Depois do desaparecimento da menina Maddie, que ocorreu a 3 de Maio de
2003 na Vila da Luz/Lagos/ Algarve, com os pais ausentes de casa e da polémica
que rodeou o Casal McCann, muita gente em Portugal passou a julgar (se já não o
julgava) as mães inglesas como pouco cuidadosas e algo desligadas dos seus
bebés. E como do mal se diz nunca vir só, em Sunderland/UK, ao que tudo indica
e aguardam-se novos desenvolvimentos, um bebé de 3 semanas foi morto por um
terrier há 2 dias atrás, quando só com o cão e na ausência da mãe, segundo
noticia a BBC NEWS. De acordo com a mesma fonte, o cão não aparentava ter qualquer
aversão a crianças até à data, pelo que se desconhecem ainda quais as razões
por detrás do seu criminoso acto (provavelmente o animal já habitava naquela
casa antes do bebé chegar). Estaremos perante mais um caso de negligência
maternal? Certo, certo, é que desde 2005 já morreram no Reino Unido 22 pessoas
vitimadas por cães, sendo 12 delas crianças, isto segundo o Instituto Nacional
de Estatísticas daquelas paragens, número que nos afigura deveras preocupante.
Por precaução, caso seja proprietário de um ou mais cães, a sua companheira
esteja grávida ou ambos desejem vir a ser pais, aconselhamos a prévia leitura
do texto “ E QUANDO
O BEBÉ CHEGAR, O QUE FAZER?”, publicado neste blogue no
dia 31 de Agosto de 2009, já que é mais fácil educar cães do que preparar pais.
De qualquer modo, há que respeitar uma regra de ouro: nunca se deve deixar um
bebé de tenra idade sozinho com um cão, por mais inofensivo que o animal nos
pareça e das provas que já nos tenha dado nesse sentido. Oxalá nos dêem
ouvidos!
terça-feira, 23 de junho de 2015
IDADE DE IR PARA A ESCOLA E DE APRENDER A LIDAR COM CÃES
Tendo
em conta o número crescente de crianças e adultos que anualmente são atacados por
cães, que é directamente proporcional ao número de pessoas que nunca tiveram
algum contacto directo com eles, também porque a maioria dos casais dificilmente
terá a possibilidade de adquirir um cão, seria de todo conveniente, para evitar
o dolo da presente geração e das futuras, que os cães se deslocassem às escolas
para as crianças aprenderem como lidar com eles, adquirindo assim regras de
conveniência que lhes possibilitariam estar em segurança com estes animais, uma
vez que não há uma “Quinta Pedagógica” a cada esquina e os cães estão por toda
parte, inclusive onde menos se espera. Seria de todo desejável que tal
acontecesse em simultâneo com a entrada das crianças para o primeiro ano do
Ensino Básico, porque já possuem um certo grau de responsabilidade, aceitam a
culpa com maior facilidade, buscam o elogio e a aprovação, conseguem destrinçar
o bem do mal, mostram capacidade para interiorizarem novos conhecimentos e
experiências (desejo de aprender), procuram fazer amizades e não dispensam o carinho
e o afecto constantes.
Na impossibilidade das crianças terem os seus próprios
cães (se os tivessem só obteriam vantagens), antes que se tornem cinófobas e
venham a ser mal interpretadas por eles, importa mostrar-lhes que a coabitação
com os cães obedece a regras, que uma vez respeitadas, induzirão à parceria e à
cumplicidade. Esta é uma função pedagógica que cabe aos pais, às escolas e que
não dispensa os centros cinotécnicos, porque a uns cabe proteger os seus filhos
e alunos e aos outros mostrar as mais-valias caninas. Durante anos a Acendura Brava
desenvolveu este trabalho junto de várias escolas do Distrito de Lisboa,
realizando exibições e dando a possibilidade às crianças de interagirem com os
cães. Sempre será mais fácil levar meia dúzia de binómios a uma escola do que
largar um infante no meio de uma matilha escolar, fora do seu ambiente e longe
dos seus mestres. Apresentar os cães às crianças é um dever cívico inalienável para
qualquer educador e adestrador. Proceder assim é proteger crianças e cães para
que não venham a ser vítimas uns dos outros.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
QUEM?
Quem
desbravou connosco os primeiros trilhos
Quem
nos acompanhou na primeira jangada
Quem
sempre se alegrou à nossa chegada
E
permaneceu ao lado dos nossos filhos?
(Joshua
Krieger Rheinhardt in “זכרונות ילדות” )
A DOG NAMED GORDON
Um cão chamado Gordon, um Staffordshire Terrier branco, com 2 anos de
idade, surdo, foi abandonado em Novembro nas ruas de Londres, ao que se crê por
causa da sua deficiência. Recolhido pela associação Mayhew Animal Home, está a
ser ensinado através da linguagem gestual e incentivado a interpretar as
expressões mímicas dos seus mestres para facilitar a sua futura adopção. Esta
notícia, que nos chegou pelo “Mirror”, não nos apanhou de surpresa, porque
sempre ensinámos os nossos cães pela linguagem gestual e habilitámos alguns
deles surdos, debaixo da reprovação de alguns consagrados adestradores da nossa
praça, por sentirem a sua “ortodoxia” pedagógica ameaçada. Para além da
recuperação dos cães surdos, a aprendizagem da linguagem gestual sempre fez
parte do treino dos cães de guerra e de guarda, quando importa progredir
silenciosamente, não denunciar a posição, comunicar a maiores distâncias
perante barulho intenso ou debaixo de fogo. Hoje ela é também utilizada em
espectáculos de expressão corporal ou de dança por binómios dedicados a estas
artes.
HERÓI POR SER VÍTIMA OU VÍTIMA POR SER HERÓI?
As agências noticiosas norte-americanas com secções dedicadas aos
animais de companhia, estão a fazer alarido da triste história dum Beagle chamado
Max, que acabou vítima de um filhote de urso, ao enfrentá-lo no quintal dos
seus donos. Exalta-se o facto de se ter interposto entre o dono e o invasor e relega-se
para segundo plano o descuido do dono por detrás do trágico final do cão.
Segundo fazem saber, o proprietário do Max já tinha dado pelo urso no quintal,
mas como deixou de vê-lo, “julgou” que se tivesse ido embora dali, o que não
veio a suceder. Algum tempo depois, não conseguimos precisar quanto, no intuito
satisfazer as necessidades fisiológicas dos seus dois beagles, o Sr. Jeff Hanna
trouxe-os para o quintal, onde viriam a ser surpreendidos pelo pequeno urso,
que acabaria por contra-atacar fatalmente o Max, agora tratado por herói, o que
nos leva a levantar a questão: se foi herói por ser vítima ou vítima por ser
herói?
Analisando detalhadamente o sucedido, tendo conhecimento da tenacidade
dos beagles e do deslumbramento presente nos proprietários caninos, julgamos
que ambas as condições são verdadeiras, porque o cão foi vítima da negligência do
dono e obrigado a ser herói. Em simultâneo, foi a valentia do Max que o vitimou.
Esta história verídica vale pela lição que nunca nos cansamos de repetir: antes
de soltar o seu cão, bata previamente o território e certifique-se da inexistência
de perigos para o animal. Se o Max fosse nosso, provavelmente ainda estaria
vivo. Ficou por contar a invasão e destruição dos habitats das espécies
selvagens pelo homem, que à falta doutros manjares, procuram restos de comida
por toda a parte, inclusive nos caixotes do lixo, invadindo sempre que possível
quintais e cozinhas, não hesitando algumas em transformar pets em menus. O caso
passou no Michigan/USA e foi noticiado há 5 dias atrás.
QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXIII)
O “Coffee” é um Épagneul Breton com 3 anos de idade, do sexo masculino, saudável,
muito activo e alegre, que nunca caçou e que vive num apartamento com os donos.
Diariamente levam-no a um jardim perto da sua casa, onde corre que nem um
desalmado e nunca pára, desafiando os outros cães para correrias infindas,
levando muitos à exaustão. Ontem, mal chegou ao jardim, ao invés das
tradicionais correrias, deteve-se em determinando ponto, persistindo em cheirar
a relva, em lambê-la e em urinar em seguida. Em vão tentaram os seus donos tirá-lo
daquele sítio, porque sempre para lá voltava. Porque se comportaria assim? Hipótese “A”: Estava com problemas
urinários. Hipótese “B”: Alguém
havia ali deixado restos de comida. Hipótese
“C”: Outros machos haviam urinado ali. Hipótese
“D”: Um esquilo havia pernoitado naquele local. Hipótese “E”: Esteve naquele local uma cadela com o cio. Para a
semana cá estaremos com um novo caso e indicaremos qual a hipótese certa.
SOLUÇÃO DA SEMANA ANTERIOR
A Hipótese certa para esta rubrica da
semana anterior é a Hipótese “C”:
Alcançou a maturidade sexual. A Hipótese “A” não deverá ser considerada
porque um cão não se torna desobediente de um momento para o outro
gratuitamente. Dificilmente o Labrador se cansaria de andar ao lado do dono,
porque é naturalmente parceiro e muito fiel, pelo que a Hipótese “B” deverá ser
descartada. A Hipótese “D” carece de fundamento e é contraditória, porque se o
cão tivesse medo de sair à rua não abandonaria o dono e não se deteria a cheirar
tudo ao seu redor. Caso procurasse restos de comida, jamais lhes urinaria em
cima, o que torna a Hipótese “E” isenta de fundamento.
RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS
O Ranking semanal dos
textos mais lidos obedeceu à seguinte preferência:
1º _ PASTOR ALEMÃO X
MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ ÉTICA ESCOLAR NA
ACENDURA BRAVA, editado em 04/02/2015.
3º _ ESTAVA-SE MESMO A
VER!, editado em 15/06/2015
4º _ A CURVA DE
CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
5º _ QUAL SERÁ O MOTIVO
(XXXII)?, editado em 14/06/2015
6º _ A TENTAÇÃO PELOS CÃES
ORIENTAIS E O THAI RIDGEBACK, editado em 15/03/2014
7º _ O MELHOR E O PIOR DO
PASTOR SUIÇO: ANÁLISE MORFOLÓGICA E FUNCIONAL, editado em 21/06/2011
8º _ MAIS AZUL PARA UM
FUTURO MENOS CINZENTO, editado em 21/02/2014
9º _ O CÃO DOS SEPARADOS,
editado em 14/06/2015
10º _ COMO PROCEDER COM OS
CÃES GUIAS DE CEGOS, editado em 04/08/2010
TOP10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS
O TOP 10 semanal de
leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º
Estados Unidos, 4º Rússia, 5º Reino Unido, 6º Irlanda, 7º Ucrânia, 8º Alemanha,
9º Grécia e 10º França.
domingo, 14 de junho de 2015
O CÃO DOS SEPARADOS
Toda a gente sabe e se não
sabe deveria saber, que a aquisição de um cão deverá acontecer por consenso
familiar e não pela decisão unilateral de um dos seus membros, porque a
presença do animal irá alterar a vida e a rotina de todos e o cão será mais ou
menos feliz de acordo com o grupo que o vier a aceitar, porque se trata de uma
adopção que irá exigir disponibilidade, cuidados, atenção e carinho para que
ele se sinta bem, vindo a considerar as pessoas do agregado familiar como
membros do seu bando, o que será deveras importante para o seu desenvolvimento,
sociabilização saúde, bem-estar e longevidade. Como cresce o número de casais
que se separa ou divorcia e muitos deles, quiçá por opção, temor ou impossibilidade
de terem filhos, são proprietários de um ou mais cães, importa avaliar os
reflexos dessas separações para os animais através das soluções comummente
encontradas, nem sempre as melhores, considerando o seu particular social, porque
deixam marcas e que podem levar inclusive ao seu abate.
Assim como há pais separados que fazem dos filhos cavalos de batalha,
também há quem se aproveite dos cães para o mesmo fim, um finca-pé que
normalmente desconsidera as necessidades dos animais e que nada abonará em prol
do seu bem-estar e futuro, particularmente quando entregues a quem pouco se
importa com eles. São 7 as soluções mais usuais para o problema: a entrega ao
elemento activo (líder), a custódia junto do elemento passivo (elemento
neutro), o despacho para a casa dos pais de um deles, o descarte para um amigo
ou casal amigo, a venda do animal (se for de raça, tiver procura e preencha às
expectativas de terceiros), a entrega num canil de adopção e a incorporação
numa força policial ou militar (dependendo da sua idade, características e
mais-valias). O cão poderá ainda ser resgatado por um adestrador que nele possa
estar interessado. Não consideramos como válida a opção de o mandar abater num
canil terminal municipal, muito embora haja quem o faça.
O caso menos lesivo destas
circunstâncias extraordinárias, havendo essa possibilidade, é quando o cão fica
com o líder que escolheu e na casa que sempre conheceu, porque o seu modo de
vida não sofrerá grandes alterações, já que a liderança e o território são os
mesmos, ainda que eventualmente sinta a falta da pessoa que saiu de casa. Resta
saber se a que virá gostará de cães e irá gostar dele, o que desafortunadamente
nem sempre acontece, acabando o animal no olho da rua, despachado à pressa ou
entregue a uma associação de acolhimento (se fosse um filho iria parar a um
colégio interno). Caso o animal fique com a pessoa do casal que não foi o seu
líder e na mesma casa, ainda que o território seja o mesmo, o cão virá a
comportar-se de modo diferente, mostrando-se ansioso, ensurdecendo-se por vezes
e mostrando-se menos alegre e solícito, por lhe faltar o líder e o exemplo que
seguia, porque de imprevisto se viu obrigado à troca de liderança e a aceitar a
autoridade de alguém que até ali era para ele um igual. Alguns cães chegam a
fugir de casa, dependendo isso dos vínculos afectivos que mantinham com os seus
líderes. Com o decorrer do tempo e muita paciência por parte da pessoa que o conservou,
o animal adaptar-se-á, podendo incompatibilizar-se com um futuro morador daquela
casa, o que exigirá dele algum tacto e sensibilidade, para que venha a ser
aceite pelo cão.
O despacho do animal para
casa dos pais de um dos separados ou para a casa duns amigos de algum deles é
uma das opções mais comuns, especialmente se tiverem mais cães e espaço,
condições que à partida deixarão o casal em litígio mais descansado quanto á
sorte do cão, já que terá “amigos” para brincar e espaço para correr, o que
amenizaria a sua separação forçada. Infelizmente, como alguém já disse, o céu e
o inferno estão cheios de boas intenções e os desejos nem sempre se cumprem. E
neste caso poderão não suceder, porquê? Subsistem múltiplas razões, quase todas
ligadas ao facto dessas pessoas não terem criado o cão e desenvolvido até então
o afecto e a cumplicidade que o seu crescimento ofereceu, sobrando ainda a
estranheza do animal perante tal gente e a novidade dos seus hábitos e rotinas.
É importante recordar que os cães vivem da experiencia que têm, são seres
sociais e não se encontram preparados para andar de mão em mão. Por outro lado,
a menos que já o tivessem conhecido e dividido com ele o mesmo espaço sem
problemas, os cães residentes não verão com bons olhos o recém-chegado, porque
verão o seu território e cuidados repartidos, podendo resistir a essa
repartição por meios mais ou menos violentos, o que de alguma forma sempre
colocará o despachado em desvantagem, porque o seu líder está ausente e o grupo
não o aceita. Quem o defenderá, quem lhe devolverá a primazia? Sentir-se-á a
bem com a rejeição e a despromoção?
Passadas algumas
escaramuças e umas tantas dentadas, o despachado será finalmente escalonado no
grupo. Mas supondo que o cão pertence ao grupo dos dominantes e carrega nos
demais, haverá paciência para ele? Quem será mais uma vez isolado? Quem
concorrerá à castração? Quem preferencialmente será posto na rua? Não há
relatos do abate de alguns cães? Que ninguém se iluda: o maior sucesso nas
adopções acontece obviamente entre os submissos, não entre os valentes! Antes
de se confiar um cão a um amigo, que convém ter uma estabilidade familiar capaz
e todo o seu agregado familiar se encontrar de acordo quanto à
aquisição do animal, para que o cão não volte ao mesmo fado, urge aquilatar da
sua disponibilidade anímica, temporal e financeira para poder valer ao animal,
de modo a manter-lhe a manutenção, a assistência médico-veterinária, os hábitos
e rotinas de que é portador, o que suavizará a ausência do antigo dono e
facilitará a aceitação do novo espaço. A primeira das razões de sucesso por
detrás da adopção de cães e que os torna gratos, é a melhoria global das suas
condições de vida, que os leva a esquecer donde vieram (quando tal é possível)
e a abraçar sem delongas o novo status.
Se houver a opção de se vender o animal, duma coisa podemos estar
certos: vão querê-lo comprar por uma ridicularia, por conhecerem a situação
aflitiva dos donos. A venda do cão nestas circunstâncias não lhe garante o bom
trato nem o dono, porque não respondendo às expectativas de quem o adquiriu,
bem depressa mudará de dono e ainda dará algum lucro, até porque o segredo do
negócio começa na compra. A entrega num canil ou associação de adopção é uma
lotaria e caso o animal venha a ser adoptado, ninguém lhe garante a sorte,
porque não são raros os cães que ele retornam ou que acabam abandonados pela
vergonha de os devolverem, tendo a morte mais do que certa. A incorporação numa
força policial ou militar é à partida uma boa opção, porque o animal será
tratado condignamente, pelo menos enquanto estiver no activo (a adaptação do
cão não será automática e será feita a expensas próprias). A aquisição do
animal por parte dum adestrador poderá não ser desinteressada e geralmente não
é, porque já lhe tem serviço ou cliente destinado, vindo a ser melhor ou pior
tratado. Há casos de adopções felizes? Sem dúvida, ainda que não sejam muitas,
considerando o menor poder de compra, indisponibilidade, pouco conhecimento,
tipo de parceria e condições de quem se predispõe a adoptar.
Sejamos sinceros, quando alguém se livra de um cão nestas circunstâncias
ou noutras similares, talvez por descargo de consciência, não prefere pensar e
dizer para os outros que o animal foi para melhor, quando na esmagadora maioria
dos casos suspeita exactamente do contrário? Para quem tem a família à
experiência, mais vale assumi-la primeiro e só depois pensar nos cães! Como
pode alguém assumir um compromisso com um cão, se não faz com a sua própria
família? E se a família está em crise, o que não é de hoje e não suscita
dúvidas a ninguém, os cães não serão os primeiros a ser desprezados e
defenestrados? Felizes são os cães de um só dono até que o deixem de ser,
podendo continuar a sê-lo, se agradarem a quem chega. Mais felizes serão
aqueles que encontrarem uma família que divida com eles a sua vida. Apesar de
tudo o que dissemos, não conseguimos falar pelos cães, caso falassem, muito
mais teriam a dizer.
O PRÉSTIMO DOS RAFEIROS
Os rafeiros em Portugal, suavizados pela designação de “cães sem raça
definida”, cujo número de abatidos não ousamos contabilizar, por ser maior que
o esperado e uma vergonha para todos nós, para uns têm sido uma bênção e para
outros uma praga, respectivamente para quem os adopta e para quem não os
tolera. Filhos da selecção natural e da desventura, sempre têm andado de braço
dado com a fome, com os maus tratos e o abandono. Apesar de mais resistentes,
saudáveis, equilibrados e com maior esperança de vida que os seus pares com
pedigree, grande número deles irá morrer precocemente nos canis municipais,
onde invariavelmente a injecção letal os espera, por não haver quem os reclame,
solução draconiana que vai contra tudo aquilo que hoje ensinamos e acreditamos.
Mais do que em factos ou numa pretensa menos valia, a indiferença, o
desrespeito e o desaproveitamento destes cães, têm resultado de falsas
premissas, ideologias desprezadas e ancestrais preconceitos, enraizados na
nossa cultura no passado recente e/ou desde tempos imemoriais.
Haverá neles algum préstimo ou serão uns estupores sem qualquer
proveito? Antes de respondermos à questão, razão objectiva deste texto,
adiantamos que treinámos ao longo dos anos e em simultâneo rafeiros e cães de
várias raças, convidando todos para o mesmo desempenho e tarefas, segundo a sua
morfologia, estatura, peso e envergadura. Sem que isso constituísse para nós
qualquer novidade, porque já o sabíamos, os cães de raça indefinida
mostraram-se mais versáteis, evidenciaram maior rusticidade, revelaram-se mais
fáceis de ensinar e atingiram níveis de cumplicidade acima dos encontrados nos
seus colegas standartizados, resultado também comprovado noutras escolas
caninas. Voltando à questão, entendemos que os rafeiros apresentam três
mais-valias a considerar, enquanto cães de terapia, como melhoradores das raças
existentes e como semental para a formação de novas raças.
Em oposição à maioria das raças caninas, que necessita de algumas
específicas para esse trabalho, raro é o rafeiro que não se presta como cão
terapia, facto que fica a dever-se ao equilíbrio dos seus impulsos herdados e à
ausência da excessiva manipulação humana, factores que facilitam a sua
interacção com os humanos sem maiores cuidados e sobressaltos. Portadores de
uma maior rusticidade e distantes das maleitas resultantes da endogamia e da
excessiva consanguinidade presentes nos cães de raça, eles poderão vir a ser
melhoradores das distintas raças caninas, dotando-as de mais saúde e equilíbrio,
devolvendo a algumas delas o potencial sensorial de que se viram privadas pela
procura doutros usos e propósitos (não é por acaso que a hibridação está na
moda). No caso português, a maioria dos rafeiros ainda descende de cães
primitivos e do tipo spitz, mais ou menos mesclados com bracóides, que tanto
poderão ser usados para a recuperação de cães ancestrais como para a formação
de novas raças, tangencialmente mais próximas dos desejos actuais. Acresce
ainda o facto das rafeiras se prestarem facilmente como amas-de-leite ou
madrastas, tanto de cães como doutros animais.
O préstimo que reconhecemos aos rafeiros reforça a nossa oposição às
actuais campanhas de castração, que contrariamente ao que se badala, não têm
surtido o efeito desejado, facto comprovado pelo aumento do número de
associações que se dedica ao resgate dos animais. Melhor seria controlar a
natalidade canina do que esperar que os cães nasçam para depois os castrarem. E
se eventualmente o número de cães abandonados diminuiu, não o podemos dissociar
da actual crise económica, porque o tempo não vai para devaneios e as sobras
não são muitas, muito embora possa surtir o efeito contrário, porque
escasseando o pão, o cão é posto à estrada. Se entendermos os nossos rafeiros
como uma herança de tempos remotos, reconhecermos as suas mais-valias e
vencermos o preconceito, rapidamente mudaremos de opinião a seu respeito e
usufruiremos do muito que têm para nos dar.
A PUPPY VOADORA
A Puppy, uma híbrida de Barbudo dos Açores com um cão de raça
indefinida, chegou-nos com a Rute, vindas doutra escola, onde aprenderam o
básico que lhes possibilitou o seu avanço entre nós. Neste momento a condutora
está a fazer o Curso de Monitores e a cadela nem parece a mesma, porque chegou
aqui demasiado travada e agora parece que voa, alteração que ficou a dever-se
ao progresso da dona e ao alcance de maior autonomia por parte da cadela, que
desfila alinhada em liberdade como se andasse á trela. Com a melhoria da cumplicidade
binomial, a Puppy aceita hoje qualquer desafio, desenvolvendo performances
atléticas notáveis e evidenciando maior segurança. Oxalá assim continuem e não
percam de vista os seus objectivos, já que a dona tem muito para aprender e a
cadela muito mais para dar.
ESTAVA-SE MESMO A VER!
Quisemos saber qual a
preferência das pessoas entre um bebé e um cão, atrelando ao carrinho duma
criança o animal, numa rua muito movimentada, num horário bastante concorrido e
no período de 1 hora. 18 pessoas de ambos os sexos, com idades compreendidas
entre os 23 e os 70 anos, aproximaram-se deles, 15 fizeram festas ao cão e o
ignoraram o bebé e somente 3 ignoraram o animal e acariciaram a criança. As
três pessoas que optaram pelo bebé, todas do sexo feminino, tinham
respectivamente as idades de 45, 52 e 67 anos. Todos os jovens, cerca 40% do
total, de ambos os sexos e com idades compreendidas entre os 23 e os 27 anos,
optaram por acariciar o cão. Estava-se mesmo a ver: venham os cães que os
filhos podem esperar! Enquanto o País perde habitantes, o número de cães não
pára de aumentar. O que nos reservará o futuro, onde iremos parar? Ao que
parece o fenómeno é mundial, não será ele uma forma encriptada dum suicídio
global há muito anunciado? Sacrifício por sacrifício, qual valerá mais a pena:
pelos filhos ou pelos cães?
IGNIS FATUUS (FOGO-FÁTUO)
O Fogo-fátuo (do latim i̅gnis fatuus) é uma luz azulada
que pode ser avistada em pântanos, brejos, etc., uma inflamação espontânea do
gás metano (CH4) resultante da decomposição de seres vivos (plantas e animais
típicos do ambiente). São também fogo-fátuo as labaredas vindas dos túmulos nos
cemitérios, porque resultam da Fosfina (PH3) presente na decomposição dos
cadáveres, que se apresenta à superfície dos túmulos na sua forma gasosa, sendo
um gás altamente inflamável que se combusta à temperatura ambiente,
particularmente nos dias mais quentes. A ocorrência de um fogo-fátuo,
dependendo das circunstâncias e condições, pode despoletar um incêndio de
proporções muito maiores. E se por acaso for surpreendido por um fogo destes,
não se alarme e não fuja, porque ele segui-lo-á devido à deslocação do ar
produzida pelo movimento do seu corpo (deixe-o arder).
Não é de química que queremos tratar aqui mas de uma raça que entendemos
encontrar-se moribunda: o Cão de Pastor Alemão, que sobrevive hoje pelas
memórias do passado, tal qual fogo-fátuo que se ergue sobre as campas dos
finados. Pelas nossas contas, a raça encontra-se em decadência há mais de 50
anos, vindo a ser gradualmente substituída por outras nos serviços que a notabilizaram.
Aos gloriosos cães de outrora (guardas, policiais e militares), que sempre são
mencionados na venda dos actuais, sucedem-lhe agora os esganarelos do presente,
cães de lastimável apresentação, de biomecânica periclitante e muitos deles
disfuncionais, ora lembrando miniaturas dos seus protótipos ora recordando as
primeiras bicicletas (as de Pierre Michaux ou as Penny Farthing) cuja roda
dianteira, para além de ser pedaleira, era substancialmente maior que a
traseira (estes cães sobrecarregam em demasia as mãos).
Raros são os Pastores Alemães actuais verdadeiramente aprumados e
robustos, sendo natural encontrá-los de peito estreito ou invertido, com
exagerado abatimento de metacarpos, mãos divergentes, parcos de ossatura e
cabeça, de codilhos afastados, com os ossos a romper a pele e com jarrete de
vaca, havendo cães com peso de cadelas e cadelas com peso abaixo do estalão, em
tudo idênticos ao Malinois que porventura lhes serve de inspiração. Não
obstante, sobra ainda a falácia de alguns eruditos, que não tendo quem os
contradiga, adiantam que o Pastor Alemão para ser bom, tem que ser pequeno
(para a carteira não será mau, tanto para quem vende como para quem compra)
Estes desaprumos e menos valias acabam por interferir no bom desempenho
atlético destes cães, promovendo-lhes dificuldades na transição dos andamentos
naturais, dificultando-lhes a sua escalada, levantando-lhes problemas na
transição de saltos contínuos, extenuando-os e tonando-os irritadiços ou
carentes, mais sensíveis às contrariedades e necessitados de maior estímulo, o
que lamentavelmente nada abona a favor da sua autonomia funcional, por lhes
faltar a segurança e o equilíbrio para o desempenho esperado. E como tarde é
aquilo que nunca chega, ainda que timidamente, aqui e ali começam a aparecer
exemplares capazes, muito embora o seu número não chegue para contrabalançar o
montante dos desprezíveis, que continuam a proliferar e a ser vendidos à custa bom-nome
dos Pastores há muito enterrados e que nada têm a ver com eles, de quem são uma
ténue e pálida imagem, fogo-fátuo de uma glória que não lhes pertence.
DUO PELA MILÉSIMA VEZ
Pela milésima vez, porque já perdemos a conta a quantos cães o ensinámos,
convidámos o Ricky e a Puppy para o “Duo”, manobra de sociabilização sempre em
uso na Acendura Brava, destinada aos cães em geral e em particular para os cães
de guarda, a quem é exigida uma sociabilização entre iguais inquestionável, uma
obediência com a mesma característica e uma sobriedade de carácter notável. A
manobra consiste no salto dum cão sobre outro que se encontra de pé e imóvel,
também na passagem por debaixo dele, o que obrigará o cão em movimento a
rastejar. Os cães prestam-se alternadamente ao mesmo exercício e a nenhum deles
é permitido distrair-se, intimidar-se, intimidar ou agredir o seu companheiro
de trabalho. E como por norma acontece, tudo correu bem, desfecho ligado ao
conhecimento dos cães à sua carga horária escolar.
RICKY: O BARQUEIRO
O Ricky é um Pastor Alemão com um ano e meio de idade, propriedade dos
pais do Ricardo e que é conduzido por ele (não será o contrário?). O Ricardo é
um miúdo a entrar na puberdade, mais palrador do que ouvinte, confuso, simultaneamente
desafiador e introvertido, extraordinariamente sensível e emotivo, com uma
visão da vida acolchoada e resistente à eclosão dos seus talentos, um miúdo
igual a tantos outros da sua idade, de alma e estampa meridional. Quando o
descrevemos, lembramo-nos logo da descrição de Alves Redol acerca da personagem
Constantino, na sua obra “Constantino guardador de sonhos e de vacas”, leitura
que lhe recomendamos, muito embora subsista entre ambos uma diferença: o miúdo
saloio era mais ambicioso que este lisboeta, talvez por ser menos protegido e
ter que se jogar à vida. Quanto ao Ricky, o cão alemão é um autêntico
barqueiro, um companheiro que tem ajudado o Ricardo a fazer travessia de casa
para o mundo, da protecção para a responsabilidade, da ficção para a realidade,
dos sonhos para a ambição e da indicação para a escolha, um amigo único pela
sua devoção. E isto tudo sem o miúdo dar por isso! Obrigado cão, parabéns pais.
E se amanhã se escrevesse um livro acerca deste humilde cão, certamente
mereceria o título: “ Ricky pastor e barqueiro”.
NÃO SEI, É A QUE SE VENDE NO SUPERMERCADO!
Quando questionamos os
proprietários caninos acerca da ração que estão a dar aos seus cães, a resposta
mais comum é: ”Não sei, é a que se vende no supermercado!” As outras mais
usuais são: “A que o veterinário me indica” e “A que o criador me recomendou”.
Se a primeira resposta é decorrente de uma razão económica, sabendo-se que as
grandes superfícies comerciais são pródigas em rações aparentemente baratas, as
seguintes assentam numa relação de confiança com os veterinários e criadores
dos cães, indivíduos que juntam à sua actividade a venda de rações, tirando partido
da sua influência para fins mais ou menos lucrativos, estratégia também seguida
por alguns treinadores de cães, podendo uns e outros vender toda a sorte de
acessórios, o que associado às vendas através da Internet, têm sentenciado à
falência as outrora florescentes “Pet Shops”, sobrevivendo um punhado a troco
da venda de rações ao quilo para os mais diversos animais, permanecendo no ramo
somente os que não o podem abandoná-lo (pela idade, ausência de capital e medo
de arriscar), caso a renda seja barata.
É estranho reparar que a maioria dos proprietários caninos ou desconhece
a marca da ração e/ou a sua composição, não sabendo diferenciar as existentes
no mercado (que são cada vez mais) pela sua qualidade, se são ou não indicadas
para a idade, raça, particular sexual e tipo de exercício a que sujeitam os
seus cães, pagando alguns uma exorbitância por rações de menor qualidade, só
porque são amplamente publicitadas, recomendadas por quem julgam saber mais do
que eles ou porque os cães da vizinhança não se queixam. Será que não se
queixam? Verbalmente não, mas carregam no seu aspecto geral, no manto, na envergadura,
no esqueleto, nas articulações e no desempenho das suas tarefas os benefícios
ou impropriedades da ração que lhes é distribuída, que se reflectem também no
seu bem-estar, saúde, crescimento, na apetência do alimento, no aparelho
digestivo, disponibilidade, tempo de recuperação, concentração, autonomia, tenacidade,
força e resistência.
Desconfia-se da qualidade
das rações quando: o cão come que nem um desalmado e não engorda ou mal pega na
ração, quando de depois de ingeri-la bebe água em demasia, anda constantemente
esfomeado, a comer ervas, fezes, caliça e estuque, rói madeiras e pedras, está continuamente
a defecar ou tem dificuldades em fazê-lo e faz fezes deformadas ou em pasta. Também
quando o seu manto de encontra seco e baço, os seus dentes se apresentam precocemente
gastos e sem brilho e o seu estômago dilatado (os sintomas não se esgotam aqui).
Não falta à maioria das rações o teor de proteína recomendado, resta saber qual
o seu grau de absorção. O maior défice nas rações assenta sobre o percentual e
a qualidade da gordura, pormenor que influirá directamente no seu preço.
Importa também considerar o seu grau de digestibilidade e as vitaminas e
minerais presentes na sua composição, ainda que a sua absorção seja diminuta e não
seja absoluta ou integral. Muitos fabricantes de rações, ao invés de se valerem
das carnes recomendadas para os cães, aproveitam-se de subprodutos animais,
inclusive de carcaças, geralmente adquiridas a um preço irrisório e que também
se prestam para a elaboração de salchichas para consumo humano. A esses
subprodutos dão-lhe o nome de “farinha ou derivados de…” e não de “carne de…”.
Também na existem milagres na alimentação dos cães e uma ração se
qualidade não poderá ser barata, ainda que o preço por si mesmo não indicie a
qualidade, porque há por aí muitas que são caras e cujo proveito é deficitário,
sendo mais lucrativas para quem as vende do que para quem as consome. Nem
sempre os valores adiantados nos sacos correspondem ao seu valor real, sobrando
quase sempre algumas diferenças em prejuízo dos consumidores (falamos com
conhecimento de causa porque já mandámos analisar algumas). As rações com carne
de borrego são topo de gama e as mais indicadas para cães em crescimento ou
sujeitos a exercício intenso. As mais baratas são as de farinha de frango e as
de carne de frango são as indicadas para animais mais sensíveis (diz-se que a
canja de galinha é própria para doentes). E como de outra coisa não se fala a
não ser dos ácidos Omega, cuidado com as rações à base de peixe (salmão, etc.),
porque podem provocar problemas cancerígenos, já que o peixe utilizado é de
piscicultura e sujeito a “bombadas químicas”, cujos efeitos ainda não são
totalmente conhecidos. Uma boa ração à base de peixe combate as alergias, facilita
a digestão e tem uma acção benigna sobre os dentes, cartilagens, ossos e
articulações dos cães (por causa dos benefícios dos ácidos Omega).
A melhor comida para os cães é a fresca, quando bem balanceada e feita
por quem sabe, ainda que seja menos prática que a ração, que será sempre um
repasto de substituição. Quem nos poderá indicar a ração ideal para o nosso
cão? De princípio o nosso veterinário assistente, muito embora a experiência
daqueles que trabalham cães não seja de desprezar. As rações que se vendem nas
grandes superfícies comerciais são as melhores? Raramente são, ainda que
garantam por vezes a relação preço-qualidade. Recomendamos alguma ração? Sim, a
quem nos perguntar. Uma boa ração de crescimento tem um preço aproximado por
quilo de 2.6€, uma de manutenção 1.85€ e uma de borrego de 2.75€. Diz-se no
futebol que “equipa que ganha não se mexe” e com as rações deverá suceder o
mesmo, já que sua a troca sistemática para nada serve a não ser para tornar os
cães biqueiros e gulosos. Não raramente são os cães os primeiros a dizerem se
uma ração é boa ou má. Esteja atento ao seu cão!
SEGUIR O PELOTÃO DA FRENTE
Francamente não sabemos se
temos em Portugal um Banco Hematológico Canino a funcionar, gostaríamos de
acreditar que sim, pelo menos na Faculdade de Veterinária estatal. E como
importa seguir o pelotão que vai na frente, porque de outra forma ficaremos
irremediavelmente atrasados, vamos agora falar do caso inglês, indubitavelmente
um exemplo a seguir, diante do número de cães existente nos lares portugueses.
O “Pet Blood Bank UK” é um serviço nacional de banco de sangue canino, a
primeira e única instituição de caridade do Reino Unido deste tipo, que actua
há oito anos e tem mais de 6.000 dadores nos seus registos. Em média, faz três
sessões semanais de colheita de sangue, podendo cada uma atender até 22 cães
dadores. Para serem seleccionados e aceites como dadores, os cães terão que ter
mais de 25kg, gozar de boa saúde, não ter febre e as suas frequências cardíaca
e respiratória serem normais. Em simultâneo e entre outros requisitos (entre
eles a análise comprovativa da qualidade do sangue), porque ali ninguém brinca em
serviço, os donos dos cães garantirão ainda que os seus pupilos não saíram dos
territórios à sombra da "Union Jack" (da bandeira do Reino Unido).
A prática dos cães dadores
de sangue tem vindo a aumentar significativamente, bastando para isso comparar
os valores do primeiro ano desta instituição com os actuais, pois passou de 200
dadores para mais de 6.000 e de 500 unidades de sangue para 5.000 (cada unidade
de sangue tem 450ml). Uma vez certificado o cão dador, o animal irá com os seus
donos para a sala de colheita de sangue, sendo convidado a deitar-se sobre o
lado em que se sente mais cómodo. Depois de calmo e confortável, é-lhe inserida
uma agulha na veia jugular, procedendo-se à colheita de 450ml de sangue,
intervenção que durará de 5 a 10 minutos. Uma vez o sangue recolhido, o cão
recebe carinho e apreço de todos ao seu redor, para além de água, um lanche, um
brinquedo, tempo para se relaxar e um lenço vermelho como prova da sua dádiva.
A colheita de sangue não é dolorosa e a prová-lo estão os cães que
repetidamente dão sangue ao longo dos anos, cuja mímica não denota temor ou
tristeza. Caso algum cão entre em stress, a colheita de sangue é automaticamente
interrompida.
O saco selado do sangue será depois enviado para o centro de caridade em
Loughborough/Leicestershire, para se processar a separação do plasma das
células vermelhas do sangue (eritrócitos). Ambos serão então armazenados até
serem requisitados por um veterinário (o plasma é congelado até cinco anos e as
células vermelhas do sangue são refrigeradas até seis semanas). Os cães que
forem operados em Inglaterra podem ficar descansados, pois se vierem a
necessitar de uma transfusão de sangue, ela não faltará, contrariamente ao que
aqui se passa, onde para o efeito se caça um cão “à meia-volta”. Volta e meia,
dá-nos vontade de emigrar.
CÃO QUE NASCE TORTO PODE ENDIREITAR-SE
Ao contrário do que diz o provérbio popular: “quem
nasce torto, tarde ou nunca se endireita”, ao referir-se ao particular da
personalidade de determinados indivíduos ou a uma empresa mal estruturada, os
cães que nascem tortos por anomalias genéticas conseguem endireitar-se pelos
avanços da ciência. Tal foi o caso do Quasimodo, que por alguma semelhança com
a personagem central do livro “Notre-Dame de Paris” da autoria do francês
Victor Hugo, granjeou esse nome. Este pequeno cão nasceu com defeito nos
pulsos, conforme se pode ver na foto acima, o que o impedia de caminhar
normalmente e que resultou no seu abandono, sendo descarregado dum camião, em
plena via pública, no Verão do ano passado (o episódio aconteceu nos Estados
Unidos).
Afortunadamente, porque para tudo é preciso ter
sorte, acabou por ser resgatado por uma família que o adoptou, vindo mais tarde
a ser sujeito a várias cirurgias, suportadas por donativos alheios, no Ohio
State University Veterinary Medical Centre, para que pudesse andar como os
outros cães, desejo que se confirmou pelo sucesso das cirurgias. Depois de
operado e convidado para andar, mostrou-se a princípio receoso e nervoso mas
estimulado pelos sentidos e pela curiosidade do mundo à sua volta, lá lhe tomou
o jeito e ousou dar os primeiros passos como qualquer cão. Agora que caminha
como os outros, não seria altura de lhe trocarem o nome? Por certo haverá muita
gente grata aos cães, tanta que as manifestações de solidariedade relativas a
estes animais não param de aumentar. Aconteceu nos Estados Unidos, dificilmente
aconteceria aqui… ou talvez não.
QUAL SERÁ O MOTIVO (XXXII)?
O “Travolta” é um cachorro
Labrador preto que recentemente completou 7 meses de idade. A partir dos 4
meses passou a acompanhar o seu dono que adora andar de skate, fazendo-o com
alegria e sem necessitar de trela. Ultimamente anda algo estranho, mal o dono
se distrai afasta-se dele, ficando para trás, cheirando as árvores e o chão ao
seu redor, urinando com nunca, ainda que pouquíssimo de cada vez. O dono anda
intrigado e teme que o cão se torne ainda mais desobediente. Não tendo outro
remédio, é obrigado a circular com o cachorro atrelado. O que se terá passado
pela cabeça do Travolta? Hipótese “A”:
Está a ficar desobediente e precisa de treino. Hipótese “B”: Está farto de correr ao lado do skate. Hipótese “C”: Alcançou a maturidade
sexual. Hipótese “D”: Ganhou medo de
sair à rua. Hipótese “E”: Procura
restos de comida. Para a semana cá estaremos com um novo caso e indicaremos
qual a hipótese certa.
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