A solução
certa para esta rubrica da semana passada é a Hipótese “D”: O seu condutor introduziu-o ao obstáculo por meios
violentos, a despeito da técnica necessária. A Hipótese “A” é falsa porque
caso o cão tivesse medo das alturas, demonstrá-lo-ia também na Paliçada e na
Passerelle. A Hipótese “B” é também falsa e denunciada pela foto da rubrica,
pois se o cão entra bem ao obstáculo, este jamais poderia ter-lhe sido mal
indicado. Também a hipótese “C” não deverá ser considerada, porque o cão evolui
a medo para além das zonas de contacto. A proximidade do dono tende a encorajar
os cães e não o contrário, pelo que a Hipótese “E” deverá ser descartada.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS
O Ranking semanal dos
textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ A CURVA DE
CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
2º _ OS CÃES SUICIDAM-SE?,
editado em 11/07/2015
3º _ ESCLARECIMENTO,
editado em 11/07/2015
4º _ PASTOR ALEMÃO X
MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
5º _ ONDE ADESTRAR PARA
TER MAIS SUCESSO?, editado em 11/07/2015
6º _ O MELHOR E O PIOR DO
PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
7º _ QUAL SERÁ O MOTIVO
(XXXV)?, editado em 10/07/2015
8º _ O CÃO JOVEM (DOS 7
AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
9º _ A ADOPÇÃO DE UM CÃO
PAREDES MEIAS COM A GRATIDÃO, editado em 26/10/2009
10º _ NÃO COMO BURROS A
TIRAR ÁGUA À NORA, editado em 29/08/2013
TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS
O TOP 10 semanal de
leitores por país ficou assim distribuído:
1º Portugal, 2ºBrasil, 3º
Alemanha, 4º Estados Unidos, 5º Reino Unido, 6º Rússia, 7º Moçambique, 8º Suíça,
9º Índia e 10º México.
sábado, 11 de julho de 2015
ESCLARECIMENTO
Temos recebido vários
emails acerca de escolas caninas que se têm aproveitado do nosso nome para
aumentar a sua carteira de clientes, valendo-se para isso da sua situação
geográfica, plágio dos nossos princípios pedagógicos e usurpação dos nossos
méritos. Diante desta situação, lamentamos o logro e informamos os nossos
leitores que não nos escusamos a indicar as escolas cujos directores formámos
ou outras que entendemos dignas do seu ofício, bastando para tal inquiri-lo
através do email deste blog. Assim sendo, só podemos responder por aqueles que
indicamos e não por outros que nos são alheios. Há que combater os
oportunistas, aqueles que tendo um só olho julgam os outros cegos.
OS CÃES SUICIDAM-SE?
Criei, treinei e convivi com dezenas de milhares de cães, de todas as
idades, de ambos os sexos, de todos os tamanhos e das raças mais variadas, mas
nunca conheci nenhum que cometesse suicídio e não creio que o venha a ver. Ao invés,
vi alguns a lutarem desesperadamente pela vida e em todos um forte instinto de
sobrevivência, mesmo quando doentes, lesionados, feridos, incapacitados,
convalescentes ou agastados pelos anos – os cães não desistem, morrem a lutar
pela vida! Por isso não creio que o suicídio seja uma prerrogativa canina,
apesar de ter presenciado a letargia duns poucos que os levou à morte, por se
isolarem e deixarem de comer.
Mesmo que o stress induza
à ansiedade e esta gere a depressão capaz de promover o suicídio, este será
sempre um acto reflexo e não um acto deliberado dos cães, surgindo como efeito
do stress, tanto daquele que geneticamente não suportam como doutro de que
eventualmente venham a ser alvo. Em ambos os casos deve-se ao homem este tipo
de comportamento, quer pela manipulação das raças quer pela alteração das
rotinas dos animais (mudanças de hábitos capazes de causar-lhes transtornos
traumático-sociais). A depressão canina é uma das áreas mais complexas da
medicina comportamental e abrange fenómenos relacionados com medos e fobias,
ansiedade e desordens obsessivo-compulsivas que normalmente afectam os cães.
Ainda que estes distúrbios possam estar associados entre si, diferem em termos
neuro-fisiológicos, o que não raramente dificulta o seu diagnóstico clínico. A
depressão ou estado depressivo canino poderá estar relacionada com a ansiedade
e por norma acontece quando os cães se encontram expostos a situações de
stress, quer ele seja crónico, sistemático ou traumático, levando-os à alteração
ou desuso das suas funções biológicas, assim como à apatia, inapetência,
tristeza, menor interacção, indiferença aos estímulos e isolamento social (há
cães que debaixo de stress e ansiedade comem desalmadamente).
A causa maior do suicídio induzido aos cães, a que constatámos e temos
notícia, reporta-se à morte dos seus donos, particularmente daqueles com quem
mantinham um relacionamento social quase exclusivo, deveras próximo e
extraordinariamente cúmplice, ao ponto de não superarem a sua ausência e de não
aceitarem a sua substituição, felizmente casos raríssimos e merecedores da
nossa atenção para que não se repitam, mais comuns entre os cães dos idosos
ostracizados e aqueles que vivem a totalidade dos seus dias ao lado dos seus
proprietários e treinadores, dividindo com eles todos os momentos e sendo a sua
sombra. Para que isto não suceda, torna-se imperativo que o grupo social dum
cão não se restrinja a uma só pessoa mas a várias, porque todos somos
perecíveis e não partiremos melhor se os cães forem para a cova connosco, o que
a ser verdade, seria a pior das recompensas para quem tanto nos ajudou.
Pelo que se depreende,
considerando o bem-estar canino e a relação ansiedade-depressão, há que
combater todos os tipos de ansiedade que afectam os cães. Ainda que nem todas
as depressões induzam automaticamente à sua morte, todas elas contribuem para a
sua menor qualidade de vida e para o encurtamento dos seus dias (matam aos
poucos, lentamente). A ansiedade mais visível nos cães é aquela que catalogamos
como “ansiedade da separação”, causada pela ausência dos donos e visível quando
os cães aumentam a sua actividade perante a saída dos seus proprietários,
podendo gemer, ganir, exigir atenção, pular e segui-los para onde quer que vão,
tremendo ou demonstrando alguma agressividade perante a sua partida,
manifestações intimamente ligadas aos diferentes perfis psicológicos
encontrados nos cães (se inibidos, submissos ou dominantes). Depois dos donos
virarem as costas, esta ansiedade resultante da insatisfação levará alguns cães
a arranharem as portas, a mordê-las e a esburacá-las, podendo proceder do mesmo
modo sobre utensílios domésticos e pertences dos seus donos (armários, fios
eléctricos, livros, móveis, plantas, paredes, roupas, rodapés e vassouras).
Outros, dominados pela mesma ansiedade, irão urinar e defecar em locais
inaceitáveis (atrás da porta de casa, no sofá da sala ou até mesmo na cama dos
donos), desencanto que poderá ser acompanhado e não raramente é por uivos,
latidos e/ou gemidos, vocalizações geralmente comprovadas pelas queixas dos
vizinhos. Diante deste cenário, alguns ficarão deprimidos e não comerão nem
beberão na ausência dos donos, podendo ainda evidenciar sialorreia (babar-se),
tremores, dispneia, taquicardia, diarreias, vómitos, lamber afincadamente o seu
corpo ou automutilar-se, como é o caso dos cães que mordem a cauda.
Vá-se lá saber porquê,
nesta República de coca-bichinhos, talvez por andarmos todos ao mesmo, o
diálogo entre veterinários e etólogos tem-se revelado pouco frutuoso, o que tem
sido fatal para os últimos, porque chegaram depois e, obrigados à
sobrevivência, sujeitam-se a aceitar qual tipo de trabalho, mesmo o distante
das suas competências e abaixo das habilitações, ainda que formados pelas mais
reputadas universidades estrangeiras (conhecemos um certificado por Cambridge a
aviar sacos de compras no AKI). Raros são os veterinários que fazem uma pós
graduação em Etologia e alguns etólogos obrigam-se a tirar veterinária para
poderem ser melhor aceites e continuar os seus trabalhos. Não obstante e apesar
do seu paupérrimo currículo em comportamento animal, raros são os veterinários
que não receitam ansiolíticos aos cães, como não é de estranhar diante de donos
ingénuos ou ignorantes, historicamente acostumados a desculpabilizar-se e a
atribuir aos cães a culpa dos desaires que os vitimam (certa vez tive um aluno
médico cuja máxima guardei: “um tipo para ir ao médico, tem que ter uma saúde
ferro”). Enquanto os etólogos estiverem na prateleira (nos call centers e nas
caixas dos supermercados), a castração e os ansiolíticos continuarão a
“resolver” todos os problemas comportamentais caninos.
Os cães são animais
sociais e não nasceram para estar sós, vêm a este mundo na crença de que
permanecer em grupo aumenta-lhes as chances de sobrevivência, já que os seus
antepassados quando agiam assim tinham melhores hipóteses de se alimentarem e
defenderem. Esta herança permanece ainda hoje nos cães domésticos, que entendem
os seus donos como líderes de matilha e por causa disso sofrem com a sua
ausência, por se sentirem mais vulneráveis, desprezados ou abandonados. Antes
de encharcar o seu cão em ansiolíticos de difícil desmame e de possível acção
contrária, vamos indicar-lhe algumas medidas que combatem eficazmente a
“ansiedade da separação”, normalmente responsável por um sem número de
problemas físicos e psicológicos como já o dissemos atrás.
Em primeiro lugar importa
dizer que, sempre que possível, deverá ser o cachorro a escolher o lugar em que
se encontra mais cómodo e seguro dentro da nossa habitação, escolha que
obedecerá ao seu grau de desenvolvimento e perfil psicológico. Nessa
impossibilidade, o melhor que há a fazer, logo após o adquirir, é colocar no
sítio que mais lhe convém o bebedouro, o comedouro e outros objectos do agrado
do animal, com o odor donde veio e com o seu, para que não estranhe e mais
depressa aceite aquele lugar. Caso o animal tenha vindo numa caixa
transportadora, também ela deverá ir para aquele local, porque à falta de
melhor se abrigará e escudará dentro dela. A separação do animal deverá ser
gradual e associada ao comando de “fica” (gente experimentada nestas andanças
espera pelas férias para poder estar mais tempo em casa e adaptar o animal ao
seu novo território sem atropelos). Antes de sair entregue ao animal um
brinquedo da sua preferência ou um petisco do seu agrado, para que a sua saída
se transforme numa experiência feliz e o cão a associe ao prazer ou á diversão.
Quando sair, faça-o sem cerimónias, porque a demora nas despedidas tornará o
animal mais ansioso e propenso ao sofrimento. Dê liberdade de circulação ao cão
dentro de casa para que mais depressa a considere sua, ganhe autonomia e mais
tarde venha a defendê-la (convém não esquecer que o cão é um animal
excursionista e detesta o enclausuramento forçado). Escusado será dizer que
deverá deixar junto dele objectos com o seu odor (geralmente aqueles que ele
rouba), para garantir de alguma forma a sua ausência, minimizar a separação e
transmitir-lhe a calma necessária (se usar o brinquedo, retire-o na hora de
retornar a casa).
Uma vez terminado o calendário
de vacinação do seu cachorro leve-o diariamente a passear num período mínimo de
uma hora, o que satisfará as suas necessidades excursionistas e sociais,
melhorará a sua sociabilização, robustecerá o seu carácter, ajudá-lo-á a
crescer, a satisfazer as suas necessidades fisiológicas fora de casa, a familiarizar-lhe
com diferentes ecossistemas e diversos fenómenos naturais, pondo-o em sintonia
com o relógio biológico. Para além de tudo isto, as saídas ao exterior
facilitarão o seu bem-estar em casa, uma vez que parte do conhecido para o
desconhecido e ali retemperará as forças. Quando se ausentar de casa evite
sujeitar o animal a sons ou roídos a que não está acostumado e que poderão
constituir-se para ele em traumas pela novidade ou surpresa. Como importa
aproveitar e potenciar a máquina sensorial do animal, antes de sair de casa
esconda pequenos petiscos do agrado do cão, mantendo-o assim ocupado e
satisfeito nesses afazeres, estratégia que o libertará da ansiedade e que o
fará suportar a separação. Quando voltar para casa não vá de imediato fazer-lhe
festas, trate primeiro das suas prioridades, para que ele não faça da sua saída
um drama e aprenda a respeitar e a assimilar as suas rotinas. Não sobrando
outra hipótese, há quem alvitre como solução a aquisição de um novo cão para o
acompanhar, opção nem sempre válida quando o perfil psicológico do
recém-chegado é idêntico ao do residente.
ONDE ADESTRAR PARA TER MAIS SUCESSO?
Com a falência das
associações recreativas e culturais da maioria das terriolas, realidade que não
é de hoje, os seus campos de futebol e respectivos balneários acabaram
abandonados e vandalizados, servindo agora alguns de prados e currais para
carneiros, como albergues para flirts, meia dúzia deles como base para os
helicópteros de combate aos incêndios e outros acabaram transformados em centros
de treino caninos, locais preferenciais para quem pretende montar uma escola e
que pouco ou nada tem para investir, aproveitando-se do piso duro e regular
daqueles amplos espaços, que apenas exigem como manutenção o corte cíclico das
ervas. E na inexistência dum campo de futebol desprezado, há quem alugue um
local ermo ou outro à beira de uma estrada por uns míseros patacos, geralmente
à torreira do sol e circundados por rede ovelheira com 1m de altura, vindo
depois a rotulá-los de nomes pomposos em voga. Serão eles os indicados para o
ensino canino?
É evidente que não! Eles
apenas espelham a nossa realidade socioeconómica, a qualidade, disponibilidade
e conhecimento das pessoas adjacentes ao mundo da nossa cinotecnia. Pardieiros
como estes tendem a saturar os cães e a remetê-los para o stress, porque são locais
que jamais escolheriam e que irão comprometer o seu desenvolvimento e sucesso pedagógico,
uma violência diante do fim em vista. Uma escola canina digna desse nome deverá
recriar ou tirar partido de ecossistemas do agrado dos cães, onde constem
árvores, arbustos, lagoas, diferentes pisos e cotas diversas, transformar-se
num paraíso que os liberte da ansiedade, para que ali se sintam bem e os donos
também.
Quando se recria um ambiente destes, estamos a
“apanhar o fio à meada”, a ligar o passado ao presente, a devolver aos cães o
seu habitat ancestral e natural, a ensiná-los em terrenos onde se sentem à
vontade para aprender, surgindo o ecossistema como um importante subsídio de
ensino, já que alegria que demonstram ali irá aumentares-lhes a curiosidade e o
gosto pela descoberta, condições que promoverão o desenvolvimento do seu
impulso ao conhecimento pela experiência feliz. O contacto com a água é uma das
predilecções caninas, o caminhar pelos bosques e florestas é algo que não dispensam
e que avidamente procuram. Os cães não estarão já fartos de confinamento, muros
e cercas de arame? Não terão nascido para a excursão? Paupérrima é a escola que
não tem um pedaço de floresta e uma lagoa ou piscina ao dispor dos seus
instruendos. E porque importa que os cães
gostem de vir para a escola e esta deve apostar no seu bem-estar, onde se
sentirão melhor: num pedaço de terra estéril ou num ecossistema onde a vida
fervilha?
Virá o tempo em que adestradores e arquitectos
paisagistas trabalharão juntos para a edificação de centros de treinos caninos
capazes de melhor responderem às necessidades dos animais, uma vez sanada a
presente crise e retomada a senda do progresso. Entretanto, há que dar os
parabéns à Câmara de Lisboa pela inserção no Jardim Romântico do Campo Grande
duma pista de obstáculos canina, projecto pioneiro que gostaríamos de ver
repetido e melhorado por outras autarquias do País (quando tiverem verba para
isso). Depois do que dissemos e explicámos, o sucesso no adestramento
acontecerá mais facilmente nos ecossistemas do agrado dos cães, naqueles que
lhes devolvem a tranquilidade e o bem-estar. E como morrer por morrer, é
melhor fazê-lo a rir, o que dizer duma escola cercada de rede ovelheira, vazia
de vegetação, fustigada pelo sol e sem sombras, que se alvitra ser anti-stress?
Do que diferirá duma colónia de detenção? Só lhe faltam as marretas para partir
pedra, porque os condenados já lá estão!
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O MAU HÁBITO DE VIR DUMA ESCOLA DE PASTORES ALEMÃES
Um adestrador que se forme
numa Escola de Pastores Alemães não pode e não deve ensinar as demais raças
caninas na perspectiva do Cão de Stephanitz, porque se o fizer não obterá os
mesmos resultados e subaproveitará os cães ao seu encargo, o mesmo é válido
para os oriundos de um grupo de Border Collies que desejem ensinar cães com
outras características de igual modo. O Pastor Alemão exige muito pouco dos
seus condutores em matéria de entrega emocional, porque mais depende da memória
mecânica do que da afectiva para chegar à associativa, é naturalmente
concentrado e disciplinado, o que lhe facilita a aquisição das posturas e das
manobras requeridas sem grandes repetições. Como é muito disponível, a menos
que seja por demais submisso, o grosso dos seus machos necessitará mais de
travamento do que de estímulo, porque é naturalmente competitivo, audaz,
protector e reage prontamente às provocações, o que não implica que dispense
uma profunda relação de cumplicidade com o seu dono ou condutor, cuja
existência garantirá novas e menos visíveis formas de entendimento binomial.
Sendo precoce, dinâmico e de alguma forma persistente, busca o progresso e não dispensa
a novidade de desafios, o que a ninguém espanta porque foi criado para o trabalho,
dispensando a excessiva recompensa por viver em função do serviço, ser
naturalmente sério e pouco propenso a subornos. E se o pudermos acusar de algo,
certamente será de excesso de zelo, porque não lhe sendo distribuído trabalho,
não hesitará em inventá-lo.
Como a maior parte dos
cães não é assim, quer pecando por menor disponibilidade quer exigindo maior
estímulo, factores ligados ao pormenor da sua carga instintiva, biomecânica e
morfologia, ao particular da sua envergadura e à procura doutros serviços por
diverso equilíbrio dos principais impulsos herdados, ver-nos-emos obrigados a
trabalhá-los doutro modo, pacientemente e com maior tolerância, a felicitá-los
amiúde e efusivamente para que a experiência feliz, que não dispensa a
recompensa, accione a memória afectiva que os induzirá ao cumprimento das
tarefas. Neles a ênfase recairá sobre a acção e o travamento deverá acontecer
gradual e suavemente para que não percam o gosto por aprender, ao temerem a liderança.
Como se depreende, o rigor que caracteriza o treino dos pastores alemães só os
afogaria e os pastores alemães treinados deste modo tendem à desobediência e
nalguns casos a perverterem a liderança, podendo os machos menos dominantes e
as fêmeas tornar-se quezilentos ou piegas. Um grande número de molossos,
debaixo de pressão, tende à imobilidade ou à revolta, muitos bracóides (se não
todos) irão exigir estratégias lúdicas para o alcance das metas propostas, os
vulpinos acusam em demasia as correcções e os toys carecem de muito agrado e
protecção. A somar a isto, em todas as raças subsistem indivíduos diferentes
que irão exigir abordagens e acompanhamentos díspares.
Cada cão deverá ser
tratado e ensinado de acordo com a sua sensibilidade e vocação, entendido tal
qual é para que a liderança não atrapalhe o seu desenvolvimento cognitivo, que
poderá exigir mais disciplina ou afecto de acordo com o seu perfil psicológico.
Será este discernimento que tornará maior e mais adequado qualquer adestrador,
que para todos os efeitos é como um actor, desdobrando-se em múltiplas
personagens para poder valer a todos os cães. Jamais alcançaremos o cão ideal
mas podemos abstrair de todos o melhor que têm para dar. Para isso cá estamos e
nisto se baseiam ou deveriam basear as nossas credenciais.
O QUE FAZER COM OS CÃES INIBIDOS
O que fazer com os cães
inibidos? Investi-los com uma pele que não a sua, até que acreditem que lhes
pertence! Um dos maiores desafios para os adestradores é a recuperação de cães
inibidos, tarefa que irá exigir-lhes observação, estudo, engenho, tempo,
perseverança, empatia e muita paciência, porque o progresso destes animais é
lento e sujeito a revezes, capacitação que automaticamente dispensa os mais
coléricos, os menos flexíveis e os que carecem de resultados imediatos como
estímulo para o trabalho.
Contrariamente ao que se
pensa, a inibição de origem genética é mais comum entre os cães padronizados do
que entre os provenientes da selecção natural, quer eles sejam silvestres ou
párias, fenómeno associado a beneficiamentos que alteraram, ainda que
involuntariamente, tanto pela endogamia quanto pela consanguinidade, o são
equilíbrio dos principais impulsos herdados na procura de características
morfológicas (estéticas). Um cão pode inibir-se por razões ambientais mas não
totalmente, sendo a sua recuperação mais célere pela alteração do desfecho e
dos efeitos ligados aos traumas. Muito mais difícil será a recuperação de um cão
que nasceu inibido e que treme diante de tudo e todos, mazela geralmente
reforçada por um imprinting descuidado.
Ainda que o extraordinário
temor destes cães seja mais visível ao nível social, ele pode estender-se aos
fenómenos naturais e diante da apresentação de qualquer novidade, o que
obrigará a mil cuidados e ao estabelecimento de etapas, cujo cronograma nos
será indicado pelos animais, mediante a aprovação nos trabalhos antecedentes.
Na fase embrionária o adestrador obriga-se a passar a maior parte do tempo com
o cão - à coabitação, para que ele se sinta protegido e pouco a pouco aceite as
rotinas diárias de quem o acompanha.
A seu tempo, evoluir-se-á
do interior para o exterior, do conhecido para o desconhecido e da separação do
binómio para a sua integração no meio de outros, havendo o cuidado de não o
inserir num grupo já hierarquizado ou portador de cães provocadores ou
briguentos. O ideal é apresentá-los primeiro e isoladamente no terreno ou
terrenos do cão medroso, vantagem que facilitará o seu entrosamento, isto se os
cães utilizados estiverem convenientemente sociabilizados e forem de fácil
controlo. Sempre será mais fácil recuperar um cão nestas condições do que uma
cadela, apesar da cópula poder beneficiar de sobremaneira ambos e o exercício
da maternidade vir em auxílio das cadelas. Paralelamente à sociabilização entre
iguais, que deverá acontecer primeiro com o cão atrelado, operar-se-á a
sociabilização e convívio com outras pessoas, optando-se por escolher aquelas
cuja mímica seja de fácil leitura para o animal e não exteriorize instabilidade
ou qualquer tipo de agressividade. Depois de certificada a confiança do animal
no adestrador, este deve sair com ele para ecossistemas calmos e repousantes,
onde o cão se sentirá cómodo e confiante, nem que seja pelo conforto daquele
que o guia pela trela. Daí passar-se-á, para percursos mais concorridos e
movimentados, com gente apressada e máquinas em movimento.
No processo de reabilitação do animal não adianta contrariá-lo, antes
criar-lhe condições para que evolua sem suspeita e sem sobressaltos, caso
contrário aumentará a sua resistência e menos confiará em nós (não podemos
correr este risco). De etapa em etapa, o cão robustecerá gradualmente o seu
carácter e passará a confiar em si próprio pela experiência adquirida, novidade
que jamais alcançaria sem o contributo humano. A recuperação dos cães medrosos
é um trabalho que pertence à reeducação, área do ensino canino que deveria ser
matéria obrigatória para qualquer adestrador, uma vez que ela não se destina
exclusivamente aos cães agressivos. E se ensinar cães é um acto de amor,
recuperá-los é o seu expoente máximo. Os cães medrosos têm solução e ela passa
pela dedicação dos adestradores, que enternecidos pela sua desprotecção, irão
ensiná-los a vencer os seus medos, revestindo-os da confiança que a genética
lhes omitiu, mercê da caminhada conjunta que a ambos fez crescer (o cão ganha
confiança e o adestrador saber)
WILMA MELVILLE: COM OS PÉS PARA A COVA MAS APOSTADA EM DESENTERRAR VIVOS
Ao falarmos da
norte-americana Wilma Melville, presidente e fundadora da National Disaster
Search Dog Foundation/ USA, lembramo-nos imediatamente da finada Dorothy
Harrison Eustis (1886-1946), de quem já tratámos em edições anteriores, principal
impulsionadora dos cães-guia de cegos à escala planetária, porque ambas fizeram
da perseverança mote e colocaram as suas vidas ao serviço dos outros, tirando
partido da sua paixão pelos cães. Mas afinal quem é Wilma Melville? Nada mais
que uma septuagenária norte-americana (78 anos), aposentada e ex-professora de
educação física, que retomou o seu contacto de infância com os cães, depois de
haver criado os filhos, decidindo-se a treinar um cão (Murphy) para busca e
salvamento no território sísmico da Califórnia, vindo em 19 de Abril de 1995 a
participar na procura de sobreviventes no centro de Oklahoma City, quando ali
rebentou uma bomba no Edifício Federal Alfred P. Murrah, atentado terrorista
perpetrado pelo americano Timothy McVeigh e do qual resultaram 168 mortos.
Graças a essa experiência
e ao tomar contacto com os binómios que a acompanharam naquela acção, cujos
cães se preocupavam mais com o sítio onde pôr as patas e menos com os possíveis
sobreviventes, depois de descobrir que nos Estados Unidos apenas haviam 15 cães
de busca e salvamento, número bastante inferior ao verificado na minúscula
Suíça, que ao tempo já tinha 52, decidiu dedicar-se corpo e alma a esta
especialidade canina, ambição e projecto que viu concretizados ao fundar a National
Disaster Search Dog Foundation, fundação de carácter humanitário e sem fins
lucrativos. A 11 de Setembro de 2001, Wilma enviou 13 binómios especializados
para os edifícios desmoronados do World Trade Center e graças ao trabalho de
uma estagiária de jornalismo, a trabalhar ao tempo na cadeia de televisão Fox
News, a quem competia digitar os textos de rodapé daquele canal televisivo, os
americanos chegaram ao conhecimento da Prof.ª Wilma, cujo número de telefone apareceu
no pequeno ecrã por 12 horas.
O telefone não parava de tocar (houve necessidade de instalar mais
telefones) e as doações vindas de toda a América não cessavam. Num ápice, Wilma
Melville tinha um milhão de dólares na mão! Curiosamente a cinotécnica nunca
soube o nome daquela estagiária de jornalismo, que devido à sua irreverência,
acabou por contribuir assim para a formação de uma excelente unidade de resgate
apostada em salvar vidas. Daí até hoje, a National Disaster Search Dog
Foundation tem vindo a enviar binómios para todas as partes do mundo, como o
fez este ano no Nepal, aquando do sismo ocorrido a 25 de Abril, ao mandar para
lá 6 equipas cinotécnicas. Wilma, nesta andanças há 15 anos, que se considera
mediana de inteligência, diz que o segredo do seu sucesso ficou a dever-se à
sua inesgotável perseverança, o que a nosso ver não explica a sua rara
clarividência e espírito prático, já que optou por recrutar cães resgatados,
entregá-los aos bombeiros e treiná-los para catástrofes (isto de ser rafeiro
tem muito que se diga, na América alguns encontram pessoas, em Portugal a
maioria perde os testículos).
O maior sonho desta filantropa é montar um grande centro de formação
nacional, aquele que será o primeiro do género nos Estados Unidos, que terá os
mais diferentes simulacros para atender a equipas de busca nacionais e
internacionais, sonho que está em vias de se concretizar num rancho doado à sua
fundação, situado a norte de Los Angeles, a 90 minutos daquela Cidade e com
aproximadamente 50 hectares (eu gostava de lá ir quando estiver pronto e fazer
lá uma formação). Esta preocupação da Sr.ª Melville espelha o cuidado que
dispensa na preparação destes cães, treinando-os arduamente para as tarefas que
os esperam, o que aqui na Europa pouca gente leva a sério. Na foto seguinte
temos uma passerelle de endurance, em tudo idêntica à usada pelos nossos alunos
até 2009, que lembra também a escada de preparação e a memorável passerelle de
linhas (dá para matar saudades, já naquele tempo estávamos na vanguarda).
Resta-nos dar os parabéns à Sr.ª Wilma Melville e desejar-lhe saúde,
longa vida e novos projectos, que bom seria termos por cá uma! E se já nasceu
ou vier a nascer, oxalá não venha a emigrar.
GLENN & BUZZ: SIDE BY SIDE, ALLWAYS TOGETHER
O Glenn e a Buzz, ele um
Jack Russel e ela uma Staffordshire Bull Terrier, foram encontrados abandonados
num túnel junto ao mar numa localidade inglesa. Depois de recolhidos por uma
instituição, verificou-se que o Jack Russel era cego e que a sua companheira Staffordshire
servia-lhe de guia, possibilitando assim a sua sobrevivência. Esta história
recente, comovente e de partir o coração a qualquer um, correu mundo e de toda
a parte choveram pedidos para a sua adopção (Estados Unidos, Canadá, Europa,
América do Sul e até da Austrália). Depois de um longo processo de triagem
junto das famílias britânicas interessadas, os dois companheiros foram
entregues a uma da qual se agradaram imediatamente, como se de “amor à primeira
vista” se tratasse. Os dois companheiros, que se julga com idades compreendidas
entre os 9 e 10 anos, vão assim continuar juntos e passar o resto das suas
vidas na companhia da nova família adoptiva, que muito se enterneceu pelo seu
exemplo de vida. Chegámos á notícia através do Website do Mirror e não
resistimos em divulgá-la aos nossos leitores. O que dirão acerca disto os já
célebres cientistas japoneses da Universidade de Azabu no Japão, que
conseguiram provar que os cães amam os donos como os bebés amam as suas mães?
Como o tema do amor canino é polémico e sujeito a muitas contradições,
aguardamos novos desenvolvimentos científicos, o que não impede o envio de um
voto de felicidades para o Glenn e para a Buzz, que irão passar a sua 3ª idade
melhor do que até aqui.
QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXV)
O “Poirot” é um Doberman com 2 anos de idade que treina e concorre em
Agility. É muito sensível, submete-se facilmente ao dono e não é nada agressivo.
Executa com alegria e rapidez todos os obstáculos, exceptuando o baloiço, onde
evolui lentamente com as orelhas e cauda abatidas, pormenor que muito espanta o
director da equipa de competição e para o qual não encontra explicação. Porque
agirá assim o Poirot? Hipótese “A”:
Tem medo das alturas. Hipótese “B”: O
seu condutor sempre lhe indicou mal o obstáculo. Hipótese “C”: O cão teme falhar as zonas de contacto. Hipótese “D”: O seu condutor
introduziu-o ao obstáculo por meios violentos e a despeito da técnica
necessária. Hipótese “E”: O cão
sente-se mais vulnerável por se encontrar mais perto do seu condutor. Para a
semana indicaremos qual a hipótese certa e cá estaremos com um novo caso.
SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR
A resposta certa para esta rubrica da
semana anterior é a Hipótese “A”:
Detectou algo perdido. Atendendo ao carácter pachorrento do animal a
Hipótese “B” não faz qualquer sentido. Jamais o cão seria encadeado pelos
chorões, porque eles não reflectem os raios solares, o que torna falsa a
Hipótese “C”. Se o animal estivesse farto do passeio e quisesse voltar para
casa, ao invés de ladrar para a vegetação, ou deitava-se no chão ou puxaria os
seus donos no sentido contrário, pelo que a Hipótese “D” carece de fundamento.
Também a Hipótese “E” é contraditória, já que o texto indica que aquele
Perdigueiro de Burgos tolerava e era indiferente a qualquer tipo de animais.
RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS
O Ranking semanal dos
textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ O CÃO LOBEIRO: UM
SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
2º _ PASTOR ALEMÃO X
MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
3º _ ESCOLHER UM, TENTAR
JUNTÁ-LOS OU REJEITAR OS TRÊS?, editado em 30/06/2015
4º _ A CASOTA DO CÃO,
editado em 29/12/2009
5º _ O CÃO JOVEM (DOS 7
AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
6º _ DIE PORTUGIESISCHE
SCHÄFER MAUS: A GRANDE ESPERANÇA DO CPA EM TERRAS LUSAS, editado em 01/07/2015
7º _ PACHÓN NAVARRO: UNIR
EL PASADO AL PRESENTE, editado em 01/07/2015
8º _ O MELHOR E O PIOR DO
PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
9º _ QUAL
SERÁ O MOTIVO (XXXIV)?, editado em 29/06/2015
10º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO,
editado em 29/08/2013
TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS
O TOP 10 semanal de
leitores por país ficou assim distribuído:
1º Portugal, 2º Reino Unido, 3º Brasil, 4º Alemanha, 5º Irlanda, 6º
Estados Unidos, 7º Canadá, 8º Rússia, 9º Índia e 10º Holanda.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
PACHÓN NAVARRO: UNIR EL PASADO AL PRESENTE
O
Pachón Navarro, também conhecido por Old Spanish Pointer, Perdiguero Navarro,
Navarro Pointer, Pachón de Victoria, Nafarroako eper txakur ou simplesmente por
“ perdigueiro de dois narizes”, depois de quase extinto por ocasião da Guerra
Civil Espanhola (1936-1939), está de volta aos campos de caça onde se
notabilizou como cão de aponte, desde França até aqui, retornando às nossas
charnecas, lezírias e montados, ainda que timidamente, onde foi rei e senhor, privilégio
dos mais poderosos e marca do seu status, um aristocrata canino por detrás da
formação da maioria dos pointers continentais, inclusive do Perdigueiro
Português, com o qual se confundia na 1ª metade do Século XX, mercê da coabitação,
parceria na caça e pela inevitável hibridação que procurava de melhores cães
caçadores, podendo ainda hoje ser um melhorador dos diversos cães de aponte, a
quem por norma faltam valentia, apetrecho e rusticidade diante da
biodiversidade dos ecossistemas cinegéticos, menos valias ligadas a selecções
que elevaram a estética em detrimento do uso (sendo por isso mesmo desastrosas)
e à excessiva endogamia e consanguinidade que resultaram num sem número de
perdigueiros frágeis e medrosos, que evitam alguns terrenos, saem dali
lesionados e que tremem por ocasião dos disparos, como é o caso da maior parte
dos Pointers Ingleses, que se borram debaixo de fogo e que aqui evitam a
vegetação espinhosa. Podemos afirmar sem medo de errar, que a excelência dos
Bracos Húngaros e Germânicos, quando comparados com os restantes, mais se deve
ao desaparecimento e desprezo pelo Pachón Navarro do que aos seus próprios
méritos, apesar dos cães da Europa Central terem respeitado outros critérios de
selecção, por força do pragmatismo sempre evidenciado pelos seus criadores e
que alguns agora desprezam.
O “Dois Narizes” é um caçador anfíbio extraordinariamente resistente,
que suporta sem grande dificuldade as amplitudes térmicas e que leva de vencida
qualquer tipo de terreno, que sinaliza superiormente a presa, que espera
calmamente pela hora de avançar e que nunca dá caça por perdida, tendo maior
autonomia que a esperada nos seus iguais, o que lhe garante trabalhar por mais
tempo e em situações adversas, mais-valias advindas da sua rusticidade, morfologia,
resistência à dor, extraordinária parceria, entrega ao serviço e gosto de
agradar (raros são os exemplares que rasgam ou comem as peças). Tem igual comportamento
em terra firme e nos arroios, associa o disparo à acção e a espingarda à
alegria de caçar. Cão alegre e denominado pelo instinto de caça, sociabiliza-se
facilmente entre iguais ou com outros de raça diferente, constituindo rapidamente
matilha com eles, o que nem sempre acontece com outros pointers, setters e
perdigueiros. Presta-se muito bem como cão familiar, porque é fácil de ensinar,
saudável, participativo, fiel e paciente com as crianças, muito embora exija
exercício diário regular. Tem todas as condições para se tornar num bom cão de rastreio e salvamento, podendo o
seu futuro passar por essas áreas do adestramento.
Os seus detractores acusam-no de ser difícil de
trabalhar e de evoluir a rumo próprio, o que entra em contradição com o seu
comportamento social. Desde muito novo evidencia a sua vocação caçadora e nisso
deve ser aproveitado, para que futuramente renda aquilo que dele se espera e
não venha a ser surpreendido por uma actividade até ali desleixada e que exige
a divisão de tarefas com o dono. Se o cão pastor pastor cresce do bardo, o cão
caçador deverá desde novo exercitar-se no ofício cinegético. E se a caça com
cães é uma actividade dividida, a maior ou menor prestação de um cão resultará
também da qualidade dos seus mestres. A prová-lo está o facto de alguns cães
caçarem muito bem na mão de determinados indivíduos e com outros não. Como é
sabido, a comunicação interespécies não dispensa a observação e o estudo prévio
fornecidos pela coabitação para a mútua compreensão, induzindo a comunhão de
vida naturalmente à divisão das tarefas.
Mais
robusto e ligeiramente maior que o Perdigueiro Português, o Pachón Navarro
apresenta-se unicolor, bicolor e tricolor, numa variedade de cores que vão
desde o branco ao negro, passando pelo laranja, castanho e cobre, com ou sem
manchas, património genético que lhe possibilita a camuflagem nas diferentes policromias
estivais e outonais, apesar de qualquer variedade cromática suportar qualquer
ecossistema sem grandes dificuldades. Este cão, originário de ambos os lados
dos Pirenéus, desde os séculos XII e XIII (aqui as opiniões dividem-se),
aguarda o reconhecimento oficial da FCI, não obstante ser já reconhecido em
Espanha e de ter um estalão pormenorizado. A raça ainda apresenta alguns nado-mortos
nas suas ninhadas e nem todos os Pachón apresentam o nariz rachado.
Considerado como um caçador inveterado e
inteligente, pela riqueza da sua mímica, este perdigueiro único, que também foi
vítima da mixomatose (que quase o extinguiu), traz a Idade Média até aos nossos
dias, unindo o passado ao presente e carregando em si as expectativas e gostos
milenares dos povos peninsulares, enquanto marco vivo da história comum que
queremos perpetuar. Cabe-nos a nós, canicultores espanhóis e portugueses, não o
deixar perecer, usá-lo no muito que tem para dar como companheiro e melhorador
das raças caninas de aponte actuais, notoriamente mais frágeis pelo distanciamento
da qualidade original que o “Dois Narizes” transporta.
Apesar
de exímio trotador em qualquer tipo de terreno, consegue acompanhar, quando
necessário, o galope de outros em passo de andadura, capturando silenciosamente
a presa que sinalizou. A somar a isto é
um cão que apanha os “ventos altos” (círculos odoríferos no ar) com uma
facilidade incrível, o que o torna próprio também para o resgate de sinistrados
e desaparecidos. E para não ficarmos por aqui, estamos na presença de um
excelente cão de terapia. Não podemos retornar ao passado mas podemos revivê-lo
através deste perdigueiro, corrigir erros ancestrais e devolver aos cães
actuais a robustez atemporal que nos últimos séculos lhes roubámos. Arriba
Perdiguero de Navarra, para a frente “Dois Narizes”. Oxalá não te estraguem!
LONG LIFE FOR KEIRA
Finalmente
a Sofia Vizor, uma ex-aluna nossa a viver em Inglaterra, arranjou uma substituta
para o lugar da Bia, uma Pastora Alemã preto-afogueada que nos comprou e que
viveu longos anos junto dela. A nova aquisição chama-se Keira e é também uma
cachorra Pastora Alemã, uma lobeira de pêlo comprido conforme se pode ver na
foto acima. A novidade encheu-nos de alegria, porque a Sofia nasceu para viver
com um CPA por perto. Desejamos longa vida para a Keira e muitas felicidades
para a Sofia, que a cumplicidade outrora alcançada pela Bia seja agora continuada
por esta linda lobeira.
DIE PORTUGIESISCHE SCHÄFER MAUS: A GRANDE ESPERANÇA DO CPA EM TERRAS LUSAS
Sem
querer desprestigiar quem importa cães, porque há quem saiba o que quer, compre
o melhor, não olhe ao preço e traga qualidade, muito embora seja uma minoria
dentro do grosso que o faz, vamos hoje falar de publicidade enganosa, mais
especificamente sobre um canil que se dedica à criação de Pastores Alemães e
que recorre à importação para melhorar o seu quadro de reprodutores,
publicitando-os como sendo uma grande esperança para a qualidade da raça entre
nós, “fezada” que se tem revertido num sem número de cães com prognatismo
superior e com um focinho tangente ao encontrado nas ratazanas. É por demais
evidente que estes cães se destinam ao “trabalho”, onde normalmente se
encontram encobertos, porque caso fossem para exposição, o “caldo estaria
entornado”, pois seriam imediatamente eliminados ao entrar em ringue, a menos
que os juízes fossem cegos ou se deixassem cegar. Pergunta-se: a venda de cães
não é uma prestação de serviços? Poder-se-á vender gato por lebre e ratazanas
por Pastores Alemães? Dê lá para onde der, o canil “fica mal na fotografia” e
os seus proprietários não escaparão ao rótulo de aldrabões e salafrários, ainda
que sejam vítimas doutros piores do que eles. O que não compreendemos e muito
estranhamos, apesar de haver malucos para tudo, é a sua insistência no uso destes
reprodutores, independentemente do preço que tenham custado e dos galardões que
tenham obtido em exposições, porque o defeito nem sempre é visível naqueles que
o transmitem, não sendo por isso de estranhar que um afamado campeão tenha um
rol de filhos prógnatas.
KELLAR: QUANDO O AMOR FALA MAIS ALTO
Já
não sabemos quantas vezes o dissemos: os sons e os odores estão para os cães
como as imagens e as palavras estão para nós. Também realçámos repetidas vezes
que os comandos verbais deverão ter diferentes entoações visando a orientação e
a salvaguarda dos cães, procurando desenvolver em cada um dos nossos condutores
uma voz clara, potente e modelada, conteúdos de ensino directamente ligados à
história do Kellar, um English Springer que nasceu cego e que aqui vamos sucintamente
narrar. Sem experiência prévia em cães com esta deficiência, os seus donos
tiveram que aprender por conta própria como interagir e o educar o Kellar, que
hoje procura uma bola e brinca com ela como faria qualquer cão da sua idade ,
valendo-se do faro e das ajudas verbais dos seus donos para o fazer, que usando
indicações que lembram uma conhecida brincadeira de crianças, lhe dizem
“quente” ou “frio”, consoante se encontre mais perto ou mais afastado do
objecto a procurar. O amor tem destas coisas e o Springer teve muita sorte,
porque nas mãos de outros donos seria rapidamente descartado ou eliminado. Sim,
também os cães cegos podem ser ensinados e transformar-se em excelentes animais
de companhia e brincadeiras. O vídeo do Kellar, que é relativamente recente e
foi feito algures nos States, já foi visto por mais de 1,2 milhões de pessoas.
Lembramos
aos nossos alunos em particular e elucidamos os nossos leitores em geral, que
quanto a entoação e natureza dos comandos eles podem ser: imperativos, determinativos,
específicos, irrefutáveis e cúmplices, requerendo cada grupo deles uma entoação
própria de acordo com a salvaguarda, recompensa e serviço dos cães. Dar vozes a
um cão não deverá ser uma ladainha atónica ou uma cantilena própria para
adormecer anjinhos de tenra idade, devendo cada comando ser solto como o estímulo
necessário para despoletar a acção ou a resposta dos animais. Em simultâneo,
nenhum comando deverá ser repetido, porque só atrasará o seu cumprimento, que
deverá ser pronto e imediato, como imediato deverá ser o travamento de um cão
em perigo ou em vias de perecer.
BREVES NOÇÕES SOBRE CÃES DETECTORES DE CADÁVERES
Não há nenhuma raça canina superiormente adaptada para este serviço,
quase todas poderão fornecer indivíduos capazes para este desempenho e a partir
destes poder-se-ão criar outros de igual qualidade, que ficam a dever à genética
o seu préstimo, mercê dum olfacto excelente, intimamente ligado à rusticidade,
aos instintos de caça e sobrevivência, quando aliados ao equilíbrio dos
impulsos ao alimento, movimento e conhecimento, sem os exageros próprios do
impulso ao poder, já que os cães farejadores são aproveitados pela sua disponibilidade
em servir e pela facilidade com que se constituem em equipa. O seu treino
deverá iniciar-se aos 4 meses de idade, não poderá ser apressado e os cães melhor
apetrechados estarão prontos aos 2 anos de idade. O método de rastrear
cadáveres não difere muito do comummente usado na pistagem, somente o objecto a
procurar é outro, baseando-se na procura, detecção e recompensa, permanecendo o
cão sentado ao lado do cadáver detectado, sinalizando-o sem o danificar para preservar
provas ou evidências. A maioria dos cães destinados à detecção de cadáveres
pertencem a associações privadas que trabalham em regime de voluntariado, porque
o custo relativo à sua formação não é justificado pela frequência do seu uso,
sendo raramente chamados a actuar, o que os torna dispendiosos para as forças
da ordem. Detectar cadáveres soterrados ou submersos poderá exigir diferentes
cães, havendo-os especializados em cada uma das detecções.
Treinar
cães destes não é fácil, porque não sobram cadáveres, apresentam-se com
diferentes graus de decomposição e os animais ver-se-ão obrigados a procurar
ossos e sangue, num total de 480 compostos voláteis que saem dos corpos em
decomposição, ignorando-se até ao momento o montante dos detectáveis pelos
cães. Nalguns países já existe para o efeito matéria substituta com esses
odores e na sua inexistência os adestradores ver-se-ão obrigados a correr atrás
de cataclismos, acidentes e desastres, a servir-se de toda a sorte de animais
(mormente os de consumo) e não raramente do seu próprio sangue, por ausência de
legislação que suporte e legitime o seu trabalho, carenciado de placenta e
sangue humano, uma vez que os cães farejadores de cadáveres exigem ter contacto
regular com ele, já que os cadáveres humanos produzem compostos orgânicos
voláteis únicos. Mercê destas dificuldades, não se estranha a presença destes
binómios junto de qualquer desastre que obrigue à procura de cadáveres, tendo
como objecto tanto o treino como a detecção propriamente dita, como aconteceu
na “Tragédia de Entre-os-Rios”, aquando da queda da Ponte Hintze Ribeiro, que
ocorreu em 04MAR01 e que vitimou 59 pessoas que circulavam num autocarro e em
mais 3 viaturas particulares, quando se deslocaram para o local vários binómios
holandeses com esses propósitos.
Esta
actividade exigirá dos adestradores caninos uma profunda cumplicidade com os
seus parceiros, treino aturado, rápida leitura das suas reacções, habilidade na
leitura de mapas e GPS, boa preparação física, hábitos de trabalho diários e
nocturnos, indiferença à claustrofobia e resistência sensorial e psicológica
aos diferentes odores resultantes da decomposição/putrefacção (é necessário
estômago). A procura de diferentes ossos (frescos ou secos) torna-se
obrigatória, tanto submersos como enterrados, para que o animal possa detectar
todos os tipos de mortos em qualquer estado de decomposição, ecossistema,
cenário, hora do dia e diferentes condições climatéricas. Escusado será dizer
que o brinquedo usado como estímulo para o treino e para o desencadear das
acções terá o odor típico do cadáver a procurar.
Este
trabalho, de extrema importância para a investigação forense e para que se faça
justiça, geralmente desenvolvido em paralelo com as polícias, é uma actividade
filantrópica e como tal mal remunerada diante da sua azáfama e custos, que
exige raros sacrifícios para que cada um possa finalmente enterrar os seus
mortos em paz e dar-lhes sepultura digna, o que infelizmente nem sempre
acontece, porque alguns corpos desparecem definitivamente e os cães não são
mágicos.
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