sexta-feira, 16 de julho de 2010

Reis e servos da canzoada

Quem vive no mundo da canicultura, mais cedo ou mais tarde, depois de fazer a sua própria introspecção e de se conhecer a si mesmo, acabará também por querer decifrar as razões alheias que levam à procura dos cães. Esta tarefa é obrigatória para os adestradores ou para aqueles que pretendem educar os seus fiéis amigos de quatro patas, porque esclarece as motivações individuais, revela sentimentos não aflorados e permite-nos um acompanhamento mais objectivo sobre aqueles que nos procuram, muitas vezes desnorteados, cheios de expectativas vagas, dominados pela confusão e submissos àquilo que são. Sinteticamente, os proprietários caninos dividem-se em dois grupos: os que se servem dos cães e aqueles que os servem. Ensinar liderança aos primeiros é fácil, difícil é incutir-lhes um sentimento de reciprocidade. Fomentar uma relação de paridade aos segundos é gratuito e transformá-los em líderes é quase uma façanha do outro mundo. Se outra coisa o adestramento não oferecer aos indivíduos presentes nas suas fileiras, salva-o o equilíbrio que lhes exige no doseamento e aplicação da emoção e da razão, prática nem sempre visível no seu quotidiano, falta que opera descontentamento, alguns entraves sociais e um desejo crescente de evasão. Se não houver mudança de comportamento nos condutores, o préstimo escolar será inválido e os cães nada ganharão com isso, ainda que os donos saiam satisfeitos e vejam cumpridos os seus objectivos, fazendo assim jus ao que uma vez disse Manuel de Brito Camacho (1862-1934, alentejano de Aljustrel, Coronel-cirurgião do Exército, político da 1ª República, Ministro do Fomento, Alto Comissário da República em Moçambique, fundador do jornal “A Luta” e membro do Partido Unionista): “ As moscas mudam, mas a merda é a mesma”!

Quando se fala em “especicismo” toda a gente o condena, mas quando é explicado a multidão sai silenciosa. Para que não restem dúvidas, convém explicar o que é essa doutrina e quais as manifestações que toma na canicultura actual, ainda que disfarçadas por falsos sentimentos de piedade, infundadas preocupações com o bem-estar dos animais e inflamados discursos hipócritas, politicamente correctos e alvo da aceitação geral. O “especicismo” é uma doutrina que tende a preservar a unidade de uma espécie e que assenta na sua suposta superioridade sobre as demais, legitimando dessa forma o seu domínio sobre elas. A relação original do homem com o cão obedeceu à procura de contra-partidas e assim chegou até aos nossos dias, livrando-o da extinção e dando-lhe uma sorte diferente da encontrada junto do seu parente silvestre. Contrariamente ao nosso desejo, a situação pouco se alterou, já que o adestramento canino visa o domínio do homem sobre o cão ou pressupõe o seu uso, sendo por si mesmo uma manifestação pura, histórica e inequívoca de especicismo. Alterou-se o modo e não a filosofia, porque o homem não muda por decreto, somente teme o castigo. Será lícito treinar um cão para qualquer fim? O que legitimará o nosso domínio? Poderá ser o adestramento uma manifestação de especicismo positivo?

Melhor seria não atribuir qualquer serviço aos cães, cessar o seu aproveitamento, devolver-lhes a liberdade de movimentos e apostar vivamente no seu bem-estar. Porém, é utópico pensar assim nos tempos que correm, porque o pouco atavismo que apresentam dificultaria a transição da dependência para a autonomia, levando à morte de muitos e induzindo toda a espécie à extinção (veja-se o caso dos Dingos). O lobo doméstico é uma criação humana, um animal produzido para além da evolução natural das espécies, um companheiro depurado ao longo de milénios para estar ao nosso lado. Quando pensamos em devolver a liberdade aos cães, lembramo-nos do acontecido com o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico no Picão (Mafra), onde, perante a impossibilidade de os devolver ao seu habitat natural, os lobos residentes acabaram, involuntariamente, sujeitos à vasectomia. E porque fizemos questão de carregar o cão às costas, só nos resta adequá-lo ao nosso quotidiano, educá-lo para viver entre as pessoas, mesmo que procuremos somente a sua companhia. A irracionalidade canina obriga-nos ao seu treino e legitima essa acção por força da nossa responsabilidade. Os fins a atribuir aos cães é que devem ser repensados (e têm sido), dando-se a prioridade à sua salvaguarda face à retribuição que deles esperamos. Já que o adestramento é um mal necessário ou uma necessidade perante uma opção muito antiga (certa ou errada, não vem ao caso), convém que ele seja desenvolvido a partir do “reforço positivo”, suavizando desse modo as respostas artificiais esperadas. A preocupação com a sobrevivência canina, com o seu equilíbrio biológico e com a prática do seu bem-estar, podem transformar o especicismo que induz ao treino numa acção positiva, colmatar vícios antigos e proceder à mudança, reviravolta que deverá acontecer de antemão na cabeça dos seus proprietários.

São muitas as manifestações de especicismo presentes na canicultura actual, velhos vícios sobre novas gentes que proliferam encapotados debaixo de uma suposta preocupação com os cães. Será difícil enumerá-las todas, mas elas englobam práticas que vão desde a selecção, passam pela instalação doméstica e vão até ao uso corrente destes animais. Manifestaremos algumas das mais gritantes e outras menos visíveis a título de exemplo. No mundo dos galgos o doping continua a marcar presença e a causar vítimas, porque importa ganhar libras de ouro e justificar o investimento feito, mesmo que os animais só corram a sua derradeira carreira. Alguns cães de guarda e outros tantos de beleza vivem a maior parte dos seus dias enjaulados em pequenas boxes, privados da liberdade de movimentos e sujeitos aos desígnios dos seus donos, a uns porque importa aumentar a territorialidade e a outros para que não se “estraguem” morfologicamente. Para comodidade dos donos, a castração das cadelas continua a aumentar, a prática do abandono não cessa e os cães continuam a ser abatidos como bode expiatório das acções dos seus proprietários e instigadores. A selecção de muitas raças tem ignorado a saúde, o bem-estar e a longevidade desses indivíduos, agravando e condenando dessa forma toda a sua prole. O especicismo presente nos homens acaba por reflectir a sua pequenez e vaidade, pode resultar da necessidade, mas não é capaz de esconder o abuso. Cada um deve, independentemente do lugar ou importância que ocupa dentro da canicultura, trabalhar para o bem-estar dos cães, dos seus e dos outros, pelo exemplo, conselho e esclarecimento.

A cada passo e sem qualquer contribuição objectiva da nossa parte, continuam a chegar às escolas caninas pessoas diametralmente opostos, com posturas cativas à sua individualidade e não ao peso das suas gerações, muito embora advindas das cargas culturais e sociais de cada um, segundo o peso da tradição e filosofia de vida, reforçadas ainda pelo seu particular genético. Sem pré-aviso, cedo se levantam, entre os condutores de uma classe, os especicistas puros e os antropomorfistas, gente a necessitar de equilíbrio prà saudável constituição binomial, considerando que não marcham sozinhos e que trazem alguém pela trela. A cegueira nos primeiros torna-os violentos e gera violência, são muito competitivos e evoluem rapidamente a expensas dos animais que conduzem, criando ao seu redor um ambiente de tensão que ultrapassa em muito o stress a que votam os seus cães, porque causam mal-estar e são frequentemente rastilho para os mais variados atritos e quezílias. Estes líderes incontestáveis, visando o aproveitamento das suas mais valias e os direitos que assistem aos seus cães, que tratam como escravos, necessitam de temperar o seu impulso ao poder com o reconhecimento dos seus erros, para que transitem do despotismo para a parceria, da tirania para a cumplicidade e venham a ser úteis aos demais agentes de ensino. Independentemente da nossa vontade e mais cedo do que o esperado, até porque ninguém gosta de ser incomodado, teremos que confontá-los e proceder à sua mudança de atitude, antes que percam irremediavelmente os cães que conduzem e gerem problemas de outro tipo. O modo da confrontação dependerá de indivíduo para indivíduo, da gravidade dos seus actos e do seu grau de humildade, nunca desconsiderando a sua recuperação e os benefícios dela resultantes, para o binómio, para o cão e para todos. Se o adestramento é prós binómios, então a sua pedagogia ultrapassa o mero acto de ensinar cães.

Os antropomorfistas, gente que atribui qualidades humanas aos seus cães e desconsidera o particular desta espécie, aparecem em maior número que os especicistas e são os que mais encravam o processo pedagógico adiantado pelo adestramento. Tratam geralmente os seus cães como reizinhos, sujeitam-se aos seus humores, inventam-lhes estados de espírito e acabam por fundamentar toda a casta de manhas que um cão pode abraçar. Na ânsia de lhes satisfazerem as vontades, confundem os seus disparates com virtudes e não raramente acabam conduzidos pelos cães, rumo a parte incerta e de acordo com o parecer dos animais, sujeitando-se de sobremaneira e encontrando nisso felicidade. Se aos maioritariamente especicistas somos obrigados a meter travão, aos antropomorfistas temos que injectar-lhes doses massivas de ânimo, o que é igualmente difícil porque não nascerem líderes e pouca ou nenhuma propensão têm para tal. É curioso reparar que os cães dos especicistas são servos que apenas aguardam a trombeta para iniciarem as hostilidades e os cães dos antropomorfistas, uma vez coroados, cedo se habituam a morder no seu séquito, isto se tiverem perfil para isso. Sempre será mais fácil travar do que animar, adequar do que suscitar, mas é para isso que cá estamos! A recuperação dum condutor especicista jamais atentará contra a sua liderança, mas a transição de servo para líder pode ser desastrada, graças à impotência que causa o desconserto e gera a o disparate, na triste evidência de que os extremos se tocam. A recuperação dos antropomorfistas, reclamada pelos vizinhos e pela sociedade face aos disparates perpetrados pelos seus cães, é um processo moroso que não dispensa o acompanhamento activo e que irá acontecer com o desenrolar do treino pelos exercícios propostos que induzem a uma nova experiência directa. Há que dar tempo ao tempo!

De malas aviadas e soluções preparadas

Sair com a escola para o exterior é uma tarefa que não pode ser encarada de ânimo leve, tendo em conta as disposições legais em vigor, a segurança dos binómios, a salvaguarda das populações e o propósito da excursão. Cabe ao adestrador fazer o reconhecimento prévio do ecossistema escolhido, aquilatar das dificuldades e perigos que ele pode oferecer e maximizá-los de acordo com a novidade. É de todo desejável que esse reconhecimento seja feito com alguns binómios, escolhidos segundo as características da classe a transportar e convidados para o trabalho a realizar. Esse ensaio indicar-nos-á o teor e natureza das dificuldades, adiantar-nos-á soluções, diminuirá os riscos e libertar-nos-á do improviso. O clima, a fauna e a flora não devem ser desconsiderados, atendendo às diferentes sensibilidades dos indivíduos e às distintas agressões ambientais. A logística da excursão deverá garantir a autonomia do grupo e dos trabalhos, o contacto com o mundo exterior e o auxílio pronto aos possíveis sinistrados (em 200 excursões só tivemos 1, vítima de uma escorregadela). A procura da inexistência de riscos deverá ser prioritária, para que a permanência no paraíso não implique em cair no mais profundo dos abismos. Excluindo os aspectos relativos à viagem de ida e volta, ao contacto com os pais dos menores e à evacuação de enfermos, que devem ser sempre observados, cativamos as nossas excursões à sigla RELAT (Reconhecimento, Ensaio, Logística, Autonomia e Trabalho). Procedemos assim para não sermos apanhados desprevenidos e temos tido sucesso, incentivando em simultâneo cada binómio a fazê-lo.

Portageiros e risco de acidente

“ O meu cão se pudesse, comia os portageiros, pois tem-lhes um ódio de morte!” Esta é uma situação que se repete ao longo dos anos e que necessita de ser eliminada, porque é potencialmente perigosa para os automobilistas, já que para os portageiros não o é, porque os cães não os alcançam. Já ouvimos a frase como expressão de dois sentimentos distintos: um de descontentamento e outro de alegria, consoante o desaprovo ou aprovação dos proprietários caninos. A acção é automática e não carece de treino, porque os cães são territoriais e não vêem com bons olhos a intrusão. O excessivo confinamento providenciado pelos automóveis reforça os vínculos binomiais e induz ao despoletar das acções. Por causa disto se torna tão fácil a “guarda do automóvel”, que pode começar com o alerta do dono dentro da viatura. Os condutores menos esclarecidos agradam-se do facto e ainda instigam os animais a fazê-lo nos momentos que antecedem a abordagem, porque entendem que estão a trabalhar a seu favor e para a capacitação dos seus guardiães. Contudo, esse procedimento está errado, porque os cães actuam de modo próprio e para além da ordem expressa, o que não é conveniente e muito menos aceitável. Mais tarde, o descontrole da situação levará o cão a ladrar aos automobilistas parados ao nosso lado ou àqueles que imediatamente nos seguem, produzindo a algazarra que obsta a uma condução segura. Como o condutor circula a olhar para a estrada e não para o cão, pode ser surpreendido pelas acções do animal e incorrer no risco de acidente, o que não é bom para ele e pode ser fatal para aqueles que com ele se cruzam. A inibição deve aqui mostrar os seus bons ofícios, porque a salvaguarda de todos é obrigação de cada um.

Vamos ver se dá?

Assim como existem miúdos que desprezam os conselhos que lhe são dados, também subsistem condutores cinotécnicos acriançados, gente que atenta contra os procedimentos e que tendencialmente se mete por atalhos, quiçá por impulso incontrolável, por manifesta incapacidade ou obedecendo a sentimentos menos nobres – os chamados “chico-espertos”, chusma que atenta contra os mais elementares princípios pedagógicos e que normalmente opta pelo “desenrascanço”, segundo a sua experiência de vida e para além das leis do adestramento. Não trabalhando para chegar mais longe, atropelam as metas e buscam os objectivos, condenando os seus cães à incerteza e ao sub-rendimento, evoluindo na cinotecnia como se jogassem no “euromilhões”. Como o adestramento não subsiste sem o concurso do condicionamento, tudo nele é faseado, gradual e interligado, porque qualquer adaptação é fruto do trabalho anterior e pode obrigar ao retorno à 1ª fase. Tomemos com exemplo a passagem da condução à trela para a condução em liberdade. Primeiro alcançamos o “junto”, transitamos da persuasão para a hegemonia dos comandos verbais, depois pomos a trela aos ombros e sem tudo correr conforme o esperado, é chegada a altura de convidar o cão a seguir-nos em liberdade. Se o soltarmos sem qualquer garantia, bem depressa aprenderá a escapar-se, a jogar connosco ao “jogo do gato e do rato”, o que instalará vícios, atrasará o seu ensino e obrigará à tomada de medidas mais severas. Não andamos na escola pra ver se dá, frequentamo-la para que dê frutos. Fica o conselho, quem o aceitará?

Novo binómio

Deu entrada nas nossas fileiras um novo binómio, o constituído pelo Fábio Marques e pelo CPA Nick, um cachorro preto-afogueado de 5 meses de idade. Desejamos para ambos assiduidade escolar, dedicação e procura de progresso. Neste momento o Nick está a recuperar das suas articulações, coisa que breve levará de vencida e cedo ultrapassará. O cachorro é muito bonito, tem excelentes mecanismos de alerta e adora o benjamim lá de casa: o Francisco, seu companheiro de brincadeiras. Após 3 lições já mostra maior destreza e interesse, integrando-se na matilha escolar sem problemas. Com a chegada deste binómio cresce o número de saloios nas nossas fileiras. Sejam bem vindos.

Caderno de Ensino: XIX. O "rastejar"

O “rastejar” é um modo indicador da marcha avante, constituído em comando específico que serve um duplo propósito: a diminuição da silhueta do cão e a sua abordagem mais segura. É um automatismo típico dos cães de guarda e um dos exercícios mais duros para os seus praticantes. O condicionamento pode ser alcançado à trela, pelo recurso a obstáculos indutores ou tirado a partir de acções lúdicas. Só deve ser ensinado aos cães adultos, devidamente musculados e com uma invejável saúde articular. O condicionamento à trela exige como pré-requisito a posição de “deita”, porque o “rastejar” resulta igualmente do abatimento da espádua, da combinação da 3ª posição de imobilização com o “comando de “abaixo”, segundo os 3 movimentos contrários aos ponteiros do relógio. Na ausência desses procedimentos, muitos alcançam o “rastejar” pelo pisar e aliviar da trela a cada passada do animal. É caricato ensinar a rastejar os cães rectos de traseira, porque evoluem na figura como gatos escondidos com o rabo de fora. O exercício do rastejar carece do contributo prévio da marcha e não a dispensa após o seu término, porque importa relaxar os músculos dos cães e normalizar a frequência dos seus ritmos vitais.

Caderno de Ensino: XX. O "nadar"

Ao contrário do que se pensa, nem todos os cães sabem nadar, pelo menos correctamente, correndo sério risco de morrerem afogados. O nadar parcial ou impróprio, caracterizado pelo chapinhar das mãos acima da linha da água, é um movimento que provoca a exaustão e que impede a progressão pra diante, obrigando os animais a uma evolução mais ou menos circular. Existem raças naturalmente anfíbias, que se sentem como peixe dentro de água, o que não quer dizer que todos os indivíduos a elas pertencentes, só por causa disso, sejam excelentes nadadores, mesmo que apresentem membranas interdigitais bastante proeminentes. Diferentes grupos somáticos têm diferentes prestações natatórias e todos necessitam de aprender a nadar correctamente, com a totalidade dos membros a laborar debaixo de água. Para que isso aconteça é necessário levar os cães para profundidades onde não tenham pé, mas que permitam o caminhar dos seus condutores. Depois, com o auxílio da trela que os rebocará para diante e que os impedirá de se empoleirarem, procederemos ao seu condicionamento, primeiro em pequenas distâncias e depois noutras maiores. É tolice jogar uma bola para dentro de água e esperar que o cão aprenda a nadar por si mesmo. Primeiro ensina-se o cão a nadar e só depois se jogará a bola ou outro brinquedo, porque uma má experiência aumenta a resistência ao exercício e pode constituir-se em trauma prò animal.

Depois do condicionamento desejado, convidá-lo-emos para nadar ao nosso lado, até que por fim o deixaremos nadar sozinho, exigindo-lhe todos os automatismos direccionais próprios da condução nas suas 3 linguagens, 2 modos e 3 tipos (linguagem, verbal, gestual e sonora, modos atrelado e em liberdade, tipos linear, dinâmico e nuclear). Quando o cão já souber nadar e mostrar excelente aptidão para isso, caso seja esse o nosso objectivo, podemos transformá-lo em cão de salvamento, ensinando-o a resgatar tudo dentro de água, quer se encontre à superfície ou submerso. É por demais evidente que temos que o ensinar a mergulhar e de preferência em espiral. No salvamento de pessoas, que resulta do transporte de brinquedos que vão mudando gradualmente de forma e de peso, recorre-se por vezes ao resgate de um boneco de tamanho e peso idênticos ao das pessoas, um “dummy” que tanto pode flutuar como submergir. Em abono da boa capacitação canina, deveremos evoluir das lagoas para os rios e destes para o mar, considerando a aumento das dificuldades e a certeza das respostas. A introdução à natação deve considerar a temperatura das águas, porque abaixo dos 15º centígrados pode atentar-se contra a saúde dos cães. Ainda que um Labrador Retriever possa ser um cão de salvamento aquático, convém usar raças de maior porte para a tarefa, com idênticos predicados e superior força física. Ensinar um cão a nadar é obrigatório, porque isso pode salvar-lhe a vida.

Acendras on tour

Este fim-de-semana trabalhamos em ecossistemas terrestres e marítimos, subimos um grande rio que corre para norte e convidámos os cães para a natação. Procedemos à segunda avaliação de Verão e os resultados foram animadores. As classificações obtidas foram: Vitor Hugo/Yoshi - 61%, Luís Leal/Teka I – 60%, Tiago/Sane – 56%, Irina/Max – 52%, Carla/Becky – 49%, Liliana/Bolt – 48%, Bruno/Iris II – 45%. A matéria de exame assentou sobre a obediência e a ginástica. O Rui Coito teve direito à merecida folga, não contámos com a presença da Princesa e o Eduardo apresentou-se de volta à casa.

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: António Cunha/Zorro, Bruno/Iris II, Carla Abreu/Becky, Célia/Igor, Fábio/Nick, Francisco/Iris, Isabel Silva/Luna, Irina/Max, Joana/Flikke, Joaquim/Maggie, Liliana/Bolt, Luís Leal/Teka & Rocky, Rodrigo/Tarkan, Tiago/Sane, Teresa/Buster e Vitor Hugo/Yoshi.

sábado, 10 de julho de 2010

Morreu sem deixar descendência

O cão tem poucos instintos e não os segue cegamente, podendo desusá-los definitivamente por força do condicionamento que sustenta o seu viver social. O adestramento é um exemplo clássico disso, onde as normas impostas pelo líder são transformadas em código de conduta para o animal. O treino canino, por mais louvável que seja e para além da excelência dos métodos utilizados na procura de respostas tangíveis às naturais, sempre aponta para o domínio do homem sobre o seu cão, para a instituição da liderança e para a sujeição do lobo doméstico, dando ao dono a cadeira do poder e transformando-o em macho alfa, o que obriga ao equilíbrio entre a natureza e o seu uso, na relação saudável entre aquilo que o animal é e o tanto que dele esperamos. Em poucos animais a inibição é tão bem sucedida como nos cães, o que nos facilita a indução e viabiliza a futura investidura. Há cães que pura e simplesmente se desinteressam pela cópula e cadelas que afugentam os seus parceiros, inviabilizando dessa forma a sua descendência e abominando todo e qualquer rito de acasalamento. E numa coisa temos reparado, se não houver cuidado: os cães melhor adestrados são os que mais concorrem prò problema, o que não deixa de ser um contra-senso, já que outros menos aptos usurparão o seu lugar e acabarão por reproduzir-se. O panorama agrava-se quando, por razões alheias ao seu bem-estar e saúde, a nata dos cães acaba castrada.

A inibição sexual de um cão resulta de vários factores e pode acontecer ainda antes do aparecimento dessa maturidade, por razões ligadas à coabitação e à hegemonia do dono, condições eficazes para a alteração ou substituição do seu viver social. O treino precoce pode, considerando a plasticidade física e cognitiva que antecede e propicia a aceitação da hierarquia, reforçar a apatia decorrente da experiência doméstica anterior, o que nos levanta uma questão ligada à prática da inibição: as cadelas em cio deverão ou não, participar nas actividades escolares? Nestas circunstâncias, muitos treinadores vetam-lhes a entrada nas classes ou optam pela sua instrução em separado, ainda que o façam debaixo de outras preocupações: as relativas à boa ordem dos trabalhos. Nós não procedemos assim e convidamos as cadelas nesse estado para as aulas colectivas, cientes das dificuldades e conhecedores das suas vantagens, porque a sua ausência contribui também, ainda que de modo dissimulado, para a inibição sexual dos machos. Bem sabemos que a maioria dos proprietários caninos não se preocupa com a actividade sexual dos seus cães, não abraça a reprodução e nem tão pouco consulta a vontade dos animais acerca disso, mesmo que daí resulte o seu envelhecimento precoce, uma saúde mais debilitada e o desenvolvimento de várias taras. O cão que vira gente e que se transforma no rei da casa é geralmente um soberano eunuco ou um castrado em prol dos seus “súbditos”!

As vantagens das cadelas com o cio nas classes são várias e ultrapassam em muito os aspectos relativos à sexualidade dos cães. Antes de falarmos delas, queremos adiantar as alterações que efectuamos para a sua aceitação, tendo em vista a sua integração, o cumprimento dos planos de aula e o alcance dos seus objectivos, sem incorrer na inibição sistemática dos cães, no seu sub-rendimento ou no molestar das cadelas. Na 1ª semana do cio não procedemos a qualquer alteração, tanto no escalonamento quanto na divisão dos trabalhos (gerais ou específicos), porque tal é desnecessário face ao estágio que as fêmeas atravessam. Na semana fértil (a segunda), podemos ter que alterar a sua posição no escalonamento da classe, passando-as para o final da coluna escolar ou colocá-las no meio de outras cadelas, evitando sempre que possível as imobilizações mais ligeiras e de grupo, na evolução por esquadras ou nas figuras de carrossel. A recorrência às manobras de sociabilização animal deverá ser evitada, a menos que as isentemos delas, para evitar contratempos e o recurso à inibição sobre os machos. A natureza do trabalho específico pode obrigar à sua separação e nunca ao seu isolamento.

Machos e fêmeas ganham com a aceitação das cadelas em cio. Nos machos alcança-se o seu melhor controlo sem se incorrer nos malefícios decorrentes da inibição e nas fêmeas a conservação da sua operacionalidade para além do período crítico que atravessam, o que lhes possibilitará um desempenho mais seguro no lar e na via pública. O isolamento das cadelas, em especial as territoriais e em particular as que nunca copularam, tem-se revelado um grave entrave prà reprodução, porque muitas delas acabam por atacar os machos propostos prà à sua fecundação. Diante do problema, importa que sejam as fêmeas a deslocar-se ao território dos machos e não o contrário. Sem muitas vezes darmos por isso e por conta da familiarização, o grupo dos cães escolares constitui-se na matilha dos indivíduos que dele fazem parte, o que facilitará futuramente a cópula entre eles, porque mais facilmente aceitará a cadela um macho conhecido do que outro que nunca conheceu. Este particular social canino é também visível quando um novo elemento chega à escola, já que o grupo não o aceitará de imediato, estranhará a sua presença e verá nele um intruso. Assim, o cio das cadelas acaba por contribuir para o salutar escalonamento da matilha heterogénea escolar, para o seu bem-estar social, equilíbrio biológico e para o fortalecimento do grupo, o que realça a importância do perímetro escolar, enquanto ecossistema próprio (por vezes único) e indispensável aos cães.

Se você tem um cão e pretende usá-lo mais tarde para reprodução, não faça como um amigo nosso, proprietário de um Pastor Alemão e de quem a seguir contaremos a história, não para o incriminar, mas como exemplo a não seguir. O dito senhor já era proprietário de um CPA macho há alguns anos, um exemplar escorreito, obediente e funcional, quando um filho seu, movido de ínfima compaixão, salvou uma cachorra de dois meses do abandono, ao vê-la a ganir no meio dum arvoredo junto a uma estrada muito movimentada. Apesar das reticências iniciais, o animal foi adoptado e transformou-se numa graciosa cadelinha, dividindo com o CPA as mesmas atenções e espaço. Como não foi castrada, tem tido ao longo dos anos o cio regularmente, pontualmente de seis em seis meses, o que tem sido o cabo dos trabalhos para o Pastor Alemão, sujeito durante cinco ou seis semanas anuais à mais cruel das inibições. Como resultado disso, a sua reprodução tornou-se impossível e nutre um justificável desinteresse pelas cadelas que lhe são oferecidas para copular. Neste caso concreto, porque o proprietário dos cães tem anexado à habitação um canil, teria sido desejável que nele encerrasse, durante aquele período, qualquer um dos animais, evitando dessa forma a inibição castradora. É mais fácil dizer do que fazer, quem é que é capaz de ficar insensível aos gemidos do seu cão? Antes de adquirir um segundo cão, pense primeiro naquele que já tem, certifique-se se tem condições para tal e se deve ter ou não um casal de cães. Apesar de muita gente o omitir, um cão sexualmente activo é mais feliz, mantém por mais tempo as suas qualidades e dura mais. A coabitação canina tem um preço elevado que é geralmente pago pelo sacrifício dos cães e ele não necessita de ser agravado pela sua castração (ambiental ou cirúrgica).

Ser mestre no reino dos sentimentos

Abraçar a carreira do adestramento, profissional ou amadora, é aceitar um dos maiores desafios: o de ser mestre no reino dos sentimentos. A canicultura no seu todo e no particular de cada uma das suas actividades encontra-se superpovoada de sentimentos, paixões exacerbadas e emoções de difícil controlo. E o adestramento não escapa à regra, porque acolhe indivíduos debaixo dessas mesmas condições, que nos chegam através da paixão que os leva a gostar de cães. Será partir desse sentimento que iremos trabalhar, o que não irá ser fácil diante da carga emotiva de cada um, na procura da auto-satisfação e na realização dos seus anseios. Quer queiramos ou não, cabe ao adestrador a concretização dos seus sonhos, independentemente da nossa percepção ou dos nossos sentimentos. A situação exige-nos tacto e um profundo conhecimento dos donos, para conseguirmos “encaixar” os seus desejos dentro de uma estrutura lógica e dar a cada binómio um final feliz, sem contudo ignorar ou prejudicar os cães.

A dependência canina relativa aos donos obrigar-nos-á à sua responsabilização, ainda que a façamos gradualmente e debaixo da sua aceitação, pela evidência, pela advertência e pelo anúncio dos perigos. Cada binómio é único e o mesmo sentimento apresenta-se diferente em cada indivíduo, o que obriga a variedade dos métodos e a um acompanhamento personalizado, transformando o adestrador num “personal trainer”. Como o adestramento assenta sobre a inibição e o estímulo, é travamento e aceleração, opera pelo aproveitamento e alcança a transformação, todos os condutores carecem de aprendizado, ainda que alguns se sintam geniais e vejam qualidades nos seus cães que mais ninguém vê. O carácter impessoal da actual sociedade, farto em fenómenos de desagregação, tem contribuído para o sectarismo e para o aumento da procura de cães, que funcionando como verdadeiros terapeutas, têm vindo a reequilibrar muita gente. Tendo isto em conta e considerando o particular social humano, cabe ao adestrador tirar partido do grupo escolar para a integração de todo e qualquer binómio, constituindo-o em membro familiar, fracção imprescindível e unidade importante para a felicidade comum – ele tem um lugar na escola! A chegada de novos alunos pode ser também uma camioneta carregada de sentimentos inconfessos e prestes a eclodir, conduzida por gente à procura do seu lugar e que traz consigo as marcas do seu percurso, vendo em cada centro de treino uma “dreamland”. Há que conservar a imagem.

A visão paradisíaca do adestramento que é íntima e raramente ultrapassa o lúdico, deve ser mantida por mais sério que ele se torne, evitando-se o desconserto provocado pela descarga emocional de cada um. Gerir e redireccionar emoções não é fácil, porque nalguns indivíduos assiste-se a transição radical dos seus sentimentos e lidamos com pessoas de grande sensibilidade, o que nos obriga à atenção redobrada, ao entendimento das suas dificuldades e ao apoio que não reclamam quando estão prestes a afundar-se. Se os cães necessitam de estímulo, o que dizer dos condutores? Perante as contrariedades sempre somos obrigados ao conserto, ainda que saibamos qual o desfecho de determinado binómio, para que o fim anunciado acabe também por nos surpreender. Para ser adestrador não basta gostar de cães, há que cativar as pessoas, mesmo daquelas por quem não nutrimos grande simpatia, que espelham o que desprezamos e que sempre atentam contra a nossa paciência, porque não somos nós que as escolhemos, são elas que nos escolhem e estamos cá para servir. O verdadeiro mestre cinotécnico é aquele que se vence a si próprio e que se transfigura em cada um que o procura, descobrindo sentimentos idênticos que a todos levarão à vitória. Quem não ama os seus iguais, acabará num monólogo com os cães, até que eles lhe virem as costas também!

O ADN e o fim da bastardia

Mais ou menos durante um século, os canicultores deram azo à sua liberdade criativa, enveredando por caminhos proibidos ou ignorados pelos seus pares, produzindo desse modo cães superiores ou mais apropriados para os fins procurados. Essa prática tem passado desapercebida, sendo somente desnudada, eventualmente, por algum remanescente genético. Face à degeneração evidente nas actuais raças caninas, vítimas de selecções impróprias ou lesivas, o retorno à qualidade original tem sido mais do que uma tentação, na procura da rusticidade e das diferenças que as caracterizaram. É importante não esquecer a influência dos modelos sociais que prevaleceram no século passado e o tipo de contribuição que deram à canicultura, factores visíveis no corpo, na regra e na linguagem dos estalões dessa época. Nas grandes criações e em paralelo, sempre se mantiveram as variedades originais que serviram de protótipo às da actual dominância, ainda que ocultas dos visitantes, entregues a vizinhos ou rotuladas de impróprias, como algo arrumado no sótão a aguardar ocasião. As alterações forçadas que aconteceram ultimamente nalgumas raças, devem-se ao uso desses exemplares históricos e ignotos, ainda que o seu nome não conste em parte alguma. Com o advento do ADN, exame já hoje obrigatório nalguns países, a estratégia cairá em desuso, muito do oculto será revelado e ninguém quererá ser desmascarado. A verdade virá ao de cima e a canicultura será cada vez mais dependente dos avanços da engenharia genética, que neste caso chega atrasada e carece de rápido avanço, estando sujeita à investigação e aos subsídios que a suportam.

Ar condicionado e calor

Os cães são muito sensíveis aos golpes de calor, particularmente os cachorros, os de tonalidade escura, os de pelo duplo, os de focinho curto, os idosos e os obesos, podendo perecer diante de esforço e quando sujeitos ao aumento instantâneo da temperatura, porque não transpirando pela pele, vêem-se obrigados ao arrefecimento pela boca (língua), o que obriga ao aumento inusitado da frequência dos seus ritmos vitais, que os pode levar ao colapso. Agora que somos fustigados com temperaturas superiores aos 35 graus centígrados, convém respeitar alguns cuidados e agir em conformidade com a época que atravessamos. É errado conservar o cão dentro de casa a usufruir dos benefícios do ar condicionado e depois sair com ele à rua, quando a diferença entre a temperatura ambiente e a local excede os 10º centígrados. Nestas circunstâncias e após a excursão diária, qualquer cão ficará de rastos ao chegar a casa. Os cães necessitam de se ambientar gradualmente às diferentes temperaturas anuais, regulando o seu manto de acordo com a estação do ano que atravessam. A muda constante ou tardia do pêlo sempre reflecte a influência de um ecossistema por demais artificial. Durante a época estival, a melhor altura para sair com o cão é pela manhã, entre as 7 e às 10 horas, porque o aumento gradual da temperatura facilita a sua adaptação. Sair à noite torna-se perigoso, porque os mosquitos abundam e a leishmaniose espreita ocasião. A resistência física que possibilita o suporte do Verão, deve ser encontrada nas estações que o precedem ou antecedem, exactamente aquelas menos convidativas ao passeio e nas quais o cão se mostra mais activo. Sacar o cão do ar condicionado e levá-lo para a torreira do sol, é transportá-lo do paraíso para as fornalhas do inferno (metaforicamente falando).

Dono que não ouve, cão que não aprende

Toda a gente fala em abundância daquilo que desconhece, reclama para os outros princípios que não quer abraçar e encontra chavões prà além da realidade, mensagens de esperança que não passam disso mesmo e que apenas servem ideais (os povos menos heterogéneos abraçam a divisa “unidade”, os mais atrasados “progresso”, os mais desordeiros “ordem”, os menos patriotas “pátria ou morte” e os exemplos não se esgotam aqui). A passagem do conceito à prática é rigorosamente igual à transição do sonho para a realidade, na dificuldade que há entre o “querer” e o “fazer”. Sem querer menosprezar alguém ou causar melindre a quem quer que seja, porque não estamos cá para isso, temos reparado que quanto maior é o grau académico de um condutor, melhor é também a sua prestação. E quando o não é, tal se deve à sua falta de aplicação ou à procura de outros interesses. Os indivíduos de baixa escolaridade, apesar da facilidade de trato, são palradores inveterados, improvisadores inatos, plebe pouco dada ao pormenor, mais emotiva e avessa à erudição. Felizmente existem excepções e não temos razão de queixa. No entanto, caso venha a aparecer algum nas nossas fileiras e de acordo com o nosso propósito colectivista, convém que todos o ajudem, tanto pelo auxílio como pelo exemplo, trabalhando dessa forma para a sua capacitação. Esta gente, ainda que inconscientemente, porque não se cala quando deveria ouvir e tende a ignorar a gravidade dos seus erros, acaba por condenar o condicionamento dos seus cães, inverter os planos de aula e prejudicar o rendimento dos seus pares. Reclama-se ajuda e conta-se com ela, pois mais vale ganhar um amigo do que desprezar um inimigo. Além disso, os cães não têm culpa nenhuma!

Frase da semana

“ Há dois tipos de pessoas: as pontuais e as que chegam sempre atrasadas. E continuarão assim por toda a vida” (António da Cunha, condutor do CPA Zorro).

Adivinha

Porque se diz que um Rottweiler é uma abelha e um Fila de S. Miguel uma vespa? Caso não saiba, dar-lhe-emos a resposta na próxima edição deste blog.

1ª Avaliação binomial de verão

Procedeu-se neste fim-de-semana à avaliação binomial dos alunos presentes aos trabalhos. Foram avaliados oito binómios e o exame recaiu sobre os automatismos direccionais, abrangeu os de imobilização e foi complementado por alguns exercícios de ginástica. A excepção dos binómios Isabel Silva/Luna e Rodrigo/Tarkan, todos os outros foram constituídos por cachorros entre os 8 e os 9 meses de idade. Os resultados obtidos espelharam um défice de – 90%, o que nos deixou alguma perplexidade e apreensão, considerando a carga horária escolar de cada um deles e a sistemática recapitulação a que têm sido sujeitos. Sabemos que o problema está relacionado com a época estival e com a ausência de recapitulação doméstica. E porque nada importa esconder, publicamos os resultados: 1º Tiago/Sane (90%), 2º Francisco/Iris (70%), 3º Isabel/Luna (60%), 4º Carla/Becky (0%), 5º Joaquim/Maggie (- 20%), 6º Rodrigo/Tarkan (- 50%), 7º Teresa/Buster (- 90%), e 8º Célia/Igor (-120%). Os piores resultados alcançados aconteceram na prestação dos automatismos direccionais e os melhores na execução da ginástica, o que aponta para a excelência dos cães e para a má prestação dos condutores. Se a avaliação recaísse sobre a disciplina de guarda os resultados seriam sobejamente superiores aos aqui encontrados.

Inesperadamente

Inesperadamente, depois de longos meses de ausência, a Carla Ferreira voltou com o Shadow e trabalhou connosco no último Sábado. Apesar da condutora e do cão se apresentaram em baixa de forma, como é seu hábito, foi com muita alegria que os recebemos. O Shadow não evidenciou o desenvolvimento muscular próprio da sua idade, o seu dorso encontra-se fragilizado e a sua traseira evolui de modo anómalo. Os seus ritmos vitais acusam facilmente o cansaço e a sua mímica denota a ausência dos passeios diários. Alertámos a condutora para o problema e oxalá ela proceda à sua solução. Queremos vê-los mais vezes!

Caderno de Ensino: XVIII. O "cruza"

O QUE É O “CRUZA”. O “ cruza” é um modo indicador para a marcha avante ou circular, caracterizado pelo serpentear do cão sozinho, ao redor das pernas do dono ou em torno de obstáculos. Chama-se “8” ao cruzar do cão à volta das pernas do dono com este imóvel, perfazendo assim um ou mais oito consecutivos. Quando o cão evolui em ziguezague sem contornar qualquer obstáculo, estamos na presença da “progressão desenfiada”, manobra típica dos cães de guarda quando debaixo de fogo. Tanto o “8” como a “progressão desenfiada” são figuras decorrentes do “cruza”. A figura é natural nos cachorros e acontece inúmeras vezes, quando se entrelaçam nas nossas pernas e impedem a nossa marcha. O seu afastamento compulsivo pode criar futuras dificuldades para a aceitação do “cruza”.

COMO SE ENSINA O “CRUZA”. Convém que os cães já tenham assimilado o comando de “abaixo”, considerando o preparo muscular para a dureza do exercício. O “cruza” tanto pode ser ensinado à trela como pelo contributo da recompensa, de acordo com a disponibilidade ou resistência ao exercício. Geralmente só ensinamos o cruza depois de havermos alcançado a condução em liberdade, tirando partido dos fortes laços afectivos binomiais. Primeiro servimo-nos do comando de “abaixo” e só depois o transferimos para “cruza”. Para facilitar o convite para o exercício, munimo-nos de uma trela curta e deixamos livre a mão que procede ao estímulo. O concurso ao Slalom, obstáculo típico das provas de agility, pode ajudar na assimilação deste modo indicador.

O QUE ENSINAR PRIMEIRO: O “8” OU “CRUZA”. Sem querermos incorrer na história do “Ovo de Colombo” e porque damos seguimento ao princípio pedagógico da actividade apreensível, que justifica a passagem do trabalho simples para o complexo, primeiro instalamos o “cruza” e só depois avançamos para o “8”.
O “CRUZA” IRREPREENSÍVEL. Considera-se o “cruza” perfeito quando: o condutor se desloca em passo ordinário e o cão serpenteia naturalmente sobre as suas pernas, sem lhe causar qualquer entrave ou atraso. O condutor obriga-se a andar erecto e a olhar em frente, reagrupando o animal no final do exercício pelo “junto”, comando que também o antecede.

INTERDIÇÃO À FIGURA. Quando a diferença de alturas entre os membros do binómio for inferior a 90 cm, o binómio encontra-se automaticamente dispensado da figura, afim de se evitar o esforço suplementar do cão e o embaraço do seu condutor. Os cães por demais submissos ou inibidos não deverão ser convidados para o exercício, porque aproveitando-se dele, enroscam-se nos donos, diminuem a sua autonomia e resistem ao andar para diante. Os animais portadores de displasia grave deverão ser dispensados deste exercício. O treino do cão de guarda não dispensa o ensino da “progressão desenfiada”, mas pode desprezar a instalação do “cruza”, considerando o risco prà sua imobilização ou eliminação.

Da parte para o todo

Este fim-de-semana treinámos os exercícios de obediência necessários ao ofício guardião, pela recapitulação dos automatismos mais comuns e pelo seu tratamento isolado. A ginástica mereceu algum destaque e optou-se pela escalada de muros, respectivamente de 1.20, 1.30 e 1.40 m, atacando-se depois disso alguns pormenores relativos à detecção, perseguição e captura de possíveis intrusos, pressupondo a invasão das propriedades confiadas aos cães. O Rui Coito, mais uma vez e com a alegria usual, trabalhou afincadamente para a capacitação dos cachorros. As actividades encerraram com um passeio cultural sobre um evento histórico agora reavivado. A boa ordem dos trabalhos e actividade cultural ficaram a dever-se, em grande medida, ao apoio logístico fornecido pela Família Abreu (Carla e Américo).

Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Bela/Teka I, Bruno II/Iris II, Carla/Abreu/Becky, Carla Ferreira/Shadow, Célia/Igor, Francisco/Iris, Irina/Max, Isabel Silva/Luna, Joaquim/Maggie, Liliana/Bolt, Luís Leal/Rocky, Paulinha/Teka II, Roberto/Turco, Rodrigo/Tarkan, Tatiana/Teka, Teresa/Buster, Tiago/Sane e Vitor Hugo/Yoshi.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Toiros na lezíria e cães à solta

Há quem tenha os cães em casa como se fossem toiros na lezíria, desgarrados pela propriedade, à vontade e a bel-prazer dos animais. Esta prática, fácil de encontrar no meio de gente sensível e amiga dos cães, pode ao mesmo tempo comprometer a relação binomial e fazer perigar a saúde dos seus fiéis companheiros, podendo inclusive concorrer para a sua eliminação. Os proprietários caninos que vivem em apartamentos, debaixo dos auspícios do confinamento, são normalmente mais zelosos dos seus cães que os instalados em moradias e quintas, considerando a coabitação obrigatória de uns e a tendência para o desleixe dos outros. Tanto o cão urbano como o rural encontram-se sujeitos a um sem número de perigos, ainda que diferenciados pelo particular de cada caso. Hoje trataremos dos cães instalados em moradias e quintas, porque todos os anos há quem lamente não ter sido informado. Para que o nosso préstimo seja mais objectivo, dividiremos o assunto em duas partes, dedicando a primeira aos cachorros e a segunda aos cães adultos, porque não podemos ignorar a contribuição ambiental para o bem-estar canino.

Criar cachorros é uma tremenda responsabilidade e criá-los à solta, sem qualquer tipo de policiamento, pode ser o pior dos disparates, porque jamais os muros das propriedades poderão garantir a sua salvaguarda ou proceder por si mesmos a sua adaptação, considerando a novidade dos perigos e a ausência de aviso. Qualquer cachorro confinado, independentemente do tamanho da área onde se encontre remetido, deve ser alertado para dois tipos de perigos: os existentes dentro da propriedade e os provenientes do exterior, para que não seja vítima de qualquer acidente doméstico, morra à mão dos envenenadores ou venha a ser roubado. É tarefa dos donos guardar ou suprimir todos os acessórios e produtos nocivos para os animais. As piscinas deverão permanecer tapadas e o seu acesso dificultado, os caixotes do lixo selados e arredados do seu alcance, as portas do fornecimento de gás deverão ficar trancadas e nenhum fio eléctrico deverá encontrar-se exposto. Os detergentes, os adubos e demais produtos químicos, também deverão ser acondicionados para além do alcance dos cachorros. Soltar um cachorro sem antes bater o território para onde irá, é entregá-lo à sorte e mal confiar na providência, porque algum incomodado vizinho maldoso pode apostar na sua eliminação.

Para além dos aspectos relativos à segurança dos cachorros (e não os enumerámos todos), há que considerar os ligados à construção do seu carácter, ao seu desenvolvimento cognitivo e ao seu viver social, factores indispensáveis à boa coabitação e à sua melhor prestação, que deverão ser acompanhados pelo robustecimento físico de acordo com o alcance das suas maturidades. Não havendo estes cuidados, os cachorros tornar-se-ão silvestres e de acordo com o seu perfil psicológico arredios ou prepotentes, não evidenciando assim os benefícios advindos da cumplicidade necessários à complementaridade, por receio da liderança ou pelo seu total desprezo. Mais tarde irá ser difícil atrelá-los, constitui-los em equipa e proceder ao seu transporte. Os cachorros criados isolados nos ecossistemas rurais, pela inacção da liderança e de acordo com o mundo ao seu redor, tendem a evoluir pelos instintos e a procurar outros alvos, segundo a sua experiência directa e abandono social, o que dificultará mais tarde qualquer condicionamento a haver. O desacompanhamento das suas maturidades (sexual e emocional) irá obrigar a um adestramento mais coercivo ou persuasivo, cujos resultados serão nitidamente inferiores aos alcançados pelo acompanhamento dos seus distintos ciclos de vida. Abandonar um cachorro num quintal pode implicar na perca definitiva do futuro cão, isto se esperarmos dele algum serviço específico.

Só por si, ter um cão solto num quintal ou numa quinta, nada garante em matéria de segurança, porque a ausência de preparo para a função vulnerabiliza o animal, tornando-o num alvo fácil, particularmente durante a privação dos seus donos. Se entendermos o cão como uma sentinela ou um polícia, facilmente compreendemos da sua necessidade de treino, já que os homens destinados às mesmas funções não o dispensam e só as executarão depois de devidamente preparados. Acresce ainda que, sendo o cão um animal irracional e não nascendo polícia, com maior facilidade será ludibriado, facto que hoje acontece vezes sem conta. Ele só deverá ser solto no quintal quando estiver alertado para os perigos, souber esconder-se e aparecer de surpresa, puder defender-se e contra-atacar. A inobservância destes requisitos transforma-o numa bola de um vulgar jogo de matraquilhos, contribuindo o confinamento para a sua eliminação. Ter um cão solto num quintal é uma tremenda responsabilidade e tem-se revelado uma grande irresponsabilidade, considerando o número daqueles que já foram (e continuam a ser) assassinados. Por esta razão, quando alguém vem para nos comprar um cachorro e nos diz que é para substituir outro que lhe mataram, dificilmente lhe satisfaremos o pedido.