sexta-feira, 12 de agosto de 2016

PORQUE MORDEM OS CÃES?

Talvez não haja no mundo tantos “entendidos” em cães por m2 como em Portugal (talvez por isso os etólogos não tenham aqui trabalho), onde seu número não pára de crescer e tende a superar o dos treinadores de bancada, apesar da nossa população ser muito mais citadina do que rural, os pastores se encontrarem em vias de extinção e os caçadores a caminho disso. Esta habilitação inesperada, que tende a julgar o todo pela parte, tem divulgado e levado à aceitação geral todo um conjunto de ideias falsas acerca do comportamento dos cães, destacando-se as seguintes: que todo o cão que tem medo foi objecto de maus tratos e que todo aquele que morde fá-lo por instigação dos seus donos, como se os nossos fiéis amigos resultassem de geração espontânea, caíssem aqui de pára-quedas ou fossem tanto ou mais moldáveis que o barro nas mãos dum oleiro. Com tanta ignorância chocalhada e à solta, há dias em que não se pode entrar num café.
É evidente que existem cães que nascem medrosos sem terem sido objecto de maus tratos, tanto os provenientes da selecção operada nas ruas, mais próxima da natural, como os resultantes da manipulação humana, sendo o fenómeno mais frequente nos últimos porque doutra forma os primeiros dificilmente sobreviveriam, conhecida que é a sua dependência. Do mesmo modo também há cães que nascem agressivos sem a contribuição dos donos, que a acontecer, acontece maioritariamente por ignorância e não por instigação directa. Afortunadamente os cães são cada vez mais mansos, o que nos dá algum descanso perante os tontos que persistem em adquiri-los, sabichões tendentes à asneira que invariavelmente acabam surpreendidos do alto das suas “cátedras”.
Os cães mordem porque continuam predadores e são uma subespécie doutro: o Lobo, do qual conservam ainda alguns instintos, também porque são animais sociais, competitivos e territoriais que não possuem outra arma para além do uso da sua mandíbula, tornando-se assilvestrados na ausência de regras, o que aponta como primeira causa uma razão atávica. Todos os cães podem morder e todos podem não fazê-lo, ficando isso a dever-se à maior ou menor potenciação dos impulsos herdados que sustentam a sua agressividade, particularmente os relativos à defesa, à luta e ao poder, que sendo mais típicos dos machos, são também responsáveis pelo escalonamento social canino, o que evidencia em simultâneo uma razão genética. Como o ataque à dentada é típico dos cães dominantes e não são poucos os submissos que se comportam assim, persiste nestes casos uma razão ambiental decorrente duma investidura assente sobre a experiência feliz (incentivo, certeza da vitória, captura, treino e recompensa).
Qualquer cão submisso, cobarde ou inibido, por menor que seja e escudado no dono, pode morder, como também poderá morder por ciúme ou por se ver preterido. Os cães que habitualmente permanecem no colo dos donos, por mais frágeis e indefesos que nos pareçam, não sendo contrariados, sem grande dificuldade morderão a quem deles se acercar, podendo fazê-lo deliberadamente ou por medo. Também os muito mimados e isentos de reparo tendem a assumir um comportamento agressivo para resistirem à liderança e imporem as suas próprias regras.
Felizmente, a ocorrência de ataques ofensivos caninos individuais sobre pessoas sem a contribuição directa ou indirecta dos seus donos é raríssima e carece de treino aturado, não diferindo nisto do seu ancestral silvestre. A maioria dos ataques caninos perpetrados sobre pessoas sem treino prévio são de natureza defensiva (social) e acontecem pela defesa do alimento, do território, do agregado familiar e dos bens comuns a donos e cães, sendo por norma instintivos e pouco dolosos. A transição dos ataques defensivos individuais para ofensivos é na maior parte dos casos obra da ingerência humana, que actua por aproveitamento. Contudo, a repetição de vários ataques defensivos bem-sucedidos pode transformá-los em ofensivos pela experiência havida que funcionou como treino.
Os ataques caninos em matilha podem dispensar a indução humana pelo peso do grupo e respectivo escalonamento social, alterando a sua natureza de defensiva para ofensiva pela constituição de  uma matilha de caça, particular usado e transformado em estratégia pelos adestradores que se dedicam ao treino do cão guarda, que tiram partido do exemplo de cães nisso habilitados para capacitarem os iniciados, relutantes e inexperientes. Assim como existem matilhas para caça também existem matilhas para guarda, por norma identificadas como “matilhas funcionais” para as diferenciar das animais que não obedeceram a qualquer tipo de treino e que são por norma instintivas. Nenhuma das matilhas é de fácil defesa, qualquer uma delas pode ser letal. Todavia, sempre se terá mais hipóteses diante duma matilha animal que duma funcional, porque a última foi previamente preparada para o efeito e cada um dos seus membros “sabe” como operar.
Sinteticamente podemos dizer que os cães mordem por razões genético-ambientais e que ambas estão relacionadas com o seu particular social, que uma vez procuradas e potenciadas têm tornado os cães mais perigosos que os lobos, que raramente atacam ou matam pessoas (nunca se provou que um lobo tenha morto um homem, ao invés, existem algumas fábulas assim como relatos verídicos em que os lobos serviram de pais a crianças). O manipulação de determinadas raças caninas tem produzido intencionalmente cães com maior força de mandíbula, mais massa muscular, superior sentimento territorial, notório instinto de presa, maior tenacidade na caça e portadores de fortes impulsos à luta e ao poder, animais potencialmente perigosos na possibilidade das suas arremetidas, que cada vez são menos frequentes pelo peso e carácter repressivo das leis em vigor.
As pessoas que têm medo de cães, porque podem ser interpretadas por eles como presas ao seu alcance, constituem-se natural e involuntariamente em suas vítimas. Os ataques à dentada perpetrados pelos cães sem a indução ou instigação dos seus mestres são maioritariamente de carácter defensivo e os ofensivos são na sua maioria fruto do engenho humano. Um cão biológica e inequivocamente ofensivo por si mesmo é um animal de difícil controlo, imprevisível e de pouco préstimo, dado à revolta e propenso a grande número de disparates, que exigirá um dono experiente e audaz para o subordinar.
A reeducação dos cães perigosos, processo de descodificação mais ou menos moroso e sujeito a reveses, é facilitada de início pela subordinação que obriga à troca dos seus líderes habituais e grupo, à novidade constante de territórios, à perca de regalias (despromoção social), à alteração de rotinas, ao desprezo pelos procedimentos anteriormente instalados e pela sua consequente substituição – primeiro o cão é desaprovado para depois ser aprovado. Não entre em quintais com cães que desconhece, não faça festas a cães desconhecidos, não force a sua aceitação, antes de afagar um cão solicite a autorização do dono, não corra na frente ou ameace cães que nunca viu, não fixe o seu olhar neles, troque disfarçadamente de passeio se sente medo ao cruzar-se com eles e verá que dificilmente será mordido. Como diz o povo, “os cães mordem porque têm dentes” mas os cinófobos podem ficar descansados: a esmagadora maioria dos cães actuais só usa os dentes para comer e se os usa para outra coisa é porque lhes fizeram crer nalguma história, dando-lhe um final inesperado quando verdadeiramente confrontados e sujeitos a um dolo maior ao que pretendem causar. Não se assuste se um cão lhe ladrar mas tome cuidado se ele lhe rosnar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ENCANTADORES, CIRCO E DESENCANTO

O que vejo e oiço leva-me a meditar e como a memória ainda não me atraiçoa, sempre tenho algo a acrescentar àquilo em que reparo. Indubitavelmente somos umas eternas crianças e por vezes gostamos de ser tratados assim, particularmente quando erramos e não queremos ser molestados, o que de certa forma nos mantém vivos e combate o nosso envelhecimento, porque vivemos de afectos e o uso puro e simples da razão não nos traz felicidade (se Wittgenstein cá voltasse, dar-me-ia hoje razão). Por isso precisamos do sonho e de acreditar noutra realidade para além daquela que a nossa vista alcança, procuramos um mundo mágico onde as nossas limitações cessem, uma transcendência que nos embriague, de um conjunto de ilusões que nos equilibre e dê sentido ao nosso duro penar, daí o nosso crer em milagres e o fascínio que a magia exerce sobre nós perante a finidade que nos atormenta e desagrada. E neste remar contra a maré poucos nos acompanham como os cães, animais que vivem na perspectiva do dia de ontem, que nos apaziguam e que à partida não têm preocupações metafísicas (não estou com isto a dar razão aos radicais muçulmanos, que vêm a convivência com os cães como uma mácula para os crentes ou uma apostasia, muito embora consiga compreendê-los quando certos donos endeusam os seus cães).
Quando me lembro do adjectivo “encantador”, lembro-me logo do estereotipado “encantador de serpentes”, dos faquires, dos ilusionistas e inevitavelmente de Ehrich Weisz (Harry Houdini), que atraía multidões para as suas encenações, todos transformados em artistas de circo onde por direito próprio pertencem para gáudio das suas audiências. Se por um lado estamos a banir os animais do circo, a técnica dos seus amestradores estende-se agora à cinotecnia e os cães substituem as feras de outrora – o circo continua. Esta adopção transformou os clássicos amestradores em “encantadores de cães”, indivíduos presentemente exaltados pelo socorro de velhos truques, que encantam as suas plateias e exploram os animais pelo suborno, não hesitando alguns, por via da dúvida e importância do espectáculo, a sujeitarem-nos à alteração ou atraso na distribuição dos pensos, o que os torna em encantadores de gente e não de cães, segundo a compreensão que temos do infinitivo latino “incantare” por detrás do verbo “encantar” que é transitivamente directo e ao mesmo tempo reflexivo. E quando assim não fazem, à imitação dos domadores de focas, substituem o peixe por outra iguaria (engodo).
Seguindo a máxima “THE SOHW MUST GO ONE”, surgem por toda a parte encantadores de cães, amestradores que se transformaram em “entertainers” e vedetas da televisão, não fora a paixão pelo circo milenar, artistas confessos que rotineiramente concorrem a programas do tipo “BRITAIN’S GOT TALENT”. Demorou algum tempo, tudo acontece aqui com algum atraso, mas temos finalmente um “encantador de cães”, tornado público pela CMTV, que aos Sábados pelas 10H30 apresenta o seu espectáculo. O conteúdo do programa nada tem de erudito e o seu propósito aponta directamente para o aumento das audiências. O “Guest Star” luso não tem nem o carisma nem o engenho do índio mexicano que encantou os norte-americanos, sendo um desenrasque e uma imitação barata dos programas do César Millan – um desencanto e um desalento já esperado.
Não creio que existam encantadores de animais e se existem sê-lo-ão exclusivamente de pessoas, muito embora os cães se prestem para muita trapalhada, porque são facilmente iludidos e induzidos a um sem número de investiduras pela sua humano-dependência. E porque importa desambiguar, esclarecer e tratar o assunto com seriedade, vamos seguidamente explicar os meandros que levam à exaltação dos cães genuinamente adestrados, obra tantas vezes omissa dos seus mestres que não procuram riqueza nem galarim, que entendem o seu serviço como missão e não como pretexto para a notoriedade, porque sabem que são imperfeitos e só chegam aonde podem ir – têm conhecimento das suas limitações, incapacidade que transformada em qualidade levá-los-á à insatisfação e fá-los-á evoluir.
Contrariamente ao “EASY WAY” que tanto se apregoa, nem todas as pessoas nasceram para adestradores, porque esta actividade obriga ao desapego próprio e a descer ao nível dos cães, para que melhor sejam compreendidos e posteriormente utilizados, despromoção que a vaidade não vê com bons olhos e que rarissimamente traz riqueza para além do conhecimento. A transição das respostas animais para as artificiais resulta da transfiguração dos mestres que opera idêntica transformação nos animais pela aquisição de uma linguagem comum, algo entendido em parte como “empatia” mas que vai para além dela, porque há muito nos distanciámos das restantes criaturas mercê do especismo, forçados pelo viver urbano e nem todos somos capazes de compreendê-las no seu particular. Não sei se haverá nisto alguma predestinação ou predisposição genética, porque os melhores adestradores que conheci eram díspares entre si e só a humildade era-lhes comum, ainda que por vezes fossem intratáveis entre iguais quando absortos no seu ofício. Amanhã tudo se saberá, se fruto de algum talento, duma fragilidade ou doutra coisa qualquer.
Esta estratégia de baixar ao nível do cão para depois o liderar, só possível pela cumplicidade, requer coabitação, experiência, experimento, paciência, conhecimento (da carga genética do indivíduo, da raça e do seu histórico ambiental), observação e estudo, para que se possa descobrir em cada um o seu particular psicológico, mais e menos valias, temores e fobias (pontos de ruptura), nível cognitivo, aversões e propensões, porque deverá ser o cão a indicar-nos qual o método de ensino a seguir e não sujeitá-lo a um que mais agrave as suas impropriedades e subaproveite o seu potencial, já que importa libertá-lo dos seus entraves e potenciar o melhor que tem para nos dar, dotá-lo de investiduras que por si mesmo jamais alcançaria, considerando em primeiro lugar a sua salvaguarda. A opção por um único método de ensino para todos cães, por desconsiderar o particular dos indivíduos, acabará por beneficiar uns e prejudicar outros, tremendo erro pedagógico muito em voga que tem condenado à mediocridade muitos animais e declarado inaptos muitos mais (exige-se aos seus mestres tacto e sensibilidade).
Nada há de mágico na cinotecnia, a menos que classifiquemos o amor pelos animais de magia, o conhecimento erudito e a experiência de ilusão e as diferentes técnicas de inacessíveis. Um dia destes e a propósito de treinadores de futebol, alguém me reavivou as palavras do Prof. Manuel Sérgio: “PODE SABER-SE MUITO DE FUTEBOL MAS, QUEM SÓ SABE DE FUTEBOL, NEM DE FUTEBOL SABE!”, verdade que se estende também à cinotecnia, considerando as ciências que a sustentam e que abrangem homens e cães. O que transforma os maus adestradores em encantadores é a ignorância popular, o desprezo pelo conhecimento e a inércia que sustenta a mediocridade, que entende como sobrenatural aquilo que não ousa despender em esforço.  

… AS MOSCAS É QUE SÃO OUTRAS!

Ninguém no seu perfeito juízo pode deixar de condenar o sucedido com os cães no Cerco de Estalinegrado, altura em que foram usados como armas anti-tanque, quando carregando explosivos faziam explodir os Panzers alemães. O prejuízo que causaram com a sua morte acabou por ser também decisivo para o desfecho daquele conflito. Enquanto durou e logo pela manhã, correndo atrás do prejuízo, atiradores alemães abatiam todo e qualquer cão que avistassem.
Hoje usam-se drones para esse efeito e os cães de guerra actuais são maioritariamente usados para a detecção de explosivos e não para carregá-los, alteração que não mudou a sua malfadada sorte, porque o primeiro tiro em direcção a um binómio é para o cão.

Não se sabe ao certo quantos cães de guerra foram feridos ou morreram na Invasão do Iraque, na Guerra do Afeganistão e noutros conflitos, mas sabe-se que grande número deles acabou por ser abatido depois de haver sobrevivido às guerras para onde foram levados, o que não pode deixar ninguém indiferente e que deverá também ser objecto de profunda reprovação.
Agradar-se-ão os cães de memoriais ou preferirão viver? Já não será tempo de acabarmos com as guerras e de deixarmos os cães em paz? Verdade seja dita: a política relativa aos animais continua a ser hipócrita, como hipócrita é aquele que badala a paz e pensa em guerra. Se os homens aprendem com os seus erros, porque persistem em repeti-los? Enquanto não nos virmos como iguais, os cães não deixarão de pagar pela nossa cegueira.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

TURCOS E AZERIS

Ocasionalmente, como sucedeu esta semana, chegam-nos leitores da Turquia e do Azerbaijão, nações transcontinentais que se dividem entre a Europa e a Ásia, maioritariamente muçulmanas, democráticas, com governos seculares e étnica e culturalmente próximas uma da outra, países onde o Oriente se funde com o Ocidente e que por isso mesmo fascinam quem os visita. A Turquia há muito que é um dos destinos mais procurados pelos turistas europeus e o Governo Azeri tem vindo ultimamente a apostar no turismo. O Azerbaijão é um país moderno, hospitaleiro e projectado para o futuro, algo místico e apostado na senda do progresso, predicados também visíveis na sua capital: Baku.
O número de leitores asiáticos deste blogue tem vindo a aumentar e os mais assíduos são provenientes da Índia, China, Indonésia, Taiwan, Japão, Filipinas, Vietname, Coreia do Sul, Hong-Kong, Macau, Myanmar, Irão e Sri Lanka. E se mais não temos, tal se deve ao desprezo canino decretado pelos governos muçulmanos não seculares, que proíbem aos seus cidadãos a coabitação com cães e gatos. Apostados na paz universal e na unidade da família humana, agrada-nos de sobremaneira o crescente aumento dos leitores asiáticos, que são tão bem-vindos quanto outros e talvez até mais. Agradecemos desde já a sua preferência e interesse.

SÓ OS MAIS FORTES SOBREVIVEM E SÃO CAPAZES DE PRODUZIR UMA NOVA GERAÇÃO (PROPAGAR-SE)

O título que introduz este texto é uma lição da selecção natural que parece ter sido esquecida pelos canicultores modernos e quem tem resultado na produção de cães mais fracos e doentes, mais carentes do auxílio humano e com menor capacidade de adaptação. Como não estamos a tratar de animais selvagens mas de domésticos e dependentes, sabemos que as raças caninas do futuro serão as mais saudáveis, melhor adaptadas e mais aptas. Em vão têm-se produzido cães esteticamente perfeitos mas de precário suporte psicológico, como se mais interessasse o embrulho que o conteúdo e a saúde dos animais fosse um item desprezível. Em paralelo continuam a ser produzidos cães que rasam a aberração, imprestáveis e com a morte à porta (anunciada).
É evidente que o propósito inicial dos criadores das raças de trabalho não era esse, mas os seus seguidores, ao desprezarem o seu parecer e ao optarem por outros critérios, onde a estética se tornou rainha, acabaram por condenar as raças que lhe foram confiadas. Cite-se como exemplo o Cão de Pastor Alemão, hoje uma ténue imagem do que foi e que finalmente está a ser objecto de algum reparo, reparação tardia que lembra a triste política de “casa roubada, trancas à porta”.
E como falar de cães é também falar dos homens que os acompanham e tendo como consideração que só os mais fortes sobrevivem, todos os países sujeitos aos horrores das guerras económicas, como é o caso do nosso, caso não se livrem da austeridade, acabarão por desaparecer, porque ver-se-ão condenados a uma baixa taxa de natalidade e a longo prazo ao genocídio. Que grande responsabilidade têm os homens do presente quanto ao futuro! Os homens sujeitaram os cães ao mesmo calvário e ambos parecem votados à mesma sorte, pois não há dignidade na morte quando a vida é o melhor dos bens. Assim como esperamos dos políticos solução, não destes mas doutros que virão, os cães esperam que os seus criadores consigam transportá-los para o futuro, tarefa hercúlea que terão de abraçar, obrigados a retroceder para poderem avançar.  

“SENHORA PROFESSORA, NÃO ME BATA MAIS QUE EU TRAGO-LHE ARROZ-DOCE COM CEBOLA!”

Esta exclamação foi proferida por uma aluna da escola primária na década de 60, que desesperada e farta de apanhar reguadas da professora (naquele dia catorze), tentou aliciá-la com a promessa dum prato de arroz-doce, desconhecendo que a iguaria dispensava a cebola e o refogado. Desespero idêntico experimentam os cães que são ensinados abruptamente e cuja adaptação é maioritariamente alcançada pela inibição, como se fossem deliberadamente pouco aplicados ou safados e a razão pertencesse em exclusivo aos seus mestres. Os cães assim ensinados sempre carregarão as marcas desse processo “pedagógico”, denunciado pelas expressões mímicas que não lhes escondem o desalento. Esta prática poderá valer em parte aos animais mais dominantes e carenciados de travamento mas não terá nenhum préstimo para os necessitados de maior ajuda, que tomados de pânico, virão a comportar-se como autómatos ou almas penadas.
Será a inibição necessária ao adestramento? E se for, em que momento ou circunstâncias deverá ser aplicada? Como preâmbulo a estas questões, importa dizer que o objectivo primordial do adestramento é a salvaguarda dos cães, o que engloba o seu bem-estar, protecção e longevidade, preocupações que podem não dispensar a inibição, considerando o particular individual de cada cão e o montante dos perigos e inimigos que os cercam, o que transforma a inibição e os comandos inibitórios em subsídios de prevenção mais ou menos seguros por carecerem de recapitulação, o que não implica que toda e qualquer instalação de comandos careça da inibição para a sua instalação, na ultrapassada dicotomia do “certo e do errado” e que só os cães necessitam de aprender.
Na instalação de comandos, porquanto são respostas artificiais que visam o aproveitamento do potencial canino – o seu uso, cabe aos mestres fazê-lo sem recurso à inibição e usar da cumplicidade necessária para a sua obtenção, porque a disciplina revela-se inválida diante da afeição, os cães são animais de afectos e contrariados resistem ao que lhes é solicitado. Deverá haver alguma diferença substancial entre a doma e o adestramento, porque doutro modo seríamos domadores e não instrutores de cães. Que comandos terão maior durabilidade: os instalados à força ou os assimilados pela parceria? Facilmente se depreende que o ensino canino não dispensa em simultâneo a instrução dos donos, para que transmitam aquilo que pretendem numa linguagem ao alcance dos seus instruendos. Não, a inibição deverá ser banida da instalação dos comandos básicos, porque só atrapalha, compromete a sua duração, gera medos desnecessários ou comportamentos marginais, ainda que à partida nos pareça o meio mais célere e eficaz. Que ninguém tenha dúvidas: o adestramento é um esforço conjunto de homens e cães, cabendo aos primeiros a sua maior fatia, porque se o cão é um intérprete, o seu guia é um tradutor.
O uso indevido ou abusivo da inibição, para além do que atrás adiantámos, poderá ter como consequências as seguintes menos valias nos cães: manha; apatia; insegurança; agressividade gratuita; perca de velocidade na execução; evoluções pouco seguras, quebra de autonomia; exagerada submissão e por aí adiante, entraves psicológicos mais que suficientes para comprometer o trabalho binomial no seu todo e o de cada membro em particular. Assim, o recurso sistemático à inibição no ensino dos cães, para além de evidenciar o parco saber e a aspereza dos seus mestres, acaba por atentar contra o bem-estar canino e desaproveitar grande parte do seu potencial. O recurso a acessórios como o estrangulador de bicos, coleiras eléctricas e de cabresto, utensílios de manifesta inibição que mais espelham as dificuldades dos donos, deverão ser substituídos pelo seu esclarecimento, maior cuidado e preparo, para que esclarecidos e instruídos evitem tal despropósito. Não serão as dificuldades caninas resultantes da ignorância, pouco apego ou despreparo dos seus donos?
O recurso à inibição ou a comandos inibitórios só se justifica diante da ausência de procedimentos preventivos, quando a salvaguarda dos cães estiver em risco ou for necessário alertá-los para os perigos que os cercam no desempenho das suas actividades, para evitar a sua vulnerabilidade e dar-lhes vantagem. Nenhum cão gosta de ser dominado e todos carecem de ser conquistados. Felizes são aqueles que sendo compreendidos, nunca experimentaram a inibição, a coerção ou a persuasão, porque através da indução e vendo compensados os seus esforços, alcançaram o primor da sua prestação.

sábado, 6 de agosto de 2016

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ UNS FAZEM HISTÓRIA E OUTROS DEFINHAM NA FAMA, editado em 01/08/2016
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ O AZEITE PARA AS CARRAÇAS, editado em 24/06/2010
5º _ RAÇAS HÍBRIDAS DE LOBO: O QUE AS TORNA TÃO DIFERENTES, 24/06/2016
6º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES) DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
7º _ CONVERSAS SOBRE PASTORES ALEMÃES À MESA DO CAFÉ, editado em 09/08/2014
8º _ O ESTRANHO ANÚNCIO DOS PASTORES ALEMÃES CASTANHOS, editado 26/04/2013
9º _ HUSKY E SERRA DA ESTRELA: UMA PARCERIA DIFÍCIL, editado em 04/01/2014
10º _ O CÃO LOBEIRO: UM SIVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte ordem:
1º Portugal, 2º Rússia, 3º Brasil, 4º Estados Unidos, 5º Reino Unido, 6º Alemanha, 7º Espanha, 8º França, 9º Moçambique e 10º Quénia. 

NÓS POR CÁ: CASAS PRÓS CEMITÉRIOS E VAGABUNDOS DE BURCA

Vamos lá falar sobre as alterações efectuadas pelo Governo ao IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), decididamente produto duma geringonça para nos sacar ainda mais dinheiro, por quem nos prometeu não aumentar a carga fiscal. Agora o sol passou a ser tributado em Portugal assim como aquilo que avistamos das nossas janelas. Por este andar, se estas alterações não forem revogadas, as casas da classe média ficarão viradas para os cemitérios e os sem-abrigo ver-se-ão obrigados a andar de burca para que o sol não os beneficie gratuitamente ou condenados a circular apenas à noite. Será que esta tropa fandanga irá também tributar a lua? 

BESSIE: UM ANJO DE QUATRO PATAS

Apesar da angelologia não ser a nossa especialidade, sempre ouvimos dizer que cada criança tem um “anjo da guarda”, uma criatura celestial, invisível e alada que protege incessantemente cada petiz ao seu cuidado. Como se compreende, nunca vimos nenhuma destas criaturas mas temos visto outras de diferente apresentação e que nos são familiares – os anjos de quatro patas, como é o caso da Bessie, uma Border Collie, propriedade da Família Wood, residente em Brotton, North Yorkshire/UK e que sempre tem acompanhado o crescimento da Philippa, uma menina de dois anos de idade que é o membro mais novo daquela família.
Através de várias agências britânicas online descobrimos que a citada Border Collie (Bessie) acabou por alertar aquela família para um problema que atribulava a menina, ao estranhar o seu comportamento, pormenor que levou o animal a protegê-la mais afincadamente. Suspeitando que algo se passava, os pais acabaram por levar a bebé ao médico, que lhe diagnosticou leucemia linfóide aguda, encontrando-se agora a fazer quimioterapia.
Os cães estão a ser cada vez mais utilizados para a prevenção e detecção de vários cancros nos humanos, assim como doutras doenças, avisando atempadamente e em simultâneo os seus proprietários para a possibilidade de virem a ser alvo do ataque de alguma doença que sistematicamente os afecte (ex: epilepsia). A Bessie descende de cães aprovados para este serviço e fez valer os créditos que lhe foram transmitidos. Há medida que o tempo passa, o título de “melhor amigo do Homem” ganha novos contornos e diariamente são descobertas novas utilidades para os cães, numa caminhada milenar em que transitaram de caçadores a guardiões, de pastores a terapeutas, de guerreiros a animais de companhia e de cúmplices a auxiliares de saúde. Resta-nos dar os parabéns e manifestar o nosso agradecimento àqueles que assim os capacitam.   

terça-feira, 2 de agosto de 2016

WHO MAKES THE DELIVERY: CALIMERO OR MR. BEAN?

Deste que tive conhecimento do abate dum Husky perdido por um polícia numa localidade inglesa, como se fosse um animal perigoso, fiquei com a ideia do medo que alguns britânicos nutrem pelos cães, facto que me surpreendeu pelo número de raças caninas que aquelas Ilhas deram ao mundo. Penso que esse medo é mais assaz entre os citadinos, que há muito perderam o contacto com o campo e os animais (julgo não estar enganado).
É notícia em quase todos os tablóides britânicos online com uma secção dedicada aos animais de companhia, o resultado dum inquérito feito junto dos carteiros acerca dos ataques caninos de que têm sido alvo. Depois de algum suspense, é-nos revelada a raça que mais atacou aqueles funcionários do Royal Mail: surpreendentemente o Labrador Retriever!
A raça é autóctone da Commonwealth (Canadá) e no ano passado foram registados no Kennel Club britânico 32.507 exemplares, o que a torna na mais popular do Reino Unido e possivelmente a mais conhecida. Todos sabemos que os Labradores são por norma simpáticos, pacíficos e muito comilões, havendo quem lhes chame por chacota de “porcos que ladram”, porque insatisfeitos com a quantidade de ração que lhes é recomendada, não hesitam em foçar por toda a parte, tal qual suínos à cata de bolota, e por outros pormenores que não vale a pena mencionar, ligados ao seu peso, gula e rapidez em comer.
Todos sabemos que existe uma relação entre o impulso ao alimento e o impulso à luta, que quem mal usa os seus dentes para comer, dificilmente os usará para outra coisa, sendo o inverso também verdade, o que possibilita transformar os Labradores em cães de guarda (já treinámos uns quantos). Contudo, apesar de atacarem como os cães criados para esse desempenho, são extraordinariamente corruptíveis e tendo como optar, preferirão encher a barriga do que guardar ou atacar seja o que for, preferindo despender energia a fazer a digestão do que gastá-la em correrias sem petisco. E depois de gordos, ficam de “bem com vida” e a sua disponibilidade é bem menor. À parte disto, enquanto Retrievers, mantêm o instinto de presa e adoram transportar.
Naturalmente cativos ao alimento e “viciados” no transporte, facilmente são distraídos do seu fervor guardião, pelo que têm sido desprezados na guarda e aproveitados para o que nasceram: para a detecção e o transporte. A caça aos carteiros britânicos só pode resultar do seu despreparo e desconhecimento destes cães, porque doutro modo jamais seriam mordidos, a menos que um estranho e único fenótipo esteja presente nos Labradores britânicos ou a entrega do correio tenha vindo a ser feita pelo Calimero ou por Mr. Bean, o primeiro porque treme em demasia e segundo por ser meio desconsertado.
Ao que tudo indica, a “saga dos cães perigosos”, tão amplamente divulgada pelos media ocidentais, sucedânea da fábula do “Lobo-Mau”, está a surtir tal efeito que até o mais manso dos cães é visto como uma fera no Reino de Sua Majestade, algo para o qual temos um provérbio: onde canta galo, não canta galinha, pois com dois biscoitos ou com o arremesso de uma simples garrafa de plástico se anula o querer de um exaltado Labrador. De certa forma o Reino Unido é terra de fenómenos, cite-se como exemplo o “Monstro de Loch Ness” e o número de fantasmas que assolam os seus castelos.     

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

NÓS POR CÁ: MORREU O “SENHOR ATLETISMO”

O Professor Mário Moniz Pereira morreu ontem, o maior impulsionador do atletismo nacional finou-se, não sem antes ter dado ao País vários campeões olímpicos e internacionais, por se ter dedicado de alma e coração a esta modalidade desportiva. Sportinguista de gema, veio a ser meu professor de Educação Física na Escola Preparatória Eugénio dos Santos. Lembro-me dele com o cabelo penteado para trás e do rosto já envelhecido, da disciplina que nos impunha e do esforço que não nos poupava. Nas aulas era parco de palavras, muito observador e exigente. Foi meu professor apenas num ano lectivo mas nunca me esqueci dele. Não sei se o fizeram comendador ou cavaleiro de alguma Ordem, mas se não o fizeram, façam-no a título póstumo que bem merece, como merece como poucos, repousar para sempre no Panteão Nacional, porque ter elevado pelo mundo fora o nome de Portugal. Adeus Professor!

RAÇÕES COM FARINHA DE PEIXE E MERCÚRIO

Já aludimos aos perigos da ração de salmão, que como é sabido vale-se desse peixe criado em viveiros por ser mais barato, que alcança a cor vermelha por aditivos químicos e não pelo camarão que come, pormenor que o torno altamente cancerígeno. Também as rações com base em farinha de peixe, para além dos benefícios badalados e muito em voga, podem ser altamente tóxicas por causa do teor mercúrio encontrado nesses animais que são geralmente mais baratos e menos concorridos para consumo humano, apesar das mulheres portuguesas terem cinco vezes mais mercúrio no seu organismo que a média das restantes mulheres da Comunidade Europeia. Como são inúmeros os peixes com alto teor de mercúrio (ex: atum fresco ou congelado, tintureira e tubarão), e os níveis deste metal não se encontram discriminados nas rações, aconselhamos alguma cautela na sua distribuição aos cães, que deve cessar imediatamente caso surjam problemas gastrointestinais. Pela mesma razão, também os donos deverão limitar a uma vez por mês o consumo dos seguintes peixes: cação, cavala, enguia, espadarte, garoupa, goraz, maruca, moreia, pargo, peixe-espada, peixe-gato, peixe-vermelho, perca, raia, robalo, salmonete e tamboril. Decididamente homens e cães só comem o que lhes faz mal! 

UNS FAZEM HISTÓRIA E OUTROS DEFINHAM NA FAMA

Nunca como até aqui a procura de cães vindos dos abrigos e centros de acolhimento canino foi tão grande e a procura de cães puros tão diminuta, como se os exemplares com pedigree já houvessem passado de moda ou fossem uma praga a evitar. Não se esconde a contribuição da actual crise económica mundial para a novidade mas sabemos não ser ela a única responsável, apesar dos preços irrisórios a que se encontram votados os exemplares das raças padronizadas. As causas para a sua menor procura e a consequente ruína dos seus criadores são várias e iremos destacar as que nos parecem mais importantes, adiantado simultaneamente caminhos e estratégias para que o trabalho desenvolvido até aqui não caia em saco roto e os novos canicultores sejam melhor sucedidos.
A primeira causa externa aponta para os momentos de prosperidade vividos pelas economias ocidentais que antecederam a actual crise económica global, que ao levar a um maior consumo interno, aumentou a procura de cães até ali menos acessíveis, o que teve como consequência o aumento exagerado dos seus criadores e a proliferação inusitada de cães “puros”, criadores sem histórico e experiência nesta actividade que geraram um sem número de cães de menor qualidade e pouco préstimo – o cão com pedigree vulgarizou-se. 
A segunda causa externa resultou duma maior sensibilidade acerca dos direitos dos animais, o que levou à aquisição sistemática de cães vulgares e desafortunados até ali desprezados. Com o instalar da crise económica, a demanda pelos cães dos abrigos surgiu como a melhor opção para os cinófilos, que impedidos de chegar a outros e desprovidos doutras exigências, acabaram por adquirir gratuitamente esses cães e desprezar os padronizados – a aquisição de cães sem pedigree tornou-se prática corrente.
A terceira razão externa, que é também interna, adveio do aumento de informação relativa aos cães, aumento ligado ao aparecimento dos computadores e da Internet, factores que possibilitaram um conhecimento mais tangível das raças caninas, nomeadamente dos cuidados que exigem, dos seus problemas e enfermidades, contratempos que têm vindo a obstar à sua qualidade de vida e longevidade, cujo combate tende a ser dispendioso e merece cuidada atenção. Diante disto facilmente se constata da supremacia do rafeiro relativa ao cão padronizado, das vantagens da selecção natural sobre a artificial – a maioria dos cães padronizados está doente.
Como a excessiva consanguinidade e a endogamia, assim como os exageros estéticos procurados, emprestam a cada raça diferentes impropriedades, ao ponto de as transformarem em doenças típicas de cada uma delas e, como não são assim tão poucas, adiantaremos apenas soluções para o Cão de Pastor Alemão, que ao serem válidas para ele, serão também para outras raças de idêntico propósito e com os mesmos problemas, porque mais importa divulgar o que se experimentou que alvitrar improvadas considerações alheias.
As razões internas para a menor procura do Cão de Pastor Alemão são clínicas, mecânicas e cognitivas que somadas, têm levado à sua substituição pelo Pastor Belga Malinois em serviços específicos e pelos rafeiros na esfera dos animais de companhia. Diferentes prognatismos, a presença de várias taras, as diferentes displasias (de anteriores e posteriores), outros problemas articulares dolorosos, a mielopatia degenerativa, a panosteíte, a insuficiência pancreática exócrina, doenças de pele sazonais, várias alergias e problemas de intolerância alimentar, têm sido incidentes e têm-se perpetuado na raça, chegando algumas delas a tornar-se hereditárias e a comprometerem o bom-nome deste excelente cão alemão, causas mais do que suficientes para o seu desprezo.
A somar às históricas displasias vieram juntar-se outros problemas articulares dolorosos e incapacitantes, que têm comprometido e diminuído a possibilidade de musculação, o tempo útil e a longevidade do Pastor Alemão, agora acrescido de menor mobilidade membro a membro e de traseira, incapacidades que o têm induzido à estafa e condicionado a transição automática dos seus andamentos naturais, para além de lhe impedirem a transposição de paliçadas e muros até aqui ao seu alcance. Generalizou-se o desaprumo da globalidade dos seus membros, a divergência de mãos, um exagerado abatimento de metacarpos e o jarrete de vaca, anomalias concorrentes a lesões que comprometem de sobremaneira a sua recepção ao solo e que o afastam dos esforços continuados ou de missões fisicamente mais exigentes.
E como não há duas sem três, os cães actuais não apresentam a mesma facilidade de aprendizagem visível nos cães do passado, sendo mais nervosos e inseguros, mais dados ao aviso que à cumplicidade nas acções, como se a fragilidade lhes ditasse o comportamento ou a menor disponibilidade física lhes comprometesse a histórica cognição, uma vez que os cães “estupidamente” obedientes parecem nunca terem existido ou terem desaparecido lá para as calendas gregas. Esta alteração poderá dever-se ao fortalecimento das características morfológicas lupinas, que sendo sofrida e avidamente procuradas mais aproximaram o CPA do lobo e distanciaram-no dos restantes cães, tornando-o de menor préstimo pela maior carga instintiva doada pelas alterações morfológicas.
Para resolver o problema da excessiva consanguinidade e endogamia presentes na raça torna-se urgente recorrer às variedades recessivas até aqui desprezadas, sobreviventes em poucos nichos de criação, menos badaladas e maioritariamente associadas ao trabalho, quer elas sejam unicolores ou bicolores (ex: as decorrentes do azul e do negro), desde que isentas das doenças tornadas endémicas no Cão de Pastor Alemão. Em simultâneo, uma vez também feito o despiste dessas enfermidades, importa beneficiar as diferentes linhas entre si para se alcançar uma nova biodiversidade sem a recorrência a outros cães de raça análoga ou diversa.
Há que “mexer” neste cão novamente (só não sentirá necessidade disso quem não o trabalha ou desconhece o seu potencial de outrora) para eliminar os desaprumos e insuficiências que o condenam e despromovem, o que implicará em rejeitar os reprodutores desaprumados, de peito invertido, descodilhados, por demais desnivelados e muito angulados de traseira, excessivamente plantígrados, irritadiços, nervosos e leves, isentos de uma máquina sensorial capaz e por demais barulhentos.
Jamais haverá uma melhoria cognitiva significativa no CPA sem o contributo dos cães denominados de “linha antiga”, que de um modo ou outro, ainda que por vezes omissos, continuam a beneficiar alguns dos cães actuais, porque neles mais reside o superior impulso ao conhecimento que notabilizou a raça. Adianta-se para os mais cépticos que a reconhecida qualidade dos cães das décadas de 40, 50 e 60 ficou a dever-se à biodiversidade e à consequente excelência da selecção efectuada nos anos que antecederam a II Guerra Mundial. Mais, quanto maior for o fosso entre os critérios de selecção originais e os actuais, pior será a qualidade dos cães e, pior que a actual, só o extermínio da raça, expectativa que os seus inimigos não cessam de anunciar. E depois, o que terá afastado os admiradores da raça: a sua superioridade em relação às outras ou o seu menor préstimo?
Pergunta-se ainda: o que contribui decididamente para a melhoria de rendimento dos CPA’s de trabalho em Portugal? Não vale a pena cansar a cabeça: foi a infusão de Pastores Alemães originários do Leste Europeu, onde os provenientes da República Checa ocuparam lugar de destaque. Mas não foram só eles, os vindos da Bélgica e doutros países surtiram o mesmo efeito. Infelizmente os criadores nacionais caíram no mesmo erro e armadilha: fecharam-lhes o círculo de criação e enveredaram pela endogamia. Louva-se o esforço dos novos criadores que têm ousado importar cães de linhas diferentes das que superabundam por aqui, oxalá não caiam em vícios antigos, mantenham a biodiversidade presente na raça e optem por uma política de selecção de quadro aberto. Não aprenderá o homem com os seus erros?
Os mestiços vão de vento em popa e os puros sucumbem aos seus achaques, o Rafeiro está a fazer história e o Pastor Alemão a definhar. Só há um meio de o levantar e fazer ressurgir: apostar nas ancestrais mais-valias laborais que o enalteceram entre os demais, porque o passado, o presente e o futuro reclamam a utilidade como vencedora.