sexta-feira, 15 de novembro de 2019

ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS

Quando já só existem 700 matilhas de cães selvagens africanos (Mabecos), pesquisadores do Botswana esperam recriar a urina produzida por estes predadores nos seus locais de identificação de cheiros, para conseguirem mantê-los seguros em áreas protegidas. Actualmente, os Mabecos encontram-se em algumas dezenas de áreas fragmentadas entre o Chade e a África do Sul, se acordo com o manifesto pela União Internacional para a Conservação da Natureza. A maior ameaça que enfrentam é quando invadem fazendas ou áreas próximas dos assentamentos humanos, ocasião em que matam o gado e são depois alvo dos ataques de fazendeiros raivosos, quando não são atropelados ou presos em armadilhas.
De acordo com os pesquisadores, o uso da urina sintética para criar locais de marcação artificiais dará aos conservacionistas uma nova ferramenta para ajudar a manter os cães selvagens em segurança e longe da actividade humana. "A urina e as fezes depositadas nos seus locais de marcação transmitem sinais químicos que impedem que as matilhas invadam os territórios umas das outras", disse Peter RFI, líder da pesquisa de BioBoundary no Botswana Predator Conservation Trust (BPCT). Este cientista e a sua equipa planeiam "recriar os sinais e usá-los para criar limites artificiais de território chamados BioBoundaries que manterão os cães ameaçados em segurança dentro de áreas protegidas da vida selvagem".
O uso de locais comuns de marcação de odores por cães selvagens foi descoberto através de um trabalho de campo minucioso pela pesquisadora do BPCT, Megan Claase, quando ela viu um cão selvagem empacotar "marcas de cheiro" onde outros cães selvagens já haviam feito o mesmo. Foram montadas câmaras para monitorar a actividade dos cães selvagens no local, e foram recolhidas milhares de imagens e horas de vídeo que revelavam a presença de 4 matilhas diferentes a usar regularmente o mesmo território. Este comportamento contrasta com a imagem padrão dos cães selvagens africanos, como animais que vagueiam erraticamente em grandes áreas domésticas, mas correspondiam ao comportamento de marcação de odor de outros carnívoros.
Passaram 4 anos e as matilhas de Botsuana estudadas pelo BPCT ainda estão a usar o mesmo sítio, segundo afirma a Apps do Botswana Predator Conservation Trust. “Descobrir os locais de marcação é a chave que desbloqueia o uso de marcas artificiais para manter os cães selvagens em segurança dentro das áreas protegidas”, explicou ele. "Se apenas a urina e as fezes depositadas nos locais de marcação contêm mensagens químicas e as que são deixadas noutros lugares são apenas resíduos, os resultados das nossas análises químicas fazem todo o sentido", disse ele. "Isso irá permitir-nos implantar marcas artificiais em padrões espaciais que imitam o modo dos Mabecos distribuírem as suas marcas de odor naturais".
No Zimbabué, recentemente, um grupo de conservação teve que transportar uma matilha de cães selvagens do Parque Nacional de Hwange, no oeste do país, para outro parque a 400 quilómetros de distância. Os cães estavam a afastar-se de Hwange e a atacar cabras num distrito agrícola próximo. Em face disso, temia-se pela segurança dos cães. "É ainda muito cedo para dizer se um BioBoundary de odor artificial funcionaria em casos particulares", fez saber a Apps. "Mas uma matilha que sai de uma área protegida e que causa problemas nas áreas vizinhas de gado, seria o tipo de problema que ele teria como objectivo resolver". Assim têm sido os últimos esforços em prol dos cães selvagens africanos. Oxalá os BioBoundaries tenham êxito, antes que seja tarde demais.

INSÓLITO

Um cachorrinho de 10 semanas de idade, provavelmente um híbrido de Dachshund, foi encontrado à beira de uma estrada pela associação sem fins lucrativos “Mac’s Misson”, de Jackson, no Missouri, com o que parece ser uma cauda na testa, vindo a merecer o nome de “Narwhal” numa alusão à baleia com o mesmo nome que tem uma presa com 1 metro de comprimento. O cachorro não consegue abanar aquela “cauda”, porque de acordo com os raios X, ela não se encontra ligada ao esqueleto. Não obstante, como o apêndice não perturba o cachorrinho, não deverá ser removido.
Por ter postado fotos do Narwhal, o cão unicórnio, na sua página do Facebook, a “Mac’s Misson” recebeu dezenas de ofertas de adopção e o cachorrinho com aquela má formação já tem milhares de fãs online. Esta associação alberga para posterior adopção cães com várias incapacidades, deficientes, trucidados e necessitados de cuidados permanentes. Deseja-se que o aparecimento do Narwhal seja seguido de um grande número de adopções naquela ONG.

NEM O CÃO ESCAPOU À LOUCURA

Nunca se ouviu falar de tanta gente presa com idade de ter juízo, de crimes violentos ou atrozes cometidos por sexagenários, septuagenários e até octogenários. A velhice associada à demência e à notícia do crime violento será a responsável? Lá que a nossa população está a envelhecer, está, mas isso não lhe dá o direito de atentar contra si e contra os outros! Para onde foi a histórica cautela dos nossos anciãos? Na cidade alemã de Wülfrath, localizada no Distrito de Mettmann, na região administrativa de Düsseldorf, no Estado da Renânia do Norte-Vestefália, um homem de 60 anos matou a mãe de 87, a esposa de 57 e o cão da família, sendo os seus corpos encontrados no passado dia 7 do corrente mês. O assassino viria a suicidar-se quatro dias depois, Segunda-feira, dia 11, deixando uma carta no correio para a polícia a dizer que encontraria os corpos na casa da família. Não deixou nada escrito sobre os motivos que o levaram a tamanho despropósito. Ao que tudo indica, o casal não tinha filhos e a comissão de homicídios constituída para o efeito já excluiu a hipótese de dívidas a terceiros. Loucura, desespero, sofrimento e cobardia, ainda que confundidos com sentimentos nobres, podem estar por detrás desta tragédia.

ABATIDO POR “FOGO AMIGO”

Anteontem pela madrugada, no quartel do aeroporto de Wiener Neustadt, na Áustria, quando a maioria dos soldados Jagdkommando estava em exercício na Estíria, um oficial de serviço avistou dois Pastores Belgas Malinois daquele aquartelamento soltos. De imediato chamou um tratador militar para encerrar os animais, facto que aconteceu por volta das 2 horas da manhã. Enquanto inspeccionava o canil, o tratador canino deu com um graduado ferido fatalmente, um Sargento-Chefe de 31 anos, do Distrito de Mödling, na Baixa Áustria, que esteve ao serviço do exército austríaco desde 2005 e que em 2017 se tornou membro da unidade cinotécnica, homem reconhecido como "um colega muito experiente, prudente e atencioso", que naquele fatídico dia tinha como missão, a partir das 16 horas, alimentar os cães militares.
Suspeita-se, já foi aberto um inquérito, que o finado Sargento tenha sido vítima daqueles dois Malinois que se encontravam soltos, um adulto treinado como cão militar e um cachorro de apenas 6 meses de idade, recém-chegado ao treino. A causa do ataque canino letal, não ordenado, ainda está por encontrar e não deixa de causar alguma estranheza, já que todos os soldados da unidade cinotécnica, apesar de terem o seu próprio cão distribuído, trabalham a totalidade dos cães da sua unidade, cumprindo assim os dos objectivos da sua formação (este objectivo tradicionalmente militar continua a ser respeitado na Acendura Brava, quando procedemos à “Troca de Condutores”).
O Exército Austríaco tem cães nas suas fileiras desde 1964 e esta é primeira vez que acontece um incidente destes. Actualmente, as Forças Armadas da Áustria têm 70 cães militares: 41 Rottweilers, 15 Pastores Belgas, 5 Pastores Alemães e 9 Labradores, todos treinados no Centro Militar de Cães das Forças Armadas Austríacas, em Kaisersteinbruch, Burgenland. Estes cães estão preparados para levar a cabo tarefas domésticas e no estrangeiro. Segundo o Coronel Michael Bauer, porta-voz do Exército, “os cães do comando de caça são treinados para neutralizar o inimigo, quando este invade uma casa. Se o atacante foge, o cachorro impede-o e se o ficar parado, o cão pára."
Parece não haver dúvidas – o Sargento-Chefe, que na altura deixou o seu cão trancado no carro, foi morto pelos dois cães, abatido por fogo amigo! Não há dúvida que o Malinois é um cão formidável, rústico, bélico como poucos, aparentemente incansável, leve e também próprio para operações aerotransportadas. Contudo, devido à sua celeridade, carga instintiva e dissimulação operativa, é até capaz de dispensar a provocação dos opositores para desferir os seus ataques, o que por vezes chega a ensurdecê-lo e a retardar o seu travamento, dificultando assim o seu controlo e impedindo que seja um cão para todo e qualquer tratador.
Hoje, que tanto se fala de stress e cortisol, seria bom verificar os seus níveis em cães deste calibre, provavelmente bem altos, desgastantes, atentatórios do bem-estar canino, da sua saúde e longevidade, também indutores ao seu desnorte, independentemente dos meios ou métodos utilizados para a sua investidura militar. No caso da morte do Sargento-Chefe Jagdkommando, o homem estava no sítio errado e na hora errada! Este incidente deverá obrigar as companhias cinotécnicas como um todo a repensar os seus critérios de selecção, métodos de ensino e estratégias, antes que o “feitiço se vire contra o feiticeiro” vezes sem conta.

PIADA PARA O FIM-DE-SEMANA: O HOMEM QUE NÃO QUERIA SER CÃO

Num processo de divórcio, o juiz dirige-se ao homem e pergunta-lhe qual a razão que o leva a querer divorciar-se da sua esposa. Sem hesitar, o homem responde-lhe: “A minha mulher trata-me como um cão!”. Estranhando aquela resposta, o juiz pergunta-lhe se ela o maltrata ou lhe bate. Prontamente o inquirido afirma: “Não, quer que eu lhe seja fiel!”

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos obedeceu à seguinte preferência:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ HÍBRIDO DE CHOW-CHOW/PASTOR ALEMÃO: MÁQUINA OU DESASTRE?, editado em 11/05/2016
3º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO!, editado em 05/06/2010
4º _ O DEVANEIO, A GIÁRDIA E A FALTA DE HIGIENE, editado em 24/02/2015
5º _ PASTORES ALEMÃES LOBEIROS: O QUE OS TORNA ESPECIAIS, editado em 02/11/2015
6º _ DOBERMAN: O CÃO QUE É MENOS DO QUE SE SUPÕE E MAIS DO QUE SE IMAGINA, editado em 06/03/2016
7º _ FUMAR SÓ TRAZ CHATICES, editado em 12/11/2019
8º _ ESTA VEIO DA UNIVERSIDADE DO PORTO, editado em 12/11/2019
9º _ GATO NO REGADOR, editado em 12/11/2019
10º _ O PESO DOS 4 MESES NO CÃO DO AMANHÃ, editado em 28/10/2010

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Reino Unido, 5º Região Desconhecida, 6º Alemanha, 7º Bélgica, 8º Angola, 9º Holanda e 10º Irlanda.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O AKITA SHEPHERD OU SHEPKITA

O AKITA SHEPHERD ou SHEPKITA é um híbrido de Pastor Alemão com Akita Inu, desenvolvido maioritariamente nos Estados Unidos, no seguimento de outros híbridos produzidos a partir do Cão de Pastor Alemão e obedecendo também à actual tendência de produzir cães mais rústicos e saudáveis. É impossível negar que este híbrido, contrariamente ao que sucedeu com tantos outros, consegue juntar o que de melhor há nas duas raças, alcançando níveis de interacção muito elevados e uma rusticidade raramente vista, que se reflectem num extraordinário apego ao dono e na sua territorialidade, características que poderão transformá-lo num excelente cão militar, tendo um desempenho similar ao verificado no híbrido Chow-Chow X Pastor Alemão, muito embora seja um mais robusto e tenaz, eventualmente menos teimoso e mais independente.
Apesar de ser um cão que forma fortes laços de amizade com os donos e poder ser um óptimo cão de família, o Shepkita ao ser incrivelmente ousado e alerta, portador de um forte instinto defensivo e um guardião inato, poderá evidenciar um comportamento agressivo. Dizem alguns especialistas que encontra com alguma facilidade as fragilidades dos donos (apalpam-lhes os calções), necessitando de um treinador firme e robusto, autoritário e confiante que o saiba controlar com algum tacto e que nunca prescinda da liderança.
Por outro lado, enquanto portador de um tórax bem desenvolvido, de ombros fortes e de uma biomecânica invejável, o Shepkita reclama por muita actividade física diária e adora saltar e correr, transitando com facilidade de andamentos, pormenores que lhe possibilitam participar em actividades vigorosas que exigem esforço físico. A ausência de tarefas diárias levá-lo-á a intentar fugas ou a apresentar tarefas que não lhe foram solicitadas, tanto dentro como fora de casa. Este particular obrigará a uma cerca de quintal capaz, com 2 metros de altura e suficientemente forte. Também importa sociabilizá-lo com outros cães antes da maturidade sexual e depois dela, mas fora do seu território.
Este lupino voador com altura e peso idênticos aos do Cão de Pastor Alemão, mas com superior envergadura e maior poder de choque, ressuscita a cor vermelha presente inicialmente nos Pastores Alemães e hoje praticamente inexistente na Europa. Os seus problemas de saúde mais comuns reduzem-se à torção gástrica (quando come demais), aos olhos secos (quando as pálpebras não fecham totalmente durante o sono) e à alergia ao milho nos seus repastos. Quanto ao resto, estamos perante um cão sério, daqueles que enche o olho a quem não dispensa e aprecia cães de trabalho, impróprio para novatos e uma excelente dádiva para os experientes. O Shepkita já foi reconhecido IDCR, registo internacional para cães híbridos.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ESTATÍSTICA JÁ ESPERADA, MAS PREOCUPANTE

Numa pesquisa recente da Statista(1) em colaboração com o YouGov(2) para ambos os sexos, descobriu-se quais são os atributos que os viciados em namoro acham particularmente atraentes. No topo da lista o que mais atrai o oposto é a posse de uma casa. O entusiasmo é maior nos homens do que nas mulheres (54% contra 45%). Ter um carro vem em segundo lugar. Cães e gatos são mais procurados pelas mulheres do que pelos homens. De acordo com a pesquisa, as pessoas com piercings, crianças e tatuagens são as menos procuradas. O desejo de ter filhos com um parceiro, especialmente para as mulheres, pode constituir-se num critério de exclusão.
Estes resultados não deixam dúvidas a ninguém e permitem calcular como será o mundo daqui para a frente, se entretanto não acontecer uma reviravolta: mais separações, mais famílias monoparentais e mais cães do que filhos, o que levará à divinização dos primeiros e ao desprezo pelos segundos (o que já está a acontecer por razões que ultrapassam as socioeconómicas). Diante desta tendência, as grandes indústrias terão que se virar, obrigatoriamente, para o mundo dos animais de companhia, dedicando-lhe segmentos de mercado até há pouco tempo inimagináveis. Assim vai o nosso mundo e não sabemos o que mais virá a acontecer-nos!
(1)O Statista é um portal online alemão de estatística , que disponibiliza dados recolhidos por institutos de pesquisa de mercado, de opinião e derivados do sector económico. As suas estatísticas oficiais encontram-se disponíveis em inglês, francês, alemão e espanhol. O Statista é um dos bancos de dados estatísticos de maior sucesso no mundo. (2) A YouGov é uma empresa líder internacional de pesquisas de mercado baseada na Internet e sediada no Reino Unido, com operações na Europa, América do Norte, Médio Oriente e Ásia-Pacífico.     

BRUTALIDADE E DEMÊNCIA

Vamos primeiro à brutalidade. Segundo o Daily Star online de ontem, um ladrão de 30 anos, Daniel Williams (na foto seguinte), foi condenado a 18 semanas de prisão pelo Tribunal de Magistrados de Swansea, por ter lançado pela janela da residência que estava a assaltar uma cadelinha de 4 anos, Dobbie, que se encontrava sozinha em casa, uma cruzada de Jack Russel com Chihuahua, que não se calou perante o assalto e que foi defenestrada dum 2º andar, de uma altura superior a 9 metros. O ocorrido teve lugar em Neath, no País de Gales, no passado dia 2 de Setembro e a cadelinha acabou com a bacia e as pernas partidas.
O pequeno animal havia sido adoptado de um abrigo e a sua dona, Jordanna Davies, de 25 anos, diz-se sofrer de transtorno de personalidade limítrofe, de depressão e ansiedade por causa do ocorrido. Adiantou também que foi ajudada por familiares e amigos para fazer face às despesas com o tratamento do pobre animal e que, como é mãe solteira (do cão) e não tem grandes meios, foi criada uma conta no GoFundMe para ajudá-la nas despesas da Dobbie com o veterinário.
Agora vem a demência. Anthony Blair termina a notícia dizendo: “Não é segredo que o Reino Unido é uma nação de amantes de animais. Em Fevereiro deste ano, um estudo descobriu que 15% dos britânicos amam mais o seu animal de estimação do que seu parceiro.” É caso para se perguntar que raio de demência se abateu sobre as Ilhas Britânicas (Good save The Queen!), porque 15% é muita gente, cerca de 9 milhões e 966 mil britânicos. Como o estudo foi publicado em Fevereiro, no inverno, é possível que muitas pessoas se encontrassem a braços com a “Seasonal Affective Disorder” (SAD), só pode!

100 DIAS E 1.393 KM PARA FICAR EM PAZ COM O PASSADO

No intuito de ficar em paz com o seu passado, um ex-refugiado da RDA(1), Mário Goldstein, acompanhado pelo seu Pastor Alemão Branco(2), decide percorrer a antiga fronteira interna da Alemanha, que se estendia das praias do Mar Báltico, no Priwall, até Vogtland(3), no sudoeste, como parte da então conhecida por “Cortina de Ferro”, num total de 1.393 km.
O caminhante, que bem se podia chamar de “peregrino do seu passado”, percorreu aquela distância em 100 dias, onde outrora havia 1.265 km de barreiras de chapa, 578 torres de vigia, arame farpado, bunkers de terra, postos fronteiriços, pontos referenciados, postos de queima e 1,3 milhões de minas terrestres. O lado leste da fronteira interna alemã estava massivamente protegido e ceifou centenas de vítimas.
Apesar disso, repetidamente, vários cidadãos da extinta RDA ousaram empreender uma fuga arriscada, como foi o caso de Goldstein, da Vogtland, que falhou duas tentativas e acabou resgatado da custódia da Stasi(4). Durante décadas ele evitou aquela faixa fronteiriça, as memórias estavam ainda frescas e eram muito dolorosas. Só mais tarde viria a fazer as pazes com o seu passado, quando decidiu percorrer a pé, de mochila às costas e com o seu cão, a linha daquela hedionda fronteira, que não envergonhou só a Alemanha, a Europa ou os Estados Unidos, mas todo o mundo livre.
Depois de terminada a viagem ao seu passado, Goldstein publicou um impressionante livro ilustrado chamado “ABENTEUER GRÜNES BAND”, onde mostra os seus encontros ao longo da faixa fronteiriça, que entretanto se transformou num enorme cinturão verde (daí o título dado ao livro).
Sunny, o seu Pastor Alemão Branco, que o acompanhou na jornada de 100 dias, também foi ataviado de mochila, carregando o indispensável em alguns percursos, junto ao muro ainda visível que chegou a ser patrulhado, dia e noite, por 44.000 soldados armados. Goldstein caminhou por todas aquelas lajes de betão perfurado de duas fileiras, acampando num antigo posto de controlo, que era varrido diariamente uma vez  para possibilitar a detecção de marcas reveladoras e tentativas de fuga.
Hoje predomina o verde naquela fatídica fronteira e Goldstein estabeleceu finalmente a paz com o seu passado, acompanhado pelo seu cão branco, branco da cor da paz!
(1)Antiga República Democrática Alemã, território ocupado e país satélite da União Soviética, internacionalmente designado pela sigla DDR. (2) O Pastor Alemão branco foi excluído da raça no tempo do “Nationalsozialismus”, é um CPA igual aos outros e aguarda, há demasiado tempo, pela sua reintegração. É também conhecido como Pastor Suíço e Pastor Canadiano. (3) Região que abrange os estados federais alemães da Baviera , Saxônia, Turíngia e Boémia. (4) A Stasi (forma curta de Ministerium für Staatssicherheit, "Ministério para a Segurança do Estado") era a principal organização de polícia secreta e inteligência da República Democrática Alemã.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

IDADE E EXPERIÊNCIA

Um grupo de pesquisadores do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana avaliou como a experiência com cães afecta a capacidade dos seres humanos em reconhecer as emoções caninas. Os participantes do estudo que cresceram num contexto cultural mais favorável aos cães foram mais proficientes em reconhecer as suas emoções, sugerindo que a capacidade de reconhecer as expressões dos cães é aprendida através da idade e da experiência, não é inata e nem provém duma adaptação evolutiva.
Neste recente estudo, liderado por Federica Amici, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, e Juliane Bräuer, do Instituto Max Planck de Ciência da História Humana, os pesquisadores se propuseram a entender até que ponto os seres humanos conseguem entender as exibições emocionais dos cães e donde vem esse entendimento. No intuito de testar o tanto que os humanos conseguem entender sobre as emoções presentes nas expressões faciais dos cães, os pesquisadores recolheram fotografias de cães, chimpanzés e humanos exibindo emoções felizes, tristes, zangadas, neutras ou medrosas, comprovadas pelos fotógrafos. Seguidamente recrutaram 89 participantes adultos e 77 crianças participantes e categorizaram-nos de acordo com a idade, a positividade do cão no seu contexto cultural e a história pessoal dos participantes relativa à posse de cães.
Cada participante foi presenteado com fotografias de cães, chimpanzés e seres humanos, e foi-lhe solicitado que avaliasse quanto o indivíduo na figura mostrava felicidade, tristeza, raiva ou medo. Também foi solicitado aos adultos que determinassem o contexto em que a foto havia sido tirada (por exemplo, brincando com um parceiro de confiança da mesma espécie; directamente antes de atacar um igual). Os resultados do estudo mostraram que, embora algumas emoções dos cães possam ser reconhecidas desde o início, a capacidade de reconhecer de forma confiável as emoções dos cães é adquirida principalmente com a idade e a experiência. Nos adultos, a probabilidade de reconhecer as emoções dos cães era maior nos participantes que cresceram num contexto cultural com uma atitude positiva em relação aos cães, independentemente de possuírem um cão ou não.
Um contexto cultural pós-cão, em que os cães estão intimamente integrados na vida humana e são considerados muito importantes, pode resultar num nível mais alto de exposição passiva, maior inclinação e interesse pelos cães, o que fará com que os humanos reconheçam melhor as emoções dos cães, mesmo que não tenham sido proprietários de nenhum. "Estes resultados são dignos de nota", diz Amici, "porque sugerem que não é necessariamente a experiência directa com cães que afeta a capacidade dos humanos em reconhecerem as suas emoções, mas o ambiente cultural em que os humanos se desenvolvem".
Os pesquisadores também descobriram que, independentemente da idade ou da experiência com cães, todos os participantes foram capazes de identificar a raiva e a felicidade de maneira confiável. Embora esses resultados possam sugerir uma habilidade inata favorecida pela hipótese de domesticação, também é possível que os humanos aprendam a reconhecer essas emoções rapidamente, mesmo com exposição limitada. Além da raiva e da felicidade, as crianças do estudo não conseguiram identificar as emoções dos cães. Porém, reconheceram a raiva e a felicidade de maneira mais confiável nos cães do que nos chimpanzés, mas identificaram as emoções dos cães tão mal quanto as emoções dos chimpanzés, sugerindo que a capacidade de entender as emoções dos cães não é inata.
"Acreditamos que seria valioso realizar futuros estudos que procurem determinar exactamente quais os aspectos culturais que afectam a capacidade de ler as emoções de um cão e incluir estímulos da vida real e expressões corporais, além de estímulos instruídos e expressões faciais", afirma Bräuer. "Dessa maneira, poderíamos desenvolver uma melhor compreensão da variação intercultural no reconhecimento das emoções. Esperamos que essas informações possam ser usadas para reduzir a ocorrência de incidentes negativos entre humanos e cães causados ​​pela incapacidade dos humanos em ler os sinais dos cães". Depois do que transcrevemos, porque este estudo concluiu o que já sabíamos e é óbvio, apetece-nos dizer: “im osten nichts neues”.

OS INCAUTOS SÓ SERVEM PARA DAR TRABALHO

Nesta Segunda-feira, lá para os lados de Grundlsee, no município austríaco de Liezen, na Estíria, um homem de 53 anos, do Distrito de Gmunden, pôs na cabeça fazer uma longa caminhada pelas Montanhas Mortas que ladeiam o Lago Grundlsee, seguindo o trajecto Almsee sobre Pühringerhütte, Appelhaus e Rinnerhütte para Offensee. Às 06H30 de Almsee, o homem partiu com o seu cão rumo à subida de Sepp Huber no alto das montanhas Mortas, apesar de não se encontrar adequadamente equipado para aquela jornada invernosa.
Devido à neve cada vez mais profunda e à exaustão, o homem fez uma chamada de emergência. Como não foi possível resgatá-lo de helicóptero, porque já estava escuro e o vento soprava muito forte, do helicóptero saíram algumas equipas de resgate deixadas na área, que encontraram o homem e o cão ilesos por volta das 17 horas locais, num terreno acidentado a 1.800 metros de altitude acima do nível médio das águas do mar. O homem chegou sem mazelas ao vale e nenhum dos socorristas se feriu. Decididamente os incautos só servem para dar trabalho!

GATO NO REGADOR

Eu não sei como ele se chama, nem sei tampouco se tem nome, certo é que me acompanha no adestramento da Salsa, seguindo-nos alegre pelas lezírias verdejantes e em curtos trajectos de bosque, roçando-se na cadela, dando-lhe marradinhas e lambendo-a, meiguices que a Salsa parece não dispensar. Nós também nunca dispensamos um Slalom, mesmo que improvisado, para reforço da condução em liberdade e como melhoria da técnica de condução.
No slalom o condutor é obrigado a incentivar, a colocar-se e a entrar na condução nuclear(1) por força do obstáculo. E não pode demorar muito a aprender os requisitos técnicos exigidos pelo obstáculo, porque os cães desgastam-se a concentrar-se e fartam-se depressa. Escusado será dizer que o Slalom não dispensa o reforço positivo, porque só ele conseguirá tirar o desempenho alegre que propicia a execução célere.
Com a Salsa a responder excelentemente ao comando de “junto” em liberdade, os percursos agora a percorrer são maiores e mais apelativos à fuga. Contudo, a cadela nunca ensaiou qualquer tipo de fuga, permanecendo quase irrepreensivelmente ao lado da dona, que obviamente não está para correrias.
Se o comando de “junto” não merece grandes reparos, já o do “quieto à distância” merece mais atenção, porque a Salsa não se sente cómoda quando afastada da dona para lá dos 100 metros lineares, ainda que ao abandonar o lugar sempre corra para a sua condutora. O tempo e o treino virão em nosso auxílio.
Contudo, até 50 metros, podemos deixá-la num local por tempo indeterminado, que ela não sairá de lá (normalmente deita-se diante das delongas, mas não abandona o seu posto). Hoje pusemo-la dentro de uma manilha de escoamento, para que pouco a pouco aprenda a esconder-se e a observar tudo ao seu redor.
Para que não se acostume a dormitar nas horas do treino e ganhe resistência, colocámo-la em cima de um monte de brita e areia, o que parece ter resultado em pleno, porque ao sentir-se mais alta e em vantagem serenou completamente.
Ainda não sabemos quando voltaremos a ver esta Cão de Gado Transmontano, animal cujo progresso guardamos no coração pela sua grande generosidade. Até já, Salsa!
(1)Condução caracterizada pela minimização do esforço humano e pela maximização do esforço canino.

FUMAR SÓ TRAZ CHATICES

Cinquenta anos depois deixei de fumar e já lá vão dois anos, vício que mantive mesmo nos momentos em que não me encontrava nada bem. Livrei-me do vício graças a um urologista que consultei, que não me encontrando nenhuma maleita da sua especialidade, disse-me: “Você fuma? A minha mulher, que é pneumologista, já ajudou muita gente a deixar de fumar, pelo que devia marcar-lhe uma consulta.” Surpreendido pelo arrojo e perplexo com a sentença, de certa maneira ofendido e envergonhado, perguntava para mim mesmo se ia precisar de falar com a mulher do médico para deixar de fumar. Passados alguns instantes deixei de ter dúvidas e larguei o tabaco até hoje, “amigo da onça” de quem não sinto falta (não me incomoda que fumem perto de mim). Todavia, ainda me lembro dos transtornos provocados pela falta de tabaco ou de isqueiro, também do incómodo de “cravar os outros.”
Segundo o T-online, um casal de húngaros acompanhados pelo seu pequeno Chihuahua, decide apanhar um comboio com destino a Magdeburg, capital do Estado de Sachsen-Anhalt. Quando o comboio pára em Dessau, o casal sai da composição para fumar e deixa o seu cão dentro do comboio. Inesperadamente o comboio parte e leva consigo o pequeno cão e a bagagem do descuidado casal, obrigando o animal a fazer vários quilómetros sozinho. Os húngaros inconsolados conseguiram comunicar com o comboio, apanharam um táxi e demoraram uma hora a reencontrar-se com o seu Chihuahua “ferroviário”.
Há uns anos atrás também ia vendo o comboio partir, não em Dessau, mas na estação de Vilar Formoso, quando às 5 horas da manhã, altura em que se troca de máquina, desci do comboio Madrid-Lisboa para fumar. Estava tão entretido a falar com um motorista de táxi local(1), que me vi obrigado a apanhar o comboio em andamento. Não há dúvida – fumar só traz chatices.
(1)Lembro-me perfeitamente das circunstâncias e do tema da conversa. Eu regressava de Madrid, depois de ter ido visitar uma criança que me era muito querida e o taxista lamentava a sua sorte, porque tinha-se apaixonado por uma brasileira em Algés, que trabalhava na consultório dentário e o que o deixou na penúria. A família, por sua vez, nunca lhe perdoou e o amante infeliz dormia então dentro do táxi.

ESTA VEIO DA UNIVERSIDADE DO PORTO

Segundo um estudo realizado na Universidade do Porto e publicado no bioRxiv, site que rastreia artigos de biologia antes da revisão prevista para a publicação oficial em revistas científicas, o treino autoritário tende a tornar os cães mais stressados e pessimistas, com efeitos que persistem ao longo do tempo. Nos quatro vídeos presentes no estudo, liderado por Ana Catarina Vieira de Castro, os cães com reforços negativos mostram sinais óbvios de stress, lambendo os lábios amiúde e bocejando. Estes comportamentos de “espionagem” foram também confirmados no teste de saliva, realizando antes e depois do treino, verificando-se nos animais um aumento do hormónio do stress – o cortisol.
Para verificação da durabilidade desses efeitos, um mês depois, os pesquisadores levaram a cabo um novo experimento em 79 cães para ver como eles reagiam a uma possível recompensa. Colocaram-nos primeiro numa sala que tinha duas tigelas, uma com uma salsicha e a outra vazia. Depois de familiarizarem os animais com a situação, os cientistas colocaram uma terceira tigela vazia ente as duas iniciais, medindo depois a rapidez com que os cães de aproximavam. Os cães treinados com reforços positivos atiraram-se logo à tigela, confiando nela encontrar a salsicha, enquanto os treinados com reforços negativos vacilavam por mais tempo, mostrando-se menos entusiasmados (desconfiados).
Louva-se o aparecimento de estudos destes em território nacional e obra de portugueses, muito embora as conclusões do estudo não sejam para nós novidade porque outros já as descobriram há muito. O aumento dos níveis de cortisol não pode ser compreendido separadamente do animal e das acções a que é sujeito, porque cada cão é um caso. Um cão treinado só com base no reforço positivo, quando sujeito a descer de pára-quedas com o seu dono, não verá os seus níveis de cortisol aumentados? Os cães usados na busca e resgate não manifestarão o mesmo aumento(1)? E os cães de guarda?
Mas se importar desligar o cão dos seus serviços, para melhor entendimento do que pretendemos dizer, naturalmente, qualquer cão sofrerá um aumento do stress quando se vir obrigado a respeitar a hierarquia da matilha, a lutar pela sua liderança, pela posse de uma fêmea ou estiver a caçar. O que mais importa não é provar a existência do stress, mas calcular o nível em que se tornará lesivo para ao animais, ao ponto de comprometer a sua longevidade e sobrevivência, já que os cães são predadores e há muito acostumados ao stress, stress que indevidamente é por vezes aproveitado para determinado tipo de respostas.
Estamos totalmente de acordo com o “reforço positivo” e reconhecemos as suas vantagens. Porém, existem determinados trabalhos e circunstâncias em que não podemos prescindir de um par de comandos inibitórios, que usados excepcionalmente, visam a salvaguarda dos animais e o cumprimento imediato das ordens. O controlo de um cão não pode passar só pela aceleração, necessita também de travão! Se os cães tivessem a nossa clarividência, seria gratuito inibi-los fosse do que fosse, mas infelizmente não são! A longevidade dos nossos cães, que ronda os 14 anos e meio, havendo alguns que chegam aos 16, tem vindo a dar-nos razão nesta matéria(2). As experiências negativas, quer queiramos ou não, são lições de e para a vida.
(1)Muitas vezes, os cães destinados à busca e ao resgate, mercê do stress, terão que o fazer munidos de um açaime, porque de outro modo poderão morder os desaparecidos ou resgatados. (2) A média baixa de vida de um Pastor Alemão é de 10 anos e a alta de 14.