quinta-feira, 13 de novembro de 2014

DECLARAR GUERRA AOS SPRAYS

Com o “Acordo de Schengen”, ratificado pelo “Tratado de Amesterdão” (02 de Outubro de 1997), os países da União Europeia abraçaram uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários. Somente a Grã-Bretanha e Irlanda não aderiram ao que veio a chamar-se “Espaço Schengen”, conservando até hoje algumas das suas históricas políticas fronteiriças. Esta política de livre circulação de pessoas, óptima para os negócios e para quem viaja, para além desses benefícios, vulnerabiliza e compromete a segurança interna de cada país, porque nem tudo o que entra ou sai é benéfico e recomendável. Em termos legislativos, ainda há um longo caminho a percorrer e nem tudo o que é proibido num país é ilícito nos restantes. Em termos práticos, os portugueses passaram a ter fronteiras com países longínquos, com nações do norte da Europa, euro-asiáticas e do Mediterrâneo oriental, áreas geográficas político-estratégicas sensíveis, tradicionalmente concorrentes e não raramente contrárias aos interesses europeus (ainda recentemente andou um bombardeiro russo a pairar sobre os nossos céus e um navio da mesma procedência a navegar dentro da nossa zona marítima exclusiva), o que tem facilitado a emigração ilegal, a instalação de toda a sorte de máfias e a infiltração de ideologias e indivíduos de propensão manifestamente terrorista.
Pondo de parte as questões relativas à segurança das nações europeias, que põe as polícias com os nervos em franja e obriga os militares a combaterem para além das fronteiras comuns, sobre os países originários e expansionistas do terror, agora a recrutarem jovens entre nós, vamos debruçar-nos sobre os sprays, contra-arma hoje quase banalizada para a imobilização e eliminação dos cães guarda, exactamente os mesmos utilizados contra as pessoas e que fazem parte do arsenal das armas químicas, sendo o gás pimenta o mais usual, o que não significa que outros não tenham sido usados ou venham a ser utilizados. A ocorrência desses sprays entre nós é anterior à nossa entrada na CEE e chegaram aqui pela mão de cidadãos estrangeiros ou de emigrantes, que os usavam para a segurança pessoal (particularmente das senhoras) nas grandes cidades europeias, onde a presença de minorias desfavorecidas, a instabilidade e as convulsões sociais concorriam para o aumento da criminalidade. Depois disso, o recurso aos sprays com fins criminosos aumentou exponencialmente, graças à acção duma minoria de indivíduos, oriundos da extinta URSS e de alguns estados seus satélites, assim como doutros provenientes dos “ Mares do Sul”, ligados ao crime mais engenhoso, ao tráfico de armas, à extorsão e à prostituição.
Diante deste panorama, que parece ser de ficção científica para quem não sofreu os seus horrores, não basta treinar a comum “recusa de engodos” e importa alertar os cães contra o perigo dos sprays, trabalho sério, necessitado de actualização e reciclagem, quando urge salvaguardar os animais, que passa por medidas preventivas e pelo preparo dos guardiões. O primeiro cuidado a haver é o de não familiarizar os cães com os sprays, evitando-os a todo o custo, independentemente do seu propósito ou uso, quer ele seja terapêutico, profilático, higiénico ou cosmético. Caso não nos sobre outra alternativa e justificando-se o seu concurso, deverá ser sempre o dono a aplicá-lo, mesmo que necessite de aprendizagem ou conselho doutrem para o fazer, o que naturalmente aumentará a desconfiança animal diante dum spray em mãos alheias. Ao mesmo tempo e debaixo do mesmo cuidado, não deverá ser permitido aos cães brincar com latas de spray e pulverizadores vazios, nem tão pouco com garrafas de água, já que estas induzem à procura das outras. Para isso temos cá os brinquedos, que ainda se prestam a válidos e diferentes propósitos.
Ainda antes do treino propriamente dito contra os sprays e mediante o contributo da “experiência directa”, que se reverte em lições de vida para os cães, deveremos associar esses utensílios a algo que lhes seja desagradável ou que os surpreenda pela negativa, o que aumentará o seu cuidado, suspeição, aversão e raiva. Para que isso aconteça, é de todo conveniente que soltemos o comando de “perigo” diante de toda e qualquer embalagem de spray, operando depois o seu rebentamento ou incêndio, induzindo os cães a ladrar perante o ocorrido, para que a aversão não se transforme em medo, o que seria contraproducente. Quando a aversão se tornar um facto, por ser mais eficaz que todas as inibições, uma embalagem de spray colocada no sítio certo, poderá evitar muitos estragos, servir de marcador para delimitar, junto aos portões, a área de segurança relativa aos sprays, dispensando o uso de coleiras de descargas eléctricas, que esfrangalham e derretem o sistema nervoso dos mais valentes, usadas por alguns para sua comodidade e que por vezes se incendeiam, causando queimaduras graves nos seus portadores, havendo ainda algumas que atraem os raios (nem tudo vem no folheto explicativo).
Apesar deste trabalho ter que ser feito, ele não garante totalmente a salvaguarda dos animais, porque o engenho humano é dinâmico e a maldade nunca pára, o que é válido tanto para o bem como para o mal, levando os meliantes à refinação dos métodos e ao melhor disfarce das suas intenções. Hoje, os ataques com spray são mais dissimulados que outrora, o que dificulta a identificação canina, mercê das diferentes apresentações dessas armas, que aparecem embutidas ou acopladas em batons, canetas, canivetes multiusos, telemóveis e onde menos se espera. Ainda não vimos nenhum spray dentro dum osso ou de uma bola, mas não nos custa acreditar que já existam, porque o seu fabrico não é dispendioso e os resultados serão os expectáveis.
É evidente que observando o constante no art.º 12 da Lei 46/2013 de 4 de Julho, referente aos cães de guarda, a protecção contra sprays quase que se encontra garantida (a menos que sejam arremessados), mas como são poucos os proprietários caninos que se encontram em conformidade com a Lei (alguns não têm os cães registados ou têm-nos como sendo animais de companhia), vamos aqui adiantar o treino para os cães desses incumpridores, que é exactamente igual aos de outros mais zelosos. Perante a eficácia dos sprays, urge impedir os cães de se lançarem aos muros e portões. Na impossibilidade de os anteceder por uma cerca que impeça os cães de lá chegarem, para ficarem fora do raio de acção dos sprays, só o condicionamento o poderá fazer.
Os meios do condicionamento a haver passarão pela inibição, para que os cães ladrem a uma distância mínima de 5m dos limites da propriedade e dos seus acessos, perímetro de segurança que os livrará do atordoamento e da eliminação. Para o alcance desse condicionamento poder-se-á usar uma trela extensível e toda uma série de manobras dissuasoras que sirvam aos seus propósitos, perceptíveis ou tiradas de surpresa, conforme a resistência individual de cada cão. Este travamento, enquanto resposta artificial, carece de trabalho aturado e recapitulação, porque o seu alcance e adaptação não são automáticos nem eternos. Os cães mais desconfiados, por razões que de imediato se compreendem, absorvê-lo-ão mais rápido do que os mais valentes, mais dados a desafios e menos cautelosos. Tanto o treino como a recapitulação desde condicionamento, deverão acontecer em diferentes horários diurnos e nocturnos, para que ele se torne efectivo e a salvaguarda dos cães seja garantida. Como preparação para este trabalho exige-se, como condição prévia, a cessação ordenada e pronta dos ataques caninos. O recurso à recompensa, enquanto acto de aprovação, auxilia e estimula de sobremaneira esta capacitação. 

QUAL SERÁ O MOTIVO?

A Lara tem dois amores: o Platão e a Dora. O Platão é um adorável pastor alemão de 18 meses, nada agressivo, muito dedicado à dona, que divide o apartamento com ela e que dorme à porta do seu quarto. A Dora, agora mais assídua naquela casa, é a namorada da Lara, com quem namora há 3 meses. Como se entendem às mil maravilhas e sentem que se completam, pensam em “juntar os trapinhos” e quiçá até casar, apesar dos pais da Lara reprovarem aquele romance. Discretas na rua e no trabalho, entregam-se vivamente aos afectos dentro de casa. Numa noite, depois de terem ido a uma discoteca e terem bebido alguns “shots” com uns amigos, foram para casa da Lara e inebriadas pelo calor tórrido da paixão, deitaram-se na cama e entregaram-se às suas delícias, com o cão a assistir a tudo.
No meio daquela entrega suada e vivida, a dona do animal soltou um grito de prazer. Breves momentos depois, a sua namorada levantou-se para ir à casa de banho, intentando passar por cima do cão, que como era seu hábito, se encontrava deitado à porta do quarto. Sem que ninguém contasse com isso, o pastor alemão mordeu-lhe valentemente as pernas desnudadas, o que a levou a receber tratamento hospitalar. Depois do ocorrido, ambas decidiram mandar abater o cão. Porque teria ele agido assim? Hipótese A: Porque era noite, assustou-se e teve medo que o pisassem. Hipótese B: Acordou sobressaltado e atacou-a por não a ter reconhecido. Hipótese C: Procedeu assim por se sentir ostracizado e querer ir para a cama com elas. Hipótese D: Entendeu que a namorada tinha feito mal à dona e que ia escapar impune. Hipótese E: Ao reparar na entrega da dona, sentiu-se desprezado e reagiu por ciúme. Para a semana adiantaremos a resposta certa!

SOLUÇÕES DA SEMANA ANTERIOR

A resposta certa à rubrica “QUAL SERÁ O MOTIVO?” da semana passada é a Hipótese C: Aquele não é o seu condutor habitual. O seu companheiro de brincadeiras encontra-se dentro do parque infantil e ela quer ir ter com ele. A hipótese mais correcta para a rubrica “UMA APOSTA PARA GANHAR” é a D: Fixava-o nos olhos e desafiava-o como se fosse uma cobaia (figurante), para que ele me atacasse. E dizemos isto, porque não conseguimos imaginar que um cão dum profissional ande à procura de comida no chão, a correr atrás de qualquer bola, a assustar-se facilmente e a perseguir outros cães. O facto do rottweiler vir equipado com um estrangulador de bicos é sintomático e sempre reflecte dificuldades no travamento ou na cessação das acções.

LAIKA: A PIONEIRA ESPACIAL

Celebrou-se no passado dia 3 deste mês, o quinquagésimo sétimo aniversário do lançamento para o espaço do satélite soviético Sputnik II, levando a bordo o primeiro ser vivo a orbitar a terra: a cadela “Laika”, uma mestiça que evidenciava traços de husky ou doutra raça nórdica com terrier, que acabou por morrer meia dúzia de horas depois do lançamento, bem antes do esperado, em circunstâncias não muito claras mas que apontam para o super aquecimento e para o pânico. Mais tarde, um dos responsáveis daquele projecto, declarou-se arrependido por ter consentido no envio do animal, apesar doutros dizerem que gozou duma morte calma. Estávamos em plena corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética e nenhum deles queria ficar para trás, sendo primordial descobrir se os animais conseguiam suportar as condições da microgravidade. Cobaia e pioneira neste projecto, esta humilde cadela mostrou ser possível o envio de astronautas para o espaço, como veio a acontecer sensivelmente 4 anos mais tarde, em 12 de Abril de 1961, quando Yuri Gagarin, um jovem oficial da Força Aérea, então com 28 anos de idade, ao comando da nave espacial Vostok I, foi lançado do Cosmódromo de Baikonur. Com a sorte que a “Laika” não teve, mais por obra e graça da ciência, apesar de vários contratempos, regressou são e ileso, foi declarado herói e tornou-se objecto de muitas honrarias.
Astronauta à força, a “Laika” viu encurtados os seus dias, vivendo apenas três anos, sacrifício que muitos dizem não esconder a cobardia humana. Cinquenta e um anos depois da sua morte, foi-lhe erigido um monumento em Moscovo, inaugurado em 11 de Abril de 2008, perto do antigo Instituto de Medicina Militar, local onde foi estudada, testada e preparada para a sua fatídica missão. O monumento em bronze tem cerca de 2m de altura, representa um segmento de foguetão em forma de mão humana, sobre a qual assenta a silhueta da cadela.
Diz-se que esta rafeira foi recolhida nas ruas de Moscovo, teria dono ou seria abandonada? Ficaria alguma criança a chorar por ela? Não sabemos! Como remate da história fica a ironia de Gagarin, quando após ter dar dado a volta ao planeta, disse: “Ainda hoje não sei se sou o primeiro homem ou o último cão a voar no espaço”. Depois dele, outros astronautas o seguiram, cães felizmente não! À “Laika”, caso fosse possível, teríamos que agradecer-lhe o seu contributo para o progresso da humanidade, acompanhado de um sincero pedido de desculpas.

NOTÍCIAS DE SHEFFIELD

Para o próximo mês, a Joana Melo retornará a Portugal com o João e o Radar (vão suportar vinte e tal horas de barco e mais algumas de carro), onde virão gozar as férias de Natal com a família e não deixarão de nos visitar. O grupo escolar tem sentido a sua falta e eu tenho acusado de sobremaneira a ausência daquele binómio. Vamos dividir com os nossos leitores o seu último email, datado de 8 de Novembro. Dizia ela (a primeira consideração é acerca do Blog: “Obrigada! Já comecei a ler (gosto do novo estilo). Esta semana é fogo de artificio na cidade toda devido a celebrações várias: 1) 5th of November, ou bonfire night, ou Guy Fawkes night; 2) Remembrance Sunday amanhã (em memória de todos os cidadãos que morreram na 1ª Guerra Mundial). Aqui é permitida a venda ao público e qualquer casa tem fogo de artifício, é uma loucura de estrondos por todo o lado (o Radar não lhes liga nenhuma). Beijinhos para todos. Joana”. E mais não disse! A imagem da notícia foi-nos adiantada por ela e temos recebido várias fotos deste trio de lusos radicados em terras de Sua Majestade, onde foram bem acolhidos e integrados. Gostaríamos de ter mais notícias da Sofia Leite, também ela a viver em Inglaterra. 

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim classificado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado 15/06/2011
2º _ O CÃO LOBEIRO: UM SILVESTRE ENTRE NÓS, editado em 26/10/2009
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIFERENTES LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO, editado em 05/06/2010
5º _ O “À FRENTE”: MUITO ÚTIL E FÁCIL DE ENSINAR, editado em 08/11/2014 

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim ordenado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º Ucrânia, 5º Reino Unido, 6º Polónia, 7º França, 8º Alemanha, 9º Angola e 10º Espanha.

sábado, 8 de novembro de 2014

QUAL SERÁ O MOTIVO?

“QUAL SERÁ O MOTIVO?” é uma nova rubrica deste blog, a editar semanalmente sobre o comportamento canino, onde reproduziremos situações quotidianas dos nossos fiéis amigos, nomeadamente as suas reacções para apreciação dos nossos leitores, adiantando-lhes em simultâneo algumas respostas possíveis, ainda que só uma esteja completamente correcta. A resposta certa será editada na edição seguinte, junto com o novo caso. Vamos ao de hoje. Uma cadela miniatura circula num jardim público, onde passa por um parque infantil, atrelada ao seu condutor por uma trela extensível, um cavalheiro a rondar os 35 anos de idade. O animal atrasa-se e persiste em não se mover, permanecendo de orelhas abatidas, a gemer e a olhar para trás, apesar dos convites insistentes para que se mova, por parte de quem a conduz. Porque se comportará a cadelinha assim? Hipótese A: Será porque não está acostumada a sair à rua, estranha a algazarra, sente-se insegura e não confia no seu condutor? Hipótese B: Estará a tentar lograr as intenções do seu condutor, chantageando-o emocionalmente, para que a pegue ao colo e a leve dali para fora? Hipótese C: Aquele não é o seu condutor habitual. O seu companheiro de brincadeiras encontra-se dentro do parque infantil e ela quer ir ter com ele? Hipótese D: Alegre, ao ver as crianças a pular e a brincar, quererá soltar-se e ir para junto delas? Hipótese E: Sem que o dono se aperceba, quererá fazer as necessidades e ser solta? Para a semana adiantaremos a resposta correcta!

UMA APOSTA PARA GANHAR

Numa feira de animais, um treinador profissional, ao deixar o seu rottweiler sentado dentro dum recinto, lança um desafio prá assistência: “ Boa tarde a todos! Hoje vou fazer uma aposta convosco, ofereço 50€ a quem conseguir tirar o meu cão do sítio onde está. Podem chamá-lo à vontade!”. De estrangulador de bicos posto, o rottweiler parece de aço. O que faria você para ganhar a aposta, caso estivesse interessado? Hipótese A: Chamava à atenção do cão e lançava-lhe um hambúrguer na frente, para que o fosse apanhar. Hipótese B: Jogava-lhe uma bola e convidava-o para a sua captura, associando-lhe os comandos de “busca”” e “agarra”. Hipótese C: Colocava-se nas costas do cão e fazia estrondo para que ele se assustasse. Hipótese D: Fixava-o nos olhos e desafiava-o como se fosse uma cobaia (figurante), para que ele o atacasse. Hipótese E: Sem que o tratador se apercebesse, introduzia outro cão dentro do recinto, para convidar o rottweiler a segui-lo. Para a semana adiantaremos a hipótese mais válida para ganhar esta aposta.

QUEM É O TEU PAI?

Em tipos idos, quando o País se amparava pela economia de sobrevivência e os direitos das crianças eram pouco considerados, era comum nas aldeias e vilarejos do interior, ao ver-se uma criança isolada, qualquer um perguntar: “quem é o teu pai?”, ao invés de: “como te chamas?” Hoje essa prática entrou em desuso, primeiro porque as crianças já não podem andar à vontade e depois porque passaram a ser melhor consideradas. Não obstante, ela continua em vigor no universo canino, onde a genealogia mais importa que os indivíduos, como se os seus pergaminhos garantissem a qualidade individual. Pergaminhos por pergaminhos, nunca ninguém os teve como os reis, o que não impediu que alguns gerassem herdeiros imprestáveis ou loucos. Bem sabemos que não está fácil vender cachorros, aliás, nunca o foi!
O facto de um cachorro ser filho de campeões de beleza, o que à partida lhe garantirá as características exteriores da sua raça (morfologia), só por si, não é sinónimo de qualidade e muitas vezes é até um handicap, diante dos malefícios legados pela consanguinidade e pela eugenia negativa, fartos em perpetuar incapacidades de vária ordem. O que é verdade para os cães de beleza é também para os de trabalho, tanto do ponto de vista morfológico quando do funcional, porque não basta cruzar dois cães bons para que o resultado seja excelente. Além disso, dificilmente as ninhadas serão totalmente homogéneas, sobressaindo quase sempre, indivíduos com notórias diferenças entre si, tanto de morfologia como de carácter. Independentemente da raça, importa considerar o indivíduo, decifrar o que ele tem de bom ou de mau, as afecções de que é portador, a sua máquina sensorial, o estado geral dos seus aprumos, a biomecânica e os principais impulsos herdados, factores que diminuirão os riscos duma má escolha. Se não sabe ou não tem como avaliar um cachorro, não vá atrás de balelas, lembre-se que os criadores menos escrupulosos, a despeito da sua idade, experiência e simpatia, tentam primeiro livrar-se dos piores exemplares e que raríssimos são os negócios a contento das duas partes. Se este for o seu caso, antes de se inebriar pelo que vê, não conhece e ninguém quer, faça-se acompanhar por um expert e peça-lhe conselho, porque o barato pode sair caro e comprar caro não garante a qualidade.

O “À FRENTE”: MUITO ÚTIL E FÁCIL DE ENSINAR

Todos os professores são dignos de consideração e apreço, particularmente os dos 1º Ciclo do Ensino Básico, porque todos os anos voltam ao mesmo, experimentam as mesmas dificuldades, procuram os mesmos objectivos e a paciência não lhes pode faltar. Identificamo-nos com eles de sobremaneira, porque não nos sobra outra sorte, considerando os conteúdos de ensino básico que ministramos ano após ano. Assim, vamos hoje retomar o ensino do “à frente”, comando importantíssimo para o equilíbrio do carácter canino, imprescindível à autonomia condicionada proposta pelo adestramento e indispensável para os cães guardiões. Apesar de ser um comando muito fácil de ensinar, deparamo-nos todos os anos com binómios que teimam em adquiri-lo, como se ele proviesse duma resposta artificial e por causa disso, fosse de difícil assimilação para os cães, o que não corresponde à verdade.
Contrariamente ao que julga, este comando pode ser instalado em casa e tirado a partir dos passeios diários, mediante subsídios anímicos que se aproveitam de circunstâncias rotineiras, tornando-o desejado e apreensível para os cães, valendo-nos das situações quotidianas que antevêem a experiência feliz. A maneira mais fácil de o obter é associá-lo aos desejos e apelos dos animais. Quando o cão nos pede para sair ou “entende” que é chegada a hora de ir à rua, podemos aproveitar-nos disso e adicionar-lhe o comando, absorção quase automática pelo contributo da sua memória afectiva. Quem tem um corredor em casa, pode valer-se dele para o mesmo efeito, especialmente se no seu final, houver uma recompensa ou se encontrar um brinquedo ou pessoa do seu agrado. Também é possível treiná-lo no exterior, nas passagens estreitas ou nos corredores direccionais quer eles sejam naturais ou artificiais, assim como nos momentos em que intenta ir ter com outros cachorros ou correr atrás do seu brinquedo, dentro e fora de água.
A que se deverá a resistência canina ao comando? São múltiplas as causas dessa resistência e nem todas são da responsabilidade exclusiva dos cães. Podemos até dizer que, considerando a sua selecção e manuseamento, a resistência canina é essencialmente um acto reflexo. Todos sabemos que os cães medrosos resistem ao comando, apesar de necessitarem dele para se reequilibrarem, que muitos donos desistem perante a dificuldade e que a liderança que patenteiam, por ausência de ânimo e estímulo apropriados, leva os seus companheiros à suspeição, por temerem a correcção, desconfiarem do incentivo ou se haverem tornado manhosos. Independentemente da origem do medo, se genética ou ambiental, importa ultrapassá-lo e o “à frente” presta-se para isso.
É evidente que primeiro há que ensinar o “junto” e só depois o “à frente”. Normalmente ensinamos este comando direccional a partir dos 4 meses, para que a compreensão da hierarquia concorra a nosso favor, considerando os indivíduos e o particular da raça que pertencem. Primeiro fazemo-lo à trela e depois em liberdade, uma vez alcançado esse modo de condução. Temos por norma associar ao comando verbal um gestual, para garantir o desempenho canino à distância, onde a voz não alcança, compromete ou é contraproducente. Na condução à trela, o gesto é indicado pelo braço esquerdo estendido do condutor, que transfere a trela para a mão direita, garantindo assim o movimento linear pretendido. Perante a cessação não ordenada desse movimento, os condutores deverão reagrupar os cães no “junto” e impulsioná-los de novo, quantas vezes for necessário, tendo cuidado de pegar na trela pelo remate do cabedal que antecede o fecho (mosquetão). O “à frente” bem conseguido induz ao adiantamento dos cães no comprimento total da trela. Quando feito em liberdade, a distância entre o dono e o cão poderá e deverá ser maior mas nunca superior ao retorno pronto e imediato do animal.
 O “à frente” é um comando direccional que se usa nas passagens estreitas, nos percursos íngremes como subsídio de tracção, nas ruas mal iluminadas e mal frequentadas, onde a integridade dos donos possa estar em causa, e em todas as situações em que “junto” se torna impraticável ou lesivo, tanto para o binómio como para qualquer um dos seus membros isoladamente. Presta-se ainda com preparação para os cães de tracção e torna-se indispensável, como já dissemos, prá recuperação dos cães medrosos. Na disciplina de guarda ele estabelece a ligação natural entre o “junto” e o “ronda”, possibilitando o norteamento canino nas acções defensivas e ofensivas à distância. Diante destas vantagens, este comando direccional deverá ser continuamente recapitulado e melhorado, visando a autonomia que garante a complementaridade canina nas mais variadas disciplinas cinotécnicas.

EU POSSO ENSINAR-LHES A TÉCNICA MAS NÃO LHES POSSO DAR A ALMA!

O homem que me iniciou na cinotecnia era um indivíduo perfeccionista, agarrado aos procedimentos, aparentemente distante dos afectos, mais próximo dos cães do que das pessoas, por norma silencioso e isolado no seu mundo, que detestava ser interpelado e que entrava no nosso já desagradado, como se não tivéssemos qualquer valor. Exceptuando os momentos em que se encontrava visivelmente embriagado, que eram planeados e tinham horas e dia marcados, nunca olhava directamente para os seus instruendos, somente inclinava a cabeça para o lado de quem lhe dirigia a palavra, refugiado na sua altura, trono que não queria ver conspurcado. Passados tantos anos, ao relembrar este bávaro e analisando a fundo o seu trabalho, não tenho dúvidas: fui iniciado por um técnico e não por um artista, o que não esconde o muito que aprendi e o quanto lhe devo. Ao ensinar-me a técnica, ele deu-me uma ferramenta, e por ironia do destino, aprendi a manejá-la como ele nunca ousou, ao perscrutar os rituais da comunicação interespécies e ao transportar os seus protocolos para outras formas de entendimento.
O adestramento canino é uma prática exigente e ao mesmo tempo libertadora, uma relação íntima entre indivíduos de espécies diferentes, incondicional para uns e condicionada para outros, que se espraia e fortalece com o tempo, que exige rara disponibilidade e que se baseia na coabitação, na observação mútua, nos afectos, nos ritos, na cumplicidade, na divisão do trabalho e na recompensa, não desprezando os requisitos técnico-científicos que lhe servem de base. Homens e cães são indivíduos e exigem ser tratados como tal. Do conhecimento recíproco, que gera o entendimento necessário, nasce a união binomial, que se deseja feliz, única, inviolável, profícua e em constante progresso. O carácter exigente e ao mesmo tempo libertador do adestramento pode sintetizar-se nisto: o homem desce ao mundo do cão para que ele dê entrada no seu. Esse mergulho no mundo canino irá exigir o desnudo dos homens, que empaticamente descem à mesma condição, para melhor compreenderem e serem compreendidos, condição tantas vezes olvidada em função do gozo próprio. Convém não esquecer que um cão, antes de ser terapeuta, carece de terapia. Esta aproximação, que rasa a transfiguração, transporta os homens para a infância, ocasião em que a sua comunicação foi mais sintética e simples, liberta de sofismas e menos encriptada, sem contudo perderem a maturidade, a clarividência e as razões que os levaram até ali, vantagens que lhes permitirão a liderança.
Erram os que julgam ser o método, o primeiro responsável pelo sucesso ou insucesso do adestramento, porque até hoje não houve nenhum totalmente eficaz, nem tão pouco um que fosse completamento falho, como se os cães fossem todos iguais, só agora se treinassem e o aproveitamento escolar fosse hoje absoluto. Os métodos são feitos para os homens e são súmulas de procedimentos a aplicar aos cães, de acordo com o momento histórico em que foram feitos e segundo as finalidades esperadas desses animais, o que não impedirá, ao compará-los, de reconhecermos que uns são mais coercivos ou persuasivos do que outros, menos abusivos ou mais adequados. Mais do que nos métodos, respeitando-se os mais elementares princípios pedagógicos, a verdadeira revolução no ensino canino acontece pela adequação dos donos, também eles carenciados de serem adestrados (convenientemente preparados), porque cresceram à sombra do especicismo, perderam há muito o contacto com os animais, não sabem como comunicar-lhes e continuam, ainda que por despreparo e ignorância, a aceitar o seu domínio, a desrespeitá-los, a sobrevalorizá-los ou a subaproveitá-los.
A maior dificuldade na adequação dos donos reside na apropriação dos métodos e na sua novidade, já que alguns pouco ou nada se coadunam com o seu sentir, experiência e modo de vida, obrigando-os a posturas que lhes causam algum embaraço, incómodo e por vezes até transtorno. Por causa disto, alguns métodos parecem talhados para determinadas pessoas, por se encontrarem mais próximos dos seus afectos e lhes serem de fácil adopção, ainda que eventualmente, abandonem as suas expectativas iniciais e subtraiam objectivos em prol da sua auto-estima. Lamentavelmente, nem todos conseguimos contrabalançar o que queremos com as expectativas dos cães e quando isso acontece, a resistência canina torna-se um facto. Poder-se-ão, aqui e ali, combinar diferentes métodos e técnicas? Claro que sim! Perante o particular de homens e cães na procura de soluções, para que uns ganhem ânimo e os outros melhor respondam, desde que a liderança não seja posta em causa e a manha não se instale nos animais, o que não é raro acontecer pela confusão da dualidade de processos.
A adequação dos donos enquanto condutores, apesar de obrigatória e prioritária, é a tarefa mais árdua e difícil para os adestradores, trabalho tantas vezes inglório face à indisponibilidade, parco envolvimento, escassa ambição e pouca mestria dos seus educandos, não raramente traídos por falsas percepções, limitados por herança e vítimas do seu trajecto. Escusado será dizer que quem ensina está cá para isso e há que valer a todos. Apesar dos retrocessos típicos de qualquer aprendizado, vamos conseguindo erigir binómios pela transmissão da técnica, muito embora o adestramento seja também uma arte, uma simbiose de movimentos e figuras fornecida pela comunicação interespécies, que ao fazer uso de diferentes linguagens, transporta homens e cães para momentos únicos e de rara beleza, mediante rituais comuns que ao atingirem a sublimidade, parecem não ter explicação imediata.
Fartos do trabalho oficinal, sistemático e enfadonho, sempre pedimos aos nossos alunos mais dedicados que ousem ir mais além, que melhor estudem os seus cães e coabitem com eles, que se abstraiam do circundante e em silêncio e sem atropelos, gozem e usufruam da sua companhia, olhando-os atentamente e afagando-os, desnudo mímico que os induzirá à transcendência operativa. Um cão não pode ser só trabalho e sabemos quanto é falha a disciplina diante da afeição. Sem que muita gente se aperceba, entretida que anda na sua satisfação ou obcecada pelas suas expectativas, o adestramento é amor e só ele conseguirá transformar os revezes e incómodos em práticas de mútuo prazer. Namorar os cães é conservá-los para sempre ao nosso lado, porque gostam e necessitam de ser aprovados. Não se trata aqui de adorá-los, mas de nos darmos a conhecer e melhor os compreendermos. Contam-se pelos dedos de uma mão, os que aceitaram o nosso convite e todos eles deixaram saudade. Perante o pouco empenho generalizado, há momentos em que nos apetece abandonar a actividade, sequestrar os cães e remar para outro lado.
A transição da técnica para a arte no adestramento é uma disposição que aproveita a humildade humana e o manancial canino, um despertar e receber de sentimentos, tantas vezes escondidos ou adormecidos, apesar de necessários para a nossa felicidade, para o bem-estar dos cães e para a exaltação de ambos. Eu posso saber muito sobre comportamento animal, mas ele será inválido se não o conseguir interpretar, eu posso ensinar a técnica e adiantar soluções, mas não conseguirei ensinar alguém a amar. Se a alma é imortal e cada um tem a sua, apesar do meu esforço, eu não posso dar a minha, por ser pessoal e intransmissível. Contudo, continuo a tentar influenciar outros, para que experimentem, como eu tenho experimentado, o retorno feliz às coisas simples da vida. Bem hajam os cães! 

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos manifestou a seguinte preferência:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ MEIO POR MEIO E CALDO ENTORNADO!, editado em 02/11/2014
3º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013
4º _ GROENENDAEL: TERNURA E VALENTIA, editado em 02/11/2014
5º _ QUE NEM BARATA TONTA!, editado em 02/11/2014 

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país deu o seguinte resultado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Estados Unidos, 4º França, 5º Alemanha 6º Polónia, 7º Irlanda, 8º México, 9º Holanda e 10º Reino Unido.

domingo, 2 de novembro de 2014

QUE NEM BARATA TONTA!

Da boca dum ex-combatente da guerra colonial, inconformado com a postura e expectativas da juventude actual, embevecida pelo mundo virtual, ouvimos o seguinte desabafo em tom profético: “ Qualquer dia os chineses passam por aqui e apanham-nos à mão, com uma chapada varrerão três e todos se agacharão como galinhas à passagem do galo!”. Primeiro rimo-nos ao ouvir tal sentença, por ser caricata, espontânea, incomum e provir de alguém pouco letrado, depois não lhe achámos graça nenhuma e ficámos a matutar nela, porque grande é a inércia que abunda nas nossas hostes mais jovens, notoriamente menos tenazes, mais indecisas e tardias em reagir, quando comparadas com as que tiveram na sua origem.
Exemplo do que acabámos de dizer, e não estamos com isto a apelar despudoradamente à violência, foi o sucedido com uma proprietária duma cachorra num jardim, pessoa exercitada e filiada numa modalidade desportiva, que ao ver dois cães adultos, grandes e furiosos em direcção à sua companheira, para além de permanecer queda e muda, ainda imobilizou a cadelinha, ao ver-se tomada de surpresa e sem saber o que fazer. Como resultado do ocorrido, a cachorra acabou por ser mordida e saiu dali esburacada e a coxear. Do incidente não resultaram maiores danos porque a dona, ao ver o animal ferido, jogou-o para dentro de um veículo de caixa aberta e um arrumador de carros acabou por pôr os agressores em fuga. Resta dizer que a cachorra se encontrava atrelada, que a dona temeu pela sua própria integridade e o proprietário daqueles cães nunca apareceu.
Este episódio verídico levanta várias questões relativas ao ensino de donos e cães, ligados à preparação específica para estes casos e da inteira responsabilidade das escolas caninas, que têm como dever salvaguardar os seus binómios e prepará-los para os problemas quotidianos, tanto para os mais comuns como para os extraordinários, adiantando-lhes procedimentos e rotinas válidos para esse fim, já que não é garantido que todos os proprietários caninos não temam os cães de outrem ou algumas raças em particular. Conscientes dessa dificuldade e cientes que o pânico a ninguém serve, sempre temos insistido na “Troca de Condutores”, estratégia escolar que os põe todos a conduzir a totalidade dos cães em classe, os seus e os dos outros, para que a experiência leve à familiarização e o medo seja finalmente vencido. E nisto temos sido bem sucedidos!
Preocupados com a defesa dos binómios, nas situações em que ela se torna imperativa, que afortunadamente são raras, depois da familiarização alcançada, temos por hábito convidar todos os alunos para a manga ou fato de ataque, independentemente do seu sexo ou idade, para que conheçam os ataques naturais dos principais grupos somáticos caninos, tendo o cuidado de escolher-lhes opositores que lhes garantam o sucesso, para que aprendam a desembaraçar-se, a defender-se e a ripostar, para futuramente neutralizarem os ataques de que venham a ser alvo. Convém relembrar que não estamos cá para troçar dos nossos filiados ou lucrar com as suas menos valias, mas para os capacitar e auxiliar, até porque, como se depreende, não são as aselhices dos alunos que justificam a liderança escolar mas a validade das soluções por ela apontadas.
Mas como nem todos têm cães agressivos e capazes de se defenderem, o que muito nos apraz pela diminuição dos disparates e procura doutras utilidades caninas, caberá aos donos defendê-los nas circunstâncias em que a sua integridade seja posta em causa. Nestes casos, não lhes restando outra opção, até porque a obediência é a base de todas as disciplinas cinotécnicas, o que muita gente parece ter esquecido, omitido, adulterado ou desprezado, os donos deverão imobilizar os seus cães e estabelecer à sua volta ou perímetro de segurança, colocando-se na sua frente para melhor os protegerem, estabelecendo assim uma barreira entre eles e os seus possíveis opositores, diante de surpresa e na impossibilidade de rechaçarem atempadamente aqueles ataques. Quando os cães são cachorros, de pequeno porte, toys ou miniatura, a melhor opção é pegá-los ao colo, preferencialmente com o braço esquerdo, libertando o direito e as pernas para a protecção de ambos. Esta seria a opção certa para o caso que atrás descrevemos!
Há falta de melhor, a trela é uma arma e já o sabemos há muito. Por isso fazemo-las agora com 2m de comprido, de entrelaçado marítimo e com um diâmetro de 14mm (as melhores deverão ter dinema no seu interior), tendo o cuidado de as rematar com um mosquetão de bronze cromado, com um elo de prisão de 4cm e um comprimento de 10cm, o que aumenta substancialmente o seu peso, poder de impacto e dissuasão. Quando os nervos nos traem e a coragem nos falta, podemos valer-nos da trela, que nunca deverá ser usada como arma de arremesso, porque não é um “boomerang” e depois de lançada de nada nos valerá face ao possível contra-ataque. Para quem tem sangue frio e rara precisão, ela poderá ser usada como martelo, espada ou chicote, caso contrário deverá ser usada em movimento circular e rápido, o que garantirá aos binómios um diâmetro de segurança com sensivelmente 3.5m. Dependendo da ferocidade, tipo de ataque e número dos cães agressores, o movimento circular poderá ser vertical ou oblíquo, apontando-se o fecho aos braços dos cães menos perigosos e à cabeça dos mais furiosos ou passíveis de causar maior dolo. Em qualquer dos casos recuar está proibido!
Visando ainda a protecção dos donos face ao ataque de cães alheios, quando estes são proprietários de cães guardiões, costumamos treinar a sua defesa quando se encontram na manga como figurantes ou cobaias, soltando os seus companheiros para que cessem o ataque do cão agressor. É óbvio que tal só deverá ser feito com cães que juntam à prontidão dos ataques idêntica cessação. A par disto, para os condutores mais hábeis e carenciados de tais subsídios, ensinamos diferentes técnicas para a imobilização dos cães. A nossa preocupação com a protecção dos binómios tem sido bem sucedida e ao longo dos anos nunca tivemos notícia de algum ter sido ferido ou eliminado, mais, alguns binómios nossos têm prestado socorro a muitos, vantagens que não escondem a nossa preocupação com a formação dos condutores. Tradicionalmente uma escola de valentes, não de tontos ou heróis, a Acendura Brava orgulha-se das suas tradições, mantendo-se irredutível na defesa de donos e cães, o que nos leva ao agradecimento às diferentes gerações que connosco dividiram os mesmos ideais.

O GROENENDAEL: TERNURA E VALENTIA

Na peregrinação que temos empreendido pelo mundo canino, caminhada exausta mas ao mesmo tempo revigorante, o Groenendael sempre nos vem à memória, por ser único e tão diferente dos restantes Pastores Belgas, um asceta que junta à ternura a valentia, um companheiro muitas vezes preterido e mal empregue, porque é humilde, rústico e dedicado. Haverá uma idade para se ter um Groenendael? Sim há! Muito embora se preste tanto para crianças como para gente madura, porque é cúmplice e activo. Contudo, será melhor compreendido, apreciado e aproveitado pelos que o tempo depurou, gente que aprendeu a amar e a conhecer-se, que não se prende a futilidades e sabe o que procura. E dizemos isto porque é um cão sensível, naturalmente preocupado com o dono e ávido em o satisfazer. Se a comunicação telepática entre homens e cães for possível, o que julgamos já ter visto, ela será facilitada pelo contributo dum Groenendael.
Quando comparado com os seus irmãos de raça, ele é mais seguro e menos explosivo que o Malinois, mais previsível e menos instintivo que o Tervuren e mais solícito e menos apático que o Laekenois. Podemos ainda compará-lo com o Pastor Alemão, para melhor o compreender e dar conhecer, na possibilidade, para muitos mais do que certa e que aceitamos, das duas raças terem uma origem próxima, dividida ou comum. Como as diferenças morfológicas são evidentes, não as consideraremos aqui, apesar de muitos ignorarem que existem pastores alemães negros e os tratarem ainda hoje como pastores belgas, o que não deixa de ser uma afronta para os criadores duns e doutros. Ambos aprendem sem dificuldade e rapidamente, mas o Groenendael exige mais delicadeza e mais evolui pela afectividade do que pela mecanicidade das acções, acusa mais o castigo e amua facilmente, porque é mais sensível e menos autónomo que o cão alemão, o que imediatamente torna indesejável qualquer dono colérico, bipolar ou violento, assim como métodos e pedagogias baseados na coerção. Como o Groenendael é mais confiado do que bruto, a privação da alegria transformá-lo-á, consoante os casos, num contestatário, num arruaceiro, num autómato ou num zombie de quatro patas.
Trabalhar um Groenendael é uma arte, um namoro que induzirá a uma paixão permanente, baseado em ritos que não dispensam o estudo recíproco, a tolerância, a paciência e a entrega, aproveitando-se assim a sua vivacidade, energia, disponibilidade e atenção, que doutro modo poderão, como tantas vezes já vimos, levá-lo à instabilidade, ao medo ou à agressividade desmedida, denunciados pela sua postura e expressões mímicas. No que à aptidão para a guarda diz respeito, ao contrário de muitos pastores alemães, e cada vez são mais, que inicialmente não dispensam a provocação, o dolo ou a fuga do agressor, porque é observador e zeloso do dono, a sua investidura é quase automática e dispensa maiores delongas ou preparos. No entanto, não deverá constituir-se numa arma pronta a disparar e sem travamento, o que normalmente acontece por incúria dos seus proprietários e treinadores, que desconsiderando o seu particular individual, estabelecem a confusão que instala o disparate.
Verdade seja dita, a sua versatilidade é inferior à encontrada no Pastor Alemão e resiste com mais facilidade à novidade, porque é mais desconfiado e cedo procura o status que lhe garante a aprovação. Diante desta dificuldade, se o seu Groenendael não se destina a qualquer tipo de competição, durante os seus ciclos infantis e juvenis, o treino a ministrar-lhe deverá recair sobre a obediência dinâmica em detrimento da estática, para que o desenvolvimento físico seja acompanhado pelo cognitivo, melhorando desse modo a sua capacidade de aprendizagem, já que a sua plasticidade é menor devido à precocidade. Se nessa altura insistirmos ou privilegiarmos os comandos de travamento, o cão perderá estímulo e motivação, assumirá o travamento como modo de vida, desprezará boa parte do seu manancial genético, tornar-se-á incaracterístico e perderá qualidade de vida, porque nasceu activo, pleno de energia, vigilante e veloz. Há que estabelecer aqui o são equilíbrio entre as expectativas dos donos e as necessidades biológicas dos cães.
Naturalmente bem aprumado, portador de uma biomecânica invejável e dotado de pouco peso para o seu porte (- 22% para um Pastor Alemão com a mesma altura), o Groenendael é um atleta de eleição, não apresentando quaisquer restrições físicas após a consolidação do seu esqueleto. Ele é um dos raros corredores caninos que ostenta pé-de-gato, o que lhe garante sensivelmente a mesma celeridade em diferentes tipos de piso. Mas como nem tudo são rosas, importa salvaguardá-lo dos excessos de valentia e alertá-lo para os perigos, porque uma vez embalado, “vai a todas” e desconsidera o risco. A título de curiosidade adianta-se que, ocasionalmente e agora com muito menos frequência, do beneficiamento entre dois Groenendael podem surgir exemplares totalmente brancos, facto que não causa estranheza a quem já criou pastores alemães.
Terminamos dizendo que Groenendael é fiel e incorruptível como poucos, um companheiro que derrama e exige ternura, um valente que conserva a humildade e que sempre se prontifica para o que der e vier. Saber apreciá-lo é um dom, comunicar com ele um prazer e conduzi-lo é alcançar a fusão de sentimentos. O seu nome significa “pequeno vale negro” em Flamengo, numa alusão a proximidade da floresta por onde proliferou. Foi a primeira variedade dos pastores belgas a ser reconhecida e foi o mais popular deles até ao advento do Malinois. Quem tem amor para dar, tem muito para receber de um Groenendael. Triste é ter um deles e não se aperceber disso!

MEIO POR MEIO E CALDO ENTORNADO!

Vamos lá falar de Terriers, ainda que sucintamente, dos grandes e dos pequenos, do seu particular e legado genético, originalmente caçadores e cães para a matança, de acordo com os propósitos dos seus criadores-fundadores. O termo “terrier”, que se julga oriundo do francês e advindo do substantivo latino “terra”, aplica-se a um grupo de raças caninas, primeiro desenvolvidas nas Ilhas Britânicas, caçadoras, corajosas, resistentes, com personalidade vincada, energéticas e de natureza mais ou menos agressiva, geralmente constituídas por pequenos animais destinados a caçar ratos, martas, coelhos, lontras e raposas dentro das suas tocas ou covis (no subsolo). O maior dos terriers é o Terrier Russo Negro de quem falámos na edição anterior, descendente directo do Airedale Terrier, então o maior cão deste grupo. O mais pequeno de todos é o Yorkshire Terrier, de origem escocesa e que veio a proliferar em Inglaterra graças à Revolução Industrial. Consta-se que o tamanho dos primeiros terriers se encontra ligado a uma lei inglesa, lavrada no Sec XI, que não permitia aos servos e aos trabalhadores manterem cães com uma altura superior a 7 polegadas (17. 78cm), já que os servos não tinham direito a caçar para a sua subsistência. A conferência da altura dos cães era feita pelos guardas das florestas reais, pela passagem de todos eles por um aro metálico com a medida atrás mencionada. De qualquer modo, a selecção propriamente dita dos terriers, virá só a acontecer no Sec.XIX.
A exemplo do Yorkshire, a maioria dos terriers actuais sofreu profundas alterações para se transformarem em animais de companhia, como são os casos do Bull Terrier, do Cairn Terrier e do West Higland White Terrier, entre outros. O Terrier Alemão de caça (Deutscher Jagdterrier), resultante do cruzamento com cães ingleses de toca e que é um regresso ao ancestral terrier inglês de pêlo duro, mantém inalteráveis as características originais dos terriers, ao ponto de muitos o considerarem malvado, por ser extremamente combativo,  impetuoso e ser notoriamente agressivo. Como se depreende, ele não pode se entendido como um animal de companhia. Essencialmente caçador, apesar das suas reduzidas dimensões (40cm e de 9 a 10Kg), ele enfrenta com a mesma disposição e sucesso, tanto animais de toca como javalis, gamos e raposas. Segundo alguns especialistas, também o Dobermann recebeu infusão de sangue terrier, particularmente dum muito comum na Alemanha do Sec.XIX: o Terrier Preto-fogo, que ao afiná-lo, libertou-o da morfologia tosca que tinha até então.
 É chegada a altura de falarmos de um terrier muito especial: o Kerry Blue Terrier, uma raça originária da Irlanda e ali reconhecida desde 1922. Apesar de maioritariamente usada para caçar ratos e à toca, ela prestou-se também ao pastoreio de gado bovino e ovino, fornecendo ainda guardiões de pessoas e bens. Hoje o Kerry Blue transformou-se num animal de exposição e companhia, apesar de conservar quase intactas as características visíveis em todos os terriers, o que infelizmente tem votado alguns dos seus exemplares às arenas de luta, animais decididamente em más mãos, a despeito da sua altura e envergadura (de 44 a 50cm e de 15 a 18kg). O que torna este cão especial, e entre os terriers é caso único, é o facto de nascer negro e assim permanecer até aos 2 anos de idade, altura em que muda de cor e passa a ser cinzento (azul).
Deixemos a Irlanda e voltemo-nos para Inglaterra. Pondo de parte as curiosidades, é hora de nos debruçarmos sobre o “caldo entornado”, da infusão de sangue terrier nalgumas raças caninas actuais, com propósitos nem sempre louváveis e que têm contribuído de sobremaneira para o holocausto dos cães, ao rotulá-los de perigosos e sujeitá-los à morte. Proibido o “Bull Baiting” pelo Parlamento Inglês no ano de 1835, que ao tempo era considerado um desporto e que consistia no combate entre toiros e bulldogs, os criadores caninos que apreciavam a violência daqueles combates sangrentos, apostaram na luta de cães, valendo-se primeiro do bulldog e misturando-lhe depois sangue terrier, alcançaram os “Half and Half” (meio por meio) e os Pit Dogs ou Bull and Terriers, cães de pequeno porte, lutadores até à morte, que juntavam à elevada força física maior agilidade, sendo portadores de grande bravura, maior tolerância à dor e grande afeição pelos seus proprietários. Estes cães foram ainda utilizados para matar ratos, cujas pragas eram comuns naquela época. Posteriormente chegaram aos Estados Unidos, onde executaram funções de guarda e pastoreio, para além de serem usados como cães de briga e de terem sido solicitados para a caça grossa. Em 1898, os cães do tipo físico “Bull and Terrier” ou “Half and Half”, foram ali reconhecidos pelo UKC e designados como “American Pit Bull Terriers”. Com o decorrer do tempo, os “Bull Terriers” diferenciaram-se e deram origem ao “Staffordshire Bull Terrier”, ao “Bull Terrier”, ao Irish Staffordshire Bull Terrier” e ao “Pit Bull”, não alçando este último um padrão de estética, sendo apenas diferenciado pelo seu temperamento.
Diante deste panorama, é preciso não ter vergonha na cara ou ter a memória curta, quando os nossos aliados da “Velha Albion” nos acusam de crueldade por causa das touradas. E como as conversas são como as cerejas, uma puxa pela outra, vale a pena falar do “Airedale Terrier”, uma raça oriunda do Reino Unido, a maior dos terriers até ter contribuído para o aparecimento do “Terrier Negro Russo”, que devido ao seu tamanho, se tornou imprópria para caçar no subsolo, merecendo o “Airedale” o título de “Rei dos Terriers”. Criada a partir dos cruzamentos entre o “Old English Broken-Haired” e o “Cão de Lontra”, a raça foi primeiro designada por de “Water Side Terrier”. Não obstante ser teimoso, de difícil sociabilização e dado a brigas, características que o tornaram pouco popular como cão de companhia, o “Airedale” tem vindo a ser usado como cão de guarda e de polícia, graças à sua versatilidade e coragem, altura e envergadura, medindo entre os 58 e os 61cm e podendo chegar aos 23kg de peso. Agora todos podemos compreender porque razão os russos optaram pela cor negra e o misturaram com  o “Terra Nova” e os “Cães de Água Moscovitas” para a obtenção do seu super-soldado canino -  o “Terrier Negro Russo”. Não fora assim, como o controlariam?
Subtraindo as variedades manifestamente mais violentas, para o bem geral e desgosto de uns quantos, os terriers têm vindo a ser amansados gradualmente e seleccionados pelos mais dóceis, para que alcancem o estatuto de animais de companhia e com isso tenham mais procura. Não obstante, um terrier, por mais pequeno que seja, quando levado da breca, pode fazer muitos estragos ou provocar grandes desacatos, graças à excepção ou a algum resquício atávico. E uma coisa é certa: quanto mais terrier, mais difícil de treinar do modo convencional, já que é mais rico em instintos do que em personalidade. Contudo, ele pode ser um melhorador de raças e tem vindo a ser usado para isso, quando associado a cães manifestamente territoriais, com melhor ligação aos donos e com superior capacidade de aprendizagem.

RANKING SEMANAL DOS TEXTOS MAIS LIDOS

O Ranking semanal dos textos mais lidos ficou assim ordenado:
1º _ PASTOR ALEMÃO X MALINOIS: VANTAGENS E DESVANTAGENS, editado em 15/06/2011
2º _ ESTOU CONVENCIDO QUE ELES ATREVESSARÃO COMIGO, editado em 26/10/2014
3º _ ASSIMILAR O “JUNTO” PARA VENCER A FIXAÇÃO, editado em 26/10/2014
4º _ EU QUERIA UM PASTOR ALEMÃO, DE PREFERÊNCIA TODO PRETO, editado em 05/06/2010
5º _ A CURVA DE CRESCIMENTO DAS DIVERSAS LINHAS DO PASTOR ALEMÃO, editado em 29/08/2013

TOP 10 SEMANAL DE LEITORES POR PAÍS

O TOP 10 semanal de leitores por país ficou assim escalonado:
1º Portugal, 2º Brasil, 3º Alemanha, 4º Estados Unidos, 5º Angola, 6º França, 7º Holanda, 8º Espanha, 9º Hungria e 10º Suíça.