segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MÃOS PARA QUE VOS QUERO

Quem anda na cinotecnia multidisciplinar há algum tempo sabe que, exceptuando os cães de caça à toca, nenhum dos outros dispensa membros anteriores bem aprumados e robustos, apesar do seu “motor” se encontrar atrás – na garupa, e quanto mais sólida ela é, mais vai exigir da espádua e das mãos dos animais, porque doutro modo evoluiriam em ziguezague, desengonçados e ao tropeção, modo de locomoção que afecta hoje grande número de Pastores Alemães descendentes de progenitores advindos dos shows de conformação, ditos de beleza, que apesar dos títulos de campeão, transmitem penosas artroses e condenam a sua prole ao desprendimento de líquido sinovial nas articulações, mormente nas mãos, cotovelos e curvilhões, mercê de um dorso demasiado convexo sustentado por membros irremediavelmente côncavos (peito estreito, metacarpos abatidos, mãos divergentes e jarrete de vaca), o que compromete de sobremaneira a sua biomecânica, dificultando-lhes a transição dos andamentos naturais e sujeitando-os a lesões por menor que seja o esforço.
A generalidade dos cães, em abono da sua saúde, bem-estar, longevidade e serviço, carece de ser portadora de bons membros (robustos, aprumados e funcionais), independentemente do seu uso ser ou não específico. Aqueles que se apresentam anatomicamente fragilizados de membros anteriores exigem especial cuidado no concurso aos obstáculos e diante doutros exercícios físicos, considerando a transferência do seu peso corporal para as mãos nos impactos ao solo. Há ocasiões, designadamente no treino de cachorros com este problema, em que mais vale esperar que cresçam do que sujeitá-los a exercícios que os incapacitem definitivamente. Na presença de um cão jovem com esta incapacidade, o que desafortunadamente amiúde se verifica, convém treiná-lo defensivamente para que atinja o índice médio de destreza, tanto para o seu quotidiano como para a sua função, convidando-o a transpor pequenos obstáculos livremente, nunca sem prévio aquecimento, para que aprenda por si mesmo a adiantar o membro anterior que lhe é mais cómodo e seguro, já que privá-lo da ginástica mais agravaria o seu problema, encurtaria os seus dias e comprometeria obviamente o seu desempenho.
E se todos os cães carecem de bons membros anteriores, o que dizer daqueles que são convidados para abocanhar e transportar espécies cinegéticas, vários objectos ou que necessitam deles para atacar, contra-atacar, pôr-se em fuga ou resgatar? Recentemente a “Veterinärmedizinische Universität Wien” (Universidade de Medicina-Veterinária de Viena/Áustria) divulgou os resultados de um estudo realizado no seu laboratório de movimento com Retrievers, publicado na revista científica “BMC Veterinary Research”, onde concluiu que os cães convidados para o transporte, ao carregarem as suas presas ou objectos na boca, inclinam-se para a frente, transferindo 60% do seu peso corporal para os membros anteriores, esforçando em simultâneo as suas articulações e tendões, podendo lesionar-se seriamente quando o peso a transportar for demasiado para a sua estrutura. Aconselham aqueles cientistas, tanto para os cães jovens como para os adultos ordinariamente convidados para o transporte, que sejam objecto de verificações regulares por parte dos veterinários para se aquilatar do bom estado das suas articulações, tendões e músculos. Havendo este cuidado e não se abusando no peso a transportar, o transporte é uma actividade salutar que muito agrada aos cães.
Na Acendura Brava, por prevenção e norma, não consentimos que nenhum cão transporte um objecto com um peso superior a 7.5% do seu peso corporal. Muito excepcionalmente, perante cães particularmente sólidos, dotados e habilitados, bem aprumados e musculados, para quem o transporte é imprescindível para o seu serviço ou que o subsidie, o peso a transportar poderá ser maior, excepções que aconteceram um par de vezes ao longo da nossa história diante de cães extraordinários, mormente entre Rottweilers e Pastores Alemães.
Por tudo o que dissemos e com base no conhecimento científico que o comprova, entendemos que todos os cães carecem de bons membros anteriores para o seu dia-a-dia e desempenho, que o transporte só deverá ser solicitado aos cães bem aprumados de frente, que o peso a transportar deverá considerar sempre o peso corporal dos animais, que os animais fragilizados de mãos deverão ser arredados da prática do transporte e dos derrotes violentos a que se sujeitam quando lutam pela posse de nós de corda, brinquedos ou churros, já que tais práticas atentam contra a sua saúde e bem-estar. É obrigação dos criadores, sobretudo dos que se dedicam à criação de cães de trabalho, produzir cães bem aprumados para os objectivos a que se propuseram, porque doutro modo estarão a vender gato por lebre e a defraudar a raça ou raças que abraçaram, abusando em simultâneo da boa-fé dos seus clientes. Para se ser um criador com letra grande, não basta ter uma cadela e comprar um afixo, é necessário um maior conhecimento histórico, genético, morfológico, psicológico e biomecânico da raça escolhida, assim como dos defeitos e impropriedades que ainda a assolam e que carecem de eliminação, predicados em falta nos criadores por vaidade, oportunidade ou “desenrascanço”.  

domingo, 22 de janeiro de 2017

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O RANKING semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ O CÃO AZUL: O SANTO GRAAL DO CPA, editado em 30/05/2016
3º _ SIM, EU ACREDITO NO CÃO MACACO!, editado em 17/12/12
4º _ DEIXEM-ME FALAR DE ALGUÉM PERSEGUIDO QUE NÃO DEVERÍAMOS TER ESQUECIDO!, editado em 24/10/2016
5º _ PÁ DE VACA: O OSSO AMIGO DO CÃO, editado em 13/02/2014
6º _ A MINHA DÓCIL CADELA TORNOU-SE AGRESSIVA!, editado em 15/01/2017
7º _ “X” DE JARRETE DE VACA, editado em 25/07/2011
8º _ UM EMAIL CURIOSO, editado em 17/01/2017
9º _ O PESO DOS 4 MESES NO CÃO DO AMANHÃ, editado em 28/10/2010
10º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Reino Unido, 5º Espanha, 6º França, 7º Rússia, 8º Angola, 9º Alemanha e 10º Quénia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

OS LOBOS ESTÃO A INVADIR PARIS

Três lobos, um casal e outro errante, têm sido vistos a vaguear recentemente por Essonne e Yvelines na Ile de France e também em Seine-et-Marne, bem perto da área metropolitana de Paris. Na floresta de Rambouillet, a sudoeste da Capital francesa, foram encontradas duas carcaças de veados supostamente mortos por lobos. Os avistamentos verificados nos locais atrás citados foram ainda comprovados pela presença de pegadas e excrementos lupinos. A proximidade dos lobos e a possibilidade do seu encontro vêm alvoraçando os habitantes da “Cidade Luz”, já acostumados ao convívio com as raposas mas nada interessados em coabitar com estes novos predadores. Tentando serenar os ânimos e evitar o pânico nos menos esclarecidos, um membro do grupo “Observatoire Du Loup” disse ao jornal “Le Parisien” que as pessoas podiam ficar descansadas, porque os lobos atacam somente animais de quatro patas, o que não é uma boa notícia para os animais domésticos e para as raposas tornadas citadinas.
O habitat natural dos lobos franceses encontra-se nos Alpes e no Maciço Central, onde na década de 30 do século passado quase foram reduzidos à extinção pela caça que lhes foi movida. Depois de considerada espécie protegida, o seu número aumentou drasticamente e a procura de alimento obriga-os agora à procura de novos territórios de caça. Já em 2015, face ao número de ataques perpetrados sobre ovelhas, foram enviados para os Alpes vários caçadores de lobo. Diante desta já esperada proliferação, os franceses terão que encontrar uma solução para o problema, uma vez que a coabitação entre humanos e lobos nunca foi fácil, solução que deverá garantir simultaneamente a segurança dos animais domésticos e a continuidade dos lobos.  

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

UM EMAIL CURIOSO

Recebemos o email seguinte que transcrevemos na íntegra: “Boa noite! Estava pesquisando sobre cachorros pastor alemão e pastor belga malinois pois tenho uma fêmea do belga e um macho alemão e vi seu contacto! Gostaria de informação sobre a criação desses cães e sobre o cruzamento das raças. Adoro raças cachorros de grande porte! Obrigado”. Como o assunto é actual e esta hibridação cresce a olhos vistos, vamos de imediato responder a este leitor.
Caro Senhor, como grande número dos nossos artigos é dedicado à selecção, criação e treino de Pastores Alemães, aconselhamos a sua pesquisa e leitura neste blogue, recomendando o mesmo sobre os que dedicámos aos Pastores Belgas e ao Malinois especificamente. Entendemos, pelo que conhecemos do Pastor Alemão, que a raça não carece dessa hibridação para ser melhorada, uma vez que ainda possui a biodiversidade necessária para retomar e perpetuar a qualidade que lhe foi reconhecida, apesar de haver quem procure na hibridação Pastor Alemão/Malinois a obtenção de “pastores alemães optimizados”.
Considerando a génese comum de Pastores Alemães, Belgas e Holandeses, a hibridação entre os dois primeiros tende a produzir indivíduos mais próximos do Pastor Belga e mais distantes do Pastor Alemão, o que implicaria em mais nervo e menos concentração, num inusitado reforço instintivo e em maiores dificuldades de controlo, deméritos associados a exemplares mais leves e instáveis, ainda que mais rápidos e propensos ao ataque imediato. Acresce a esta tramóia, visando o alcance de Pastores Alemães outrora reprovados, o desejo de alguns criadores da raça em produzir exemplares com um desempenho igual ao cão belga, “fazendo-os” mais pequenos e irritadiços, alterações alcançadas por duvidosos critérios de selecção e pela escassez e pobreza das dietas.
Como já se apercebeu, somos contra toda e qualquer hibridação no Cão de Pastor Alemão, por achá-la desnecessária, lesiva e atentatória dos princípios que levaram à sublimidade do seu carácter, robustez e desempenho. A nossa ver, gostar de raças grandes é respeitar o seu padrão, conhecê-las a fundo e tirar delas o máximo proveito, cuidados que não se coadunam com cruzamentos arbitrários e de péssima consequência. Agradecemos o seu contacto e mantemo-nos disponíveis para mais esclarecimentos e troca de opiniões. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

OS 6 DO NEPAL

Inesperadamente tivemos esta semana 6 leitores do Nepal, País asiático entre a Índia e a China, onde Buda nasceu, o Dalai Lama é venerado e onde se encontra o Monte Everest, a montanha mais alta da Terra, a 8.848 metros acima do nível do mar. Não sabemos se estes leitores são de origem nepalesa ou se são turistas naquelas paragens eternamente gélidas, onde apesar da distância é sempre possível encontrar algum português. Também não nos surpreende que estes leitores sejam de etnia chinesa, porque desde o início desta publicação sempre se fizeram presentes. Seja lá como for, agrada-nos saber que também chegamos ao Nepal, país místico que primeiro nos cativou pelas narrativas de Lobsang Rampa ocorridas na nossa juventude e que vale a pena visitar. 

domingo, 15 de janeiro de 2017

A MINHA DÓCIL CADELA TORNOU-SE AGRESSIVA!

Sabia que uma das raças caninas que mais facilmente se constitui em matilha é o Pastor Alemão? É verdade, por vezes bastam dois, independentemente do género e desconhecidos entre si, para se constituírem em oposição a outra heterogénea de número igual ou superior, podendo ao mesmo tempo carregar violentamente sobre cães isolados de grupos somáticos diferentes, particularmente molossos, porque os entendem como uma provocação e ameaça. É também comum não se agradarem de cães caçadores ou de outros demasiado enérgicos, tanto dentro como fora do seu território. Graças a este escalonamento social quase automático não é difícil formar matilhas operacionais com Pastores Alemães para os mais diversos fins.
Estranha um amigo nosso, agora proprietário de duas cadelas Pastor Alemão, uma com mais de dois anos e outra agora a rondar 5 meses de idade, em coabitação plena há um par de meses, que a mais velha se tenha tornado demasiado agressiva com os cães estranhos e com outro que possui, um bracóide sem raça definida, castrado e a dividir com elas o mesmo espaço, fenómenos que não se verificavam antes da chegada da cachorra à sua casa. Para melhor se entenderem os meandros da situação, adianta-se que as Pastoras Alemães treinam em conjunto, servindo a mais velha de mestra à cachorra, evoluindo a par e passo pelos mais variados ecossistemas.
Para além do inevitável escalonamento social, que naturalmente existiria com cães de outra raça por força da diferença etária, fica claro que a cadela reage assim para proteger a cachorra, porque a sente vulnerável e é movida pelo instinto matriarcal, o que a ninguém espanta, pois não é raro subsistirem cadelas que criam leite quando em contacto directo com cachorros, protegendo-os vivamente diante doutros cães, sendo as suas arremetidas de indubitável carácter instintivo-defensivo.
Estarão a sociabilização da cadela e seu uso irremediavelmente comprometidos? Terá o problema solução? E se tem, como proceder? Nada está comprometido, o problema tem solução e aponta para o desempenho da liderança, já que nunca foi tarefa árdua escalonar cadelas dentro de uma matilha, apesar delas serem por vezes demasiado cruéis umas com as outras. No caso particular do nosso amigo, que tem um cão que não lidera por ser castrado e que invariavelmente anda com os cães todos á solta, esperando da sorte o que não faz cumprir, ao não demarcar atempadamente o território, os direitos e deveres inerentes a cada cão, urge transformar aquela desnorteada matilha animal numa escalonada matilha funcional, trabalho que até aqui não encetou.
No que concerne à salvaguarda do outro cão residente na casa do nosso amigo, que será cada vez mais periclitante se a situação não se alterar, votado à exclusão por incúria do seu proprietário, que o deixa sempre em casa quando sai com as pastoras por tempo indeterminado, debaixo do pretexto de deixar ali um cão de guarda ou por ser de difícil controlo, é de todo conveniente que o leve a passear com as cadelas, todos juntos ou com uma de cada vez para ajudar na sua assimilação, porque doutro modo, reforçadas pelos vínculos afectivos com o dono, as cadelas tudo farão para o expulsar da casa e territórios comuns, vendo-o como um intruso. E se assim não fizer, não lhe sobrará outro remédio do que encerrar o cão antes das cadelas entrarem.
É evidente que o cão velho deverá também ser educado convenientemente para evitar a exposição e pôr-se a jeito, esforço pedagógico que não dispensará o por vezes incómodo trabalho à trela. Trabalho à trela que deverá também ser retomado amiúde com as pastoras para que entendam a quem devem obediência e venham a ser subordinadas quando em liberdade (um passarinho disse-nos que o nosso amigo e a trela não gozam de grande intimidade).
E porque importa libertar a pastora adulta dos ataques instintivos, inconciliáveis com o ofício guardião dela esperado, animal neste momento com os alvos trocados, urge em simultâneo convidá-la para o ataque a intrusos humanos e inibir-lhe os perpetrados contra iguais. Esta inibição, atendendo ao seu género, deverá ser operada pelo condicionamento à trela com o concurso da recompensa, porque doutro modo, por força da repreensão nua e crua, a cadela poderá vir a desusar os dentes para aquilo que é preciso, ficando assim também castrada para o desempenho da sua missão.
Ser proprietário de vários cães é uma tarefa que aumenta proporcionalmente com o seu número, porque o natural escalonamento social canino pode não dispensar a violência para o seu estabelecimento, o que raramente é desejável diante da capacitação individual de cada cão e do seu próprio bem-estar, imperativos que só a liderança humana poderá garantir pelo estabelecimento de rotinas adequadas. “Todos ao molho e fé em Deus” e “eles entendem-se” são práticas e expressões que denotam um profundo desrespeito pela salvaguarda e integridade dos cães, próprias de ignorantes que mais cedo ou mais tarde acabarão por mandar castrar os seus cães, dispensá-los ou abatê-los. Se eu tenho 3 cães, sou três vezes líder; se tenho 5, sou cinco vezes e se tenho mais de 10, sou um super líder, a menos que os tenha todos enjaulados que nem coelhos! Mãos à obra!  

sábado, 14 de janeiro de 2017

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O RANKING semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ O CÃO AZUL: O SANTO GRAAL DO CPA, editado em 30/05/2016
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
5º _ DOBERMANN: O CÃO QUE É MENOS DO QUE SE SUPÕE E MAIS DO QUE SE IMAGINA, editado em 06/03/2016
6º _ “O MEU CÃO TEM UM FEITIO LIXADO: DETESTA CÃES GRANDES, NÃO GOSTA DE CICLISTAS E SÓ COME SE LHE DER A COMIDA À BOCA”, editado em 09/01/2017
7º _ SERÁ O BOERBOEL UMA BESTA APOCALÍPTICA, editado em 02/05/2015
8º _ PASTOR DE SHILOH: SUPER-CÃO OU DECEPÇÃO?, editado em 23/01/2014
9º _ O PESO DOS 4 MESES NO CÃO DO AMANHÃ, editado em 28/10/2010
10º _ AS DÚVIDAS DO MANUEL DE ANGOLA, editado em 09/01/2017

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Angola, 5º Alemanha, 6º Reino Unido, 7º França, 8º Espanha, 9º Índia e 10º Quénia.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

“NÃO COMPRE, ADOPTE”

Apoiamos sem reservas todas as campanhas para a adopção de animais domésticos em qualquer lado. No que concerne aos cães já o temos manifesto inúmeras vezes, realçando a gratidão e préstimo dos animais a adoptar, por norma mais saudáveis, equilibrados, menos exigentes e com maior esperança de vida. Os textos que editámos ao longo dos anos acerca dos cães de abrigo comprovam o que acabámos de dizer. Também do ponto de vista ético, considerando o apreço que temos por estes animais e o seu direito ao bem-estar, entendemos como prioritária a adopção de cães, prática que nunca desprezámos e que aconselhámos outros a segui-la. Em 10 anos adoptámos o mesmo número de cães da mais descarada raça indefinida, não procurando neles parecenças com outros padronizados, não lhes diferenciando o tratamento, dando-lhes todo o carinho e operando a sua reabilitação. Debaixo destes princípios nunca excluímos do treino nenhum dos que nos foram confiados, sendo muitos deles educados gratuitamente para não sobrecarregar os seus proprietários. O esforço valeu a pena e todos vieram a ser convenientemente adestrados.
Discordamos do slogan adoptado pelas campanhas internacionais “NÂO COMPRE, ADOPTE”, porque o entendemos radical, abusivo, utópico e injusto face ao contributo dado até aqui pelos criadores de cães raça, que desde os finais do Séc.XIX, 190 anos antes da Declaração Universal dos Direitos Animais, tudo fizeram e continuam a fazer em prol daqueles que escolheram e do bom-nome dos cães em geral, encontrando-lhes os mais variados préstimos e utilidades, sensibilizando as pessoas para o seu bem-estar e prós cuidados que o garantem. Entendemos tal slogan radical e abusivo porque afecta a liberdade de escolha, utópico porque ainda não podemos dispensar os “cães especialistas” e injusto porque sem o contributo dos cães sem pedigree os rafeiros não seriam tão bem tratados e respeitados, o que mais atrasaria e dificultaria a sua aceitação e posterior adopção.
Graças aos esforços embrionários dos canicultores oficiais, os cães saíram das barracas e dos currais para a coabitação, foram soltos das correntes para caminharem ao nosso lado, deixaram de comer restos e alcançaram dietas equilibradas, saíram do ostracismo e adquiriram um novo estatuto social, saltaram do desprezo para a complementaridade e passaram de fardo a um bem desejável. Os erros cometidos na selecção dos cães padronizados, a quem a eugenia negativa, a endogamia e a consanguinidade não são alheios, acabaram por contribuir para o avanço da ciência e para a identificação e tratamento das doenças mais comuns presentes no lobo familiar (algumas delas também extensíveis aos homens). Em simultâneo, ao desenvolverem cães para os mais diversos fins e serviços, impediram a dispensa e extinção dos cães em geral a expensas dos seus próprios bolsos, saindo muitos da empresa com eles vazios. Quem primeiro ensinou a cuidar dos cães? Quem mais contribuiu para os pôr ao serviço dos homens? Cada cão tem o seu préstimo e cada um saberá escolher o melhor que lhe convém.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

AS DÚVIDAS DO MANUEL DE ANGOLA

Recebemos de um leitor de Angola um email que transcrevemos na íntegra: “Boa tarde a toda a equipa da Acendura! Depois de algumas pesquisas pela Internet achei o nosso blog, pois interessei-me logo quando relataram a respeito das variedades de cores dos pastores alemães, pois tenho uma cadela que até ao momento deixa-me em dúvidas, quando a comprei não entendia muito sobre a raça, mais com o tempo fui aprendendo, porem depois de visitar a vossa página fiquei com mais dúvidas a respeito da minha cadela. Preciso da vossa ajuda para saber se ela é pastor ou não, tem agora 9 meses e teve o seu primeiro cio com 12 dias” (provavelmente há 12 dias atrás, dizemos nós).
Estamos em crer que este nosso leitor deseja saber se a sua cadela é uma Pastora Alemã, uma mestiça ou uma Malinois. Segundo a foto que nos enviou e que sucede ao título desta resposta, por amor à verdade não podemos dar um parecer peremptório, já que ela é pouco esclarecedora quanto à morfologia do animal, uma vez que se encontra sentado. Para uma melhor apreciação necessitaríamos de mais fotos noutros planos, com a cadela de pé para vermos se respeita ou não o estalão da raça. Julgamos que a cadela foi comprada sem pedigree e talvez denominada de Malinois. Infelizmente os mestiços de CPA/Malinois são hoje muito comuns, marosca e aproveitamento de quem se dedica ao negócio dos cães de guarda e nisto Angola é capaz de não escapar à regra.
Existem muitos mestiços, mesmo resultantes do cruzamento do Pastor Alemão com outras raças, que exteriormente aparentam ser Pastores Alemães e muitos deles são de cor vermelha (fulva), porque este excelente cão alemão é dominante da construção. Uma vez dito isto, aconselhamos o nosso amigo Manuel a inquirir junto de quem lhe vendeu a cadela qual a raça do animal e, não obtendo dessa pessoa os esclarecimentos necessários, a dirigir ao Kennel Club Angolano, que não sabemos se existe e em que moldes funciona. Não havendo essa possibilidade, sugerimos-lhe que consulte os estalões das Raças Pastor Alemão e Malinois para maiores esclarecimentos.
Pelo que nos é dado a observar pela fotografia que nos enviou, considerando as proporções crânio-faciais, o tipo de crânio, a disposição e formato dos olhos, o particular dos dentes, o formato da língua e das orelhas, a textura do manto, os membros anteriores, a disposição dos dedos e o tipo de cauda, podemos garantir que a sua cadela parece ter algo de Pastor Alemão. Será ela uma “Ay Fawn”? Caso continue interessado no nosso parecer, agradecemos-lhe que nos envie fotografias mais detalhadas da sua cadela, de vários ângulos e com ela de pé, adiantando-nos em simultâneo qual o seu comportamento, comprimento, peso e altura. Gratos pelo contacto, despedimo-nos com amizade.  

“O MEU CÃO TEM UM FEITIO LIXADO: DETESTA CÃES GRANDES, NÃO GOSTA DE CICLISTAS E SÓ COME SE LHE DER A COMIDA À BOCA”

A afirmação acima faz parte de um léxico interminável proveniente da insanidade dos donos somada à manha dos cães, conclusões alheias à verdade e hoje cada vez mais aceites segundo a trilogia homem, cão e antropomorfismo, como se os cães não pudessem ser regrados e os donos se vissem obrigados a aceitar as suas regras (deles). Para além do ridículo, que nalguns casos chega a rasar a obscenidade, afirmações deste género não conseguem esconder duas coisas: o despreparo da liderança humana e o desrespeito pela condição canina.
Numa aldeia que nos é grata e que não esquecemos, dizia-se no pique do inverno: quando a neve cai ao povoado, sofre mais quem anda descalço, aforismo que nos transporta para o mundo dos afectos de grande número de proprietários caninos, condicionado vivamente pelas circunstâncias sociais a que se encontram sujeitos, umas advindas da sua individualidade e outras que lhe vão sendo impostas, que somadas, levam-nos à procura dos cães como panaceia para o seu equilíbrio emocional, numa sociedade cada vez mais indiferente e perante um fim gradualmente mais incerto.
Todos sabemos que o grosso dos cães habita debaixo do tecto da classe média, porque os pobres não têm como os sustentar e os mais ricos têm outras prioridades e não estão para se incomodar, o que não é de todo mau, uma vez que sem eles não haveria emprego nem trabalho. Também sabemos, porque já é coisa antiga, que quem paga a maior fatia das crises económicas é a classe média, enquanto sustentáculo de qualquer nação, classe que hoje vai perdendo membros para o limiar da pobreza, que sobrevive às custas do trabalho precário, que tem famílias a prazo, que tem dificuldade em criar os filhos e que é também e por consequência, assombrada por uma crise de identidade e valores.
Face ao panorama, esta gente agarra-se aos cães como náufrago chegado à praia, “vendo” neles a sua tábua de salvação, aquilo que o mundo em vão tenta negar-lhe e que por substituição alcança (o homem actual está doente e o aumento do número de cães de terapia comprova-o). Assim sendo, cada cão é para esta urbe o filho que nunca teve, o amigo que gostava de ter, um companheiro sempre presente (por vezes o único), o confidente que não dispensam e também o requisito mais importante para o seu bem-estar, afirmação e realização individual.
À falta de melhor e vulneráveis pela avidez, estes indivíduos atribuem aos seus cães estatutos e prerrogativas que lhes são alheios, evitando-lhes qualquer reparo, permitindo-lhes toda a sorte de disparates, saciando e potenciando as suas manhas, fundamentando-lhes fobias e não lhes diferenciando o carácter da personalidade, o que do ponto de vista pedagógico é um disparate com o descalabro à vista, considerando o bem-estar, sociabilização e salvaguarda dos animais, que comportando-se como meninos rabinos, acabam por espelhar as taras presentes nos seus donos pela intimidade e cumplicidade experimentadas.
O carácter social dos cães, cujo escalonamento não dispensa a hierarquia e por conseguinte a liderança, obriga os donos a regrá-los, a apetrechá-los e a adaptá-los para a convivência doméstica e inserção na sociedade, onde o perigo ronda, não faltam outros cães, diferentes animais e gente que não quer ser importunada e que detesta vê-los por perto. O “feitio” dos cães pode ser suavizado e por vezes totalmente alterado, dependendo isso do perfil psicológico de cada cão, as “fobias” dos cães podem e devem ser vencidas e nenhum deles necessita que lhe levem a comida à boca.
Depois de tantos anos a educar cães, não estranhamos ter despendido mais tempo a educar os donos, servindo-nos dos cães para esse efeito, auxílio que sempre se revelou eficaz, ainda que a tarefa nunca tenha sido fácil e isenta de reveses. Haverá algo de estranho nisto? Não, porque educar cães é ensinar os donos a fazê-lo!

domingo, 8 de janeiro de 2017

EU SEI LÁ. VOCÊ SABE TANTO DISTO QUE ME PODE ENGANAR!

Há cerca de 30 anos atrás, na paradisíaca Quinta do Brejo, na Avessada, na altura propriedade dos herdeiros de Mestre Nuno de Oliveira, um dos maiores vultos da equitação tradicional portuguesa do Séc. XX, quando criávamos Pastores Alemães, apareceu-nos um homem que desejava adquirir um cachorro, não sem antes se inteirar da raça e conhecê-la o melhor possível, pelo que combinou connosco passar ali o seu mês de férias. Gratos pelo seu interesse, explicámos-lhe todos os meandros da criação, a identificar os principais impulsos herdados nos cachorros, as particularidades das diferentes variedades cromáticas e as suas díspares curvas de crescimento, a importância dos aprumos, os beneficiamentos entre linhas, os defeitos a evitar nos infantes assim como as possíveis impropriedades morfológicas e laborais presentes nalguns deles, explicações que seguia com muita atenção e de que ia tomando nota num pequeno caderninho. Quando o mês chegou ao fim e perante seis ninhadas, perguntámos-lhe qual era o cachorro que pretendia levar. Eu sei lá. Você sabe tanto disto que me pode enganar – disse-nos, saindo dali sem levar nenhum. Mais tarde viemos a saber que optou por um Rottweiler.

sábado, 7 de janeiro de 2017

NÓS POR CÁ: MORREU MÁRIO SOARES

Dizem que a História é escrita pelos vencedores, Mário Soares foi um vencedor, logo ficará na História, na história das democracias portuguesa e europeia, sendo o maior vulto político da segunda metade do Séc. XX português, um democrata antifascista e antitotalitário a quem devemos a liberdade em que vivemos e a nossa entrada na Comunidade Europeia. Foi duas vezes Presidente da República e três Primeiro-Ministro de Portugal. A extrema-direita portuguesa continua a contestar o modo como empreendeu a descolonização das ex-colónias ultramarinas, que ficou conhecida como “exemplar” e que gerou mais de 500 mil refugiados, entendidos ao tempo como “retornados”. Homem de luta, polémico, controverso e sem papas na língua, Mário Soares é reconhecido por todos como o “Pai da Democracia Portuguesa”. Morreu hoje no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa com 92 anos de idade e o Governo decretou 3 dias de luto oficial pela sua morte. De luto estará também o Partido Socialista Português e o euro-socialismo.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O RANKING semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ DOBERMANN: O CÃO QUE É MENOS DO QUE SE SUPÕE E MAIS DO QUE SE IMAGINA, editado em 06/03/2016
2º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
3º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
4º _ QUANDO O SANGUE É COR-DE-ROSA, editado em 31/12/2016
5º _ OS CÃES DA NICOLE SCHLAEPFER, editado em 30/04/2014
6º _ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
7º _ NÓS POR CÁ: O QUE FAZER COM O SR. SAAD MOHAMMED RIDHA E OS SEUS “MENINOS”?, editado eme 20/08/2016
8º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS; editado em 26/10/2009
9º _ NÃO HÁ OUTRO REMÉDIO!, editado em 02/01/2017
10º _ PODENGO: PREFERENCIALMENTE PRETO!, editado em 13/11/2014

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Suíça, 4º Reino Unido, 5º Estados Unidos, 6º Espanha, 7º França, 8º Alemanha, 9º Polónia e 10º Angola.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O CÃO-DRONE

Sempre que falamos em drones, atendendo ao caricato da situação, vêm-nos à memória um jovem brasileiro de gestos delicados, largos e expressivos, de trunfa pintada e voz estridente que juntava à insinuação a roupa justa, indivíduo que rapidamente ganhou a alcunha de “Flechinha”, quiçá numa alusão ao Deus Cupido, que se divertia com o seu drone a contornar a fachada do Palácio Nacional de Belém, residência oficial do Presidente da República, lançando-o e controlando-o a partir dos Jardins Vasco da Gama e Mouzinho de Albuquerque, sem nunca ser surpreso ou ver o seu aparelho apreendido?! Ainda bem que era apolítico, extremamente manso e nada tinha de subversivo, apesar de vítima do bullying verbal dos seus colegas de trabalho (atenção à nova legislação sobre os drones e a sua utilização). Mas se não era um perigo para a segurança nacional, não deixava de ser um incómodo para os proprietários caninos, porque com aquele aparelho perseguia e convidava para a perseguição os cães alheios. Deixemos o “Flechinha”, cuja paragem ignoramos e vamos ao que interessa.
Se entendermos um drone como um aparelho ou utensílio fácil de manobrar para realizar tarefas arriscadas, para complementar as acções humanas e tirar partido das suas vantagens, a analogia surge imediata: a transformação do lobo em cão deu ao homem o primeiro drone natural, sendo secundado mais tarde pelo aproveitamento de águias, falcões e outros rapaces. Como drone tem vindo a ser utilizado até aos nossos dias, enquanto cão de caça, de guarda, de polícia e como cão de guerra, bastando relembrar no último caso que foi usado como arma anti-tanque e ainda hoje é requisitado como detector de explosivos, o que do ponto de vista ético coloca sérias questões e alguns engasgos a quem o cria e usa para esse fim, isto se considerarmos a Declaração Universal dos Direitos dos Animais.
Poderão os cães vir a ser substituídos por drones autênticos, agora que o seu bem-estar é objecto de maior sensibilidade e os avanços tecnológicos não param de nos surpreender? Estamos convencidos que sim, que tudo será uma questão de tempo, considerando a experiência piloto em curso nos Marines norte-americanos, que testam há já alguns anos cães robotizados, protótipos dos futuros cães de guerra. É evidente que isso não será para já, porque subsistem ainda culturas, sociedades e regimes que menosprezam a vida dos cães e de outros animais, nações pobres, avessas ao desenvolvimento e que parecem viver em séculos anteriores ao nosso, para quem os cães são sinal de impureza ou de apostasia, por norma as mesmas que fazem explodir os seus próprios combatentes. Acresce a este atraso histórico o facto dos cães serem de fácil acesso e baratos. Se houver mundo para tanto, é possível que finalmente todos deixem os cães em paz.
Na gíria do adestramento chama-se “cão-drone” àquele que executa acções invasivas e ofensivas de surpresa sem se deixar apanhar, por via de condicionamento prévio com o dono oculto ou ausente, acções muitas vezes confundidas como instintivas ou acidentais. Para melhor se entender o que acabámos de dizer e porque infelizmente a violência doméstica só agora está ser denunciada e é considerada crime, também porque cresce o número de homens agredidos pelas suas companheiras, vamos a um caso hipotético de homicídio consumado:
Determinada senhora, há muito desiludida com o seu companheiro mas não com o seu dinheiro, para quem o divórcio nada aproveitaria, decide adquirir e treinar em segredo um cão para guardar objectos, no intuito de se livrar do marido e poder lançar mão da sua fortuna. Durante meses a fio potencia a força de mordedura do animal, impede-o de fazer amizade com o companheiro e condiciona-o a atacar violentamente quem lhe mexer na carteira. Chegada a ocasião propícia, vai para o carro e chama o marido que se encontra em casa com o cão, pedindo-lhe que lhe traga a carteira por se haver esquecido dela. O inocente homem satisfaz-lhe o pedido e acaba morto pelo animal! E como “só sabe do convento quem lá vai dentro”, depois de recolhida a carteira, facilmente o ocorrido será atribuído à raça do cão ou aos possíveis maus-tratos que o dono lhe houvesse dado. Infelizmente acontecem crimes assim por todo o lado, onde os cães pagam as favas e os seus autores são inocentados.
Cão-drone é também aquele que é deixado deliberadamente num espaço público para causar dolo a terceiros, uma forma de treino específico muito do agrado de donos fratricidas, cobardes e sem escrúpulos, patologia que se transforma numa séria ameaça para os incautos que se satisfazem a dar mimos aos cães que desconhecem. Todo o cuidado é pouco! 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

DECIDIDAMENTE O SCARFACE NÃO QUERIA FAZER PARTE DO PRESÉPIO

Com o Natal transformado na festa maior do consumismo ocidental, há quem intente transformar os cães em figuras de presépio ou vesti-los com roupas natalícias, como sucedeu este ano em Tampa/Florida/USA, onde o proprietário de um Pitbull decidiu vesti-lo a rigor para a ocasião, ideia que mereceu o total desagrado do cão. E perante o dualismo das vontades, o “Scarface”, assim se chama o Pitbull, acabou por agredir violentamente três membros do agregado familiar que o adoptou, remetendo dois deles para o hospital, apesar do filho dos seus donos o ter esfaqueado no pescoço, acção que permitiu que os três se fechassem em casa, chamassem a polícia e fossem assistidos. Quando a polícia chegou ao local, diante da tremenda agressividade do animal, viu-se obrigada a disparar-lhe um dardo tranquilizante e a fazer uso do taser (arma de electrochoques que consegue paralisar e derrubar uma pessoa). Acresce ao despropósito o facto daquela família só ter o cão há apenas um mês! Ignora-se a sorte do animal e sabe-se que as suas vítimas estão livres de perigo (ainda bem que não haviam crianças por ali!). Que Natal inesperado teve aquela família, pensará em vestir outro cão no próximo? Pensamos que não, mas há gente que não tem emenda, que apesar da idade, ainda acredita no Pai Natal. 

NÃO HÁ OUTRO REMÉDIO!

Essa verdade que diz ter o coração razões que a razão desconhece não pode ser aplicada na canicultura, considerando a melhoria esperada nos beneficiamentos e a utilidade procurada nos cães. Se uma cadela não transmite a robustez própria e necessária à sua prole, não há outro remédio senão dispensá-la da reprodução, justificando-se o mesmo procedimento diante machos com igual demérito e insuficiência, apesar do peso das cadelas ser maior nas ninhadas. O Cão de Pastor Alemão carece de boa cabeça e ossatura, dispensando crânios finos e alongados e, ossos por demais leves. Todavia, sobram por aí machos com cabeças de fêmea e fêmeas que em tudo lembram as alvéolas, também conhecidos por arvéolas passarinhos espantados, de constituição frágil e delgada. É sabido que na criação de cães, quando se começa mal, vamos passar a vida inteira a correr atrás do prejuízo. Não ignoramos que alguns criadores incorrem neste erro de forma intencional, na esperança vã de equipararem os seus CPA’s aos Malinois que contra eles concorrem e que estão agora na berra. Relembra-se que a venda de cães é uma prestação de serviço e não uma despudorada prática de burla.

ARTHUR: DAS FLORESTAS DO EQUADOR A ESTOCOLMO

Neste novo ano em que entrámos, desejamos que todas as guerras acabem, que os homens sejam mais solidários uns com os outros e por inerência mais sensíveis aos dramas dos animais. E neste âmbito, como incentivo aos desafios que nos esperam, nada melhor que contar-vos uma história com um final feliz, a relativa ao Arthur, um molosso cor-de-areia cerdoso, encontrado em muito mau estado nas florestas do Equador por uma equipa de suecos, constituída por 3 homens e uma mulher, que se dedicava e dedica à “adventure racing”, modalidade desportiva que engloba corrida a pé, ciclismo e caiaque nas áreas mais inóspitas do Planeta como uma duração de 3 a 8 dias.
Estava a dita equipa a competir nas florestas do Equador numa área de transição (TA), a transferir-se da bicicleta para a corrida a pé, ocasião que aproveitou para retemperar as forças e comer algo, quando um dos seus membros avistou pelo canto do olho um cão vadio, com cerca de 30 kg, faminto, nauseabundo e com feridas profundas no dorso. Sensibilizado com o drama e apresentação daquele cão, o atleta dispensou-lhe duas almôndegas, apesar de temer as pulgas e as possíveis doenças que pudesse transmitir-lhe. O animal agradecido nunca mais os largou, vindo a constituir-se no 5º elemento daquela equipa, percorrendo com ela 180 km em pisos de lama, atravessando rios e subindo encostas.
Perante a disponibilidade e parceria do animal, estava-se mesmo a ver: rumaria à Escandinávia com os seus companheiros de jornada e tornar-se-ia sueco! À última da hora e depois de vencida muita da burocracia equatoriana e sueca, o Arthur lá conseguiu embarcar para a Península Escandinava com os seus parceiros, onde se viu sujeito a uma quarentena de quatro meses, curou as suas feridas, cresceu e viu crescer o seu manto. Após a quarentena foi ainda sujeito a duas sessões de cirurgia para tratar dos seus dentes. Hoje é um cão saudável e feliz, pertence à família Lindnord e provavelmente não terá muitas saudades do Equador.
O bom do Sr. Mikael Lindnord acabou por escrever um livro acerca do encontro com o Arthur, ao qual atribuiu o título de “The Dog Who Crossed the Jungle To Find a Home” (O cão que cruzou a selva para encontrar uma casa), já editado pela editora britânica Hodder & Stoughton cujo preço é de 14,99 Libras (aproximadamente 17.7 €/ R$ 60.2186). No livro são adiantados detalhes que aqui omitimos por razões editoriais, pormenores que mais exaltam as qualidades do cão e as peripécias em que se viram envolvidos os seus companheiros. Já sabemos que para ser cão é preciso ter sorte, mas nunca deixamos de alegrar-nos quando outro finalmente a encontra. Ainda há gente boa no mundo!