sábado, 5 de dezembro de 2015

UMA PERGUNTA RECORRENTE: UM CÃO GRANDE FICARÁ BEM DENTRO DUM APARTAMENTO

A pergunta sempre volta à tona no Natal, a melhor das ocasiões para se vender cães: “um cão grande ficará bem dentro dum apartamento?” Só não ficará se o seu tamanho vier a obstar à livre circulação e demais actividades dos seus donos, ao ponto de se tornar um estorvo ou obstáculo, transtorno possível quando se intenta colocar um cão de raça gigante dentro de um apartamento de reduzidas dimensões. Mais do que no tamanho, importa considerar a raça do cão, as suas características e a função para que foi criado, porque há pequenos cães que fazem grandes disparates dentro de casa e cães grandes que se comportam exemplarmente, independentemente de terem sido treinados ou não para esse efeito. È sabido que os beagles ladram demais (os vizinhos que o digam) e que a maioria dos cães de caça acaba por encontrar “presas” nos mais variados adornos e utensílios de casa. Diante disto sempre será melhor adquirir um cão de características territoriais do que um caçador, porque o primeiro virá a considerar a casa como seu território e sentir-se-á lá bem, enquanto um excursionista não verá a hora de “sair porta fora”, permanecendo inquieto na ausência dos donos e podendo descontar a sua frustração no património familiar ao seu alcance, o que infelizmente não é raro suceder.
À parte disto e com alguma garantia, existem raças que foram desenvolvidas unicamente parar serem cães de companhia. Quer um cão seja grande ou pequeno, nenhum deles irá dispensar a sua caminhada diária ao exterior, em prol da sua saúde, bem-estar e necessidade social, caminhada que deverá ter uma légua de extensão ou ser substituída por 60 minutos ao ar livre. Como criámos e seleccionámos o cão para viver ao nosso lado, surripiámos-lhe instintos, roubámos-lhe a autonomia e tornámo-lo dependente, incapaz inclusive de se auto-sustentar, é natural que não goste de estar só, apesar de atavicamente ainda ser um predador. Qualquer cão sempre estará melhor junto de nós que enclausurado num canil ou desterrado numa quinta, porque é um ser social e por substituição terá necessidade de adoptar-nos como membros do seu grupo. Não há problema nenhum em levar um cão grande para dentro de casa, desde que lá caiba, a menos que não o queiramos passear ou não tenhamos tempo para o levar à rua, exigência de que um cão pequeno também não abdicará.

UMA MATRIARCA DANADA NO SAPATINHO

Antigamente dizia-se para as crianças porem os seus sapatinhos junto à chaminé na noite de Natal, que o Menino Jesus iria lá colocar as suas prendas. Hoje tal tarefa cabe ao Pai Natal e nunca houve tantos por todo o lado, apesar da Lapónia ficar lá para o cabo do mundo. E como uma novidade traz a outra, agora também já celebramos o Halloween, o que nos cai bem na fotografia atendendo à nossa parcial herança celta. Neste Natal o proprietário de dois Pastores Alemães negros não irá ter descanso, porque a cadela adulta que já tinha, continua a morder num cachorro que tem agora 6 meses de idade, violenta e insistentemente, ao ponto do cachorro tremer só de a pressentir e urinar-se quando a vê. O homem teme e com razão, que o cachorro fique acobardado para sempre, o que nada lhe convinha, atendendo que o quer para guarda e eventualmente como futuro reprodutor. As arremetidas da cadela e as suas consequências impedem que ambos possam estar soltos em simultâneo. Alarmado com o facto, o dono pede-nos agora conselho, apesar de já lhe terem dito que o problema resolver-se-á naturalmente com o crescimento do cachorro, vaticínio que ninguém pode garantir.
Segundo a nossa experiência e entendimento, foi um erro ter juntado a cadela residente com o cachorro recém-chegado, na altura com 2 meses de idade, porque a fêmea adulta, acostumada a guardar a quinta com um velho macho já desaparecido, tomou o seu lugar e entendeu o infante como um intruso ou invasor, movida pela forçada promoção e pelo impulso herdado à defesa. Se continuarem ambos soltos e em simultâneo, atendendo que os cães aprendem pela experiência, aquele macho poderá acabar esfrangalhado e logo impróprio para o serviço que dele se espera, para além poder inibir-se sexualmente e para sempre, porque já colhe os amargos frutos da aversão da cadela e mais colherá quando esta se encontrar na primeira semana do cio, motivos mais que suficientes para que se mantenha irremediavelmente afastado dela.
O que há a fazer é soltá-los alternadamente, ora um ora outro e proceder à recuperação do cachorro enquanto é tempo, para que não fique submetido hierarquicamente à cadela, venha a evidenciar o seu potencial e futuramente consiga submetê-la. Para facilitar a recuperação do infante, agora traumatizado, convém que seja reabilitado no seu próprio terreno e não noutro, para que o considere seu e o sentimento territorial venha em sua ajuda. Deverá ser convidado para exercícios que promovam a sua confiança, autonomia e robustez, alvo de repetidas recompensas e induzido a ladrar, a defender-se e a atacar, tarefas obrigatórias para que saia vencedor nas futuras contendas, que serão breves, pouco intensas e de reduzida consequência, atendendo à surpresa da cadela e ao dimorfismo sexual presente na raça. Assim solucionamos estes casos e não deixámos nenhum por resolver.

ELE QUERIA, TODOS QUERIAM MAS A CADELA NÃO!

Nada do que desejamos de um cão deverá atentar contra o seu bem-estar social ou induzir à sua despromoção, a menos que as suas características individuais obstem ao seu controlo e ponham gratuitamente em risco a integridade dos seus donos ou de terceiros, sejam estes pessoas ou animais, anomalia por vezes presente nos cães de carácter dominante, hoje raríssimos e ainda procurados, apesar do aproveitamento ou adaptação das suas mais-valias não ser fácil e não estar ao alcance de qualquer um. Exceptuando este caso extremo, todos os cães, caso se consiga, deverão ser socialmente promovidos para o lugar imediatamente acima ou conservar o seu status de acordo com o perfil psicológico que o sustenta pela investidura que o treino oferece.
Determinado cavalheiro, bem casado e com vários filhos, todos menores, com pouca ou nenhuma experiência em cães, decidiu comprar uma cachorra Pastora Alemã como mascote prà família. O animal tem agora 5 meses e o dono confiou-nos a supervisão do seu ensino. Quando inquirido sobre as suas expectativas relativas ao treino, disse: “Eu quero que a cadela obedeça a todos de igual modo lá em casa, o que não acontece agora, pois só atenta para mim. Receio que um dia possa causar dano a algum dos meus filhos mais novos ou apanhar-lhes aversão”. Compreende-se a preocupação do pai mas estranha-se o seu desejo, porque ao satisfazê-lo lançaríamos a cachorra numa tremenda confusão, já que naturalmente resistiria a ser um “pau mandado”: a aceitar todos lá em casa como líderes.
Dificilmente se conseguirá treinar um cão assim, encontrar um com tamanha humildade que rase humilhação, que haja nascido tão submisso ao ponto de vir a comportar-se como um robot, como se fosse máquina e isento de vontades e afectos. Cães mais velhos e experimentados conseguem fazê-lo, ainda que sem entusiasmo e contrariados, satisfazendo as vontades alheias para não serem incomodados, para serem objecto de recompensa ou para agradarem aos seus donos. A inserção de um cão numa família humana é facilitada pelo instinto gregário canino (há quem lhe chame sentimento) que o leva a viver em grupo e a entender os humanos ao seu redor como membros da sua matilha. Caso estivesse nela e ocupasse o último lugar da escala social, certamente seria infeliz e a todos temeria, porque a sua vontade jamais seria respeitada (seria o último a comer, comeria as sobras quando as houvesse, impedi-lo-iam de copular ou abusariam sexualmente dele e viveria debaixo de constante intimidação), lugar geralmente destinado aos cães inibidos e de menor préstimo, tanto para si quanto para os outros, geralmente ocupado por uma fêmea. Ora, uma investidura destas é no mínimo ambígua para quem diz gostar de cães e por isso mesmo abominamos a castração, medida higienista agora em voga que mais apateta os animais do que os aproveita.
Diante deste cenário, melhor seria àquele pai ter adquirido um rafeiro (há tantos à espera de serem adoptados), animais geralmente mais dóceis, comunitários e que normalmente são entregues já castrados, não uma cadela territorial e de linha laboral, como é o caso da sua cachorra pastora alemã: activa, explosiva, curiosa e dada a tropelias típicas da sua idade e peso genético. Porém, nada está perdido e ele verá satisfeitos os seus desejos, porque o animal irá prestar-se a isso, não do modo que ele pensa mas de acordo com o seu particular racial e propósito existencial, uma vez que a cachorra nasceu para cuidar dos seus, muito embora não dispense o treino para nisso se aprimorar e para não entrar em excesso de zelo ou noutros exageros, o que não irá dispensar o ensino do dono enquanto líder da matilha, zelador da sua harmonia e escalonamento social.
E se assim acontecer, pode o nosso homem dormir descansado, porque a Pastora Alemã com auxílio da coabitação, da aquisição de rotinas adequadas, do treino e da idade considerará todos os membros da sua família como seus, dispensando maior cuidado aos mais frágeis e agindo com eles cautelosamente como sempre temos testemunhado, prestando-se à sua salvaguarda e impedindo inclusive que corram riscos desnecessários, movida pelo instinto maternal e pelo impulso herdado à defesa: pastoreando-os literalmente!

QUAL DELES SERÁ O INDICADO (3)?

Um jovem apaixonado por Pastores Alemães negros, proprietário de um macho padronizado e muito chamativo, deseja beneficiá-lo para poder ficar com um filho dele da mesma cor. Na vizinhança, porque o cão chama à atenção pelo seu porte e beleza, quatro proprietários de cadelas disponibilizaram-nas para o efeito, sendo uma delas preta-afogueada homozigótica, outra bicolor com 5/8 de lobeiro na construção, a terceira lobeira recessiva em negro mas com apenas 2/8 na variedade e finalmente uma cinzenta unicolor (uniforme). Qual das cadelas melhor garantirá o aparecimento de cachorros negros? Para a semana adiantaremos qual a escolha certa e porquê, equacionando para os nossos leitores um novo caso.

RESPOSTA PARA O PROBLEMA DA EDIÇÃO ANTERIOR (2)

A resposta certa para o problema da edição anterior é: “um cão de linha estética, mais leve de osso, todo padronizado e muito angulado dos quartos traseiros”, porque importa contrariar a inversão da linha dorsal e torná-la convexa. Cruzar a cadela com um cão gigante mais agravaria o problema, porque os cães mais altos são por norma pouco angulados e dados ao selamento do dorso, pelo que o primeiro caso não deva ser considerado. Também a opção pelo cão negro de linha laboral deverá ser descartada, porque os cães negros são originalmente menos angulados que os demais e apresentam linhas horizontais paralelas ao solo, só se apresentando diferentes quando produto da intrusão de cães da actual linha estética. O caso do lobeiro convexo de dorso, bem angulado mas com o peito estreito e mãos divergentes é de todo desprezível, porque a variedade da cadela (preto-afogueada) é dominante e o desaprumo dos anteriores do lobeiro mais agravaria o problema, porque prevaleceria a construção dorsal da fêmea e a divergência de mãos do macho, legando à sua prole cães atípicos e selados.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ OS FALSOS PASTORES ALEMÃES, editado em 24/02/2015
2º _ PACHÓN NAVARRO: UNIR EL PASADO AL PRESENTE, editado em 01/07/2015
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
5º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 15/06/2011
6º _ O SONHO DO LUPINO PORTUGUÊS E O PERRO LOBO MALLORCAN, editado em 18/08/2015
7º _ CÃO QUE VAI À GUERRA DÁ, LEVA E…TRAZ!, editado em 22/11/2015
8º _ SERÁ O BOERBOEL UMA BESTA APOCALÍPTICA?, editado em 02/05/2015
9º _ OLHO DE VIDRO E CARA DE MAU: O CATAHOULA LEOPARD DOG, editado em 07/01/2015
10º _ OUVIR A CHARANGA E NÃO IR DE CHAROLA, editado em 01/07/2011

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país obedeceu à seguinte preferência:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Rússia, 5º Alemanha, 6º Espanha, 7º França, 8º Ucrânia, 9º Itália e 10º Angola.

domingo, 22 de novembro de 2015

O MATERIAL TEM SEMPRE RAZÃO

Literalmente ao virar da esquina, encontrei um trintão com um Bulldog Francês de oito meses a passear, o homem a reboque e o cão esganado por enforcador metálico, que evoluía disparatado e debaixo de engasgo. Segundo o parecer daquele impróprio condutor canino, sem o concurso do estrangulador jamais conseguiria trazer o animal à rua, porque puxa que nem um desalmado e não atenta para os reparos. Adiantou ainda que no princípio usou um peitoral e que o cão foi objecto de instrução escolar lá para os lados de Algés, não esclarecendo quanto tempo por lá andou e quais os resultados obtidos, muito embora tudo indique que a assiduidade escolar de ambos não tenha sido muito grande considerando as dificuldades patenteadas. Apostado em resolver-lhe o problema de “histórico” do cão, peguei no animal e operei a devida correcção, pormenor que durou 5 minutos e que muito espantou o homem, não sem que antes tivesse dado cabo da minha mão esquerda por conta da trela ser de fita e abrasiva. Nestas coisas do adestramento, como em tantas outras, o material tem sempre razão, as trelas deverão ser redondas e de material não abrasivo, o que tornará cómodo e facilitará de sobremaneira o trabalho a efectuar pelos condutores. Como complemento, importa dizer que os cães braquicéfalos, considerando as suas dificuldades respiratórias e cardíacas, deverão usar coleiras e não enforcadores ou estranguladores e, como o Bulldog Francês é naturalmente bruto, o uso de peitorais pode ser contraproducente, uma vez que podem instigá-lo à tracção e perpetuar o arraste.

ESTARÁ O PROF. PARDAL ENTRE NÓS?

O celebérrimo “Prof. Pardal”, uma personagem fictícia e um galo antropomórfico criado em 1952 pelo norte-americano Carl Barks para a Walt Disney Company, que viria a alcançar diferentes nomes nos diversos países para onde foi expedido, merecendo na língua de Shakespeare a designação de “Gyro Gearloose”, é um inventor cheio de boas intenções cujos inventos nem sempre funcionam e que por vezes se revelam até desastrosos, malogrando-lhe assim os desejos de poder valer aos outros. Dizem as más-línguas por cá, rumores a que não reconhecemos qualquer verdade e que determinantemente nos negamos a aceitar, apesar de não serem recentes, que outros “Professores Pardais” subtraem ou aumentam graus no cálculo do “ângulo de Norberg”, no intuito de valerem à sua clientela e “isentar” os seus cães de displasia coxo-femoral. Debaixo deste clima de suspeição, que a ninguém serve e que julgamos não ter qualquer fundamento, sem pôr em causa o bom-nome, a honestidade, o profissionalismo e a competência dos nossos clínicos, antes querendo comprová-los mais uma vez, aconselhamos, no caso dos Pastores Alemães, que as radiografias aqui feitas sejam posteriormente enviadas para os respectivos serviços da “SV” (Verein für Deutsche Schäferhunde), o que de imediato anulará e para sempre, qualquer suspeita de compadrio ou conluio caseiro pela certificação internacional obtida, ainda que a nós nos baste, sem qualquer reticência, a efectuada pela Escola Superior de Medicina Veterinária ou por uma entidade por ela credenciada e reconhecida. Em tempos de crise é natural que a suspeição se generalize, particularmente entre nós, ainda mais quando um inquérito efectuado pela consultora “Ernest & Young” sobre fraude e corrupção, levado a cabo este este ano, coloca Portugal no 5º lugar dos países mais corruptos num total de 38, logo a seguir à Croácia, Quénia, Eslovénia e Sérvia, apesar de também se poder duvidar da veracidade dos dados obtidos. Estamos crentes que tudo isto não passará, como noutros casos, de um mero “rebeubéu, pardais ao ninho”. 

QUE VENHA A CERTIFICAÇÃO POR ADN E QUANTO ANTES!

Como já acontece noutros países, gostaríamos que todos os cães registados no LOP (Livro de Origens) do Clube Português de Canicultura fossem objecto de certificação por ADN, o que a nosso ver evitaria a “procriação” dos mortos, notabilizar bastardos, legitimar mestiços, a troca de identidades e a perpetuação de enfermidades, achaques de que infelizmente ainda não nos livrámos, apesar da presente crise económica ser avessa à proliferação de chicos-espertos e oportunistas (nem tudo é mau). Apesar do CPC fiscalizar mais amiúde as ninhadas do que outrora, a olho nu é quase impossível detectar se os cachorros visitados têm ou não a ascendência manifesta no seu registo, o que tem permitido um sem número de irregularidades que atentam contra o propósito do nosso Kennel Club. Por outro lado, mediante a recolha do ADN dos progenitores, proceder-se-ia à identificação, despiste e desprezo dos responsáveis pela perpetuação das várias doenças e incapacidades de origem genética que afectam actualmente a maioria das raças caninas. Há que dar tempo ao tempo e quando menos se esperar esta medida será também aqui adoptada.

A MALFADADA HISTÓRIA DO DR. COMPINCHA

Há gente que tenta escamotear as suas origens humildes, tal não é o caso do Dr. da nossa história, que conservou as suas amizades de sempre e o seu singelo modo de vida, apesar de ser o único da sua família a prestar o “Juramento de Hipócrates”, sendo comum vê-lo em amena cavaqueira com gente simples, envolver-se nas suas actividades e participar nos seus eventos, onde se sente como peixe na água e um entre iguais, não obstante ser um reputado médico, mais dado a servir do que a ser servido: “um gajo porreiro” no linguajar de quem o conhece. Acontece que o nosso Dr., por mera casualidade, acabou por ser presenteado com um cão, um excelente Labrador chocolate que deixa meio mundo de boca aberta e que é muito solicitado para coberturas. Como o animal não se faz rogado e o bom do médico não é capaz de dizer que não a ninguém, porque entende que não o tem para negócio e a todos quer valer, o número de labradores nas redondezas tem aumentado de sobremaneira.
Para além disto, porque é desinteressado, confiado e com o seu quê de ingénuo, secretamente e por várias vezes, tem cedido o registo do seu cão para registar ninhadas cujos pais não o têm, no intuito de aumentar os parcos proventos dos desafortunados proprietários, na sua maioria amigos de longa data, ignorando a ilegalidade do acto e desconsiderando a qualidade e pureza racial das cadelas, que nalguns casos acabam por gerar filhotes incaracterísticos, mal nutridos e portadores das várias displasias, atentando assim contra o bom-nome do seu cão, de pureza e saúde inquestionáveis, ao ponto de ninguém o procurar agora, por julgá-lo responsável pela mestiçagem e propagação daquelas maleitas, particularmente aqueles que têm cadelas de qualidade idêntica à do seu cão. E como toda gente é pronta a “sacudir a água do capote” e o Dr. não quer passar por aldrabão, nada mais lhe resta do que ficar calado, encolher os ombros e virar as costas, pagando o cão as favas pelo seu desnorte e comportamento absurdo.
Esta narrativa é fictícia mas tem o seu fundamento de verdade, repete-se vezes sem conta e acontece um pouco por toda a parte, afastando excelentes cães da reprodução pela incúria dos seus donos, animais que acrescentariam à sua raça importantes mais-valias. Que cada um tire as suas conclusões e evite cair nos mesmos erros, já que foi para isso que contámos esta história, que está longe de ser estória no mundo em que vivemos.

QUAL PROBLEMA? NÃO HÁ PROBLEMA NENHUM!

Há criadores caninos que lembram mágicos a tirar coelhos da cartola, felizmente que são raros, que na hora de cumprirem com as suas obrigações, quando obrigados a entregar o registo dos cachorros aos seus legítimos proprietários, que deveria acontecer no exacto momento da venda, não o fazem. Com o passar do tempo e com o aumento do número de cachorros vendidos, é possível que a confusão se instale e aconteça a troca de registos, factores que não lhes causam qualquer embaraço mas que acabam por embaraçar os estupefactos clientes, que tendo um cão negro com dois anos de idade, acabam por receber o registo doutro mais novo ou mais velho, por vezes de progenitores e variedade cromática diferente. Procedem assim porque lhes sobram registos e há clientes que nunca os reclamam, o que é suficiente para cobrir os que têm em falta e os donos contentam-se com qualquer registo. A falcatrua, porque é disso que se trata, considerando a disparidade entre o animal e o registo que lhe é atribuído, acabará por legitimar o engano e confundir as contas de quem se servir daqueles animais para reprodução, que gerarão filhotes inesperados e nada condizentes com a genealogia impressa dos seus progenitores, que esperando uma ninhada de cor dominante, acabam por ser surpreendidos por alguns recessivos e vice-versa, contrariando as leis da genética, que de imediato tudo denunciarão, para já não falarmos daqueles que tendo três cães em reprodução e um só campeão, registam a totalidade dos cachorros como filhos do cão premiado, na esperança de os venderem melhor ou mais depressa (digam lá se o exame do ADN faz falta ou não?). Diante destas trapaças e ambiguidades, os indesejáveis cães de RI (Registo Inicial) tornam-se mais fidedignos que alguns assim inscritos no LOP (Livro de Origens Português). Como poderão dois cães preto-afogueados de construção exclusiva nessa variedade cromática gerar cães pretos ou lobeiros?
Considerando estas possibilidades aconselhamos os nossos leitores, na hora de adquirirem um cachorro, a trazê-lo acompanhado do respectivo registo, para que não sejam vítimas de qualquer trapaça, tendo o cuidado de verificar se a data de nascimento, sexo e variedade cromática correspondem ao animal que pretendem comprar, assim como conferir se a cor e a idade dos seus progenitores é a que se encontra descrita no LOP. Sobrando daí alguma dúvida ou incerteza, há que conferir os seus números de microchip, mormente agora diante da actual austeridade. Mesmo assim é possível que cachorros de idade idêntica e provenientes doutras ninhadas possam ser acrescentados à que se encontra registada, sendo nela inseridos, ou porque os seus pais não foram registados ou porque os criadores evitaram registar outras ninhadas, geralmente pouco numerosas (registo do ADN dos cães dissiparia todas as dúvidas e impediria a perpetuação das mentiras), uma vez que sobram por aí “Haus Beck’s” que nunca o foram e Wienerau’s de dorso paralelo ao solo, alguns até com a garupa mais alta do que a cernelha! A troca de registos presta-se ainda para o alcance de louros indevidos, manigância que nos vitimou no passado, quando alguns criadores nos compravam cachorros de qualidade por interposta pessoa, trocando-lhe depois os registos, atribuindo os deles aos nossos e vice-versa, permuta que visava a usurpação dos nossos créditos e que acabou por nos prejudicar, atentando assim contra a dignidade do nosso trabalho, esforço e bom-nome. Não estará na altura de acabar, de uma vez por todas, com esta política de “gato por lebre”? Engana-se redondamente quem pensar que isto só se passa em Portugal, porque já sofremos idênticos reveses com cães importados, animais estranhamente impedidos de se reproduzirem e de linha averbada em contraposição à manifesta, vindos inclusive da Alemanha.
Deseja-se, em abono da verdade, que doravante todos os Kennel Clubs nacionais filiados na FCI tenham um banco de ADN dos cães por eles certificados, o que ajudaria de sobremaneira os beneficiamentos e levaria a uma melhor compreensão das raças, das suas necessidades e problemas. Em simultâneo, tal permitiria combater a excessiva endogamia e consanguinidade, quer elas sejam manifestas ou encobertas, responsáveis por um sem número de menos valias que afectam o bem-estar, saúde, uso e longevidade dos cães, combate que em Portugal ainda ninguém abraçou, quiçá também por razões económicas, o que constitui um grave problema para a canicultura nacional, porquanto obsta à sua credibilidade e avanço.  

ELES E AS ÁRVORES MORREM DE PÉ!

A frase “as árvores morrem de pé” é-nos particularmente grata, porque traz-nos à memória a Sr.ª D.ª Palmira Bastos (1875-1967), uma renomada actriz de teatro portuguesa, filha de pais espanhóis e actores de teatro ambulante, que já de avançada idade, a rondar os 90 anos, representou notavelmente uma peça de teatro com o mesmo nome, da autoria do espanhol Alejandro Casona (Alejandro Rodríguez Álvarez), levada à cena no Teatro Avenida donde viria a ser televisionada e por isso conhecida do grande público. Nela, como protagonista, Palmira Bastos diz no seu final: “Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores”, frase que ficou célebre na televisão portuguesa e que possivelmente marcou uma das maiores actuações de sempre desta memorável actriz. Também os cães morrem de pé, ao morrerem primeiro por dentro no cumprimento das suas missões ou encargos, quando sujeitos a grandes e sistemáticas tensões que os levarão ao desgaste e  inevitavelmente ao encurtamento dos seus dias, graças ao stress provocado pelo trabalho e pela participação nas mais variadas modalidades desportivas, que tornando-os obcecados, os sujeitam a duras sobrecargas e a tarefas repetitivas sem que eles desistam, finando-se mais tarde como autómatos, quando a “máquina” deixar de responder. Exige-se, em abono do bem-estar canino, que as respostas artificiais operadas pelo condicionamento não inibam as que lhe são naturais, que a cumplicidade entre homens e cães não se resuma somente aos momentos de trabalho, que o uso dos cães não suplante os seus momentos lúdicos, de supercompensação e descanso, porque tudo fazem, inclusive morrer de pé e lentamente, para nos servirem e agradarem. Gostar de cães não se coaduna com tamanho tormento, há que respeitá-los pelo que são e não pelo que representam, porque se sujeitam a vários traumas, sendo alguns deles de difícil eliminação.

CÃO QUE VAI À GUERRA DÁ, LEVA E…TRAZ!

No ano passado 5 a 10% dos cães militares usados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos mostraram evidências claras de stress pós-traumático, quando usados nas diferentes guerras e conflitos como detectores de explosivos, de soldados inimigos e no varrimento de edifícios, afecção mental até agora desconsiderada por várias razões e que hoje se encontra comprovada, em tudo idêntica àquela que poderá afectar os seus tratadores e demais soldados, apesar desse stress pós-traumático poder também acontecer entre os cães de uso policial e até civil, como acabámos de referir na rubrica anterior. A doença entre os cães militares manifesta-se maioritariamente através do medo de soldados, disparos e rebentamentos, temores que normalmente alteram o seu comportamento em relação aos seus tratadores, tornando-os mais agressivos, dependentes ou tímidos, impedindo assim o cumprimento das suas tarefas. A doença já havia sido detectada em 2010 pelo Dr. Walter F. Burghardt Jr., Chefe de Medicina Comportamental no Hospital de Cães Militares Daniel E. Holland, na Base da Força Aérea de Lackland, localizada em San António no Texas/USA. Contudo, as opiniões não são unânimes e alguns veterinários não reconhecem o stress pós-traumático como um fenómeno comportamental.
O tratamento da doença varia consoante os casos, crendo muitos clínicos que a sua cura peremptória dificilmente sucederá, já que os cães são precariamente equilibrados, o que alvitra a possibilidade de reincidirem nos traumas. Segundo o que a experiência tem revelado, quanto mais cedo for detectada a doença melhor, porque as hipóteses de cura são substancialmente maiores. Geralmente usam-se ansiolíticos a curto prazo e nos casos mais difíceis antidepressivos a longo prazo. Para além da ajuda medicamentosa, os cães deverão ser treinados outra vez para se tornarem insensíveis aos eventos e situações angustiantes, cabendo aos seus tratadores acompanhá-los no vencer das dificuldades. A somar a isto, há clínicos que defendem o uso de contra procedimentos na recuperação dos animais, estratégia que tem sido bem-sucedida pelo reforço do comportamento que induz ao acerto nas tarefas, apesar de não se poder apagar da memória canina a ocorrência de um ou mais traumas somente pelo ensino de habilidades de enfrentamento. Raros são os casos de cães enviados para um Hospital Militar situado na Holanda e especializado no combate a esta doença, porque normalmente são avaliados e tratados no terreno pelos seus clínicos usuais e até nos locais onde são ou foram adestrados.
 Diante do stress pós-traumático que afecta homens e cães, o aforismo luso que diz: ”quem vai à guerra dá e leva” encontra-se inexacto e tarda em ser actualizado, porque quem lá vai dá, leva e… traz! Também debaixo desta doença e grave perturbação se compreende porque tantos cães policiais e militares, na hora de serem dispensados do serviço, são abatidos ao invés de serem integrados na sociedade civil, sucedendo o mesmo a muitos cães de guarda, provavelmente aos melhores, após a morte dos seus donos e treinadores. Se a recuperação dos cães passa também pela reeducação, conforme se pode intuir, a recuperação coerciva dos seus mestres torna-se obrigatória, nomeadamente daqueles que gostam de brincar às guerras e que transformam os seus cães em brinquedos letais, particular que ainda não sucede entre nós e que tem levado ao abate consecutivo dos animais, a mesma sentença que até há pouco tempo condenava também os soldados afectados pelo stress da guerra, que acabavam ingloriamente as suas missões diante de um pelotão de fuzilamento, sem ajuda e por conveniência. Feliz ou infelizmente nem todos nascemos para guerrear, verdade que vitimou, tem vitimado e continuará a vitimar homens e cães enquanto houver guerras e soldados à força (os bons guerreiros também têm limites). Oxalá os cães robotizados substituam quanto antes os genuínos e estes venham a ser para sempre soldados e arautos da paz, um símbolo e um veículo para a fraternidade possível entre os homens. Até quando continuará a Humanidade a condenar todas as espécies?

MAREMMANOS GUARDAM PINGUINS NA AUSTRÁLIA

Os australianos são conhecidos como um povo descontraído, de coração mole e mão dura, características que os tornam resistentes, indomáveis e pragmáticos. Os seus detractores dizem que são assim por descenderem em parte dos condenados da Colónia Penal de Nova Gales, fundada a 26 de Janeiro de 1788, e se assim é, estamos perante mais um caso “de males que vieram por bem”! Terrível maldade foi a introdução da raposa naquele Continente, predador não-nativo para ali levado no Séc.XVIII junto com outros, que viu as suas fileiras reforçadas com a chegada da raposa-vermelha no Século seguinte, ali introduzida com fins desportivos, uma caçadora inveterada que tem levado quase à extinção algumas espécies indígenas, como é o caso do pequeno Pinguim “Eudyptula”, uma ave que não voa e que é para ela uma presa fácil (180 pinguins foram abatidos pelas raposas-vermelhas só em Outubro de 2004).
Na procura de soluções para o problema, adiantou-se um produtor de frangos local conhecido por Swampy Marsh, que sugeriu o uso de Pastores Maremmanos para protecção dos pinguins, estratégia que se tem revelado eficaz pelo aumento do número daquelas aves no seu habitat, que passou de um dígito para três. Neste momento já foram instalados vários daqueles cães-pastores de origem italiana e breve outros virão a ser adquiridos e até importados para o mesmo efeito. O Pastor Maremano Abruzês (em italiano Cane da Pastore Maremmano-Abruzzese) é um molosso rectangular, grande e poderoso, normalmente branco, multifacetado, extraordinariamente territorial e protector, que se presta sem maiores dificuldades para guardar qualquer grupo de animais, desde que previamente familiarizado com eles, sendo em simultâneo fiel aos seus donos e afável com crianças e adultos, podendo também ser treinado para guarda quando houver necessidade disso, disciplina onde se tem notabilizado na sua terra de origem e noutras latitudes, capacidade advinda do seu forte sentimento territorial.
Molossos de características semelhantes não nos faltam por cá, cite-se o exemplo do Cão da Serra da Estrela, do Cão de Gado Transmontano, do Rafeiro Alentejano, do Cão de Castro Laboreiro e até do Cão de Fila de S. Miguel, raças que poderiam ser aqui e noutras partes bem-sucedidas em idênticos trabalhos, como protectores de espécies nativas em vias de extinção ou das domésticas em risco, o que faria aumentar os seus créditos, valor e procura. Falta-nos iniciativa e pragmatismo, sendo por vezes mais contemplativos do que dinâmicos, como se a morte não fosse certa e a vida não merecesse ser aproveitada. O melhor remédio para o fatalismo é varrê-lo, lutar contra as adversidades e procurar novidade. Se ao invés de termos tantos “doutores da mula ruça” (1), tivéssemos mais alguns “Swampy Marshs” seria melhor para todos!
(1)O “doutor da mula ruça” existiu mesmo, chamava-se António Lopes e exercia medicina em Évora, onde era sobejamente conhecido mas não tinha diploma, por lhe faltar o dinheiro para pagar o “canudo”, aquando dos seus estudos na Universidade espanhola de Alcalá de Henares, local de nascimento de Miguel de Cervantes, maior vulto da literatura castelhana. Em 1534 escreveu uma carta ao rei D. João III a pedir-lhe que o mandasse analisar pelos médicos da corte de modo a poder exercer a sua actividade sem qualquer contestação. Na resposta que obteve, em 23 de Maio desse ano, veio designado como “doutor da mula ruça”. O termo usa-se em Portugal em três casos, todos eles pejorativos: para designar um falso doutor, um pretenso doutor e um doutor sem préstimo, sendo este último caso o que adoptámos no texto acima. (fonte primária: aspirinab.blogspot.com, edição de 24 de Março de 2007). 

PARIS: LES JOURS DE GLOIRE SONT ARRIVÉS

Le soleil sera de retour à Paris et les Français vont vivre éternellement en paix, parce qu'ils sont les gagnants et ils croient en la liberté contre les chiens tueurs (The sun will return to Paris and the French will live eternally in peace, because they are winners and they believe in freedom against the killer dogs). Sim, o sol voltará a brilhar em Paris e os franceses viverão eternamente em paz, eles serão os vencedores porque crêem na liberdade contra os cães assassinos, dos quais dentro em breve não restará memória.

OS CÃES TAMBÉM SE ABATEM

Foi morto a tiro esta manhã por um terrorista, dia 18 do corrente mês, em Saint-Denis, nos arredores de Paris, quando contava 7 anos de idade, a Pastora Belga Malinois e cão de assalto “DIESEL”, pertencente ao “RAID” (Unidade Táctica da Polícia Francesa especializada em contra terrorismo tipo SWAT), quando elementos daquele corpo policial cercaram e entraram de rompante num apartamento suspeito de abrigar o terrorista Abdelhamid Abaaoud, tido como mentor dos hediondos ataques à Capital francesa. O anúncio da morte deste cão militar foi feito pela polícia via “twitter”, sendo visitado por mais de 11.000 interessados, quase 7 vezes mais que o anúncio anterior, que noticiava que 5 polícias haviam sido feridos no decorrer daquelas operações.
O desaparecimento desta cadela no cumprimento do dever provocou uma onda espontânea de homenagens por toda a França e serviu para enaltecer o importante papel dos cães farejadores e de assalto no combate ao terrorismo e aos terroristas. Lamenta-se a morte do animal, que parece não ter sido em vão, já que notícias recentes adiantam que o falso belga Abdelhamid Abaaoud terá sido ali também abatido, o que não nos merece qualquer tipo de consternação, porque o mundo seria e será substancialmente melhor sem facínoras da sua laia. Todavia, permitam-nos discordar, cães mortos nestas circunstâncias não são heróis mas vítimas, vítimas da sua irracionalidade e gratidão que tornam possível o seu uso abusivo. E se o forem, sê-lo-ão à força, porque não sabem que marcham para a morte e não procuram a glória do martírio, balelas em que crêem os seus actuais opositores de barricada, movidos por um estranho profeta ou por malévolo jinn que sempre os atiça.

KUKUR TIHAR: A SACRALIZAÇÃO DOS CÃES

Os hindus do Nepal celebram anualmente o dia dos cães integrado num festival religioso (Diwali - festival das luzes) com 5 dias de duração, sendo o segundo dedicado a estes animais, designado naquelas paragens por “Kukur Tihar”. Nessa ocasião os cães, que se crêem ser mensageiros do Senhor Yamaraja (o deus da morte), são objecto de homenagem, adoração e reverência, salpicados com pó de arroz de várias cores, decorados com flores e obsequiados com comida, para exaltar o seu préstimo e carácter sagrado, enquanto criaturas que mantêm com os homens um profundo relacionamento (são também homenageados o corvo e a vaca, ainda que em dias diferentes). Diz-se que no seu dia, os cães são capazes de abençoar todos aqueles que com eles se cruzarem, enquanto ícones daquela religião e guardas das portas da vida após a morte, representando também o conceito de “dharma” – o caminho da rectidão, o que vagamente nos lembra, salvaguardadas as devidas diferenças, Anúbis, o deus chacal da mitologia egípcia, também ele guardião dos túmulos e juiz dos mortos. Não deixa de ser curioso reparar, que antes que os ocidentais o fizessem, já os hindus celebravam o dia do animal, ainda que o nosso não tenha um carácter religioso e se cinja ao propósito de alertar para o bem-estar dos animais, apesar de não faltarem aqui adoradores de cães e gatos!
E nisto diferem os hindus dos seus vizinhos muçulmanos e chineses, porque os maometanos consideram os cães imundos e alguns chineses não dispensam comê-los. Essas diferenças religiosas irão impedir muitos estados islâmicos de dotar as suas polícias de companhias cinotécnicas, nomeadamente os mais radicais e dominados pela “Sharia”, enquanto os hindus e chineses não as dispensam. Já por várias vezes, como ilustração de artigos relativos ao serviço dos cães policiais, temos usado fotografias das forças da ordem, indiana e nepalesa, corporações onde a qualidade do adestramento não fica atrás do verificado no Ocidente, sendo-lhe nalguns casos até superior.
Pondo de parte o carácter religioso ou não e o consequente uso a dar aos cães, ninguém pode negar que eles fizeram, fazem e continuarão a fazer parte da cultura de todos os povos, independente de serem adorados, mal-amados, tornados párias ou recrutados como auxiliares. Julga-se hoje, com alguma base científica, que a domesticação do lobo familiar aconteceu primeiro na Ásia, o que a ser verdade mais credenciará, do ponto de vista histórico, os adestradores asiáticos pelo peso da ancestral convivência. Baixando “às terras de Espanha e areias de Portugal”, importa continuar a denunciar os maus tratos e o abandono que continuam a vitimar os nossos cães, flagelos que apenas nos envergonham diante de sociedades mais evoluídas e perante outras mais primitivas que há muito não procedem assim.

CÃES NEGROS: MITOS E FACTOS

Não resta dúvida que os Pastores Alemães negros granjearam-nos fama, tanta que sempre nos associaram a eles, apesar da sua proliferação nunca ter excedido, mesmo nos momentos de maior procura, 25% do total de todos os Pastores Alemães que criámos, sendo os lobeiros a variedade que mais produzimos (40%), seguida dos preto-afogueados (30%), distribuindo-se o restante pelas variedades uniformes cinzenta (3%) e vermelha (2%). Por causa disso, ao longo de toda a nossa existência, só numa ocasião conseguimos apresentar uma esquadra composta exclusivamente por negros (agrupamento táctico e fracção evolutiva de um grupo canino constituído por seis cães), tanto em treino como em exibições, apesar de desejarmos ardentemente possuir e apresentar mais esquadras dessa cor, porque nela descobrimos cães excepcionais dos pontos de vista morfológico, cognitivo e funcional, ainda que ao tempo a variedade fosse depreciada por ser recessiva, pouco vista e por muitos desconhecida.
Uma ONG no Reino Unido que se dedica a encontrar novos lares para os galgos dispensados das corridas, normalmente por estoiro ou velhice, está com um grave problema, porque a maior parte desses lebréis é de cor negra e a maioria dos potenciais interessados desiste da sua adopção por causa desse pormenor. Para o aumento dos Greyhounds desta variedade cromática melânica muito contribuiu um famoso campeão negro: “Top Honcho”, que foi pai de 10.411 cachorros, o que fez com que 80% dos galgos retirados das corridas e carentes de adopção sejam ali dessa cor. Em vão se tem esforçado os seus resgatadores, tentando sensibilizar as pessoas interessadas para a adopção de um galgo negro (passa-se idêntico problema com os gatos negros para adopção).
Esta aversão à cor negra deve-se apenas ao nosso imaginário colectivo, a mitos e lendas ancestrais que ainda não varremos da nossa cultura, a um todo de superstições que teimamos em não largar, que associam os animais negros a bruxas, maus presságios, a mortes, desgraças e até à presença do diabo, (ultimamente tem sido usado um gato negro, assanhado e com as unhas afiadas como símbolo do anarquismo), o que leva muitos a não temer cães doutra cor e a intimidar-se perante os negros, apesar destes serem ordinariamente mais “ajuizados” que os seus congéneres doutras cores, como iremos explicar e perceber já a seguir, uma vez que tal asco, ao ser contrário à razão, assenta sobre um preconceito irracional. Bem sabemos que os cães negros são difíceis de fotografar, que carecem de uma intensidade de luz específica para ficarem bem no retrato e que se confundem entre iguais, o que os torna indiferenciados e menos apelativos para os mais desatentos.
Como os lobos não possuíam originalmente o gene da cor negra, vindo a adquiri-lo mais tarde através dos cães, os cães negros são menos silvestres e mais cúmplices, mais aptos para o trabalho binomial e fáceis de ensinar. A somar a isto, são os que largam menos odor, porque secam mais rápido que os seus companheiros doutras cores, o que lhes irá facilitar a coabitação dentro do lar dos seus donos. E como são precoces, atingindo as diferentes maturidades mais cedo, assumem prontamente o seu status e incumbências. A cor negra nos cães encontra-se ligada a um maior impulso ao conhecimento, vantagem que os dotará de maior capacidade de aprendizagem, facto que temos vindo a comprovar. A maioria das raças caninas que se têm notabilizado no trabalho tiveram na sua origem ou ainda conservam exemplares negros (ex: Border Collie, Bouvier da Flandres, Labrador, Pastor Alemão, Pastor Belga, Podengo Português, Rottweiler, Terra Nova e a maioria das raças bicolores “Black and Tan”, entre tantas outras). Contrariando a infundada fama demoníaca que injustamente os persegue, é nos cães negros que se encontram os companheiros mais dóceis e humildes, como é o caso do Cão de Água Português. Muito mais haveria a dizer sobre eles e as vantagens que carregam, o que não os isenta em simultâneo de alguma menos valia ou dificuldade. Contudo, o que dissemos acerca deles basta para que sejam melhor considerados e não desprezados. Se depois do que fizemos saber ainda alguém persistir em achá-los demoníacos, será melhor que se mande exorcizar ou então que vá para o diabo que o carregue!    

QUAL DELES SERÁ O INDICADO (2)?

Determinada senhora tem uma Pastora Alemã preta-afogueada, bastante robusta e de linha laboral, portadora de uma garupa forte e por sinal sensivelmente mais alta do que a cernelha, pormenor associado a uma menor angulação dos posteriores. Vista de frente a cadela é irrepreensível, porque se apresenta bem aprumada, com o preito largo e profundo, mais-valias que associa a uma excelente ossatura. Como o animal já tem mais de 3 anos, a dona pretende beneficiá-la, apostada em não transmitir ou minorar nos cachorros o defeito visível na futura matriarca. Como resposta ao seu propósito, 4 cães foram postos à sua disposição: um preto-afogueado com 70cm de altura, robusto e de linha laboral; um macho lobeiro convexo de dorso e bem angulado de traseira, apesar de estreito de peito e com divergência de mãos; um cão negro bem aprumado e de linha laboral, com a linha do dorso paralela ao solo e de excelente ossatura e finalmente um cão de linha estética, mais leve de osso, todo padronizado e muito angulado dos quartos traseiros. Por qual deles deverá optar? Para a semana adiantaremos qual a escolha certa e porquê, equacionando para os nossos leitores um novo caso.