quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Memórias, aptidão e longevidade

Um treinador de cães é essencialmente um formador de memórias, um arquitecto de momentos que contribuirão para a aptidão e felicidade dos cães que adestra, o que implicará directamente na longevidade dos animais ao seu encargo. Também nos homens, há medida que o tempo avança, o que mais sobra são as memórias, principalmente as boas porque são sobreviventes, necessitam de ânimo e resistem ao descalabro. Os cães nasceram para viajar, conhecer novos territórios, são dominados pela curiosidade e adoram momentos de evasão. Por onde tem andado com o seu cão? Sempre no mesmo sítio? Há quanto tempo não sai com ele? Não estamos a defender o antropomorfismo, tão-somente a lembrar que os cães vivem de memórias e importa que elas sejam felizes.

E ainda dizem que gostam deles!

Quando pensar em adoptar um cão, não faça como os demais, que pensam que basta garantir-lhe um lar, mimá-lo e dar-lhe comidinha a horas, tal qual como procedemos com um gato, um rato ou um hamster. A felicidade de um cão encontra-se cativa ao seu particular social e sexual, ao desejo excursionista, às interacções que eles possibilitam e à capacitação fornecida pelo seu quadro experimental. Triste é o cão que é tratado como um cavalo, normalmente arrumado na box e eventualmente montado, quando temos tempo ou nos lembramos dele. O cão nasceu para a parceria e o seu ensino acontece em movimento, nasceu para bater território e necessita de ser alertado para os perigos que o cercam. Apesar de ser um caso raro de adaptação, ele precisa de ser preparado para a novidade, porque não gosta de ser surpreendido e incomoda-se com o desconhecido. À parte disto, há que considerar o seu manancial cognitivo, porque nasce com impulso ao conhecimento e é naturalmente curioso, próprio para aprender e ser ensinado. O gato fixa-se na casa e o hamster brinca sozinho, o cão vive para o dono e os brinquedos são para ambos. Há gente que transforma os cães em animais de zoo ou que estende o circo em sua casa, gente que a si mesma se considera sensível e que acaba por atentar contra o bem-estar canino, geralmente amante de si própria, dita intérprete dos desejos dos bichos e que ignora aquilo que lhes é devido. Debaixo das suas “boas intenções”, castram os cães, vetam-lhe o exercício físico, impedem a sua sociabilização, não operam a sua capacitação, obstam o seu desenvolvimento cognitivo e ainda dizem que gostam deles. O hedonismo humano jamais irá ao encontro das necessidades dos cães, por mais terapêutico que seja o seu uso. O cão não é só serotonina, exige suor, porque obriga à permuta e à descoberta. O melhor cão do mundo para gente que não quer ser incomodada, que está sempre limpo e reluzente, que não reclama para sair, não maça as visitas e não causa contratempos, já há muito tempo que se encontra à venda nas olarias (os chineses também o vendem e mais barato).

A segunda chance

As escolas caninas deverão constituir-se em segunda chance para os condutores nelas inscritos, numa oportunidade para o seu envolvimento, adequação, desenvolvimento, realização e bem-estar, porque o grupo escolar enriquece pela diferença e evolui pelo contributo colectivo. Todos chegam porque precisam de ajuda e ela não deverá ser-lhes negada, porque somos companheiros de jornada irmanados no mesmo propósito. Cada condutor deverá apostar na capacitação dos demais, auxiliar os menos aptos e contribuir para a sua capacitação. Mal vai a escola que cimenta as diferenças e promove a dissensão, que despreza a fraternidade e alimenta o egoísmo. Como não estamos sós, estamos cá para servir e todos já fomos alvo do mesmo apoio. O futuro de uma escola sempre passará pelo seu cariz familiar, pela capacidade individual que leva cada um a considerar o outro como igual.

Ração: Junk food or not

Mas afinal o que é mais indicado para os cães: a ração ou a comida confeccionada? Esta é uma pergunta que sempre volta à tona entre os proprietários e criadores caninos, ainda que uso da ração se encontre generalizado. Para melhor compreendermos o problema, importa ir à origem histórica da ração, que surgiu pela necessidade e que se encontra ligada a Napoleão. Até ao Imperador dos franceses, todos os exércitos continentais sobreviviam pelo assalto e pelo saque das populações invadidas e a partir dele, deu-se início à fabricação de rações. Toda e qualquer ração é comida de substituição, a melhor opção para os alimentos frescos, desde que a sua qualidade se mantenha pelo período estipulado, o que cada vez é mais certo por força dos novos métodos de conservação. Particularmente somos adeptos da comida fresca e por razões operacionais optámos pela ração, porque temos vários cães e não nos sobra outra opção. Se tivéssemos um só cão, optaríamos pela outra solução e bicho agradecer-nos-ia.

Não podemos catalogar a ração de “junk food”, porque isso seria faltar à verdade, já que existem rações de reconhecida qualidade, do agrado dos cães e que saciam cabalmente as suas necessidades nutricionais (também as há más, de fraca qualidade e a preço convidativo). No mundo actual, onde toda a gente trabalha e não tem tempo para cozinhar, dominado pelo concurso do micro-ondas, carente do take away e suavizado pelos bons ofícios da “Bimby”, dificilmente os cães teriam comida pronta e a horas. Para além desta necessidade, que é real, a ração oferece inúmeras vantagens quando comparada com a comida fresca confeccionada, porque está sempre pronta a servir, é prática e de fácil transporte, não sofrendo alteração significativa nas diferentes estações do ano. Mas a maior vantagem da ração tem a ver com a salvaguarda dos cães, porque ela permite regrar o seu impulso ao alimento, contribuindo assim para a diminuição dos riscos de envenenamento, porque o cão recebe o penso da mesma pessoa, come à hora certa, sempre no mesmo local e à altura recomendável, condições óptimas para não aceitar comida alheia, regular o seu apetite, deixar de procurar comida e desinteressar-se por petiscos deixados no solo. Tudo isto vai por água abaixo se o bebedouro do animal não se encontrar à mesma altura do comedouro. A ração não é lixo e tende a evitar a procura dos seus caixotes!

O desalento da Marta e a nossa solução

Apesar da Maggy estar a ir muito bem, a evoluir a olhos vistos e a adorar o treino, a Marta sente-se desconsolada porque a cadela não olha para ela e dispersa-se pelo ambiente circundante, o que deixa a dona com cara de parva e falar pràs paredes. Estamos em crer que o problema terá pouca duração, que será alterado com o tempo e o treino, se o método a aplicar for o correcto. O comportamento da Maggy resulta de razões genéticas e ambientais, factores ligados ao seu grupo somático, sexo e à sua experiência directa (anterior e posterior à adopção). Quando ela foi resgatada da rua, tremia por tudo e por nada, rastejando ao invés de andar. Bem cedo se percebeu que tinha pavor aos tiros, o que alvitrava uma experiência traumática atendendo também ao facto de ser mestiça de podengo. Depois de adoptada foi castrada e acabou por sair à rua de peitoral, já que assim não se esganava, nos curtos passeios ao redor do seu lar adoptivo. Em casa sempre se comportou como uma rainha e pouco a pouco foi-se adaptando nas saídas ao exterior (desde que nada estalasse). A castração não contribuiu para a sua valentia e a condução de peitoral pouca segurança lhe ofereceu. O facto de ser descendente de podendo também não ajudou, porque este cão primitivo apresenta algumas dificuldades na parceria e prefere muitas vezes caçar longe da presença dos donos, mesmo que haja caça à sua beira, característica atávica que tem levado muitos à sua mestiçagem, geralmente gente sem tempo e engenho.

A recuperação da Maggy passará por manobras de estímulo inerentes à sua condição de caçadora, pelo contributo de brinquedos que recriarão os simulacros próprios do seu interesse e nunca pelo abuso da mecanicidade das acções, pedagogia aceite entre os cães territoriais e que os de caça abominam. Este Sábado fabricámos um pássaro com um ouriço de plátano e meia dúzia de penas de pato, a cadela adorou-o e não descansou até o depenar completamente. Há que encontrar brinquedos próprios para a Maggy, os mais tangíveis ao seu interesse, diferentes dos rudes nós de corda ou dos grotescos churros, já que qualquer um deles deverá pressupor o seu completo domínio e já existem brinquedos destes no mercado. Um cão próprio para o ofício cinegético não corre sem lebre à frente e estabiliza-se pela captura, advindo daí a sua segurança e felicidade. Tanto nas aulas quanto nos exercícios de recapitulação doméstica, que deverão ser breves para evitar a saturação, apesar de necessitarem de ser amiúde repetidos, a Marta deverá munir-se de um brinquedo da eleição da sua companheira, que servirá de estímulo e prémio, pressupondo a recompensa que a cadela não dispensa, tornando-lhe dessa forma o treino mais apetecível. No treino de Domingo, enquanto estalavam foguetes ao longe, a Maggy ficou possessa e a dona sem saber o que fazer, valeu-lhes o Rui Coito que agarrando na cadela, a acariciou e levou para junto dos outros cães, com a paciência e a presença de espírito necessárias. Passado pouco tempo, a Maggy ignorou os estrondos e retomou os trabalhos dentro da maior normalidade. Marta: onde estiver o problema aí importa encontrar a solução, porque quando as coisas correm mal, não nos vem bem algum se perdermos a cabeça! Dentro em breve a Maggy estará completamente recuperada, graças às manobras de estímulo empreendidas, ao exemplo dos outros cães e à serenidade da dona.

Pontualidade e métodos: o cronograma dos atrasados

Qualquer actividade ou projecto bem concebido necessita de um cronograma, dificilmente qualquer método subsiste sem a pontualidade. A pontualidade portuguesa é conhecida por chegar sempre atrasada e essa pode ser uma das causas para o nosso atraso na Europa. Quando se deu o malfadado Terramoto de 1775 em Lisboa, toda a Europa se mostrou solidária connosco e cada país adiantou o que julgava ser necessário. Os ingleses, ao contrário de outros, fizeram chegar a Lisboa relógios e ferramentas. As ferramentas ficaram e grande número de relógios foi devolvido à procedência. Ainda recentemente, por ocasião da realização do Campeonato Europeu de Futebol em Portugal, um dos inspectores da UEFA, o escocês Ernie Walker, dizia a este respeito: “ Eu venho da Escócia e quando chego a Portugal ainda tenho que esperar pelos responsáveis oficiais portugueses, 40 minutos para além da hora marcada!”. Na Acendura ainda sobrevivem alguns destes portugueses anti-relógio, gente que queremos recuperar para a hora certa. Razão tinham os antigos militares, que mandavam formar em parada duas horas antes da hora marcada.

Condutores: As estratégias de uns e outros

No célebre abismo entre o querer e o fazer, os condutores optam por diferentes estratégias para o levar de vencida, a maioria pouco ou nada faz e apenas alguns empreendem esforço. Os primeiros pouco evoluem e vivem da contemplação, os segundos sempre espreitam a evolução e nunca se dão por satisfeitos, uns ficam-se pelo conceito e os outros atingem a realização. E nisto os cães… são os menos culpados!

Caderno de ensino: XXVIII. Os círculos pavimentares

Os Círculos Pavimentares são pontos de partida e zonas de travamento que se encontram desenhados no solo. Têm diâmetros que variam entre 50 e 60 cm e possibilitam diferentes sentidos e direcções entre si, de acordo com as ordens dadas ao cão. Servem os objectivos da condução nuclear e são invariavelmente executados pela linguagem gestual. O concurso aos Círculos Pavimentares pressupõe o treino para as evoluções silenciosas, típicas das manobras defensivas e ofensivas. Para além disso, nos meios televisivo e cinematográfico, o treino aturado nestes círculos possibilita ainda as evoluções em cena, tanto para o retorno à marcação como para a evolução dos planos, já que o adestrador se encontra por detrás das câmaras e impedido de falar. O uso mais frequentes destes círculos remete-nos para a rápida execução da linguagem gestual, quer nos automatismos de imobilização quer nos direccionais. Os Círculos Pavimentares que usamos, que outra coisa não são do que círculos direccionais, são geralmente feitos de pedra mármore, de várias cores e contrastantes com a do solo.

Dançar nos píncaros

As actividades deste fim-de-semana aconteceram entre os 380 e os 420 metros de altitude, porque importava procurar temperaturas menos elevadas para o desenvolvimento dos trabalhos e preparar os cães para as altitudes que se avizinham. Todas as disciplinas que ministramos mereceram especial incidência e o aproveitamento excedeu as expectativas. O Francisco Marques retornou e apresentou-se com o CPA Nick, agora mais forte e robusto. Finalmente o Buster despertou e a Maggy de Belém vai de vento em popa. A Patrícia necessita de exercitar os braços e de aumentar a sua concentração, a bem da condução e em prol do grupo. O tema do último número do “Caderno de Ensino” foi exemplificado e o Binómio António Cunha/Zorro fez-se presente, recuperando de alguns atrasos prà sua capacitação.

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: António Almeida/Shadow, António da Cunha/Zorro, Carla Abreu/Becky, Carla Ferreira/Dirka, Célia/Igor, Francisco/Iris, Francisco Marques/Nick, Hugo/Lobi, Joana/Flikke, João Moura/Bonnie, Joaquim/Maggie, Luis Leal/Rocky, Maria Luis/Tyson, Marta/Maggy, Patrícia/Boneca, Rodrigo/Tarkan, Tiago Sane, Teresa/Buster e Vitor Hugo/Yoshi. A logística ficou ao cargo do Américo Abreu e do Rui Coito.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Correntes e outros grilhões: passar a vida num navio negreiro

No dia em que os homens conseguirem compreender que a verdadeira liberdade está para além das regras que estipulam e que não observam, talvez venham a devolver a liberdade aos animais e a compreender os cães doutra forma, quando despojados do subjectivismo que alimenta o seu gozo individual, efémero e comezinho, que os tem ridicularizado e causado vítimas, advindo do tribalismo intrínseco que tem obstado à felicidade colectiva. A fraternidade continua a ser um ideal universal e o respeito pelos animais esvoaça sobre o coração de muito poucos. Os cães não esperam nenhum messias ou mahdi, não abrangem milagres e perdem-se pela experiência. Porém, continuam a revoltar-se diariamente de muitas formas, à boca calada e de acordo com o fardo de cada um deles, à revelia dos donos e prà além da sua compreensão, através de gritos sufocados que só alguns conseguem ouvir, abafados por detrás de muros que afastam os olhos e sustentam o politicamente correcto. Se a hipocrisia ainda grassa entre os homens, ela toma proporções gigantescas na relação com os cães, escravos dos seus desígnios e pau para toda a obra. E se para eles não houver vida vindoura, a sua redenção terá que acontecer aqui e agora, enquanto é tempo e antes que muitos deles pereçam. Valer aos cães é educar homens e isso jamais será uma tarefa fácil, porque a espécie dominante neste mundo continua em guerra consigo própria, ainda que os cães sempre tenham vindo a suavizar a sua existência, enquanto companheiros, terapeutas, serviçais, escravos e bodes expiatórios.

Ainda hoje e por mais estranho que nos pareça, a vida de muitos cães é comparável ao padecimento dos africanos no tempo dos navios negreiros, porque também se encontram acorrentados e privados da liberdade, dispensados da higiene e sujeitos a dieta imposta, abandonados a si mesmos e rotulados para determinado fim, por tempo indeterminado ou até que a morte lhes bata à porta. Com alguma dificuldade poderemos entender o recurso à corrente, quando esporadicamente, como subsídio pedagógico ou forma de castigo, consoante queiramos aumentar a territorialidade de um cão ou alcançar a sua submissão, muito embora hajam outros meios mais eficazes e menos violentos que preconizamos – os relativos à instituição binomial.

Trabalhar um cão e prendê-lo depois à corrente, é uma violência que não esconde o comodismo dos donos e que atenta contra os objectivos anteriores à prisão, desrespeitando em simultâneo o descanso, a ascensão social e a recompensa do animal, porque a corrente obriga-o à vigilância constante, afasta-o dos donos e não se constitui em prémio. O hábito de acorrentar cães, profundamente enraizado entre nós e a necessitar de proibição urgente, é anterior ao sedentarismo e remonta a hábitos nómadas que se perdem pelos confins dos tempos, continuados aqui pelos famigerados godos do oeste (visigodos) e pelos berberes que em 711 por cá entraram a convite. O pragmatismo germânico e a cultura semita, tanto da Berbéria quanto da Judeia, influencia até hoje o nosso modo de estar com os cães, porque para uns eram serviçais e para outros sinal de maldição, geralmente associados à destruição, à desgraça e à miséria, visões diferentes das encontradas entre os celtas e os alanos. Ainda hoje se pode ver nas armas do município de Alenquer o “cão dos alanos”, um caçador que era ao mesmo tempo um guardião, sem grilhões e imponente. O peso da cultura e a economia de sobrevivência condenaram o cão à corrente, como se houvesse nascido para ela ou dela resultasse o seu lugar.

Se há que acorrentar cães, e não vemos qualquer razão para tal, então que o façamos de modo menos lesivo para os animais. Antes de adiantarmos o modo, queremos manifestar a nossa preferência pelos canis, que segundo a nossa tradição, a da Acendura Brava, deverão ter uma área superior aos 10 m2, obedecer a regras específicas e não se constituírem em habitação permanente, flagelo ou degredo. Para minorar os malefícios causados pela corrente, tanto psicológicos quanto físicos, importa que ela tenha um comprimento de 3 m, seja de elo miúdo, rematada por um mosquetão e suspensa por uma argola num cabo aéreo de aço, numa extensão nunca inferior aos 5 metros, possibilitando em simultâneo a entrada para o habitáculo, o deitar do animal e a procura da sombra. O cabo aéreo evita os desaprumos e as feridas causadas pela prisão junto ao solo, dá maior liberdade de movimentos, sobrecarrega menos o cão e melhor subsidia o policiamento. Só aceitamos a permanência do cão na corrente excepcionalmente, quando o canil se encontra em construção ou por breves períodos, porque não queremos atentar contra o viver social do animal e reclamamos a sua presença ao nosso lado, mais-valia que se agiganta com o passar dos dias e viabiliza a cumplicidade interespécies, segredo para o nosso caminhar conjunto.

Descansaremos no dia em que a corrente for abolida e vier a ser espólio num museu dedicado ao nosso passado etnográfico, quando já ninguém se lembrar dela e ignorar para que serviu. Até lá, continuaremos a esclarecer e a aconselhar, a pregar contra a evocação do navio negreiro fantasma, diariamente reinventado em cada cão acorrentado.

O regresso da família Xantiaga

O nome indicado para a família tem o seu quê de galego, o que de certa forma se coaduna, já que a Alexandra é uma loira das terras altas, das serrarias da Beira. Ficou Xantiaga por causa do Santiago, um mestiço já falecido, muito dócil e com o qual chegou à Acendura. Trocou-se o “X” pelo “S” por questões fonéticas ligadas à pronúncia da condutora, aproveitou-se o “X” de Alexandra e assim nasceu o seu nome escolar: Xantiaga. A Alexandra não gosta de ser tratada pelo seu primeiro nome, que é exactamente o que foi dado à filha de Maomé. Depois de longa ausência (a última vez que a vimos foi antes de dar à luz a filha), ela retornou aos nossos trabalhos e carregou consigo a família. A menina já tem mais de 1 ano de idade e a Lori já tem dois. A Lori é uma CPA lobeira, gerada por nosso conselho, bonita, robusta e atenta, recessiva em negro e de variedade original. Foi conduzida pelo Hugo e ambos estiveram à altura. Dos alunos presentes, somente a Joana Moura conhecia esta família agora retornada, o que se constitui numa alegria para a jovem. O lugar da Alexandra nunca foi preenchido nas nossas fileiras e é com rara emoção que a recebemos de volta, a si e à sua família. Sejam bem vindos!

Are you ready?

A Marta é a nova coqueluche da Escola, todos lhe dedicam a maior atenção e todos lhe manifestam o seu apoio, cuidados facilitados pela disponibilidade desta nova aluna. Gradualmente e contra o tempo, a Marta vai redescobrindo o viver com a natureza e a alegria de não estar só, de caminhar com outros e de dividir com eles os seus anseios e objectivos, trabalhos aliviados pelo amor que nutre pelos animais. Tem vivido experiências únicas, que segundo ela pecam por ter chegado atrasadas, novidades que têm aumentado a sua auto-confiança e contribuído para o bem-estar do grupo. Ela tem emprestado às classes um colorido único e revelado uma vontade louvável. Apesar do Rui Coito e o Américo Abreu serem os seus padrinhos, todos se interessam pela Marta e tudo fazem para que se sinta feliz entre nós. Com isto tudo, a Maggie está mais activa e alegre, adora o treino e brevemente julgar-se-á uma pastora alemã. O binómio tem o seu quê de carinhoso, tem merecido a protecção do grupo e ambas descobriram uma nova família. A Marta, trazida por bons ventos, tem vindo adquirir os indíces de disponibilidade e prontidão que nos caracterizam, surpreendentemente e em tão curto espaço de tempo. Que Deus a conserve entre nós, porque tudo fazemos para que assim continue. Parabéns Marta, o teu lugar é no nosso meio!

Unidade de propósitos e comunhão de vida

Nenhum grupo de trabalho subsiste sem comunhão de vida e ninguém pode andar com um pé dentro e outro fora se quer chegar acompanhado. Os portugueses são tradicionalmente desunidos e independentes, resistem ao colectivo e enveredam por acções individuais, são mais tribais que universalistas e agem segundo a sua génese. A nação resultou duma desavença entre mãe e filho e todos os que por aqui passaram foram congregados à força. Uma das partes mais omissas da nossa história, particularmente ignorada por causa do nosso sentido europeu, também porque a história é escrita pelos vencedores, é a relativa às duas tribos berberes que ocuparam a Península Ibérica: os macemuda e os zenagas, de quem se calhar também herdámos a nossa cegueira individualista, tradicionalmente desunidos e constantemente em guerra uns com os outros. Largando o campo hipotético, uma coisa é certa: os portugueses são naturalmente desapegados, em cada um há uma sentença e só se congregam por imperativos. Quem andou pelos círculos da emigração sabe, por experiência própria, que é mais fácil obter apoio junto dos galegos do que próximo de alguns portugueses, porque o português tendencialmente abraça o estranho e despreza o seu igual, na ânsia de se camuflar e no esforço para ser aceite, o que acaba por denunciar um injustificado complexo de inferioridade, geralmente mais comum nas classes sociais menos favorecidas.

Contrariando essa propensão nacional e combatendo o actual viver quotidiano, isolado, fratricida e desinteressado, a Acendura apresenta-se como um projecto colectivo, de cariz familiar onde todos são bem vindos. A opção pelas aulas colectivas prende-se com esses propósitos, estabelecendo o discipulado, a paridade entre os binómios e a sua mais-valia enquanto agentes de ensino, tomando como ponto de partida a necessidade gregária humana e o viver social dos cães. Ainda que o desempenho cinotécnico seja o nosso objectivo, temos como meta principal, para além do seu apetrechamento, a recuperação dos donos nos aspectos anímico, cognitivo, físico, psicológico e social, mediante a comunhão de vida proposta ao redor dos cães. Por causa disso, nem tudo o que fazemos tem a ver com a canicultura ou com a cinotecnia, vai para além e procura o bem-estar dos homens que se tornaram condutores caninos. A extensão dos nossos horários e a escolha das nossas actividades, para além de aumentarem o quadro experimental dos cães e operarem assim o desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento, oferecem ainda momentos raros de comunhão de vida para os seus líderes, através de jogos que propiciam o aparecimento do espírito de corpo e de acções que reforçam a dinâmica do grupo, o que favorece a unidade e o estabelecimento de vínculos afectivos entre os alunos, num espírito idêntico ao encontrado nos camaradas de armas ou nos companheiros de trincheira. Não queremos ninguém só, todos temos um caminhar comum, para além das diferenças e na defesa da fraternidade – os nossos cães só ganharão com isso!

Caderno de ensino XXVII. O lateralizar

O lateralizar é uma figura de obediência sem comando específico, que tanto pode ser solicitada através do comando de “junto” como pelo batimento da mão esquerda do condutor, quer o binómio se desloque para o lado da reunião quer lateralize para o lado esquerdo. A execução perfeita da figura obriga ao lateralizar do cão sem o concurso de qualquer adiantamento ou atraso. A deslocação para o lado do condutor é mais fácil do que a para o lado do cão, devendo começar-se o seu ensino por aí. Para garantir a perfeita lateralização do animal, que nunca deverá adulterar o “junto”, podemos valer-nos de uma vara indicadora ou do concurso da nossa mão esquerda. Só se deve ensinar um cão a lateralizar depois dele ter absorvido os comandos de “à frente” e “atrás”, que funcionarão como subsídios para a obtenção da figura. O lateralizar, uma vez assimilado como automatismo gestual, pode garantir a recolocação silenciosa do cão em cena e respeitar a marcação tanto nos decors quanto no plateau. Exceptuando as necessidades ligadas ao mundo do espectáculo (cinema e televisão), a figura é utilizada nas exibições de obediência ou como meio para reforçar o “junto”. O movimento torna-se mais fácil entre os cães menos angulados e de dorso paralelo à linha do solo.

Actividades de campo

As actividades deste fim-de-semana foram de campo, de índole operacional e sociológica, relativas à prestação dos cães e ao melhor desempenho dos donos, havendo ainda lugar para acções típicas de defesa. Os trabalhos desenvolveram-se entre a Capital e Tocadelos, a concorrência às aulas foi grande e o empenho não se ficou por menos. Foram notadas as ausências da Alexandra Ferreira, Ana Pinto, António da Cunha e Clara, entre outros condutores.

Participaram nos trabalho os seguintes binómios: António Almeida/Shadow, Bruno/Iris II, Carla Abreu/Becky, Carla Ferreira/Dirka, Célia/Igor, Francisco/Iris, Joana/Flikke, João Moura/Bonnie, Liliana/Bolt, Luis Leal/Rocky, Maria Luis/Tyson, Marta/Maggie, Miriam/Índigo, Patrícia/Boneca, Roberto/Turco, Rodrigo/Tarkan, Rui Ribeiro/Babel, Tiago/Sane e Vitor Hugo/Yoshi. O Américo Abreu e o Rui Coito colaboraram no desenvolvimento dos trabalhos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os cães de caça no adestramento convencional

A elaboração deste pequeno artigo prende-se com a presença de cães de caça nas nossas fileiras, situação que se vem repetindo ao longo dos anos e que merece cuidados especiais da nossa parte, porque adoptámos as aulas colectivas e não desprezamos os benefícios oferecidos pela “troca de condutores”, enquanto manobra de sociabilização e subsídio pedagógico de valor inestimável. Os cães de caça são animais únicos, extremamente sensíveis e duma docilidade extrema, ainda que alguns sejam um pouco distantes e arredados da parceria. Para além disso, eles não aguentam a disciplina rígida e desencantam-se com a mecanicidade das acções, porque colidem com a sua carga instintiva, obstando assim ao prazer inerente à sua aprendizagem. O cão de caça necessita de ser cativado, conduzido pelo coração e com muito açúcar, porque facilmente se isola e envereda pela desconfiança. O ideal para um cão do grupo de caça é ser treinado num centro próprio para as suas características, onde o treino será seguramente mais do seu agrado e de acordo com as suas potencialidades. Mas como o mundo persiste em andar às avessas, a maioria dos cães urbanos é injustificadamente de caça, para incómodo dos donos e martírio dos cães, porque aos primeiros falta tempo e aos segundos a liberdade. A coabitação forçada irá obrigar-nos à sua adaptação, a uma capacitação para além das suas tendências particulares, que deverá acontecer de modo suave, tolerante e sem cronograma predefinido, tal qual um namoro votado à maior das cautelas – o cão de caça necessita de ser conquistado. Doravante, quando lhe couber conduzir um cão deste grupo, seja generoso e delicado, respeite a sensibilidade e a desprotecção do indivíduo que o acompanha, porque ele foi feito para ir adiante e ninguém quer que ele se perca. Conduzir cães de caça é a melhor das terapias para aqueles que pressupõem ser muito carinhosos, porque o adestramento é uma permuta e os cães agem por reflexo. Se todos os condutores iniciassem o adestramento com um cão de caça, certamente seriam melhores líderes e alcançariam resultados superiores.

A ideia, o momento e a foto

Fotografar animais nunca foi fácil e encontrar um especialista nesta arte ainda é mais difícil, porque exige experiência e conhecimento, um envolvimento tangível àquilo que se pretende retratar. Um bom profissional sabe encobrir defeitos, enaltecer virtudes e captar os momentos a perpetuar, geralmente únicos e absorvidos pelo seu instinto, porque um fotógrafo é essencialmente um caçador de imagens. A divisão entre fotógrafos amadores e profissionais não é arbitrária, porque qualquer um bate fotos e apenas alguns sabem o que retratar. Ser um bom fotógrafo de retratos ou paisagens não implica em ser um bom fotógrafo de animais, porque o objecto é outro, obriga à novidade de planos e a outro tipo de enquadramentos. Um bom fotógrafo de cavalos ou cães é geralmente alguém assaz ligado à equitação e à cinotecnia, um indivíduo que sabe o que procura e encontra aquilo que é importante nessas artes. Os fotógrafos das actividades da Acendura, gente imprescindível para a divulgação dos nossos ideais, são maioritariamente elementos neutros e não condutores cinotécnicos, pessoas que acompanham os seus pares no decorrer do adestramento. As fotos por eles produzidas, na sua maioria, reflectem os condicionalismos da sua investidura pedagógica e raramente os momentos inolvidáveis que o treino oferece, segundo as suas expectativas e aquém da mais-valia dos simulacros operados ou da excelência dos exercícios realizados. Em média, aproveitam-se 18 fotografias das 200 que semanalmente nos são enviadas. No intuito de alcançar melhor qualidade e enaltecer o nosso trabalho, adiantamos de seguida algumas sugestões, conselhos que não dispensam o aproveitamento e a capacitação individual de cada um na arte de fotografar, o que é expectável e desejável, porque somos um projecto colectivo que sobrevive pelo concurso do rendimento individual – todos são importantes e todos têm uma missão.

Em abono da verdade, diga-se, quem deveria ser o fotógrafo das actividades seria o adestrador ou aquele que administra as classes, sobrecarga quase impossível atendendo ao bom andamento dos trabalhos. Não sendo isso exequível, coisa há muito verificada, o fotógrafo indigitado deverá inquirir junto do adestrador o que fotografar, trabalhando debaixo do seu parecer e de acordo com o desenvolvimento das classes, contribuindo desse modo para o melhor registo dos trabalhos e para a exaltação do grupo em instrução. A sublimidade de uma foto encontra-se condicionada à ideia e ao momento, a ideia é-lhe prévia e o momento aguardado. Convém não esquecer que estamos a tratar de fotografias de propaganda, sabendo-se de antemão que uma foto pode valer mais do que mil palavras, porque poderá despertar num só momento uma ou mais emoções nos seus destinatários. Cada foto deverá pressupor um convite, precipitar um desafio, buscar apoio ou desaprovo – ninguém lhe deverá ficar indiferente.

As metas e os objectivos de cada aula obedecem ao seu plano e dele irá resultar o tema da semana (a publicar no blog e no site), que indicará também qual o motivo das fotos (ideia), já que elas irão ilustrar e explicar o trabalho que foi desenvolvido. A obtenção de fotos alheias a estes propósitos, como claramente se antevê, irá obrigar a adaptações e por vezes até à alteração dos temas propostos ou desenvolvidos, o que não é fácil e obriga a algum transtorno. Os fotógrafos das nossas actividades, ainda que não tomem conhecimento imediato disso, são repórteres fotográficos, gente que imortalizará cada momento dos nossos procedimentos, dificuldades e vitórias. A ideia para as fotos será desnudada pelo tema do Plano de Aula e ser-lhe-á circunscrita (enquanto uns trabalham os cães, os outros registam para a posteridade o seu esforço). Quando não existe unidade entre o trabalho e a reportagem fotográfica, falta-se à verdade, desconsidera-se o trabalho e dificulta-se o esclarecimento. Para que isso não aconteça, é necessário que o fotógrafo aja em sintonia com o adestrador em exercício, porque ele, melhor do que ninguém, saberá o que publicitar ou divulgar, de acordo com a salvaguarda do grupo e a excelência do seu trabalho.

O momento para as fotos deverá ser procurado quando as metas ou objectivos forem alcançados, podendo também ser encontrado nas distintas etapas que os antecedem. O recurso à fotografia e ao vídeo são subsídios didácticos que nenhuma escola pode dispensar, porque denunciam erros, adiantam soluções e explicam os caminhos para os automatismos (como fazer). Tanto os planos como as perspectivas das fotografias deverão pressupor o fácil entendimento daqueles que não se fizeram presentes e que aguardam em casa a compreensão dos trabalhos, porque a foto é também notícia. Aconselhamos aos nossos fotógrafos um melhor aprofundamento nessa arte e na cinotecnia, para que os seus trabalhos evidenciem o que temos para oferecer, em prol dos binómios, a bem dos condutores e para alegria dos cães. A imagem é o modo mais rápido para transitarmos do nosso pequeno círculo para o mundo de todos nós.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Das ameias do seu castelo para a terra de ninguém

Todos os cães são territoriais, uns mais do que outros, o que lhes possibilita o ofício guardião, o policiamento da casa e a guarda dos pertences dos donos. A não atribuição de um território específico aumenta a sua vulnerabilidade e lança-os na mais profunda confusão, fenómenos também alcançáveis pela troca sucessiva de territórios. Quando um cão se encontra bem instalado no seu grupo e divide com ele o seu território, mais depressa e de modo mais aguerrido o defenderá. A excursão do cão pressupõe o seu regresso a casa, local do seu agrado onde retempera as forças, coabita com o seu grupo, sente-se protegido e donde expulsa os intrusos. O cão robustece-se em casa para sair com o dono e dificilmente esquece o seu local de pernoita, porque dele também resulta, em grande parte, a confiança para enfrentar a novidade e os desafios que lhe irão ser propostos. Os bons cães de guarda sempre emanam da simbiose fornecida pelo correcto escalonamento social e pela coabitação territorial, porque o cão resiste a ficar só e depende do grupo para se sentir confiante. Um cão isolado, perdido numa vasta extensão e entregue a si próprio, é um soldado apátrida e perdido, rodeado por pretensos inimigos que sempre o assolam e confundem. O cão que nunca sai, jamais se sentirá confiante na rua, porque a novidade sufocá-lo-á e será dominado pela desconfiança, mercê da experiência havida e do seu despreparo. O viver social canino que sustenta a sua territorialidade, não pode e não deve ser ignorado, caso contrário, o cão nem a sim mesmo valerá.

Banho de noite para melhores dias

Com o duplo objectivo de reforçar os vínculos binomiais e aumentar a sua autonomia, na sequência do trabalho desenvolvido nos últimos seis meses, a Acendura empreendeu uma caminhada nocturna na noite do dia 27 e madrugada do dia 28. O percurso teve uma extensão de 33.5 km e a velocidade horária foi respeitada – 5 km/h. O local de partida aconteceu em Cheleiros e o de chegada no Jardim do Campo Grande em Lisboa. O itinerário excursionista abraçou as seguintes localidades: Cheleiros – Rebanque – Anços – Pedra Furada – Negrais – Igª Stª Eulália – Bocal – Pt. Lousa – Guerreiros – Pinheiro de Loures – Barro – Loures – Flamenga – Pvª Stº Adrião – Olival Basto – Calçada de Carriche – Alª das Linhas de Torres e Campo Grande (Lisboa). A coluna partiu de Cheleiros às 23H18 e chegou ao Campo Grande às 05H24. Foram respeitados os dois check-points anunciados, que aconteceram respectivamente na Ig. Stª Eulália e no jardim de Loures, onde refrescámos os cães, mais por prevenção do que por necessidade. Participaram na caminhada os seguintes binómios: Alexandra/Abu, António Almeida/Shadow, Carla Abreu/Becky, Célia/Igor, Isabel Leal/Teka I, Joaquim/Maggie, Joana/Flikke, Luís Leal/Rocky, Marta/Maggie II, Patrícia/Boneca, Rodrigo/Tarkan, Rui Ribeiro/Babel, Tiago/Sane, Teresa/Buster e Vitor Hugo/Yoshi. O batedor foi o Rui Coito e os cerra-filas foram o Américo Abreu, o Manuel Veiga Santos e o Paulo Almeida. O condutor da viatura de comando foi a Cristina Alberto. A Carla Ferreira, a Marta Patrício e o Pedro Figueiredo foram os condutores das viaturas de apoio (as que se deslocaram na cauda coluna). Não se registou qualquer percalço, os cães chegaram bem e a enfermeira de serviço não trabalhou de acordo com a sua vocação. Somente 3 condutores não completaram o percurso: a Alexandra Ferreira, o Rodrigo Coito e a Teresa Figueiredo, que acabaram transportados, até ao final, nas viaturas de apoio. As desistências das senhoras aconteceram entre o km 25 e 27, por inadequação de calçado (ao que consta). O Rodrigo Coito aguentou-se até Negrais, batendo o espectro dos 7 km e alcançando 14, o que para um menino de 9 anos de idade é algo surpreendente. Feitas as contas, 80% da coluna venceu o percurso. Nos Negrais fomos testemunhas de um episódio macabro e infelizmente muito comum, uma condutora distraída atropelou um cachorro podendo e preparava-se para se pôr em fuga. Foi interpelada pelos elementos de apoio e identificada pelo Américo Abreu. O cachorro foi conduzido ao veterinário pela Carla Ferreira e felizmente apenas apresentou uma luxação nos ossos da bacia. Neste momento encontra-se aos cuidados desta nossa aluna e as despesas com o seu socorro foram suportadas por todos e em partes iguais. A Marta, a condutora da SRD Maggie, ainda percorreu 16 km, iniciando-se desse modo nos nossos trabalhos, por vontade própria e por resistência aos conselhos que lhe foram dados. Os binómios viram nascer o dia debaixo de pinheiros mansos e tiveram como almofada as mochilas que carregaram até ali. Os trabalhos continuaram até às 13 horas daquele dia e encerraram a partir daí, sendo retomados às 09H00 do dia seguinte (29 de Agosto). Queremos felicitar os alunos e acompanhantes que se fizeram presentes nesta jornada estival, contribuindo dessa forma para a unidade e fortalecimento do grupo. Queremos deixar também aqui uma palavra de apreço para o Rui Coito, porque cumpriu cabalmente a sua função e serviu de alento para todos.

Análise técnico-funcional: Os lobeiros de ontem e de hoje

No avanço da genética fala-se hoje em activar ou desactivar genes, do retorno ao atavismo ou da sua supressão, servindo os animais como laboratório experimental. O desenvolvimento da ciência genética tem produzido alterações na canicultura e produzido indivíduos iguais mesmo dentro de variedades cromáticas diferentes. O caso mais flagrante é o verificado entre os CPA’S Lobeiros, já que os actuais apresentam uma evolução pigmentária diversa dos originais. Os lobeiros ancestrais nasciam cinzentos com um risco longitudinal mais escuro ao longo do dorso e os actuais evoluem pigmentariamente tal qual os preto-afogueados. Esta alteração cromática tornou os lobeiros actuais mais precoces, possibilitando o alcance das suas maturidades mais cedo, nivelando-os com a variedade dominante ou antecedendo-a. O carácter imediatista actual talvez tenha contribuído em parte para isso e o lobeiro actual obriga a outros procedimentos e cuidados, porque se estabiliza mais cedo e pode vir a ser desaproveitado, se a mudança for desrespeitada e não se agir em conformidade. A diferença entre uns e outros bem que poderia subsidiar a hipotética divisão entre linha antiga e moderna, entre linha de beleza e trabalho, porque a diferença existe e está ao alcance dos olhos de cada um.

O Lobeiro original, e são muito poucos os que ainda sobrevivem, é um cão serôdio, de grande impulso ao conhecimento e alta capacidade de aprendizagem, um indivíduo dotado de excelente máquina sensorial e com os ciclos infantis bastante demarcados, o que lhe confere um carácter esquivo quando comparado com exemplares doutra variedade cromática. Geralmente equilibra-se depois dos 18 meses de idade e alcança excelentes prestações na pistagem, no resgate e salvamento, sendo próprio para acções de desencarceramento ou manobras de evasão. Por causa de ser serôdio, no tempo em que os cães de patrulha eram essencialmente CPA’S, os lobeiros eram entregues às praças, para que a pouca erudição dos seus tratadores não entravasse o seu avanço cognitivo e fosse por eles compensada. A experiência militar e policial portuguesa é relativamente recente (1957/1958) e obra do então General Kaulza de Arriaga, que herdou dos alsacianos os pressupostos selectivos e os procedimentos operacionais, posteriores e em parte alheios à prestação militar dos cães alemães, presente na I e II Guerras Mundiais e isso deve ser considerado, na diferença que existe entre franceses e alemães, segundo as diferentes expectativas de cada um desses povos. A queda do lobeiro original e a sua substituição pela variedade actual originou um conjunto de menos valias para raça, hoje colmatadas por indivíduos de outras e de distintos grupos somáticos.

O Lobeiro actual estabiliza-se mais cedo e obriga a cuidados especiais, porque nasce praticamente feito e isso pode ser-lhe fatal, face à operacionalidade esperada e à sua capacitação, tornando assim mais difícil a recuperação dos indivíduos menos aptos ou carenciados de adaptação. Os seus ciclos infantis são mais curtos e obrigam a um acompanhamento mais cuidado, porque o tempo concorre contra nós e tudo acontece mais depressa. Apesar de tudo continuam lobeiros, para o melhor e para o pior, podendo verificar-se a sua impropriedade por incúria ou desuso. O lobeiro actual abraça mais cedo a constituição binomial e as atribuições policiais, mas pode tornar-se impróprio pelo particular genético e descuido ambiental, porque a sua plasticidade é menor e ainda conserva algumas das suas características atávicas, facto comprovado nas ninhadas heterozigóticas com indivíduos originais, porque nelas subsistem cachorros de ambas as variedades. O lobeiro actual não deve ser jogado num quintal e votado ao abandono, porque bem depressa adquire uma postura silvestre e desinteressa-se de qualquer investidura, porque a sua curva de crescimento, ao ser mais célere, é menor, contratempo que obsta à novidade dos desafios e ao desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento. A aquisição de um lobeiro destes obriga à atribuição precoce das tarefas e a uma parceria incisiva. A recente alteração do lobeiro aproximou-o do negro e pô-lo em consonância com o preto-afogueado, diminuindo dessa forma a distância que o separava as restantes variedades cromáticas.