelhas prontas prò abate. O adestramento deve ser uma ocasião para a paz e para que isso aconteça, é necessário perscrutar as intenções de cada um dos nossos alunos e sintonizá-los com os nossos objectivos e filosofia de vida. Todo e qualquer impulso, inclusive o relativo ao poder e com mais acuidade, deve ser direccionado para o bem comum, sem contudo eliminar a criatividade individual que enriquece o colectivo escolar. Eu quero encontrar na rua um cão que me acompanhe quando estiver só, não um que me mate porque não alcanço socorro! Trabalhar assim é lutar, também, contra o aumento da criminalidade.GESCHICHTE EINES ALTEN SÜNDE: A HISTÓRIA DO ILAK, O CÃO-LOBO by Hans Freudig
When I was young, a história poderia começar assim, porque já lá vão algumas décadas, ofereci um presente envenenado a um irmão: o ILAK, um cão-lobo que doei como se fosse o mais excelente dos Pastores Alemães. Felizmente não resultou daí qualquer dano para ninguém, nem para o bicho nem para os sucessivos proprietários que o adquiriram e conduziram, o que não me isentou de rara preocupação durante alguns anos, até porque o meu propósito inicial era francamente maldoso e queria de alguma forma comprometer o meu irmão. Um dia, o qual não recordo exactamente, ele disse-me: “Hans, eu quero um cão como o do Wilhelm. Quando tiveres outra ninhada, espero que me ofereças um!”. Na altura, não que isso sirva de justificativa, esse meu irmão era muito prepotente, funcionava como meu patrão e sempre fazia questão de manifestar a sua autoridade, mesmo nos momentos em que tal era desnecessário e se tornava por demais abusivo. Farto do aturar, que madurezas era coisa que não faltava, anui ao seu pedido e esfreguei as mãos de contente, porque a minha hora parecia ter chegado. O tal de Guilherme que me havia comprado o primeiro cão, trabalhava connosco e comprou-mo para arranjar um aliado, porque também ele, por detrás do seu ar de franciscano descalço, não ia à bola com o meu irmão, tudo fazendo para o destronar e ocupar o seu lugar. Por má sorte, veio a alcançar os seus intentos, ainda que por pouco tempo. Mas voltemos à história do ILAK.
A minha Pastora Alemã Arim já tinha 7 anos de idade e ao invés de a beneficiar com um cão da sua raça, optei por cruzá-la com um lobo de uma reserva, porque tal me pareceu bem, atendendo à picardia que mantinha com o meu irmão, necessariamente silenciosa porque o homem não era para brincadeiras e dele dependia o meu futuro. A cavalo e com a cadela a correr ao meu lado, coloquei-a na cerca dos lobos por altura do seu período fértil, temendo por ela e ávido de um desfecho feliz. Três coisas podiam acontecer: a morte da cadela (coisa que eu nem queria imaginar), ela ser coberta ou acabar por fugir, gorando assim os meus intentos. Passada uma semana, com o coração nas mãos, voltei ao reduto dos lobos e chamei por ela. Mais depressa do que em imaginava, ela apareceu, feliz e de cauda ao alto. Escusado será dizer que as lágrimas escorriam-me pela cara abaixo e jurei nunca mais repetir a “proeza”. Trinta e cinco dias depois já havia evidências seguras da sua prenhez, notícia que de imediato transmiti ao meu irmão, geralmente acompanhada de bons augúrios e na certeza de cachorros extraordinários. Os cachorros nasceram no tempo certo e saíram uns matulões, metade preto-afogueados e a outra metade lobeira a puxar para o cinza. Para que os meus planos dessem certo, escolhi o cinzento maior da ninhada, um infante que havia nascido com 890 g e isto sem a mãe haver tomado qualquer suplemento ou aditivo.
Por volta dos seis meses de idade, já o cachorro era enorme e começava a demonstrar algumas tendências, nomeadamente a aversão que tinha ao nosso offiziellen, um funcionário africano que trabalhava para nós e que tudo fazia para nos encalacrar, para quem o cão era um demónio pior do que o dono, no mínimo, o melhor dos complementos prà sua malvadez! Se fosse só por causa do homenzinho, o cão jamais viria a ser treinado, porque a antipatia entre os homens era recíproca e o cão prestava-se à festa. Numa tarde sou surpreendido por uma pergunta:” Hans, quem é o veterinário mais entendido em Pastores Alemães?” Como quem não está acostumado a mentir, sempre lhe foge a boca para a verdade, respondi-lhe prontamente: “ É o Dr. Weiss Schlösser!”, sem pensar nas consequências de tal resposta. “ Prepara-te, porque depois de almoço vamos ao seu consultório, pois gostava de uma opinião avalizada sobre o ILAK” – concluiu. O apetite para o almoço daquele dia desapareceu ainda antes de ter chegado, a ida ao veterinário atormentava-me de sobremaneira, temia ver-me denunciado e com o futuro laboral comprometido. Pelo caminho pensava em estratégias para ludibriar o Dr., e como não é bom ter só um plano A, ia formulando desculpas credíveis para o sucedido, caso a trama viesse a ser descoberta.
No consultório fomos amavelmente recebidos, o cão foi colocado em cima da marquesa e a inspecção demorou cerca de trinta minutos, minutos de muito aperto para mim, agravados pelo silêncio cortante da observação, nem as moscas se ouviam, somente o boliço distante dos carros que passavam pelo exterior do edifício. O clínico observou o cão à minúcia, não parava para comentários, até que finalmente soltou: “ Parabéns Sr. Jurgen, o seu cão é o melhor Pastor Alemão que vi nestes últimos trinta anos! Disto não se vê todos os dias! Verdadeiramente um perfeito exemplar!” Suspirei de alívio, parecia estar a viver o dia da redenção e dizia em silêncio para Deus: “ Obrigado bom pai, deste-me aquilo que não mereço!” Daquele dia em diante, a soberba do meu irmão aumentou e os Pastores Alemães passaram a dividir-se em duas categorias: o ILAK e os outros; o exemplar e as imitações. O caso não era para menos, o bicho atingiu 74 cm de altura, veio a atingir um perímetro torácico de 130 cm e um peso de 53 kg, sem nunca estar gordo.
O tempo correu de tal maneira que quando demos por isso, já estávamos a entregar o cão. Seguiu-se a observação detalhada do animal pelo treinador, que estupefacto me disse: “ Amigo Hans, este bicho é dos gigantes, nunca vi coisa assim e olhe que já vi muitos pastores alemães. Nele tudo é grande, até os dentes!”, ao que lhe respondi: “Eu bem lhe disse Sr. Franz, afinal não o enganei, o cachorro é mesmo de primeira!” Depois disso fomos assistir à primeira aula e seria melhor não termos ido. Ao passar por uma poça de água, o homem pôs os pés por ela adentro e o cachorro passou-lhe ao lado. A atitude do cão não agradou ao mestre e este tomado de zelo, agarrou-o ao colo e projectou-o para dentro do charco dizendo: “ 1ª Lição, metes as patas onde eu meto as minhas!”. O meu irmão levantou as mãos à cabeça em silêncio, enquanto olhava para mim, meio confuso e outro tanto indignado. Para o sossegar, eu projectava o meu polegar direito para cima e apertava o óvulo da minha orelha em sinal de aprovação. Mais confiante em mim do que na demonstração daquele treinador, o Jurgen aceitou as suas condições e entregou-o aos cuidados daquele mestre, que foi o seu único treinador e que acabou por treiná-lo irrepreensivelmente, outros não o fariam tão bem e facilmente se entende porquê.
Durante algum tempo deixei de ter notícias do cão-lobo e aproveitei um convite do Sr. Franz para almoçar, já que a sua mulher era uma excelente cozinheira. Na alegria do convívio e na euforia produzida pelos bons vinhos da nossa terra, até porque a comida estava apurada e puxava parar beber, decidi revelar um segredo e disse para o dono da casa: “ Sr. Franz, sabe porque é que o ILAK devolvia ao remetente tudo aquilo que recebia? Simplesmente porque é um híbrido de lobo!” Ao ouvir a estranha revelação, o velho treinador permaneceu quedo e mudo, somente os seus olhos se mexiam, lembrando fagulhas prontas pra tudo incendiar. Depois, levantou-se da mesa e abriu a gaveta de um armário, tirando de lá uma pistola que ele mesmo havia construído. Com ela empunhada e apontada para mim, disse-me: “ Podia ter-me dito a verdade desde o princípio, que eu não me negava. Agora, brincar com a minha boa fé e gozar com a minha integridade, nunca!” Antes que carregasse no gatilho e aproveitando um breve momento em que limpava o suor da sua testa, eu saí pela janela e estivemos meia dúzia de anos sem nos falarmos. O homem tinha carradas de razão!
Entretanto, gratos pela atenção que havia dispensado ao ILAK, fui convidado para lanchar na casa dos músicos seus proprietários, onde acabei por conhecer também a Sr.ª Gertha, uma visita assídua da casa e uma apaixonada incondicional por cães. Bastante curiosa com o tema da conversa, ela decidiu ir ao quintal conhecer o cão. Ainda dentro de casa e reparando nele através da vidraça da porta da cozinha, disse: “Gretchen, o teu cão é enorme e devia ser treinado. Posso ir lá fora ter com ele?” A dona de casa sorriu e respondeu-lhe:” O meu cão já foi treinado e bem. Claro que podes ir lá fora, está à vontade”. Já haviam passado vinte minutos e a Sr.ª Gertha teimava em regressar. “Gertha, o teu chá já deve estar frio! Não te faltará tempo para conviveres com o ILAK. Vem para dentro!” Como ninguém respondeu ao apelo da dona casa, decidi ir procurar a senhora em falta. Ao chegar ao jardim, deparei-me com uma imagem insólita: a pobre da Gertha estava debaixo de um limoeiro, presa pela garganta, com os dentes do ILAK a segurá-la! O bicho rosnava e ela não se mexia. Depois de liberta, soltou: “Que rico cão, deixas-me levá-lo ao treino?” Os donos da casa olharam um para o outro e disseram-lhe que sim. Temendo por danos maiores ou pela ocorrência de qualquer disparate, combinei com aquela senhora que a acompanharia no primeiro dia ao treino.
Poucos dias depois, deslocámo-nos ao campo de treino. A Sr.ª Gertha saiu com o cão e eu fiquei dentro do seu BMW amarelo de duas portas, de atalaia, não fosse algo acontecer. Mal tinham passado o portão do recinto e sentindo a proximidade dos outros cães, o ILAK soltou um uivo tremendo e metálico. Os condutores dos outros cães viram-se a braços com o susto provocado nos seus animais, parecia que um tornado ali havia passado e levado tudo à sua volta. O Sr. Ferdinand, o director daquela escola, estarrecido e espavorido, gritou: “ Ò Gertha, tira imediatamente esse cão daqui!” A boa da senhora sentiu-se descriminada e lá respondeu: “ Tiro o cão porquê? Eu sou sócia da escola!” Possesso, o treinador retorquiu-lhe: “Mas não é o cão! Ponham-se os dois lá fora!” Até hoje, porque me viu dentro do carro, o Sr. Ferdinand jura que o sucedido foi obra minha, uma manobra para o comprometer e desacreditar. Contrariada, a Sr.ª Gertha nunca mais saiu com o ILAK, apesar de muitas vezes o ir visitar a sua casa e brincar com ele no jardim. E como a vida não pára, o cão-lobo morreu de velho no princípio do século, o Sr. Franz, agora viúvo, vive no estrangeiro com o filho, o casal de músicos separou-se e só agora o meu irmão tomou conhecimento de todos os factos. Esta é a história do ILAK, o cão-lobo, uma história verídica que poderia ter um final diferente, um relato da minha maldade que apresento como um pedido de desculpas. Queira Deus que o meu irmão me perdoe, se fosse ao contrário, eu não sei se lhe perdoaria. Resta-me a esperança de ele ser melhor do que eu. Sosseguem os mais exaltados ou medrosos, porque o comportamento do ILAK é atípico dentro dos híbridos de lobo, porque na sua maioria eles não evidenciam tais características, sendo ao invés medrosos e desconfiados, naturalmente avessos à formação de equipa, porque a sua carga instintiva fala mais alto e obsta ao seu aproveitamento. Apesar de tudo, tenho saudades do ILAK, ainda sonho com ele, vejo-o todas as noites a correr na floresta antes de dormir. quarta-feira, 1 de junho de 2011
OUVIR A CHARANGA E NÃO IR DE CHAROLA
O TEMPO PASSA E ELA CONTINUA
Corria o ano de 1995, quando demos uma cachorra cruzada de Collie Barbudo com Pastor Alemão a um conhecido de então. O obsequiado pôs-lhe o nome de July e ela veio a transformar-se numa companheira excepcional. Ainda participou, por duas ou três ocasiões, nas exibições escolares e sempre se comportou exemplarmente. No passado Sábado, dia 28 de Maio, recebemos a foto acima com o seguinte comentário: “Os meus melhores 16 anos da minha vida em companhia da minha amiga JULY… PS desculpem em estar deitada à vaca”. É caso para se dizer que o tempo passa e ela continua. O pai da July durou 21 anos (Faruk of Highlands), depois teve que ser abatido, porque alguns dos seus órgãos paralisaram. Às suas costas fundou-se a Acendura Brava e durante muito tempo serviu de referência para nossa escola. Desejamos que a July dure tantos ou mais anos com saúde e alegria.“DEUS TENHA PENA DOS RICOS PORQUE OS POBREZINHOS COM QUALQUER COISA SE CONTENTAM”
Sempre ouvimos esta frase nos momentos de crise ou de maior aperto. Não sabemos quem a disse pela primeira, mas compreendemos sem maior dificuldade qual o seu sentido, algo idêntico ao constante nos aforismos: “Só perde quem tem” e “quem não tem cão, caça com gato”, que dependendo da gravidade das situações nos poderão levar a outro: “ é pior a emenda que o soneto”. Não é de política que iremos falar e também de nada adiantaria, porque raros são os eleitores que lêem os programas dos partidos concorrentes às eleições e os políticos sabem disso. Os pobres e os ricos que aqui abordaremos serão aqueles que acertam ou erram nas opções relativas aos seus cães, muito embora essas decisões possam vir a ser condicionadas ou tornadas dependentes por algum entrave económico. Qualquer modalidade canina deverá contribuir prò bem-estar global dos cães convidados para a sua prática. Não existindo esta condição, por maiores que sejam as ânsias dos seus condutores, os seus sonhos e projectos, as suas carências e o seu desejo de protagonismo, qualquer cão deverá ser dispensado desse trabalho, porque ele será forçado, deveras esforçado e indutor a danos de vária ordem. Na cinotecnia não se deverá albardar o burro à vontade do dono, mas encontrar uma modalidade ou método que facilitem a aprendizagem do cão e diminuía substancialmente o número das respostas artificiais a que se verá obrigado. Assim, cada condutor deverá considerar o particular biológico do seu cão, o seu potencial, as suas capacidades e incapacidades, o tipo de respostas diante do estímulo certo e a sua capacidade de resolução. Aqui a riqueza vem do conhecimento e a pobreza do improviso, dos golpes de sorte que geralmente dão em azar. A polivalência canina não é absoluta e encontra-se dependente de vários factores que variam de indivíduo para indivíduo (genéticos, sanitários, ambientais, treino etc.). Os condutores que procuram conhecimento nunca estão satisfeitos e os tolos sempre encontram razão de contentamento. O QUE NÃO MATA, ENGORDA
Com a chegada da época estival aumentam de sobremaneira os perigos para os cães. Tanto nas praias como nas florestas, apesar de há muito existirem recipientes para esse efeito, proliferam restos de comida por toda a parte, de toda a ordem e para todo o paladar, iguarias do agrado dos bichos e que lhes poderão ser fatais. Se há alturas do ano em que não convém transitar com o cão desatrelado, o Verão é certamente uma delas, especialmente junto a falésias, matas ou pinhais muito concorridos, onde o risco de encontrar comida deteriorada é mais do que certo. Quanto sair à rua com o seu cão esteja atento e não o deixe comer nada, pois isso poderá salvar-lhe a vida. Ao invés de engordar, a comida deixada pelos menos asseados, pode intoxicar e condenar à morte o seu companheiro, sempre pronto prò petisco e à espera de oportunidade. “O que não mata, engorda” é lição doutros tempos, quando a comida era pouca e tudo tinha que se aproveitar. Estamos noutra era e os cães obrigam-nos a andar de olhos abertos. sexta-feira, 27 de maio de 2011
NODUM NATUS ERAM (ainda eu não era nascido)
quinta-feira, 26 de maio de 2011
AVERSÃO, INDIFERENÇA, SIMPATIA, GOZO, NECESSIDADE, DEDICAÇÃO E ADORAÇÃO
Não são poucos os que denotam especial simpatia pelos cães. Este sentimento pode provir duma feliz experiência anterior, de um sonho de infância ou de um apego inexplicável e incontido. Será do grupo dos simpáticos que sairá um pequeno número de pessoas que se dedicará a actividades em prol dos cães (recolha, adopção e sustento dos animais abandonados). Esta sensibilidade poderá constituir-se numa necessidade, revestir-se de especial dedicação e atingir a adoração, caminho geralmente sem regresso e que acabará por escravizar os indivíduos seus portadores e estender-se àqueles que aceitarem o seu desafio. Como o seu número é reduzido, a maioria das pessoas que simpatizam com os cães fazem-no porque os não têm e gostariam de os ter. Essa carência de reciprocidade, intimamente ligada à ausência de condições de vária ordem, irá levá-los à procura do contacto com os cães alheios, tratando-os como se fossem seus e não raramente à revelia dos donos, o que é um abuso insofismável, desafortunadamente enraizado entre nós. O simpático acaricia sem avisar, distrai os cães dos outros, tenta cativá-los, dá-lhes de comer e incentiva-os para outros desafios ou brincadeiras, muitas vezes inoportunas face à sobrevivência dos animais e ao cumprimento das ordens anteriormente manifesto, factos que ele ignora pelo sufoco apelativo. Quando não é bem sucedido e os cães reagem de modo inesperado, quer rejeitando a carícia quer advertindo para o abuso, bem depressa cai o vitupério e os seus proprietários, sem maior dificuldade, alcançam o nome de besta. Os simpáticos, talvez por serem apenas simpáticos, não estão para suportar os incómodos que os cães causam, servindo-se apenas dos alheios para a satisfação das suas necessidades, numa clara alusão a um amor quanto baste. Os seus filhos espelharão a mesma educação e todos verão o adestramento como desnecessário, provavelmente porque nada mais esperam dos cães e ignoram os perigos que os rodeiam – Deus nos salve dos bajuladores! Quando finalmente um simpático arranja um cão e se apresenta no treino, é porque encontrou problemas para além da sua capacidade de resolução. A situação exige tacto, porque a natureza dos problemas, só por si, não vai alterar tanto a essência quanto o comportamento do indivíduo. De que padecerá o cão do simpático? Provavelmente de abuso de autoridade, porque quem não consegue refrear-se, dificilmente saberá dar o exemplo, dizer não e abraçar a disciplina. Deseja-se que a sintonia com os restantes alunos escolares corra em nosso auxílio.
Ter cães é uma necessidade para muita gente, algumas instituições não podem prescindir deles e outras ainda não entenderam a sua importância. A necessidade dos cães, intimamente ligada à natureza biológica e social dos indivíduos, prende-se com aspectos ligados ao seu equilíbrio emocional e bem-estar (terapia), ao aumento da autonomia de alguns (deficientes de vária ordem) à possibilidade de novos proventos e também ao retorno idílico à vida simples, campestre e mais saudável (contacto com a natureza). Não abordaremos o segmento dos cães para deficientes, porque disso falarão, com mais propriedade e conhecimento, os profissionais formados para esse efeito. Remeter-nos-emos em exclusivo à necessidade do cidadão comum, que ao contrário do que muita gente pensa, não é desprezível e tem-se revelado de extrema importância para o bem-estar dos indivíduos, suprimindo-lhes carências de vária ordem, relacionadas com o alcance do seu equilíbrio psicológico e com o combate à solidão e ao ostracismo, subsídios objectivos para a sua reintegração social. Todos sabemos do aproveitamento político do desporto e em Portugal um jogo de futebol pode até encurtar uma sessão no Parlamento. O quadro pode parecer-nos rocambolesco, mas as vitórias de um clube de futebol ou da nossa selecção podem alimentar a esperança ou desanuviar aqueles que mais sentem a crise, dando-lhes alento para suportar as dificuldades. Com os cães passa-se exactamente o mesmo, porque não nos abandonam, são nossos confidentes, aceitam-nos tal qual somos, fazem-nos sentir úteis, ajudam na construção do nosso pequeno mundo, são muito afectuosos, fazem da reciprocidade prática corrente, e por aí adiante. Diante deste cenário, não é difícil compreender a possível dialéctica antropomórfica de alguns, que reclamam para os seus cães características e qualidades quase humanas. O discurso não é livre porque em muitos casos a opção foi forçada. Quem tem acompanhado grande número de idosos e solitários? Feito as delícias das crianças e substituindo aquelas que já partiram? Ajudado os jovens a crescer e aliviado as dores de tantos? Quem está sempre ao nosso lado e tem acalentado muitos dos nossos sonhos? Tudo isto revela uma necessidade objectiva dos cães, quer eles surjam por complemento, substituição ou se tornem imprescindíveis. A plebe que precisa deles, como já atrás se disse, tende a tratá-los como iguais, o que nos obrigará a cuidados excepcionais no adestramento desses”cães-homens”, porque para os seus donos eles não são cães, cães são os dos outros! Sempre nos pedirão maior deferência, rara sensibilidade e não se acanharão em manifestar-se. Com certeza iremos ouvir histórias fantásticas, algumas semelhantes às ouvidas entre pescadores e caçadores ou outras relativas a dons paranormais (que eles juram estar presentes nos seus companheiros). Será deste grupo de carentes que sairá o grosso dos indivíduos para os lares de acolhimento e outras actividades relativas ao resgate dos cães abandonados. O indivíduo que não dispensa a companhia do seu cão, depois de confiar em nós, pode tornar-se num aluno modelo, porque através da cumplicidade manifesta poderá chegar à excelência binomial, opção mais equilibrada e que o levará a considerar objectivamente o particular biológico do seu cão. Também nós somos visionários e estamos cá para massificar os sonhos de muitos, porque ensinamos para alcançar a excelente comunicação interespécies e continuamos a acreditar que muitos lá chegarão.
A dedicação aos cães pode não provir duma necessidade ou ser resultado duma carência, porque muita gente abraça o ofício sem dar por isso e acaba por gostar da experiência, como se o tempo aguardasse pela circunstância. O que caracteriza a dedicação é a transformação das velhas rotinas em novos procedimentos, o gozo de descobrir e querer mais, a aposta no caminhar com o cão ao lado e procurar a sua coabitação sem contudo desrespeitar a sua natureza. A dedicação aumenta e depura-se com a experiência, obriga a adaptação de ambos e pode alcançar a comunicação telepática, benefícios que o treino canino oferece e pode despertar. Proliferam por aí ideias ou noções erradas acerca do adestramento, caricaturas que em nada se identificam com esta arte e que apenas servem para relembrar o passado, ilustrar certos propósitos ou ironizar quem os segue. O treino do cão de guerra já lá vai, o de polícia vai a caminho, o de guarda tira o bilhete e o de circo já embarcou. Sobra o cão familiar, e às suas custas o adestramento evoluiu para patamares nunca vistos, ganhou criatividade e descobriu outras disciplinas, devolveu os cães aos donos, generalizou-se por todo lado e constitui-se como parte integrante da cultura popular, saiu do troar dos tacões e abraçou a salvaguarda dos animais, tornando o treino canino numa manifestação incontestável de dedicação, graças à relação óptima entre tratamento e adestramento. Só a dedicação alcança o treino e o entende como uma tarefa prioritária, procura o discipulado e busca a simbiose. A transcendência operativa do adestramento reside no amor, na capacidade de cada condutor alcançar uma paternidade extraordinária e incomum, mercê da comunhão de objectivos que o une ao seu cão, não sendo por isso de estranhar que os bons pais venham a ser igualmente bons condutores. Quando essa dedicação se torna cultural, não é difícil compreender como 2 ou 3 gerações da mesma família se filie na mesma escola. Os portadores deste sentimento não esperam que os seus cães façam, ensinam-nos a fazer, são tolerantes e esperam pelas adaptações dos seus companheiros, sujeitam-se ao auto-exame antes de os repreender, são fortes no incentivo, constantes nas acções e dedicados ao aprimoramento. Só a dedicação poderá compreender que o ensino é um acto continuado, sujeito à novidade de desafios e carente de novas soluções. Todos os alunos escolares procedem assim? Não! Mas a Escola existe para os educar, amparar e transformar, e é essa a verdadeira causa da sua existência, já que os cães não aprendem sozinhos e necessitam de sobreviver.
Os cinófobos abominam os cães, os indiferentes dão-lhes pouca ou nenhuma importância, os simpáticos brincam com eles, os gozadores possuem-nos sem os compreender, os que necessitam deles usam-nos e saciam as suas faltas, os dedicados amam-nos, e o que farão os seus adoradores? Adorá-los-ão simplesmente! Como complemento e seguindo mesmo raciocínio, os cinófobos nem os querem ver, os indiferentes querem distância deles, os simpáticos buscam a sua proximidade, os gozadores querem-nos no sítio certo, os necessitados onde fazem falta, os dedicados trabalham para que permaneçam a seu lado e os adoradores arranjar-lhes-ão prerrogativas divinas e andarão de acordo com os seus amuos. E que mensagem transmitirão aos seus filhos? Os cinófobos transmitir-lhes-ão os mesmos medos, os indiferentes tentarão afastá-los dos cães, os simpáticos formarão bajuladores, os gozadores serão gozados pelos filhos, os necessitados isentá-los-ão de maior contacto com os animais, os dedicados tentarão transmitir-lhes igual sentimento e os adoradores, para mal dos seus pecados, raramente têm filhos. Diante de algum contratempo provocado pelos seus cães, os indiferentes livrar-se-ão deles, os simpáticos procurarão ajuda, os gozadores substitui-los-ão, os necessitados levá-los-ão para afinação, os dedicados buscarão solução e os adoradores conformar-se-ão com a sua sorte. Todos eles compreendem ou irão compreender o adestramento de maneira diferente. Para o cinófobo a cinotecnia é uma prática de tolinhos e uma manifestação de maldade, o indiferente vê-lo-á como desperdício de tempo e de dinheiro, o simpático não vislumbrará imediatamente da sua necessidade, o gozador raramente estará para aí virado, o necessitado cumprirá com os protocolos de ensino, o dedicado não o dispensará e o adorador desprezá-lo-á. Afinal, fazemos com os cães o mesmo que fazemos com tantas outras coisas, tudo resulta do nosso maior ou menor interesse e não tanto dos talentos individuais. sábado, 21 de maio de 2011
BINÓMIO: UMA TERAPIA SEGURA CONTRA A FERRUGEM
Apesar do “fenómeno” já ter sido desacreditado, ainda subsistem por aí umas tantas igrejas que oferecem milagres e cura para tudo, como se fossem donas da mais excelente das terapias alternativas. Com este texto não queremos ser confundidos com elas ou interpretados como vendedores de alguma panaceia, tão-somente testemunhar os benefícios que a terapia binomial tem oferecido aos nossos condutores seniores, lançando daqui o convite a todos aqueles que se encontram nessa idade e que não querem, imediatamente, entregar a sua vida aos pontos, porque é possível ser-se ancião e ter saúde. Move-nos a preocupação fraterna e não o aumento dos proventos, porque a maior fatia deste desafio recairá, indubitavelmente, sobre nós e disso estamos cientes, mercê da alteração dos métodos e estratégias a que nos veremos obrigados. Contudo, estamos cá para servir e nisso reside a nossa vocação.
Ao contrário de outros, vá lá saber-se porquê, a Acendura Brava sempre tem tido condutores seniores nas suas fileiras, gente que se tem sentido bem entre nós e que sempre acaba por nos surpreender. Nos últimos vinte anos o seu número foi de 10% na totalidade das inscrições e tem vindo a crescer nos últimos tempos. Talvez isso se deva ao facto de termos muitos reformados, ao cuidado generalizado com a saúde, às múltiplas acções de esclarecimento desenvolvidas nesse sentido e ao querer de alguns que abraçaram e abraçam esse propósito. No tempo em que mantínhamos classes de competição, conseguimos inclusive levar condutores seniores às provas e nenhum deles mal se comportou ou foi motivo de troça, muito pelo contrário! Corrijam-nos se estivermos errados, mas entendemos as escolas caninas como meios para congregar as pessoas e não somente os condutores ou proprietários caninos, porque a organização de qualquer evento sempre reclama por outra gente, vicissitudes que a logística não dispensa e é bom estarmos cientes disso. No mundo global a escola canina deve ser para todos e ajudar na trajectória comum, colocando ao seu dispor as suas mais-valias, independentemente do sexo, idade, raça, actividade, lugar social, credo ou religião das pessoas, porque somos portadores do bem que os cães nos oferecem e não podemos guardá-lo somente para um grupo de eleitos. E se assim não o fizermos, seremos ultrapassados e arrumados nas estantes reservadas aos horizontes da memória, tal qual dinossauros à espera de serem redescobertos. A escola canina deverá ser activa e acompanhar a erudição da modernidade, adaptar-se para os desafios contemporâneos e contribuir para o alcance das aspirações humanas do seu tempo.
Segundo a teoria oxidativa, que hoje não merece qualquer tipo de contestação, considerando também que o excesso de actividade em determinadas idades pode originar tumores, diante do envelhecimento biológico provocado pela respiração (porque cada vez que respiramos, pagamos um preço pela absorção de oxigénio que necessitamos para produzir energia), longe de oferecermos a longevidade, julgarmos ser a prática do adestramento a melhor das terapias para os indivíduos seniores, uma vez que solicita os movimentos naturais inerentes à sua autonomia física, sem contudo provocar grande desgaste ou induzir a maior envelhecimento. Entretanto, seria absurdo sustentarmos que a cinotecnia garante só por si a longevidade, sabendo que ela se encontra ligada, para além do legado genético dos indivíduos, a meios culturais como a nutrição, a medicina e a cirurgia e que tanto ela como a gerontologia, ainda precisam de grandes avanços para lá chegar. Como simples perreros que somos, apenas damos testemunho do que vimos e ouvimos da boca dos nossos condutores seniores. E é com base nisso que convidamos outros iguais a acompanhá-los no combate à ferrugem, para que a sua autonomia aumente sem maiores atropelos e alcancem melhor qualidade de vida. É evidente que não estamos à espera que atinjam os 7.8 km/h em marcha, que venham a acompanhar os seus cães a uma velocidade de 6 metros por segundo ou que suportem duras sessões de treino baseadas na sobrecarga, porque isso nos remeteria para a responsabilidade da morte assistida ou para a convicção duma vida vindoura incomparavelmente melhor. Não é esse o nosso ofício, não abraçamos a metafísica e lidamos apenas com vivos.
Como se depreende, a inscrição de alunos seniores vai obrigar a adaptações e à variedade de métodos consoante as características dos indivíduos, tanto na formação como na sua integração, forçará a alteração dos planos de aula e induzirá à criação de metas intermédias e à novidade de cronogramas, que poderão acontecer isolados ou por integração. Geralmente são convidados a participar nas aulas colectivas até ao período do trabalho específico, estratégia que dá ao grupo um arejamento maior e fá-los sentir parte integrante da classe escolar, pois é importante que todos se sintam bem, que uns não se sintam atraiçoados e outros um empecilho. Para além das vantagens para as partes, o grupo cresce coeso e em sabedoria, recriando no treino um ambiente familiar há muito arredado da sociedade contemporânea, fortemente individualizada e distante dos problemas alheios. Escusado será dizer que o sucesso da integração dependerá de quem dirige: a pessoa do adestrador, que deverá saber gerir o esforço colectivo para o bem-estar individual, sem proporcionar atrasos nos mais empenhados ou vocacionados. À partida a tarefa parece difícil, mas ela irá ser suavizada pela mestria de uns em prol dos outros e é nesta permuta que residirá a melhor solução. Ademais, acresce uma lição de vida: as escolas mais duradouras sobrevivem pela excelência colectiva e as fortemente individualizadas tendem a desaparecer subitamente. Todos são importantes. A que deverá dar mais peso um adestrador: às medalhas ou às pessoas? Dependendo da opção, assim terá mais ou menos gente ao seu lado.
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