Esta história verídica foi
tornada pública no site da BBC, no dia 15 de Julho do corrente ano. Um Pastor
Alemão preto-afogueado de pelo comprido, com 7 anos de idade, resgatado pelo
Sr. David Larson, um marceneiro de Jarrow, South Tyneside/England, depois de
comer um osso ficou indisposto, entrou em diarreia e deixou de comer.
Preocupado com a saúde do cão, o artesão levou-o ao veterinário, onde pelo raio
x se constatou haver vários corpos estranhos dentro do estômago do animal. Não
sobrando outra alternativa, o Pastor Alemão foi sujeito a uma intervenção
cirúrgica, sendo extraídas do seu estômago 6 bolas de golfe, o que muito
espantou o seu proprietário, porque tendo o cão há 18 meses e não havendo nas
redondezas qualquer campo de golfe, não entendia como aquelas bolas foram parar
dentro do animal (o cão tem certamente uma saúde ferro). Com alguma frequência
acontecem problemas destes em Portugal, não com bolas de golfe mas com as de
ténis, que inadvertidamente acabam engolidas pelos cães, por serem de diâmetro
bastante inferior à abertura da mandíbula de alguns deles. Para além do
pormenor do tamanho, para se evitarem acidentes deste género, as bolas
destinadas aos cães deverão ser de borracha maciça e nunca ocas no núcleo,
porque doutro modo, ao serem furadas, poderão causar o mesmo problema (ser
engolidas parcial ou totalmente) como acontece com as de ténis. Por estas e por
outras, pensando até naqueles que não querem jogar à bola com os cães alheios, sempre
aconselhámos os churros, os nós de corda e outros brinquedos em detrimento das
bolas. Não dizem que o seguro morreu de velho?
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
COM UM CÃO PELA ESTRADA FORA: A HISTÓRIA DA SENHORA QUE APARECE E DESAPARECE
Os ditos concelhos saloios, situados nos arrabaldes de Lisboa: Cascais,
Loures, Mafra e Sintra, diferem etnograficamente dos restantes que constituem o
Distrito da Capital, graças à fixação de diferentes populações ocorridas durante
a Idade Média, anteriores ou decorrentes da Reconquista Cristã, o que não
significa que a miscigenação não esteja presente em cada um deles e nos
restantes. O Concelho de Mafra é exemplo disso, sendo maioritariamente uma
estância saloia, visível na toponímica, no físico, tradições e linguajar das
gentes, comporta outras origens e influências para além da moura, sendo ainda
perfeitamente identificáveis (entre outras) a romana, a galega e a judia,
populações que durante o domínio muçulmano mereceram a designação de moçárabes,
por pagarem impostos para garantirem a sua individualidade sociocultural e
religiosa. Das 11 freguesias que constituem o Concelho, as de Encarnação, Santo
Isidoro e parte da Ericeira são únicas, porque não sendo originalmente de etnia
norte-africana, vieram a assimilar as suas crenças num sincretismo que o catolicismo
não mexeu e aproveitou, como é o caso das loas presentes no Círio dos Saloios.
Nas freguesias que atrás mencionámos e que em tempos estiveram debaixo
da jurisdição de Torres Vedras, o povo tem a tez mais clara, maior envergadura,
não faltam olhos azuis e verdes, as mulheres sempre gozaram de maior liberdade,
tendencialmente troca-se o “v” pelo “b”, os santos são mais venerados e as
igrejas mais concorridas. Não obstante, subsiste por ali uma crença relativa a
uma misteriosa senhora que aparece e desaparece à luz do dia, quando alguém
evoluiu sozinho pela estrada ou pelos ermos, que não se escusa a dar conselhos
ou a fazer revelações. Quem alguma vez a encontrou não gosta de falar disso e
tende a guardar segredo com receio de vir a ser ridicularizado, só falando desse
encontro aos seus ou a um reduzido número de pessoas, mormente a quem foi
objecto da mesma “aparição”. Ao todo, ouvimos quatro relatos destes, de gente
com idades compreendidas entre 40 e 55 anos de idade, de média instrução, de
sexo e profissões diferentes, tendo em comum a sua crença em Deus e nos seus
milagres. Essas “aparições” aconteceram uma só vez na vida desses indivíduos e
a todos a “senhora” revelou o seu futuro, que segundo os vaticinados veio a
suceder “tintim por tintim”.
Incrédulo mas interessado
em tamanha revelação, talvez mais empenhado na sua desmistificação pelo objecto
da minha Fé (Cristo), bati durante anos a fio aquelas estradas e montes,
aproveitando essas jornadas para dar “pulmão” aos cães. Para mal dos meus
pecados ou para sua satisfação, apesar da minha insistência e empenho, só me
cruzei com condutores embriagados, amantes desesperados, ouriços caixeiros,
cobras e lagartos. Teria a excelsa senhora sido afastada pelos cães? Vá-se lá
saber, se calhar foi! Certo, certo, é que os mouros que por cá andaram eram
fatimidas, acreditavam que a filha de Maomé (Fátima), a “senhora da luz”,
aparecia ciclicamente aos seguidores do seu pai, valendo-lhes no infortúnio,
advertindo-os e guiando-os para um final recto e feliz, o que me faz entender
mais profundamente o sentido do poema de Manuel Freire: Livre (não há machado
que corte), ainda que produto de um ateu e iconoclasta, visto que a alma
intrínseca dos povos conserva crenças ancestrais que a novidade dos ventos não apaga,
o que nos leva a supor haver também um ADN mitocondrial da crendice.
Pode ser que outros, mais sensíveis e dados a visões, bafejados pela
sorte ou destinados a tanto, venham a ser bem-sucedidos e possam a encontrar a
dita senhora. Pelo sim, pelo não, é melhor que não levem cães, animais considerados
impuros à luz do Islão (excepção feita ao Saluki), porque nestas coisas há que
casar a bota com a perdigota e a quebra do ritual leva ao enguiço. Nas terras
de saibro, greda e piçarro que se estendem do Cabo Carvoeiro ao Espichel e daí
para o resto do País, a cultura popular é fértil em inúmeras lendas e inesperadas
aparições, remanescente dum sincretismo muito antigo, fundamentado na Idade das
Trevas e transportado até aos dias de hoje, rico em ver bruxas na eira, diabos
nas encruzilhadas, santas nos caminhos, mouras em castelos e lobisomens
espreitando em noites de lua cheia, onde anjos e demónios vêem confundidas as
suas atribuições. E nisto são os cães superiores aos homens, porque não vêem e
não temem as almas do outro mundo!
MISS JOANNE GREER: A MISSIONÁRIA A QUEM ROUBARAM O CÃO
Ao que tudo leva a crer e
segundo a curiosa história de Miss Joanne Greer, uma enfermeira irlandesa que
se tornou missionária presbiteriana e que foi enviada para a Libéria, longe vão
os tempos em que os missionários partiam para os locais mais remotos unicamente
confiados na protecção divina. Quando esta irlandesa foi enviada para aquele
país africano, fez-se acompanhar pelo Reilly, um Pastor Alemão doado por uma
faculdade da Irlanda do Norte, incumbido da sua segurança pessoal, que
inesperadamente acabou roubado por 4 homens armados às 3 horas da madrugada?!
Com o surto de ebola que grassou naquelas paragens, a missão presbiteriana
viu-se obrigada a sair daquele território a 05 de Agosto de 2014, sendo-lhe
permitido retomar as suas actividades ali em Fevereiro deste ano. Na foto
abaixo podemos miss Greer com o Reilly, o cão de defesa pessoal que acabou
roubado e do qual se ignora o paradeiro e a sorte.
A Libéria, cujo nome
deriva do latim e significa liberdade, foi o 1º país africano a tornar-se
independente, o que viria a acontecer a 26 de Julho de 1847, 30 anos antes das
expedições africanas de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens ao serviço da nossa
Coroa e 34 anos após o início da malfadada Conferência de Berlim (1884), que teve
como resultado a entrega de grande parte dos nossos territórios africanos à
Inglaterra, segundo a máxima dos nossos velhos aliados: “amigos, amigos,
negócios à parte”. Nenhuma potência colonizadora europeia disputou a Libéria, o
mesmo acontecendo com a Etiópia. O país foi fundado e colonizado por escravos
americanos libertos (apesar de já lá viverem 16 grupos étnicos diferentes), com
a ajuda de uma organização privada chamada “American Colonization Society”,
entre 1821 e 1822, na premissa de que os ex-escravos americanos teriam maior
liberdade e igualdade de oportunidades nesta nova nação, de acordo com uma
opinião prevalecente nalguns sectores da população dos Estados Unidos da época,
que defendia serem os negros incapazes de se integrar na sociedade norte-americana,
o que evitaria em simultâneo o aumento da criminalidade e os casamentos
inter-raciais.
Volvidos 168 anos, a Libéria é o 4º país mais miserável do mundo, com um
PIB per capita de 447.23€, só sendo nisso ultrapassado pelo Zimbabué, Chade e
Burundi, todos eles africanos. Segundo o “Bureau of Diplomatic Security” do
Departamento de Estado Norte-americano, como se já não bastasse o flagelo do
ebola, 75% dos liberianos tem menos de 35 anos de idade e grande número deles
encontra-se traumatizado pela brutal Guerra Civil, vivendo a sua maioria abaixo
do limiar da pobreza e sobrevivendo apenas com 1 euro diário, tendo difícil
acesso à saúde, a educação e a outros serviços governamentais, apesar dos
Estados Unidos contribuíram anualmente com 1 bilhão de dólares. É frequente
haver ali conflitos económicos, étnicos, políticos e religiosos. Os
estrangeiros e turistas são alvo do pequeno crime durante o dia e encontram-se
expostos a roubos e assaltos, à mão desarmada ou com catana, assim como à
violência de multidão, que pode ser despoletada por um vulgar acidente de
trânsito, o que não é difícil de acontecer, porque o desrespeito pelas regras
de trânsito é generalizado e apenas 6,9% das estradas são asfaltadas. As Nações
Unidas mantêm no território um efectivo de 5.838 militares: a UNMIL. Alguns
locais da Capital (Monróvia) são particularmente perigosos, como são os casos
de: Red Light, Waterside, Congo Town, ELWA Junction e todas as áreas do mercado.
Foi para aqui que a nossa Miss Greer foi enviada, a expensas da Free
Presbyterian Church of North America (FPCNA).
Depois de muitos quilómetros andados, de algumas peripécias e
dificuldades iniciais, esta missionária irlandesa recebeu o seu segundo cão,
também ele um Pastor Alemão, uma cadela chamada “Tina” que lhe foi doada por um
amigo. Queira Deus que tenha melhor sorte, que houvesse sido bem preparada e
seja melhor guarda, que tenham aprendido com a experiência e que não a percam
de vista, porque um cão isolado é como um discípulo sem mestre. Na foto
seguinte podemos ver Joanne Greer com a sua nova body-guard e com outro
companheiro de missão.
A história de Miss Joanne Greer, a quem desejamos que faltem muitos
capítulos ainda, porque é uma jovem, cativou-nos por dois aspectos: pela sua
decisão, ao ponto de colocar a sua vida em risco e, pelo particular dos
Pastores Alemães. Ainda que a irlandesa não seja caso único, não abunda por aí
gente capaz de abraçar idêntica vocação e muito menos fazer-se acompanhar por
cães, particularmente num país onde a fome grassa e os animais são objecto de
repulsa e inveja, uma compreensível afronta para quem vive atolado na miséria.
Grandes mudanças têm sofrido os Pastores Alemães nos 117 anos da sua
existência, jamais imaginaria que transitassem da guarda de rebanhos para
protectores de pastores de almas, percorressem todos os continentes e chegassem
aos lugares mais recônditos.
UM PERDE O AMIGO E OUTRO FICA SEM DEUS
Quando um dono perde o seu
cão, fica pesaroso e sem um grande amigo; quando morre o dono, o cão fica sem Deus,
completamente destroçado e desorientado. Se todos aqueles que descartam,
abandonam ou roubam cães meditassem sobre a gravidade dos seus actos, muitos
deles jamais os repetiram ou fariam, até porque os cães têm uma
particularidade: gostam mais dos donos do que de si próprios! Afortunadamente
vivemos mais anos do que eles, o que nos permite ter vários cães ao longo da
vida. Caso sucedesse o contrário, eles jamais seriam o que são. Assim sendo, há
que respeitá-los, já não virá mal que baste ao mundo?
ÁRBITRO NAS DISPUTAS ENTRE LÍDERES E SUBORDINADOS
Tal como sucede com os
homens, também nos cães existem mais subordinados do que líderes, merecendo
respectivamente as designações de “submissos” e “dominantes”, o que possibilita
a sobrevivência das duas espécies enquanto seres sociais. Hoje, devido à ausência
de trato directo com os animais e à aquisição tardia dos cães, que levam ao
aumento do medo, criam-se por aí dominantes que nunca o foram e que lembram de
certa maneira o “Cão Cérbero”, um animal com 3 cabeças, presente na mitologia
grega e tido como guarda do mundo inferior (inferno). Como importa adequar no
adestramento os perfis psicológicos binomiais, o adestrador vê-se no papel de
árbitro nas disputas entre cães e donos que obstam ao seu rendimento colectivo.
Avaliaremos em seguida os quatro casos possíveis: condutor líder/cão dominante,
condutor líder/cão submisso, condutor subordinado/cão líder e condutor
subordinado/cão submisso, no intuito de identificar os problemas mais comuns e
adiantar as soluções mais acertadas, tendo em vista a necessária e efectiva
liderança humana.
Os condutores que são
líderes inatos carecem por norma de algum travamento, porque a sua ambição pode
impedir-lhes a necessária identificação dos cães que os acompanham, o que
normalmente obsta ao seu desenvolvimento laboral por via de uma precária
comunicação, por vezes imprópria e nalguns casos até abusiva, capaz de gerar
medo ou revolta nos animais que conduzem. Tomando como exemplo o 1º caso, o do condutor líder/cão dominante, importa dizer
que, caso alcancem a plena constituição binomial, dificilmente serão
ultrapassados e o seu rendimento será
excelente, ainda que eventualmente possam surgir algumas dificuldades no seu
processo pedagógico, mercê do dualismo das vontades, expresso na
resistência do cão, que não dispensa um condutor experimentado, para que a
harmonia das acções consiga evitar as desnecessárias confrontações. Aqui o dono
terá que ser um disciplinador não temerário e seguro, alguém capaz de
estabelecer regras e de recompensar o animal pelo acerto, assim como proceder à
reprovação e inibição dos seus exageros, já que o cão tende a capitanear as
acções ou a despoletá-las sem ordem expressa. Para que o animal aceite a
liderança sem maiores atropelos, o seu condutor deverá ser alertado e estar
preparado para aguentar seguro e impenetrável as manifestações de desagrado do
cão e ser pronto na sua cessação. A palavra de ordem aqui é disciplina e ela não deverá sucumbir diante
de qualquer provocação. Ainda que sejam objecto de grande procura, os cães
muito-dominantes não são próprios para qualquer um.
Quando um
condutor possui todas as qualidades que o identificam como líder e tem como
companheiro um cão submisso ver-se-á obrigado a trocar, sempre
que necessário, a disciplina pelo alento,
o que nem sempre acontece, para que a primeira não produza inusitado travamento
e venha a transformar um cão num autómato sem préstimo, o que o tornará excessivamente
dependente, impedirá a sua defesa, obstará ao seu bem-estar e diminuir-lhe-á a
autonomia, impossibilitando-lhe a ousadia só alcançável pela investidura que o
tornaria mais seguro. Encontrar quem dê alento e transmita ânimo nunca foi
fácil e muito menos nos dias atribulados em que vivemos, onde por norma a
esperança não abunda. Um dono decidido
com um cão submisso em mãos terá que valer-se da cumplicidade para o alcance
dos objectivos, abdicando sempre que possível da liderança pura e simples,
que intimida e não anima. Adianta-se que as fêmeas raramente são dominantes,
ficando isso a dever-se ao dimorfismo sexual presente nos cães e ao seu desempenho
na reprodução.
Quando um condutor subordinado é obrigado a educar um cão dominante estamos diante de um processo pedagógico difícil, porque naturalmente o
cão tentará dominar sobre quem o conduz, tudo fazendo para que a sua vontade
impere e a liderança do seu condutor jamais aconteça. Aqui o adestrador é obrigado a intervir, quantas vezes for necessário,
procedendo à instalação dos comandos no
cão até que eles garantam, por si, a liderança do seu condutor, já que o
condicionamento operado por ele dificilmente será objectivo e incondicional. A acção do adestrador torna-se obrigatória
diante dos previsíveis riscos pró condutor, uma vez que não inibe e o cão
tudo fará para o inibir, o que infelizmente acontece com alguma frequência. Com
o tempo, a acção do adestrador e o empenho do dono, que gradualmente vai
ganhando ânimo e força pelo exemplo, o binómio virá ser constituído. Quando a um condutor subordinado cabe um
cão submisso, há que injectar doses maciças de ânimo no líder, visando a sua investidura e o robustecimento do cão,
que jamais se sentirá seguro e protegido se for objecto de uma liderança
passiva, passividade que a acontecer, virá a comprometer por receio qualquer
serviço destinado ao animal. Resumindo, as disputas binomiais resolvem-se,
consoante os casos, com disciplina, cumplicidade, interajuda e ânimo, cabendo
ao adestrador indicar qual destes antídotos utilizar diante dos problemas
encontrados, acção que o transforma num árbitro apostado no sucesso, porque
resolve, a contento das partes e objectivando um fim útil, os possíveis
litígios entre homens e cães.
BEAR: A ARMA SECRETA CONTRA OS PEDÓFILOS E A PORNOGRAFIA INFANTIL
O “Bear”, um Labrador
negro com 2 anos de idade, tem merecido grande destaque nas agências noticiosas
internacionais por ser um dos 5 cães treinados nos Estados Unidos para detectar
dispositivos electrónicos de dados. Ensinado a partir da recompensa com comida
e objecto de treino específico durante 4 meses, foi comprado para a polícia por
9.500 dólares americanos. O seu esmero é tal que nenhum micro-card lhe escapa,
não pelo seu conteúdo específico mas pelos seus componentes químicos. Graças ao
trabalho deste Labrador e o do seu tratador, o agente Todd Jordan, cada vez
mais solicitado, vários pedófilos têm sido desmascarados e muito material de
pornografia infantil apreendido. Cães destes davam-nos muito jeito por cá e
seriam de inestimável valor para a actual cruzada do Papa Francisco. Como
treinar cães para este fim em pouco ou nada difere do treino convencional para
a detecção de drogas ou explosivos, desconhecem-se as razões que impedem a
urgência do seu serviço entre nós. Ò Sr.ª Ministra da Administração Interna,
solte lá uma verba e mande uns moços aos States, basta um ou dois, as crianças
agradecem e as famílias também!
EM PROL DOS RECLUSOS E DA COMUNIDADE
Nesta persistente aura de
poesia e fatalismo que nos caracteriza e envolve, sobram-nos suspiros e
falta-nos pragmatismo, como se tudo estivesse já perdido e o futuro só a Deus
pertencesse, infortúnio que os ladrões sinceramente agradecem. Ainda bem que há
povos bem diferentes de nós, talvez sejam menos polidos, mais rudes e broncos,
bárbaros como outrora foram classificados. Mas por causa deles o mundo pula e
avança, porque são práticos e acabam por valer aos outros. Assim são também os
americanos quando comparados com os cidadãos das mais velhas nações europeias,
cuja maioria não sabe pegar num talher mas que têm revolucionado o viver global
pelo desenvolvimento de toda a sorte de experimentos. Nas prisões de vários
estados norte-americanos têm vindo a ser implementados programas e cursos de
adestramento destinados aos reclusos, medidas que têm contribuído para a sua
futura reinserção social, enquanto ferramenta, e que têm vindo a reforçar eficazmente
a segurança comunitária.
Num protocolo assinado
pela Universidade de Auburn (AL) com algumas prisões no Alabama, Flórida e
Geórgia, vários labradores têm sido entregues a reclusos para serem treinados
na detenção de bombas, homens-bomba e
componentes explosivos, mediante programas científicos vocacionados para o
sucesso. Graças a esta iniciativa, alguns cães já foram colocados e continuarão
a sê-lo na rede ferroviária norte-americana, no metro de Nova Iorque, nos
aeroportos, nos locais de inaugurações presidenciais, nos estádios onde se
realizam grandes eventos desportivos e nas metrópoles com elevada densidade
populacional. Idêntica iniciativa seria aqui fazível e bem-vinda, diante da
crescente ameaça terrorista que se abate sobre a Europa e da necessidade de
formação e reinserção social dos nossos reclusos. Haverá vontade política para
se realizar aqui uma experiência-piloto ou guardá-la-emos para 40 anos depois
como é nosso apanágio?
QUEM TE AVISA, TEU AMIGO É
Grande número de vereadores municipais espanhóis do pelouro do ambiente
anda preocupado com a saúde pública por conta dos proprietários caninos que não
apanham os dejectos dos seus animais nos passeios e espaços públicos, tudo
fazendo para que a situação se altere e os prevaricadores mudem de atitude por
via de pesadas coimas, o que implicará em surpreendê-los em flagrante delito.
Em Colmenar Viejo, uma cidade e município com cerca de 44.000 habitantes,
localizada na Comunidade de Madrid, Espanha, a 30 quilómetros ao norte da
Capital espanhola e pertencente à comarca
de Cuenca Alta del Manzanares, os
autarcas, para além de já se terem valido doutros cães apetrechados com cameras
para filmarem os donos em contravenção com a lei, contratou este ano um detective
particular para obrigar os donos em falta à apanha dos dejectos. Para o próximo
ano, o dito detective vai passear incógnito pelas ruas daquela cidade
histórica, filmando os prevaricadores e entregando esses registos à polícia,
que aplicará aos infractores uma multa de 750€, montante que até não é
exagerado, considerando que em Madrid e Barcelona essa multa pode ascender até
aos 1.500€ (em Lisboa o valor máximo é de 727€). Nos arredores de Madrid, nos
municípios de Alcalá de Henares (onde se come muito bem) e de Leganés, essa
fiscalização é feita por polícias à paisana, ao contrário do que sucede em Móstoles,
que possui uma linda igreja em estilo mudéjar (La Iglesia de Nuestra Señora de
la Asunción), onde a tarefa é assumida por cidadãos voluntários recrutados na
vizinhança.
Procurando solução para o mesmo problema, em Tarragona, na Catalunha,
cidade costeira mediterrânica com 135.000 habitantes e onde existem mais de
2.800 cães, está em projecto uma parceria entre a universidade local e a
autarquia para se criar um banco de dados de ADN dos cães registados, que
permitiria a sua identificação pelos dejectos abandonados e por conseguinte,
também, a dos proprietários, que para além de pagarem a multa, se veriam
obrigados a pagar o teste de ADN. Idêntico plano foi recentemente abandonado
pela autarquia de Getafe, cidade ao sul de Madrid, das mais povoadas da região
e que é considerada o centro geográfico da Península (40º18’17’’N 3º43’52’’W).
A campanha mais agressiva e que melhores resultados deu no combate ao abandono
dos dejectos a céu aberto foi levada a cabo pela autarquia de Brunete, uma
pequena cidade com pouco mais de 10.000 habitantes, situada 20 milhas a oeste
de Madrid. Durante essa campanha foram usados 20 voluntários que entabulavam
conversa com os proprietários caninos desleixados, ficando assim a saber o nome
dos cães, a raça a que pertenciam e o nome dos seus proprietários. Depois, os
dejectos eram recolhidos pelos funcionários camarários e enviados em caixas de
cartão, com as insígnias da cidade, para o domicílio daqueles donos,
avisando-os que seriam multados diante de reincidência. A partir daí houve uma
melhoria em 70% dos casos. O que se passa em Espanha sempre transborda para
Portugal, país onde o respeito pelos outros é por vezes muito pouco. Se tem por
hábito obsequiar os outros com a trampa do seu cão, deixe-se disso, porque se o
respeito pelos outros não o demover, certamente o aumento das multas o
convencerá na ausência de vergonha.
QUAL SERÁ O MOTIVO (XL)?
O “Chaka” é um Cão de Água Português castanho, com mais de 10 primaveras,
que inexplicavelmente tem um especial predilecção por fardas, ao ponto de
acompanhar alegremente qualquer polícia de patrulha, mesmo que alguns deles não
lhe liguem peva e não se agradem da parceria, o que acontece frequentemente. O
comportamento do cão já lhe valeu a alcunha de “Agente Chaka-Zulu”, combinando
a origem do seu nome com a sua tendência e permanência à porta da Esquadra
local. Porque se comportará assim? Hipótese
“A”: Adora seguir os polícias na esperança de apanhar ou surpreender
criminosos. Hipótese “B”: Acompanha
os polícias porque está abandonado e procura um dono. Hipótese “C”: Aproveita os giros policiais para satisfazer a sua
necessidade de exercício diário. Hipótese
“D”: Emparelha com os polícias porque é tímido e junto deles sente-se
seguro. Hipótese “E”: O dono é
polícia e está colocado naquela esquadra. Para a semana cá estaremos com um
novo caso e adiantaremos qual a hipótese certa.
SOLUÇÃO DA EDIÇÃO ANTERIOR
A hipótese
certa para esta rubrica da semana passada é a Hipótese “B”: A cadela está a sensivelmente 24 horas do parto.
Se algo estivesse errado com os cachorros, os sinais da cadela seriam outros e
a temperatura ao invés de descer aumentaria, pelo que a Hipótese “A” deverá ser
descartada. Caso a barriga incomodasse a cadela, jamais se poria a raspar amiúde
no chão, o que torna a Hipótese “C” falsa. Quando um cão pretende defecar não
raspa no chão, antes procura o magnetismo terrestre e rodopia sobre si mesmo, o
que torna a Hipótese “D” também falsa. Como enterraria a cadela os fetos mortos
antes de os haver expulsado? A Hipótese “E” é por demais fantasiosa e
antropomórfica, pelo que deverá ser desconsiderada.
CORREIO DOS LEITORES: CONSEGUIRÁ UM LOBO SOBREVIVER SEM ALCATEIA?
Esta pergunta foi-nos feita por um leitor, pelo que passamos de imediato
à sua resposta pelo estudo e experiência que adquirimos. Sim, um lobo pode
sobreviver isoladamente, desde que consiga ou alguém lhe garanta a subsistência,
obrigado pelo instinto de sobrevivência que o torna num excelente oportunista,
quer se encontre agrupado ou não, muito embora as suas chances aumentem
substancialmente quando em grupo, advindo-lhe daí o hábito que não dispensa o
escalonamento social da alcateia, tanto para essa como para outras funções. Por
detrás da pergunta que nos foi formulada, julgamos haver outra subsequente:
pode um lobo ser domesticado? Sim, pode. Ainda que seja mais fácil fazê-lo
quando infante, pela dependência, estágio cognitivo, desconhecimento e substituição
das suas actividades biológicas, apesar de em qualquer idade tal ser possível,
facto comprovado pela existência de lobos em cativeiro para estudo, tratamento
ou exposição. Os lobos isoladamente são mais fáceis de domesticar, esperando
dos seus protectores aquilo que a alcateia lhe daria, ainda que vejam diminuída
a sua qualidade de vida, bem-estar e longevidade por inacção e privação do seu
viver natural. As fêmeas sempre se adaptarão mais facilmente, o mesmo sucedendo
com as variedades mais ricas em melanina. Estamos em crer que a possível
domesticação do lobo levaria à sua extinção, porque grande é a tentação pela
sua miscigenação com o canis lupus familiaris - o cão, como tem vindo a suceder
e não deveria perpetuar-se.
CORREIO DOS LEITORES 2
Um dos textos mais procurados
ultimamente tem sido: “PODENGO: PREFERENCIALMENTE PRETO!”, editado em
13/11/2014, que se encontra inclusive no TOP 10 desta semana. Recebemos de um
criador desta variedade cromática de podengos o seguinte comentário: “Dou-lhe
os parabéns por esta publicação. Eu sou um apaixonado pelo podengo português e
em especial pelos de cor preta, tenho actualmente 7 podengos pretos e um
castanho (chocolate), uma das fotos que usou é da minha primeira cadela preta e
outra é de uma filha dela que se encontra actualmente nos EUA. Cumprimentos
…/…”. Oxalá outros criadores e caçadores apostem no Podengo Português Negro,
que apesar de excelente caçador têm sido vítima de séria descriminação, ao
ponto de quase ter desaparecido só por causa da sua cor.
ELES DERAM O NÓ!
Realizou-se no passado Sábado, dia 29 de Agosto, na Parede/Cascais, em
casa dos avós maternos da Joana Melo, pelas 14 horas, o seu casamento com o João
Carreiras, companheiro com quem vivia em união de facto há já alguns anos. A
cerimónia foi civil e carregada de emoção, bastante vivida pelos noivos e
convidados, num ambiente alegre e descontraído, onde a brisa marítima e o sol
se fizeram presentes, dando-lhe um enquadramento único. Seguiu-se à celebração
do matrimónio um banquete nos jardins daquela casa, sobejando ali comida e boa
disposição. Como não podia deixar de ser, o Radar, o pastor alemão de ambos,
fez-se presente e teve livre circulação, para alegria de miúdos e graúdos que
raramente lhe deram descanso. Tudo correu conforme o esperado e desejam-se
votos de grande felicidade, cumplicidade e sucesso para os noivos, que de
imediato estarão de partida para Inglaterra, país onde vivem e exercem as suas
actividades profissionais. Fica a notícia: eles deram o nó, a Joana casou-se.
RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS
O Ranking semanal dos
textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ O SONHO DO LUPINO
PORTUGUÊS E O PERRO LOBO MALLORCAN, editado em 18/08/2015
2º _ PODENGO:
PREFERENCIALMENTE PRETO!, editado em 13/11/2014
3º _ O MELHOR E O PIOR DO
PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
4º _ A CURVA DE
CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
5º _ PASTOR ALEMÃO X
MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
6º _ QUAL SERÁ O MOTIVO
(XXXIX)?, editado em 18/08/2015
7º _ LA PROCESIÓN DE
PERROS EN EL DIA DE SAN ROQUE, editado em 18/08/2015
8º _ EU QUERIA UM PASTOR
ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO!, editado em 05/06/2010
9º _ QUASE 2 MILHÕES VÃO
PARA OS CAMPOS DA ESCÓCIA COM O CÃO, editado em 18/08/2015
10º _ PÁ DE VACA: O OSSO
AMIGO DO CÃO, editado em 13/02/2014
TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS
O TOP 10 semanal de
leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal,2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Alemanha, 5º Rússia, 6º Suécia,
7º França, 8º Japão, 9º Holanda e 10º Bélgica.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
O SONHO DO LUPINO PORTUGUÊS E O PERRO LOBO MALLORCAN
Certa vez tivemos um
sonho, lançámos mãos à obra e não chegámos a concluí-lo: o de criarmos a
primeira raça lupina portuguesa, já que não temos nenhuma e a que mais se
assemelha é o Cão de Castro Laboreiro, um molosso alupinado, que do ponto de
vista cognitivo deixa muito a desejar, por via de menos valias sociais que
dificultam a parceria e comprometem a cumplicidade, advindas do seu carácter
instintivo, quiçá por ausência de uma verdadeira política de selecção. Sem
exceptuar o Lobo Ibérico para o efeito, mas temendo os resultados alcançados
por americanos, canadianos, checos, holandeses e italianos, quando cruzaram
Pastores Alemães com diferentes lobos e alcançaram híbridos de menor valia que
o Cão Alemão na sua origem e, conhecedores do trabalho desenvolvido em torno do
Pastor de Shiloh, considerámos primeiro a hipótese de cruzar Pastores Alemães
ou Huskies Siberianos com alguma raça portuguesa que servisse os nossos
intentos. A opção pelo Pastor Alemão e pelo Husky ficou a dever-se às suas
características somáticas, máquina sensorial, mecânica, índices atléticos,
resistência, versatilidade, rusticidade, territorialidade e coeficiente de
aprendizagem, porque já sabíamos que o Pastor Alemão é dominante na construção
e os híbridos Husky absorvem dos outros progenitores aquilo que ele não tem
para dar, facto que verificámos em caçadores de aves, coelhos e javalis.
Temendo uma menor abrangência de serviços e uma maior mansidão, acabámos por
dispensar o Husky, muito embora os seus híbridos se prestem de sobremaneira prà
detecção de explosivos e como cães de resgate.
Convencidos das
dificuldades e da morosidade de chegar a um lupino tipo pela contribuição dos
molossos nacionais, porque usavam o reforço cognitivo para fim próprio, para a
rebeldia e para o aumento da sua autonomia, optámos por atentar para as
restantes raças portuguesas, experimentando previamente em treino cada uma
delas para aquilatar das suas virtudes e defeitos, dando prioridade ao Serra de
Aires e ao Cão de Água, uma vez que o uso do perdigueiro ainda mais retardaria
morfologicamente o fim em vista. Os
híbridos de CPA/Serra de Aires, portadores de uma capacidade de
aprendizagem notável, extraordinariamente silenciosos e de uma elasticidade
pouco vista, garantiam em maior número os exemplares bicolores, nomeadamente os
preto-afogueados. Todavia, sofriam com os impactos ao solo na saída dos
obstáculos mais duros, avisavam pouco, produziam ataques baixos e de surtida,
acusavam em demasia os contra-ataques e esgueiravam-se das ordens debaixo de
tensão, o que obrigaria ao concurso duma 3ª raça para aproveitar as suas
mais-valias (a quase totalidade dos cachorros apresentava pelo crespo). Os híbridos de CPA/ Cão de Água
mostraram-se, quando comparados com o Pastor Alemão na sua origem, pouco
disponíveis, bonacheirões, barulhentos e extraordinariamente amistosos, com
alguma falta de autonomia e pouco ou nada propensos a acções defensivas e
ofensivas, para além de aumentarem a incidência de diferentes prognatismos e displasias,
muito embora vissem melhorado o seu faro e atingissem velocidades estonteantes.
Também eles obrigariam ao concurso duma 3ª raça ou ao reforço do Pastor Alemão
na sua construção.
Renitentes ao uso do Canis
lupus signatus, por razões que atrás adiantámos, virámo-nos finalmente para o
Podengo Gigante e para o Fila de S. Miguel. Esclarecemos que desenvolvemos este
esforço antes de Francis Collins e John Craig Venter terem descoberto a
sequência do genoma humano, muito embora conhecêssemos, ainda que sucintamente,
o resultado dos trabalhos de Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins
relativos à descoberta da estrutura molecular do ADN. Apesar de convencidos do
despropósito da hibridação CPA/Podengo para as nossas ambições, porque outros
já o haviam experimentado sem grande sucesso, produzindo exemplares mais ricos
em instintos do que em personalidade, contrariamente ao verificado no Pastor
Alemão, optámos por repetir a experiência, valendo-nos de Podengos Grandes de
pelo curto, isentos de remoinhos no manto e sem evidência da cor branca,
temendo malhas dessa cor no crânio, no pescoço, membros e na ponta da cauda.
Conforme esperávamos, da hibridação
CPA/Podengo Grande, a somar à indesejável carga instintiva, resultaram
exemplares ligeiramente mais pequenos que o CPA, quase todos vermelhos ou cor
de corso, quadrados, de pelo crespo e orelhas erectas (exageradamente grandes). A
hibridação CPA/Podengo Grande, ao invés de garantir a predominância do CPA,
tende a regressar ao seu atavismo, gerando cães em tudo idênticos ao Pastor da
Picardia (Picard) que estiveram na sua origem, razão pela qual grande número de
mestiços de CPA com rafeiros são maioritariamente de cor vermelha.
Com o Podengo posto de
parte, virámo-nos esperançados para o Cão de Fila de S. Miguel, escolhendo os
exemplares maiores e provenientes dos lavradores açorianos, porque não nos
interessava produzir o lupino mais pequeno das raças caninas e procurávamos
porte, rusticidade, resistência, parceria e aptidão laboral. Da hibridação CPA/Fila de S. Miguel
resultaram exemplares mais pequenos, mais leves, extremamente aguerridos,
carentes de afincada sociabilização entre iguais, mais resistentes à dor, menos
avisadores e mais atletas, que tendencialmente partiam da fixação para o
ataque. Com 6/8 de CPA na sua construção, podemos garantir a eliminação das
menos valias presentes nos híbridos de 1ª geração, mas dificilmente conseguimos
suprimir o seu carácter anti-social e a natureza imprevisível dos seus ataques.
Em todas as raças portuguesas usadas e testadas, a incidência de displasia
coxo-femoral fez-se presente, porque naquele tempo o despiste da displasia era
pouco considerado. Por razões várias, apontando a maior para a falta de suporte
económico, deixámos o nosso sonho a meio, sabendo que através do Fia de S.
Miguel era fazível, porque o cão açoriano é uma mais-valia e o único entre os
nossos que se presta cabalmente como guardião, apesar de não sabermos por quanto
tempo, considerando as “mexidas” de que tem sido alvo e que o têm transformado
num mero cão de bamboleio.
Eis-nos chegados ao Lobo
Ibérico (Canis lupus signatus), uma subespécie do Lobo Cinzento, cada vez menos
visto em Portugal. Mentiríamos se disséssemos que não o experimentámos no nosso
projecto, o que aconteceu em duas ocasiões, quando cruzámos uma CPA de nome
“Seixa da Ajuda - P” com um Lobo Ibérico em cativeiro numa instituição estatal
a que tivemos acesso na altura, correndo o risco de perdermos a fêmea pela
diferença dos rituais de acasalamento entre as duas espécies (sempre será mais
fácil e menos perigoso cruzar um cão com uma loba). Caso não houvéssemos tido
essa oportunidade, acabaríamos por comprar um filhote de “signatus” no Noroeste
de Espanha, que na altura custava o equivalente a 400€. Produzimos um total de
14 híbridos, sendo o “Kali” o mais famoso (por vezes tratado por “ILAK”),
apesar do seu adestramento não se ter revelado fácil pelo grau de dominância
que patenteava. Desta hibridação Lobo
Ibérico/CPA, 80% dos filhotes nasceram Lobeiros e 20% preto-afogueados,
sendo que os primeiros, apesar do dimorfismo sexual, vieram a ser maiores. A
definição da cor nos lobeiros aconteceu mais tarde, permanecendo cinzentos uniformes
até aos 5 meses de idade. Estes híbridos, quando comparados com o Pastor
Alemão, alcançaram as suas maturidades substancialmente mais tarde, não se
manifestando em nenhum deles qualquer tipo de apelo atávico-silvestre. Do ponto
de vista morfológico e à primeira vista, somente debaixo de suspeita se
concluiria tratarem-se de híbridos, já que eram em tudo idênticos ao CPA, muito
embora a expressão, disposição e cor dos olhos, a possível isenção de máscara
no focinho, o tamanho e disposição das orelhas, o comprimento das presas, o
ventre arregaçado e o comprimento da cauda pudessem eventualmente denunciar
alguns.
Para dissipar quaisquer
dúvidas, nenhum destes híbridos sorvia ao beber água e acompanhámos todos até
ao seu final, cuja média de esperança de vida foi de catorze anos e meio,
vivendo uma fêmea mais 18 meses para além disso (16 anos). Dos 14 exemplares
nascidos nas duas ninhadas somente 4 vieram a ser treinados de modo
convencional, 3 por tratadores da GNR e 1 pelo Sr. Filipe Pereira, por sinal
todos machos, lobeiros, acima dos 70 cm de altura, para lá dos 40 kg e com um
perímetro torácico acima dos 90cm (todos os treinadores contratados ignoravam
ter em mãos híbridos de Lobo, porque essa informação não lhes foi adiantada na
altura). Os restantes híbridos acabaram por guardar quintas e logradouros.
Alguns deles vieram a reproduzir-se com Pastores Alemães e geraram proles
saudáveis, valentes, resistentes, bastante interactivas, multifacetadas,
protectoras e com maior esperança de vida. Os descendentes do “Signatus”
mostraram-se livres de displasia, insuficiência pancreática exócrina,
mielopatia, nanismo e demais achaques tornados hereditários no Pastor Alemão. Nenhuma
das diversas linhas de Pastores Alemães da Acendura Brava viria a sofrer
infusão de Lobo Ibérico, mas todas elas lucraram com o conhecimento que
obtivemos dele. Desenvolvemos este trabalho 3 anos antes da criação do Centro
de Recuperação do Lobo Ibérico (CRLI) e não o continuámos para não
comprometermos ainda mais a sobrevivência do nosso Lobo (que continua ameaçada),
pela hibridação sistemática na procura das suas mais-valias.
Os híbridos de 1ª geração de CPA/Lobo Ibérico
adaptam-se bem e depressa ao treino, não apresentando dificuldades específicas
ou acrescidas, porque não são atormentados pela timidez ou desconfiança
presente noutros híbridos, como é o caso do Saarloos Wolfdog, nem atrapalhados
pelo avassalador impulso ao poder visível nalguns Lobos-Checos, dados a rumo
próprio e manifestamente anti-sociais. Como acompanhámos em cativeiro o
crescimento de duas ninhadas de lobos signatus, estamos convencidos que o Lobo
Ibérico é fácil de ser treinado como um cão, apesar de mais efusivo nas suas
manifestações de carinho, quando acompanhado desde tenra idade, convidado para
a coabitação e adestrado a partir dos 7/8 meses de idade, altura em que os
filhotes seguem a alcateia em excursão. Alimentá-lo também não é difícil e pode
transitar para a ração pela sua tendência necrófaga. De qualquer modo, o seu
treino só se justificaria quando esgotadas todas as hipóteses válidas prà sua
sobrevivência, pois há que respeitá-lo tal qual é e como subespécie única,
apesar da sua continuidade depender da adaptação de que for capaz. Sobre este
tema, o do uso do Lobo Ibérico para a obtenção de cães-lobos, vale a pena
consultar: http://www.mallorcan.es/como-nacio-el-perro-lobo-iberico-de-mallorcan/
, para ficarmos a saber o que já se faz nesta matéria na vizinha Espanha.
NATUREZA, SURPRESA E JAVALIS
Se há hábito que o português
não perdeu e dificilmente perderá, o de comer no campo é um deles, muito embora
tenha trocado o nome de “merendar” por “piquenicar” e aligeirado as refeições,
porque as cozinheiras doutrora já cá não estão, o garrafão de vinho caiu em
desuso e as sandes substituem os afamados pratos tradicionais. Contudo, ainda
se grelham sardinhas, bacalhau e febras, normalmente acompanhados das mais
variadas saladas que vão do tomate aos pimentos, passando pela alface e pelo
pepino (agora já muitos usam também rúcula). Depois de “bem aviados”, soltam as
crianças e embalam para uma grande soneca, debaixo das árvores e estendidos no
chão, acordando lá pràs 5 ou 6 da tarde, suados, tolhidos e vermelhos que nem
leitões.
Infelizmente estamos no
pique dos incêndios e todo o cuidado é pouco, os fogos florestais sucedem-se de
Norte a Sul do País e é preciso estar de sobreaviso, para que não acordarmos no
meio de inesperadas labaredas, tantas vezes espevitadas por veraneantes
descuidados. Melhor será assentar arraiais junto a uma estrada do que mata a
dentro, deixar o carro à beira da estrada do que trazê-lo para o meio da
floresta, porque mais vale andar mais um pouco do que agravar a situação e
comprometer o socorro. Nas matas ou parques que não têm assadores próprios, é
contraproducente fazer fogueiras, porque raramente são limpas e têm à sua volta
mato seco com fartura. Se você é fumador, não se deite de cigarro na boca, não
deixe garrafas de vidro à torreira do sol e escolha locais mais arejados e sem
mato, preferencialmente junto a rios ribeiros, porque “o seguro morreu de
velho”.
Curiosamente são os
proprietários caninos que correm mais riscos nas matas, porque procuram as
menos concorridas e menos acessíveis, para que os seus cães não incomodem e
possam correr à vontade, já que a lei os proíbe de circular no exterior sem
trela. Todavia, as áreas menos apelativas para os viandantes são habitats e
lugares de passagem para as espécies silvestres, que ali se sentem seguras pela
distância que as separa dos intrusos. Uma dessas espécies a ter em conta é o
Javali (Sus scrofa), cada vez mais numeroso nas nossas matas, que como se sabe
é omnívoro e tem o faro extraordinariamente desenvolvido, podendo cheirar
comida a 5 km de distância. A época estival marca o início do desmame dos
leitões, que começam a procurar comida debaixo da alçada das matriarcas, que ao
menor sinal de perigo darão a sua vida pelos filhotes, atacando violentamente
quem se aproximar deles, ataques que não raramente deixam marcas profundas e
que poderão ser letais para pessoas e animais.
Para diminuir os riscos de
confrontação, provocados pela avidez de alimento dos leitões, aconselha-se que
tanto as sobras da comida quanto os restos sejam ensacados e devidamente
guardados, as primeiras em caixas isotérmicas estanques e os últimos em sacos
de plástico ou em baldes com tampa, devendo ambos ser guardados dentro das
viaturas. Se porventura tal não se tornar prático, a comida deverá permanecer
junto das pessoas e os restos afastados delas no mínimo a 50m, estabelecendo
assim um perímetro de segurança, para que os leitões roubem os sacos do lixo e
não importunem ninguém, já que são naturalmente atrevidos na presença das suas
matriarcas, desaparecendo por norma com os sacos na boca. Pela mesma razão,
evite acampar perto dos recipientes de lixo nos parques de merendas. Se por
acaso se vir cercado de leitões, não os acaricie, não fuja ou corra atrás
deles, evite gestos bruscos, acalma-se e aja como se não os houvesse visto,
adquirindo uma mímica passiva e desinteressante, porque bem perto dos leitões,
ainda que não seja visível, está a sua mãe, que por ser extraordinariamente
protectora, não é para brincadeiras. Apesar da sua actividade poder decorrer
durante todo o dia, os javalis são mais activos ao crepúsculo e durante a
noite, ocasiões em que o risco de confrontação é maior e mais frequente, o que
pode tornar perigosa a permanência em matas, soutos e pinhais depois do sol se
pôr.
Desejamos umas óptimas
férias para que aqueles que se encontram a descansar e a retemperar as forças,
que usam o Verão para disfrutar da natureza e que o fazem na companhia dos seus
cães. Apostados no seu regresso a casa sem novidades, escrevemos este artigo
para os precaver de possíveis acidentes e contratempos.
QUASE 2 MILHÕES VÃO PARA OS CAMPOS DA ESCÓCIA COM O CÃO
Segundo faz saber a BBC no
seu site, cerca de 4 milhões de adultos visitam anualmente os campos da Escócia
e 48% deles levam os seus cães consigo. Esta tamanha invasão tem gerado alguns
atritos entre os agricultores e pecuários locais com os proprietários caninos,
porque alguns destes têm-se mostrado irresponsáveis e abusadores, permitindo
aos seus cães a invasão de pastos, a destruição de culturas, a perseguição do
gado e doutras espécies silvestres, algumas delas protegidas, assim como
deixado dejectos em locais inapropriados. Apostados em resolver o problema,
porque o turismo também interessa á Escócia, a SNH (Scottish Natural Heritage),
organismo público responsável pelo património natural daquele País, reuniu-se
com representantes da NFU (National Farmers Union of Scotland), organismo de
classe que promove e protege os interesses da indústria agrícola daquelas
paragens, junto com responsáveis dos Kennel Club Inglês e Escocês para
encontrarem uma solução para o problema. Ficou acordado o estabelecimento de
trilhos próprios para os binómios excursionistas, que deverão seguir as
indicações dos proprietários rurais nas áreas não sinalizadas, no intuito de
proteger os terrenos agrícolas, as explorações pecuárias e preservar a vida
natural. Mais uma vez, o pragmatismo britânico veio ao de cima, gerando consensos
e dispensando o chicote.
PRATICAR DESPORTO E COMPROMETER A SAÚDE
Neste País de “casa
roubada, trancas à porta”, onde à imitação de outros pouco ou nada se investe
na medicina preventiva e na protecção da saúde dos cidadãos, os Srs. autarcas
não fogem à regra, privilegiando eventos em detrimento da saúde pública, ao
consentir que pessoas, cães, cavalos e outros animais dividam os mesmos espaços
verdes, sem procederem às devidas cautelas e desinfecções, contribuindo assim
para perigar a saúde pública. É sabido que a maioria dos proprietários caninos
leva os cães aos jardins para que ali defequem. Apesar de grande número deles
recolher os dejectos para dentro de um saco de plástico, sempre sobram alguns
restos de cocós na relva, o que pode constituir-se num foco infeccioso. Indo
para além do sério risco de tétano, se porventura alguém se ferir no meio de um
jogo e a ferida exposta entrar em contacto com os dejectos, a probabilidade de
infecção é por demais evidente e os riscos para a saúde do azarado muito
elevados, uma vez que essas infecções não são para brincadeiras, podem causar
graves lesões e nos casos mais graves resultar em amputações e morte. E o que
dizer dos bebés a gatinhar na relva e a lambê-la?
Já não estará na hora de
se atribuírem áreas diferentes para pessoas e animais nos parques e jardins, de
se proceder a uma desinfecção séria desses recintos depois duma exibição
equestre? Faz-se tanta lei para tanta coisa, inclusive para colmatar e
legitimar a corrupção e parece não haver ninguém que olhe por nós! Jonny
Stiles, um jogador de rugby britânico de 29 anos, por pouco não perdeu uma
perna ao sofrer um corte num jogo e cair sobre um cocó de cão, porque se
desleixou e julgou que nenhum dano lhe resultaria. Quando for jogar à bola com
os seus amigos para os parques e jardins, não faça como ele, leve um kit de primeiros
socorros e desinfecte imediatamente alguma ferida que venha a contrair, porque
se não olhar por si, dificilmente alguém o fará! Quando sair com as crianças
para os recintos verdes, escolha sítios limpos e tome a mesma precaução, não as
deixe abocanhar a relva e lave-lhes a boca e as mãos antes de comerem (proceda
do mesmo modo consigo). Aconselhamos também os proprietários caninos a
proibirem os seus cães de comerem erva e relva nesses espaços, porque doutro
modo correm sérios riscos de infecção e contaminação, já que os nossos jardins
são latrinas a céu aberto.
LA PROCESIÓN DE PERROS EN EL DIA DE SAN ROQUE
Em nome de S. Roque, na
tradicional intercessão dos santos católica, não sustentada pela Escritura
Sagrada, sempre se abençoou o gado no dia deste santo, que se celebra a 16 de
Agosto, prática que quase entrou em desuso e que hoje se repete amiúde, um
pouco por toda a parte onde a Igreja Romana é histórica e maioritária. Para a bênção
dos cães muito contribuiu o parecer sobre os animais constante no Novo
Catecismo Católico (2005), que os considera, por análise ao 7º Mandamento,
criaturas de Deus e envoltos na Sua solicitude providencial, relembrando aos crentes
o tratamento que lhes foi dispensado por S. Francisco de Assis e S. Francisco
de Néri (entre outros). Ao que consta, S. Roque foi socorrido por uma cão que
lhe trazia comida, quando isolado, enfermo e faminto.
Este santo é ainda, segundo a mesma crença, protector contra a peste e
padroeiro dos cirurgiões e inválidos. Debaixo desta tradição e na procura da
intercessão do santo, realizou-se mais uma vez a tradicional bênção dos cães na
Cidade de El Alto, na Bolívia, seguida duma procissão pelas ruas da cidade,
onde os “perros” acompanharam os seus devotos donos. Com as igrejas cada vez
mais vazias, quiçá o “apostolado dos cães” surta efeito, levando os seus donos
para o seio de “La Santa Madre Iglesia”. Mais do que orações, bênçãos, círios e
ladainhas, os cães precisam de quem os respeite, trate bem, cuide da sua saúde e
bem-estar, enquanto criaturas de Deus ao serviço dos homens, porque não alcançam
o abstracto e continuam a penar neste mundo. Se a bênção de S. Roque se prestar,
enquanto cerimónia, para uma maior sensibilização relativa aos direitos dos
animais, à imitação doutros eventos não-religiosos, por certo os cães
agradecerão. E se assim for, quando chegará a vez dos gatos? Infelizmente,
ainda há muita gente a mandar rezar missas por alma doutros, quando em vida os
mortificou. Assim também se compreende porque não há mortos ruins. Oxalá os
processionários bolivianos consigam garantir para si, para os seus concidadãos
e cães o sustento diário, devendo ser essa uma das enfâses nas suas petições a
Deus.
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