segunda-feira, 20 de julho de 2015

SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR

A solução certa para esta rubrica da semana passada é a Hipótese “D”: O seu condutor introduziu-o ao obstáculo por meios violentos, a despeito da técnica necessária. A Hipótese “A” é falsa porque caso o cão tivesse medo das alturas, demonstrá-lo-ia também na Paliçada e na Passerelle. A Hipótese “B” é também falsa e denunciada pela foto da rubrica, pois se o cão entra bem ao obstáculo, este jamais poderia ter-lhe sido mal indicado. Também a hipótese “C” não deverá ser considerada, porque o cão evolui a medo para além das zonas de contacto. A proximidade do dono tende a encorajar os cães e não o contrário, pelo que a Hipótese “E” deverá ser descartada.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
2º _ OS CÃES SUICIDAM-SE?, editado em 11/07/2015
3º _ ESCLARECIMENTO, editado em 11/07/2015
4º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
5º _ ONDE ADESTRAR PARA TER MAIS SUCESSO?, editado em 11/07/2015
6º _ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
7º _ QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXV)?, editado em 10/07/2015
8º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
9º _ A ADOPÇÃO DE UM CÃO PAREDES MEIAS COM A GRATIDÃO, editado em 26/10/2009
10º _ NÃO COMO BURROS A TIRAR ÁGUA À NORA, editado em 29/08/2013  

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim distribuído:
1º Portugal, 2ºBrasil, 3º Alemanha, 4º Estados Unidos, 5º Reino Unido, 6º Rússia, 7º Moçambique, 8º Suíça, 9º Índia e 10º México.

sábado, 11 de julho de 2015

ESCLARECIMENTO

Temos recebido vários emails acerca de escolas caninas que se têm aproveitado do nosso nome para aumentar a sua carteira de clientes, valendo-se para isso da sua situação geográfica, plágio dos nossos princípios pedagógicos e usurpação dos nossos méritos. Diante desta situação, lamentamos o logro e informamos os nossos leitores que não nos escusamos a indicar as escolas cujos directores formámos ou outras que entendemos dignas do seu ofício, bastando para tal inquiri-lo através do email deste blog. Assim sendo, só podemos responder por aqueles que indicamos e não por outros que nos são alheios. Há que combater os oportunistas, aqueles que tendo um só olho julgam os outros cegos.

OS CÃES SUICIDAM-SE?

Criei, treinei e convivi com dezenas de milhares de cães, de todas as idades, de ambos os sexos, de todos os tamanhos e das raças mais variadas, mas nunca conheci nenhum que cometesse suicídio e não creio que o venha a ver. Ao invés, vi alguns a lutarem desesperadamente pela vida e em todos um forte instinto de sobrevivência, mesmo quando doentes, lesionados, feridos, incapacitados, convalescentes ou agastados pelos anos – os cães não desistem, morrem a lutar pela vida! Por isso não creio que o suicídio seja uma prerrogativa canina, apesar de ter presenciado a letargia duns poucos que os levou à morte, por se isolarem e deixarem de comer.
Mesmo que o stress induza à ansiedade e esta gere a depressão capaz de promover o suicídio, este será sempre um acto reflexo e não um acto deliberado dos cães, surgindo como efeito do stress, tanto daquele que geneticamente não suportam como doutro de que eventualmente venham a ser alvo. Em ambos os casos deve-se ao homem este tipo de comportamento, quer pela manipulação das raças quer pela alteração das rotinas dos animais (mudanças de hábitos capazes de causar-lhes transtornos traumático-sociais). A depressão canina é uma das áreas mais complexas da medicina comportamental e abrange fenómenos relacionados com medos e fobias, ansiedade e desordens obsessivo-compulsivas que normalmente afectam os cães. Ainda que estes distúrbios possam estar associados entre si, diferem em termos neuro-fisiológicos, o que não raramente dificulta o seu diagnóstico clínico. A depressão ou estado depressivo canino poderá estar relacionada com a ansiedade e por norma acontece quando os cães se encontram expostos a situações de stress, quer ele seja crónico, sistemático ou traumático, levando-os à alteração ou desuso das suas funções biológicas, assim como à apatia, inapetência, tristeza, menor interacção, indiferença aos estímulos e isolamento social (há cães que debaixo de stress e ansiedade comem desalmadamente).
A causa maior do suicídio induzido aos cães, a que constatámos e temos notícia, reporta-se à morte dos seus donos, particularmente daqueles com quem mantinham um relacionamento social quase exclusivo, deveras próximo e extraordinariamente cúmplice, ao ponto de não superarem a sua ausência e de não aceitarem a sua substituição, felizmente casos raríssimos e merecedores da nossa atenção para que não se repitam, mais comuns entre os cães dos idosos ostracizados e aqueles que vivem a totalidade dos seus dias ao lado dos seus proprietários e treinadores, dividindo com eles todos os momentos e sendo a sua sombra. Para que isto não suceda, torna-se imperativo que o grupo social dum cão não se restrinja a uma só pessoa mas a várias, porque todos somos perecíveis e não partiremos melhor se os cães forem para a cova connosco, o que a ser verdade, seria a pior das recompensas para quem tanto nos ajudou.
Pelo que se depreende, considerando o bem-estar canino e a relação ansiedade-depressão, há que combater todos os tipos de ansiedade que afectam os cães. Ainda que nem todas as depressões induzam automaticamente à sua morte, todas elas contribuem para a sua menor qualidade de vida e para o encurtamento dos seus dias (matam aos poucos, lentamente). A ansiedade mais visível nos cães é aquela que catalogamos como “ansiedade da separação”, causada pela ausência dos donos e visível quando os cães aumentam a sua actividade perante a saída dos seus proprietários, podendo gemer, ganir, exigir atenção, pular e segui-los para onde quer que vão, tremendo ou demonstrando alguma agressividade perante a sua partida, manifestações intimamente ligadas aos diferentes perfis psicológicos encontrados nos cães (se inibidos, submissos ou dominantes). Depois dos donos virarem as costas, esta ansiedade resultante da insatisfação levará alguns cães a arranharem as portas, a mordê-las e a esburacá-las, podendo proceder do mesmo modo sobre utensílios domésticos e pertences dos seus donos (armários, fios eléctricos, livros, móveis, plantas, paredes, roupas, rodapés e vassouras). Outros, dominados pela mesma ansiedade, irão urinar e defecar em locais inaceitáveis (atrás da porta de casa, no sofá da sala ou até mesmo na cama dos donos), desencanto que poderá ser acompanhado e não raramente é por uivos, latidos e/ou gemidos, vocalizações geralmente comprovadas pelas queixas dos vizinhos. Diante deste cenário, alguns ficarão deprimidos e não comerão nem beberão na ausência dos donos, podendo ainda evidenciar sialorreia (babar-se), tremores, dispneia, taquicardia, diarreias, vómitos, lamber afincadamente o seu corpo ou automutilar-se, como é o caso dos cães que mordem a cauda.
Vá-se lá saber porquê, nesta República de coca-bichinhos, talvez por andarmos todos ao mesmo, o diálogo entre veterinários e etólogos tem-se revelado pouco frutuoso, o que tem sido fatal para os últimos, porque chegaram depois e, obrigados à sobrevivência, sujeitam-se a aceitar qual tipo de trabalho, mesmo o distante das suas competências e abaixo das habilitações, ainda que formados pelas mais reputadas universidades estrangeiras (conhecemos um certificado por Cambridge a aviar sacos de compras no AKI). Raros são os veterinários que fazem uma pós graduação em Etologia e alguns etólogos obrigam-se a tirar veterinária para poderem ser melhor aceites e continuar os seus trabalhos. Não obstante e apesar do seu paupérrimo currículo em comportamento animal, raros são os veterinários que não receitam ansiolíticos aos cães, como não é de estranhar diante de donos ingénuos ou ignorantes, historicamente acostumados a desculpabilizar-se e a atribuir aos cães a culpa dos desaires que os vitimam (certa vez tive um aluno médico cuja máxima guardei: “um tipo para ir ao médico, tem que ter uma saúde ferro”). Enquanto os etólogos estiverem na prateleira (nos call centers e nas caixas dos supermercados), a castração e os ansiolíticos continuarão a “resolver” todos os problemas comportamentais caninos.
Os cães são animais sociais e não nasceram para estar sós, vêm a este mundo na crença de que permanecer em grupo aumenta-lhes as chances de sobrevivência, já que os seus antepassados quando agiam assim tinham melhores hipóteses de se alimentarem e defenderem. Esta herança permanece ainda hoje nos cães domésticos, que entendem os seus donos como líderes de matilha e por causa disso sofrem com a sua ausência, por se sentirem mais vulneráveis, desprezados ou abandonados. Antes de encharcar o seu cão em ansiolíticos de difícil desmame e de possível acção contrária, vamos indicar-lhe algumas medidas que combatem eficazmente a “ansiedade da separação”, normalmente responsável por um sem número de problemas físicos e psicológicos como já o dissemos atrás.
Em primeiro lugar importa dizer que, sempre que possível, deverá ser o cachorro a escolher o lugar em que se encontra mais cómodo e seguro dentro da nossa habitação, escolha que obedecerá ao seu grau de desenvolvimento e perfil psicológico. Nessa impossibilidade, o melhor que há a fazer, logo após o adquirir, é colocar no sítio que mais lhe convém o bebedouro, o comedouro e outros objectos do agrado do animal, com o odor donde veio e com o seu, para que não estranhe e mais depressa aceite aquele lugar. Caso o animal tenha vindo numa caixa transportadora, também ela deverá ir para aquele local, porque à falta de melhor se abrigará e escudará dentro dela. A separação do animal deverá ser gradual e associada ao comando de “fica” (gente experimentada nestas andanças espera pelas férias para poder estar mais tempo em casa e adaptar o animal ao seu novo território sem atropelos). Antes de sair entregue ao animal um brinquedo da sua preferência ou um petisco do seu agrado, para que a sua saída se transforme numa experiência feliz e o cão a associe ao prazer ou á diversão. Quando sair, faça-o sem cerimónias, porque a demora nas despedidas tornará o animal mais ansioso e propenso ao sofrimento. Dê liberdade de circulação ao cão dentro de casa para que mais depressa a considere sua, ganhe autonomia e mais tarde venha a defendê-la (convém não esquecer que o cão é um animal excursionista e detesta o enclausuramento forçado). Escusado será dizer que deverá deixar junto dele objectos com o seu odor (geralmente aqueles que ele rouba), para garantir de alguma forma a sua ausência, minimizar a separação e transmitir-lhe a calma necessária (se usar o brinquedo, retire-o na hora de retornar a casa).
Uma vez terminado o calendário de vacinação do seu cachorro leve-o diariamente a passear num período mínimo de uma hora, o que satisfará as suas necessidades excursionistas e sociais, melhorará a sua sociabilização, robustecerá o seu carácter, ajudá-lo-á a crescer, a satisfazer as suas necessidades fisiológicas fora de casa, a familiarizar-lhe com diferentes ecossistemas e diversos fenómenos naturais, pondo-o em sintonia com o relógio biológico. Para além de tudo isto, as saídas ao exterior facilitarão o seu bem-estar em casa, uma vez que parte do conhecido para o desconhecido e ali retemperará as forças. Quando se ausentar de casa evite sujeitar o animal a sons ou roídos a que não está acostumado e que poderão constituir-se para ele em traumas pela novidade ou surpresa. Como importa aproveitar e potenciar a máquina sensorial do animal, antes de sair de casa esconda pequenos petiscos do agrado do cão, mantendo-o assim ocupado e satisfeito nesses afazeres, estratégia que o libertará da ansiedade e que o fará suportar a separação. Quando voltar para casa não vá de imediato fazer-lhe festas, trate primeiro das suas prioridades, para que ele não faça da sua saída um drama e aprenda a respeitar e a assimilar as suas rotinas. Não sobrando outra hipótese, há quem alvitre como solução a aquisição de um novo cão para o acompanhar, opção nem sempre válida quando o perfil psicológico do recém-chegado é idêntico ao do residente.

ONDE ADESTRAR PARA TER MAIS SUCESSO?

Com a falência das associações recreativas e culturais da maioria das terriolas, realidade que não é de hoje, os seus campos de futebol e respectivos balneários acabaram abandonados e vandalizados, servindo agora alguns de prados e currais para carneiros, como albergues para flirts, meia dúzia deles como base para os helicópteros de combate aos incêndios e outros acabaram transformados em centros de treino caninos, locais preferenciais para quem pretende montar uma escola e que pouco ou nada tem para investir, aproveitando-se do piso duro e regular daqueles amplos espaços, que apenas exigem como manutenção o corte cíclico das ervas. E na inexistência dum campo de futebol desprezado, há quem alugue um local ermo ou outro à beira de uma estrada por uns míseros patacos, geralmente à torreira do sol e circundados por rede ovelheira com 1m de altura, vindo depois a rotulá-los de nomes pomposos em voga. Serão eles os indicados para o ensino canino?
É evidente que não! Eles apenas espelham a nossa realidade socioeconómica, a qualidade, disponibilidade e conhecimento das pessoas adjacentes ao mundo da nossa cinotecnia. Pardieiros como estes tendem a saturar os cães e a remetê-los para o stress, porque são locais que jamais escolheriam e que irão comprometer o seu desenvolvimento e sucesso pedagógico, uma violência diante do fim em vista. Uma escola canina digna desse nome deverá recriar ou tirar partido de ecossistemas do agrado dos cães, onde constem árvores, arbustos, lagoas, diferentes pisos e cotas diversas, transformar-se num paraíso que os liberte da ansiedade, para que ali se sintam bem e os donos também.
Quando se recria um ambiente destes, estamos a “apanhar o fio à meada”, a ligar o passado ao presente, a devolver aos cães o seu habitat ancestral e natural, a ensiná-los em terrenos onde se sentem à vontade para aprender, surgindo o ecossistema como um importante subsídio de ensino, já que alegria que demonstram ali irá aumentares-lhes a curiosidade e o gosto pela descoberta, condições que promoverão o desenvolvimento do seu impulso ao conhecimento pela experiência feliz. O contacto com a água é uma das predilecções caninas, o caminhar pelos bosques e florestas é algo que não dispensam e que avidamente procuram. Os cães não estarão já fartos de confinamento, muros e cercas de arame? Não terão nascido para a excursão? Paupérrima é a escola que não tem um pedaço de floresta e uma lagoa ou piscina ao dispor dos seus instruendos. E porque importa que os cães gostem de vir para a escola e esta deve apostar no seu bem-estar, onde se sentirão melhor: num pedaço de terra estéril ou num ecossistema onde a vida fervilha?
Virá o tempo em que adestradores e arquitectos paisagistas trabalharão juntos para a edificação de centros de treinos caninos capazes de melhor responderem às necessidades dos animais, uma vez sanada a presente crise e retomada a senda do progresso. Entretanto, há que dar os parabéns à Câmara de Lisboa pela inserção no Jardim Romântico do Campo Grande duma pista de obstáculos canina, projecto pioneiro que gostaríamos de ver repetido e melhorado por outras autarquias do País (quando tiverem verba para isso). Depois do que dissemos e explicámos, o sucesso no adestramento acontecerá mais facilmente nos ecossistemas do agrado dos cães, naqueles que lhes devolvem a tranquilidade e o bem-estar. E como morrer por morrer, é melhor fazê-lo a rir, o que dizer duma escola cercada de rede ovelheira, vazia de vegetação, fustigada pelo sol e sem sombras, que se alvitra ser anti-stress? Do que diferirá duma colónia de detenção? Só lhe faltam as marretas para partir pedra, porque os condenados já lá estão! 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O MAU HÁBITO DE VIR DUMA ESCOLA DE PASTORES ALEMÃES

Um adestrador que se forme numa Escola de Pastores Alemães não pode e não deve ensinar as demais raças caninas na perspectiva do Cão de Stephanitz, porque se o fizer não obterá os mesmos resultados e subaproveitará os cães ao seu encargo, o mesmo é válido para os oriundos de um grupo de Border Collies que desejem ensinar cães com outras características de igual modo. O Pastor Alemão exige muito pouco dos seus condutores em matéria de entrega emocional, porque mais depende da memória mecânica do que da afectiva para chegar à associativa, é naturalmente concentrado e disciplinado, o que lhe facilita a aquisição das posturas e das manobras requeridas sem grandes repetições. Como é muito disponível, a menos que seja por demais submisso, o grosso dos seus machos necessitará mais de travamento do que de estímulo, porque é naturalmente competitivo, audaz, protector e reage prontamente às provocações, o que não implica que dispense uma profunda relação de cumplicidade com o seu dono ou condutor, cuja existência garantirá novas e menos visíveis formas de entendimento binomial. Sendo precoce, dinâmico e de alguma forma persistente, busca o progresso e não dispensa a novidade de desafios, o que a ninguém espanta porque foi criado para o trabalho, dispensando a excessiva recompensa por viver em função do serviço, ser naturalmente sério e pouco propenso a subornos. E se o pudermos acusar de algo, certamente será de excesso de zelo, porque não lhe sendo distribuído trabalho, não hesitará em inventá-lo.
Como a maior parte dos cães não é assim, quer pecando por menor disponibilidade quer exigindo maior estímulo, factores ligados ao pormenor da sua carga instintiva, biomecânica e morfologia, ao particular da sua envergadura e à procura doutros serviços por diverso equilíbrio dos principais impulsos herdados, ver-nos-emos obrigados a trabalhá-los doutro modo, pacientemente e com maior tolerância, a felicitá-los amiúde e efusivamente para que a experiência feliz, que não dispensa a recompensa, accione a memória afectiva que os induzirá ao cumprimento das tarefas. Neles a ênfase recairá sobre a acção e o travamento deverá acontecer gradual e suavemente para que não percam o gosto por aprender, ao temerem a liderança. Como se depreende, o rigor que caracteriza o treino dos pastores alemães só os afogaria e os pastores alemães treinados deste modo tendem à desobediência e nalguns casos a perverterem a liderança, podendo os machos menos dominantes e as fêmeas tornar-se quezilentos ou piegas. Um grande número de molossos, debaixo de pressão, tende à imobilidade ou à revolta, muitos bracóides (se não todos) irão exigir estratégias lúdicas para o alcance das metas propostas, os vulpinos acusam em demasia as correcções e os toys carecem de muito agrado e protecção. A somar a isto, em todas as raças subsistem indivíduos diferentes que irão exigir abordagens e acompanhamentos díspares.
Cada cão deverá ser tratado e ensinado de acordo com a sua sensibilidade e vocação, entendido tal qual é para que a liderança não atrapalhe o seu desenvolvimento cognitivo, que poderá exigir mais disciplina ou afecto de acordo com o seu perfil psicológico. Será este discernimento que tornará maior e mais adequado qualquer adestrador, que para todos os efeitos é como um actor, desdobrando-se em múltiplas personagens para poder valer a todos os cães. Jamais alcançaremos o cão ideal mas podemos abstrair de todos o melhor que têm para dar. Para isso cá estamos e nisto se baseiam ou deveriam basear as nossas credenciais.

O QUE FAZER COM OS CÃES INIBIDOS

O que fazer com os cães inibidos? Investi-los com uma pele que não a sua, até que acreditem que lhes pertence! Um dos maiores desafios para os adestradores é a recuperação de cães inibidos, tarefa que irá exigir-lhes observação, estudo, engenho, tempo, perseverança, empatia e muita paciência, porque o progresso destes animais é lento e sujeito a revezes, capacitação que automaticamente dispensa os mais coléricos, os menos flexíveis e os que carecem de resultados imediatos como estímulo para o trabalho.
Contrariamente ao que se pensa, a inibição de origem genética é mais comum entre os cães padronizados do que entre os provenientes da selecção natural, quer eles sejam silvestres ou párias, fenómeno associado a beneficiamentos que alteraram, ainda que involuntariamente, tanto pela endogamia quanto pela consanguinidade, o são equilíbrio dos principais impulsos herdados na procura de características morfológicas (estéticas). Um cão pode inibir-se por razões ambientais mas não totalmente, sendo a sua recuperação mais célere pela alteração do desfecho e dos efeitos ligados aos traumas. Muito mais difícil será a recuperação de um cão que nasceu inibido e que treme diante de tudo e todos, mazela geralmente reforçada por um imprinting descuidado.
Ainda que o extraordinário temor destes cães seja mais visível ao nível social, ele pode estender-se aos fenómenos naturais e diante da apresentação de qualquer novidade, o que obrigará a mil cuidados e ao estabelecimento de etapas, cujo cronograma nos será indicado pelos animais, mediante a aprovação nos trabalhos antecedentes. Na fase embrionária o adestrador obriga-se a passar a maior parte do tempo com o cão - à coabitação, para que ele se sinta protegido e pouco a pouco aceite as rotinas diárias de quem o acompanha.
A seu tempo, evoluir-se-á do interior para o exterior, do conhecido para o desconhecido e da separação do binómio para a sua integração no meio de outros, havendo o cuidado de não o inserir num grupo já hierarquizado ou portador de cães provocadores ou briguentos. O ideal é apresentá-los primeiro e isoladamente no terreno ou terrenos do cão medroso, vantagem que facilitará o seu entrosamento, isto se os cães utilizados estiverem convenientemente sociabilizados e forem de fácil controlo. Sempre será mais fácil recuperar um cão nestas condições do que uma cadela, apesar da cópula poder beneficiar de sobremaneira ambos e o exercício da maternidade vir em auxílio das cadelas. Paralelamente à sociabilização entre iguais, que deverá acontecer primeiro com o cão atrelado, operar-se-á a sociabilização e convívio com outras pessoas, optando-se por escolher aquelas cuja mímica seja de fácil leitura para o animal e não exteriorize instabilidade ou qualquer tipo de agressividade. Depois de certificada a confiança do animal no adestrador, este deve sair com ele para ecossistemas calmos e repousantes, onde o cão se sentirá cómodo e confiante, nem que seja pelo conforto daquele que o guia pela trela. Daí passar-se-á, para percursos mais concorridos e movimentados, com gente apressada e máquinas em movimento.
No processo de reabilitação do animal não adianta contrariá-lo, antes criar-lhe condições para que evolua sem suspeita e sem sobressaltos, caso contrário aumentará a sua resistência e menos confiará em nós (não podemos correr este risco). De etapa em etapa, o cão robustecerá gradualmente o seu carácter e passará a confiar em si próprio pela experiência adquirida, novidade que jamais alcançaria sem o contributo humano. A recuperação dos cães medrosos é um trabalho que pertence à reeducação, área do ensino canino que deveria ser matéria obrigatória para qualquer adestrador, uma vez que ela não se destina exclusivamente aos cães agressivos. E se ensinar cães é um acto de amor, recuperá-los é o seu expoente máximo. Os cães medrosos têm solução e ela passa pela dedicação dos adestradores, que enternecidos pela sua desprotecção, irão ensiná-los a vencer os seus medos, revestindo-os da confiança que a genética lhes omitiu, mercê da caminhada conjunta que a ambos fez crescer (o cão ganha confiança e o adestrador saber)

WILMA MELVILLE: COM OS PÉS PARA A COVA MAS APOSTADA EM DESENTERRAR VIVOS

Ao falarmos da norte-americana Wilma Melville, presidente e fundadora da National Disaster Search Dog Foundation/ USA, lembramo-nos imediatamente da finada Dorothy Harrison Eustis (1886-1946), de quem já tratámos em edições anteriores, principal impulsionadora dos cães-guia de cegos à escala planetária, porque ambas fizeram da perseverança mote e colocaram as suas vidas ao serviço dos outros, tirando partido da sua paixão pelos cães. Mas afinal quem é Wilma Melville? Nada mais que uma septuagenária norte-americana (78 anos), aposentada e ex-professora de educação física, que retomou o seu contacto de infância com os cães, depois de haver criado os filhos, decidindo-se a treinar um cão (Murphy) para busca e salvamento no território sísmico da Califórnia, vindo em 19 de Abril de 1995 a participar na procura de sobreviventes no centro de Oklahoma City, quando ali rebentou uma bomba no Edifício Federal Alfred P. Murrah, atentado terrorista perpetrado pelo americano Timothy McVeigh e do qual resultaram 168 mortos.
Graças a essa experiência e ao tomar contacto com os binómios que a acompanharam naquela acção, cujos cães se preocupavam mais com o sítio onde pôr as patas e menos com os possíveis sobreviventes, depois de descobrir que nos Estados Unidos apenas haviam 15 cães de busca e salvamento, número bastante inferior ao verificado na minúscula Suíça, que ao tempo já tinha 52, decidiu dedicar-se corpo e alma a esta especialidade canina, ambição e projecto que viu concretizados ao fundar a National Disaster Search Dog Foundation, fundação de carácter humanitário e sem fins lucrativos. A 11 de Setembro de 2001, Wilma enviou 13 binómios especializados para os edifícios desmoronados do World Trade Center e graças ao trabalho de uma estagiária de jornalismo, a trabalhar ao tempo na cadeia de televisão Fox News, a quem competia digitar os textos de rodapé daquele canal televisivo, os americanos chegaram ao conhecimento da Prof.ª Wilma, cujo número de telefone apareceu no pequeno ecrã por 12 horas.
O telefone não parava de tocar (houve necessidade de instalar mais telefones) e as doações vindas de toda a América não cessavam. Num ápice, Wilma Melville tinha um milhão de dólares na mão! Curiosamente a cinotécnica nunca soube o nome daquela estagiária de jornalismo, que devido à sua irreverência, acabou por contribuir assim para a formação de uma excelente unidade de resgate apostada em salvar vidas. Daí até hoje, a National Disaster Search Dog Foundation tem vindo a enviar binómios para todas as partes do mundo, como o fez este ano no Nepal, aquando do sismo ocorrido a 25 de Abril, ao mandar para lá 6 equipas cinotécnicas. Wilma, nesta andanças há 15 anos, que se considera mediana de inteligência, diz que o segredo do seu sucesso ficou a dever-se à sua inesgotável perseverança, o que a nosso ver não explica a sua rara clarividência e espírito prático, já que optou por recrutar cães resgatados, entregá-los aos bombeiros e treiná-los para catástrofes (isto de ser rafeiro tem muito que se diga, na América alguns encontram pessoas, em Portugal a maioria perde os testículos).
O maior sonho desta filantropa é montar um grande centro de formação nacional, aquele que será o primeiro do género nos Estados Unidos, que terá os mais diferentes simulacros para atender a equipas de busca nacionais e internacionais, sonho que está em vias de se concretizar num rancho doado à sua fundação, situado a norte de Los Angeles, a 90 minutos daquela Cidade e com aproximadamente 50 hectares (eu gostava de lá ir quando estiver pronto e fazer lá uma formação). Esta preocupação da Sr.ª Melville espelha o cuidado que dispensa na preparação destes cães, treinando-os arduamente para as tarefas que os esperam, o que aqui na Europa pouca gente leva a sério. Na foto seguinte temos uma passerelle de endurance, em tudo idêntica à usada pelos nossos alunos até 2009, que lembra também a escada de preparação e a memorável passerelle de linhas (dá para matar saudades, já naquele tempo estávamos na vanguarda).
Resta-nos dar os parabéns à Sr.ª Wilma Melville e desejar-lhe saúde, longa vida e novos projectos, que bom seria termos por cá uma! E se já nasceu ou vier a nascer, oxalá não venha a emigrar. 

GLENN & BUZZ: SIDE BY SIDE, ALLWAYS TOGETHER

O Glenn e a Buzz, ele um Jack Russel e ela uma Staffordshire Bull Terrier, foram encontrados abandonados num túnel junto ao mar numa localidade inglesa. Depois de recolhidos por uma instituição, verificou-se que o Jack Russel era cego e que a sua companheira Staffordshire servia-lhe de guia, possibilitando assim a sua sobrevivência. Esta história recente, comovente e de partir o coração a qualquer um, correu mundo e de toda a parte choveram pedidos para a sua adopção (Estados Unidos, Canadá, Europa, América do Sul e até da Austrália). Depois de um longo processo de triagem junto das famílias britânicas interessadas, os dois companheiros foram entregues a uma da qual se agradaram imediatamente, como se de “amor à primeira vista” se tratasse. Os dois companheiros, que se julga com idades compreendidas entre os 9 e 10 anos, vão assim continuar juntos e passar o resto das suas vidas na companhia da nova família adoptiva, que muito se enterneceu pelo seu exemplo de vida. Chegámos á notícia através do Website do Mirror e não resistimos em divulgá-la aos nossos leitores. O que dirão acerca disto os já célebres cientistas japoneses da Universidade de Azabu no Japão, que conseguiram provar que os cães amam os donos como os bebés amam as suas mães? Como o tema do amor canino é polémico e sujeito a muitas contradições, aguardamos novos desenvolvimentos científicos, o que não impede o envio de um voto de felicidades para o Glenn e para a Buzz, que irão passar a sua 3ª idade melhor do que até aqui.  

QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXV)

O “Poirot” é um Doberman com 2 anos de idade que treina e concorre em Agility. É muito sensível, submete-se facilmente ao dono e não é nada agressivo. Executa com alegria e rapidez todos os obstáculos, exceptuando o baloiço, onde evolui lentamente com as orelhas e cauda abatidas, pormenor que muito espanta o director da equipa de competição e para o qual não encontra explicação. Porque agirá assim o Poirot? Hipótese “A”: Tem medo das alturas. Hipótese “B”: O seu condutor sempre lhe indicou mal o obstáculo. Hipótese “C”: O cão teme falhar as zonas de contacto. Hipótese “D”: O seu condutor introduziu-o ao obstáculo por meios violentos e a despeito da técnica necessária. Hipótese “E”: O cão sente-se mais vulnerável por se encontrar mais perto do seu condutor. Para a semana indicaremos qual a hipótese certa e cá estaremos com um novo caso. 

SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR

A resposta certa para esta rubrica da semana anterior é a Hipótese “A”: Detectou algo perdido. Atendendo ao carácter pachorrento do animal a Hipótese “B” não faz qualquer sentido. Jamais o cão seria encadeado pelos chorões, porque eles não reflectem os raios solares, o que torna falsa a Hipótese “C”. Se o animal estivesse farto do passeio e quisesse voltar para casa, ao invés de ladrar para a vegetação, ou deitava-se no chão ou puxaria os seus donos no sentido contrário, pelo que a Hipótese “D” carece de fundamento. Também a Hipótese “E” é contraditória, já que o texto indica que aquele Perdigueiro de Burgos tolerava e era indiferente a qualquer tipo de animais. 

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
2º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
3º _ ESCOLHER UM, TENTAR JUNTÁ-LOS OU REJEITAR OS TRÊS?, editado em 30/06/2015
4º _ A CASOTA DO CÃO, editado em 29/12/2009
5º _ O CÃO JOVEM (DOS 7 AOS 18 MESES): DA PUBERDADE À MAIORIDADE, editado em 26/10/2009
6º _ DIE PORTUGIESISCHE SCHÄFER MAUS: A GRANDE ESPERANÇA DO CPA EM TERRAS LUSAS, editado em 01/07/2015
7º _ PACHÓN NAVARRO: UNIR EL PASADO AL PRESENTE, editado em 01/07/2015
8º _ O MELHOR E O PIOR DO PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
9º _ QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXIV)?, editado em 29/06/2015
10º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim distribuído:
1º Portugal, 2º Reino Unido, 3º Brasil, 4º Alemanha, 5º Irlanda, 6º Estados Unidos, 7º Canadá, 8º Rússia, 9º Índia e 10º Holanda.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

PACHÓN NAVARRO: UNIR EL PASADO AL PRESENTE

O Pachón Navarro, também conhecido por Old Spanish Pointer, Perdiguero Navarro, Navarro Pointer, Pachón de Victoria, Nafarroako eper txakur ou simplesmente por “ perdigueiro de dois narizes”, depois de quase extinto por ocasião da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), está de volta aos campos de caça onde se notabilizou como cão de aponte, desde França até aqui, retornando às nossas charnecas, lezírias e montados, ainda que timidamente, onde foi rei e senhor, privilégio dos mais poderosos e marca do seu status, um aristocrata canino por detrás da formação da maioria dos pointers continentais, inclusive do Perdigueiro Português, com o qual se confundia na 1ª metade do Século XX, mercê da coabitação, parceria na caça e pela inevitável hibridação que procurava de melhores cães caçadores, podendo ainda hoje ser um melhorador dos diversos cães de aponte, a quem por norma faltam valentia, apetrecho e rusticidade diante da biodiversidade dos ecossistemas cinegéticos, menos valias ligadas a selecções que elevaram a estética em detrimento do uso (sendo por isso mesmo desastrosas) e à excessiva endogamia e consanguinidade que resultaram num sem número de perdigueiros frágeis e medrosos, que evitam alguns terrenos, saem dali lesionados e que tremem por ocasião dos disparos, como é o caso da maior parte dos Pointers Ingleses, que se borram debaixo de fogo e que aqui evitam a vegetação espinhosa. Podemos afirmar sem medo de errar, que a excelência dos Bracos Húngaros e Germânicos, quando comparados com os restantes, mais se deve ao desaparecimento e desprezo pelo Pachón Navarro do que aos seus próprios méritos, apesar dos cães da Europa Central terem respeitado outros critérios de selecção, por força do pragmatismo sempre evidenciado pelos seus criadores e que alguns agora desprezam.
 Sem queremos ser chauvinistas e olhando para o rumo da História, à “Queda das Nações Peninsulares” sucedeu o abandono e a menor procura pelos seus cães, que na sua maioria subsidiaram outros noutras latitudes e estiveram na origem de novas raças, obra também britânica para afirmar o seu poderio. E para quem se interessa pelo assunto, vale a pena ler o Discurso de Antero de Quental, proferido em Lisboa no Casino Lisbonense, a 27 de Maio de 1871, por ocasião da 1ª Sessão das Conferências Democráticas, sob o título “ CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES NOS ÚLTIMOS TRÊS SÉCULOS”, porque assim como não se podem desligar as guerras das razões económicas, do mesmo modo será ingénuo separar as opções da política. A nossa opção e encanto pelo Pachón Navarro deve-se ao facto de o havermos observado a caçar em tempos idos, recordação que não se apaga e que gostaríamos que nos fosse devolvida, sonho que vem sendo possível pelo esforço dos criadores espanhóis empenhados na sua criação, divulgação e reconhecimento, que desejaríamos ver premiado pela sua maior procura.
O “Dois Narizes” é um caçador anfíbio extraordinariamente resistente, que suporta sem grande dificuldade as amplitudes térmicas e que leva de vencida qualquer tipo de terreno, que sinaliza superiormente a presa, que espera calmamente pela hora de avançar e que nunca dá caça por perdida, tendo maior autonomia que a esperada nos seus iguais, o que lhe garante trabalhar por mais tempo e em situações adversas, mais-valias advindas da sua rusticidade, morfologia, resistência à dor, extraordinária parceria, entrega ao serviço e gosto de agradar (raros são os exemplares que rasgam ou comem as peças). Tem igual comportamento em terra firme e nos arroios, associa o disparo à acção e a espingarda à alegria de caçar. Cão alegre e denominado pelo instinto de caça, sociabiliza-se facilmente entre iguais ou com outros de raça diferente, constituindo rapidamente matilha com eles, o que nem sempre acontece com outros pointers, setters e perdigueiros. Presta-se muito bem como cão familiar, porque é fácil de ensinar, saudável, participativo, fiel e paciente com as crianças, muito embora exija exercício diário regular. Tem todas as condições para se tornar num  bom cão de rastreio e salvamento, podendo o seu futuro passar por essas áreas do adestramento.
 Os seus detractores acusam-no de ser difícil de trabalhar e de evoluir a rumo próprio, o que entra em contradição com o seu comportamento social. Desde muito novo evidencia a sua vocação caçadora e nisso deve ser aproveitado, para que futuramente renda aquilo que dele se espera e não venha a ser surpreendido por uma actividade até ali desleixada e que exige a divisão de tarefas com o dono. Se o cão pastor pastor cresce do bardo, o cão caçador deverá desde novo exercitar-se no ofício cinegético. E se a caça com cães é uma actividade dividida, a maior ou menor prestação de um cão resultará também da qualidade dos seus mestres. A prová-lo está o facto de alguns cães caçarem muito bem na mão de determinados indivíduos e com outros não. Como é sabido, a comunicação interespécies não dispensa a observação e o estudo prévio fornecidos pela coabitação para a mútua compreensão, induzindo a comunhão de vida naturalmente à divisão das tarefas.
Mais robusto e ligeiramente maior que o Perdigueiro Português, o Pachón Navarro apresenta-se unicolor, bicolor e tricolor, numa variedade de cores que vão desde o branco ao negro, passando pelo laranja, castanho e cobre, com ou sem manchas, património genético que lhe possibilita a camuflagem nas diferentes policromias estivais e outonais, apesar de qualquer variedade cromática suportar qualquer ecossistema sem grandes dificuldades. Este cão, originário de ambos os lados dos Pirenéus, desde os séculos XII e XIII (aqui as opiniões dividem-se), aguarda o reconhecimento oficial da FCI, não obstante ser já reconhecido em Espanha e de ter um estalão pormenorizado. A raça ainda apresenta alguns nado-mortos nas suas ninhadas e nem todos os Pachón apresentam o nariz rachado.
Considerado como um caçador inveterado e inteligente, pela riqueza da sua mímica, este perdigueiro único, que também foi vítima da mixomatose (que quase o extinguiu), traz a Idade Média até aos nossos dias, unindo o passado ao presente e carregando em si as expectativas e gostos milenares dos povos peninsulares, enquanto marco vivo da história comum que queremos perpetuar. Cabe-nos a nós, canicultores espanhóis e portugueses, não o deixar perecer, usá-lo no muito que tem para dar como companheiro e melhorador das raças caninas de aponte actuais, notoriamente mais frágeis pelo distanciamento da qualidade original que o “Dois Narizes” transporta.
 Apesar de exímio trotador em qualquer tipo de terreno, consegue acompanhar, quando necessário, o galope de outros em passo de andadura, capturando silenciosamente a presa que sinalizou.  A somar a isto é um cão que apanha os “ventos altos” (círculos odoríferos no ar) com uma facilidade incrível, o que o torna próprio também para o resgate de sinistrados e desaparecidos. E para não ficarmos por aqui, estamos na presença de um excelente cão de terapia. Não podemos retornar ao passado mas podemos revivê-lo através deste perdigueiro, corrigir erros ancestrais e devolver aos cães actuais a robustez atemporal que nos últimos séculos lhes roubámos. Arriba Perdiguero de Navarra, para a frente “Dois Narizes”. Oxalá não te estraguem!

LONG LIFE FOR KEIRA

Finalmente a Sofia Vizor, uma ex-aluna nossa a viver em Inglaterra, arranjou uma substituta para o lugar da Bia, uma Pastora Alemã preto-afogueada que nos comprou e que viveu longos anos junto dela. A nova aquisição chama-se Keira e é também uma cachorra Pastora Alemã, uma lobeira de pêlo comprido conforme se pode ver na foto acima. A novidade encheu-nos de alegria, porque a Sofia nasceu para viver com um CPA por perto. Desejamos longa vida para a Keira e muitas felicidades para a Sofia, que a cumplicidade outrora alcançada pela Bia seja agora continuada por esta linda lobeira. 

DIE PORTUGIESISCHE SCHÄFER MAUS: A GRANDE ESPERANÇA DO CPA EM TERRAS LUSAS

Sem querer desprestigiar quem importa cães, porque há quem saiba o que quer, compre o melhor, não olhe ao preço e traga qualidade, muito embora seja uma minoria dentro do grosso que o faz, vamos hoje falar de publicidade enganosa, mais especificamente sobre um canil que se dedica à criação de Pastores Alemães e que recorre à importação para melhorar o seu quadro de reprodutores, publicitando-os como sendo uma grande esperança para a qualidade da raça entre nós, “fezada” que se tem revertido num sem número de cães com prognatismo superior e com um focinho tangente ao encontrado nas ratazanas. É por demais evidente que estes cães se destinam ao “trabalho”, onde normalmente se encontram encobertos, porque caso fossem para exposição, o “caldo estaria entornado”, pois seriam imediatamente eliminados ao entrar em ringue, a menos que os juízes fossem cegos ou se deixassem cegar. Pergunta-se: a venda de cães não é uma prestação de serviços? Poder-se-á vender gato por lebre e ratazanas por Pastores Alemães? Dê lá para onde der, o canil “fica mal na fotografia” e os seus proprietários não escaparão ao rótulo de aldrabões e salafrários, ainda que sejam vítimas doutros piores do que eles. O que não compreendemos e muito estranhamos, apesar de haver malucos para tudo, é a sua insistência no uso destes reprodutores, independentemente do preço que tenham custado e dos galardões que tenham obtido em exposições, porque o defeito nem sempre é visível naqueles que o transmitem, não sendo por isso de estranhar que um afamado campeão tenha um rol de filhos prógnatas.
 Os cães do Leste já tiveram melhores dias e os austríacos também. Nos territórios do outrora Império Austro-Húngaro, no triângulo Alpes, Cárpatos e Balcãs, a excessiva endogamia parece perpetuar-se e os Pastores dali necessitam de sangue novo para levarem de vencida as mazelas do seu passado recente, provenientes do isolamento a que se viram forçados pela Cortina de Ferro e que levarão o seu tempo a sarar. Como não acreditamos que alguém compre deliberadamente um cão prógnata, os cães vindos dali mesmo não o sendo, acabam por ser portadores desta falta eliminatória, transmitindo-o à sua descendência pela restante Europa, o que mais agravará a qualidade dos nossos Pastores Alemães, que acabam por receber justificadamente o título de “Die Portugiesische Schäfer Maus” (O Rato de Pastor Português), o que até resultaria num bom nome para um afixo: “Haus Maus”. Será que os nossos aforismos estão a sofrer mutuações e que surgiu um novo: “quem não tem cão caça com rato”? Diante deste panorama, vá-se lá saber porquê, lembramo-nos de Erich Maria Remarque e da sua obra mais famosa: “Im Westen nichts Neues” (A Oeste Nada de Novo).

KELLAR: QUANDO O AMOR FALA MAIS ALTO

Já não sabemos quantas vezes o dissemos: os sons e os odores estão para os cães como as imagens e as palavras estão para nós. Também realçámos repetidas vezes que os comandos verbais deverão ter diferentes entoações visando a orientação e a salvaguarda dos cães, procurando desenvolver em cada um dos nossos condutores uma voz clara, potente e modelada, conteúdos de ensino directamente ligados à história do Kellar, um English Springer que nasceu cego e que aqui vamos sucintamente narrar. Sem experiência prévia em cães com esta deficiência, os seus donos tiveram que aprender por conta própria como interagir e o educar o Kellar, que hoje procura uma bola e brinca com ela como faria qualquer cão da sua idade , valendo-se do faro e das ajudas verbais dos seus donos para o fazer, que usando indicações que lembram uma conhecida brincadeira de crianças, lhe dizem “quente” ou “frio”, consoante se encontre mais perto ou mais afastado do objecto a procurar. O amor tem destas coisas e o Springer teve muita sorte, porque nas mãos de outros donos seria rapidamente descartado ou eliminado. Sim, também os cães cegos podem ser ensinados e transformar-se em excelentes animais de companhia e brincadeiras. O vídeo do Kellar, que é relativamente recente e foi feito algures nos States, já foi visto por mais de 1,2 milhões de pessoas.
Lembramos aos nossos alunos em particular e elucidamos os nossos leitores em geral, que quanto a entoação e natureza dos comandos eles podem ser: imperativos, determinativos, específicos, irrefutáveis e cúmplices, requerendo cada grupo deles uma entoação própria de acordo com a salvaguarda, recompensa e serviço dos cães. Dar vozes a um cão não deverá ser uma ladainha atónica ou uma cantilena própria para adormecer anjinhos de tenra idade, devendo cada comando ser solto como o estímulo necessário para despoletar a acção ou a resposta dos animais. Em simultâneo, nenhum comando deverá ser repetido, porque só atrasará o seu cumprimento, que deverá ser pronto e imediato, como imediato deverá ser o travamento de um cão em perigo ou em vias de perecer.

BREVES NOÇÕES SOBRE CÃES DETECTORES DE CADÁVERES

Não há nenhuma raça canina superiormente adaptada para este serviço, quase todas poderão fornecer indivíduos capazes para este desempenho e a partir destes poder-se-ão criar outros de igual qualidade, que ficam a dever à genética o seu préstimo, mercê dum olfacto excelente, intimamente ligado à rusticidade, aos instintos de caça e sobrevivência, quando aliados ao equilíbrio dos impulsos ao alimento, movimento e conhecimento, sem os exageros próprios do impulso ao poder, já que os cães farejadores são aproveitados pela sua disponibilidade em servir e pela facilidade com que se constituem em equipa. O seu treino deverá iniciar-se aos 4 meses de idade, não poderá ser apressado e os cães melhor apetrechados estarão prontos aos 2 anos de idade. O método de rastrear cadáveres não difere muito do comummente usado na pistagem, somente o objecto a procurar é outro, baseando-se na procura, detecção e recompensa, permanecendo o cão sentado ao lado do cadáver detectado, sinalizando-o sem o danificar para preservar provas ou evidências. A maioria dos cães destinados à detecção de cadáveres pertencem a associações privadas que trabalham em regime de voluntariado, porque o custo relativo à sua formação não é justificado pela frequência do seu uso, sendo raramente chamados a actuar, o que os torna dispendiosos para as forças da ordem. Detectar cadáveres soterrados ou submersos poderá exigir diferentes cães, havendo-os especializados em cada uma das detecções.
Treinar cães destes não é fácil, porque não sobram cadáveres, apresentam-se com diferentes graus de decomposição e os animais ver-se-ão obrigados a procurar ossos e sangue, num total de 480 compostos voláteis que saem dos corpos em decomposição, ignorando-se até ao momento o montante dos detectáveis pelos cães. Nalguns países já existe para o efeito matéria substituta com esses odores e na sua inexistência os adestradores ver-se-ão obrigados a correr atrás de cataclismos, acidentes e desastres, a servir-se de toda a sorte de animais (mormente os de consumo) e não raramente do seu próprio sangue, por ausência de legislação que suporte e legitime o seu trabalho, carenciado de placenta e sangue humano, uma vez que os cães farejadores de cadáveres exigem ter contacto regular com ele, já que os cadáveres humanos produzem compostos orgânicos voláteis únicos. Mercê destas dificuldades, não se estranha a presença destes binómios junto de qualquer desastre que obrigue à procura de cadáveres, tendo como objecto tanto o treino como a detecção propriamente dita, como aconteceu na “Tragédia de Entre-os-Rios”, aquando da queda da Ponte Hintze Ribeiro, que ocorreu em 04MAR01 e que vitimou 59 pessoas que circulavam num autocarro e em mais 3 viaturas particulares, quando se deslocaram para o local vários binómios holandeses com esses propósitos.
Esta actividade exigirá dos adestradores caninos uma profunda cumplicidade com os seus parceiros, treino aturado, rápida leitura das suas reacções, habilidade na leitura de mapas e GPS, boa preparação física, hábitos de trabalho diários e nocturnos, indiferença à claustrofobia e resistência sensorial e psicológica aos diferentes odores resultantes da decomposição/putrefacção (é necessário estômago). A procura de diferentes ossos (frescos ou secos) torna-se obrigatória, tanto submersos como enterrados, para que o animal possa detectar todos os tipos de mortos em qualquer estado de decomposição, ecossistema, cenário, hora do dia e diferentes condições climatéricas. Escusado será dizer que o brinquedo usado como estímulo para o treino e para o desencadear das acções terá o odor típico do cadáver a procurar.
Este trabalho, de extrema importância para a investigação forense e para que se faça justiça, geralmente desenvolvido em paralelo com as polícias, é uma actividade filantrópica e como tal mal remunerada diante da sua azáfama e custos, que exige raros sacrifícios para que cada um possa finalmente enterrar os seus mortos em paz e dar-lhes sepultura digna, o que infelizmente nem sempre acontece, porque alguns corpos desparecem definitivamente e os cães não são mágicos.