domingo, 10 de abril de 2016

TOP 10 DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Reino Unido, 4º Estados Unidos, 5º Moçambique, 6º Alemanha, 7º Espanha, 8º Índia, 9º Quénia e 10º França. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O DIA EM QUE O ALPTRAUM FEZ JUS AO SEU NOME

A história que vamos contar-vos aconteceu e repete-se esporadicamente com outros intervenientes. Pretendemos ao contá-la evitar comportamentos de risco que despertem nos cães o desejo de vingança como resposta aos maus-tratos que recebem. Um casal austríaco, a residir em Portugal, trouxe da sua terra natal um trio de Pastores Alemães, dois preto-afogueados e um lobeiro, que davam pelos nomes de “Feuer”, “Hurrikan” e “Alptraum”, animais que destoavam dos cães das redondezas pelo seu tratamento e porte, ao ponto da vizinhança os temer ao vê-los como lobos. Como ambos os donos trabalhavam e tinham adquirido uma quinta, decidiram contratar alguém para cuidar dela e dos cães na sua ausência. Temendo os cães, não apareceram muitos candidatos para o trabalho, apesar de ser muito bem pago. Quando já estavam quase a desistir e a optar por ficar um deles em casa, eis que lhes surge um jovem magarefe, que estava desempregado por não poder matar animais a particulares fora do matador camarário como fazia até ali, currículo nada abonatório para aquele trabalho e que a princípio fez estremecer os proprietários dos cães. Não tendo mais candidatos e fazendo-o jurar que tratava bem os animais, lá empregaram o rapaz, que ficou doido de contente.
Os cães tinham comportamentos totalmente díspares entre si. O Feuer, nome advindo do tom de afogueado que tinha no manto, era o cão mais velho e o chefe daquela pequena matilha, condição que reafirmava diariamente perante os outros, rosnando-lhes e obrigando-os a respeitar a primazia dos afectos dos donos, a sua vontade e espaço, no que era observado sem qualquer resistência. Mas se era duro entre iguais, com as pessoas era duma generosidade e humildade extremas, mostrando-se submisso e solícito, apesar de assustar quando ralhava com os demais. O Hurrikan, o outro preto-afogueado, era o mais novo e irrequieto dos três, um daqueles cães que só está bem a fazer asneiras, que apesar dos reparos sempre volta ao mesmo, um verdadeiro especialista em algazarra, estragos, acidentes, demolições e outras confusões, chegando a subir às árvores. O Alptraum, o lobeiro, era o mais calmo e corpulento, quem o observasse juraria que passava a vida a pensar ou que sofria de algum desaguisado psicológico, porque observava mais do que se mexia e mantinha alguma reserva e afastamento na presença de estranhos, como se sentisse incomodado ou não quisesse vir a sê-lo. Os três ficaram entregues aos cuidados do rapaz.
Como a quinta era grande e o jovem brioso, não tendo mãos a medir e querendo apresentar trabalho, mal se se despachava dos cães, que para ele eram um transtorno e coisa de “camones”, embrenhava-se de imediato e a gosto nas múltiplas tarefas agrícolas, sendo inúmeras vezes incomodado pelos cães, cujos donos não os queriam ver presos nos canis, que no seu conjunto eram do tamanho de uma adega e que os compreendia como grandes demais e mal-empregues. Acostumado a “molhar a sopa”, porque assim também havia sido educado, quando os cães o incomodavam, pisavam as leiras e canteiros ou lhe surripiam algum saco ou ferramenta, não hesitava e carregava-lhes com o que tivesse à mão, acontecesse o que acontecesse. O cão que mais trabalho lhe dava e que mais apanhava era o Hurrikan, porque lhe desenterrava os legumes recém-plantados, roía a mangueira da horta, roubava-lhe o saco do farnel, fazia buracos nos canteiros, deitava-se sobre as plantas, transformava o solo preparado em picadeiro e parecia não ter emenda, sendo impossível alcançá-lo depois dos disparates, ao contrário do Feuer, que se deitava ao seu lado e nada estragava e do Alptraum que raramente era visto e nunca se aproximava. Quando os donos regressavam a casa e lhe perguntavam como tinha ido com os cães, sempre lhes respondia que os adorava e que se haviam comportado “cinco estrelas”.
Certo dia, já a deitar o cão pelos olhos e farto dos seus repetidos disparates, acertou em cheio no Hurrikan com uma sachola, impacto que o fez ganir demoradamente, cortando-o por cima do olho direito, provocando-lhe um tremendo hematoma, julgando até tê-lo cego. Perante o ocorrido, o cão mais velho (Feuer) fugiu para o canil e o lobeiro, que se encontrada escondido a observar tudo, apresentou-se na frente do moço a rosnar, de dentes arreganhados, orelhas fitas e cauda levantada. Assustado e temendo ser mordido, o homem dizia para o cão baixinho: “apatraume, apatraume, eu sou teu amigo”, enquanto se munia de um emaranhado de arames, não fosse o diabo tecê-las. Passados alguns segundos, o cão afastou-se pouco convencido e finalmente desapareceu. Quando os donos apareceram no final do dia, alarmados com o estado em que o cão mais novo tinha a cabeça, inquiriram junto do empregado o que tinha sucedido, ao que ele respondeu ter o cão caído de uma árvore sobre a esquina de um canteiro, justificação que aceitaram tendo em conta o comportamento usual do animal. A partir daquele dia, sem que ele desse por isso, o jovem passou a ser observado e policiado pelo Alptraum, que escondido, nunca o perdia de vista.
Aquele triste e lamentável desfecho não serviu de emenda ao empregado, que continuou a arremessar ao cão “doidivanas”, mal ele se encontrou curado, toda a sorte a sorte de objectos: sachos, pedras, pedaços de mangueira e até os botins que usava na horta, quando o animal aprontava das suas e para as quais não tinha dias de folga. Após acabar de regar um canteiro de salsa, que de tão viçosa, verde e perfumada era um encanto para os sentidos, o “maldito do Urricân” decidiu transformá-lo em piscina, entrelaçando a salsa que nem ninho de galinhas! Danado e já com o Pastor em fuga, jogou-lhe uma pedra. Por azar foi acertar no Lombo do Alptraum, lobeiro que se encontrava por perto, deitado e encoberto por detrás duma leira de couves-coração. Ao sentir-se atingido, o cão avançou decididamente para cima do seu agressor, apesar deste se armar e defender com uma enxada, o que de pouco lhe valeu, porque o animal evitava os seus golpes e mordia-lhe o corpo nos intervalos. A escaramuça nem um minuto durou, porque exausto e ao olhar para a sua barriga rasgada, o jovem desfaleceu, não sabendo ao certo por quanto tempo se manteve inanimado.
Recobrou estremunhado os sentidos já na presença dos donos, que logo quiseram saber qual dos cães o havia atacado e em que circunstâncias, enquanto a senhora ligava para o 112. “ Foi o Apatraume e não sei porquê! – Dizia ele. Depois do sucedido, o empregado decidiu fazer contas e “sair de malas a aviar”, recebendo daqueles patrões um bónus generoso, para que não fosse dar parte do ocorrido à Polícia. Assustados com aquele ataque e com medo que ele se repetisse sobre outras vítimas, os austríacos optaram por mandar ensinar o lobeiro, tendo o cuidado de avisar o adestrador acerca do seu passado. O cão revelou-se extraordinário e portador de um equilíbrio raramente visto, não encontrando o seu treinador razões para o que havia sucedido. Mas o cão sabia quais, porque ao sentir o magarefe à distância, logo se agitava e transfigurava, querendo ter com ele um novo ajuste de contas. Quantos cães assim já foram injustamente abatidos, com base em mentiras, por temor e por não terem sido compreendidos? Provavelmente muitos, os mesmos que foram vítimas e que apenas se defenderam! Caro leitor, perante esta narrativa, não entenda “ao pé da letra” tudo que lê nos jornais acerca dos ataques caninos, dê aos cães a presunção de inocência atribuída a qualquer arguido, porque eles não falam, há quem viva do sensacionalismo e não raramente aqueles que dizem ser suas vítimas outra coisa não são que os seus próprios agressores! Falo com conhecimento de causa: fui eu que treinei este cão e que apertei com o magarefe para me contar toda a verdade.  

quinta-feira, 7 de abril de 2016

É PRÓ MENINO E PRÀ MENINA!

Jamais me esquecerei deste pregão enquanto por cá andar, usado por vendedores ambulantes cuja mercadoria, diziam, ser própria para meninos e meninas, geralmente algum tipo de vestuário, acessório ou brinquedo de baixo custo e de qualidade pouco recomendável, que apregoavam nas feiras a céu aberto. Também não me esqueço duma trapaça que ocorreu aquando da minha puberdade, quando os filhos de gente abastada, meus colegas de liceu, “inexplicavelmente” e contrariamente à sua genética, ultrapassaram todos 1.85 cm de altura (hoje medem o mesmo, são pouco saudáveis e é raro aquele que pesa menos de 120 kg). Havia naquele tempo, só o vim saber alguns anos mais tarde e a título de confidência, um médico em Lisboa que dava umas injecções a meninos e meninas para que eles crescessem mais, clínico que nisso trabalha em segredo e que se fazia pagar muito bem em função dos resultados obtidos. Nenhum dos seus pacientes sabe ainda hoje o que lhe foi injectado (provavelmente hormonas de crescimento), mas lá que funcionou, funcionou! Segundo ouvi dizer, parece que o médico milagreiro já foi desta para melhor, resta saber a quem teria deixado o seu chorudo pecúlio, já que filhos não tinha e se tinha mulher, nunca foi vista.
Já tínhamos contado esta história neste blogue, possivelmente como abordagem ao mesmo assunto: a aplicação de esteróides anabolizantes nos cães, prática entre nós felizmente pouco usual, requerida por alguns criadores a quem lhes valer e substâncias entendidas no seu conjunto como “cocktail milagroso”, milagres com resultados mais estrondosos quando aplicados antes da maturidade sexual dos cachorros (compreende-se porquê). A solução procurada por estes criadores assenta sobre uma razão económica, porque quanto menos gastarem nas ninhadas mais ganham na sua venda, respeitando a regra dourada das transacções comerciais e considerando a austeridade que teima em nos largar, muito embora sejam nisto reincidentes, mesmo nos momentos de menor aperto. A esta manigância concorrem os criadores com menos poder económico, os mais somíticos e os afogados na endogamia, condições que podem reunir-se num só indivíduo.
Cães destes, por mais magníficos que se apresentem, serão sempre animais de “laboratório” e não transmitirão às suas proles a robustez neles visível, porque é-lhes artificial por via das injecções que tomaram, acabando por transmitir as mazelas que carregam e que os esteróides anabolizantes encobriram. À parte disto, porque 3 injecções de 15 em 15 dias podem não bastar, alguns cachorros vêem-se sujeitos a mais duas ou três, abuso e sobrecarga que poderá ter como consequência insuficiência renal, problemas hepáticos, intestinais e coronários, alterações de comportamento e contribuir de modo eficaz para vários tipos de câncer. Resta saber como esta gentalha toma posse destas nefastas injecções, porque não acredito que nenhum veterinário as aplique ou ceda. Será que vão mendigá-las para as portas dos ginásios ou traficá-las-ão? Não faço a mínima ideia!
E eu a pensar que a época dos alquimistas já pertencia à história, apesar de ver crescer o número de iluminados, curandeiros e charlatães. O Homem não tem emenda e tal qual o porco, sempre volta ao seu chiqueiro. Feliz é o cão que o dono traz no coração, desgraçado é aquele cujo dono só pensa na carteira. A Oeste nada de novo, assim vamos desandando!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

TOUREIROS POR CIRCUNSTÂNCIA

Em matéria de pompa e circunstância não há quem bata os ingleses (é possível que os alemães não lhe fiquem muito atrás), porque dão ao que fazem um carácter solene, unitário, atemporal e único, sendo muito admirados por isso, contrariamente a alguns latinos cujas solenidades tendem a descambar na maledicência, no bronco e na chacota, quiçá por serem menos unidos, mais dados ao improviso, sedentos doutras paixões e mais independentes, plebe que permanece “a pé firme” mas que tem o coração noutro lugar e que sempre espera ver se “o rei vai nu”. Mas não é de pompa e circunstância que vamos tratar, mas das circunstâncias que têm levado alguns britânicos a ser toureiros à força, mais precisamente aqueles incautos proprietários caninos, que junto com os seus cães, invadem os campos ingleses e os prados onde o gado se encontra solto e não gosta de ser incomodado, particular que ignoram por força do seu viver citadino.
Segundo uma recente investigação levada a cabo e divulgada pela Universidade de Liverpool, 2/3 dos ataques a pessoas pelo gado deve-se ao seu acompanhamento por cães, particularmente quando as vacas têm bezerros e se encontram a amamentá-los, que entendendo os cães como predadores e potenciais inimigos das suas crias, investem sobre eles, acabando muitas vezes por colher também os seus proprietários na confusão das suas investidas. E como ali, em Inglaterra, ninguém brinca com coisas sérias, a dita faculdade pretende, ao revelar este estudo e projecto, avaliar os detalhes das interacções negativas entre o público e o gado, identificar quais os factores risco para a ocorrência de ataques bovinos e adiantar procedimentos para que sejam evitados. Como consequência, os proprietários caninos são agora alertados para o perigo de levarem os seus cães para o meio do gado, uma vez que entre 1993 e 2013 aconteceram no Reino Unido 54 ataques bovinos envolvendo cães.
Para mim, que nasci no campo e com os animais ao lado, o presente estudo não constitui qualquer novidade, mas é de extrema importância para aqueles que não tiveram essa felicidade e que julgam que as vaquinhas são mansinhas, que só marram em quem lhes faz mal e que não defendem as suas crias. O facto de eu possuir um cão próprio para o pastoreio não garante que qualquer boi ou vaca o aceite como tal, particularmente quando estranho àquele gado (o mais natural é que acabe vítima dos seus ataques). Ainda que o meu cão esteja sociabilizado com todo o tipo de animais, isso não significa que todos os animais se sociabilizem fácil e automaticamente com ele, porque a mútua sociabilização interespécies carece de regras e de tempo.
Transportando o assunto para a nossa realidade e conhecendo o gado que normalmente aqui encontramos solto e a céu aberto, cujo número é bastante diminuto, por razões ligadas à pobreza dos solos e ao reduzido tamanho das propriedades destinadas à pecuária, só no Ribatejo e Alentejo encontraremos maior quantidade de gado à solta. A fama dos toiros no Ribatejo tende a afastar aventureiros e medrosos, porque nunca se sabe que gado andará pelas lezírias, apesar de haver gado bravo por outras paragens. No Alentejo com maior facilidade se verá toda a sorte de gado à solta, nomeadamente de raça Alentejana, Limousin e Mertolengo, cujas vacas são ariscas e não hesitam em varrer à cornada quem se aproximar dos seus bezerros antes do desmame (fica o aviso).
Visando a sua salvaguarda, a do seu cão e a do próprio gado, não o solte dentro de áreas destinadas à exploração pecuária, a menos que queira fazer dele um “forcado da cara” e transformar-se a si mesmo num toureiro de circunstância, em tudo igual aos colhidos e improvisados “matadores” britânicos.

QUER UM CÃO SAUDÁVEL E POR MAIS TEMPO?

Sabia que sonegámos em média 1/3 da esperança de vida nos cães com pedigree, havendo casos excepcionais que apontam para uma diminuição de 1/12? Comparativamente, apesar da escassez de alimento e da invasão dos seus habitats, até os canídeos selvagens vivem por mais tempo. Por que razão ou razões são os rafeiros mais saudáveis e longevos que os cães padronizados? Obviamente por causa da consanguinidade e endogamia desde sempre praticadas pelos criadores das distintas raças caninas. E se os “cães puros” duram o que duram, devem-no em grande parte aos bons ofícios dos veterinários, porque doutro modo sucumbiriam mais cedo. Quer um cão saudável, com maior esperança de vida e não se encanta por mestiços e híbridos? Então, siga os nossos conselhos, pois escrevemos este artigo para si.
Na escolha da raça considere o que tem para oferecer e aquilo que ela exige, porque isso resultará num casamento perfeito e duradouro, o que implicará em informar-se o mais possível acerca dela, das suas afecções mais comuns e do seu despiste, assim como conhecer o maior número de exemplares que lhe pertencem. Se mesmo assim sente que não consegue fazer uma escolha acertada, contrate (pague) os serviços de um profissional idóneo e honesto para o ajudar na escolha, a quem poderá e deverá exigir futuras responsabilidades no caso de logro (veterinário, criador, adestrador, etc.). Dê preferência às raças que tenham maior biodiversidade (diferentes tipos de pelo, cores e outras particularidades) e despreze aquelas que apenas oferecem uma variedade, porque nestas a consanguinidade e a endogamia, sendo mais acutilantes, condicionarão de sobremaneira a sua saúde e longevidade.
Dê preferência a criadores que não têm como único meio de subsistência a criação de cães ou actividades dela decorrentes ou interligadas, porque não olham a despesas, dão aos infantes a comida apropriada, mantêm as ninhadas mais limpas, não descuidam os serviços médico-veterinários, observam religiosamente as desparasitações, respeitam a sua curva de crescimento, nomeadamente o peso (que é de suma importância), cuidam melhor das matriarcas, são naturalmente mais zelosos dos seus cachorros, mantêm com eles uma profunda relação afectiva e tratam-nos como verdadeiros príncipes, o que irá influenciar positivamente no seu salutar crescimento, equilíbrio psicológico e bem-estar social, pois é mais do que certo que um “imprinting” descuidado sempre deixará marcas e de alguma forma condenará a futura qualidade de vida dos cachorros. Assim, fuja dos criadores que criam cachorros à molhada, entregues à sua sorte e jogados em capoeiras ou em habitáculos desprezíveis, que andam sempre à bulha, carregados de imundice, fartos em diarreias, esganiçados e famélicos (há gente que cria cães deste modo e ainda tem a lata de pedir por eles 600, 800 e mais euros, quando na verdade deveria ser presa por maus-tratos aos animais).
Um cachorro saudável é o melhor dos garantes para um cão igualmente saudável, porque o peso genético e o imprinting irão estabelecer a diferença dos pontos de vista físico, psicológico, cognitivo e social. Recebendo um cachorro saudável, cabe-lhe a si acompanhar o seu crescimento de igual modo, o que não é barato, exige especial acompanhamento e rara disponibilidade. E sobre disponibilidade importa dizer que a aquisição dum cão deve ser um projecto familiar e não uma acção isolada de um dos seus membros, porque todos serão importantes para o crescimento global do animal, que irá exigir de todos algum tipo de cuidado e atenção por ser de índole social. Apesar de naturalmente só vir a reconhecer como líder um dos membros do agregado familiar que o adoptou, considerará os restantes como membros do seu grupo, interagirá com eles e chegará até a defendê-los, se para tanto se prestar e se tornar premente (a gratidão é uma das qualidades há muito reconhecidas nos cães).
Manter um cão saudável é ser-se incomodado, pois há que dar-lhe boas condições de habitação ou de coabitação, laborar continuamente pela sua inserção familiar e social objectivas, proceder à sua higiene diária, distribuir-lhe o penso certo (valor nutricional e grau de digestibilidade adequados), garantir-lhe o exercício recomendado, levá-lo ao veterinário, proceder à sua desparasitação interna e externa, respeitar o calendário de vacinações, implementar o hábito de lhe fazer um check-up anual completo e estar atento a alguma alteração que afecte o seu bem-estar físico e psicológico, preocupação que vai dos tratamentos preventivos, à verificação do seu apetite até à medição da temperatura e à observação das suas fezes, assim como ao controlo do seu peso e ritmos vitais.
Ainda que saúde do cão deva ser objecto de atenção permanente enquanto viver, ela joga-se maioritariamente nos primeiros 18 meses da sua vida (nalguns cães até mais tarde), altura que já se encontra formado e alcança a sua maturidade emocional, período da sua existência que é por norma mais dispendioso e que pode atingir alguns milhares de euros. Julgo e penso não estar enganado, que uma das causas por detrás do abandono dos cães e da sua morte precoce por ausência de tratamento fica a dever-se ao facto de se tornaram incomportáveis para o orçamento de muitas famílias, já que um cão é uma despesa extra e penosa para quem não a pode suportar e anda à brocha com outras que não pode adiar. Contudo, enquanto houver pobreza encoberta, é difícil prová-lo. Caso os cães falassem, tudo seria deslindado facilmente!
Uma das obrigações que mais castiga os proprietários caninos e que é essencial para a saúde dos cães é a prática do exercício diário que reclamam, todo um conjunto de actividades bipartidas que devem ser do agrado do animal e não sujeitas uma experiência repetitiva e pobre, o que a acontecer tornará o animal menos solícito e gradualmente menos curioso, mais desinteressado, stressado e enfadado, podendo resultar disso um conjunto de taras de maior ou menor gravidade, inclusive aquela que identificamos como “o virar do pau contra o feiticeiro”. Para que se saiba e sirva de aviso, o número de cães afectados pela ansiedade cresce assustadoramente porque os seus donos não têm tempo para eles, o que equivale a dizer que os estão a matar aos poucos! Ao invés de brincadeiras artificiais que põem os cães a correr sozinhos, devem os donos procurar actividades que desenvolvam em ambos a melhoria dos seus índices atléticos, o fortalecimento dos laços binomiais e o desenvolvimento cognitivo dos animais, que vivem em constante aprendizado e que sempre carecem de adaptação. A melhor forma de manter um cão psicologicamente saudável é promover-lhe a repartição de tarefas que são do seu agrado e estão ao seu alcance. Enquanto ser social, o cão nasceu para ser treinado e melhora substancialmente as suas prestações com o tempo e o treino.
Ter e manter um cão saudável não é só pôr-lhe a comidinha a horas, é torná-lo útil e participativo, compartir a nossa vida com ele e fazê-lo feliz. Tendo esse cuidado, a sua perca de aptidão será menos sentida e o número dos seus dias virá a ser aumentado. Pergunta-se: quem definhará primeiro, um cão eternamente jogado num canil ou outro que sempre seguiu o seu dono por toda a parte? A saúde e longevidade dos cães está na nossa mão, passa pela sua escolha acertada e pelas condições que lhe dermos. Diante disto brada aos céus, haver gente que deseja ver o seu cão velho para ter maior descanso! Quer ter um cão saudável por mais tempo? Faça por isso! 

terça-feira, 5 de abril de 2016

O PEQUENO GRANDE CHONGQING

Os chineses vendem tudo por todo o lado, excepto cães, talvez porque alguns deles os comam. Como já aconteceu em tantas outras coisas, no dia em que acordarem para a canicultura, depressa dominarão também esse mercado, porque não lhes falta variedade e qualidade dentro das suas enormes fronteiras. Hoje vamos falar do pequeno grande Cão Chinês de Chongqing, pequeno de tamanho e grande de valentia – um guarda de trazer ao colo. Mas antes de nos debruçar sobre ele, somos obrigados a reconhecer a enormíssima ignorância que mantemos acerca dos cães orientais, muitos deles na origem dos cães ocidentais, mercê das rotas da seda, da expansão do Império Otomano e mais recentemente do domínio da Royal Navy por aqueles mares, presença ali constante desde os finais do Século XVI até à primeira metade do Século XX, transportando e prestando-se de sobremaneira aos diversos investigadores que nos trouxeram notáveis avanços científicos.
O nome do cão é advindo da Cidade chinesa de Chongqing, situada na região sudoeste daquele País. Consta-se que a origem da raça remonta à Dinastia Han (206 AC – 220 DC), portanto há mais de 2000 anos, mantendo-se até hoje quase inalterável. O número de exemplares é diminuto e remete-se à área geográfica acima citada, nomeadamente nas comunidades rurais, facto a que não foi alheio o estabelecimento da República Popular da China ocorrido em 1949, que concorreu drasticamente para a sua redução, tornando-o quase raro.
Alguns cinófilos descrevem-no, no que à sua apresentação diz respeito, como uma simbiose entre o Ridgeback e o Bulldog, o que olhando para as fotos não nos parece totalmente descabido. Este cão foi originalmente usado como caçador polivalente, já que tanto caçava coelhos como javalis, sendo actualmente empregue na defesa das famílias e dos seus pertences, porque é tremendamente dedicado ao seus donos e zeloso dos seus haveres.
Como protector da família, o Chongqing não se agrada facilmente de estranhos, podendo atacá-los deliberadamente ou se sentir neles algum medo ou receio. Contudo, os estranhos são respeitados quando os donos se encontram presentes. Com fortes instintos de caça e de presa, a sua sociabilização irá exigir alguns cuidados, tanto com cães como com outros animais, porque é simultaneamente competitivo e territorial, pelo que se aconselha ser sociabilizado deste tenra idade com os animais com quem irá coabitar, para que mais tarde os considere como membros do seu grupo e haveres dos seus donos. Normalmente, do confronto entre um Chongqing e outro cão sempre resultam terríveis danos no segundo, já que este cão chinês avança decidido, nunca se rende e só aceita a vitória.
Cão rústico, maioritariamente vermelho e de pelo curto, de orelhas erectas, sempre activo, resistente, combativo, extremamente musculado e de pele elástica, apresenta também dimorfismo sexual (os machos medem entre 40 a 50 cm e pesam de 20 a 25 kg; as fêmeas medem de 35 a 40 cm e pesam entre 15 a 20 kg). Como cão caçador que é, reclama por exercício diário, não sendo o companheiro ideal para ficar fechado horas infindas dentro de um apartamento.
Como nunca foi e não tem sido objecto de endogamia, o Chongqing tem uma esperança média de vida de 18 anos para ambos os sexos. Também não exige cuidados especiais, porque é naturalmente saudável, não apresentando as maleitas tornadas comuns nos cães ocidentais. Eventualmente, alguns exemplares poderão vir a ter problemas de pele, facto que fica a dever-se ao seu fino revestimento. Como prevenção aconselha-se diariamente na sua higiene o uso da luva de borracha, já que os restantes acessórios do trem de limpeza canino são nele perfeitamente dispensáveis e até nocivos. O Chongqing tem tudo para vencer e convencer, só falta os chineses acordarem para ele!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

IA APANHAR O COMBOIO E SAIU DE AMBULÂNCIA

Esta notícia já não causa sensação no Reino Unido, onde infelizmente muitas vezes se repete e quase sempre com graves repercussões, mas pode ser de extrema importância para nós, considerando a possibilidade de enfrentarmos no futuro idênticas situações que deverão ser evitadas, mediante maior sensibilização da opinião pública. Um cego, o Sr. Stephen Goulden, um sexagenário, junto com o seu cão-guia “Eaton”, esperavam a Sr.ª Goulden, também ela invisual, na Estação de Comboios de Altrincham, Grande Manchester. Inesperadamente, quando já se encontravam todos reunidos no cais de embarque, eis que um Staffordshire Bull Terrier vindo da plataforma contrária, cruza as linhas e decide atacar o cão-guia, um cruzado de Pastor com Retriever, extraordinariamente dócil e que já havia sido alvo de um ataque anterior. No meio da confusão, desinteressando-se do cão, o Staffordshire acabou por atacar a Sr.ª Goulden, a quem desferiu uma valente dentada na perna direita. O ataque durou cerca de 20 segundos e parece ter sido suspenso pelo dono do agressor que apenas lhe disse “não”. Como consequência do ocorrido, a invisual acabou por receber tratamento hospitalar.
Eu testemunho da existência de Pitbulls e Staffordshires extremamente meigos e dóceis, alguns até aproveitados como cães de terapia, o que não me impede dizer que são excepções, fruto de uma selecção invulgar e propriedade de gente capaz, condições infelizmente pouco comuns. Quando se fala em jihadistas e nos ataques terroristas que comentem, vêm-nos à memória indivíduos alheios à nossa cultura, valores e religião, porque assim tem vindo a suceder. Mas o que dizer de indivíduos que têm cães para atacar gente inocente e indefesa? Não pertencerão eles à mesma categoria de “pessoas”? É interessante relembrar que antes de se tornarem “guerreiros sagrados”, muitos dos jihadistas foram criminosos de delitos comuns, evoluindo por pseudo-investidura para facínoras. Diante deste flagelo e perante episódios como o ocorrido em Manchester, porque urge combater também o terrorismo doméstico, mais do que indexar os cães, importa responsabilizar e penalizar os donos para impedir os seus ataques.

TENHO DÚVIDAS

Ao contrário de um ex-Presidente da República Português, um algarvio que dizia nunca se enganar e raramente ter dúvidas, quiçá pelo peso do seu nome próprio ser tangente à graça de um deus pagão (Baal), o que eventualmente lhe abonaria um decreto de infalibilidade, eu tenho dúvidas e muitas, apesar do meu nome poder também ser interpretado como “agraciado por Deus”. E uma das que tenho é se corridas de mushing como a de Yukon, que se realizou mais uma vez este ano e cujo trajecto vai de Fairbanks no Alasca até Whitehorse no Canadá, num total de 1.000 milhas, atravessando quatro cadeias montanhosas numa área superior à da França, debaixo de 40º negativos (por vezes menos), não seja uma crueldade para os cães que são obrigados a competir ali naquelas condições. Se eu fosse um “musher” e adepto deste tipo de corridas, dificilmente iria protestar contra as touradas à porta da Praça de Toiros do Campo Pequeno, por me sentir sem moral para tal.
Dir-me-ão que os cães foram criados e preparados para aquele fim, que o mushing lhes é inato, justificação em tudo igual à proferida pelos ganadeiros acerca dos seus toiros. Uns e outros não me convencem. E depois, para que servirá o “chicote de fios”, para aquecer o lombo gelado dos cães? Penso que eles iriam mais satisfeitos, aconchegados e cómodos se fossem sentados nos trenós com os seus condutores a puxá-los! Será que um desporto destes, praticado por gente que se diz gostar de cães, dá corpo ao brejeiro provérbio popular “ quanto mais prima, mais se lhe arrima”?
Há muito que o especismo deveria ter sido banido e ser substituído pelo respeito interespécies. Não subsistirá alguma diferença entre um cão que nos auxilia e outro que é transformado em besta de carga? A relação dos homens com os animais nunca foi desinteressada. Lembram-se dos burros? Não havia proprietário que dissesse não gostar deles! Então, porque se encontram hoje em vias de extinção? Deixaram de ser quem eram ou perderam o seu interesse?
Consigo até compreender o uso dos animais como último recurso para a mútua sobrevivência mas nego-me a aceitar a sua exploração para gáudio dos homens, ainda que isso seja entendido como desporto, muito embora saiba da importância terapêutica dos cães e doutros animais para os homens e reconheça as suas múltiplas mais-valias. Exemplo disso é que se passa todos os anos no Sam Houston Race Park, no Texas/USA, onde para além de corridas de camelos, se fazem em simultâneo corridas de avestruzes. Penso que nenhum dos “jockeys” e dos proprietários daquelas aves não-voadoras teria alguma dificuldade em aderir ou ser signatário da Declaração Universal dos Direitos dos Animais.
E como quem paga as favas desta relação hipócrita são sempre os mesmos – os animais, podemos dizer, sem corrermos o risco de nos enganarmos, que também a cinofilia, a canicultura e a cinotecnia estão carregadas de crueldade, enquanto actividades que procuram primeiro o uso e só depois o respeito pelos animais. Por esta mesma razão, sempre será mais fácil ensinar cães do que produzir alguma alteração nos seus donos. Apesar de gostar do que faço, sentir-me-ia imensamente mais feliz se nunca houvesse adestrado cães, porque isso evidenciaria um maior respeito por eles. Mas como tal é utópico, por cá continuo a adaptá-los para os donos, para sociedade e para o mundo, tantas e tantas vezes contrariado, porque os maiores problemas que colocam passam pelas limitações dos seus donos, pela sua ausência de disponibilidade e meios, factores que não os isentam da companhia destes animais, cujo valor é-lhes imprescindível para sua auto-estima, saúde e bem-estar. Sim, ensinar cães é valer aos homens!

domingo, 3 de abril de 2016

DÃO-LHES ANSIOLÍTICOS E ANTIDEPRESSIVOS E, SE NÃO RESULTAR… CAPAM-NOS!

Que as raças caninas padronizadas apresentam sérios problemas físicos que afectam a sua saúde, bem-estar, longevidade e sobrevivência já todos sabemos, porque saltam à vista e é não preciso ser-se especialista para os identificar. Neste Novo Milénio, mercê de erradas políticas de selecção, que duram pelo menos há 100 anos, aos problemas físicos dos cães com pedigree vieram juntar-se outros de origem psicológica, uns como reflexo das suas menos-valias ou incapacidades físicas e outros decorrentes de desequilíbrios vários que afectam a sua adaptação e viver social, patologias menos visíveis mas observadas por quem os tem e trabalha, ainda que intencionalmente encobertas por quem os cria. Nunca houve tantos cães ansiosos e com comportamentos depressivos como agora, ao ponto de se tornar corriqueiro administrar-lhes calmantes, ansiolíticos e antidepressivos, prática que os vem tornando químico-dependentes de difícil desmame. Como nem sempre a administração destes fármacos surte o efeito desejado, sobrando cães a quem provocam uma reacção contrária, a castração surge como a derradeira opção para os inadaptados, insatisfeitos e anti-sociais, solução draconiana que tende a amainar os mais atribulados e aflitos.
Há que inverter quanto antes esta tendência, pelo que importa denunciar o mal que continua a ser feito aos cães, para que o peso da opinião pública possa travar este verdadeiro martírio e holocausto canino, perpetrado por gente que para sonhar, sendo hipócrita, torna a vida destes animais num verdadeiro pesadelo, ao criá-los à revelia do seu bem-estar. Sempre ouvimos dizer que o cão é o melhor amigo do homem, não estará na hora de tornarmos esse sentimento recíproco? Como posso defender a Declaração Universal dos Direitos do Animal se faço vista grossa à violação de todos os seus artigos?

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
2º - UM CÃO CHAMADO SEXTA-FEIRA, editado em 26/03/2016
3º _ PRETO-AFOGUEADO E LOBEIRO: DOIS IRMÃOS DE COSTAS VIRADAS!, editado em 16/05/2014
4º _ PASTORES ALEMÃES LOBEIROS: O QUE OS TORNA ESPECIAIS, editado em 02/11/2015
5º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado 24/02/2015
6º _ OS CACHORROS DE TUMAT, editado em 31/03/2016
7º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
8º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
9º _ ENTRE A NAVALHA DO CAPADOR, O EUTASIL E GUANGXI, editado em 07/06/2015
10º _ SOCIABILIZAR QUEM NÃO DÁ TRÉGUAS: PASTOR ALEMÃO E LEÃO DA RODÉSIA, editado em 22/03/2016

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Alemanha, 4º Reino Unido, 5º Espanha, 6º Estados Unidos, 7º Ucrânia, 8º Itália, 9º Roménia e 10º França.

DIA DAS MENTIRAS E ARGÉLIA

O dia 1º de Abril é tradicionalmente em Portugal o “Dia das Mentiras”, altura em que também os meios de comunicação social adiantam notícias falsas, contudo críveis. Parece que a tradição veio de França, pela ocasião da alteração do calendário produzida pela adopção do “Calendário Gregoriano”, facto que aconteceu no Reinado de Carlos IX e no Ano de 1564. Até esta data, o Ano Novo era comemorado a 25 de Março, quando começava a Primavera, altura em que se trocavam presentes durante uma semana, precisamente até ao dia 1º de Abril. Alguns franceses mais conservadores não se agradaram da ideia e mantiveram a tradição e calendário antigos. Foi então que a maioria da população, que havia aderido ao “Calendário Gregoriano”, decidiu brincar e gozar com aqueles que não o haviam adoptado, enviando-lhe presentes bizarros e convites para festas inexistentes. Com o tempo, a brincadeira estendeu-se a outros países europeus e a outros continentes. Assim, o dia passou a ser designado nos países de língua inglesa por “April Fools' Day”, em Itália por “Pesce d'Aprile”, em França por “Poisson d'Avril” e na Galiza por “Día dos Enganos”.
Apesar de sermos tradicionalistas, não seguimos a tradição em matéria de notícias e de informação. E para não alimentar alguma confusão ou descrédito, decidimos dar esta notícia dois dias depois de ter ocorrido. No dia 1º Abril tivemos um leitor da Argélia, país do Magreb que raramente nos dá leitores, facto que nos deixou simultaneamente perplexos e satisfeitos pela novidade, porque nos países muçulmanos os cães são considerados animais impuros e transmissores de impureza para os seus proprietários e para restante população que com eles conviver. Pouco a pouco, desde o Irão até Marrocos, os cinófilos começam a reclamar o seu direito à companhia de um cão, apesar da aspereza das penas impostas e da perseguição que lhes é movida pelas diferentes “Mutawa”. Neste confronto entre o mundo ocidental e o muçulmano a opção é simples: ou trabalhamos todos pela liberdade dos regimes muçulmanos ou eles valer-se-ão da nossa para acabarem connosco. Desejamos ardentemente que o leitor argelino não venha a ser perseguido e castigado pela “afronta”. Salaam Aleikum/As-Salamu Alaikum! 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

VOLKOSOBY: A ÚLTIMA INOVAÇÃO CANINA RUSSA

Este artigo foi-nos sugerido por um amigo e companheiro das lides caninas, pelo Jorge Martins, cinófilo, criador de cães e cinotécnico. O assunto interessou-nos porque já enveredámos pelo caminho dos russos, produzindo híbridos de Lobo Ibérico com Pastor Alemão, facto de que demos notícia em vários textos, nomeadamente em “ O SONHO DO LUPINO PORTUGUÊS”, editado em 18/08/2015, onde realçámos as mais-valias de determinadas subvariedades do Lobo Cinzento para a cinotécnia, mais precisamente a do Lobo Ibérico. De acordo com o que nos fazem chegar e não faltam textos na Internet acerca do assunto, os russos conseguiram juntar a extraordinária máquina sensorial e instintiva dos lobos à cumplicidade visível nos cães, ao produzirem híbridos a partir de uma loba da região do Mar Cáspio, cuja variedade, sendo uma subvariedades do lobo cinzento, é conhecida por Lobo Caucasiano, Lobo das Estepes ou por “Canis lupus campestres”, conforme a designou o cientista russo Ivan Dwigubski em 1804.
E se é verdade aquilo que nos fazem saber, estes híbridos têm a força e o tamanho dos lobos somada à interacção e obediência presentes nos cães de trabalho, méritos assinaláveis quando comparados com outros híbridos, criados com os mesmos propósitos e para idênticas funções e serviços.
Volkosoby é o adjectivo/substantivo russo para cão-lobo e o seu tamanho é ligeiramente menor que o encontrado no lobo euro-asiático. Esta nova raça teve o seu início no primeiro ano do Novo Milénio (2000) e deve a sua existência e sucesso aos investigadores do Instituto Perm das Forças Armadas Internas Russas. É seleccionada e produzida como auxiliar dos guardas fronteiriços, particularmente junto às fronteiras com a Mongólia e a China, prestando-se a vários serviços que vão deste a detecção de minas, drogas e álcool até à protecção de perímetros e oleodutos. Cada posto fronteiriço tem em média 4 cães destes ao seu dispor, que foram criados e aprovados para uso militar (cães de guerra), sendo considerados como “armas estratégicas”.
O Volkosoby apresenta duas características que o definem: o seu pelo fino, cuja tonalidade lhe garante a camuflagem nos desertos do Cazaquistão e da Mongólia, e o seu comportamento ao iniciar das tarefas, que ao invés de ladrar, estala fortemente os dentes como indício de prontidão. Apesar do seu uso restritivo, este cão pode ser alugado para serviços de segurança que não comportem missões de carácter militar devido à sua forte presença dissuasora, visível no modo como fixa pessoas e outros objectivos, olhar que denota um superior impulso ao conhecimento, substancialmente menos observado noutros híbridos idênticos, como é o caso do Cão-Lobo Checo.
Depois da obtenção do Terrier Negro Russo e do uso de ratos para a detecção de drogas e explosivos, o recurso bem-sucedido a canídeos selvagens para melhorar as actuais raças caninas tem vindo a aumentar no maior país do mundo, cite-se como exemplo os Cães de Sulimov, descendentes directos do Chacal e que são cada vez mais utilizados nos aeroportos russos, dos quais também já demos notícia. Quem está na cinotecnia e não quer perder os seus avanços, é obrigado a informar-se sobre esta actividade na Federação Russa, porque ali e desde há muito, contrariamente ao que se passa no Ocidente, onde sempre superabundaram cães de companhia e de luxo, “os fiéis amigos” são maioritariamente animais de trabalho, herança reforçada pelo engenho e pragmatismo russos e também pela imposição do extinto regime soviético, que se estendeu às nações anexadas para a Cortina de Ferro, responsável pela selecção de excelentes cães de trabalho naqueles países, ainda que usados maioritariamente para fins militares ou repressivos.
Estamos a lembrar-nos, por exemplo, dos Pastores Alemães da extinta RDA (DDR), dos oriundos da ex-Checoslováquia e dos provenientes da Rússia depois do colapso do comunismo, hoje praticamente absorvidos por outras linhas de menor qualidade. Dizemos isto sem qualquer simpatia pelo bolchevismo ou por qualquer tipo de ditadura, seja ela do proletariado ou não, porque sendo livres, não nos agrada a “carneirada”.
Em Portugal, segundo se diz e ouve, proliferam nos cães de trabalho os oriundos de “linhas checas”, o que não corresponde exactamente à verdade, porque a maioria deles já apresenta grande infusão de sangue austríaco e de outros cães ocidentais, quer tenham vindo directamente da República Checa ou não, facto comprovado pela morfologia, porte e comportamento dos cães que nos foram dados a observar, onde a presença das modernas linhas estéticas é por demais evidente. Retornando ao Volkosoby, um verdadeiro avanço para a cinotecnia, importa estar atento para a sua evolução e para o aparecimento doutras raças laborais no leste europeu, porque doutro modo seremos mais uma vez consumidores de cães alheios e obrigados a recomeçar tudo a partir do nada, fado que sempre nos tem acompanhado. E como uma coisa leva à outra, pergunta-se: porque continua o Podengo Português desaproveitado? Até quando continuaremos a seguir a política que diz ser “a galinha da minha vizinha melhor do que a minha”, agora que temos os investigadores que nunca tivemos? Volkosoby? Sim, temos cão!