sexta-feira, 24 de julho de 2015

A PANCA PELA TRAULITADA

Um homem com o seu cão lado pode retornar à infância e aos sonhos perdidos, dar azo à criança que habita dentro de cada um de nós e reconstruir momentos aparentemente esquecidos, quando tudo era possível e o futuro não incomodava, quando todos julgávamos ser imperadores, reis ou generais, super-heróis como o mundo nunca viu.
Pode ainda encontrar um escape para o seu quotidiano, ser igual a si próprio sem receios, desnudar-se diante do seu cão e ousar partir com ele à aventura, redescobrindo a sua verdadeira natureza por detrás da máscara que o sustenta e traz de pé. Sem dificuldades poderá voltar a balbuciar, retornar às diabruras há muito recriminadas e fazer o que lhe der na gana, escudando-se atrás do animal que a tudo se presta. Infelizmente, e contradizendo o Padre Américo, fundador da “Casa do Gaiato”, os meninos não são todos iguais, há uns melhor que outros e alguns são notoriamente malvados, pardais enxofrados que mais tarde virão a ser gaviões.
Quem se deslocar a Portugal e fizer um périplo pelas escolas caninas que aqui temos, rapidamente se aperceberá que a disciplina cinotécnica de guarda é a mais publicitada, o que poderá à primeira vista induzir alguns em erro , levando-os a considerar-nos ou País de ricos ou uma plebe de ladrões, quando na verdade não somos uma coisa nem outra e nunca fomos tão pobres e tão espoliados como agora, pouco mais tendo para guardar que as nossas próprias carcaças. E dissemos “à primeira vista” porque a riqueza, a estabilidade e o progresso de um país podem também ser medidos pelo ensino preferencial dado aos seus cães, uma vez que os guardiões aumentam com a miséria e diminuem com a prosperidade. Esse mau hábito que temos de ser polícias uns dos outros, tantas vezes movido pela inveja, sempre tem contribuído para que outros nos roubem sem apelo nem agravo. Melhor seria que tivéssemos mais cães de resgate e salvamento, que fossemos fecundos em cães guias, de terapia e de serviço, mais-valias que espelhariam a unidade que tanto nos falta e que possibilitaria o nosso mútuo socorro.
 A panca pela traulitada, porque é disso que se trata, toleima sustentada maioritariamente por jovens e por gente descontente de todas as idades (consigo mesma, com outros ou desencantada com a sociedade), acaba por ser uma actividade terapêutica para os donos, que sentindo-se impotentes e injustiçados, por breves momentos (no decorrer de cada ataque dos seus cães), aliviam a sua revolta, libertam-se do descontentamento e descarregam agressividade, o que os faz sentir melhor e livres da canga que os subjuga ordinariamente, aumentando-lhes a auto-estima e dando-lhes uma sensação de poder, apesar de fugaz. É bem possível que estas razões, só por si ou associadas a outras patologias, sirvam de base ao se convencionou chamar de “guarda desportiva” nas suas múltiplas variantes. Nos anos que levamos a ensinar cães para guarda, apenas 6% dos donos tinha necessidade objectiva deles, por serem alvo de cobiça, não se poderem valer doutras armas, viverem isolados, terem pouca robustez física, serem deficientes ou se encontrarem incapacitados, já haverem sido assaltados, morarem em locais ermos ou de alto risco, onde o socorro policial tardava em chegar e os meios electrónicos defensivos se revelaram ineficazes.
A prática de brincar às capturas, sempre reclamada por justiceiros e por paisanos que se querem ver fardados, que por usurpação de poderes procuram alguma notoriedade, não deverá ser encarada de ânimo leve. E não deverá porque o cão é uma arma e como tal, muito poucos estarão habilitados e terão autoridade para manejá-la em segurança. O cão de guarda deverá ser entendido à luz das restrições acerca da “arma de defesa pessoal”, cujo porte não se estende a todos os cidadãos. Os cães dos indivíduos menores, coléricos, conflituosos, vingativos, subversivos, com algum tipo de demência, de manifesta instabilidade emocional ou envolvidos em qualquer disputa, assim como os pertença dos cadastrados, não deverão ser aceites nos cursos de guarda, porque os seus donos, no calor do momento, poderão usá-los indevidamente ou vir a usá-los para fins criminosos, conforme temos vindo a ter notícia. E se todos tiverem um cão de guarda, quem nos defenderá uns dos outros? Para que nos servirá a Polícia? A passagem da guarda desportiva para as acções reais é automática, porque a arma é a mesma – o cão, que tal qual outra arma, tanto poderá ser usado como advertência quanto para matar, apesar dos cães “desportivos” dependerem de várias condições para se adaptarem às acções reais. Outra coisa bem diversa é treinar cães para alarme e para defesa pessoal, assim como ensiná-los a lutar pela sua salvaguarda.
O Mundo, a Humanidade e os Cães precisam de paz, não de traulitada, todos somos poucos para valer a tanto. Como este blogue tem também como objectivo a divulgação da cultura portuguesa, escolhemos deliberadamente os termos “panca” e “traulitada”, o primeiro mais usado pelas novas gerações (que significa fixação, atracção muito forte, mania, maluqueira e pancada) e o segundo, menos em voga, que nos remete para a história do Séc. XIX Português, por ocasião da “Monarquia do Norte”, também conhecida jocosamente por “Reino da Traulitânia”, obra da insurreição monárquica de Paiva Couceiro, onde os prisioneiros republicanos foram sujeitos a toda a sorte de maus tratos e sevícias: fartaram-se de apanhar traulitada (“trauliteiro” é um indivíduo espancador; caceteiro). Pense bem antes de treinar ou mandar treinar o seu cão para guarda, veja se tem perfil para isso e da possibilidade doutras opções, porque os acidentes acontecem e podem causar vítimas. Nunca se esqueça que um bom cão de guarda exige um líder incontestável, atento, seguro, clarividente, avisado e acautelado, tão lesto no despoletar das acções como na sua cessação. Doutro modo, quem o protegerá do cão e dos danos que ele venha a causar a outrem? Estamos a falar do mundo real, não do virtual!

SHEPADOODLE

Decididamente estamos na era da hibridação canina, que tanto se presta para a formação de novas raças como para a salvaguarda das actuais, considerando as menos valias que afectam muitas delas. Um caso de hibridação bem-sucedido e que se vai repetindo por toda a parte é o “Shepadoodle”, resultante do cruzamento do Pastor Alemão com o Caniche. A maioria destes híbridos não larga pelo, é obediente e serena, demonstra uma extraordinária capacidade de aprendizagem, é atenta, disponível, tem características protectoras e guardiãs, evidenciando maior esperança de vida. À parte disto, um Shepadoodle quando cruzado com um Pastor Alemão, devido à dominância deste na construção, pode gerar filhotes em tudo idênticos ao Pastor. Como é do conhecimento geral somos totalmente contra qualquer tipo de hibridação no Pastor Alemão, porque entendemos que a raça ainda possui a multivariedade necessária para se auto preservar e libertar-se das menos valias que agora a apoquentam, bastando para isso valer-se das distintas variedades recessivas nos seus beneficiamentos. Caso tal não fosse possível, que o é, a recorrência aos Pastores Brancos, que há muito deveriam ser reintegrados na raça, prestar-se-ia para o mesmo efeito, estratégia a que alguns têm recorrido secretamente. Quanto ao Shepadoodle, ignoram-se os problemas de saúde mais comuns nestes híbridos, que apesar de eventualmente mais saudáveis, poderão ter herdado alguns dos achaques que afectam os seus progenitores (nem tudo são rosas).

MAIS PONTOS PARA O MALINOIS!

Segundo um estudo levado a cabo pela Prof.ª Katja Höglund da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas (SLU), em estreita colaboração com o Dr. Marcin Kierczak e com a Prof.ª Kerstin Lindblad-Toh, ambos da Universidade de Uppsala (UU), publicado na Revista PLoS ONE, a 13 de Maio do corrente ano, os Pastores Belgas Malinois possuem uma interacção genética que os protege contra a diabetes, muito embora o mecanismo dessa interacção ainda precise de ser determinado. Chegaram a esta conclusão, que é específica da raça, através do estudo das áreas do genoma em que os pastores belgas Malinois diferem claramente das outras raças. A diabetes é uma doença que afecta muitos cães e que lhes acarreta graves problemas de saúde, sendo caracterizada por um excesso crónico da glicose no sangue, podendo ser diagnosticada e monitorizada pela medição da concentração da frutosamina no sangue, já que esta reflecte nele o nível de glicose num determinado período de tempo.
O Pastor Belga Malinois, desde sempre associado ao duro trabalho de pastoreio, é uma raça intimamente liga ao Pastor Alemão, cão que também raramente sofre de diabetes. Como os cães sujeitos ao trabalho duro precisam de um bom suprimento de oxigénio e um nível idêntico de açúcar no sangue, aqueles cientistas concluíram que cães com um bom controlo da glicose foram seleccionados no decurso do desenvolvimento do Pastor Belga, entendendo-se agora por que razão os Malinois correm menor risco de contraírem diabetes. Parece que temos cão saudável por mais tempo!

CRESCE A REVOLTA A SUL DO EQUADOR

Em cada dia que passa, somos visitados por 21 leitores do Brasil, este mês já tivemos 420 novas visitas daquelas paragens e temos até hoje 44 887 visitantes brasileiros. Junto com as mensagens e fotos que nos enviam, não escondem o seu descontentamento com os políticos e com o Governo há alguns anos no Poder, a quem acusam de seguir modelos há muito ultrapassados, que mais estagnam, empobrecem e isolam o País, tornando maior o fosso entre ricos e pobres, mercê da corrupção de que usam e abusam, e que é indiferente ao agravamento das condições de vida dos seus concidadãos. Um desses leitores brasileiros enviou-nos a fotografia que ilustra este pequeno artigo, que intitulou de “ Foto do Ano” e que recebemos junto com um poema de Alamir Longo, um poeta, trovador e compositor gaúcho. Como não somos hábeis a tirar parecenças, ignoramos de quem se trata, provavelmente de um “Silva” qualquer daquelas paragens ou de um Cefalópode que os brasileiros gostariam de ver na prisão. Ainda que demore, a história já o provou: ninguém pára o Brasil!

terça-feira, 21 de julho de 2015

TOMA LÁ UM CÃO E AMANHA-TE!

Nunca como até agora, os cães foram tão usados como animais de terapia, merecendo nos “States” a designação de “Service Dogs”, considerando os seus múltiplos préstimos junto de doentes, deficientes e incapacitados de vária ordem, sendo cada vez mais usados no combate ao stress pós-traumático dos soldados que regressam das guerras, que por vezes juntam a esse problema psicológico algum tipo de incapacidade física. Há que enaltecer o trabalho de quem selecciona, treina e adapta esses animais para tais fins e saúda-se a sua continuidade, porque esses cães para além de valerem aos donos nas suas tarefas quotidianas, ajudam-nos a vencer a solidão, a apaziguar a revolta e a fazerem as pazes consigo mesmos. Contudo, não resolvem o problema da noiva que se foi, do trabalho que se perdeu e dos sonhos que ficaram por cumprir, a transição abrupta da vida militar para a sociedade civil.
A solução para os problemas desta gente não poderá passar somente por “toma lá um cão e amanha-te”, até porque muitos deles entrarão ciclicamente em depressão, alguns abraçarão a toxicodependência, uns poucos tornar-se-ão anti-sociais e um número menor enveredará pelo suicídio (gradual ou imediato), dependendo isso em grande parte do apoio familiar que obtiverem, não raramente substituído por centros para veteranos, onde alguns destes indivíduos ali permanecerão por tempo ilimitado, diante da impotência das famílias em valer-lhes. A mesma sociedade que elege os políticos e que se sujeita às suas guerras, deverá estar preparada para receber e instalar condignamente os estropiados que delas voltarem, arranjar-lhes um lugar ao sol, onde se sintam úteis e não um fardo, direito que lhes assiste pelo esforço que empreenderam em prol bem-estar colectivo.
É evidente que, quando todas as guerras acabarem, deixaremos de ter este problema! E como há males que vem por bem, como é este o caso, o socorro prestado pelos cães aos veteranos tem-se estendido a um sem número de cidadãos portadores de várias deficiências ou agastados por diversas patologias, gente de todas a as idades que vê a sua vida facilitada pela parceria canina. No entanto, convém não esquecer que a maior autonomia alcançada por estes indivíduos não dispensa a sua inserção ou reintegração social e que a coabitação exclusiva com os cães poderá agravará ainda mais o seu isolamento.
Os cães poderão ajudar na integração social dos indivíduos seus portadores? Sem dúvida! Mas esse contributo jamais será válido se a sociedade não se prontificar em ajudá-los e os deficientes nada fizerem para isso. Os cães sempre farão a sua parte e desempenharão o seu papel irrepreensivelmente, porque são leais e foram seleccionados e treinados para a função, os homens vivem mais e demoram mais tempo para aprenderem a amar-se uns aos outros. Diante dos flagelos que a humanidade tem causado a si mesma, uma verdade se agiganta: os cães depressa aprendem com os seus erros e os homens não se cansam de repeti-los. 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O CÉU E O INFERNO ESTÃO CHEIOS DE BOAS INTENÇÕES

Segundo o que nos chegou pelo website do “The Sidney Morning Herald”, um septuagenário, residente na Av.ª Streeton em Mount Pritchard, na parte sudoeste de Sidney/Austrália, foi atacado no último Sábado pelos seus dois cães, quando intentou acabar com uma briga entre eles, acção que teve como consequência o seu internamento no “Liverpool Hospital”, por apresentar ferimentos extensos na cabeça, na cara, na parte superior de corpo e ter ficado sem as duas orelhas. Tudo leva a crer que os cães não seriam de raça perigosa e ignora-se qual o destino que lhes foi dado.
Infelizmente episódios destes acontecem um pouco por toda a parte e nalgumas latitudes com mais frequência, não sendo raro sucederem entre nós, particularmente àqueles que são proprietários de vários de vários cães e que dividem com eles o mesmo espaço. Dois cães do mesmo sexo não são um casal mas a fracção mais pequena duma matilha, lutando cada um deles para se sobrepor ao outro, se os seus donos abdicaram da liderança ou não tiverem como exercê-la. Com mais facilidade se digladiarão dois machos do que duas fêmeas, apesar do combate das cadelas ser capaz de causar maior dolo. Uma cadela castrada é capaz de enfrentar um cão e intentar dominá-lo, quer ele seja castrado ou não. Diante do sucedido em Sidney e que aqui se repete vezes sem conta, pergunta-se: Para quê adquirir um segundo cão, se não controlo o que tenho em mão, não estarei com isso a dar azo ao disparate?
Essa história de cãs brancas que leva os donos a confiar nos cães e a não lhes imputar regras de convivência, tem sido responsável por inúmeros acidentes e hospitalizações, por desaires de maior ou menor gravidade e repercussão. Os cães não nascem ensinados e carecem de ensino, o que é natural neles é procurarem o lugar mais alto na hierarquia, nem que seja para reclamarem maior atenção, porque lutam pela primazia, não gostam de reparti-la e resistem a perdê-la. Se pretender adquirir um segundo cão, não o faça sem ter absoluto controlo sobre o primeiro, o que até será bom, já que ele irá ajudá-lo na educação do recém-chegado (caso não tenha disponibilidade para isso, mande ensiná-lo). E depois, separar cães que não nos respeitam e que estão fora do nosso controlo, é uma tolice que sempre terá o seu preço. Mal comparado, um cão sem liderança é como um carro sem travões ou como um cavalo sem cabresto. Como poderei ser dono daquilo que não controlo? 

SE OS CÃES PUDESSEM ESCOLHER OS DONOS, MUITOS LIVRAR-SE-IAM DO PROZAC

Para começo de conversa, lançamos um repto ao nossos leitores : que nos adiantem os antónimos mais comuns para o substantivo feminino e termo médico “zoonose”? Cresce assustadoramente o número de cães com ansiedade e fadiga crónicas, maleitas que o Prozac tende a suavizar mas não resolve, porque apenas ataca os sintomas e não as causas, maioritariamente da responsabilidade dos seus donos, que por ausência de condições, não lhes garantem o bem-estar, levando-os a comportamentos anómalos como resposta à infelicidade por eles vivida, motivada pelo stress que os induz à depressão.
A excessiva sedentarização, o isolamento e o confinamento forçados, a privação da excursão e do exercício diários, a pouca ou nenhuma interacção e a supressão do seu viver social, são as principais causas indutoras pràs depressões caninas. Infelizmente são as pessoas que escolhem os cães e a muitas delas falta-lhes tempo e condições para tê-los, o que não impedirá de adquiri-los e sujeitá-los a precárias condições de vida, que agravarão o seu quadro clínico e comprometerão a sua esperança de vida.
Caso os cães tivessem como escolher os donos, prerrogativa que não lhes assiste, muitos deles jamais se veriam entregues a ansiolíticos e antidepressivos. Antes de adquirir um cão, aquilate se tem ou não condições para o ter (afeição, disponibilidade, predisposição, saúde e meios), porque a nossa felicidade não deverá ser alicerçada na infelicidade canina.

AKC RECONHECE O LAGOTTO ROMAGNOLO, O BERGER PICARD E O MINIATURE AMERICAN SHEPHERD

O American Kennel Club (AKC) reconheceu recentemente mais 3 raças caninas, são elas: o Lagotto Romagnolo, o Berger Picard e o Miniature American Shepherd, que a partir de agora terão o seu registo no livro de origens e poderão participar, a partir do próximo mês, nos shows, exposições e outros eventos organizados por aquele clube de canicultura norte-americano, de reputação e aceitação internacional. O Lagotto Romagnolo (cão de lago da Romagna) é um retriever italiano originário da região administrativa Emilia-Romagna no Nordeste italiano, cuja capital é Bolonha. Para além das características que o tornam um excelente retriever, se for educado desde novo, pode tornar-se num exímio prospector de turfas. Cão lanudo, muito idêntico aos cães de água portugueses e espanhóis, com os quais denota uma origem comum, não se estranhando ser tratado pelos alemães de “Wasserhund der Romagna”, já que originalmente proliferou nas  planícies de Comacchio e pântanos de Ravenna. O seu estalão adianta para os machos de 45 a 48cm de altura, com um peso entre os 13 e 16kg. As fêmeas têm uma altura entre os 41 e 46cm e o seu peso varia entre os 11 e 14kg. O padrão original da raça foi lavrado em 1988 pelo CIL (Clube Italiano do Lagotto), entidade filiada no ENCI (Kennel Club Italiano). Trata-se de um cão dócil e de fácil sociabilização entre iguais, indicado também como cão de família, que adora fazer buracos, de manto impermeável, que tanto pode ser uniforme como malhado, nas cores branco e castanho e nas interacções cromáticas delas resultantes (branco com castanho, laranja ou ruão).Tem uma esperança média de vida de 16 anos e presta-se a recuperar lebres, perdizes e outras aves selvagens, tudo tendo para vir a ser um extraordinário cão de salvamento.
O Berger Picard, originário da Picardia/França, um dinossauro no panorama das raças caninas e por detrás da formação de muitos cães pastores na França, Holanda, Bélgica e Alemanha, facto comprovado pela existência do Laekenois e pela contribuição de cães pastores de pêlo de arame (cerdosos) para a formação do Cão de Pastor Alemão, ainda hoje é pouco numeroso e a sua procura é diminuta. A sua escassez resulta da sua quase extinção que ocorreu por ocasião das duas Guerras Mundiais que flagelaram a Europa e que não pouparam o seu território endémico (Nordeste de França), já que foi ali que aconteceu a guerra de trincheiras do Somme. A sua menor procura fica a dever-se ao facto ser por demais rústico, pouco apelativo e lembrar um mestiço, uma hibridação em tudo igual à verificada entre um podengo e um cão de água ou entre este e um spitz. Com os avanços da ciência e a contribuição do ADN, estamos em crer que a importância do Picard para a formação dos diferentes pastores será revelada. Trata-se de um cão rectangular, bem musculado, com o crânio e o focinho de igual comprimento, com o chanfro nasal abatido, de orelhas erectas com alta implantação, de coxas mais longas que as pernas, cuja cauda atinge o jarrete, mais claro nas patas e no ventre. A sua cor é similar à dos jovens corsos (cinzenta-avermelhada) e apresenta uma multivariedade de sombras. Os machos medem entre 60 a 65cm e as fêmeas entre 55 a 60cm, pesando entre 23 e 32kg. A sua esperança de vida oscila entre os 12 e 14 anos. O Berger Picard é um cão alegre, leal, com uma excelente capacidade de aprendizagem, obediente e atento, próprio para a parceria e para trabalhar o dia inteiro, que apesar de suave e tranquilo, é de natureza protectora, sendo por isso reservado com estranhos, o que obrigará à sua sociabilização, continuando a ser usado como cão de guarda e pastoreio.
O Miniature American Shepherd, também conhecido pela sigla “MAS”, é um pequeno cão muito similar ao Pastor Australiano, cujo peso oscila entre os 9 para os 18kg, variando em altura entre 33 e 45cm (de 35 a 45cm para os machos; de 33 a 43cm para as fêmeas), um cão versátil que se presta a quase tudo, inclusive ao resgate e salvamento. Portador de uma agilidade, força e resistência pouco vistas, ele adequa-se a todo o tipo de terrenos e ecossistemas, podendo transformar-se num excelente cão familiar, caso se despreze a sua utilidade e parceria como pastor e atleta.
Com o reconhecimento oficial destas três raças e ao dar resposta às aspirações dos seus criadores, o AKC realçou mais uma vez o seu carácter pragmático e a procura pelos cães de utilidade, contribuindo de sobremaneira para a valorização e divulgação destas raças. Este arejamento norte-americano, que mais valoriza o uso que a estética e procura a inovação, quiçá pela acção do anticiclone dos Açores, tarda em chegar à Europa, o que se lamenta mas que bem serve aos americanos, a quem todos, mais cedo ou mais tarde, se verão obrigados a comprar-lhes cães, considerando a qualidade e o uso dos exemplares inscritos nos seus livros de origem. Ficámos muito felizes pelo Picard (cão que muito apreciamos) e os amantes do Lagotto também têm razões para isso. Os americanos partem geralmente na frente e raramente se atrasam! E se os chineses ao invés de comerem cães, passarem a exportá-los, o que será de nós? Passaremos nós a comê-los? Alguns suíços já estão acostumados!

SAUDADES DE JOGAR À BOLA SEM TER UM CÃO PERNA

Quando nos debruçamos sobre o adestramento e ao olharmos para os métodos da maioria dos adestradores actuais, vem-nos à memória o que passa em certas latitudes, onde muita gente ignora que o peixe tem espinhas e que o frango tem cabeça, porque todos querem ver a sua vida facilitada e procuram o prato pronto, os treinadores caninos valer-se-ão de bolas para o seu o seu ofício e todos comerão as carcaças dos frangos nas salsichas, ainda que não o saibam. Apesar do adestramento não dispensar a carga emotiva que serve de estímulo às acções caninas e a cumplicidade que visa o melhor aproveitamento dos cães, ele é sustentado pelo exercício da lógica que presidirá à escolha dos métodos, considerando os prós e os contras presentes em cada um deles, clarividência pouco visível naqueles que hoje abraçam este nobre ofício, que seguem o convencional sem aquilatarem dos seus riscos e menos valias. Quase que poderíamos jurar (não o fazemos para não incorrermos em juízos temerários), que muitos alienados fazem do adestramento terapia e que quanto maior for o seu grau de insanidade melhor serão respeitados, como se os loucos estivessem mais perto da verdade oculta e a genialidade resultasse da loucura, princípios dogmáticos que vimos respeitados nas nossas andanças pelo Magrebe.
Poderei ensinar um cão valendo-me apenas de uma bola? Sim e com muita facilidade, se o cão a ensinar for cúmplice e alegre, conservar algum instinto de caça e tiver excelentes impulsos ao movimento e à luta. Com o auxílio da bola conseguirei ensinar-lhe todo o currículo de obediência, tanto os comandos estáticos como os dinâmicos, alcançando os mesmos resultados com um saco de biscoitos, um disco, um brinquedo e até com um simples cavaco. Ainda que o recurso aos brinquedos simplifique e facilite de sobremaneira o ensino canino, ao ponto de dispensar os condutores de maiores requisitos técnicos e de valer aos cães com menor impulso ao conhecimento, pondo-os assim em igualdade com outros que de outro modo jamais seriam capazes de acompanhar, o seu desmame não é fácil e nem sempre é absoluto, por que causa dependência e possibilita o uso dos cães por terceiros quando munidos dos brinquedos, o que poderá vir a comprometer alguns serviços historicamente destinados aos cães. É evidente que o reforço positivo, diante da sua abrangência e prática, está muito para além disto. O recurso aos brinquedos, estratégia inescusável no ensino dalguns cães, lembra o que fazemos em aritmética na teoria dos números, quando pretendemos encontrar o máximo divisor comum (mdc) entre dois ou mais números inteiros, porque nivela o ensino canino por baixo, baseando-o quase em exclusivo nas respostas naturais dos animais, valendo a muitos e subaproveitando os melhores, cuja riqueza de personalidade suplanta os instintos, despreza a dependência e não é dada a subornos. Sim, também na pedagogia canina se trabalha para as estatísticas e trabalhar-se-á enquanto forem os donos a pagar as mensalidades.
 O hábito generalizado de se ensinarem cães com bolas, que vulgariza o adestramento e que o torna extensível ao mais rudimentar dos proprietários caninos, não lhe adiantando qualquer capacitação, tem vindo a ser responsável por um infindável número de incómodos e disparates, alguns deles fatais, tanto para pessoas como para os animais. Por toda a parte sobram ataques caninos sobre crianças de tenra idade pela disputa de bolas, o que nos leva a questionar sobre a justeza do método: será ele o mais indicado para quem é pai e tem filhos pequenos? Já sabemos que os cães têm vindo gradualmente a substituir as crianças nos lares, que os jovens casais optam por um cão para se libertarem dos possíveis encargos com um filho ou dois, não diferindo nisso dos solitários seniores que já se viram privados deles. Serão os cães do futuro que suportarão as pensões da população e os encargos do Estado amanhã?
Longe vão os dias em que as famílias podiam deslocar-se aos parques públicos sem sobressaltos, comer por ali e depois optarem por uma “peladinha” com os filhos, porque hoje, vindo donde menos se espera, sempre aparece um esfaimado cão (e há-os de todos os tamanhos) que reclama a bola para si e desaparece com ela na boca, apesar da lei obrigar todos a circularem atrelados. No meio da confusão gerada, para além dos vitupérios e das ameaças usuais, a Polícia acabará por ser chamada, porque a bola foi furada, uma criança foi projectada no chão, mordida ou ficou traumatizada. Os donos dos cães acabarão por sair dali à pressa, antes que a Polícia chegue para tomar conta da ocorrência e sem terem aprendido a lição.
Uma criança com uma bola na mão transforma-se num alvo e uma bola a saltitar numa tentação. E se por acaso houver um cão a correr atrás duma bola, breve terá a concorrência doutro, irá ter que lutar para ficar com ela e poderá vir a ser escorraçado. Então, não deveremos usar a bola no ensino dos cães? Há casos em que ela é perfeitamente dispensável e outros em que se torna imprescindível, opções ligadas ao particular biológico dos indivíduos, à sua vocação e serviço. De qualquer modo, numa fase ulterior do treino, cada cão só deverá procurar e interessar-se pelos seus brinquedos, desprezando aqueles que não lhe pertencem, condicionamento obrigatório para não vir a causar desacatos, acabar ludibriado ou eliminado, o que equivale a dizer que, nalgum momento do treino, a bola deverá a ser entendida como presságio de trabalho e não como um acessório lúdico, podendo e devendo ser ainda usada como recompensa pelo trabalho prestado pelos cães. Contudo, esta distinção não estará ao alcance de todos eles e a bola jamais substituirá a liderança e o seu papel, particularmente na presença de cães notoriamente agressivos ou carenciados de travamento, erro em que incorrem usualmente os donos menos audazes perante cães valentes, que incapazes de se fazerem ouvir, tentam subornar os animais, “educá-los sem eles darem por isso”, evitando a todo o custo o confronto directo, atitude típica de larápios que desnuda e envergonha qualquer dono. E caso venham a ser bem-sucedidos, ao destruírem assim os cães, acabarão por entregá-los na mão dos bajuladores, cujas intenções nem sempre são as melhores.
Assim como há quem tire uma esquadria “às três pancadas”, a maioria dos donos colocará os cães para correr e jamais operará o seu travamento pronto e imediato, correndo depois, inevitavelmente, atrás do prejuízo, até porque, ao chegarem às escolas, só pretendiam assenhorar-se duns quantos “truques”! A bola, como os demais brinquedos, poderá ser e na maioria dos casos é, um excelente subsídio de ensino para os cães, mas pouco contribui para a inevitável e urgente formação dos seus condutores, primeiros e únicos responsáveis pelos actos dos seus cães perante a sociedade e o seu socorro. Incomodados diante desta toada, sentimos saudades do tempo em que podíamos jogar futebol sem ter um cão à perna, dos bons e saudosos velhos tempos em que podíamos celebrar os golos sem nos roubarem a bola.

GAIVOTAS: A MORTE QUE VEM DO MAR E PAIRA NO AR

Como se os corvos já não bastassem para aumentar o rosário de penas dos canicultores, agora temos as gaivotas à perna, aves marítimas que nas últimas décadas têm vindo a alterar os seus hábitos alimentares, talvez por haver menos traineiras a fazer-se ao mar e o peixe escassear na foz dos nossos rios e na orla marítima. Certo é que vemo-las cada vez mais distantes do mar, alimentando-se em lixeiras, ao redor de matadouros, debicando caixotes do lixo e atacando os animais domésticos ao seu alcance (patos, pintos, pombos, gatos e cães, entre outros).
 A alteração da sua dieta tem sido acompanhada pela procura de novos locais para nidificarem, fazendo agora ninhos nos lugares mais impensáveis e mais perto das nossas habitações (nos nossos quintais, em anexos, ao redor de janelas, telhados e chaminés), coabitação que tem levado algumas a atacar pessoas, por sentirem os seus ninhos e prole ameaçados (nos ataques sobre os humanos tendem a atacar o crânio e a face).
Pelo que nos tem sido dado a observar, nenhum lago, capoeira ou canil descobertos estarão a salvo do seu interesse e cobiça, caso se encontrem num raio de 50Km distantes do mar. Com facilidade e rara avidez comem pão e ração, restos de comida (batatas fritas e gelados inclusive), sobras de carne e bolos, não se escusando a debicar as carcaças de animais que encontrem. Os cães da sua predilecção são os cachorros e os toys, particularmente os que pesam abaixo dos 5kg, porque são-lhes fáceis de transportar, muito embora possam atacar, matar e comer outros maiores no local, quando em bando e sem oposição, o que tornará vulnerável qualquer cachorro por alturas do desmame. Como se deslocam a terra em grandes bandos, são capazes de se congregar para se defenderem e atacar milhafres, falcões e águias, facto que já presenciámos e que podem ser comprovados por várias fotos à disposição na internet.
Somente os corvos dão-lhes luta, porque avançam também em bando e disputam os mesmos “petiscos”, apesar de menos vistos nalgumas paragens. Os corvos, que causam os mesmos estragos, costumam levar vantagem no combate entre ambos, dividindo entre si os cadáveres dos seus opositores, apesar da luta ser renhida e da vitória depender do número de cada um deles. Quando o número das gaivotas é muito superior ao dos corvos, estes evitarão as hostilidades e esperarão que as gaivotas “saiam de cena”.
Alimentar as gaivotas pode ser uma opção de alto risco e resultar num tremendo disparate, porque a garantia do alimento levá-las-á a nidificarem mais perto de nós, a aguçar a sua argúcia, a pilharem o que quiserem e quando lhes der na gana, podendo atacar-nos a nós, aos nossos filhos, aos pets e às visitas lá de casa, por avidez de alimento ou por sentirem os seus ninhos ameaçados. Como se depreende porquê, quando têm crias no ninho, porque são territoriais e altamente protectoras, o seu apetite torna-se mais voraz e exigente, não hesitando em entrar na nossa casa e a roubar tudo o que encontrarem, o que para além do incómodo e da intromissão, resultará numa tremenda falta de higiene, já que defecam do ar e quando pousadas.
Apesar de ainda pouco frequentes entre nós mas com tendência para aumentarem, sendo mais incidentes durante o dia e no Inverno, os ataques das gaivotas sobre pessoas e animais não deverão ser encarados de ânimo leve, porque geralmente resultam em cabeças cortadas, abundante sangramento e quedas, podendo delas sobrar alguns ossos partidos e esporadicamente um acidente cardiovascular, porque atacam preferencialmente idosos e crianças (algumas delas já viram os seus lábios rasgados e abertos). Os cães mais pequenos raramente sobrevivem a um ataque de gaivota, porque entram rapidamente em choque hipovolémico, se não forem imediatamente socorridos. As gaivotas acostumadas a pedinchar comida, acabam por roubá-la das mãos das pessoas e a perseguir sacos de plástico e malas, não poupando também os carteiros. E tudo isto porquê? Porque a sua envergadura e peso permitem-lhes, quando ávidas ou raivosas, atingir-nos a uma velocidade de 65km/h, o seu dedo traseiro é uma verdadeira lanceta e o seu bico de 5cm funciona como uma navalha afiada.
Os ataques das gaivotas costumam acontecer em duas fases: uma primeira em que soltam um pio de alerta a dois metros de nós, seguida de um bombardeio de vómito e fezes que nos atingirá, e uma segunda iniciada por um pio de baixa frequência, a do ataque propriamente dito, em que acabam por nos atingir pela parte de trás da cabeça. Como prevenção, aconselham-se os canicultores a cobrirem os seus canis de rede, se tiverem cachorros ou forem criadores de cães miniatura, o que impedirá a entrada das gaivotas, garantirá a protecção dos cães e impedirá o roubo da ração. E como estamos no Verão, aconselhamos especial atenção para os proprietários caninos que diariamente circulam com os seus cães junto à orla marítima. Caso os seus companheiros de quatro patas sejam pequenos ou cachorros, melhor será optarem por outros percursos. Não havendo essa possibilidade, devem mantê-los a seu lado, em movimento ou ao colo e evitar que permaneçam parados para além de 3 minutos. Em simultâneo e a título de prevenção, porque as gaivotas há muito que perderam o respeito pelos humanos, os seus donos deverão sair ataviados com um panamá ou com outro tipo de chapéu.
 Obedecendo ao mesmo cuidado, os Restaurantes, Cafés, Esplanadas e Snack-Bares onde as gaivotas gozem de livre circulação e se encontrem a seu bel-prazer deverão ser evitados. Estamos hoje a pagar e mais pagaremos amanhã, por havermos destruído os habitats das espécies selvagens, que sem outras opções, disputam agora connosco o nosso espaço, família, animais e demais pertences, movidas pela sobrevivência que as induz à procura de abrigo e comida. Resta dizer que a vida das gaivotas na cidade permite-lhes uma taxa de sobrevivência de 95%, que poderão viver 40 anos e que a sua população poderá aumentar 20% anualmente.

WOLFDOG KUNMING (昆明狼狗):A HIBRIDAÇÃO LUPINO/SPITZ PARA FINS MILITARES

Quem julgar que a hibridação canina é algo que pertence às últimas três décadas do Século passado engana-se redondamente, porque a cinotecnia militar, um pouco antes do final ou logo após a II Guerra Mundial, adoptou essa prática para a obtenção de melhores cães de guerra em vários continentes. As novas fronteiras político-geográficas estabelecidas a partir do término daquele conflito, baseadas em diferenças ideológicas profundas, bipolarizaram o mundo e votaram alguns países ao isolamento, que impossibilitados de importar cães por razões várias, viram-se obrigados ao aproveitamento da “prata da casa”, estratégia que também serviu para a sua exaltação patriótica, ainda que um pouco esfarrapada por provir de uma necessidade (debaixo das mesmas contingências nasceu o Lobo Checo). Dito isto, facilmente se compreende da existência do Wolfdog Kunming made in China, um lupino/spitz resultante do cruzamento de pastores alemães, lobos e cães locais, cuja criação remonta a 1950 para resposta às necessidades de cães militares na Província de Yunnan (sudoeste da China). Estes híbridos viriam mais tarde a ser melhorados pela contribuição de 10 Pastores Alemães oriundos da extinta República Democrática Alemã (RDA, DDR, Alemanha de Leste, etc.).
Esta raça de cães, reconhecida no seu país de origem em 1988, é muito idêntica na sua aparência ao Cão de Pastor Alemão, apesar de mecânica e cognitivamente poder apresentar algumas diferenças, justificadas pela degenerescência do cão alemão, uso doutros cães na sua formação e pela infusão de sangue lobo, na diferença que sobressai entre um lupino e um spitz, muito embora a raça seja hoje mais próxima do CPA do que dos cães primitivos e lobos daquelas paragens. Hoje a China possui excelentes Pastores Alemães, melhores até que os produzidos na Europa e na América, mas conhecendo o extraordinário pragmatismo chinês, quem nos garantirá que por detrás de algum deles não haverá um Wolfdog Kunming? Mas se porventura tal contribuição acabar por melhorar o CPA, quem se oporá? Não precisará a raça de ser melhorada e liberta dos flagelos que a condenam?
Comparando objectivamente o Wolfdog Kunming com o Pastor Alemão, o cão chinês é ligeiramente maior em altura, peso e envergadura (64-68 cm e 30-38kg), lembrando neste e noutros aspectos os antigos e afamados Pastores Alemães de linha laboral. O seu manto é mais curto, não é rampeado de garupa e esta pode ser igual ou um pouco mais alta que a cernelha. A sua cauda tende em encaracolar quando excitado e é naturalmente mais rústico. Normalmente bicolor,  conserva a máscara e o manto pretos, pouco diferindo à vista do CPA. Se na morfologia pouco difere, psicológica e socialmente observam-se algumas diferenças. Apesar da sua alta capacidade de aprendizagem, é mais instintivo e tende a liderar, requer  um dono experiente e decidido, reclama por actividade e exige uma longa caminhada diária, porque doutro modo tende a ser destrutivo.
Este cão, que para todos os efeitos é uma variante do Pastor Alemão, tal como é o Pastor de Shiloh, tem vindo a ser usado como cão de guerra e de polícia na China, proliferando agora na sociedade civil como cão guarda e companhia.

OS DE ALBERTA TÊM OS OLHOS ABERTOS E OS PORTUGUESES JÁ NÃO AGUENTAM COMER MAIS!

Num lugar designado por Jumpingpound, na auto-estrada que liga o Estado norte-americano de Montana com a província canadiana de Alberta, entre Banff e Calgary, todas as viaturas que transportem qualquer tipo de barco são obrigadas a parar e sujeitas a inspecção, a qualquer hora do dia ou da noite, fiscalização agora reforçada por três binómios cinotécnicos, para se evitar a entrada naquele território dos mexilhões zebra e quagga, espécies invasoras de rápida propagação, sem inimigos naturais, capazes de comprometer a biodiversidade, de provocar desastres ambientais e avultados prejuízos (existem 13 Postos de Inspecção só na Província de Alberta). Estima-se, caso os ditos mexilhões ali se instalassem, que os prejuízos por eles causados poderiam chegar aos 75 000 000 Dólares, considerando o entupimento dos 8.000km de canais subterrâneos de irrigação e a destruição dos lagos e cursos de água presentes naquela província canadiana. O combate preventivo contra estas espécies invasoras, que absorvem os bons nutrientes presentes nas águas e que só lá deixam porcaria, é também subsidiado por outras províncias canadianas e estados norte-americanos (Alberta, British Columbia, Saskatchewan, Idaho, Montana, Oregon e Washington), investindo em conjunto 6400 mil dólares anuais. Os cães farejadores têm dado conta do recado e as inspecções têm sido mais breves.
Ao tomarmos conhecimento desta notícia e das medidas tomadas por canadianos e americanos para combaterem estas espécies invasoras, lembrámo-nos logo duma que aqui não sofreu qualquer tipo de combate preventivo e que igualmente causa avultados prejuízos, condena a biodiversidade, induz à desertificação, danifica arrozais e outras culturas, destrói represas e vulnerabiliza barragens: o lagostim de rio, uma praga que assolou os nossos cursos de água e que tem levado à extinção de muitas espécies aquáticas nativas, graças ao seu um apetite voraz, rápida propagação e à inexistência de predadores naturais. Sempre fomos mais dados a correr atrás do prejuízo do que a trabalhar pela prevenção, talvez por isso sejamos mais conformados que outros e façamos da desgraça uma festança, debaixo da velha máxima: “ainda podia ser pior” ou “amanhã logo se verá”. Esta sabedoria pacóvia, que vive do desenrasque e não acautela o futuro, tem vindo historicamente a endividar as gerações futuras, enraizando tradições que apenas perpetuam a miséria. Uma destas tradições mais recentes é o “ Festival Gastronómico do Lagostim do Rio”, que se realiza anualmente em Ferreira do Zêzere, cujo rio já não apresenta os apreciados e afamados peixes de outrora. E como em tudo somos originais, alguém adiantou uma solução na internet para o problema dos lagostins: “ se não podemos vencê-los, vamos comê-los”. Será que a fartura não vai dar em miséria?
 Não sabemos se o “pessoal” tem menos apetite ou já se fartou dos lagostins do rio, que nada têm para comer, porque o número destes crustáceos da subordem “Astacidea Latreille” não cessa de aumentar no Rio que agora dá água a Lisboa.  Pondo de parte as nossas pequenas misérias, importa referir que as mais-valias caninas também se estendem à detecção de espécies animais e vegetais invasoras, responsáveis por desastres ambientais que ao alterarem os ecossistemas, comprometem ou eliminam a biodiversidade. Os cães de serviço em Alberta foram treinados por métodos em tudo iguais aos usados nos cães de resgate e salvamento, especializando-se depois na detecção de mexilhões. Cada vez mais se estreitam os laços entre a antrozoologia, a zoologia, a biologia, a ecologia, a etologia, a cinologia e a cinotecnia, o que exalta a nossa preocupação com o mundo em que vivemos e a contribuição dos cães para o seu equilíbrio, companheiros sempre presentes ao longo de milénios.  

DOENTES CARDÍACOS: A MORTE PODE ESPERAR!

Comecemos pela história, que apesar de tantas vezes repetida, vale a pena relembrar:
No passado mês de Fevereiro, em Germantown, Wisconsin/USA, com a temperatura local a marcar os 0 graus celsius, por razões desconhecidas, a Sr.ª Krystal, em pijama e roupão, decidiu abrir a porta da frente da sua casa, quando se encontrava sozinha com o seu Labrador, a quem carinhosamente apelidou de “John Boy”. Num ápice caiu desmaiada sobre uma cadeira ao redor da porta, quiçá por ser uma doente cardíaca e se ter sujeitado ao rigor daquela invernia. O cão, estranhando a paralisação da dona, saiu de imediato à procura de socorro, percorrendo as ruas mais próximas daquela casa, acabando por encontrar o Chefe de Patrulha Jeff Gonzalez, que se encontrava estacionado dentro da sua viatura policial. O facto do cão ter coleira e haver ladrado para o carro-patrulha, despertou a atenção daquele polícia, que optou por abrir a janela da viatura e chamar aquele Labrador para si. Depois de sair do carro, dispôs-se a seguir o animal, que acabou por guiá-lo até à presença da sua dona inanimada, senhora que o polícia julgou já cadáver, ao vê-la caída sobre a cadeira, com o corpo muito frio e com os lábios azuis.
Afortunadamente a Sr.ª Krystal ainda mantinha activos os seus ritmos respiratório e cardíaco. Depois de ligar para a Central a pedir auxílio, Jeff Gonzalez foi auxiliado pelo seu parceiro que se encontrava por perto, carregando ambos a dita senhora para dentro de casa, saindo dali às pressas rumo ao hospital, enquanto aquela trágica notícia era comunicada aos familiares mais próximos da sinistrada. Sem o auxílio do “John Boy”, a sua dona, ao invés de apanhar um valente susto, teria perecido. O mais curioso desta história é que este heróico Labrador, antes de ser propriedade da Sr.ª Krystal, foi três vezes adoptado e as mesmas vezes devolvido ao canil de acolhimento! Perante o sucedido, Tianne Wendt, a filha de Krystal, soltou algo idêntico a:  “o que tem que ser tem muita força”. Apesar de não ser esse o caso de “John Boy”, cresce o número de cães capazes de preverem ataques nos seus donos fragilizados, havendo-os peritos no aviso de acidentes cardiovasculares e episódios de epilepsia, sendo todos condicionados a procurar socorro em caso de emergência. Ter um cão-enfermeiro pode salvar-lhe a vida!  E se a sua saúde insiste em pregar-lhe partidas, do que está à espera para adquirir um cão? A vida é o melhor dos bens, a morte pode esperar!

ELA NÃO QUER CÁ DEIXÁ-LOS QUANDO MORRER

Como sucede com muitas famílias plebeias, as mulheres da Casa de Saxe Coburgo Gota têm-se mostrado mais razoáveis que os homens, menos dadas a paixões e com maior sentido de Estado. Assim tem sido a Rainha Isabel II de Inglaterra, hoje com 89 anos de idade e quase 64 de reinado (fá-los-á no próximo dia 9 de Setembro), de quem os britânicos apenas se podem queixar de lhes ter servido de inspiração e garantido a sua própria identidade. É possível que ninguém lhe cante uma canção do tipo “Goodbye England's Rose” na hora da sua partida, apesar de o merecer mais do que ninguém. Mais uma vez o seu bom senso prevaleceu, porque ao aperceber-se da brevidade dos seus dias entre nós, decidiu interromper a reprodução dos seus cães, para não deixar por cá animais jovens longe dos seus cuidados, decisão que foi anunciada recentemente pelo assessor real Monty Roberts. Se mais gente seguisse o seu exemplo, fosse igualmente responsável e precavida, certamente haveria menos cães vendidos ao desbarato, descuidados, abandonados e até abatidos.

FRASE DA SEMANA

Para o País e para o universo da política europeia, a frase da semana é sem dúvida a de Passos Coelho : “ Por acaso até foi uma ideia minha…”, referindo-se à sua contribuição para o recente acordo alcançado entre a Comunidade Europeia e a Grécia, mérito agora posto em causa e que tem sido motivo de alguma chacota, porque a dita ideia parece afinal ter sido da autoria do 1º Ministro Holandês. No que à canicultura e à cinotécnica diz respeito, a melhor que ouvimos e que considerámos a frase da semana foi: “ Estou tão acostumado a ouvir disparates sobre cães que até lhes acho graça ! ”, da autoria de um experimentado adestrador sexagenário, por ocasião de um debate ocorrido na esplanada de um Café. 

QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXVI)?

O “Vassili” é um galgo russo Borzoi com 6 anos de idade, muito calmo, ajuizado e concentrado, que apesar de veloz, nunca participou em nenhuma corrida de galgos ou numa prova de agility. Cão extremamente dedicado à família (constituída por um casal e três filhos menores), cujas rotinas sempre assumiu como suas, comporta-se exemplarmente em casa e na rua, dispensando o uso da trela nos seus passeios ao exterior. Quando vê um carrinho de bebé, desinteressa-se de tudo ao seu redor e corre para acompanhá-lo, o que por vezes assusta os pais das crianças e deixa intrigado quem assiste à cena. Os seus donos sorriem quando ele procede assim e logo serenam as pessoas, dizendo-lhes que ele é manso, confiável e muito afável. Porque procederá o Vassili assim? Hipótese “A”: Fica excitado com o movimento dos carrinhos de bebé. Hipótese “B”: Quer proteger os bebés durante a sua deslocação. Hipótese “C”: Vai atrás do odor dos biberões. Hipótese “D”: É seduzido pela meiguice dos pais quando falam com os bebés. Hipótese “E”: Está condicionado a andar junto dos carrinhos de bebé da família e confunde-os com os alheios. Para a semana cá estaremos com um novo caso e indicaremos qual a hipótese certa.