No seguimento do inquérito judicial,
chamado a pronunciar-se, Martin McDonagh, filho da vítima e marido de Sheryl,
disse que havia comprado dois cachorros de Presa Canário há 8 anos por 500
euros (o terceiro cão é filho destes), animais que viu anunciados no sie “Done
Deal” e que já lhe chegaram de orelhas cortadas. Adiantou que comprou estes
cães por acontecerem vários arrombamentos naquela área habitacional (afinal os
cães não eram para dar beijinhos a ninguém!). Declarou como “incidental” a
criação de Presas Canário que acabou por fazer, num total de vinte e tal
cachorros que vendeu entre 100 e 250 euros. Martin disse ainda que estava
ciente de que o carteiro “estava com medo” dos cachorros e, que por esse
motivo, mudou o lugar da sua caixa do correio. “Se alguém achava que os animais
eram capazes de matar alguém, então deveria ter-me contado e os cachorros
teriam sido mortos”, disse ainda (será que o homem comprou aqueles cães sem se
informar primeiro acerca deles? Se o fez, não o deveria ter feito, uma vez que
tem 4 filhos e qualquer um deles poderia acabar “acidentalmente” nas potentes
mandíbulas daqueles cães!).

O dito carteiro, o Sr.
Barry Haddock, também foi chamado a depor e contou durante o inquérito vários
incidentes ocorridos com aqueles cães em 2015, dois anos antes da morte da
senhora Teresa McDonagh, altura em que os pneus da sua carrinha foram
perfurados pelos daqueles animais, viatura que abanava bastante quando isso
sucedia. Em certa ocasião, um dos cães saltou um muro e furou-lhe um dos pneus
da carrinha, enquanto conversava com o seu dono acerca de um incidente anterior
(bons indícios!). Haddock concluiu durante o inquérito judicial que “ Há 25 anos
a trabalhar na An Post (correios), nunca tinha visto cães tão ferozes como
aqueles” (sem querer incriminar ninguém, gostava de saber o porquê da
preferência por pneus).

O irmão de Martin, Gerry
McDonagh, também chamado a depor, disse que no dia da morte de Teresa não
esteve presente, por ter ido levar o seu pai, Eddie, ao hospital de Galway, por
causa de uma queda que ele deu. Contudo, não se escusou em dizer que o seu pai
já o havia alertado para a possibilidade de haver problemas com aqueles cães
(um patriarca sensato!). Gerry disse ainda que estava sempre nervoso na
presença dos cães e que “não tinha como aterrar de helicóptero no quintal do
irmão”. Também um tal de Brendan Hynes foi ouvido e confirmou ter recebido um
telefonema do dono dos cães na tarde 04 de junho de 2017, pedindo-lhe que fosse
a sua casa e atirasse nos animais quando fizessem menção de atacar a sua mãe. O
pedido feito ao Sr. Hynes resulta de ter uma licença de porte de arma e de
abater texugos para o Departamento de Agricultura (?!).

Quando solicitada a
pronunciar-se, Rita Gately, a veterinária do Condado de Galway (Co Galway),
começou por afirmar que não existia qualquer queixa sobre aqueles cães, que os
dois cães adultos pesavam 46 e 43 kg e que não tinham os microchips
obrigatórios quando examinados depois de mortos (why not?), enquanto o cachorro
deles resultante tinha um microchip, mas ainda por registar. Esta veterinária
fez ainda saber que o Presa Canário não se encontra na lista dos cães perigosos
ali (estará nela o Lulu da Pomerânia?), que a raça é rara e que é do tipo
molosso, originária das Ilhas Canárias para agrupar o gado e que pode ter sido
usada como cão de luta e também como cão de guarda. Um pouco para serenar os
ânimos e esconder a incompetência, Ms Gately disse que o Departamento de
Desenvolvimento Rural e Comunitário estava a realizar uma revisão da legislação
sobre controlo de cães e que ela fazia parte de um grupo de trabalho com esse
objectivo.

A patologista consultora
chamada ao processo, Brigit Tietz, disse que a sra. McDonagh sofreu graves
traumas nas pernas, fracturas e múltiplas lacerações nos braços e no tronco,
adiantando que morreu de choque hemorrágico resultante de ferimentos maciços em
ambas as pernas. A sra. Rosaleen Heffernan (filha da vítima) descreveu a sua
mãe como uma "mãe, esposa e tia amorosa", que era "muito
elegante, adorava cozinhar e fazer panquecas para os netos.” O júri aceitou o
veredicto da desventura (acidente) e endossou quatro recomendações feitas pelo médico
legista Dr. Mc Loughlin, que recomendou a adição daquela raça à lista dos cães
perigosos ou restritos; que os cães a ela pertencentes deverão permanecer
atrelados e açaimados; que os seus donos deverão ter uma licença especial e um
treino igualmente especial e que o Conselho do Condado de Galway deverá
submeter à apreciação a actual revisão do Governo sobre a legislação relativa
aos cães.

Numa declaração lida pelo
advogado Mike Ward após a audiência, Christy, Gerry e Eamonn McDonagh,
Rosaleen, Flan Heffernan e Rebecca King disseram que foram "devastados"
pela trágica perda de sua mãe e disseram cumprir as recomendações do legista. "Os
filhos e netos de Teresa McDonagh foram roubados do seu generoso amor e
carinho" e o que tornou tudo mais trágico é que ela ia visitar os seus netos”...
"A família espera que a lei seja mudada para que os donos dos cães
perigosos sejam obrigados a contê-los e mantê-los em recintos onde não possam causar
ferimentos ou a morte a qualquer pessoa.” – assim termina o comunicado.

A família de Sheryl e
Martin McDonagh livrou-se de boa, porque noutras latitudes seria acusada de
homicídio por negligência. Torna-se evidente que não queriam matar a mãe, mas
não acredito, de maneira nenhuma, que desconhecessem os cães que tinham, a sua
história e carga genética, assim como a sua propensão para atacar fosse quem
fosse. Será que a Internet ainda não chegou à República da Irlanda? Nesta
história há muita coisa mal contada e ela começa a desvendar-se no propósito
que levou à compra daqueles cães. O tribunal entendeu que a justiça já havia
sido feita, já que o feitiço se virou contra o feiticeiro, o que nestes casos
não é assim tão incomum. Se for possível estabelecer uma relação entre Presas
Canários maus e donos impróprios, não tenho dúvidas ao afirmar que o número dos
últimos sufocará sem grande dificuldade o número dos primeiros.