terça-feira, 10 de novembro de 2009

Fim-de-semana de 07 e 08 de Novembro: nas falésias junto ao mar

Agora, pelos bons ofícios do tribunal da santa proibição, os cães só podem ir à praia quando a época balnear termina, o que não nos causa qualquer transtorno, porque sempre treinámos nas estações frias junto à orla marítima e nas quentes na montanha. A opção tem a ver com a rarefacção do oxigénio e a capacidade para a levar de vencida. Este fim-de-semana optámos pela Ribeira de Ilhas e pelas falésias da praia de S. Julião. O Sábado foi soalheiro e o Domingo ventoso. Trabalhámos nestes ecossistemas apenas de manhã, reservando a tarde para os trabalhos na Escola. Em Ribeira de Ilhas dedicámo-nos à imobilização à distância e à condução nuclear, convidando os cães para a autonomia e procurando a minimização do esforço humano. Em S. Julião, praia de falésias paradisíacas, exercitámos os diferentes comandos direccionais, evoluindo da praia para as falésias e vice-versa.
O trabalho no Sábado decorreu sem grandes novidades, contrariamente ao de Domingo, em que o Adestrador foi obrigado à “queda na máscara”, resultando daí um pulso aberto, alguns cortes superficiais e umas tantas equimoses. E no mesmo azar foi secundado por outros, felizmente sem qualquer consequência e motivo de hilaridade para os presentes. Apesar da inclinação, os binómios não hesitaram em se fazer às falésias, confiantes no auxílio dos cães e na procura dos benefícios da parceria, dando seguimento aos exercícios desenvolvidos na semana anterior.
Finalmente a Pescadinha voltou e o Teddy agradeceu, contente por ver os seus parceiros e sedento de liberdade, porque trocou o lugar da árvore mictória por um local à beira-mar. A Beta (Elisabete) não compareceu porque se encontrava engripada, e o Bruno também não (provavelmente foi massajar quem necessitava). A Princesa foi para Viseu e depois permaneceu em casa com o seu casaco de pele de comodismo. A Joana e o Jorge só trabalharam no Sábado e a Ana e o Rui fizeram os dois turnos de Domingo. Desta vez a Isabel não compareceu aos trabalhos e nada sabemos da Carla Ferreira e da Susana.
Os filhos da Xita recomendam-se e os da Luna estão a recuperar. Uma das filhas da Buba já pariu e alimenta uma ninhada de 10 cachorrinhos. Neste momento temos cachorros Pastores Alemães de alta qualidade, que só daqui a duas semanas poderão começar a sair. Este ano é o ano dos negros, nunca tivemos tantos! Continuamos a aguardar a visita do Sr. Comandante Nuno Calado, que na mutação da farda pelo avental doméstico, teima em se apresentar. Tivemos notícia da Família Antunes, estão todos bem na companhia dos seus cães. Agradecemos à Eugénia Barbosa o comentário que nos enviou e temos uma saudade imensa do Eduardo Ramos.
Finalmente, uma palavra de apreço pelo trabalho do Nuno Ribeiro, que apesar da teimosia da Isis, lá vai levando a água ao seu moinho. A cadela já anda em liberdade, cruza e obedece aos diferentes automatismos de imobilização e direcção, coisa impossível no passado quando de imediato se punha em fuga. Brevemente vai ser obsequiado com uma CPA negra da ninhada da Xita. Ele merece, mas a Isis não poderá ficar esquecida, porque está cá, é nova e encontra-se em franco progresso.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, Ana/Loki, Eduardo/Micks & Vega, Francisco/Luna, Joana/Flikke, Jorge/Juvat, Luís Leal/Teka, Octávio/Greg, Pescadinha/Teddy, Roberto/ Teka & Turco, Rodrigo/Tarkan, Rui Ribeiro/Isis e Zé Gabriel/Master & Menina.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Viagem ao Portugal esquecido: o porto palafítico da Carrasqueira

Esta Terça-Feira optámos por treinar no exterior com os dois binómios presentes. O plano inicial apontava para o Jardim de Belém, mas acabámos na estrada para Alcácer do Sal, rumo à Carrasqueira, pelo caminho que nos leva a Tróia. Visitámos o Memorial aos Combatentes do Ultramar, ainda treinámos em Belém, mas de pronto nos fizemos à estrada. Como a hora ia adiantada, decidimos ir almoçar ao Restaurante “A Escola” na Comporta.
O Restaurante, como o próprio nome indica, encontra-se situado numa antiga escola primária, daquelas legadas pelo Estado Novo, mais graníticas no Norte mas de traça igual por todo o lado. As salas do repasto respeitaram a divisão das salas de aula e até as casas de banho permanecem no mesmo sítio: à ponta do alpendre para o recreio. As portas que davam acesso ao alpendre foram substituídas por dois arcos geminados de estilo mourisco, ainda que salteados com rectângulos ocasionais de granito. Foi aí que comemos, tendo como pano de fundo uma fotografia escolar do início da década de 50. A fotografia mostra uma professora e a sua classe, onde são visíveis traços negróides nalguns alunos. Na linha da frente alguns encontram-se descalços, mas o uso da bata a todos é comum. A foto, para além de relembrar o uso anterior do edifico, é um marco histórico que nos transporta ao Séc.XVI, altura em que um grupo de escravos negros para ali foi debandado, sendo posteriormente absorvido pela população maioritária. A canção das "Meninas da Ribeira do Sado” encontra-se ligada a isto, ao particular etnográfico da região.
A comida é para turistas, bem confeccionada e apresentada, mais próxima do gosto comum e mais distante dos sabores tradicionais. Vale a pena comer ali a “massada de cherne”, que no nosso entender é a melhor das suas iguarias. O serviço é pronto e eficiente, o cozinheiro aceita sugestões e a carta de vinhos é vasta, de bom gosto e excelentemente apresentada. O preço é acessível e o ambiente repousante, o asseio é inquestionável e a atmosfera prima pela simpatia dos empregados. Ainda que na Estremadura, estamos no Alentejo.
Depois de comidos e bebidos, rumámos à Carrasqueira, lugarejo fluvial e piscatório de pouco interesse, de ruas desertas que se perdem na vastidão do Sado. As casas são brancas, de piso térreo e com chaminés indefinidas, mercê da confusão de influências. Ainda ali persistem duas casas pertencentes ao passado, com paredes de cana e telhados de colmo, uma de cada lado da estrada, uma em uso e outra para venda ou aluguer. Continuámos em direcção ao rio e chegámos finalmente ao Porto Palafítico.

Em dia de sorte, apanhámos a preia-mar, porque se chegássemos com a maré vazia, só o lodo nos daria as boas vindas. Este é o último porto palafítico em Portugal, avança 300 metros rio adentro, o labirinto das suas passadeiras é sustentado por estacas, umas de pinho e outras de eucalipto, de modo desordenado e pitoresco. Pelo que nos foi dito, recentemente a Câmara gastou ali 15.000 euros, substituindo algumas estacas velhas por outras de madeira tratada. O número das pequenas embarcações rondará uma centena e as barracas de recolha metade disso. Existem algumas embarcações, poucas, para passeios turísticos, que laboram quase em exclusivo no Verão. Os pescadores, dos quarenta anos para cima, dedicam-se à apanha da amêijoa, da ostra e do caranguejo, não têm escritura de concessão e temem pelo seu futuro. Todos os dias rezam ao São Turismo, porque a ele devem a sua actividade e sobrevivência, enquanto pólo de atracção e museu vivo dos seus costumes. Ali também existe uma lota, uma das poucas casas de cimento e tijolo.
O Porto é antecedido por vários arrozais, agora de restolho, porque a colheita aconteceu recentemente. Os pescadores atribuem a morte das amêijoas, em determinada altura do ano, aos químicos usados nos arrozais, mas todos são unânimes: o Rio está melhor e mais limpo. Se para lá for, evite que o seu cão se molhe, pois dali sairá com um cheiro nauseabundo, que o digam os condutores que nos acompanharam. Contudo, nada que a secagem não resolva pelo contributo do pó talco. Por ali se vêem motorizadas EFS, algumas com mais de 20 anos, mas também “Pick-ups” e carros utilitários. Os homens da faina são gente boa, ainda que retraídos de início. A paisagem é paradisíaca e lembra um álbum de fotografias do início do século passado.

Trabalhámos os diferentes automatismos de imobilização sobre as estacas, fizemos dos arrozais círculos de obediência, desenvolvemos a condução em liberdade e efectuámos vários cruzamentos frontais. No meio dos trabalhos, o Zorro decidiu dar as boas vindas a um cachorro dali, caminhando com ele cerca de 1 km, regressando depois, para espanto do seu dono e evitando assim a reprimenda. Surpreendentemente, O Rex adoptou o Zorro e contribui para a sua capacitação. Regressámos por Tróia e apanhámos o Ferry-boat, contentes com a jornada e deslumbrados com a paisagem.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

::: O regresso dos lacaios :::

“O cão é do patrão e ele paga-me para isto!” Esta é uma afirmação que se repete vezes sem conta e que tem vindo a aumentar, uma opção própria dos ricos e dos famosos e também daqueles que pretendem “armar ao cágado”. A situação é fácil de descrever: determinado senhor, para quem o dinheiro não é problema e porque tem mais que fazer, absorvido que anda nos seus múltiplos afazeres, delega num empregado a responsabilidade de levar o seu cão à Escola. Sejamos sinceros, todos os adestradores sonham com clientes destes e gostariam de ver o seu número aumentado, porque é dinheiro certo e o preço pode ser inflacionado, a delonga não é problema e concorre a seu favor, engordando a carteira de quem normalmente a tem vazia.

“O homem da confiança do patrão” é geralmente um serviçal com pouca instrução, um jardineiro ou motorista, alguém que se desenrasca e não despreza qualquer biscate, rotulado de pouco inteligente e de quase nenhum préstimo, a quem se dá trabalho muitas vezes por compaixão: um lacaio. E quando assim é, o ardil está montado “Vossa Excelência adquiriu um bom cão, sem dúvida, o seu empregado é que não tem jeiteira nenhuma, mas é esforçado e tem força de vontade”. Perante isto, porque não quer ser incomodado, o patrão conforma-se com a sua sorte e ainda incentiva o adestrador à paciência e à continuação dos trabalhos. Gabar o trabalho do empregado torna-se perigoso, dar a ideia de conluio, algo a que o patrão sempre se sentirá sujeito. E quando o cão é apenas um pretexto, adoça-se o lacaio com umas minis e umas sandochas, porque a despesa sai à casa e é sempre o mesmo a pagar! Há gente que paga para ser enganada!

E quando o patrão apanha um adestrador honesto, daqueles que o informam acerca da evolução do trabalho, sente-se incomodado e remete para o empregado os assuntos relativos ao cão, ainda que possa reclamar da morosidade do processo pedagógico. Em termos de ensino, dificilmente estes cães chegarão a algum lado, porque aceitam o empregado e desprezam o patrão. Essa “ingratidão” levará ao abandono dos trabalhos escolares, perante a conformação do lacaio e a consternação do patrão. E ainda não falámos do cão!
Perante o fim adivinhado, o que faremos com ele?
Muitos dirão que nunca deveríamos ter aceite tal encargo, outros insistirão na satisfação plena do compromisso assumido, alguns adiantarão a opção do “deixa andar” e outros reclamarão pela felicidade do animal. Estamos perante um problema deontológico. Se analisarmos a situação pelo prisma do adestrador, todos terão alguma razão, mas se o bem-estar do cão for o objecto, a maioria abraça o equívoco, porque o objectivo central do adestramento é a sobrevivência canina que obriga ao sacrifício pessoal em prol da salvaguarda animal. E depois, a causa do problema é alheia à responsabilidade do cão, porque o bicho vai para onde o levam e nem sequer foi ouvido. Conciliar os interesses do patrão, o respeito pelo lacaio e os direitos do animal não é tarefa fácil, porque o patrão reclama por brevidade, o lacaio não se sente motivado, o cão resiste ao ensino e o adestrador compadece-se do animal. O imbróglio lembra o ditote brasileiro: “se pegar, o bicho mata; se fugir, o bicho pega!”

Contrariados, somos obrigados a ministrar obediência ao cão, na esperança efémera que a sua prestação leve a uma melhor aceitação, apesar de sabermos que o desuso eliminará os conteúdos de ensino aplicados, porque o lacaio já cumpriu e o patrão não se sentirá na obrigação. Se não houver uma evolução laboral substantiva, o destino do cão poderá sair ainda mais comprometido, vir a ser objecto de maior desprezo ou entregue a terceiros. A precariedade social do animal não deverá ser agravada pelo método pedagógico escolhido, que sempre deverá sujeitar-se à memória afectiva e considerar o particular do cão. É importante responsabilizar o lacaio pelo insucesso nas metas a atingir, para que de alguma forma, melhore as suas prestações e se socorra dos vínculos afectivos necessários. O cão necessita de ser amado!

O treino deverá devolver ao animal a liberdade que lhe é negada em casa, quando suja a roupa que não deve, parte alguns tarecos, danifica o jardim ou risca os carros acidentalmente. É evidente que trabalharemos para que isso não aconteça, mas ao mesmo tempo, faremos da pista um espaço próprio para a sua alegria e evasão. Como a maioria dos disparates caninos são pedidos de atenção e súplicas de parceria, importa estabelecer, nos dias em que o cão não vai à escola, a excursão diária, coisa que alcançaremos pela anuência do patrão e pela prestação do lacaio. Disto jamais abriremos mão, ainda que para ambos, o canil seja a melhor das opções. Ao alcançarmos isto, não trabalhámos em vão e o cão fica mais feliz. Esta deve ser a nossa preocupação.

O "à frente": um comando muito útil e fácil de ensinar

Para uma melhor absorção, trataremos o assunto por tópicos.

DA PREFERÊNCIA PELOS AUTOMATISMOS DIRECCIONAIS: Basicamente, os comandos a instalar nos cães, que devem constituir-se em automatismos, dividem-se em dois grupos: os direccionais e os de imobilização. Na Acendura iniciamos os trabalhos pelos direccionais, porque educamos cachorros de acordo com o método da precocidade, deixando para depois os de imobilização. Entendemos que o ensino dos cães deve ser em movimento, porque naturalmente são activos e usam para inactividade para o descanso, porque aprendem mais na excursão e a obediência sai fortalecida pela parceria. No entanto, havendo essa possibilidade, induziremos os cães adultos do mesmo modo. Iniciar o trabalho pelos automatismos de imobilização é contraproducente, porque leva à inibição e obsta ao robustecimento de carácter, diminui a cognição e atenta contra a autonomia, porque a uns condena e a outros desaproveita. Primeiro pomos os cães para a frente e só depois operamos o seu travamento, valerá a pena travar aquele que não anda? À parte disto, nenhum valente sobrevive sem o contributo do preparo físico inerente. Dos automatismos base se evolui para os comandos específicos.
ALGUNS COMANDOS DIRECCIONAIS: O número dos comandos direccionais aplicados a um cão, sempre se encontra sujeito à sua capacidade de aprendizagem, ao desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento e ao serviço a desempenhar. Como qualquer direcção é tirada de um ponto fixo, todos os comandos direccionais pressupõem o “Junto”. São 15 os automatismos direccionais que garantimos no ensino básico: “ Em frente” (para romper a marcha ou como comando indutor aos saltos), “Junto” ( para que se desloque sempre alinhado e ao nosso lado, “Troca” (mutação do lado da condução), “Roda” (nas mudanças de direcção e nas inversões de marcha), “À frente” (para que vá adiante), “Atrás” ( para marchar atrás e dar-nos a dianteira), “Para trás” (recuar), “À esquerda” e “ À direita” (quando existem caminhos ou alvos paralelos), “Cruzar” (no contorno de obstáculos e nos percursos desenfiados), “Up” (indicação de salto), “Abaixo” ( nos obstáculos de uso duplo, colocados na linha do solo ou abaixo dela), “Busca” ( quando é necessário procurar pessoa ou objecto), “Ronda” (quando importa policiar) e “Rastejar” (para diminuir a silhueta).
A DENÚNCIA E A IMPORTÂNCIA DO “À FRENTE”: Na fase primária do treino, o comando denuncia o perfil de cada cão em classe, já que os dominantes adorarão fazê-lo e os submissos e inibidos sempre lhe resistirão. Visando o recomendável robustecimento de carácter, os mais fracos devem persistir no automatismo até ao seu desempenho descontraído. Ao invés, os dominantes devem ser convidados para o “atrás”, para não dar azo à desobediência e fortalecer a liderança. Assim, o recurso sistemático ao “À frente”, pode elucidar-nos acerca da personalidade dos cães em classe.
EXPERIÊNCIA FELIZ E INSTALAÇÃO DO AUTOMATISMO: A maneira mais fácil de ensinar o comando passa pelo aproveitamento do retorno a casa, quando o cachorro regressa da sua excursão diária. Ao ver as paredes do seu abrigo, onde naturalmente se sente bem, de imediato correrá para lá. Aproveitando a ocasião, o condutor deve dar-lhe trela e em simultâneo aplicar o comando direccional. Mediante a experiência feliz e acostumado a andar à frente, sem maiores delongas abraçará o automatismo.
O RECURSO AOS CORREDORES DIRECCIONAIS: Perante a resistência animal ao comando, o recurso aos corredores direccionais é emergente. Os corredores direccionais são passagens estreitas que impossibilitam a passagem do binómio a par, geralmente constituídos por duas linhas de barreiras verticais, que garantem a direcção e impelem o cão para a frente. O concurso dos cães adiante evita maiores contratempos e dispensa a coerção. O recurso é geralmente usado no período do trabalho geral e os corredores ocupam ¼ do perímetro do círculo de obediência.
ENSINO Á TRELA E EM LIBERDADE: O comando é tirado do “Junto” mediante as linguagens verbal e gestual. Quando é feito à trela, o condutor impulsiona o cão para a frente e aponta com o braço direito, garantindo a direcção e persistindo na ordem. A transição deve ser tirada a partir do ajustamento da trela, com a mão do condutor junto ao fecho, caso seja possível, não vá o cão ser baixote. Repete-se o procedimento perante o incumprimento animal. Na condução em liberdade a indicação do braço é dada pela mão direccional: a esquerda. Deseja-se que o automatismo dispense a linguagem verbal e garanta o secretismo da manobra. A seguir veremos porquê.
UTILIDADE DO “À FRENTE”: O automatismo é indicado nas seguintes situações:
a) Nas passagens estreitas.
b) Nas subidas íngremes (como subsídio de tracção).
c) Como presença ostensiva.
d) Para bater território nas ruas mal iluminadas.
e) No derrube de obstáculos adiante.
A sua aplicação não se restringe apenas ao que foi dito, tem outras aplicações. A combinação entre os diferentes automatismos possibilita e cria outros usos, impróprios do cidadão comum e típicos das autoridades policiais e militares.

Lászlo Bölöni e os treinadores de bancada

Lászlo Bölöni, um romeno de ascendência húngara, foi treinador da equipa profissional do Sporting há algumas épocas atrás. A ele se ficou a dever, além de outras coisas, o lançamento para a ribalta de algumas das jovens promessas leoninas. Apesar de ser um homem de méritos reconhecidos e profundamente metodológico, não escapou aos apupos de muitos, maioritariamente treinadores de bancada e também filiados no F.C. do Deita-Abaixo. Certo dia, diante das câmaras televisivas e após um jogo, fustigado por perguntas tolas, explodiu ironicamente: “Em cada português há um treinador, em Portugal toda a gente entende de futebol!” Perante a afirmação, houve quem ficasse magoado no seu orgulho Pátrio, na interiorização do pensamento: “quem é este gajo para falar de nós, precisava era de quem lhe partisse as trombas!”

Infelizmente, o português continua à procura da rolha e sempre assim foi, proliferando entre nós uma dificuldade inata, a relativa à nossa congregação e unidade, porque mais depressa nos identificamos com um forasteiro do que com o vizinho do lado. Nos momentos mais difíceis da nossa história vingou a doutrina do “entre a espada e a parede”, algo que as crónicas sobre a Batalha de Aljubarrota não desmentem, nomeadamente sobre os conselhos para a linha da frente das hostes luso-inglesas. O português é sempre daquele que ganha e quando perde, remete o resultado para os meandros do fado e desaproveita as lições dos seus erros. E nisto os outros povos pouco diferem, apesar de mais unidos do que nós. Dificilmente passamos da tribo para a Nação e continuamos hábeis no fabrico das dissensões. E depois, lá surge o espectro da “justiça de Penafiel”, que alguns reclamam e ninguém quer!
Historicamente sempre discutimos futebol, política e código da estrada. Agora que os cães se vulgarizaram, passámos também a opinar sobre estes companheiros, a criticar métodos e treinadores, desconhecendo-os e a fomentar quezílias no seio da canicultura portuguesa, como se ela fosse inabalável e apenas produzisse esterco. Lamentavelmente, diante da situação, nenhuma deontologia subsiste e proliferam patadas para todos os gostos. Será que a nossa pequenez demográfica e geográfica contribui para o fenómeno, que nos obriga a tropeçar uns nos outros? A unidade dos treinadores peca por ser tardia e enferma pela cultura adjacente, sucumbe ao vírus da maledicência e retarda a sua convalescença. Se estes profissionais, enquanto minoria, trabalhassem no estrangeiro, certamente adquiririam outra postura e assimilariam sem delongas a ética profissional reinante, tornando-se gente irrepreensível e digna de louvor: melhores entre os demais. Não é isso visível nos nossos trabalhadores emigrantes? Porque insistimos em ser pássaros de gaiola, daqueles que sempre borram no mesmo sítio? A unidade é possível e a todos beneficiará. De outro modo, os “assentados” em S.Bento plagiarão decretos para além da nossa realidade, denegrindo a nossa qualidade e nivelando-a por outras bem abaixo da nossa. Até quando necessitaremos da hegemonia do porrete e nos comportaremos como nativos assimilados nesta Europa?

Fim-de-semana de 31 de Outubro e 01 de Novembro: Chuva, Sol e Vento

Este fim-de-semana foi dedicado às manobras de sociabilização animal, aos automatismos de imobilização e à variação dos ecossistemas. Trabalhámos na Serra e fomos até ao mar, apanhámos chuva, sol e calor e continuámos como se nada se passasse.
Houve muitas ausências forçadas e agradecíamos notícias sobre o Rui Santos. A Pescadinha é a mais ausente e o João Franco não tem comparecido às formaturas. O Bruno não se apresentou aos trabalhos de Domingo porque foi exercer o seu ofício de massagista. A cachorrada CPA vai de vento em popa e o Yoshi veio visitar-nos.
Ainda houve tempo para ir visitar a Xita e admirar os seus filhotes, que estão lindos e recomendam-se. Agora que a época balnear finalmente acabou, os nossos cães podem usufruir das praias marítimas, substituindo a nossa paradisíaca praia pluvial. A chegada do Outono deve coincidir com a vacinação contra a tosse do canil e nalguns casos levar ao enriquecimento das dietas. A nossa Costa está praticamente sem peixe, as gaivotas caçam sobre a Foz do Rio Lisandro e viram as costas ao mar. Por todo o lado vemos estas aves sobre lixeiras e detritos, avançando cada vez mais para o interior.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Ana/Loki, Bruno/Pepe, Elisabete/Lua, Francisco/Luna, Isabel/Amora, Joana/Flikke, Jorge/Juvat, Luís Leal/Teka, Princesa/Rosita, Roberto/Turco & Teka, Rui Ribeiro/Isis e Zé Gabriel/Master e Menina.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

::: O Cão jovem (dos 7 aos 18 meses): da puberdade à maioridade :::

Subitamente, as brincadeiras mudam, os cachorros comportam-se como coelhos e lembram a inesquecível “Reprodutora” de António Silva, no filme “Sonhar é fácil”. Os brinquedos passam para 2º plano e as investidas sexuais tomam a primazia, qualquer coisa serve de pretexto e as disputas aumentam de tom e modo. Assiste-se à guarda dos bebedouros e a intromissão é rechaçada, a perseguição domina e ensaiam-se movimentos de defesa e ataque. Os mais rijos provocam e os mais sensíveis escondem-se, reagindo somente quando se sentem em vantagem. No meio desta algazarra, os cães adultos assistem de longe, pouco interessados, participando apenas para “pôr ordem na casa”. Eis-nos chegados à puberdade!
Como a puberdade canina carece de profunda observação, não dispensamos os 10 minutos de relax que antecedem as aulas, momento em que convidamos todos os cães presentes para a brincadeira, debaixo da coordenação e responsabilidade do adestrador. A observação possibilita a diagnose e o desenvolvimento de cada cachorro é avaliado, estabelecendo-se a partir daí: as metas e objectivos individuais, a justeza dos conteúdos de ensino a ministrar, o reforço da sociabilização, as manobras para o robustecimento do carácter, os exercícios adequados e o modo de exercer a obediência. No nosso entender, até à puberdade, a disciplina maioritária deve ser a ginástica, quer ela seja desenvolvida sobre aparelhos correctores ou sobre pequenos obstáculos, porque o abuso da obediência obsta à cognição, impede a alegria, inibe a velocidade, reduz a experiência directa e diminui a autonomia. Na puberdade, ainda que de modo gradual e de acordo com os indivíduos, a obediência deve contrabalançar com a ginástica, pela necessidade da regra e da sobrevivência animal.

Quando a familiarização é profícua nos ciclos infantis, a sociabilização inter pares decorre sem maiores dificuldades. No entanto, os cães dominantes podem causar alguns problemas excepcionais, porque as alterações fisiológicas tendem a reforçar o carácter, produzindo desacatos típicos do seu estado etário. Assim, puberdade e sociabilização são inseparáveis, porque numa se joga a outra, evitando-se os meios mais coercivos e menos válidos exercidos noutras idades. As dificuldades visíveis na cópula de algumas cadelas, que as leva a rejeitar os machos e a atacá-los, podem encontrar a sua origem na puberdade, pelo isolamento ou pelo abuso, face à experiência adquirida.
Dentro da mesma raça, sempre existem variedades e indivíduos mais precoces que outros, ainda que se encontrem a coberto de uma determinada dominância cromática. Como a precocidade sexual de um cachorro sempre indicia um cão de menor crescimento, isso obriga-nos a cuidados redobrados, considerando o desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento, a formação do carácter e a parceria desejáveis. Na puberdade os cães de raça pequena e os quadrados levam vantagem sobre os rectangulares, os primeiros pela brevidade da sua curva de crescimento e os segundos pela ausência de maiores transformações físicas. Aos 7 meses o cão rectangular é um “escangalhado”, quando comparado com os seus congéneres quadrados e miniatura, porque articula mal a traseira e sobrecarrega os membros anteriores. Os exemplares rectangulares crescem essencialmente para cima até os 6 meses e só depois começam a harmonizar o seu comprimento com a altura. Aos 12 meses já se encontram equilibrados e de acordo com as medidas standard. Quando um cão de raça rectangular é demasiado comprido para a idade, a tendência é para estreitar o peito e atirar as mãos para fora, porque é obrigado a rebocar a traseira, o que geralmente acaba por afectar também o dorso, selando-o ou não, de acordo com as suas angulações posteriores. Se ao fenómeno se juntar a inexistência da marcha diária, a sua locomoção sairá comprometida, relegando-o para a precariedade operativa e para andamentos atípicos, que sendo lesivos, a breve trecho o condenarão.
O “ligar das orelhas” aos cães de orelhas erectas que as teimam em levantar, deve acontecer antes da puberdade e só depois da troca dos dentes. Gente conceituada e habilitada para o efeito, ignorando esta regra, no desejo de poder valer, acabou por amputar algumas, ainda que esse não fosse o seu propósito inicial. Este trabalho deve acontecer entre os 5 e os 7 meses, porque aos 9 a cartilagem já não sofre alteração. Ligar as orelhas mais cedo pode ser inútil, levar ao seu cruzamento indevido ou constituir-se em amputação. O problema tem origem genética e geralmente encontra-se associado à baixa e média implantação. Por vezes, ainda que não o queiramos, somos obrigados à tarefa durante a puberdade. E quando assim é, mesmo que as orelhas levantem, o seu equilíbrio permanecerá peripatético. Por vezes, o atraso no levantamento das orelhas fica a dever-se a outros factores, tais como: convívio com cães mais velhos (que obriga o cachorro a uma mímica de submissão constante), ausência de vida ao ar livre (desprezo pelo contributo dos raios solares) e desuso das posturas de atenção.

Como a época da puberdade é de puro ensaio para o cachorro, reflectindo-se no seu futuro comportamento, importa protegê-lo e dar-lhe vantagem, transmitir-lhe uma sensação de poder através da audácia que o sustenta. Os valentes não irão necessitar disso, mas os submissos sempre necessitarão de ajuda. Isso obriga-nos ao controle sobre as brincadeiras, nunca consentindo o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos, para que a experiência não vire estatuto e a inibição permaneça, impedindo assim os mecanismos de autodefesa de cada um. Nestes casos, ao invés de se forçar um cachorro, deve-se ampará-lo, porque a ajuda transmite força e o abandono só agrava. O amatilhamento deve ser contrariado e a autonomia individual procurada. Para que isso aconteça, porque o melhor exemplo para um cão é outro cão, mercê da afinidade e do sentimento gregário, ofereceremos diferentes induções aos cachorros pelo contributo dos cães adultos, dando-lhes outros alvos para além da confrontação entre iguais. A experiência torná-los-à mais fortes e menos receosos, ainda que fiquem confinados às acções conhecidas e dependentes da ordem expressa.
Ainda que por vezes imperceptível, a incompatibilidade somática evidencia-se desde logo na puberdade, em reacções pouco consequentes e por isso mesmo isentas de reparo. Existem raças que são inimigas umas das outras, que se detestam simplesmente e que mais tarde procurarão a peleja. Isentos de culpa, porque nasceram diferentes, os bracóides sempre terão à perna algum molosso ou lupino, estes sempre se desafiarão e os vulpinos abrirão as hostilidades. Por vezes, quando um cachorro é demasiado grande para a idade, ao ser mal identificado pelos adultos, pode vir a ser alvo dos seus ataques, porque o seu tamanho ameaça. Se for este o seu caso, cuidado com os encontros no jardim! Quando um dono é proprietário de um casal de cães, a partir da puberdade, é natural que o macho proteja a sua companheira dos demais, respondendo aos seus apelos ou dispensando isso. Também é comum a cadela seguir as pisadas do macho, acompanhando-o nas suas arremetidas. Geralmente é ela que dá o mote para o início das bravatas. Esta atitude defensiva transforma-se em manobra ofensiva pelo concurso do macho. Debaixo destas contingências, só as Manobras de Sociabilização animal nos poderão valer (conjunto de exercícios colectivos que ao provocarem a interacção canina, operam em simultâneo a sociabilização). Eis a razão pela qual dedicamos especial cuidado às Manobras de Sociabilização na puberdade!
Aos olhos dos cães, a puberdade acaba aos 10 meses de idade, altura em que os cães adultos já não toleram as fanfarronices dos mancebos e reclamam deles um comportamento igual ao seu. Contudo, isso nem sempre é verdade, porque a intromissão humana na selecção canina acabou por perpetuar comportamentos atípicos, típicos de determinadas raças e causadores de vários desaguisados, quando sujeitas a curvas de crescimento excepcionais e à propagação de características particulares. Também aqui, a ingerência humana não contribuiu para o bem-estar animal, porque alterou a ordem natural e produziu um grande número de inadaptados, graças aos especicismo aguçado pelo provento, porque tratar de cães é falar também sobre economia, porque os cães jamais retornarão ao lobo e os lobos encontram-se em vias de extinção por toda a parte. O final da puberdade canina obriga-nos à prática da obediência, para sintonizar os indivíduos com a sua espécie e salvaguardar a nossa hegemonia. De outro modo, para que andámos a criá-los e a robustecê-los? Para que nos comam?
Muito do cuidado com os cães é hipócrita, uma operação de luva branca, porque a soberania do standard pode obrigar ao sacrifício dos indivíduos. Entre nós, assim sem mais nem menos, alguém decidiu encurtar o tamanho de determinada raça, imediatamente, sem selecção prévia e contranatura, no desejo de formar a raça mais pequena do seu grupo. Nisto foi secundado por muitos, porque os velhos truques resultam nas patranhas habituais e os “milagres” são encapotados na calada. Isentos de outra solução, começaram a cruzar os cães logo após a puberdade, no intuito de travar o seu crescimento. Melhor sucedidos entre as fêmeas, não hesitaram em dar fome aos machos. Acabaram mal sucedidos, com menos mercado, os visados com a saúde comprometida e a sua descendência denunciou a marosca. Na puberdade há que ter cuidado com o 1º cio das cadelas que pode acontecer logo após os 6 meses de idade e ser silencioso (imperceptível). Beneficiar uma fêmea é assunto para a idade adulta, quando a sua estrutura óssea se encontra no pique e o seu corpo preparado para a maternidade. E por falar em abusos, determinada senhora estrangeira, profundamente ligada aos números, conseguiu na sua cegueira, “beneficiar” uma cadela 20 vezes. Na sua última cópula, com 10 anos de idade, a dilatação foi tal que impediu o engate do macho, sendo necessário segurar ambos. A cadela ficou conhecida por “via verde” e talvez tenha batido todos os recordes de natalidade.
A puberdade canina pode ser um problema acrescido, um problema social e como tal, deve começar a ser solucionado em casa, pela instituição da regra que garantirá a harmonia nas saídas ao exterior. Isto remete-nos para o papel da liderança e sobre isso, não temos dúvida nem pejo: a maioria dos proprietários de cães não os deveria ter, porque a sua impropriedade tem sentenciado animais e causado dolo a terceiros. Como o rol dos disparates é imenso, apenas manifestaremos alguns: isenção de autoridade objectiva, convívio desregrado, excessivo isolamento, ignorância e desrespeito pelos diferentes estádios etários caninos, antropomorfismo e instigação. E “quando a Pátria está perdida”, quem virá para a escola: o dono ou o cão? Por vezes algo de insólito acontece: o cão adora a escola e o dono não! Porque será? Quem terá maiores dificuldades? Ao adquirir um cão, não se arme em valente, escolha-o de acordo com as suas características pessoais, não se esconda atrás dele, porque depois de detectado pode acabar caçado!
Dos 10 até aos 18 meses o cão passa de juvenil a júnior (isto se usarmos as clássicas divisões desportivas), ganha mais força e velocidade, muda de interesses e procura a parceria. Este é o período em que decidiremos, após descobrirmos a sua vocação natural, qual o serviço a destinar-lhe. Não adianta incumbi-lo de tarefas alheias às suas qualidades, porque a sua capacidade de improviso é diminuta e sempre lhe causará incómodo, ainda que induzido e ludibriado pela acção da liderança. O número dos cães multiusos é cada vez menor, resultado da selecção natural e portador de uma adaptabilidade extraordinária. Ao invés, superabundam por aí cães especialistas, próprios para tarefas específicas e menos adaptados para outras. No entanto, e diremos afortunadamente, sempre existirão indivíduos diferentes dentro da mesma raça, possibilitando tarefas para além do uso comum. E isto não é tão raro, se o cão ainda conserva algumas características atávicas que o ligam ao lobo ou a outros canídeos, mais perto se encontra da biodiversidade que o gerou. A potenciação de um cão por outro diferente pode levar a diferentes desempenhos, que sendo atípicos, demonstram o peso do sentimento gregário.

A partir dos 10 meses, o cão é tratado como adulto, ainda que o não seja, pois não queremos que a maioridade nos traga algumas surpresas desagradáveis. São próprios desta idade os seguintes trabalhos escolares:
1. Instalação dos automatismos básicos de imobilização e direcção.
2. Condução linear, dinâmica e nuclear.
3. Desempenho em liberdade e assimilação da linguagem gestual.
4. Sociabilização inter pares e interespécies.
5. Aptidão defensiva e ofensiva.
6. Desempenho satisfatório na Pistagem.
7. Autonomia operativa (aceitação do trabalho na ausência do dono).

Como o assunto não se esgota aqui, se necessitar de maiores esclarecimentos, contacte-nos através do nosso e-mail, através do qual tentaremos dar resposta ao que nos for solicitado.

O Cão lobeiro: um silvestre entre nós


Lobeiro é um adjectivo português que significa literalmente “da cor do lobo” e é atribuído aos cães bicolores parcial ou maioritariamente cinzentos. Esta variedade cromática ainda é visível nalgumas raças caninas, mormente naquelas ligadas à caça e ao pastoreio. Na actividade cinegética é mais fácil encontrar esta pelagem nos rafeiros, porque se confunde com as cores dos ecossistemas adjacentes e põe em risco a vida dos auxiliares. Por causa disto, poucos são os cães de caça cinzentos, que cederam lugar aos malhados e a outras cores uniformes. Como o lobeiro regula a sua pelagem pelo relógio biológico (mais cinzento no Outono e Inverno, mais vermelho na Primavera e Verão), é difícil encontrar exemplares de pêlo comprido nesta variedade sem a manipulação humana. Os criadores apaixonados de CPA-Lobeiro, aqueles que pretendem desvendar os segredos da raça, no legado omisso de Stephanitz e seus seguidores, sempre sonham com um lobeiro de pêlo comprido, porque além de raro é extraordinariamente belo. Assim, não é por acaso que no livro “O MEU PASTOR ALEMÃO”, da autoria do Dr. Bruce Fogle, aparece na contra-capa um exemplar destes. Para o alcançar, não basta beneficiar um exemplar preto-afogueado de pêlo comprido com um lobeiro, porque o factor é recessivo e os lobeiros nascerão incólumes. Neste caso, a haver cachorros de pêlo comprido, eles serão afogueados, ainda que menos peludos que o seu progenitor. Mas se beneficiarmos um desses lobeiros com outro exemplar de pêlo comprido seremos bem sucedidos, porque o lobeiro usado na construção é portador do factor. O aparecimento automático de animais desta variedade não resulta da sorte, mas da ignorância das linhas ascendentes dos cães beneficiados ou da disparidade entre o papel e a genética. O ocultismo é para quem usa e a safadeza para quem o fez.
Falar de lobeiros é falar de Pastores Alemães ou como dizem alguns: de Lobos da Alsácia, ainda que lhes faltem os estribos para a montaria. A proto-dominância da raça foi lobeira e dela se chegou à variedade preto-afogueada pelo contributo de outros factores cromáticos. Graças à presença lobeira, os sucessivos estalões têm contemplado a diversidade pigmentária presente nos membros dos exemplares bicolores. Não há um só lobeiro, mas muitos, na interacção cromática entre o cinza e as outras cores. Ele vai do lobeiro-preto (exemplar negro com cinzento no colar e nos calções) até ao lobeiro branco (exemplar branco apenas com o dorso cinzento), pode seu mais ou menos avermelhado, mais cinzento ou dourado e pode chegar ao cinza uniforme pelo contributo dos exemplares negros. O desprezo inicial pelos brancos e o afastamento sucessivo dos negros tem comprometido a biodiversidade cromática e ocultado a exuberância lobeira.
Durante décadas o lobeiro quase desapareceu, enfraquecendo a raça e restringindo as suas acções, como se dela fosse alheio ou um exemplar de menor préstimo. Não obstante, permaneceu vivo nas classes de trabalho e à função deve a sua sobrevivência. Mas não nos confundamos: não basta ser lobeiro para ser um cão de trabalho! Os lobeiros iniciais e que perduraram até à década de 60, tinham a pele mais clara e menos azulada. Os actuais têm-na invariavelmente azul, pela acção directa da dominância preto-afogueada, ratificada pela certificação pigmentária. Para haver lobeiros basta que um dos progenitores o seja, mesmo que a presença do factor seja na construção minoritária. Em síntese, os lobeiros que hoje proliferam, são preto-afogueados encapotados numa pelagem lobeira, porque a dominância alheia encurta o seu potencial.

Por outro lado, também para não fomentar a hedionda divisão entre trabalho e beleza, que a ninguém serve e é falsa, não convêm criar em separado linhas de lobeiros, porque elas não subsistem sem o contributo da variedade dominante e evoluem para outras características, distantes dos benefícios da selecção operada, já que o CPA contemporâneo carrega consigo algumas mais-valias. Os lobeiros, quando criados em separado, têm tendência para o gigantismo, nanismo e pernaltismo, apresentam um crânio mais pequeno e o focinho afunilado, carecem de dietas mais ricas e são assolados por problemas articulares. Do ponto de vista psicológico, são mais instintivos e resistem à autoridade, procuram a autonomia e desprezam por mais tempo a parceria: são caçadores a modo próprio. O mundo mudou e os métodos também (e que dizer dos homens?), a coerção tende a ser banida e a actual sujeição ao alimento não resolve tudo. Será que os homens do presente estão preparados para os cães do passado? Há que acautelar a parceria, porque sem ela nenhuma raça sobreviverá!
Que vantagens nos trazem os lobeiros?
A variedade é caracterizada por uma maior autonomia operacional e logística, por uma propensão pisteira extraordinária e por uma abordagem segura, podendo fornecer exemplares próprios para o resgate e salvamento, mediante a rusticidade que garante o desempenho em situações particularmente difíceis. A autonomia visível nos lobeiros é advinda de uma máquina sensorial mais aprimorada, que lhes garante a detecção à distância e o preparo nas acções emergentes, condições indispensáveis a um bom guardião. As suas acções ofensivas, senão o estragarem ou houver necessidade do contrário, são extremamente eficazes, porque a sua evolução é dissimulada e tirada a partir da surpresa. Os lobeiros absorvem sem maior dificuldade a recusa de engodos e resistem a novas amizades, mercê da desconfiança e da tendência para o isolamento. Nas propriedades circundadas por bosques ou mato, o lobeiro torna-se praticamente invisível, porque a sua pelagem confunde-se com a do ecossistema confiado. A sua polivalência estende-se também às propriedades de alvenaria, porque ao contrário de outros, procura as sombras e não se deleita a chapinhar nos charcos. Contudo, reclama por mais espaço e abomina o encarceramento.
Das variedades cromáticas presentes no actual CPA, o lobeiro é o que apresenta um odor mais activo, por isso esfrega-se no chão para o ocultar, podendo fazer o mesmo com as fezes do animal a caçar. Nas ninhadas heterozigóticas, onde existem lobeiros e preto-afogueados, é comum assistir-se à divisão dos grupos de modo automático e precoce. O cão lobeiro tem uma curva de crescimento mais alongada, equilibra-se mais tarde e procura a variação das dietas. Não é um comilão inato, mas um cão apreciador das iguarias sazonais: ele come para sobreviver! Muito mais haveria a dizer sobre o lobeiro, mas fiquemos pela analogia: o CPA veste o uniforme de gala no afogueado, o fato de macaco no lobeiro e a farda de guarda-nocturno no negro.

A adopção de um Cão: paredes-meias com a gradidão

Já o fizemos, persistimos na acção e aconselhamos outros a fazê-lo. Todos os cães que resgatámos do abandono, aqueles para quem a sorte foi madrasta, nunca nos desapontaram, a sua fidelidade tem sido inquestionável e a sua gratidão sempre presente. Tal qual um apátrida, numa viagem sem retorno, o cão abandonado padece e procura quem o abandonou, mesmo que tenha sido maltratado ou desprezado. Quando é finalmente adoptado (e são poucos os que alcançam essa felicidade), agarra-se ao novo dono e jamais o abandonará. Rapidamente absorverá as rotinas domésticas, estabelecerá amizade com os membros do agregado familiar e tudo fará para ser bem-vindo. Adoptar um cão é trazê-lo da morte para vida, do desprezo para o aconchego, do isolamento para o grupo e da repulsa para a aceitação. Daqui louvamos os que abraçam esta missão, gente que veio para servir, que apesar de algum desaprovo geral, não hesita em valer àqueles que pedem socorro. Nisto a vida ganha sentido e a justiça ocasião: vale a pena resgatar um cão! Parabéns.

Binómio Francisco / Luna

A Escola tem um novo binómio, o constituído pelo Francisco e pela Luna. O Francisco, apesar de interessado, é novo nestas andanças, participou nos trabalhos e integrou-se facilmente no grupo. A Luna é uma cachorra Boxer com 4 meses de idade, tigrada e bem disposta. O binómio foi recomendado pelo Dr. Mário Henriques. Desejamos aos neófitos a satisfação plena dos seus anseios.

Fim-de-semana de 24 e 25 de Outubro: Do Funchal à Boca do Inferno

Este fim-de-semana foi pesado em termos de trabalho, não nos poupámos e partimos para o desafio. No perímetro escolar executámos as diferentes manobras de sociabilização animal e depois fomos laborar para outras paragens. Na encosta do Funchal, no Serro que antecede Alcainça a Sul, exercitámos a imobilização à distância e evoluímos segundo o escalonamento escolar, apesar do terreno ter uma inclinação próxima dos 45 graus. O tempo esteve de feição e tivemos a companhia do pôr-do-sol. No Sábado ainda tivemos tempo para baptizar a Geize, uma jovem que nos visitou e participou dos nossos trabalhos.
E Domingo não escapou à regra, trabalhámos também os dois turnos. De manhã estivemos nos campos da Boavista e de tarde deslocámo-nos à Boca do Inferno (na estrada que vai de Cascais para o Guincho). O trabalho domingueiro foi pesado e o calor fez-se sentir, a Princesa protestou e outros nem por isso. A Mariana suou as estopinhas e ficou encarregue do Pipo, a Isis foi ver as paisagens e a Amora não parava quieta, apesar das roucas advertências da sua dona. O Rex, a chegar à 3ª idade, comportou-se à altura e ainda posou para a fotografia. Contudo, teima em abandonar o mau feitio (o Pepe que o diga!). O binómio Bruno/Pepe, além de sair ileso, mostrou uma cumplicidade invejável e todos os binómios cumpriram.
Na parte da tarde, depois de almoçarmos no il Mássimo, lá fomos nós para a Boca do Inferno, o tempo estava esplêndido e o local bastante concorrido (mal havia espaço para estacionar os carros). Apesar disso, a feira limítrofe estava às moscas e o número de estrangeiros muito reduzido. Trabalhámos nas rochas junto ao mar, entre pescadores e turistas, providenciando um encontro inesperado. Inesperado foi também o comportamento da Isis, que apesar da confusão reinante, se comportou como uma verdadeira dama, merecendo da improvisada assistência rasgados elogios. Uma menina ali presente, Vanessa, se não nos falta a memória, acabou por conduzir a Isis, o Greg e o Loki. Felizmente (outra coisa não era de esperar), tudo correu conforme o esperado e os objectivos foram alcançados. Deslocámo-nos ali para subsidiar a obediência incondicional e não saímos defraudados.
Participaram nos trabalhos os seguintes binómios: Alexandra/Abu, Ana/Loki, Bruno/Pepe, Eduardo/Micks & Vega, Francisco/Luna, Isabel/Amora, Jorge/Juvat, Octávio/Greg, Princesa/Pipo & Ricky, Roberto/Teka & Turco, Rui Ribeiro/Isis, Tiago/Rex e Zé Gabriel/Master & Menina.