sexta-feira, 29 de julho de 2016

RAJAPALAYAM: O GUARDA ALBINO INDIANO

Quando os argentinos criaram o seu Dogo certamente não sabiam da existência do Rajapalayam, porque doutro modo tê-lo-iam alcançado mais cedo, evitado muitos contratempos ou simplesmente abandonado a sua criação, porque o objecto da sua procura já havia sido encontrado na Índia: um guardião branco e valente, leal, territorial, veloz, exímio trotador, de boa ossatura, multifacetado, caçador, combativo, resistente e persistente, um lebrel farejador indicado para a caça grossa (javali inclusive) e próprio para caçar outros predadores, que nas últimas décadas está ser usado pelo exército indiano como cão de guarda nas fronteiras de Caxemira. Assim é o Rajapalayam, também conhecido como Paleiyakaran, e Hound Poligar (Cão Poligar).
O nome do Rajapalayam veio-lhe da cidade com o mesmo nome, situada no Sul da Índia, de cuja região é endémico, no Distrito de Virudhunagar e Estado de Tamil Nadu, onde a Dinastia Nayakar (Nayaks de Madurai, 1529-1736), constituída por 11 reis, 2 rainhas e 2 vice-reis, o criou e utilizou pela primeira vez, numa altura em que o comércio externo da região era dominado por portugueses e holandeses antes da chegada de britânicos e franceses. Foi usado como cão de guerra e com sucesso, por ser extremamente veloz, contra a cavalaria inglesa nas Guerras Carnatic (1746-1763) e nas Polygar (1799-1805), conflitos que opuseram indianos e ingleses, demasiado sangrentos e de pesadas represálias, que terminaram com a vitória dos últimos, que ali  estabeleceram o “Raj” britânico. Segundo a tradição quatro cães destes conseguiram matar sozinhos um tigre numa floresta daquela região. Especula-se que é ascendente do Dálmata e que existiu em Portugal desde o Séc. XVII. Tradicionalmente tem vindo a ser utilizado para guardar habitações, fazendas e campos de arroz.
Estamos na presença de uma raça que apresenta dimorfismo sexual e que ainda não foi reconhecida pela FCI, que oscila entre os 65 e 75 cm de altura, com um peso médio de 25 kg, de ossatura mais pesada que a visível na maioria dos galgos, apesar de manter idêntica estrutura e a mesma profundidade de peito, sendo por isso um lebrel com características de sabujo, o que leva alguns cinófilos a considerá-lo um “scenthound”, até porque a sua cabeça difere da presente no lebrel, porquanto se destina à caça do javali. Lembra de certo modo um Light Grand Danois ou um Leão da Rodésia atendendo à sua forte musculatura. Apesar de ser veloz e gracioso na marcha e no galope, no que lembra um cavalo isabel, transita facilmente de andamentos. 
Apresenta cabeça em arco, elevada e destacada, com pele macia, solta e de pêlo curto, características que se estendem a todo o corpo, contudo sem barbela e pregas. Os olhos são castanhos, porta uma forte mandíbula em tesoura, as orelhas são caídas e suaves e a sua cauda encaracola e seca. Apesar de haver Rajapalayans de várias cores e malhados (castanhos e pretos), a cor preferida e de referência é o branco-leite. O abate sistemático de exemplares doutras cores levou à formação de um cão quase albino, totalmente branco com lunares e nariz cor-de-rosa (ausente de pigmentação). Os cachorros que nascem com olhos claros ou azuis são por norma surdos e a raça é dada a problemas de pele comuns aos cães brancos, sendo a sarna um dos que mais afecta, ainda que de fácil eliminação. No dia em que em que a manipulação genética se generalizar tudo isso será eliminado. Sem saber como, os Tamil acabaram por produzir uma raça albina. 
Tão bom a caçar à vista como pelo odor, que avisa em demasia, o Rajapalayam é um cão caçador por excelência que exige sociabilização com pessoas, cães e outros animais domésticos deste tenra idade. É amigo e leal ao dono, muito embora nem sempre o demonstre. Cão de um só dono, não gosta de trocar de treinadores, apesar de se integrar nas famílias sem dificuldades, detesta ser manipulado e acariciado por estranhos, que tende a hostilizar e a expulsá-los como intrusos, não suportando invasores, características que o tem alcunhado ali como “cão-homem”. Por vezes a sua independência é confundida com distracção, dificuldade que causa entraves nalguns exemplares, no desfasamento entre a carga instintiva e a personalidade, pormenor que historicamente o tem obrigado à prisão em correntes e que no parecer de alguns experts ocidentais condiciona a sua prestação como guardião. Estamos na presença de um pseudo-lebrel montanhês ou de um sabujo com  uma morfologia lebrel. Os Rajapalayam modernos tem sido perpetuados por uma selecção draconiana, só tendo direito à sobrevivência os melhores caçadores e protectores.
O Rajapalayam não exige grandes cuidados de higiene (baixo grooming), deve ser escovado regularmente com uma luva de borracha, no que não difere doutro cão, as suas unhas deverão ser cortadas de duas em duas semanas e as suas orelhas fiscalizadas. Não deverá ser sujeito a banhos constantes, para não lhe suprimir os óleos protectores da pele, promover ausência pêlo nas articulações e calos. Acostumado a viver do que caça, este cão não come pouco mas exige uma actividade física média-alta para se manter em perfeitas condições físicas e anímicas.
Como estes cães no seu estado puro só são encontrados nas aldeias remotas e montanhosas de Tamil Nadu e encontram-se em vias de extinção, crê-se que o seu número oscilasse entre os 150 e 200 exemplares, o Kennel Club da Índia, através de um projecto chamado “Save the Rajapalayam”, abriu um centro de reprodução em Saidapet, Chennai na início da década de 80, o que contribuiu para o aumento do interesse, de criadores e cães desta raça, projecto também votado ao sucesso pela aplicação da restrição relativa ao número de cães importados. Terão os português algo a ver com o Rajapalayam? Serão os galgos ibéricos seus ascendentes ou os portugueses descendentes? Não sabemos, mas que estivemos na Índia e naqueles lugares 456 anos ninguém duvida, como não se duvida que transportámos cães por toda a parte, mesmo para latitudes onde não existiam. A história do Rajapalayam é apaixonante, vale a pena ser lida e foi para nós um privilégio!  

quarta-feira, 27 de julho de 2016

BOX & MANGA: UMA VELHA RECEITA DO SCHUTZHUND

Ultimamente temos dedicado alguns artigos relativos à recuperação dos cães medrosos, quer hajam nascido assim ou tenham sido vítimas de algum trauma, muito embora nenhuma das causas seja de categórica e fácil eliminação, sendo ainda mais difícil recuperar aqueles que somaram à razão genética outra ambiental. O medo dos humanos é mais comum nos lobos que nos cães e sempre que ele se torna visível nos últimos, não sobrando daí nenhuma razão ambiental, algo de errado aconteceu na selecção dos seus progenitores, que ao invés de dotarem a sua prole da adaptabilidade necessária à sua coabitação prestativa, antes lhe transmitiram a desconfiança e o medo ancestrais.
Imagine-se um cão que teme qualquer pessoa e o comportamento de todas, que resiste a circular no meio delas e que tem pavor das suas festas, apesar de evoluir satisfatoriamente no seu ambiente e perante pessoas que conhece desde sempre. Neste caso, para que leve de vencida os seus receios “infundados”, connosco ao seu lado a acalmá-lo, importa colocá-lo dentro de uma box de transporte num local público, onde passe um número razoável de transeuntes, para que os possa observar (estudar o seu comportamento) sem ser incomodado, porque doutro modo a sua sociabilização resultaria mais difícil. Porquê uma box de transporte e não uma feita totalmente de grades de ferro? Caso optássemos por uma box de grades, a sua exposição seria maior e o pânico dela resultante, pela vulnerabilidade oferecida, atentaria contra o nosso propósito. Uma box porquê? Porque lá dentro sentir-se-á mais protegido, não será surpreendido pela retaguarda, observará quase sem ser visto e prontamente reagirá à aproximação de estranhos, quer avisando da sua presença quer advertindo-os, porque mais depressa defenderá um espaço pequeno que outro mais amplo, sendo esta a razão que leva os cães a defender mais depressa um carro do que uma propriedade. Estando a box ao nosso lado, depressa aquilataremos dos progressos do animal, que deverá ser liberto e atrelado quando se encontrar calmo ou fizer menção de sair.
Caso os seus receios não se estendam aos outros cães, depois de ter reagido à aproximação dos estranhos de dentro da box, deverá ser instalado numa linha de cães prontos a atacar uma cobaia, para que reaja por simpatia e de acordo com o apoio e exemplo dos seus companheiros mais experimentados, uma vez que o problema é também de origem social. Quando manifestar desejo de capturar a cobaia há que incentivá-lo e não assustá-lo, recompensando-o sempre que possível, mesmo quanto manifeste pouco interesse ou as suas tentativas sejam ténues. Independentemente disso, exige-se um figurante experimentado, que instigue ao invés de intimidar e que no princípio dispensará o uso do bastão. Caso os receios do cão se estendem também aos seus pares, deverá ser colocado numa linha constituída por cachorros já iniciados e por cadelas minimamente controladas. Trata-se aqui de despertar o impulso à defesa nele deficitário, de dar-lhe uma experiência que lhe transmita confiança e que leve de vencida os seus medos.
Nenhum destes dois momentos poderá ter um cronograma previamente estabelecido, porque cada animal desperta em diferentes momentos e cada um estabelecê-lo-á de acordo com as respostas positivas que nos vai dando. Cães assim recuperados não deverão ser usados para guarda, porque tanto poderão morder a medo quando regredir perante o aumento da oposição. Em vez disso, deverão continuar a sua capacitação através de churros e outros brinquedos que defenderão ou lutarão pela sua posse. Parece simples e é, desde que haja muita paciência e empenho. 

DEPOIS DO DEGUELLO DO PADRE FRANCÊS LEMBRARAM-SE DA BÍBLIA

Depois da hedionda e mui condenável morte do Padre Francês Jacques Hamel, de 86 anos de idade, ocorrido na Igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Alta Normandia/França, obra de dois terroristas jihadistas (um já cá não está para contar), têm sido muitas as vozes do clero católico a apelar ao diálogo com aqueles grupos assassinos fanático-religiosos, não hesitando alguns clérigos em citar a Bíblia, mormente o constante em Mt. 5.44: “Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;”, princípio que visa o estabelecimento de pontes ao invés do levantamento de muros, também defendido e praticado pelo padre assassinado, que segundo se consta dedicou o seu sacerdócio aos mais pobres, humildes e ostracizados.
Infelizmente não foi com base na Bíblia e muito menos na passagem acima citada, que a Igreja Católica promoveu as Cruzadas, fez vista grossa à escravatura, estabeleceu a Inquisição e não se insurgiu contra o Holocausto, outros genocídios e invasões arbitrárias, acções e inacções de carácter eminentemente político, nalguns casos associadas a questões económicas, que ao semearem ódio, tornaram impossível durante séculos o diálogo ecuménico que hoje tanto reclama por manifesto interesse próprio, quiçá por haver confiado mais nos homens que nas palavras de Deus. E nisto, as desculpas de pouco importam, quando o desejo de vingança passou a fazer parte da cultura intrínseca dos descendentes das vítimas. É evidente que o assassinato do Padre Hamel não é um ajuste de contas pessoal ou religioso, vai muito para além disso e é acima de tudo um desesperado e macabro acto político de quem o ordenou.
Não sabemos se a Igreja Católica será um interlocutor seguro junto dos muçulmanos radicais (terroristas), como não sabemos se esse diálogo será alguma vez possível, mas sabemos que ataques criminosos deste calibre, quando aproveitados, podem suscitar retaliações nunca vistas, lançar o mundo em que vivemos numa luta sem tréguas, rebentar com a Europa, promover novos genocídios e levar ao poder gente empossada de velhos ódios, a uma destruição tão grande quanta a descrita no Livro do Apocalipse. As desculpas de Tony Blair acerca da “Invasão do Iraque”, que incendiou todo o Médio-Oriente, gerou novos e intermináveis conflitos e teve também como resultado a actual crise dos refugiados e os ataques terroristas perpetrados no Ocidente, de nada servem, porque estenderam esses conflitos para dentro das nossas casas e fronteiras, quando o objectivo inicial era exactamente o contrário.
Mais uma vez o Mundo encontra-se bipolarizado e há quem jure ter os dias contados. Como não somos tão dados a interpretar profecias, os dados ainda não foram todos lançados e o silêncio de outros ainda não se quebrou, é possível que ainda venhamos a ter paz, paz que obrigará ao desarme dos terroristas internos e externos (bélicos, económicos e pseudo-religiosos), a uma unidade que respeite os diferentes povos, culturas e credos, para que a harmonia floresça no solo da desarmonia que semeámos ao longo dos séculos.
PS: Aceitam-se acções e orações pelo paz no mundo. 

BORN IN USA

Talvez a ideia tenha partido de gente famosa ou rica, de colunáveis, mas veio para ficar, acontece por toda a parte e é hoje aplicada repetidamente nos Estados Unidos. Trata-se do transporte de cães dentro de malas, sacos e mochilas.
No princípio só os cães toys e miniatura eram transportados assim (cães de bolso), agora tal prática estendeu-se a todos para além do seu tamanho, sendo comum encontrar-se toda a sorte de cães dentro destes utensílios nas deslocações dos seus donos.
A adopção da ideia ficou a dever-se ao regulamento de metros e comboios nos States, que apenas permite aos cães de serviço acompanharem os donos e pelo seu próprio pé, não apresentando qualquer objecção àqueles que são transportados dentro das malas, sacos e mochilas dos donos, sendo omissos quanto à dimensão e peso dos animais, omissão que tem possibilitado o transporte dos mais variados cães naqueles meios ferroviários.
Como não há notícia de incómodos, desacatos, dolo ou acidentes provocados pelos cães “ensacados”, os ditos regulamentos não foram ainda objecto de revisão e de actualização, que acontecerão imediatamente ao menor problema, como sempre acontece por aquelas bandas, onde regulamentos são coisa que ali não falta. Será que Donald Trump, caso venha ser Presidente dos Estados Unidos, virá também a dar caça a estes “infiltrados”? Imaginação é algo que não lhe falta e inimigos vê-os por todo o lado, no que lembra o seu homónimo Donald Duck, apesar deste não ter uma cabeleira tão exuberante quanto o candidato republicano à presidência.

NÃO VOLTAR AOS LUGARES ONDE FOMOS FELIZES

Mais que cultuar as memórias, importa viver a vida, porque a memória é curta e a vida segue em frente. E se o destino de todos é a morte, há que aproveitar a vida, que sendo passageira deverá ser bem preenchida, não só de memórias mas essencialmente de novidades, porque só assim podemos dar combate à finidade. O passado não se altera mas o presente e o futuro podem ser melhores e diferentes. Relembrar é próprio de quem já passou e reconstruir de quem continua e não desiste. Agarra-se ao princípio quem avista o fim, quem sente que já não é capaz e conforma-se com a sua sorte, pois engalanar memórias é entregá-las à poeira do tempo e esperar que ele nos leve também. A grandeza que atribuímos aos lugares e a tantas outras coisas, outra coisa não é que a circunscrição da nossa pequenez, um dossier do nosso viver comezinho. E dito isto, vou treinar um cão, que há muito tempo está à minha espera, talvez não seja um campeão mas é mais que uma quimera, porque com ele voltarei a ser feliz, a descobri que não estou só e a alcançar novos desafios. Adestrar é acreditar, despregar-se do tempo e avançar. Até já! 

terça-feira, 26 de julho de 2016

BOAS INTENÇÕES E PÉSSIMO RESULTADO

É muito difícil fazer compreender as diferenças a quem julga a parte pelo todo e que ainda por cima não faz questão de mudar. Generalizar não requer grande conhecimento e é bitola quanto baste para quem vive na ignorância. Uma cachorra Border Collie, agora com 7 meses, foi abandonada numa auto-estrada pela companheira do seu dono, sem conhecimento dele, quando tinha apenas 4 meses de idade. Como o animal intentava voltar para o carro, a mulher desferiu-lhe uns quantos pontapés e pôs-se em fuga. Felizmente a cachorra veio a ser recolhida por um homem que é proprietário de um café-esplanada, que a acolheu como sua e a tem criado com muito carinho. Dentro da quinta que possui, a cadelinha é feliz, extrovertida e segura mas na rua treme que nem varas verdes e foge das senhoras que com ela se cruzam, porquanto ficou traumatizada. O novo dono, que ignorava o trauma da cadela, decidiu pedir ajuda a um profissional, que fazendo uso amiúde da recompensa, pacientemente e segundo as pequenas vitórias que vai alcançando, lá vai a duras penas equilibrando a cachorra, que pouco a pouco (por vezes com alguns reveses) se vai libertando do trauma que a tem acompanhado.
Fixada na recompensa, a cachorra vai fazendo o “junto” de modo acertado, muito embora trema quando sente alguém atrás de si e quando alguma senhora fala mais alto ou é demasiado exuberante no seu gesticular, tremendo também diante de carrinhos de bebé, gente a correr, bengalas, bicicletas e roídos inesperados. Como se depreende, não tem sido fácil ensinar-lhe o “fica” (quieto) à distância na via pública, porque não se sente à vontade e põe-se em fuga, muito embora já consiga ficar quieta, por tempo indeterminado, junto do treinador quando este se encontra ao seu lado, sentado numa das mesas da dita esplanada, mostrando-se ali relaxada e indiferente àquilo que a rodeia, avanço que alvitra a sua possível recuperação. Contudo, o medo da cachorra salta à vista de todos quando é solta por breves instantes, porque se intimida perante os olhares alheios, contorna quem dela se aproximar e foge de quem intenta acariciá-la, procurando refúgio junto do treinador nessas ocasiões. E porque ainda não se encontra preparada para tal, o adestrador tem optado por mantê-la atrelada e junto de si, só a soltando quando o volume de transeuntes é menor, estratégia que se tem revelado acertada pelos resultados alcançados.
A animais com traumas destes não se pode forçar a amizade, há que dar tempo ao tempo e esperar que a cadela se sinta cómoda, que seja ela a tomar a iniciativa de se dirigir às pessoas e não o contrário, pormenor de suma importância que o vulgo ignora. Num destes dias, quando a cachorra se encontrava deitada ao lado de quem a ensina, uma senhora volumosa, de grandes braços flácidos e linguagem aguda e estridente, decidiu partir para cima do animal no intuito de lhe fazer festas, acto que fez por iniciativa própria e sem consultar ninguém. A cachorra acabou por apanhar um susto tremendo e regrediu no que até ali havia alcançado, mostrando-se agora ainda mais receosa das senhoras. Educadamente e com voz suave, o adestrador explicou àquela senhora a causa daquele comportamento, o acto reflexo da cadela e a impropriedade do seu acto arbitrário, merecendo daquela bem-intencionada criatura a seguinte e inesperada resposta: “Já vi que consigo não se pode falar!”
E mais não disse e nada mais há para dizer, a não ser que de boas-intenções estão o Céu e o Inferno cheios!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

LEITORES RAROS: DO ZIMBÁBUE E DA BIRMÂNIA

Hoje recebemos leitores pouco usuais: do Zimbábue e da Birmânia (Myanmar). Ao soletrarmos o nome “Zimbábue” lembrámo-nos automaticamente da “Conferência de Berlim” (1884-1885), do efémero “Mapa Cor-de-Rosa” e do “Ultimato Inglês” de 1890, em muito responsável pela queda da monarquia em Portugal. A Birmânia é-nos particularmente grata e próxima, porque ainda hoje ali vive um povo descendente dos navegadores e marinheiros portugueses: os Bayingyis, “O Povo dos Olhos Verdes” (na foto abaixo podemos ver uma moça desta etnia), gente que ainda entaramela alguns dos nossos vocábulos, mantém a fé católica, tem nomes iguais aos nossos, conserva velhos costumes portugueses e orgulha-se da sua origem, apesar de ao longo dos séculos nos termos esquecido dele. Também na Birmânia, nos Séculos XVI e XVII, mais propriamente em Arracão, três portugueses dedicados à pirataria foram coroados reis: Salvador Ribeiro de Sousa, Filipe de Brito e Nicote e Sebastião Gonçalves Tibau, respectivamente um vimaranense de Ronfe, um olisiponense e um saloio de Santo Antão do Tojal.
Pondo de parte as considerações históricas, que mais importam a quem vive à sombra do estandarte da Pátria-Mãe, queremos dar o nosso caloroso “bem-vindo” a estes leitores, desejando que outros dos mesmos lugares nos visitem. Ficaríamos ainda mais satisfeitos se alguns Bayingyis se tornassem nossas visitas assíduas, reatando assim os laços que nos ligam e que eles teimosamente conservam. O caso dos Bayingyis não é único e tem réplicas por todo o lado, cite-se como exemplo o Povo Lamno na Indonésia, ali designado como “O Povo dos Olhos Azuis”, que vive numa Vila piscatória na Província de Aceh, na Ilha de Sumatra, também ele descendente de portugueses, que de um momento para o outro entrou em extinção pelo famigerado tsunami de 2004, tragédia que reduziu a menos duma dezena as centenas de luso-descendentes (na foto abaixo podemos ver uma menina do povo Lamno).
Gratos aos nossos visitantes, como dizia o Eng.º Sousa Veloso, “despedimo-nos com amizade”, ávidos de novas visitas e do intercâmbio que possam vir a fornecer-nos pelo novo mar que é a Internet.     

AS CADELAS ESCONDEM OS FILHOS PORQUÊ?

Esta é uma questão que nos é colocada ciclicamente pelos nossos leitores e que mais uma vez deu entrada na nossa caixa de correio. As cadelas agem assim quando a maternidade que lhes foi atribuída não apresenta condições para tal (escassez de comida, microclima adverso, espaço demasiado aberto, ausência de limpeza, etc.), é demasiado exposta ou sujeita a intromissão continuada, tanto pelos donos como por estranhos. Poder-se-á falar aqui de um resquício atávico, porque todos os canídeos selvagens, lobo inclusive, procedem do mesmo modo no período de reprodução, procurando outras áreas para evitarem a interacção com os seres humanos por se sentirem mais vulneráveis. As cadelas a quem repetidamente roubaram ou mataram os filhos, mercê dessa experiência, tendem também a esconder os cachorros e a transportá-los para locais mais seguros, procedendo do mesmo modo quando em ninhadas anteriores viram morrer toda a sua prole. 
Como a evasão da matriarca e o consequente transporte dos cachorros acontecem geralmente entre a nascença e a 3ª semana de vida dos filhotes, altura em que vivem exclusivamente do leite materno, importa deixar a cadela à vontade nessa altura e importuná-la o menos possível, para que se sinta cómoda nos seus afazeres, ali permaneça até ao desmame e não encontre razões para se evadir. Chegada a altura do desmame, porque é humano-dependente em matéria de sobrevivência, a cadela afastar-se-á mais dos cachorros e procurará a nossa ajuda para os alimentarmos e procedermos à limpeza do habitáculo. O período mais crítico de ansiedade nas matriarcas acontece nos 3 primeiros dias de vida dos cachorros, pelo que não deverão ser incomodadas, a menos que seja necessário tirar um nado-morto ou algum cachorro que não sobreviveu. Nestes casos importa fazê-lo longe da vista das cadelas, para que não vejam o que fazemos e venham a tomar atitudes mais extremadas (ex: canibalismo).   

UM CÃO ESPERTO É OUTRA COISA!

Os tablóides britânicos online estão a dar notícia do ocorrido num parque de estacionamento em Bryansk, no leste da Rússia, onde um cão, farto de esperar pelo dono dentro de um carro, decidiu tocar a buzina daquela viatura, juntando ao som do cláxon um uivo continuado, episódio gravado em vídeo que pode ser visto nas suas edições de hoje. Como não podia deixar de ser, os cães agora destinados à segurança trabalham em parceria com aparelhos electrónicos, accionando alarmes e afugentando intrusos sem fazerem uso dos seus dentes e não se expondo gratuitamente a um sem número de perigos para a sua salvaguarda, havendo outros que desenvolvem acções defensivas accionadas pelo toque de um telemóvel quando os seus donos se encontram ausentes e distantes do perímetro a defender. O conjugar dos esforços caninos com as novas tecnologias tem aumentado os níveis de segurança das habitações e salvaguardado como nunca a integridade física de donos e cães vigilantes. E como ter um cão esperto é outra coisa, novos e atractivos desafios chegam diariamente à cinotecnia, visando a melhor prestação canina pelo auxílio de computadores e outros dispositivos electrónicos ao nosso dispor. É neste pé que andamos e as novidades não param de nos surpreender. 

IMPLICAÇÕES SOCIAIS E ATLÉTICAS DO CORTE DE CAUDA E ORELHAS NOS CÃES

E porque ainda há quem persista em mandar cortar a cauda e as orelhas aos seus cães, importa-nos demonstrar as implicações sociais e atléticas desta opção nestes animais, dispensando-nos de abordar as questões ligadas ao mal-estar causado e aos riscos da anestesia, da perda de sangue e de infecção por serem do conhecimento geral. Todos sabemos também que essas amputações alteram a apresentação dos cães, alterações que impedem a compreensão imediata dos seus estados anímicos pela menor visibilidade das expressões mímicas que os denunciam, fornecidas pelas diferentes colocações das orelhas e da cauda, tanto aos homens como aos outros cães, contratempo que em nada ajuda à sua compreensão e sociabilização, uma vez que sempre desfilam em porte majestático mercê das amputações, engano mais do que suficiente para serem mal-entendidos, que vistos como perigosos pelas pessoas e provocadores pelos seus iguais, acabam invariavelmente vítimas da sua antipatia.
Para além das implicações sociais, acrescem aos cães assim amputados menos valias atléticas pela inexistência da cauda, que sendo imprescindível ao seu desempenho físico acertado, acaba por obrigá-los a esforços maiores e de maior risco, nomeadamente na transposição de obstáculos e na presença de animais rectos ou menos angulados de traseira, porque não tendo cauda falta-lhes o leme, são obrigados a saltos mais distantes dos obstáculos, mais altos e menos arredondados, apresentando maiores dificuldades de travamento, factores que interligados e associados a cães quadrados, pernaltos ou obesos, concorrem significativamente para lesões imediatas ou a médio prazo.
O hábito destas amputações tem uma origem pastoril e perpetuou-se entre os cães de arena desde tempos imemoráveis, porque as orelhas são fortemente irrigadas de sangue e importava que não se esvaíssem no desempenho das suas actividades, quer dessem caça aos predadores, caçassem em locais de vegetação espinhosa ou lutassem entre si. Pelas razões sociais atrás citadas, muita gente tem comprado gato por lebre, comprado cães cobardes com aparência de valentes, estratégia que tem servido de sobremaneira a criadores menos escrupulosos e necessitados de escoar a escória da sua produção. O que mais atemorizará: um Doberman de orelhas tombadas ou outro com elas amputadas? Felizmente, em abono dos cães, do seu bem-estar e aceitação, esta prática tem vindo a ser proibida um pouco por toda a parte, muito embora ainda se vejam animais assim amputados para gáudio dos seus donos, que o fazem por razões estéticas, suprir desejos de saudosistas ou para assustar os outros.

A FATWA DE MANCHESTER

Assim como não há dúvidas que os ingleses são chauvinistas e conservadores, também há que reconhecer-lhes razões para o serem, particularmente agora quando atentam contra o seu histórico modo de vida (a Inglaterra é o País que mantém a mais antiga democracia do Mundo). Nos agregados populacionais de Cheetham Hill e Salford, em Manchester/UK, lugares onde existe uma grande comunidade muçulmana, um pretenso grupo islâmico denominado “For Public Purity” (Para a Pureza Pública), anónimo e de manifestas intenções sectárias, levou a cabo uma distribuição de folhetos (exemplar na foto abaixo) onde pede aos cidadãos não-muçulmanos que limitem a presença de cães na via pública, para que os seguidores do Islão ali residentes possam manter-se imaculados e sem defeito à luz da sua fé, que considera estes animais impuros e passíveis de transmitir impureza a quem com eles coabita.
Esta petição lembra em tudo as “Fatwas” (decretos islâmicos) postos em prática em vários países muçulmanos, como já aconteceu na Arábia Saudita e no Irão, onde ter um cão pode dar direito a apanhar 74 chibatadas. Escusado será dizer que a restante população, com razão, desaprovou tamanho descaramento e afronta. Resta saber a procedência e identidade dos autores dos folhetos: se oriunda de muçulmanos observantes, se dum grupo xenófobo inglês que, ao fazer-se passar-se por eles e desejando extraí-los dali, procura antagonizá-los com os restantes cidadãos. Qualquer das hipóteses é possível atendendo ao actual momento de crispação que ali se vive e que inflama toda a Europa. Seja qual for o caso, os cães são um mero pretexto ainda que um rastilho muito seguro.   

sábado, 23 de julho de 2016

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ CORRER OU MARCHAR COM O SEU CÃO?, editado em 14/07/2016
3º _ PACHÓN NAVARRO: UNIR EL PASADO AL PRESENTE, editado em 01/07/2015
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO!, editado em 05/06/2010
5º _ O SONHO DO LUPINO PORTUGUÊS E O PERRO LOBO MALLORCAN, editado em 18/08/2015
6º _ UMA NOTÍCIA E UM LIVRO, editado em 18/07/2016
7º _ CONVERSAS SOBRE PASTORES ALEMÃES À MESA DO CAFÉ, editado em 09/08/2014
8º _ OS CÃES DA NICOLE SCHLAEPFER, editado em 30/04/2014
9º _ SERÁ O BOERBOEL UMA BESTA APOCALÍPTICA?, editado em 02/05/2015
10º _ CIMARRÓN URUGUAYO OU FILA CISPLATINO?, editado 27/04/2016

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte ordem:
1º Portugal, 2º Rússia, 3º Brasil, 4º Estados Unidos, 5º Reino Unido, 6º Alemanha, 7º França, 8º Angola, 9º Quénia e 10º Ucrânia.

UM AUXÍLIO COMPROVADO PARA AS FAMÍLIAS COM FILHOS AUTISTAS

Há que subtrair os exageros que se ouvem e lêem acerca das mais-valias caninas, porque provêm de cinófilos confessos, os cães estão na moda e estas circunstâncias têm vindo a transformá-los numa panaceia, a exemplo do que se passou com o Aloé Vera e outros produtos naturais (um apicultor dirá sem grande dificuldade que o Própolis é a solução para todas as maleitas).
É evidente que ainda não se descobriram todas as vantagens que um cão de companhia tem para oferecer, até porque a sua existência tal como o conhecemos hoje é relativamente recente, tornou-se mais visível a partir da última década do Séc. XIX e o recurso sistemático aos cães de terapia sucedeu apenas há 30 anos atrás, ainda que os cães-guias levem um século de existência. Por outro lado, a exaltação dos méritos caninos está associada a múltiplos factores, dos quais destacamos a migração humana do campo para as cidades, o stress urbano e o viver citadino, o descontentamento e suspeita relativos aos medicamentos sintéticos, o aumento da riqueza, maior justiça social e a menor taxa de natalidade nas famílias do Mundo Ocidental, sendo este último facto responsável pela maior procura e apreço pelos cães, que hoje como nunca tendem a substituir os filhos e que são objecto de uma veneração nunca vista, como se o lobo familiar fosse uma divindade finalmente revelada.
Recentemente vários investigadores têm levado a cabo e publicado estudos onde avaliam os benefícios dos cães de companhia nas famílias com filhos autistas, comprovando que a presença destes animais é benéfica tanto para os pais como para as crianças, porque nos primeiros oferece-lhes cumplicidade, reforça-lhes os esforços e liberta-os do stress, contribuindo assim para uma harmonia familiar menos desgastante, uma vez que facilitam a interacção com as crianças e ajudam-nas a ser mais responsáveis.
Já em Abril de 2014 investigadores da Universidade de Missouri-Columbia/USA haviam chegado a estas conclusões e agora investigadores da Universidade de Lincoln/UK, financiados pela Fundação norte-americana HUMAN ANIMAL BOND RESEARCH INITIATIVE (HABRI), vieram comprová-las. Diz-nos a experiência que nem todos os cães se prestam como animais de companhia e um grupo muito menor conseguirá desempenhar a tarefa, isentando pais e crianças de riscos desnecessários. Para que tudo corra sem novidade e os resultados esperados sejam alcançados, é necessário que os cães sejam objecto de escolha, fáceis de se ambientar, cúmplices e submissos, pouco territoriais, calmos e com fracos ou inexistentes impulsos à defesa, à luta e ao poder, porque doutro modo, como reacção ao stress provocado, poderão descarregar sobre as crianças portadoras deste distúrbio neurológico, caracterizado por dificuldades na interacção social, na comunicação verbal e não-verbal, e por um comportamento repetitivo e restrito.
Ao longo da nossa existência pudemos comprovar os benefícios caninos sobre crianças com distúrbios neurológicos iguais ou similares, indivíduos que nunca tratámos como anormais e dignos de pena mas que convidámos como iguais para o nosso meio apostados na sua recuperação. Certamente haverá outros animais que se prestarão para a tarefa mas nenhum deles tornará a desejável interacção mais fácil que o cão, um animal que criámos para servir e que assim tem permanecido ao longo dos tempos, um companheiro que ao invés de ser Deus atribui aos seus donos um estatuto quase divino, prontificando-se a tudo para os fazer feliz. 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

… ALÉM DISSO TENHO QUATRO CÃES!

Fernando Santos, treinador e seleccionador da Selecção Portuguesa de Futebol, numa entrevista, após ter renovado o contrato que o liga à Federação Portuguesa de Futebol, quando questionado por um jornalista acerca da possíveis dificuldades que irá encontrar no seu trabalho, disse: “não sinto pressões e não tenho medo, além disso tenho quatro cães”, numa alusão ao provérbio popular que diz: ”quem tem medo, compra um cão”. Mas será que os tem de facto? Conhecê-los-á bem? Cuidará bem deles? Passará com eles o tempo necessário, serão seus cúmplices ou ser-lhes-ão de algum modo desconhecidos? São muitos os que nos dizem terem sido criados com cães por perto ou possuírem meia-dúzia deles para justificarem o seu pretenso saber e conhecimento básico dos cuidados que estes companheiros reclamam, não se provando nem uma coisa nem outra quando a conversa se estende.
Ter uma matilha de cães não implica em conhecê-los individualmente e ir ao encontro das necessidades de cada um, porque todos são diferentes, reclamam por atenção e exigem cuidados diversos. Quanto maior for o seu número, a menos que não façamos mais nada, menor será o nosso auxílio a cada um deles, porque não nos podemos repartir ou desmultiplicar equitativamente por ausência de disponibilidade, verdade que torna a colecção de cães num autêntico disparate e num gozo por demais dispendioso, opção que mal serve aos cães e que acaba por complicar a vida dos donos, muitos deles sem condições para cuidarem satisfatoriamente de um só, ficando os cães entregues uns aos outros e os donos literalmente entregues à bicharada!
Quem tem vários cães espera que eles se entretenham uns com os outros e que dispensem assim maiores cuidados, julgando-os felizes dessa maneira e pouco interagindo com eles, o que é falso apesar de cómodo. Todos os cães reclamam por um tratamento próximo e individual. E quando assim não sucede, porque os animais passam mais tempo uns com os outros do que com os donos, assiste-se à constituição da matilha animal e ao respectivo escalonamento social que a sustenta, que irá privilegiar os mais fortes em detrimento dos mais cúmplices, que virão agir de acordo com o que lhes é permitido e não segundo as suas capacidades ou mais-valias, agravando assim o seu fraco impulso ao poder e os seus receios, herança e inibição que os tornarão imprestáveis e por demais arredios. Há quem diga que eles se “entendem”, entendimento só possível pela lei do mais forte que escalonará aquela hierarquia à dentada. E quando as picardias se tornam mais graves e constantes, logo se apela aos bons ofícios da santa castração, em substituição de uma liderança inexistente, que não se quer intrometer ou que resiste à investidura.
É nossa opinião e quem nos deu ouvidos dá-nos razão, que só se deve adquirir um segundo cão depois do primeiro se encontrar minimamente educado, que a sociabilização canina é tarefa dos donos e que só ela poderá evitar a crueza e os desprezíveis reflexos do escalonamento animal puro e simples. Assim como os cães dominantes carecem de domínio, também os submissos necessitam de ser felizes e libertos dos seus medos, e só a ingerência humana será capaz de fazê-lo, ao reclamar para si o papel de líder no lugar do macho-alfa. E se um cão exige uma marcha diária de 5 km de extensão ao lado do dono para se manter em forma, se eu tiver 4 cães serei capaz de fazer 20 km diários? É evidente que poderei atrelá-los a um carro, entregá-los aos bons ofícios das passadeiras e carroceis mecânicos, mas prestar-se-á estas máquinas para o robustecimento do seu carácter e para o fortalecimento dos necessários vínculos afectivos com os donos? Que alegria desenvolverão quando condicionados naquelas máquinas?
Há quem justifique a sua irresponsabilidade pelo terreno que tem à disposição dos seus cães, que sendo extenso supriria as suas necessidades atléticas e excursionistas, mentira nua e crua porque os cães não tendo o que fazer nas grandes extensões, acabam por permanecer nos locais que lhes são mais aprazíveis e que lhes garantem a sua subsistência: junto às habitações, aos portões ou em locais onde se podem abrigar do frio e do calor, também naqueles onde se sentem mais protegidos e cómodos, porque há muito deixaram de ser selvagens e sobrevivem pela dependência. Ter muitos cães é não poder valer convenientemente a todos, é beneficiar os mais fortes e abandonar os mais fracos à sua sorte. E diante de tudo isto uma pergunta se agiganta: se não tenho tempo para eles, por que carga de água fui buscá-los? Para serem infelizes? Justificará o meu gozo a sua infelicidade? Ainda bem que os cães não falam!

PIADA DA SEMANA

Um amigo mostrou-me o “Facebook” e eu achei o máximo. O meu problema é não ter computador, mas achei tão fantástico que decidi mesmo assim encontrar amigos novos, aplicando os mesmos princípios. Então, saio todos os dias à rua e pergunto às pessoas que encontro se querem ser minhas amigas, conto-lhes a minha vida toda, digo-lhes quando é o meu aniversário, onde moro, o que faço, as empresas onde já trabalhei, mostro-lhes montes de fotos minhas e de outros amigos meus, do meu cão, da minha mulher, dos meus filhos, da minha sogra, minhas a jogar à bola em cuecas, escuto com muita atenção aquilo que me vão dizendo e respondo sempre “I like”. E sabem que funciona mesmo bem? Já arranjei 4 seguidores: dois polícias, um psiquiatra e um cão!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

700 VISITAS DA RÚSSIA EM TRÊS DIAS

Em três dias e até ao momento, tivemos 700 visitantes da Rússia. Hoje o número de leitores daquele país quadruplicou o dos nacionais (503 russos para 106 portugueses) e não cessa de aumentar. Agrada-nos muito o interesse russo e seguimos com atenção a evolução da sua cinotecnia e os avanços científicos que tem dado à canicultura. Mantemos intercâmbio com alguns leitores russos e desejamos fazê-lo com mais. Esperamos continuar a cativar leitores daquelas paragens e agradecemos a sua preferência.

IGNORÂNCIA LEVA A RESGATE CANINO NOS MONTES GOLÃ

Três bem-intencionadas senhoras decidiram escalar os Montes Golã em Israel na companhia de dois cães, num terreno pedregoso, com a temperatura acima dos 30º graus celsius e com um baixo percentual de humidade, num ecossistema que lembra o clima e a geografia aqui encontrados nas serrarias das Beiras na época estival. Em determinado momento, exaustos e feridos nas patas, os animais cessaram a marcha e deitaram-se no chão, não tendo as suas companheiros como demovê-los das suas intenções, porque não se levantavam e dali não davam nem mais um passo. Os cães acabaram por ser resgatados por uma equipa de socorristas de montanha, que se viram obrigados a transportá-los à padiola, monte abaixo, numa maca própria para resgate de sinistrados de montanha. Os sinistrados foram tratados e já se encontram recuperados. Uma das proprietárias caninas adiantou que para a próxima vez, quanto retornar àqueles Montes, munirá o seu cão de botas para evitar que o sucedido se repita, botas que fazem parte do equipamento obrigatório dos cães de guerra israelitas quando trabalham naquelas paragens ou noutros locais com as mesmas dificuldades e características.
Pelas imagens e pormenores divulgados pelas agências noticiosas internacionais os cães dois eram braquicéfalos e pesados (um deles tinha 65 kg), o que tornou aquele passeio de alto risco para eles, considerando a altitude, as suas tradicionais dificuldades respiratórias, a rarefacção do oxigénio, a alta temperatura, a pouca humidade e o tipo de solo, detalhes que não deviam ter passado pela cabeça daquelas simpáticas escaladoras, provavelmente mais empenhadas em desfrutar a paisagem.
Problema idêntico poderão enfrentar os nossos cães nesta época do ano, quando convidados a acompanhar os seus donos pelas serrarias do interior Norte e Centro do País, onde o calor seco e impiedoso aperta, a humidade é menor que no litoral e os pisos são igualmente pedregosos. Como o uso de botas nos cães é raríssimo entre nós, caberá às escolas caninas alertar para a sua necessidade e benefícios, convidando os donos a colocá-las nos seus companheiros e dando-lhes algumas aulas com elas postas para que se acostumem, trabalho que deverá terminar antes de partirem para férias.