sexta-feira, 8 de julho de 2016

CONCORDO COM TEIXEIRA DE PASCOAES E PESSOA

Chega de dizermos mal uns dos outros, que inclinação fratricida e atroz nos domina, como podemos sobreviver como nação se o maior inimigo de um português é outro nascido no berço pátrio? Portugal não é só um país de poetas mas também uma tradicional nação de zoófilos. O amor que temos pelos animais estendeu-se aos nossos escritores e poetas, muito antes da antrozoologia ser considerada como ciência, sendo as citações de alguns verdades insofismáveis e currículo obrigatório para quem gosta, cuida e educa animais. Teixeira de Pascoaes, um poeta do saudosismo, disse um dia: “Os animais são pessoas, como nós somos animais”. Pessoa foi mais longe ao dizer: “O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.”. Tendo como base estas citações, depois de reflectirmos sobre elas e descortinado as verdades que encerram, decidimos explicar a sua importância para o adestramento, algo para além da poesia, que ao ser aprendido e praticado, eleva o ensino canino acima das quimeras pelo sonho tornado realidade.
Comecemos pela sentença de Pascoaes: “Os animais são pessoas, como nós somos animais”. Não deixa dúvidas a ninguém que o poeta aristocrata de Amarante se está a referir ao respeito pelos animais e pelos seus direitos enquanto seres vivos. Em simultâneo está a alvitrar que todos são diferentes entre si como as pessoas, verdade que também se estende aos cães e que muito nos importa, porque o adestramento visa a sua adaptação e capacitação de acordo com o potencial individual de cada um deles, pelo que os métodos de ensino não são universais e muito menos os conteúdos escolares a transmitir. Tal como as pessoas, os animais têm diferentes vocações que importa descobrir e potenciar, saber que impede o adestramento de se transformar numa actividade contra-natura.
Dizia Fernando Pessoa e bem que: “O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.”, pensamento que em nada foge à verdade e que por isso mesmo é irrefutável, porque os animais vivem da experiência que alcançam e os homens são embalados (por vezes traídos) pela esperança que não lhes dá tréguas nem descanso, capacidade que os leva à ambição, a ir para diante e ao querer saber mais, inquietude que tudo põe em causa e que para tudo procura explicação. Esta capacidade humana, que vai para além do instinto de sobrevivência também presente nos animais, obriga-nos a preparar os nossos cães para os desafios quotidianos, a alertá-los para os perigos que os cercam e a adaptá-los para que vivam mais tempo, porque vivem na perspectiva do dia de ontem e não sabem o que os aguarda amanhã. Contrariamente aos animais selvagens, cuja autonomia lhes garante o saber necessário para a subsistência e para a sobrevivência, o cão ao tornar-se dependente dos homens entregou-lhes a sua sorte e casou o seu destino com o deles, cedência e fragilidade que nos remetem para a necessidade do seu ensino, por maiores que sejam as nossas ambições ou dúvidas existenciais.
A cinotecnia, enquanto actividade transformadora, outra coisa não é que a poesia do concreto, porque os cães incorporam os sonhos dos homens, dão-lhes protecção, fazem-lhes companhia, servem-lhes de inspiração, criam-lhes momentos de felicidade nunca experimentados, pequenas glórias e gozos espontâneos que jamais esquecerão. A inglesa Mary Ann Evans (1819-1880), escritora mundialmente conhecida pelo pseudónimo masculino de “George Eliot”, em cuja obra reflectia os conflitos do ser humano como a angústia, o desespero e a busca da razão da vida, disse a determinado trecho: “Os animais são amigos tão agradáveis: não fazem perguntas, não criticam”, assim são também os cães e talvez por causa disso os tenhamos em tão alta estima. Num País de poetas não podem faltar adestradores capazes!
PS: A propósito, não se tratem como cães uns aos outros, tratem-se como eles nos tratam a nós!   

quinta-feira, 7 de julho de 2016

DETALHES SOBRE OS COMANDOS À DISTÂNCIA

Temos ouvido falar muito acerca de comandos à distância e muito pouco sobre o que são, como se alcançam e para que servem. Apostados em desambiguá-los e nada interessados em polémicas, porque não entramos nelas por convite mas quando assim o entendemos, decidimos escrever este artigo que esclarece a nossa opinião pela experiência e resultados que temos vindo a alcançar. Os comandos à distância, sucintamente, são ordens a executar pelos cães quando distantes dos seus donos e a trabalhar isoladamente, que na sua última fase podem dispensar parcial ou totalmente tanto a presença física dos seus líderes como a ordem expressa, alcançando os animais aquilo que normalmente designamos por “autonomia funcional”, que outra coisa não é que o principal fim útil do treino, sem o qual qualquer adestramento havido é precário, insuficiente e manifestamente incompleto, seja em que disciplina cinotécnica for, porque todas elas comportam acções deste tipo.
Para se alcançarem os comandos à distância, que não dispensam a condução em liberdade, é necessário haver aprovação binomial no condicionamento prévio (à trela e em liberdade), que o cão tenha suporte psicológico para tal e se agrade da tarefa, que a liderança do seu condutor seja inquestionável, activa e acertada, o que não irá dispensar o treino aturado de ambos. O trabalho começa em curtas distâncias e ao alcance da correcção dos cães pelos donos (num raio de 6 metros) e daí vai evoluindo para distâncias ordenadas até aos 100 metros. Nesta distância e para além dela, também nos trajectos ou percursos que cortem o contacto visual entre o dono e o animal, a linguagem codificada a utilizar terá que ser forçosamente outra para além da verbal (ultra-sons, rádio e outros dispositivos electrónicos sonoros), isto se houver mudanças de direcção ou necessidade de alertar o cão.
As acções condicionadas e repetitivas à distância (“ronda”, “guarda”, “busca”, etc.), naturais ou artificiais, são também consideradas comandos à distância, porque os cães trabalham para além da presença física dos donos (isoladamente), só necessitam de uma voz de acção e eventualmente outra de inacção, porque os animais sabem ao que vão até regressarem ao local de partida. É por demais evidente que nada disto seria possível sem o contributo de uma boa máquina sensorial, dos instintos próprios para a função e dos impulsos herdados que a garantem. Estas acções, que podem vir a sofrer alteração por diferentes motivos, sempre carecem de recompensa, recapitulação e aprimoramento, porque a ausência do dono induz o cão a rumo próprio e aumenta a sua vulnerabilidade, já que não nasceu para estar só e parte na certeza da chegada, trabalhando não só porque lhe dá gozo mas para ver reconhecidos os seus méritos, necessidade e aprovação social que não dispensa.
Os comandos à distância servem para melhor aproveitar as características particulares caninas, para o seu uso consensual e complementar, tirados a partir do trabalho de equipa pela cumplicidade alcançada nas metas anteriores, também para minimizar o esforço humano pela liberdade condicionada alcançada pelo cão. A diferença entre a condução em liberdade e os comandos à distância reside nisto: a condução em liberdade é uma meta, os comandos à distância o objectivo, o que faz de todos os exercícios de condução em liberdade preciosos subsídios para o alcance dos comandos à distância.
O préstimo destes comandos estende-se a todas as disciplinas cinotécnicas úteis e desportivas, graças à esmerada contribuição da obediência e dos respectivos comandos direccionais, também eles exercícios de liberdade condicionada (em frente, à frente, atrás, troca, roda/vira, para trás, up, abaixo/fura, à esquerda, à direita, devagar, aqui, etc.). Sem comandos à distância seria praticamente impossível efectuar operações de detecção, salvamento e resgate, prestar socorro, procurá-lo, ter um cão guardião, um pastor ou um atleta de agility. É por demais evidente que sem o contributo da sociabilização inter pares qualquer comando à distância fica imediatamente comprometido. Nem todos os comandos à distância são dinâmicos ou assentam sobre subsídios direccionais, também as figuras de imobilização (alto, senta, deita, quieto, morto, larga, etc.) constituem parte da sua exigência, assim como outros comandos próprios das diferentes especialidades.
Resumindo, comandos à distância são acções ordenadas ou condicionadas, com o dono distanciado do cão ou ausente, que resultam da condução em liberdade e que procuram a maximização do esforço canino como complemento das acções humanas, prestando-se a todo o tipo de disciplinas cinotécnicas até ao seu expoente máximo.

CARTEIRO EM INGLATERRA? ESCOLHE OUTRO!

Ser carteiro em Inglaterra e no Reino Unido é uma profissão de alto risco, que o diga o homem da foto acima, o Sr. Jason Lee, que foi atacado recentemente por um Bull Mastiff em Meltham/West Yorkshire/England, sofrendo graves ferimentos, facto que levou o Royal Mail a suspender por algum tempo a entrega de correio naquela área. Os carteiros ingleses são por norma amigáveis com os cães, sendo advertidos a cautelar-se e a respeitá-los, o que não tem surtido o efeito desejado, porque os animais consideram-nos como intrusos no seu território, carregando sobre os homens e mulheres que exercem aquela profissão.
Os números dos ataques são alarmantes, só no último ano em Huddersfield (11ª maior cidade do Reino Unido, situada entre Leeds e Manchester), 16 carteiros foram atacados. No Reino Unido são relatados diariamente 7 ataques caninos sobre carteiros, menos 10% que o verificado no ano anterior! A maior incidência dos ataques acontece no Verão, ¼ dos proprietários caninos deixa o seu cão solto em casa com a porta da frente aberta e mais de 1/3 dos acidentes ocorrem compreensivelmente junto à entrada das habitações. Será que querem aproveitar-se dos carteiros como cobaias? Não seria a primeira vez que isso aconteceria no mundo!
Dave Joyce, do Sindicato dos Trabalhadores da Comunicação, considera inaceitável que ocorram anualmente mais de 2.600 ataques caninos sobre trabalhadores dos correios, adiantando ainda que a maioria dos proprietários caninos não são problemáticos, somente aqueles que são imprudentes e irresponsáveis. Serão só isso ou esconderão as suas intenções por detrás das acções dos animais? Dá para suspeitar! Novas leis ali em vigor penalizam duramente os donos de cães cronicamente irresponsáveis, como sucedeu recentemente a um deles, que se viu obrigado ao pagamento de uma multa de 8.800 libras em virtude do seu cão ter atacado um carteiro, quando este punha uma carta na caixa do correio da sua residência. As áreas postais com maior número de ataques caninos no Reino Unido são: Nottingham, Peterborough, Irlanda do Norte, Tonbridge, Reading, Leeds, Sheffield (onde está a Joana) e Plymouth. A vida não está fácil para os carteiros nas Ilhas Britânicas. Alguém me disse que a Grã-Bretanha era um exemplo de civismo e cidadania ou estarei enganado? Oxalá nenhum emigrante português decida concorrer aos correios britânicos, pois se o fizer é melhor que vá ataviado de manga ou fato de ataque, dando atenção ao que sempre ouviu na santa terrinha: “quem vai para o mar, avia-se em terra!”

AQUECIMENTO GLOBAL, LIVRE CIRCULAÇÃO E DIROFILARIOSE

A Dirofilariose, mais conhecida como “verme do coração”, é uma doença causada por um parasita, denominado “Dirofilaria immitis”, transmitido através da picada de um mosquito culicídeo, endémica na Península Ibérica e com maior incidência entre nós nos Distritos de Coimbra e Setúbal, sendo própria das zonas quentes e temperadas, afectando principalmente os cães, não poupando os gatos e chegando a afectar também pessoas. Com o aquecimento global, a alta proliferação de cães de rua em vários países, a livre circulação de pessoas e a importação de cães, a doença está a disseminar-se por toda a Europa, alcançando agora países onde nunca se fez presente como é o caso do Áustria, onde os mosquitos portadores da “Dirofilaria repens” se tornaram indígenas e a “Dirofilaria immitis” está em vias de ser autóctone. No Reino Unido a doença é praticamente inexistente, talvez também devido à política de “quarentena” que durante anos ali foi implementada sobre os animais de companhia vindos do Continente.
A Áustria (a Holanda também) tem servido como porta de escoamento para os cães vindos do Leste Europeu e como entrada para os oriundos do Sul, mormente os de trabalho e em particular os Pastores Alemães nativos dos outrora países satélites da extinta União Soviética. Tendo em conta a proliferação da doença por aquelas bandas e a contínua importação de cães daquelas paragens, aconselham-se os importadores a um maior cuidado, a exigirem um certificado hígido-sanitário dos cães onde conste a isenção da doença.
Esta enfermidade pode ser detectada por análise ao sangue mas o seu tratamento é dispendioso, doloroso e perigoso, pelo que a prevenção surge como a melhor opção e é totalmente preventiva. Os fármacos usados na sua prevenção são também eficazes contra os parasitas intestinais mais comuns nos cães, o que não deixa de ser uma vantagem. Atendendo ao facto da doença ser endémica em Portugal, não prevenir o seu cão pode ser-lhe fatal e contribuir para a disseminação da doença. O trabalho desenvolvido pelas diferentes associações que se dedicam à recolha de cães abandonados tem tido um papel muito importante no combate à doença, ao tratá-los e preveni-los, pelo que todos os proprietários caninos devem estar-lhes agradecidos. Não corra riscos desnecessários, leve o seu cão ao veterinário, faça o despiste da doença e previna-o. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

TREINÁ-LO OU MANDAR TREINÁ-LO?

Parece caricato mas acontece: ainda há quem não saiba se deve treinar o seu cão ou mandá-lo treinar, se ir com ele a uma escola ou entregá-lo nas mãos dum profissional! Comecemos pela última hipótese: quando é que um cão deve ir parar às mãos dum profissional. Só duas razões justificam esta opção: o aprimoramento do cão nalguma especialidade para além da competência ou alcance do dono e a negação absoluta do animal em aceitar a sua liderança, ao ponto de colocar em risco a sua integridade física e a de terceiros. Não conhecemos outras razões que validem tal opção, muito embora saibamos que ela é amplamente requerida pelos donos “indisponíveis”, aqueles que dizem não ter tempo para tal obrigação, que preferem pagar ao invés de se incomodarem, indivíduos por norma muito exigentes e pouco dedicados aos seus cães, que invariavelmente acabam mal servidos ou incapazes de conduzi-los satisfatoriamente.
Que vantagens oferece o treino operado pelo dono? Como são inúmeras, o que tornaria este artigo muito extenso e possivelmente maçador, adiantaremos apenas as mais importantes, sabendo que esta opção beneficia tanto o dono como o cão, vantagens que terão como reflexo uma sólida e duradoura unidade binomial, porque a experiência conjunta leva a um melhor conhecimento recíproco dos elementos que constituem o binómio, o que fortalece os vínculos afectivos de ambos pelo vencer das dificuldades através da parceria e da cumplicidade. Como é sabido, o adestramento encetado pelo dono é um processo pedagógico que, ao ser mais lento, acontece sem atropelos e de acordo com os seus tempos de apreensão cognitiva que diferem de condutor para condutor. À parte disto, o dono, ao ser o principal agente de ensino do seu cão e por não lhe ser estranho, transforma o treino numa extensão dos cuidados domésticos havidos, o que facilita a assimilação canina dos conteúdos de ensino pela diminuição da resistência.
Para aqueles que pretendem um cão unipessoal, impoluto e incorruptível, este é a única opção que isso garante, porque o animal obedece e evolui exclusivamente por solicitação do dono, facto que jamais sucederia se fosse treinado por outra pessoa, a quem obedeceria mais prontamente e da qual possivelmente se enamoraria, preferindo-a em relação ao seu proprietário. Na eventualidade de se desejar um cão para defesa e segurança, o treino efectuado pelo dono é também o mais indicado, porque a investidura pretendida não obrigará à despromoção social do cão, despromoção que sempre acontece quando várias pessoas dominam sobre ele, relegando-o hierarquicamente para um ou mais lugares abaixo, o que invariavelmente acarreta uma prestação de serviço mais débil ou uma execução carente de condições.
Pondo de parte as questões ligadas ao aproveitamento do animal e considerando a sua necessidade de bem-estar, condição essencial para que se agrade do treino e nele evolua, importa dizer que aprender com o dono é menos stressante e mais agradável que aprender com um estranho. O mesmo se pode dizer sobre a sociabilização do cão com outros cães, já que é na mão do dono que se vai cruzar com outros no meio da rua. Ao ir à escola com o cão e ao apreender a controlá-lo, a familiarizá-lo e a sociabilizá-lo com os seus colegas de classe, o dono sai com ele à rua mais confiante e experiente, sabendo de antemão como proceder porque treinou para isso.
E se considerarmos os cães muito submissos, inibidos ou traumatizados (os afectados pelo medo), nas mãos de quem evoluirão mais? Em quem confiarão mais depressa?
Entregar o cão a outro para o ensinar não será uma traição ao animal? Treinar o cão é um dos deveres do dono, um prazer que melhorará a comunicação de ambos até ao perfeito entendimento, é partir à descoberta de um mundo até ali desconhecido e usufruir da ímpar harmonia que o contacto interespécies oferece, onde cada uma se completa na outra e ambas formam um todo quase indivisível!
Não sei do que está à espera, aceite o desafio e experimente a felicidade que teimamos em não largar!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

BÓSNIOS E MEXICANOS

Não vamos falar dos cães duns e doutros, muito menos sobre o Sabujo Bósnio e dos milhares de cães de rua presentes em Sarajevo, assuntos que oportunamente trataremos, mas do aumento considerável de leitores destes dois países, ainda que o número dos mexicanos seja maior. Do México e de alguns pormenores relativos à sua história e canicultura já tratámos e da Bósnia nem isso, país multi-étnico cuja Constituição prevê a liberdade religiosa, sendo os bósnios maioritariamente muçulmanos, os servo-bósnios ortodoxos e os croatas bósnios católicos. Na foto abaixo, relativa à Cidade de Bosanska Krupa, situada na parte noroeste da Bósnia e Herzegovina, podemos aquilatar desta diversidade de confissões, vendo-se à esquerda uma igreja católica, ao centro o minarete duma mesquita e do lado direito uma igreja ortodoxa.
Desejamos paz a todos os bósnios e que os velhos ódios desapareçam e não se reacendam, que não se sirvam das diferentes religiões como pretexto para conflitos étnicos sangrentos como os ocorridos durante a Guerra de 1992-1995, onde foram perpetrados verdadeiros genocídios, gerando em simultâneo grande migração interna e grande número de refugiados, guerra que levou à intervenção das Nações Unidas e da Nato para pôr cobro àquele conflito, deslocando-se nesse âmbito e para aquele território um contingente de mil militares portugueses (1996). Oportunamente debruçar-nos-emos sobre o Sabujo Bósnio, ancestral do nosso Cão de Água e de características muito semelhantes, tanto físicas como comportamentais. Desejamos ardentemente que mais bósnios nos visitem, porque falar de cães é falar de paz, dos sentimentos e emoções comuns a todos os homens, independentemente dos seus credos, culturas e outras diferenças. Dobrodošli (sejam bem-vindos). 

DAQUI A POUCO ESTÃO A VER TELENOVELAS!

Graças a uma parceria entre a Universidade Central de Lancashire/Preston/UK e a conhecida empresa de alimentos para animais Wagg, foi construído o primeiro protótipo de um controlo remoto destinado a ser usado pelos cães, que uma vez sozinhos em casa (num período até 9 horas), poderão entreter-se a ver televisão e escolher os programas que mais lhes agradarem! A ideia surgiu, segundo o parecer de Dan Reeves, porta-voz dos alimentos Wagg, da necessidade de manter os animais ocupados na ausência dos seus donos, que apesar de ausentes sempre se preocupam com o bem-estar dos seus cães. A criação do protótipo é da autoria de Ilyena Hirskyj-Douglas, uma especialista e investigadora em comunicação animal e em desenho interactivo computorizado da referida Universidade. O protótipo considerou a ausência de polegares nos cães e adaptou os botões para a morfologia das suas patas, sendo o seu corpo azul e os botões amarelos, já que os nossos fiéis amigos não distinguem as cores vermelho e verde. Os botões têm o relevo necessário para serem detectados e accionados pelos cães, soltando sons indicativos de baixa frequência quando pressionados. Ainda não se sabe quando o controlo remoto amigo do cão passará a ser industrializado e colocado à disposição dos interessados.
Será que os cães estarão em breve a ver também telenovelas? O mais natural é que escolham programas com outros cães, uma vez que se viram forçados ao isolamento e arredados do seu grupo familiar. Mais do que criar um controlo remoto amigo dos cães, importa não os abandonar por horas infindas, porque jamais o virtual preencherá as suas necessidades naturais. Em Inglaterra, no Reino Unido, na Europa e noutros lugares do mundo, pouco a pouco e sempre que possível, os cães têm acompanhado os seus donos aos empregos, solução do agrado dos animais, o que segundo especialistas na matéria, têm aumentado a disponibilidade e rendimento dos seus proprietários. Não obstante, conhecendo o potencial canino e a sua versatilidade laboral, advindos da sua extraordinária riqueza cognitiva e adaptabilidade, considerando em simultâneo a “era dos computadores” em que vivemos, estamos certos que a interacção canina com as novas tecnologias, ao ser um facto, irá alterar métodos de treino, suprir lacunas, melhorar a sua prestação e contribuir decididamente para o seu bem-estar. Já hoje, seja em que disciplina cinotécnica for, os meios que temos ao nosso dispor têm vindo a reforçar e a melhorar a complementaridade canina, quando adaptados para a sua realidade biológica. 

domingo, 3 de julho de 2016

UM CÃO POR TODA A PARTE

Uma pista táctica bem desenhada, construída e equipada oferece três níveis de trabalho: um à superfície, outro subterrâneo e um terceiro destinado às passagens aéreas, havendo nos três esconderijos, aparelhos e labirintos próprios para o exercício da pistagem, do resgate e do salvamento, visando o melhor desempenho canino e a sua prestação por toda a parte. Um dos obstáculos menos vistos ao nível de superfície é a piscina, normalmente substituída por sucessivas deslocações aos rios e ao mar. É obrigação do adestramento adaptar os cães para o maior número de situações que irão ter pela frente ao acompanharem os seus donos, independentemente da sua categoria ou serviço.

Os exercícios sobre escadas, pranchas, trapézios e demais obstáculos ou aparelhos oscilantes, assim como as descidas de rapel são também considerados passagens aéreas, indispensáveis aos cães destinados ao assalto e à prestação de socorro, ainda que a autonomia canina seja apenas parcial pela presença ou proximidade dos seus condutores. As descidas abruptas de acidentes naturais, de prédios e de outras estruturas artificiais, também as feitas de helicópteros e o lançamento em pára-quedas, servem os mesmos propósitos e visam a habituação dos cães a deslocações particulares por meios extraordinários.
Um dos obstáculos/aparelhos em falta nas poucas pistas tácticas que temos é a “Passadeira de Corda”, substituída um pouco por toda a parte pela “Ponte de Corda” por razões logísticas. A “Passadeira de Corda”, como o próprio nome indica, é uma passadeira com um comprimento relativo à área disponível, elevada do solo a diferentes alturas no seu trajecto, de 1 a 5 metros do solo, suspensa por cordas e com um piso de tábuas separadas de 25 a 50 centímetros, com uma largura também de 25 a 50 cm, cujas paredes laterais são praticamente inexistentes e que procura o equilíbrio dos cães diante duma oscilação constante e previamente calculada, lembrando em tudo as passagens existentes entre penhascos no Oriente e num ou noutro país montanhoso da América Latina, cuja tradição remonta à Época Inca. Os cães deverão ser introduzidos nela por uma miniatura próxima do solo ou na sua parte mais baixa, onde o auxílio dos donos se fará presente. A “Passadeira de Corda” tanto poderá interligar diferentes obstáculos como garantir diferentes entradas e saídas.
Podemos ver passadeiras idênticas em “Parques de Aventura” para crianças e jovens ou em exercícios de instrução militar. Em sua substituição é comum ver-se a “ponte de corda”, que se baloiçar alcança a designação de “swing”, servindo ela como aparelho introdutor àquela que substitui. Nas fotos abaixo podemos ver dois tipos de pontes diferentes, cuja execução por parte dos cães é fácil e praticamente isenta de riscos.
Para aqueles que levam a sua profissão com seriedade, que tudo fazem pela salvaguarda dos cães e que os adequam para as actividades ou serviços dos seus donos, amantes das pistas tácticas e apostados no seu melhor apetrechamento, adiantamos os seguintes quatro modelos que a nosso ver são os mais indicados para os propósitos enunciados.

Por falarmos em pistas tácticas, dói o coração e ofende a memória ver o estado em que se encontram algumas ainda existentes em unidades ou subunidades militares, abandonadas, carentes de reparo e de actualização, perdidas no tempo e entregues aos pardais, museus degradados de ignotos binómios outrora famosos. Estarão à espera doutro Conde de Lippe para as reabilitar ou de algum subsídio europeu que está para chegar? Enquanto esperam outros não as dispensam e continuam a progredir.
Ter uma pista táctica e não ter uma “Passadeira” ou “Ponte de Corda” é um contra-senso, uma lacuna que espelha a falta de cuidado de quem ensina, que a breve trecho virá a ser ultrapassado. Estamos cá para capacitar, não para ludibriar cães e enganar donos. O ensino de plataformas e pontes oscilantes é matéria obrigatória para os cães de utilidade, uma das etapas que terão de vencer e que melhor os capacitará. Mãos à obra!

sábado, 2 de julho de 2016

DIGAM-ME UMA COISA…

Digam-me uma coisa, quem criou a União Europeia e para quê? Estou convencido que não foi nem a extrema-direita nem a extrema-esquerda dos países fundadores e que foi feita para manter a Europa em paz (para evitar mais guerras), apostar na solidariedade entre europeus e promover o seu desenvolvimento económico e social. E se assim é, não estarão os radicais dos diversos países a atentar contra os seus propósitos? Para que terão assento no Parlamento Europeu se discordam dos seus princípios e professam ideologias contrárias? Fará algum sentido estar na UE e ser contra ela? Esta história de dar voz a quem nos quer calar e liberdade a quem no-la quer roubar sempre me fez muita confusão! Serão os genuínos democratas ingénuos ou pensarão que são deuses?
O número de eurodeputados de extrema-direita cresce ao mesmo ritmo que os nacionalismos pela Europa fora, no que têm sido ajudados pela presente “crise dos refugiados”, considerados personae non gratae para a maioria dos estados membros da UE e para os seus cidadãos, que os vêem respectivamente como uma ameaça e causa de todos os males, fundamentos mais do que suficientes para o “retorno” do racismo e da xenofobia. Dizem que a Sr.ª Merkel tem medo de cães, pois eu acho que não, penso até que ela é uma excelente adestradora, porque segura os da sua casa, os dos seus vizinhos austríacos e os outros que lhe rosnam ao redor! Até quando teremos Merkel? Provavelmente até ser substituída por algum tecnocrata de Freiburg, subsidiado por um eventual negociante de armas!
Na Grã-Bretanha, a campanha pelo Brexit não olhou a meios, levantou o fantasma do “papão alemão” e condimentou-o com a ameaça dos esfaimados emigrantes, artimanhas que espicaçaram o patriotismo inglês e que embeiçaram os mais velhos, naturalmente mais desconfiados e chauvinistas, menos informados e mais cautelosos, o que teve ainda como consequência o aumento do racismo em Terras de Sua Majestade.
A extrema-esquerda europeia (a mundial e a portuguesa não escapam à regra), quer seja comunista ou neocomunista, é idílica e saudosista, idílica entre os mais jovens e saudosista por conta dos eleitores mais velhos que a suportam, que daqui a alguns anos já não estarão por cá. Esta corrente política defende modelos já vencidos e amplamente denunciados, deseja outro modelo político para a Europa, sendo mais activa no Sul onde tudo se passa mais tarde, angariando votos graças às políticas de austeridade nos países periféricos e emperrando as reformas estruturais que obstam sua à modernidade e competitividade. No Velho Continente aumenta a abstenção e cresce o desapontamento pelos históricos partidos políticos, surgindo cada vez mais listas de cidadãos independentes para a governação.
Donald Trump quer um muro e nisso não está só, porque há muitos países europeus com vontade de o fazer, por enquanto ficam-se pelas cercas de arame farpado, mas se a situação se agudizar e os refugiados não pararem de chegar, não demorarão muito a levantá-los e a defendê-los com unhas e dentes (não aprenderam nada com o Muro de Berlim!). Vivemos na Europa um momento de paz podre, porque a guerra já começou e tem motivos económicos que cheguem, quem dará o primeiro tiro? Quem o der incendiará o mundo, disso podemos ter a certeza!
Talvez não seja a minha geração a vê-lo mas acreditamos, venha o que vier, que o mundo vindouro não terá mais muros, os homens serão mais fraternos e os conceitos de etnia, nacionalidade, país e fronteira acabarão finalmente desprezados, porque somos todos homens e o mundo é a nossa casa! 

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ RAÇAS HÍBRIDAS DE LOBO: O QUE AS TORNA TÃO DIFERENTES, editado em 24/06/2016
2º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
3º _ UM CÃO SEM NADA QUE FAZER É UM CÃO PRONTO PARA MORRER, editado em 27/06/2016
4º _ READ IT A STORY: UMA NOVA TERAPIA, editado em 01/07/2016
5º _ DHOLE: UM CÃO DESCONHECIDO E POUCO VISTO, editado em 27/06/2016
6º _ LETTORI DI BELLA ITÁLIA, editado em 25/06/2016
7º _ “X” DE JARRETE DE VACA, editado em 25/07/2011
8º _ O MUNDO QUE NOS RODEIA: BRITISH BREXIT, editado em 25/06/2016
9º _ ZEUS UM AZUL QUE PROMETE, editado em 23/05/2016
10º _ O SONHO DO LUPINO PORTUGUÊS E O PERRO LOBO MALLORCAN, editado em 18/08/2015

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O Top 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte ordem:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Espanha, 4º Estados Unidos, 5º França, 6º Reino Unido, 7º Alemanha, 8º Itália, 9º Angola e 10º Quénia.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

READ IT A STORY: UMA NOVA TERAPIA

Uma nova terapia está a fazer furor nos States: a da leitura para os cães traumatizados que se encontram nos canis de recolhimento à espera de serem adoptados. De acordo com os seus mentores e voluntários, tal prática muito tem ajudado na recuperação daqueles animais. As sessões de leitura têm uma duração de 20 minutos cada e os leitores voluntários tanto podem ser crianças como adultos. Os livros usados são ao gosto de quem os lê e vão desde a banda desenhada até aos clássicos da literatura.
Esta terapia acontece com os cães encerrados nas suas boxes e os leitores no seu exterior, sentados no chão ou numa cadeira (as crianças dispensam invariavelmente as cadeiras). A Sr.ª Wells, mentora deste programa e que há anos atrás tocava guitarra para transmitir bem-estar aos cães, valendo-se principalmente de canções dos Beatles, também responsável sénior pela Sociedade de Comportamento e Treino, diz que é difícil avaliar à partida quais os benefícios da leitura, uma vez que aqueles cães são também objecto de treino completo e de terapia comportamental. Contudo, são visíveis melhorias nos animais, que nas primeiras sessões de leitura permanecem no fundo das suas boxes e que depois se aproximam dos leitores, instalando-se comodamente, descontraídos e por vezes com as caudas a abanar.
Não temos dúvidas das mais-valias desta terapia se considerarmos que ela combate o stress, o isolamento e facilita a sociabilização daqueles cães, contribuindo também para a eliminação da possível má imagem humana de alguns deles, mas consideramo-la insuficiente só por si para a pretendida adopção, o que não a invalida totalmente como um subsídio mais para a futura reintegração daqueles animais. Pondo de parte os benefícios directos para os cães e considerando a sua importância para as pessoas envolvidas, as crianças melhoram a leitura, aprendem a respeitar os animais e a fazê-los seus confidentes, pedagogia e prática que amanhã os impedirá de abandonar cães e levá-los-á a defesa dos seus direitos. Também os adultos encontram nesta actividade a paz e recolhimento que por vezes lhe faltam ou a companhia que reclamam e não alcançam. A terapia da leitura acaba por ser válida para cães e homens, porque os traumas fustigam as duas espécies e ambas não podem prescindir do seu bem-estar. Quem sabe se tal terapia, ao ajudar na futura adopção dos cães, não irá também contribuir para uma melhor integração social dos prestimosos leitores?

NÓS POR CÁ: VUDU DA MUSGUEIRA

Ontem Portugal assinou a sua passagem às meias-finais do Campeonato Europeu de Futebol frente à Polónia ao vencer nas grandes penalidades. Por todo o lado ergueram-se cachecóis e o povo exultou de alegria, tanto aqui como em França, onde a comunidade emigrante lusa ultrapassa um milhão de pessoas. Os heróis da partida foram Pepe, Renato Sanches, Rui Patrício e Quaresma, o primeiro porque foi um imperador na defesa, o segundo porque marcou um grande golo, o terceiro porque defendeu um penalti e o último porque converteu aquele que nos deu a vitória, combinação vitoriosa que junta um brasileiro naturalizado português, um africano, um estremenho e um cigano.
O célebre ginete luso é hoje encarnado nos relvados pelo vudu de Renato Sanches, um jovem de 18 anos, de origem e comportamento humildes, africano de etnia e oriundo do pouco afamado bairro lisboeta da Musgueira, um verdadeiro “carregador de piano” que em campo hipnotiza os adversários e que galvaniza os seus companheiros para a frente, emprestando-lhes a força, a irreverência e a ousadia necessárias à vitória. Recentemente contratado pelo gigante alemão Fußball-Club Bayern München, breve deixará os nossos relvados e rumará a terras germânicas. Desejamos-lhe muita sorte e que nos leve até à final do Campeonato Europeu de Futebol.